Mostrar mensagens com a etiqueta Catarina Eufémia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Catarina Eufémia. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Agostinho Lopes - Catarina, mito e história – dimensões do anticomunismo

 


OPINIÃO

* Agostinho Lopes

Membro da Comissão Central de Controlo do PCP e responsável pela Comissão para os Assuntos Económicos

Os mitos e os símbolos só são perigosos e alienantes quando perdemos de vista o contexto histórico objectivo da sua construção e se transformam naquilo que não podem/devem ser: substitutos da acção, do combate, da luta de homens e mulheres por um mundo melhor, sem guerras nem exploração

27 MAIO 2024 18:31

As narrativas em torno de Catarina Eufémia sucedem-se desde o 25 de Abril na comunicação social e na edição (1). Até esta data Catarina era apenas uma referência no Avante! e noutras publicações do PCP (2). Depois da Revolução, em geral está presente uma persistente dimensão do anticomunismo em tudo o que se foi produzindo: a ocultação ou instrumentalização da «personalidade» para invectivar/atacar o PCP. Um anticomunismo latente ou patente que não tem sossego!

A tese é simples (ou simplória): alguém que foi herói, artista destacado, escritor, personalidade multifacetada que se destacou pelos seus méritos, comportamentos heróicos, obra humana ao serviço da sociedade, luta de resistência ou combate à opressão, exploração, humilhação da sua classe ou semelhantes, não pode ser comunista! Ou estava enganado na sua ingenuidade ou ignorância, ou o Partido o enganou, ou nunca perfilhou o ideário comunista, ou tinha/participava em actividades do PCP mas era sem saber, ou era mas depois deixou de ser, etc., etc... são muitas as possibilidades! E quando não há mais nada a fazer, então faz-se uma coisa mais simples: nega-se a sua condição de comunista ou membro do Partido, ou proximidade do Partido. Ocultando essa sua condição. Eliminando-a da biografia. Descobrindo divergências, zangas, confrontos entre a personalidade e o PCP. Então se arranjar declarações, mesmo confusas, duvidosas, … de familiares ou amigos, ou vizinhos, é ouro sobre azul!

A falta de seriedade relativamente a membros do Partido durante a ditadura, ou no mínimo alguma razoabilidade, deveria levar a reflectir quais os critérios e testemunhos adequados, consistentes, para se concluir se alguém era ou não membro do PCP, quando este e os seus militantes viviam numa rigorosa clandestinidade! E não a sua selecção e instrumentalização ao serviço das teses que se pretende exibir. Dir-se-ia que alguns gostariam que se exibisse um cartão, provavelmente com foto, para comprovar a filiação comunista. Ou então validar a pertença ao PCP por declaração em papel selado com selo branco da PIDE! Será que desconhecem que numerosos membros do Partido, pela sua situação partidária ou como resistência à arbitrariedade da prisão pela polícia, se recusavam a confessar pertencer ao PCP? Basta que algum familiar diga que não era militante, passado décadas, para não o ser? Desconhecem que, salvo situações extraordinárias, a condição de militante era salvaguardada inclusive dentro da família e familiares próximos, até para defesa destes? E como é que distinguem entre a credibilidade do testemunho de amigos/vizinhos/companheiros de trabalho se uns dizem que sim e outros dizem que não, ou ainda outros que não sabem? Ou acham que os nomes de uma célula local ou de empresa era conhecida de toda a gente, mesmo de todos os que a integravam? Será de perguntar talvez através de lista afixada na Junta de Freguesia! Seria, como pretende Felícia Cabrita na sua peça: “O homem (marido da Catarina) mantém a mesma fidelidade ao partido e passa a ter como aliada a companheira que, ao contrário do mito que em torno dela se edificou, nunca chegou a ser militante. Era mais uma comunista platónica.” (3) Platónica, como?, se a mesma jornalista constata que ela desempenhava um trabalho político de distribuição de panfletos? Se é visível dos testemunhos que recolhe o seu papel de agitadora junto de companheiras, e mesmo de dirigente quando encabeça o protesto que a leva à morte, assassinada pelo Carrajola? Se há outros testemunhos de companheiras de trabalho que referem inclusive uma iniciativa de recolha de fundos para o camarada Francisco

Miguel preso em Peniche? No filme “Seara Vermelha” da RTP1, para lá de se “esquecerem” que o movimento do grupo de mulheres encabeçado por Catarina é em si mesmo a presença do trabalho do PCP e da sua Célula Local de Baleizão, insistem na tese da falta de provas da filiação partidária de Catarina. Primeiro vem o depoimento salomónico de Pacheco Pereira: “Era militante do Partido Comunista ou não era? Se me perguntarem eu digo sim e não. A imagem tornou-se um símbolo e o Partido Comunista usa essa imagem de forma simbólica. Mas os esquerdistas depois também fizeram isso.” Depois o narrador consolida a tese: “Não existem provas inequívocas (o que serão num caso destes, provas inequívocas?) da ligação directa de Catarina ao Partido Comunista. Há dúvidas e incertezas, mas numa região onde o Partido dominava a partir da clandestinidade tornam-se naturais e particularmente relevantes alguns gestos e comportamentos.” E é claro que o narrador afirma tal para desvalorizar/anular a “prova” que fazem as declarações da filha de Catarina (Maria Catarina Baleizão do Carmo) – que se seguem no documentário – ao dizer que tem na memória imagens da mãe a “distribuir panfletos”!

Mas há o testemunho inevitável e irrecusável e inequívoco de António Gervásio, funcionário do PCP na região, deslocado logo após o assassinato para o distrito de Beja: “ Há gente que não gosta do PCP e procura negar que Catarina fosse militante do PCP. É necessário dar luta a essas mentiras. Catarina Eufémia era não só militante desde 1953, como era membro do Comité Local de Baleizão do PCP e um dos seus membros mais activos.” E também testemunhos de camaradas da Célula de Baleizão de Catarina, e que com ela participaram no protesto, como Francisca Bia. (4)

Pode alguém pensar ser o caso de Catarina uma excepcão, um acaso? Não pode, são peças numerosas e significativas de um anticomunismo militante que não tem hora nem descanso... como o licranço! Sempre pronto a ferrar o dente... A lista é numerosa... e não terá fim enquanto por cá andar o PCP. Lembremos o caso recente de Maria Lamas – “a mulher portuguesa mais importante do século XX” aqui no Expresso recordado há meses (5), poderíamos lembrar Bento de Jesus Caraça, ou mesmo mais recentemente o de Saramago. Mas será também de não esquecer o exemplar caso de Carlos Paredes nas notícias da sua morte, que perfaz 20 anos no próximo dia 23 de Julho.

CATARINA EUFÉMIA E OS MITOS

Outra via para destruir o essencial de qualquer correcta narração histórica e a sua articulação com a luta do PCP e o PCP é através da transformação/transfiguração em mito de um acontecimento/acontecimentos que marca, ou é marcado por uma personalidade, dissolvendo nesse processo a heroína/herói (em geral responsabilizando o PCP por tal…) É o que surge também nas três abordagens já referidas (1), em que se chega a escrever: “Baleizão é uma espécie de Cova da Iria. E Catarina o mito “mariano” dos sem-terra do Alentejo.”

Mas o problema não é o do “mito” criado em torno de Catarina – seria natural que um acontecimento com a sua valência histórica e exemplar na luta antifascista, pela sua envoltura dramática e colhido pela poesia e a música de poetas e cantores, acabasse por impulsionar essas narrativas que inevitavelmente arrastariam o PCP de forma mais ou menos correcta… O problema é apenas a sua instrumentalização e sobreposição à história dos acontecimentos, com o objectivo de socavar o papel do PCP no processo histórico da luta, esvaí-lo do seu sangue revolucionário, confrontar mesmo o PCP com a multiplicação de variantes mais ou menos fantasiosas, e se possível afastar a “heroína/herói” da história da luta do PCP. Neste caso, negar Catarina ao PCP, negar Catarina à luta que o PCP organizava e impulsionava no Alentejo contra o latifúndio e a ditadura fascista.

Os “mitos” (símbolos) são uma invariância no reino da necessidade das sociedades humanas de todos os tempos, ou pelo menos das que têm um tempo histórico conhecido. Inclusive, nos dias conturbados que são os nossos. Na religião. Na política. Na cultura. No desporto. E etc... O homem/mulher continua a não (conseguir) viver sem mitos/símbolos. E qualquer leitura simplista ou redutora, racista ou xenófoba, (a)histórica ou (a)cultural, ou mesmo interesseira/mesquinha perderá a enorme riqueza humana que eles contêm. A imensa humanidade que representam, construídos que são sobre a fome e a sede, a opressão e a injustiça, a doença e a dor, o medo e o terror perante o ignoto, dos homens e mulheres no seu lento, longo, complexo caminhar até hoje. Mesmo quando são coisas alienantes e alienadas visões da história, da sociedade, da realidade.

Catarina Eufémia foi (e ainda é) um desses mitos/símbolos que alimentaram muitos anos de combate à ditadura fascista, na esperança da revolução que trouxesse o pão, a paz e a liberdade a Portugal inteiro, e não só aos alentejanos. Como todos os mitos/símbolos que revestiram o corpo de um homem/mulher, real ou inventado, foi no processo de “construção” descarnado do seu concreto ser e viver humano, transfigurado e exaltado de forma quase exclusiva, na sua dimensão mítica, de símbolo político da luta do povo alentejano contra o latifúndio. A pouca “carne”/vida concreta que transporta procura assegurar a sua existência real, verdadeira.

É assim de pouco interesse saber hoje (como acontece com alguns escritos anti-PCP ) de muitos dos pormenores, claros e escuros, em que mergulham por vezes a história da vida e morte de Catarina. O crime não é mais ou menos hediondo, não se reduz ou aumenta a dimensão heróica da sua figura. (E isto sem desvalorizar todo o aprofundamento do estudo histórico dos dramáticos acontecimentos que deve continuar a ser feito). Ela era uma pobre trabalhadora rural explorada pelo latifúndio. Ela resistiu e foi morta. E assim se transformou em símbolo/mito dos comunistas e do seu Partido. Que animaram essa luta heróica de resistência à fome, desemprego, exploração dos latifundiários. Que tinham na Ditadura o poder político que os defendia e que era sua emanação.

Os poetas são fervorosos construtores de mitos e símbolos. Leiam-se os poemas de Sofia e Ary e compreendemos toda a humanidade presente em Catarina, camponesa assassinada em Baleizão a 19 de Maio de 1954. Para não falar da canção de Zeca Afonso construída sobre um poema de Vicente Campinas. E faltam muitos e muitas a esta curta lista.

Os mitos e os símbolos só são perigosos e alienantes quando perdemos de vista o contexto histórico objectivo da sua construção (mesmo quando não conseguimos a sua integral racionalização) e se transformam naquilo que não podem/devem ser: substitutos da acção, do combate, da luta de homens e mulheres por um mundo melhor, sem guerras nem exploração. Se o mito não ilude, perturba, apaga o grito presente no último verso de Sofia para Catarina: “E a busca da Justiça continua”.

(1) Para este texto tenho apenas em consideração as “narrativas” de três abordagens: (i) “Como morreu a ceifeira que ficou na história”, Felícia Cabrita, SOL, 25ABR24; (ii) “Chamava-se Baleizão, Catarina Eufémia”, Paulo Barriga, Público, 19MAI24; e (iii) “Seara Vermelha”, documentário, José Manuel Portugal, RTP1, 17MAI24. Sendo diferentes nos formatos e ângulos de análise, têm todos marcas do que criticamente referimos no artigo: anticomunismo. No mínimo a tentativa de contrapor o discurso do PCP às palavras de familiares e gente que foi próxima de Catarina, mesmo que o texto de Felícia Cabrita o exiba de uma forma despudorada e acintosa.

(2) A peça de Felícia Cabrita exibe na página 11, numa fotografia intitulada “Recortes Imprensa/Regional”, quatro fac-smiles de notícias de jornais sem verificar que são todos recortes de n.ºs do Avante! clandestino!

(3) Página 4 do artigo de Felícia Cabrita atrás referido.

(4) “À memória de Catarina Eufémia, Militante Comunista Alentejana”, de António Gervásio, no livro Catarina de Baleizão, 50 anos depois da morte, Coordenação de João Honrado, Cooperativa Cultural Alentejana, 2004. Ver também neste livro os testemunhos de duas companheiras de Catarina: Antónia da Graça Leandro e Mariana Cascalheira.

(5) “Ocultação”, Expresso online, 09FEV24, Agostinho Lopes.

(6) Neste caso um jornal diário, Público de 24JUL04, em seis páginas e um Editorial sobre Carlos Paredes (ainda o jornal era publicado no formato “Tabloide”) as únicas vezes em que se refere PCP é no fim da peça “Depoimentos”, citando cinco curtas linhas do Comunicado de Secretariado do CC: “A morte de Carlos Paredes constitui uma grande perda para a arte e cultura portuguesa e também para o PCP, do qual era membro desde 1958 e militante generoso até ao fim da sua vida activa”, e na sua biografia: “1958 – É preso pela PIDE – DGS (a polícia política do Estado Novo) sob a acusação de pertencer ao Partido Comunista Português – de que de facto era militante, vindo a ser libertado no final de 1959”. Foram escritos importantes textos de Eduardo Lourenço, Manuel Alegre e Vasco Graça Moura, mas nenhum de qualquer personalidade da área do PCP – não devia haver nenhum! Um Editorial em que não se faz qualquer referência ao seu Partido, o PCP. E pior, no artigo central conseguiram mesmo insultar o seu Partido e o próprio artista: “Carlos Paredes fez da música e da guitarra portuguesa a sua vida. À esquerda e à direita (como???), a “inteligentsia” reivindicava-o como herói da sua causa. Foi vê-lo (a ele e a outros) actuar de graça por esse país fora no rodopio do 25 de Abril, a cantar a “liberdade” e a “justiça” em nome de partidos com poucos escrúpulos. Estava encontrado com despesas reduzidas de manutenção, o embaixador do nosso fado e dos valores tradicionais ou o “porta-voz” das classes desfavorecidas na luta pelos amanhãs que cantam, conforme o exigiam a ocasião e os interesses em causa. Ele existia e tocava, tocava sempre, e isso bastava-lhe”. Não, nunca bastou a Carlos Paredes… que toda a vida percebeu bem a luta e a vida do seu povo e a ela entregou parte importante da sua vida! Parte desta Nota são do artigo “Na morte de um comunista – Máscaras do Anticomunismo”, Agostinho Lopes, Avante!, 29JUL04.

27 Maio 2024

https://expresso.pt/opiniao/2024-05-27-catarina-mito-e-historia--dimensoes-do-anticomunismo-955c7d85

segunda-feira, 8 de março de 2021

Ary dos Santos - Soneto a Catarina


xilogravura de José Dias Coelho

* Ary dos Santos

Vararam-te no corpo e não na força 
e não importa o nome de quem eras 
naquela tarde foste apenas corça 
indefesa morrendo às mãos das feras. 

Mas feras é demais. Apenas hienas 
tão pútridas tão fétidas tão cães 
que na sombra farejam as algemas 
do nome agora morto que tu tens. 

Morreste às mãos da tarde mas foi cedo. 
Morreste porque não às mãos do medo 
que a todos pôs calados e cativos. 

Por essa tarde havemos de vingar-te 
por essa morte havemos de cantar-te: 
Para nós não há mortos. Só há vivos. 

terça-feira, 19 de maio de 2020

Fábio Ferreira - Á Memória de Catarina Eufémia

* Fábio Ferreira


Na cruz da inocência
grita a voz da Memória
á sombra da existência
que canta ainda uma História:

“ nestes campos de Baleizão
que são vermelhos de amor e de traição,
onde o trigo apenas mata a fome
de quem lhe rouba e lhe consome.”

Sempre no mês de Maio
uma andorinha junto das serranas vem chorar
sobre dezanove lágrimas de maio,
e o trigo que nesse dia, não se vai bulhar.

Chama aos gritos as terras do Alentejo
pelo nome que da morte se fez em pão
onde o campo, ao seu corpo deu-lhe um beijo
que foi no vento, espalhado sementes de trigo e compaixão.

A um penedo amargo, foi-lhe dado o nome de carrajola
onde junto dele, a doce Ceifeira cantava a sua fome.
Num acto de raiva e impotência, com a forma de uma pistola
o vil penedo se deu em três violentas fúria de dome.

Nos muros brancos caiados ainda se pode ouvir
a quente e justa voz, da Ceifeira do Alentejo;
onde o seu Coração nas nossas mãos se consegue sentir
e a negra andorinha trás nas suas asas aquele antigo desejo.

Poema de:

Ary dos Santos - Retrato de Catarina

* Ary dos Santos

Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.

Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.

Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.

Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.

José Carlos Ary dos Santos

Sophia de Mello Breyner Anderson - Catarina Eufémia

* Sophia de Mello Breyner Anderson


O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua

domingo, 8 de março de 2020

Ary dos Santos - Vararam-te no corpo e não na força

* José Carlos Ary dos Santos


Vararam-te no corpo e não na força
e não importa o nome de quem eras
naquela tarde foste apenas corça
indefesa morrendo às mãos das feras.


Mas feras é demais. Apenas hienas
tão pútridas tão fétidas tão cães
que na sombra farejam as algemas
do nome agora morto que tu tens.


Morreste às mãos da tarde mas foi cedo.
Morreste porque não às mãos do medo
que a todos pôs calados e cativos.


Por essa tarde havemos de vingar-te
por essa morte havemos de cantar-te:
Para nós não há mortos. Só há vivos.


JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Sofia de Mello Breyner - Catarina Eufémia

* Sofia de Mello Breyner



O primeiro tema da reflexão grega é a justiça

E eu penso nesse instante em que ficaste exposta

Estavas grávida porém não recuaste

Porque a tua lição é esta: fazer frente



Pois não deste homem por ti

E não ficaste em casa a cozinhar intrigas

Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres

Nem usaste de manobra ou de calúnia

E não serviste apenas para chorar os mortos



Tinha chegado o tempo

Em que era preciso que alguém não recuasse

E a terra bebeu um sangue duas vezes puro



Porque eras a mulher e não somente a fêmea

Eras a inocência frontal que não recua

Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste

E a busca da justiça continua



Publicado em Dual, 1972, transcrito de Obra Poética, Editorial Caminho, Lisboa, 2011.

sábado, 9 de março de 2013

Era de noite e levaram, Catarina

AO RETRATO DE CATARINA
 (Carlos Aboim Inglez)


 Esses teus olhos enxutos
Num fundo cavo de olheiras
Esses lábios resolutos
Boca de falas inteiras
Essa fronte aonde os brutos
Vararam balas certeiras
... Contam certa a tua vida
Vida de lida e de luta
De fome tão sem medida
Que os campos todos enluta

Ceifou-te ceifeira a morte
Antes da própria sazão
Quando o teu altivo porte
Fazia sombra ao patrão
Sua lei ditou-te a sorte
Negra bala foi teu pão
E o pão por nós semeado
Com nosso suor colhido
Pelo pobre é amassado
Pelo rico só repartido

Tanta seara continhas
Visível já nas entranhas
Em teu ventre a vida tinhas
Na morte certeza tenhas
Malditas ervas daninhas
Hão-de ter mondas tamanhas
Searas de grã estatura
De raiva surda e vingança
Crescerão da tua esperança
Ceifada sem ser madura

Teus destinos Catarina
Não findaram sem renovo
Tiveram morte assassina
Hão-de ter vida de novo
Na semente que germina
Dos destinos do teu povo
E na noite negra negra
Do teu cabelo revolto
nasce a Manhã do teu rosto
No futuro de olhos posto
 
 
*****
 

Rosa de Sangue
(António Ferreira Guedes)
.
 
Os olhos dos camponeses
são fogos na madrugada
Mal o seu corpo tombou
a noite ficou cerrada.
...
Tiros soaram longe
no silêncio da campina
Rosa de sangue brotou
dos seios de Catarina.

Maduro se faz o trigo
em terra sem ser regada
Quem no sangue semeou
há de colher uma espada.

Os olhos dos camponeses
são fogos na madrugada
Mal o seu corpo tombou
a noite ficou cerrada.


 
 
 *****
Luísa Basto.
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 






 
 
CANÇÃO DE CATARINA
(Papiniano Carlos)


Na fome verde das searas roxas
Passeava sorrindo Catarina
Na fome verde das searas roxas
Ai a papoila cresce na campina!
Na fome roxa das searas negras
Que escondes, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
Ai devoraram corvos o horizonte!

Na fome negra das searas rubras
Ai da papoila, ai de Catarina!
Na fome negra das searas rubras
Trinta balas gritaram na campina

Trinta balas te mataram a fome

A fome, Catarina
 
 
~~~~~~~~~~~~~~
 
ERA DE NOITE E LEVARAM
(Luís Andrade)
 
Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia

Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria

Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que na casa havia
na casa havia, na casa havia

Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia
casa vazia, casa vazia

Rosa branca, rosa fria
Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada

Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada, na madrugada
 
 
 
 *****
 
ABANDONO (FADO DE PENICHE)
(David Mourão-Ferreira)
 
Por teu livre pensamento
foram-te longe encerrar.
Tão longe que o meu lamento
não te consegue alcançar.
E apenas ouves o vento.
E apenas ouves o mar.

Levaram-te a meio da noite:
a treva tudo cobria.
Foi de noite, numa noite
de todas a mais sombria.
Foi de noite, foi de noite,
e nunca mais se fez dia.

Ai dessa noite o veneno
persiste em me envenenar.
Ouço apenas o silêncio
que ficou em teu lugar
Ao menos ouves o vento!
Ao menos ouves o mar!
 

*****
 

À MEMÓRIA DE CATARINA EUFÉMIA

(Alexandre O'Neill)

 Podes mudar de nome, carrajola
 pôr umas asas brancas, arvorar
... um ar contrito,
 dizer que não, que não foi contigo,
 disfarçar-te de andorinha, de sobreiro ou de velhinha,
 podes mudar de nome, carrajola,
 de aldeia, de vila ou de cidade
— és como um percevejo num lençol!


 Quando tivermos Portugal nos braços
 e pudermos amá-lo sem sofrer,
 quando o Alentejo se puser a rir,
 Catarina Eufémia, minha irmã,
 então o teu filho há-de nascer!




O’Neill, Alexandre, Coração Acordeão, Lisboa: O Independente, 2004

(previamente publicado na Flama, 24 de Maio de 1974)
http://asfolhasardem.wordpress.com/2011/01/04/alexandre-oneill-um-poema-que-circulou-na-clandestinidade/
 
 
 

*****
.
Portugal ressuscitado
(José Carlos Ary dos Santos)
.
(...)
Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.
Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.
(...)
.
Podes ouvir aqui este excerto, na voz de Ary dos Santos
.
`*****
.



Cartaz para a libertação dos presos políticos no Chile de Pinochet


Forte de Caxias


 
Campo de Concentração do Tarrafal - a frigideira


 
Libertação dos presos políticos, que a Junta de Salvação Nacional presidida por Spínola tentou impedir, ao mesmo tempo que tentava manter a PIDE e a proibição dos partidos políticos, incluindo o PCP





sexta-feira, 8 de março de 2013

Catarina, o Pintor morreu !

Victor Nogueira a Sexta-feira, 8 de Março de 2013 às 21:48
 
 
CANTAR ALENTEJANO
Vicente Campinas*
.
 
Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer
Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou
Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou
Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti
Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar
.
.
* Este poema foi musicado por José Afonso, no álbum «Cantigas de Maio», editado no Natal de 1971
Podes ouvi-lo a seguir
.
 
*****
-
-
RETRATO DE CATARINA EUFÉMIA
José Carlos Ary dos Santos
.
 
Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.
Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.
Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do solna culatra da noite.
.
Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.
 
 
*****
.
CATARINA EUFÉMIA
Sophia de Mello Breyner Anderson
.
 
O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua.
 
 
*****
 
.
Margem Sul (canção Patuleia)
Urbano Tavares Rodrigues
.
Ó Alentejo dos pobres
Reino da desolação
Não sirvas quem te despreza
É tua a tua nação. 
.
Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte.
 .
Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas d'angústia em botão
Dor cerrada em Baleizão.
.
Ó margem esquerda do verão
Mais quente de Portugal
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal.
 .
A foice dos teus ceifeiros
Trago no peito gravado
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada.
 .
Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas d'angústia em botão
Dor cerrada em Baleizão.
.
Podes ouvir aqui interpretado por Adriano Correia de Oliveira
-


.
.
Catarina Eufémia (1928 – 1954)
Personifica o exemplo de coragem e tenacidade na luta pela liberdade. Trabalhadora rural, Catarina Eufémia reivindicava pão e melhores salários quando foi assassinada em terras de Baleizão pelas forças do regime salazarista. Viviam-se tempos difíceis no Alentejo. Com condições de vida precárias, os camponeses [assalariados rurias] saíram à rua para protestar. Catarina Eufémia - que se supõe ter sido militante comunista - liderava o movimento. Era o símbolo da dedicação aos ideais, como a justiça e a igualdade, um símbolo da resistência do proletariado rural alentejano à repressão e à exploração do salazarismo e, ao mesmo tempo, um símbolo do combate pela liberdade e da emancipação da mulher portuguesa. A sua trágica história tornou-se numa lenda e inspirou vários poetas ao longo de décadas.
.
Todo o país estava em luta. Os trabalhadores sofriam a repressão e a exploração económica. Lutavam por condições mais dignas e melhores salários. Sentiam na pele o regime ditatorial de Salazar. No Alentejo, os trabalhadores agrícolas estavam em greve. Já se recorria a mão-de-obra de outras zonas do País que se sujeitava às condições precárias que ofereciam os empresários. A década de 50 foi um período de grandes tensões sociais. E a PIDE estava à espreita, assim como a GNR, que tinha postos nas próprias herdades.
.
Em 19 de Maio de 1954, a situação agravou-se. Os assalariados rurais de Baleizão abordaram abertamente um grupo de trabalhadores recém-chegados para que, também eles, reivindicassem melhores condições de trabalho. Os ânimos aqueceram. Catarina Eufémia, uma ceifeira analfabeta, estava à frente do movimento. Mulher de coragem e determinação, lutava por uma sociedade mais justa e, como a própria afirmava, por “pão e trabalho”. Ao ser abordada pelo tenente Carrajola, da GNR, Catarina respondeu com autoridade. No mesmo momento levou vários tiros e morreu. Tinha 26 anos e três filhos. Crê-se que estava grávida. A notícia chocou o País. Catarina Eufémia morreu como uma resistente, exigindo mais dignidade para os trabalhadores agrícolas.
.
[Não me parece que a censuira permitisse a notícia da morte de Catarina, assim como não noticiava as lutas e reivindicações dos trabalhadores - VN]  (...)
.
retirado do site da RTP - Concurso Os Grandes Portugueses
.
Foto de Catarina
litogravura de José Dias Coelho, dirigente do PCP assassinado pela PIDE em 1961 [1] 
.
Publicada por Victor Nogueira à(s) Sexta-feira, Fevereiro 23,
.
2007   http://kantoximpi.blogspot.pt/2007/02/cantar-alentejano-vicente-campinas.html
.

~~~~~~~~~~~~

.
José Dias Coelho, escultor, militante e dirigentte do PCP, forçado à clandestinidade, foi assassinado pela PIDE em 19 de Dezembro de 1961. É dele que fala .Zeca Afonso - A Morte Saiu À Rua
  .     
 
A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai
O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o Pintor morreu
Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou
Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada à covas feitas no chão
E em todas florirão rosas de uma nação
.
 ~~~~~
Podes ouvi-lo aqui


 
.*****
 

Catarina Eufémia (1928-1954) - assassinada pela GNR a 19 de Maio (Baleizão)
 

 
José Dias Coelho (1923-1961) - assassinado pela PIDE a 19 de Dezembro /Lisboa)



 
Assassinato de Catarina Eufémia, litogravura por José Dias Coelho