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quarta-feira, 20 de maio de 2026

hélder moura - O Socialismo segundo Albert Einstein

.hélder moura 20.05.26

 

É sempre recompensador einteressante tentar apercebermo-nos como as inteligências mais reputadas articulam os seus pensamentos. Infelizmente, grande parte dos seus escritos são demasiado técnicos ou especializados, estampados num cânone de si limitativo, o que dificulta essa desejada leitura.

Mas nem sempre é esse o caso, como por exemplo neste artigo de Albert Einstein, por ele intitulado “Why Socialism?”, publicado em maio de 1949 na primeira edição da Monthly Review, que aqui deixo na sua tradução integral:

 

 

Será aconselhável que alguém sem conhecimentos em questões económicas e sociais expresse opiniões sobre o socialismo? Acredito que sim, por uma série de razões.

 

Consideremos em primeiro lugar a questão do ponto de vista do conhecimento científico. Pode parecer que não existem diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas de ambos os campos procuram descobrir leis de aceitabilidade geral para um grupo circunscrito de fenómenos, de modo a tornar a interligação destes fenómenos o mais compreensível possível. Mas, na realidade, tais diferenças metodológicas existem. A descoberta de leis gerais no domínio da economia é dificultada pelo facto de os fenómenos económicos observados serem frequentemente afetados por muitos fatores que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência acumulada desde o início do chamado período civilizado da história da humanidade foi — como é sabido — largamente influenciada e limitada por causas que não são, de modo algum, exclusivamente económicas. Por exemplo, a maioria dos grandes estados da história deve a sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Monopolizaram a propriedade da terra e nomearam um sacerdócio entre as suas próprias fileiras. Os sacerdotes, no controlo da educação, transformaram a divisão de classes da sociedade numa instituição permanente e criaram um sistema de valores pelo qual o povo passou a ser guiado, em grande parte inconscientemente, no seu comportamento social.

 

Mas a tradição histórica é, por assim dizer, de ontem; em momento algum superamos de facto aquilo a que Thorstein Veblen chamou a “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os factos económicos observáveis ​​pertencem a esta fase e mesmo as leis que deles podemos derivar não são aplicáveis ​​a outras fases. Como o verdadeiro propósito do socialismo é precisamente superar e avançar para além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência económica no seu estado atual pouco pode esclarecer sobre a sociedade socialista do futuro.

 

Em segundo lugar, o socialismo está direcionado para um fim socio ético. A ciência, no entanto, não pode criar fins e, muito menos, incuti-los nos seres humanos; A ciência, no máximo, pode fornecer os meios para atingir determinados fins. Mas os próprios fins são concebidos por personalidades com elevados ideais éticos e — se esses fins não nascerem mortos, mas antes vitais e vigorosos — são adotados e levados avante por muitos seres humanos que, quase inconscientemente, determinam a lenta evolução da sociedade.

Por estas razões, devemos ter cuidado para não sobrestimar a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos presumir que apenas os especialistas têm o direito de se exprimir sobre questões que afetam a organização da sociedade.

 

Inúmeras vozes têm vindo a afirmar desde há algum tempo que a sociedade humana atravessa uma crise, que a sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico de tal situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo hostis em relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o que quero dizer, permitam-me que registe aqui uma experiência pessoal. Recentemente, conversei com um homem inteligente e bem-intencionado sobre a ameaça de uma outra guerra, que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e observei que só uma organização supranacional ofereceria proteção contra este perigo. Perante isto, o meu visitante, com muita calma e frieza, disse-me: “Porque se opõe tão veementemente ao desaparecimento da raça humana?”

 

Estou certo de que, há pouco mais de um século, ninguém teria feito uma afirmação deste tipo com tanta leviandade. É a declaração de um homem que se esforçou em vão para alcançar o equilíbrio interior e que, em certa medida, perdeu a esperança de o obter. É a expressão de uma dolorosa solidão e isolamento que afligem tantas pessoas nos dias de hoje. Qual a causa? Existe uma saída?

 

É fácil levantar tais questões, mas difícil respondê-las com qualquer grau de certeza. Devo, contudo, tentar da melhor maneira possível, embora esteja bem ciente de que os nossos sentimentos e aspirações são frequentemente contraditórios e obscuros, e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.

 

O homem é, ao mesmo tempo, um ser solitário e um ser social. Como ser solitário, procura proteger a sua própria existência e a daqueles que lhe são mais próximos, satisfazer os seus desejos pessoais e desenvolver as suas capacidades inatas. Como ser social, procura obter o reconhecimento e o afeto dos seus semelhantes, partilhar os seus prazeres, confortá-los nas suas tristezas e melhorar as suas condições de vida. Só a existência destas aspirações variadas e frequentemente conflituantes explica o carácter especial de um homem, e a sua combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode alcançar um equilíbrio interior e contribuir para o bem-estar da sociedade. É bem possível que a força relativa destas duas aspirações seja, em grande parte, determinada pela hereditariedade. Mas a personalidade que finalmente emerge é amplamente formada pelo meio em que o homem se encontra durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela tradição dessa sociedade e pela sua avaliação de determinados tipos de comportamento. O conceito abstrato de “sociedade” significa, para o ser humano individual, a soma total das suas relações diretas e indiretas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas das gerações anteriores. O indivíduo é capaz de pensar, sentir, lutar e trabalhar por si próprio; mas depende tanto da sociedade — na sua existência física, intelectual e emocional — que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora da estrutura da sociedade. É a “sociedade” que fornece ao homem alimento, vestuário, habitação, instrumentos de trabalho, linguagem, formas de pensamento e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida torna-se possível graças ao trabalho e às realizações de milhões de pessoas, do passado e do presente, que estão todas escondidas por detrás da pequena palavra “sociedade”.

 

É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um facto da natureza que não pode ser abolido — tal como no caso das formigas e das abelhas. Contudo, enquanto todo o processo vital das formigas e das abelhas é determinado, até o menor detalhe, por instintos hereditários rígidos, o padrão social e as inter-relações dos seres humanos são muito variáveis ​​e suscetíveis a mudanças. A memória, a capacidade de fazer novas combinações e o dom da comunicação oral possibilitaram desenvolvimentos entre os seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Tais desenvolvimentos manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas conquistas científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica como, num certo sentido, o homem pode influenciar a sua vida através da sua própria conduta e como, neste processo, o pensamento e o desejo conscientes podem desempenhar um papel.

 

O homem adquire, à nascença, por hereditariedade, uma constituição biológica que devemos considerar fixa e inalterável, incluindo os impulsos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, ao longo da vida, o indivíduo adquire uma constituição cultural que adota da sociedade através da comunicação e de muitas outras influências. É esta constituição cultural que, com o passar do tempo, está sujeita a alterações e que determina, em grande medida, a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna ensinou-nos, através da investigação comparativa das culturas ditas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode variar muito, dependendo dos padrões culturais predominantes e dos tipos de organização que prevalecem na sociedade. É nisto que aqueles que se esforçam por melhorar a condição humana podem fundamentar as suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, por causa da sua constituição biológica, a aniquilarem-se mutuamente ou a estarem à mercê de um destino cruel e autoimposto.

 

Se nos interrogarmos sobre a forma como a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem devem ser alteradas para tornar a vida humana o mais satisfatória possível, devemos estar constantemente conscientes de que existem certas condições que não podemos modificar. Como já foi referido anteriormente, a natureza biológica do homem, para todos os efeitos práticos, não está sujeita a alterações. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações relativamente densamente povoadas, com os bens indispensáveis ​​à sua sobrevivência, é absolutamente necessária uma divisão extrema do trabalho e um aparelho produtivo altamente centralizado. O tempo — que, olhando para trás, parece tão idílico — passou para sempre, quando indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente autossuficientes. Não é exagero afirmar que a humanidade constitui, ainda hoje, uma comunidade planetária de produção e consumo.

 

Cheguei agora ao ponto em que posso indicar brevemente aquilo que, para mim, constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência da sociedade. Mas não vive esta dependência como um ativo positivo, como um laço orgânico, como uma força protetora, mas antes como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou mesmo à sua existência económica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egoístas da sua natureza são constantemente acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, qualquer que seja a sua posição na sociedade, sofrem com este processo de deterioração. Inconscientemente prisioneiros do seu próprio egoísmo, sentem-se inseguros, solitários e privados do prazer ingénuo, simples e descomplicado da vida. O homem só pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como é, dedicando-se à sociedade.

 

A anarquia económica da sociedade capitalista, tal como existe hoje, é, na minha opinião, a verdadeira fonte do mal. Vemos diante de nós uma vasta comunidade de produtores cujos membros se esforçam incessantemente por privar uns aos outros dos frutos do seu trabalho coletivo — não pela força, mas, em geral, em fiel conformidade com as normas legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante perceber que os meios de produção — isto é, toda a capacidade produtiva necessária para a produção de bens de consumo, bem como de bens de capital adicionais — podem ser, e na maioria das vezes são, propriedade privada de indivíduos.

 

Por uma questão de simplicidade, na discussão que se segue, chamarei “trabalhadores” a todos aqueles que não partilham a propriedade dos meios de produção — embora isso não corresponda exatamente ao uso habitual do termo. O proprietário dos meios de produção está em condições de comprar a força de trabalho do trabalhador. Ao utilizar os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que passam a ser propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que lhe é pago, sendo ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe não é determinado pelo valor real dos bens que produz, mas sim pelas suas necessidades mínimas e pelas exigências dos capitalistas em relação à força de trabalho, considerando o número de trabalhadores que competem por vagas. É importante compreender que, mesmo em teoria, a remuneração do trabalhador não é determinada pelo valor do seu produto.

 

O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte devido à competição entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho incentivam a formação de unidades de produção maiores em detrimento das mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado nem sequer por uma sociedade política organizada democraticamente. Isto acontece porque os membros dos órgãos legislativos são escolhidos por partidos políticos, amplamente financiados ou influenciados por capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado do legislativo. A consequência é que os representantes do povo não protegem, de facto, suficientemente os interesses das camadas menos favorecidas da população. Além disso, nas condições atuais, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). Assim, torna-se extremamente difícil, e na maioria dos casos praticamente impossível, para o cidadão comum chegar a conclusões objetivas e exercer os seus direitos políticos de forma inteligente.

 

A situação que prevalece numa economia baseada na propriedade privada do capital é, portanto, caracterizada por dois princípios principais: em primeiro lugar, os meios de produção (capital) são propriedade privada e os proprietários dispõem deles como bem entenderem; segundo, o contrato de trabalho é livre. É claro que não existe uma sociedade capitalista pura neste sentido. Em particular, é de notar que os trabalhadores, através de longas e árduas lutas políticas, conseguiram garantir uma forma um pouco melhorada do “contrato de trabalho livre” para certas categorias de trabalhadores. Mas, de um modo geral, a economia atual não difere muito do capitalismo “puro”.

 

A produção é realizada com o objetivo de lucro, não para uso. Não há garantia de que todos os capazes e dispostos a trabalhar encontrarão sempre emprego; um “exército de desempregados” existe quase sempre. O trabalhador vive constantemente com medo de perder o emprego. Como os trabalhadores desempregados e mal remunerados não constituem um mercado lucrativo, a produção de bens de consumo é limitada, resultando em grandes dificuldades. O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego do que numa redução da carga de trabalho para todos. A procura do lucro, em conjunto com a competição entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital, o que leva a depressões cada vez mais severas. A competição desenfreada leva a um enorme desperdício de mão-de-obra e ao enfraquecimento da consciência social dos indivíduos, como já referi anteriormente.

 

Considero este enfraquecimento dos indivíduos o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. Uma atitude competitiva exacerbada é inculcada no aluno, que é treinado para idolatrar o sucesso material como preparação para a sua futura carreira.

 

Estou convencido de que só existe uma forma de eliminar estes graves males: o estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada de um sistema educativo orientado para os objetivos sociais. Numa tal economia, os meios de produção pertencem à própria sociedade e são utilizados de forma planificada. Uma economia planificada, que ajusta a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho por todos os capazes de trabalhar e garantiria o sustento de todos os homens, mulheres e crianças. A educação do indivíduo, para além de promover as suas capacidades inatas, procuraria desenvolver nele um sentido de responsabilidade para com os seus semelhantes, em vez da glorificação do poder e do sucesso presentes na nossa sociedade atual.

 

Contudo, é necessário lembrar que uma economia planificada ainda não é socialismo. Uma economia planificada, por si só, pode ser acompanhada pela completa escravização do indivíduo. A conquista do socialismo exige a solução de alguns problemas sociopolíticos extremamente difíceis: como é possível, perante a ampla centralização do poder político e económico, impedir que a burocracia se torne omnipotente e prepotente? Como proteger os direitos do indivíduo e, assim, garantir um contrapeso democrático ao poder da burocracia?

 

A clareza sobre os objetivos e os problemas do socialismo é de primordial importância na nossa era de transição. Uma vez que, nas circunstâncias atuais, a discussão livre e desimpedida destes problemas se tornou um forte tabu, considero a fundação desta revista um importante serviço público.

https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/


quinta-feira, 14 de maio de 2026

Robin Philpot - Einstein opôs-se à colonização sionista na Palestina e previu a catástrofe atual



– As suas opiniões sobre Israel e o sionismo foram ocultadas e distorcidas durante décadas

Robin Philpot [*]

Capa de 'Einstein', de Fred Jerome.

Algumas semanas antes da criação do Estado de Israel, Shepard Rifkin, um representante sediado em Nova Iorque do Grupo Stern, uma organização paramilitar sionista fundada na Palestina Mandatória, solicitou que representantes do grupo se reunissem com Albert Einstein nos Estados Unidos, "a maior figura judaica da época", segundo o jornalista I.F. Stone. A resposta de Einstein foi inequívoca:

Quando uma catástrofe real e definitiva nos atingir na Palestina, os primeiros responsáveis por ela serão os britânicos e os segundos responsáveis serão as organizações terroristas criadas a partir das nossas próprias fileiras. Não estou disposto a ver ninguém associado a essas pessoas iludidas e criminosas.

Einstein disse que a sua "vida estava dividida entre equações e política". No entanto, entre os seus biógrafos — existem centenas deles — e nos meios de comunicação social dominantes, os seus extensos escritos políticos sobre Israel e o sionismo foram, na melhor das hipóteses, varridos para debaixo do tapete ou, na pior das hipóteses, completamente distorcidos, identificando-o como um apoiante do Estado de Israel.

Isto é, até que o falecido Fred Jerome os procurou, encontrou, mandou traduzir (na sua maioria do alemão) e os publicou no livro, Einstein on Israel and Zionism. Infelizmente, a primeira edição deste texto, publicada por uma editora de Nova Iorque, teve uma tiragem muito pequena, nunca foi promovida nem transformada em e-book, e esgotou num instante. É por isso que a Baraka Books publicou uma nova edição com o consentimento de Jocelyn Jerome, viúva do autor.

Foi na Alemanha da década de 1920, uma época de antissemitismo desenfreado em que a teoria da relatividade era atacada como "ciência judaica", que Einstein se sentiu atraído pelo movimento sionista. Só em 1914, quando chegou à Alemanha, é que "descobriu pela primeira vez que era judeu", uma descoberta que atribuiu mais aos "gentios do que aos judeus". Antes disso, ele via-se como um membro da espécie humana.

Ele autodenominava-se um “sionista cultural”, mas já em 1921 Kurt Blumenfeld, um ativista sionista enviado para recrutar Einstein, advertiu Chaim Weizmann, o futuro presidente de Israel, sobre o grande cientista:

Einstein, como sabe, não é sionista, e peço-lhe que não tente torná-lo sionista nem que tente ligá-lo à nossa organização. … Einstein, que se inclina para o socialismo, sente-se muito envolvido com a causa do trabalho judaico e dos trabalhadores judeus… Ouvi dizer… que espera que Einstein faça discursos. Por favor, tenha muito cuidado com isso. Einstein… diz frequentemente coisas por ingenuidade que não são bem-vindas por nós.

Para além da suposta "ingenuidade" de Einstein, Blumenfeld não poderia ter dito melhor. Einstein viria a ser um obstáculo constante ao projeto sionista de colonização da Palestina e à criação do Estado de Israel até à sua morte, em 1955.

Eis alguns exemplos das posições que assumiu.

As suas trocas de correspondência com Chaim Weizmann, o futuro presidente de Israel, ilustram o quão importante Einstein era para os sionistas, mas, mais importante ainda, como as suas opiniões divergiam das deles. Numa carta a Weizmann, datada de 25 de novembro de 1929, escreveu:

Se não formos capazes de encontrar um caminho para uma cooperação honesta e pactos honestos com os árabes, então não aprendemos nada durante os nossos dois mil anos de sofrimento e merecemos o destino que nos sobrevirá.

A ideia do "destino que nos sobrevirá" surge frequentemente. Em 1929, ele parece já ter previsto que o Estado-nação que os sionistas sonhavam criar sem "cooperação honesta e pactos honestos" com os seus vizinhos palestinos se tornaria o que é hoje, nomeadamente o lugar mais perigoso do mundo para os judeus viverem.

Algumas semanas depois, a 14 de dezembro de 1929, escreveu a Selig Brodetsky, da Organização Sionista em Londres: "Estou feliz por não termos poder. Se a teimosia nacional se revelar suficientemente forte, então vamos dar com as cabeças na parede, como merecemos."

Além disso, Leon Simon, um dos seus primeiros editores e tradutores, escreveu:

No nacionalismo do Professor Einstein não há espaço para qualquer tipo de agressividade ou chauvinismo. Para ele, o domínio dos judeus sobre os árabes na Palestina, ou a perpetuação de um estado de hostilidade mútua entre os dois povos, significaria o fracasso do sionismo.

Ao contrário da grande maioria dos sionistas, o apoio de Einstein a uma possível "pátria judaica" — não um Estado — não se limitava à Palestina. Não havia nada de religioso no seu compromisso. Alguns sionistas defendiam a criação de tal pátria na China, no Peru ou em Birobidzhan, na União Soviética, mas em total acordo com as autoridades estatais e as populações em cada caso.

Einstein apoiou estas medidas. Por exemplo, sobre a pátria judaica de Birobidzhan na União Soviética após a Segunda Guerra Mundial, escreveu:

Não devemos esquecer que, naqueles anos de perseguição atroz do povo judeu, a Rússia Soviética foi a única grande nação que salvou centenas de milhares de vidas judaicas. A iniciativa de instalar 30 000 órfãos de guerra judeus em Birobidzhan e garantir-lhes, desta forma, um futuro satisfatório e feliz é uma nova prova da atitude humana da Rússia para com o nosso povo judeu. Ao ajudar esta causa, contribuiremos de forma muito eficaz para a salvação dos remanescentes do judaísmo europeu.

Nos anos cruciais entre o fim da guerra e a sua morte em 1955, Einstein foi franco quanto ao projeto do Estado judeu. Convidado a testemunhar perante a Comissão Anglo-Americana de Inquérito sobre a Palestina em Washington, DC, em janeiro de 1946, Einstein respondeu inequivocamente quando questionado sobre a possibilidade de um Estado de Israel versus uma pátria cultural: "Nunca fui a favor de um Estado".

Em março de 1947, I.Z. David, membro do grupo terrorista Irgun liderado por Menachem Begin, enviou-lhe um questionário ao qual ele respondeu de forma incisiva e clara:

Pergunta: Qual é a sua opinião sobre a criação de uma Palestina Nacional Judaica livre?
Einstein: Pátria Nacional Judaica? Sim. Palestina Nacional Judaica? Não. Sou a favor de uma Palestina livre e binacional numa data posterior, após acordo com os árabes.
Pergunta: Opinião sobre a partilha da Palestina e as propostas de Chaim Weizmann relativas à partição?
Einstein: Sou contra a partição.

Quanto à questão da aliança entre o imperialismo britânico e o americano, Einstein não nutria ilusões:

Parece-me que os nossos queridos americanos estão agora a moldar a sua política externa ao modelo dos alemães, uma vez que parecem ter herdado a presunção e a arrogância destes últimos. Aparentemente, também querem assumir o papel que a Inglaterra desempenhou até agora. Recusam-se a aprender uns com os outros; e aprendem pouco mesmo com a sua própria experiência amarga. O que foi incutido nas mentes desde a juventude está mais firmemente enraizado do que a experiência e o raciocínio. Os ingleses são mais um bom exemplo disso. Os seus métodos antiquados de reprimir as massas, recorrendo a elementos locais sem escrúpulos da classe económica alta, irão em breve custar-lhes todo o seu império, mas são incapazes de se convencerem a mudar os seus métodos; independentemente de serem os conservadores ou os socialistas. Com os alemães, foi exatamente o mesmo. Tudo isto seria bom e belo, se não fosse o facto de ser tão triste para os elementos melhores e para os oprimidos.

Quanto aos antepassados políticos do atual governo de Netanyahu, Einstein atacou-os a eles e aos seus partidos políticos, particularmente no New York Times. Quando Menachem Begin veio a Nova Iorque no final de 1948, Einstein, Hannah Arendt e outras figuras intelectuais judaicas nos Estados Unidos publicaram uma carta a denunciar a sua visita e a organização que ele liderava, chamando-a de "um partido político muito próximo, na sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, dos partidos nazis e fascistas". Um exemplo que citaram foi o massacre de 240 homens, mulheres e crianças na aldeia palestina de Deir Yassin.

Einstein repetiu esta acusação até à sua morte em 1955:   "Estas pessoas são nazis nos seus pensamentos e ações." Qualquer pessoa que diga isto hoje nos meios de comunicação social tradicionais é imediatamente rotulada de antissemita e colocada na lista negra.

É de conhecimento geral que, quando Chaim Weizmann morreu em 1952, o primeiro-ministro de Israel ofereceu a presidência de Israel a Albert Einstein. Menos conhecida, no entanto, é a razão que Einstein deu para esta recusa:   “Eu teria de dizer ao povo israelense coisas que eles não gostariam de ouvir”. Ainda menos conhecida é a declaração de Ben Gurion:   “Diga-me o que fazer se ele disser sim! Tive de lhe oferecer o cargo porque era impossível não o fazer, mas se ele aceitar, vamos ter problemas".

Centenas, senão milhares, de pessoas estão a ser acusadas de antissemitismo ou despedidas dos seus empregos por se atreverem a criticar o Estado de Israel, chamá-lo de Estado de apartheid e denunciar o genocídio dos palestinos. Que fiquem tranquilos:   estão em boa companhia, porque se Einstein estivesse vivo hoje estaria na linha da frente a manifestar-se com eles.

13/Maio/2026

Ver também:
  • Porquê o Socialismo?, de Albert Einstein.
  • [*] Editor da Baraka Books. Todas as citações são da nova edição enriquecida de Einstein on Israel and Zionism (Setembro/2024) de Fred Jerome.

    O original encontra-se em www.defenddemocracy.press/einstein-opposed-zionist-colonization-in-palestine-and-predicted-the-current-catastrophe/

    sábado, 7 de novembro de 2015

    Urariano Mota: Dom Quixote, o aniversário do maior clássico

    6 de novembro de 2015 - 12h25 


    O mundo culto celebra neste 2015 os 400 anos da publicação da segunda parte do Dom Quixote. A primeira edição foi publicada em 1605, a segunda em 1615. Na wikipédia o resumo das simplificações na internet se escreve:


    Arquivo
     




    O Dom Quixote é considerado a grande criação de Cervantes. O livro é um dos primeiros das línguas européias modernas e é considerado por muitos o expoente máximo da literatura espanhola.” 

    É muita modéstia para um dos maiores gênios que já houve. Ele é o expoente de toda literatura moderna. 

    Como lembra a jornalista Sylvia Colombo:

    “Esta segunda parte, que se celebra agora, traz a particularidade de levantar questões em torno do conceito de ‘autor’ e ‘personagem’, assim como sobre o significado a autoria naqueles tempos em que releituras e apropriações eram tão comuns. É preciso lembrar que Cervantes não tinha intenção de escrever esse segundo volume do Quixote até que o sucesso do primeiro provocasse uma enxurrada de obras apócrifas protagonizadas por seu herói. Quando veio à tona a de um Alonso Fernández de Avellaneda, publicada em 1614, fazendo imenso sucesso, Cervantes se incomodou e contra-atacou com a sua versão da continuação das aventuras do cavaleiro. Nela, denunciava de maneira irônica a versão apócrifa dentro da própria narrativa. A Espanha que surge nessa segunda parte também já é uma Espanha diferente, menos rural e migrando para as cidades.”

    E aqui eu cito o maior criador da literatura que já houve, quando faz o seu personagem criticar a falsificação do Dom Quixote

    “... seu dia de São Martinho há de chegar, como o chega a todo porco, pois as histórias inventadas tanto têm de boas e deleitosas quanto mais se aproximam da verdade ou de sua semelhança; e as verídicas, quanto mais verdadeiras, melhores são.” Que belo pensamento e lição literária, que alcança todas as falsificações literárias até hoje, em escritores vazios de experiência mas cheios da pretensão de possuírem uma fantasia imensa. As histórias inventadas são boas quanto mais próximas forem da verdade. 

    Mas espero que por favor se evitem, no grande aniversário da segunda parte do Dom Quixote, as linhas de Cervantes recontadas, um crime não faz muito cometido por Ferreira Gullar. Como declarou Gullar ao Estadão: “Os diálogos longos e as descrições foram enxugadas”. Isso lembra mais um copidesque na velha redação do jornal. Brincadeira. A pretexto de um didatismo que pressupõe incapacidades, penso que não se deve adaptar um clássico para versões em quadrinhos ou a leituras mais simplificadas. Será o mesmo que furtar uma riqueza, na vã presunção de que um adolescente não entenda a imensa diversão que é ler Cervantes. E teremos um crime de falsificação, enfim. Todo jovem que ler essa adaptação pensará que conhece o Dom Quixote. 

    No original de Cervantes, por exemplo, está escrito: 

    “y más cuando llegaba a leer aquellos requiebros y cartas de desafíos, 
    donde en muchas partes hablaba escrito: La razón de la sinrazón que a mi razón se hace, de tal manera mi razón enflaquece, con que con razón me quejo de la vuestra fermosura. Y también cuando leía: los altos cielos que de vuestra divindad divinamente con las estrellas os fortifican y os hacen merecedora del merecimiento que merece la vuestra grandeza. Con estas razones perdía el pobre caballero el juicio. .”

    Mas em Ferreira Gullar para o mesmo trecho:

    “Encantado com a clareza da prosa e os volteios do estilo, o pobre cavaleiro foi perdendo o juízo”. 

    Viram? Perderam-se a graça e a ironia magnífica de Cervantes. 

    E aqui lembro o que observei uma vez sobre as adaptações de Machado de Assis para jovens: 

    “Adaptar um clássico é o mesmo que esconder dos jovens o melhor do escritor, porque não se acredita que um adolescente seja tão inteligente quanto o indivíduo que adapta. Imaginem, é exatamente o contrário. Note-se que o problema não é só de forma, de linguagem, dos dribles, firulas e recursos de linguagem, é da visão de mundo enformada nessa prosa, inseparável.”

    Quem assim age é semelhante ao personagem da anedota em que Einstein foi solicitado por um repórter, que insistente pedia A Teoria da Relatividade mais palatável. O paciente cientista se pôs então a explicar a sua teoria em palavras mais simples, recorrendo a imagens do cotidiano. E perguntava:

    – Entendeu?

    E o repórter respondia:

    – Doutor Einstein, eu, sim. Mas os leitores… não haverá um modo mais simples na Relatividade? 

    E o cientista voltava com novos recursos de imagens, para perguntar depois de bom tempo:

    – Entendeu?

    E o repórter, finalmente satisfeito:

    – Sim, agora, sim.

    E o grande Einstein desalentado:

    – É, mas já agora não é a Teoria da Relatividade. 

    Ou seja, o Dom Quixote recontado pode ser tudo, mas já não será o Dom Quixote. Espero que a celebração entre nós se dê pelo original, que é impagável. 

    sábado, 17 de maio de 2008

    Carta leiloada de Einstein mostra críticas a religião



    a

    15 DE MAIO DE 2008 - 15h59



    Uma carta escrita um ano antes de sua morte pelo físico Albert Einstein ao filósofo alemão Eric Gutkind, e que veio à tona recentemente, revela que o cientista era crítico em relação à religião. A carta foi a leilão nesta quinta-feira (15), em Londres, e estima-se que alcance entre 6 mil e 8 mil libras.


    A carta foi escrita em 1954, um ano antes da morte de Einstein, em resposta ao livro de Gutkind, Escolha a vida: O chamado bíblico para a revolta (em tradução livre), e passou os últimos 50 anos nas mãos de um colecionador particular.


    Nesta quinta-feira (15), o documento será leiloado pela casa de leilões Bloomsbury Auctions, em Londres. A expectativa é que ela alcance entre 6 mil e 8 mil libras (de R$ 20 mil a R$ 30 mil).


    "A palavra Deus para mim é nada mais que a expressão e produto da fraqueza humana, a Bíblia é uma coleção de lendas honradas, mas ainda assim primitivas, que são bastante infantis", escreve Einstein que, apesar de judeu, freqüentou uma escola católica na infância.


    O cientista, que recebia aulas particulares de judaísmo em casa, declinou o convite do então recém-formado Estado de Israel para ser o segundo presidente do país. Na carta, ele rebate a crença de que os judeus seriam o "povo escolhido".


    "Para mim, a religião judaica, como todas as outras, é a encarnação de algumas das superstições mais infantis. E o povo judeu, ao qual tenho o prazer de pertencer e com cuja mentalidade tenho grande afinidade, não tem qualquer diferença de qualidade para mim em relação aos outros povos."


    "Até onde vai minha experiência, eles não são melhores que nenhum outro grupo de humanos, apesar de estarem protegidos dos piores cânceres por falta de poder. Mas além disso, não consigo ver nada de 'escolhido' sobre eles".


    A carta levanta nova polêmica sobre as crenças religiosas de Einstein já que, em declarações anteriores, o cientista havia dado a entender que acreditava, ou pelo menos queria acreditar, na existência de Deus.


    Segundo o jornal britânico The Guardian, a carta e seu conteúdo eram desconhecidos por alguns dos principais biógrafos do cientista.


    O conteúdo da carta difere de declarações anteriores de Einstein, que, segundo historiadores, nunca havia deixado muito clara a sua visão sobre a religião. Nessa seara, o físico era mais lembrado pela frase "A ciência sem religião é manca, a religião sem a ciência é cega".

    Historiadores não costumam retratar Einstein como ateu, mas a imagem pode mudar com a publicação da carta. Sua visão sobre Deus era tida apenas como não-clerical ("Não creio no Deus da teologia que recompensa o bem e pune o mal").

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    Albert Einstein - Wikipédia, a enciclopédia livre

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    Minha responsabilidade na questão da bomba atômica se limita a uma única intervenção: escrevi uma carta ao Presidente Roosevelt. Eu sabia ser necessária e urgente a organização de experiências de grande envergadura para o estudo e a realização da bomba atômica. E o disse. Conhecia também o risco universal causado pela descoberta da bomba. Mas os sábios alemães se encarniçavam sobre o mesmo problema e tinham todas as chances de resolvê-lo. Assumi portanto minhas responsabilidades. E no entanto sou apaixonadamente um pacifista e minha maneira de ver não é diferente diante da mortandade em tempo de paz. Já que as nações não se resolvem a suprimir a guerra por uma ação conjunta, já que não superam os conflitos por uma arbitragem pacífica e não baseiam seu direito sobre a lei, elas se vêem inexoravelmente obrigadas a preparar a guerra. Participando da corrida geral dos armamentos e não querendo perder, concebem e executam os planos mais detestáveis. Precipitam-se para a guerra. Mas hoje, a guerra se chama o aniquilamento da humanidade. Protestar hoje contra os armamentos não quer dizer nada e não muda nada. Só a supressão definitiva do risco universal da guerra dá sentido e oportunidade à sobrevivência do mundo. Daqui em diante, eis nosso labor cotidiano e nossa inabalável decisão: lutar contra a raiz do mal e não contra os efeitos. O homem aceita lucidamente esta exigência. Que importa que seja acusado de anti-social ou de utópico? Gandhi encarna o maior gênio político de nossa civilização. Definiu o sentido concreto de uma política e soube encontrar em cad homem um inesgotável heroísmo quando descobre um objetivo e um valor para sua ação. A Índia, hoje livre, prova a justeza de seu testemunho. Ora, o poder material, em aparência invencível, do Império Britânico foi submergido por uma vontade inspirada por idéias simples e claras.
    Albert Einstein

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    quinta-feira, 8 de novembro de 2007

    SER DIFERENTE É NORMAL

    GRES IMPÉRIO SERRANO - CARNAVAL 2007
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    Enredo: Ser diferente é normal: o Império Serrano faz a diferença no carnaval
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    Compositores: Arlindo Cruz/Maurição/Aloísio Machado/ Carlos Senna/ João Bosco
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    Intérpretes: Maurição, Nilton Sereno, Geraldão e Gustavo Henrique

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    EU QUERO VER
    O AMOR FLORESCER
    SER DIFERENTE É NORMAL
    E O IMPÉRIO TAÍ
    PRA LEVANTAR SEU ASTRAL
    SE LIGA NO MEU CARNAVAL


    SERRINHA VEM PEDIR RESPEITO
    TEMOS QUE OLHAR DE OUTRO JEITO
    QUEM NASCEU DIFERENTE
    E VENCEU PRECONCEITO
    A GENTE TEM QUE ADMIRAR
    HARMONIZAR PRA SER FELIZ
    DIFERENÇA SOCIAL, PRA QUÊ?
    TÁ NA CARA QUE A BELEZA
    ESTÁ NOS OLHOS DE QUEM VÊ
    ROMANTISMO IRRADIA ENERGIA PRA VIVER
    NESSE MUNDO ONDE TUDO É RELATIVO
    MINHA ESCOLA É MEU MOTIVO
    MEU MAIOR PRAZER!

    A HISTÓRIA DO SAMBA MUDOU
    BATERIA DIFERENTE, OLHA O TOQUE DO AGOGÔ
    NO PRIMEIRO DESTAQUE E NA COMISSÃO
    AS NOVIDADES VERDE-E-BRANCO, MEU IRMÃO

    DIFÍCIL
    CONVIVER NA ADVERSIDADE
    COM ARTE SER EFICIENTE
    FAZER DA PINTURA SUA LIBERDADE
    FAZER ESCULTURAS USANDO A PAIXÃO
    FEITIÇO DE POETA INVADE O CORAÇÃO
    DIVINO É O PODER DA CRIAÇÃO
    EU PERGUNTO A VOCÊ
    SERÁ QUE EXISTE?
    LIMITE ENTRE A LOUCURA E A RAZÃO



    SINOPSE



    Força inovadora do carnaval desde sua fundação, o Império Serrano foi a primeira escola de samba vinculada a um segmento profissional, os trabalhadores do porto do Rio de Janeiro. Nem por isso se tornou um gueto: a diferença era respeitada e havia lugar para todos.
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    Jornalistas, funcionários públicos, donas de casa também opinavam e participavam. Por isso surgiu de forma tão forte e impressionante que se sagrou campeã, provocando violenta cisão na entidade representativa das escolas de samba da época, já que as co-irmãs se recusaram a aceitar a vitória da estreante.
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    Em sua origem está a luta pela liberdade de opinião e de expressão, que se mantém até hoje.
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    No Império Serrano todo mundo é igual, apesar das diferenças, e o orgulho verde-e-branco recebe de braços abertos todos os interessados em trabalhar unidos em prol de um objetivo comum, numa lição de harmonioso convívio. O resultado está aí: sessenta anos de paixão e glória, fazendo a diferença na história do samba.
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    Foi fácil? Não. Nunca é fácil harmonizar o que não é igual. A dificuldade que o ser humano tem de conviver com a diferença (seja ela estética, social, religiosa, étnica ou cultural) é o grande mote do romance Notre-Dame de Paris, que elevou o escritor francês Victor Hugo a figura máxima do espírito literário do romantismo, movimento que valorizava o predomínio do conteúdo sobre a forma. Na torre da catedral de Notre-Dame vive isolado o sineiro Quasímodo, um homem de aparência deformada e feições distorcidas, porém sensível às manifestações de beleza, como as diversas festividades que acontecem em torno da catedral gótica. Adotado por uma autoridade religiosa que fez da rigidez seu modo de vida, apaixona-se por uma cigana e enfrenta uma série de peripécias por conta desse amor não correspondido.
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    Aceitar e respeitar o outro como ele realmente é nunca foi tarefa simples, na literatura como na vida real.
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    Na cidade alemã de Munique do final do século XIX um menino tímido, pouco sociável e bastante indisciplinado entrou cedo para a abominada lista de repetentes na escola. Alfabetizado somente aos nove anos de idade, apresentando raciocínio lento e aparente falta de memória, a dificuldade de aprendizado levou seus professores a crer que sofria algum tipo de retardo mental. Acabou interessando-se pelos emaranhados de números e cálculos da matemática e pela harmonia sublime da música, chegando a dominar o violino. Revelou-se uma mente brilhante e autor de numerosos trabalhos de física teórica; aplicando a teoria quântica à energia radiante, chegou ao conceito de fótons, que lhe valeu o Prêmio Nobel. Formulou a equação que seria a mais célebre do século XX, abrindo os caminhos para a era atômica e esclarecendo a origem da energia solar.
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    Conhecida como teoria da relatividade, marcou profundamente a ciência moderna, mas sua importância só foi reconhecida posteriormente, transformando aquele “menino problema”, Albert Einstein, em um dos maiores cientistas de todos os tempos.
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    Além de lidar com a diversidade, há de se lidar também com a adversidade...
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    A infância marcada por procedimentos médicos e um terrível acidente forjaram uma mulher fisicamente debilitada e deficiente. Foi quando a mãe pendurou um espelho em cima de sua cama, na dolorosa convalescença, que Frida Kahlo começou a pintar freneticamente. Sempre pintou a si mesma alegando que “era o assunto que conhecia melhor”. Apaixonadamente passional e extremante vaidosa, cobria-se de jóias, flores e vestidos coloridos, tradicionalmente mexicanos, o que fez dela grande colecionadora de amantes (de ambos os sexos). Frida chocava porque era diferente – e orgulhosa – demais. Embora tenha usado tintas fortes para estampar suas telas e entrado no mundo da vanguarda artística dos surrealistas, dizia que nunca pintou sonhos, pois apenas pintava a própria realidade: uma vida tumultuada por sofrimentos físicos e dramas emocionais.
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    Ensinou-nos a pintora mais importante do século XX:
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    “ Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?”
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    O trabalho dignifica o homem, e um gênio negro mostrou seu valor em verdadeiros tesouros. Vivia do produto de suas mãos e um dia descobriu uma doença que o degenerava lentamente. Como continuaria criando sua arte? Teria que enterrar o dom dentro de si? Absolutamente não. Antônio Francisco Lisboa não abandonou seu ofício.
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    Quando as mãos se danificaram por completo, amarrou nelas correias de couro para poder segurar seus instrumentos; com os pés atingidos, foi obrigado a andar de joelhos.
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    O povo o apelidou de Aleijadinho. Foi difícil obter o reconhecimento de seu talento, pois também não lhe perdoavam a condição de mestiço e, mesmo celebrado como grande escultor e projetista, a cor mulata ainda mantinha erguidas as barreiras do preconceito.
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    Suas imagens sacras, profetas, altares e igrejas permanecem como testemunho do desenvolvimento artístico de Minas Gerais no século do ouro. A quantidade e a maestria de suas realizações levaram o biógrafo francês, Germain Bazin, a chamá-lo de “Michelangelo tropical”.
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    A sensibilidade e a competência revertem qualquer quadro que se apresente desfavorável à primeira vista.
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    Lesionado no queixo pelo fórceps em seu nascimento, o violonista Noel Rosa encarou sua “diferença” com filosofia bem-humorada e irônica como um bom rapaz folgado. Ela nunca impediu seu feitiço de poeta de arrebatar corações apaixonados.
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    Sua música tocou as ruas do Rio de Janeiro e ganhou notoriedade ainda muito jovem, mas combatia o constrangimento que o defeito físico lhe causava evitando grandes reuniões sociais e buscando refúgio em bares, botequins e cabarés. Captou e, acima de tudo, criticou as transformações de uma época de transição urbana carioca legitimando seu papel de cronista do samba.
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    A modernidade da eletricidade, gramofones, rádios, apitos de fábricas e chaminés compunham um novo cotidiano e um modo de vida “diferente”.
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    O talento é realmente soberano, invencível e aleatório: bafeja inclusive os que não se enquadram adequadamente em padrões estabelecidos. Se ele não discrimina, por que discriminar?
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    Do manicômio para a liberdade criativa, o estranho mundo de Arthur Bispo de Rosário revelou um mestre das artes plásticas brasileiras com reconhecimento internacional. Seus divinos trabalhos multicoloridos consagraram seu delírio intelectual ao registrar para o Criador o universo ao seu redor. E se “de perto ninguém é normal”, no carnaval se abre o sanatório geral da sociedade, pois nos dias de folia as diferenças se diluem e se igualam como na marcha carnavalesca Exuberante da “verdadeira encarnação da alma musical brasileira”, o louco Ernesto Nazaré:
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    “ (...) À folia! À folia!
    Ao baile, TODOS
    Neste brincar sem fim
    À folia! À folia!
    TODOS pulando assim (...)”
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    Jack Vasconcelos
    Carnavalesco
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