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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Daniel Oliveira - O trilionário que promove pogroms

 Opinião

As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional nas mãos de milionários, onde paramilícias encontram uma nova logística para os seus pogroms. Musk não é um nome lateral no que aconteceu em Belfast. É um dos seus maiores instigadores e promotores. E Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Ou os governos europeus regulam as redes ou podem organizar as exéquias das suas democracias.

Se há cidade europeia que sabe o que é um motim, é Belfast. Cada bairro tem memória, cada rua tem um lado, cada muro recorda uma ferida antiga. Por isso, as imagens pareceram tão familiares. Casas queimadas, lojas vandalizadas, famílias arrancadas dos seus prédios a meio da noite, um bebé de dois meses retirado de casa pela polícia, agentes feridos, mais de duas dezenas de pessoas sem teto. Belfast conhece de cor todas as declinações da violência sectária. Só mudou o alvo.

domingo, 25 de dezembro de 2022

DANIEL OLIVEIRA - O império de um troll

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DANIEL OLIVEIRA

O império de um troll

Uma ponte com mais de 140 anos, monumento nacional dos Países Baixos que sobreviveu à II Guerra Mundial, esteve a dias de ser desmontada para abrir passagem ao gigantesco iate de Jeff Bezos. Era a única passagem entre o estaleiro onde foi construída a embarcação de 460 milhões de dólares, com 127 metros de comprimento e três mastros, e o mar aberto. O clamor popular conseguiu reverter a decisão, mas o episódio é sintomático dos excessos da concentração de riqueza. Comprar uma ilha é muito anos 90. Agora, depois de a pandemia ter duplicado a riqueza dos principais milionários, vai-se ao espaço, constroem-se iates do tamanho de navios de guerra e estoira-se um valor superior à riqueza produzida anualmente na Letónia para comprar uma pequena rede social.

Sim, mesmo sendo a maior aquisição de uma empresa por um indivíduo, o Twitter não é o Facebook ou o Instagram. Tanto em número de utilizadores como no modelo de financiamento, é uma pequena rede. Tem menos alcance do que a sua congénere chinesa, o Weibo, e cerca de metade do Snapchat. Mas é lá que estão os mais influentes, e o seu modelo favorece mensagens curtas, a um ritmo frenético, com um grande impacto noticioso. Com a aquisição, Elon Musk consegue condicionar a política. Este é um negócio de poder, e o interesse da direita americana é compreensível.

FOTO DADO RUVIC/REUTERS

Musk promete que o “jornalismo-cidadão” tornará o Twitter numa fonte credível de informação. Só que, ao contrário de carros e foguetes espaciais, gerir uma rede social é gerir uma complexa teia de interações humanas. A redução dos ténues mecanismos de moderação e o regresso de milhares de contas que disseminavam fake news fizeram disparar o conteúdo abusivo e antissemita, exponenciado pelos despedimentos em massa e pela degradação das condições de trabalho na empresa. Com o ambiente mais tóxico, há uma deserção de anunciantes. A forma caótica como tem gerido a empresa, dos planos espetacularmente falhados para garantir uma subscrição mensal ou atrasos no pagamento da renda da sede, revelam a versão gourmet do princípio de Peter. Para distrair da incompetência e da censura, Elon Musk lançou um inquérito aos utilizadores para saber se queriam que deixasse de ser o CEO. O “sim” venceu, o que é indiferente, porque há muito tinha anunciado que não tencio­nava ficar. Mas a comunicação social mordeu o isco, como sempre fez com Trump.

A apologia do “jornalismo-cidadão” esconde a dificuldade de Musk lidar com o escrutínio do jornalismo profissional. Há umas semanas, divulgou um trabalho de um freelancer que correspondia a documentos vazados pela sua empresa sobre a forma como durante 48 horas funcionários do Twitter tinham impedido, na administração anterior, a propagação de uma notícia do tabloide “New York Post” sobre o suposto conteúdo de um portátil do filho de Biden. No dia seguinte à publicação dos “Twitter Files”, Musk condenou o silêncio dos principais jornais. Mesmo correspondendo a acusações graves que confirmam o risco da concentração de poder e a falta de transparência na gestão destas redes, o “New York Times” revelou que foi ele que se negou a dar-lhes essa informação, preferindo disponibilizá-la a um jornalista que aceitasse fazer o trabalho sem acesso aos documentos na íntegra ou a certeza de que não teriam sido editados.

No meio de uma gestão caótica, Musk passou de intransigente defensor da liberdade de expressão à suspensão de contas de jornalistas e à proibição de links para outras plataformas. Quando os bilionários falam de liberdade, defendam as democracias. Só a sua própria liberdade, sem limites, os preocupa

Num país polarizado e com uma longa história de violência política, Musk espalha as teorias de conspiração que Trump adorava com o mesmo efeito pavloviano nas massas que o veneram: o antigo responsável pela política de moderação no Twitter, Yoel Roth, teve de mudar de casa depois de o multimilionário o lançar às feras. E veremos se Anthony Fauci, antigo responsável pelo combate à covid, que também tem sido seu alvo, não terá de lhe seguir o exemplo. Musk é tão perigoso como Trump para a democracia. Mas a uma escala global.

Depois de chamar “marionetas sem vergonha” aos reguladores que apontam o dedo às suas práticas empresariais, Musk suspendeu contas de meia dúzia de jornalistas que há vários anos escreviam sobre ele (algumas foram reativadas), inventando uma regra sobre a publicação de links para a conta que indica os voos e destino do seu jato privado. Pelo meio, anunciou uma funcionalidade que permite, a quem pague oito dólares por mês, pontuar as publicações no Twitter, reduzindo o alcance de alguns utilizadores, o que diminuirá a presença de correntes que lhe desagradam, transformando a rede numa caixa de ressonância de quem pensa como ele, que são os que vão pagar a mensalidade. Em poucas semanas, Musk passou de intransigente defensor da liberdade de expressão para a suspensão de jornalistas, proibição de links para outras plataformas e entrega de poder a quem mais paga para silenciar opiniões minoritárias na rede (não na sociedade). Sabemos que a concentração de poder político leva à tirania. Passa-se o mesmo com o poder económico. Parafraseando Robert Reich, que disse que “quando os bilionários falam de liberdade, vigiem as vossas carteiras”, diria: quando os bilionários falam de liberdade, defendam as democracias. Porque só a sua própria liberdade, sem limites, os preocupa.

© Expresso Impresa Publishing S.A.

SEMANÁRIO#2617 - 23/12/22

https://expresso.pt/opiniao/2022-12-23-O-imperio-de-um-troll-a4916a72