Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
terça-feira, 2 de junho de 2026
Bruno Carvalho - A rapaziada de vermelho
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Manuel Augusto Araújo - BOA EDUCAÇÃO, MÁ EDUCAÇÃO
▪️Manuel Augusto Araújo
O alvoroço, o que os transtorna, é a eventualidade de verem sentado no Palácio de Belém um demagogo manipulador sem escrúpulos e sem os tiques de falsa erudição de Cotrim para mascarar as suas demagogias.
As eleições presidenciais, ultrapassada a primeira volta, com algumas notas que merecem referência, entre os candidatos do consenso neoliberal – como o classificou certeiramente António Filipe, ainda que esse consenso seja variável e tenha vários matizes –, a segunda volta entre um candidato pouco entusiasmante, coleccionador de banalidades atérmicas ditas consensuais e um outro que é um demagogo manipulador sem escrúpulos, provocou um sobressalto entre barões assinalados de vários quadrantes políticos, que porém não demoveu partidos políticos como o PSD, CDS, IL de se entricheirarem numa neutralidade entre os dois candidatos, apesar de um ser manifestamente contra a democracia como está inscrita na Constituição, no que é acolitado pela IL, com o objectivo indisfarçado de a rever para recuperar os três salazares, o estado de sítio do salazarismo-fascista actualizado aos ventos da história.
Como vivemos um tempo dominado pelas máquinas mediáticas difundidas e controladas pelas oligarquias que favorecem as direitas, o seu avanço transnacional conquista cada vez mais espaço e relevância, por todo o mundo e por esta nossa periferia. Nesse ambiente, em linguagem modernaça nesse ecossistema, multiplicam-se os debates entre os candidatos mas o que mais se sobreleva são os comentadores que nas suas inúmeras chalras procuram um vencedor e um perdedor, em que a argumentação política de cada um dos intervenientes, muitas vezes intencionalmente condicionada a favor de um dos contendores pelos moderadores, é atirada para segundo plano, numa simulação de que se está a discutir política quando de facto o que se promove é a despolitização afundada no destaque concedido à capacidade argumentativa mesmo que utilize as mais evidentes mentiras, meias verdades, manipulações factuais, todo o arsenal sobretudo de políticos dispostos a os usarem sem pejo. A generalidade dos comentadores classifica as performances, não a validade dos argumentários, pelo que não espanta que em relação a André Ventura até se tenha ouvido elogiar a sua eficácia em fixar o seu eleitorado, mesmo angariar alguns nos terrenos da direita, ainda que tenha repetido sem um segundo de intervalo a mesma cassete bem ornada de falsificações, como é seu timbre.
A persistência desta situação amplifica-se com uma inusitada surgência de politólogos, cientistas (?) políticos, investigadores (?) de comunicação política e afins que florescem entre as hordas dos encartados, há sempre um a cada esquina. Uma dessas personagens consegue entrever, no último debate entre os dois candidatos frente a frente na segunda volta «que não houve neste debate nenhuma posição que seja insanável em termos de convívio futuro (…) provavelmente, estas duas figuras vão encontrar-se no futuro e trabalhar juntas mas em circunstâncias diferentes – e, muito provavelmente, com Seguro como Presidente da República e talvez ainda com Ventura como primeiro-ministro. De facto, vemos que há essa noção ali implícita». De facto o confronto foi temperado, até por via dos hibernados moderadores, mas apesar da baixa temperatura e do mal-estar da democracia que está a degenerar, que se está a auto-corroer pelos vírus fascistas, pelos autoritarismos que saem debaixo dos tapetes, que entram pelas suas frinchas, o que para esta não sei quê politóloga configura uma normalidade futura, ainda que não seja expectável no imediato que o Chega alcance uma maioria, ou uma maioria numa qualquer espúria coligação, que coloque André Ventura em primeiro-ministro.
A banalização dos tiques fascizantes do Chega, também até mais da IL, essa pela via das etiquetas de boas maneiras e tiques corporativos, transparece como uma evidência nos copiosos grupos de falantes com acento fixo ou variável nos meios de comunicação social, em que uma boa parte são professores(as) universitários(as) com vários doutoramentos e pós-graduações, como actualmente é costumeiro e vezeiro nas misérias académicas, sobretudo nas áreas das ciências humanas, que proliferam nas universidades por todo o mundo e arredores onde nos situamos, em que é dominante a esterilidade do pensamento político reduzido a uma quase paródia, como tem sido exposto pelo que subsiste de pensadores sólidos da elite democrática e progressista como Georges Steiner, Noam Chomsky, Russell Jacoby, Edward Bernays, Domenico Losurdo, Edward W. Said, Sheldon S. Wolin, Zachary Karabell, Chris Hedge, Julien Benda ou István Mészaros.1
«A generalidade dos comentadores classifica as performances, não a validade dos argumentários, pelo que não espanta que em relação a André Ventura até se tenha ouvido elogiar a sua eficácia em fixar o seu eleitorado, mesmo angariar alguns nos terrenos da direita, ainda que tenha repetido sem um segundo de intervalo a mesma cassete bem ornada de falsificações, como é seu timbre.»
Outra das reacções a uma segunda volta das presidenciais entre António José Seguro e André Ventura, foi a da rejeição do segundo, com até declarado apoio ao primeiro, por muitos independentes mas também, como já se referiu, por muitos dos barões assinalados dos partidos que declararam neutralidade. Houve quem embandeirasse em arco e muito fogo de artifício, afirmando mesmo um habitual escriba de um jornal dito de referência, queira o que queira isso dizer ou não, que também é presença assídua nos ecrãs televisivos onde tartamudeia lugares comuns como se fossem detalhadas cerebralizações, proclamando que chegamos ao tempo em que a direita deixou de ser «fascista», acrescentando quase orgasticamente que «a direita democrática, ou a área "não-socialista", dá uma bofetada com luva branca à esquerda panfletária que a continua a olhar como "fascista". Quando, e se, a qualidade da democracia voltar a estar em causa, sabemos que há portugueses de bem a dar a cara para os defender». É a leitura mais mediocremente simplista em que subjaz uma básica conjectura direitolas.
O que será a «esquerda panfletária»? Não devemos errar muito, pelo andar da carruagem da figura, que, sem muita coragem para o nomear, se esteja a referir ao PCP, o qual chama fascista ao que é fascista, reaccionário ao que é reaccionário, direita ao que é direita, extrema-direita ao que é extrema-direita, não se deixa enrodilhar no linguajar pós-moderno dos populismos, das democracias iliberais, mas sempre soube e assim o demonstrou ao longo da sua longa história de luta pela democracia e pelas amplas liberdades, distinguir mesmo entre os reaccionários e os de direita não os metendo indistintamente no mesmo saco. O que ele não entende – é o problema da escassez das tão celebradas por Poirot celulazinhas cinzentas –, porque atesta de forma parvóide a morte do fascismo. Escasseia-lhe entendimento para perceber os avisos de Umberto Eco que explicava que o fascismo não é um sistema fechado, é um fenómeno psicológico e cultural — o «Ur-Fascismo» – que pode ressurgir sob novas roupagens, mesmo em tempos de democracia, e que quando voltar fascismo não dirá «eu sou o fascismo», dirá «eu sou a liberdade». Tal como não ouviu um personagem do filme de João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne, 1997, com uma frase premonitória, de uma implacável lucidez: «hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas».
Os neo-fascistas dispensam os desfiles militarizados dos camisas negras, castanhas, azuis, verdes, mesmo quando exibem motoserras não tiram as gravatas, dispensam o arregaçar as mangas, mantêm intactos os seus sinistros objectivos, a tipologia dos seus financiadores destacados capitalistas, muitos deles com negócios obscuros, alguns sob a alçada da justiça, apesar de bem se saber que o direito é sempre o direito dos mais fortes à liberdade. Na praça pública, em que a comunicação social cada vez mais nas mãos das oligarquias lhes concede excessivo tempo de antena, continuam seguidores das principais palavras de ordem dos fascismos históricos, reactivadas, assimiladas e actualizadas pelas exigências e modas contemporâneas, com variantes em conformidade com a sua inserção territorial, de que é exemplo a generalizada islamofobia ser ou não associada ao ódio aos ciganos.
A difusão do neofascismo, mais puro e duro ou mais difuso, está a marcar o nosso tempo e com ele a alargar a imparável mancha de óleo do filisteísmo, do farisaísmo, das banalidades estereotipadas e quotidianas, das falsas notícias instituídas como norma, a mais completa submissão aos poderes que se dizem querer subverter, com o truque de se apresentarem como anti-sistema, quando são os mais radicais defensores do sistema para que este se torne ainda mais presente e activo em atendimento das especulações do grande capital. Sistema mais ou menos brutal conforme as circunstâncias. Decretar a morte do fascismo é cegar-se voluntariamente, na realidade é pago para isso, perante a desmesurada presença do gauleiter do Chega na comunicação social escrita, televisiva, radiofónica, para sustentar a sua tese de que «o que está em jogo, nisso têm razão os apologistas de Ventura, não é uma ameaça do fascismo (...) Nada em André Ventura ou no Chega se conjuga para impor um programa totalitário com milícias de camisa negra ou castanha a marchar no compasso das coreografia marciais. No que não têm razão é negarem que André Ventura e o seu programa são apenas uma manifestação normal da democracia». Aqui entronca uma questão de fundo que é perante o risco de Ventura se eleger Presidente da República concluir que «a direita democrática esteve à altura das suas responsabilidades num momento crítico da democracia.» Mais uma simplificação, em boa verdade não se lhe pode exigir mais. O momento é crítico para a democracia tal como António Guerreiro, numa das suas crónicas no Ypsilon, sublinhou: « o que já está a acontecer com a democracia: a pós-democracia já começa a ser um conceito pouco útil e já há quem coloque a hipótese da “des-democracia” (devemo-la às análises da autoria da norte-americana Wendy Brown, professora de Ciência Política na Universidade da Califórnia).
A desdemocracia já se manifesta de outra maneira que não é a de um mal-estar da democracia: não é um mal infligido por causas exteriores, mas uma doença interna que decorre do seu desenvolvimento interior. A ascensão de sentimentos fascistas e o desejo autoritário, isto é, de uma ordem governada por uma personalidade autoritária (fazendo coincidir a política com uma psicologia), configuram uma desdemocracia em curso, uma democracia que se está a desfazer a partir do seu interior, num processo de degenerescência que faz nascer o desejo autoritário». Quando por cá se permite a construção de um partido que é declaradamente contra a Constituição, que reiteradamente não cumpre decisões do Tribunal Constitucional, há que questionar este súbito despertar democrático.
«Na praça pública, em que a comunicação social cada vez mais nas mãos das oligarquias lhes concede excessivo tempo de antena, continuam seguidores das principais palavras de ordem dos fascismos históricos, reactivadas, assimiladas e actualizadas pelas exigências e modas contemporâneas, com variantes em conformidade com a sua inserção territorial, de que é exemplo a generalizada islamofobia ser ou não associada ao ódio aos ciganos.»
Coloque-se uma hipótese: se em vez de André Ventura o adversário de António José Seguro fosse Cotrim Figueiredo, o repúdio desses barões assinalados seria o mesmo? No entanto tanto Ventura como Cotrim pugnam por uma profunda revisão constitucional, chegaram mesmo a propor um pacto com esse objectivo, que aplainasse a democracia tal como está instituída, preconizando formas mais autoritárias. Ambos são favoráveis à privatização do que ainda resta por privatizar e nisso Cotrim até é mais vocal. Os direitos sociais, económicos e políticos são para Ventura esmurrar e Cotrim motoserrar. Cotrim poderia eventualmente ter contra ele um alegado e não provado caso de assédio sexual, que no Portugal coutada do macho ibérico, como um ilustre juiz despachou num julgamento de violação de duas jovens estrangeiras que estavam a pedi-las, qualquer mulher só por ser mulher está sempre a pedi-las, não lhe deveria desgastar substancialmente os apoios. Se fosse Cotrim em vez de Ventura haveria algum similar sobressalto democrático? Cotrim que, não passando à segunda volta, também não se demarcou de extrema-direita, preferindo avisar sobre os riscos de se ter um presumível perigoso socialista em Belém.
O alvoroço, o que os transtorna, é a eventualidade de verem sentado no Palácio de Belém um demagogo manipulador sem escrúpulos e sem os tiques de falsa erudição de Cotrim para mascarar as suas demagogias. O que os perturba e assusta é a eventualidade de, num jantar num qualquer Palácio da Ajuda, abancar um Presidente da República que se desbrague em discursos carregados de impropérios, que confunda os talheres de carne com os de peixe, não distinga copos de vinho tinto dos de vinho branco, que no limite até limpe os beiços com a gravata. Por detrás do pano de fundo deste vasto bater de tambores, da direita à esquerda, com declarados apoios a Seguro, os partidos políticos em que se inscrevem o façam entricheirando-se numa neutralidade oportunista, não vá o diabo tecê-las e muitas dessas tessituras até se encontram.
Uma última e muito reveladora observação é o silêncio desses partidos e personalidades sobre a Operação Irmandade da PJ que investigou o grupo neo-nazi 1143, a qual não lhes provocou grande indignação pública, tal como nem timidamente invectivaram o candidato presidencial Ventura que acaba por considerar essa bandidagem seus eleitores, apoiantes, mesmo companheiros de estrada, como foi evidente na sua última entrevista na RTP. O que se poderá concluir? É que o muito festejado e celebrado consenso entre direitas e esquerdas em torno da escolha que está em causa está muito mais ancorado entre a má educação de um candidato e a boa educação do outro do que na defesa da democracia tal como a vivemos, com todos os défices acumulados em anos de governos PS, PSD, CDS. Um candidato à direita, com os mesmos princípios e objectivos, mas mais palatável que Ventura, não produziria esta sucessão de declarações, o que de algum modo implode a pulsão democrática que tanto excita essa turbamulta de comentadores e jornalistas. Há que enfatizar que, depois de anos e anos a perorar sobre o desaparecimento de direitas e esquerdas, agora lembram-se que essa diferenciação sempre existe e está para durar, a que se adicionam todos os outros que, quando declaram não ser de direita nem esquerda, são obviamente de direita.
Merece ainda destaque as intranquilidades dos intelectuais orgânicos na hipótese de André Ventura ter o apoio de um em cada quatro portugueses depois de se ter comemorado os 50 anos do 25 de Abril, interrogando-se mesmo onde é que se terá falhado! Não sabem? Há muito para lembrar-lhes, sem colocar qualquer dúvida sobre o seu empenho democrático, principalmente porque nestes 50 anos ocuparam lugares importantes nas instituições democráticas e foram dos que mais presença assídua tiveram nos meios de comunicação social. É bom auxiliarmos a sua memória.
▪️1.Refiram-se, entre outros, Russell Jacoby, The Last Intellectuals: American Culture in the Age of Academe, Basic Books, 1987; Edward Bernays, Propaganda, Comment Manipuler l'Opinion en Democratie, La Découverte, 2007; Zachary Karabell, What's College For? The Strugle to Define the American Higher Education, Basic Books, 1998; Edward W. Said, Des Intellectuels et du Pouvoir, Seuil, 1996; Noam Chomsky, Mudar o Mundo, Bertrand, 2014; Domenico Losurdo, Critique de l’apolitisme. La leçon de Hegel d’hier à nos jours, Delga 2014; Frank Furedi, Where are the Intellectuals Gone? Cofronting 21th century Philistinism, Continuum, 2004; Sheldon S. Wolin, Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism, Princeton University Press, 2008; István Mészáros, A teoria da alienação em Marx, Boitempo, 2016, Chis Hedges, La Mort de l'Élite Progressiste, Lux Futur Proche, 2012.
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«Golconda», de Rene Magritte, 1953Créditos/ The Menil Collection, Houston
03 de Fevereiro de 2026
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quarta-feira, 26 de novembro de 2025
Jorge Seabra - Carlucci e Companhia
Se a preparada
resposta à engendrada «intentona da esquerda» de 25 de Novembro tivesse «dado
para o torto» com a derrota da direita, haveria uma solução à chilena, com
aviões vindos do Norte a bombardearem Lisboa, «a vermelha».
Créditos/
Jornal de Negócios
Voltar ao passado pode parecer fútil num tempo em que se desenrolam
importantes lutas pela reposição de direitos do trabalho e já cheio de
temas «fracturantes», que um amigo, com humor, diz serem uma questão
ortopédica.
Contudo, as memórias podem ajudar a perceber como algumas forças políticas
se alinharam em tempos idos, escondendo, debaixo de um manto diáfano de belas
frases, objectivos estratégicos ligados aos piores interesses.
Vem isto a propósito do recente falecimento de Frank Carlucci, antigo
embaixador americano em Portugal entre 1975 e 78, indo depois ocupar o cargo de
Director-adjunto da CIA (78-81).
«Durante o longo tempo em que esteve em Portugal, criou, com o futuro
Presidente Mário Soares, uma cumplicidade estratégica essencial», – declarou o
Presidente Marcelo, também ele um amigo de Frank Carlucci.
Na realidade, Carlucci esteve só três anos como embaixador em Portugal mas
foi, de longe, o mais famoso de todos. E a forma como se fala dele é, agora,
muito diferente.
«Cumplicidade estratégica» entre Carlucci e Mário Soares?...
Nos anos 70, se alguém o dissesse, corria o sério risco de ser apelidado de
mentiroso, radical, sectário comunista! Mesmo o jovem Marcelo, ainda a
adaptar-se à mudança por ter vivido sempre «encostado» à ditadura,
talvez dissesse que nem conhecia o ianque…
A ligação aos USA e à CIA, então implicados no sangrento golpe de Pinochet,
no Chile (1973), queimava. O presidente eleito, Salvador Allende, e a via
pacífica para uma sociedade mais justa de matriz socialista, sucumbiam à
violência da CIA que supervisionou a imposição de uma brutal ditadura.
Um ano depois, em Portugal, a Revolução do Cravos, punha de novo o povo a
berrar «o povo unido jamais será vencido» e outras coisas acabadas de
silenciar à bala no Chile.
Para os USA, era mais uma intolerável chatice. Agora na Europa. Lá teria a
CIA de fazer as malas e vir tratar do assunto. E foi o que fez. Demitiu o
embaixador «normal» e enviou para cá um dos seus mais qualificados agentes em
assuntos «especiais».
Carlucci era o homem. Tinha estado no Congo onde desempenhara um papel
principal no assassinato de Lumumba, o mítico dirigente nacionalista africano,
admirado em todo o mundo.
Obedecendo a Eisenhower (Robert Johnson, membro do National Security
Council, confirmou depois ter ouvido o presidente dos USA dar a ordem para
matar o primeiro-ministro congolês), Carlucci foi enviado para o Congo para
tratar do assunto.
A CIA chegou a pensar usar armas químicas (método que agora se diz ser uma
marca dos russos), mas o crime resolveu-se com a ajuda de belgas e catangueses.
«Do calor sanguinário do Congo,
Frank Carlucci voou para o Brasil "ainda a tempo de ajudar a derrubar o
governo de João Goulard" (The strange career of Frank
Carlucci – Francis Schoor), que ameaçava aumentar os salários e
nacionalizar as principais indústrias.»
O desaparecimento de Lumumba serviu para os americanos imporem Mobutu, um
exemplo de democrata que matou todos os que vagamente se lhe opuseram na
delapidação das riquezas do país. Anos depois, como detalhou a revista Afrique-Asie, a sua fortuna pessoal (incluindo um
palacete isolado, frente ao mar, no Algarve), correspondia a toda a dívida
externa do país.
Do calor sanguinário do Congo, Frank Carlucci voou para o Brasil «ainda a
tempo de ajudar a derrubar o governo de João Goulard» (The strange career of Frank Carlucci – Francis
Schoor), que ameaçava aumentar os salários e nacionalizar as principais
indústrias.
A CIA apoiou e financiou os generais golpistas de extrema-direita (Ranieri
Mazilli , Castelo Branco, Costa e Silva, Medici, Geisel e João Figueiredo), que
instalaram um longo período de ditadura. E Carlucci lá estava a ajudar o Brasil
a libertar-se de «comunas», intelectuais e cantores, manifestando mais uma vez
o seu amor pela democracia, com prisões, torturas e assassinatos da «Operação
Condor», aproveitando para aprender o português.
Mas talvez essa questão fosse secundária, até porque Carlucci era um homem
habituado a riscos que, de resto, em Portugal e em Janeiro de 75, nem eram
demasiados.
A explicação será mais pragmática. Madrid era o ponto de encontro dos
opositores à Revolução dos Cravos, onde se urdiam as conspirações do ELP
(«Exército de Libertação de Portugal»), do pide Barbieri Cardoso, e do
MDLP («Movimento Democrático de Libertação de Portugal»), de Spínola, que
queriam «libertar» a terra-pátria, supostamente dominada pelos «comunas». Era
com eles que Carlucci precisava de começar a trabalhar. Em breve o ar em
Portugal, principalmente a Norte, iria aquecer.
Como sumariza Jorge Sarabando, no seu livro O 25 de
Novembro a Norte (que, com o de Miguel Carvalho, Quando Portugal Ardeu, constituem leituras obrigatórias
para perceber o que se passou), «a estratégia delineada, sem nada de
inteiramente novo que já não tivesse sido experimentado em outros teatros de
operações, foi adaptada às circunstâncias, às forças em presença e ao perfil
dos actores no terreno. Captar apoios militares, dividir o MFA e o movimento
popular, impedir a coordenação dos centros de decisão, promover a sabotagem
económica e a fuga de capitais, utilizar a chantagem económica e militar
internacional, financiar organizações patronais e sindicais divisionistas,
controlar a comunicação social, incentivar a instabilidade e o descrédito das
instituições no quadro de uma escalada de insegurança e de tensão. Em pano de
fundo, a defesa da liberdade supostamente ameaçada.»
Logo a 11 de Março de 75 deu-se o golpe falhado de Spínola, fugindo aos
hábitos mais organizados de Carlucci. Mas o «Verão Quente» estava a chegar já
com o trabalho adiantado, com os padres a pregarem contra os vermelhos e o
terrorismo das bombas do ELP e do MDLP a incendiarem e matarem à esquerda, tudo
enquadrado na «cumplicidade estratégica essencial» de Carlucci com
Soares, forjada «numa pequena cúpula do telhado da embaixada», longe dos
olhares dos portugueses.
«Madrid era o ponto de encontro
dos opositores à Revolução dos Cravos, onde se urdiam as conspirações do
ELP ("Exército de Libertação de Portugal"), do pide Barbieri Cardoso,
e do MDLP ("Movimento Democrático de Libertação de Portugal"), de
Spínola, que queriam "libertar" a terra-pátria,
supostamente dominada pelos "comunas". Era com eles que Carlucci
precisava de começar a trabalhar.»
«O doutor Soares e eu passávamos muitas horas aqui a conversar sobre os
problemas políticos portugueses», disse o ex-embaixador dos USA, numa
entrevista ao Público, em 23-9-2006.
E, entre Maio de 75 e Abril de 77, houve 566 acções terroristas,
contabilizando 310 atentados à bomba, 194 assaltos e incêndios a sedes e
centros de trabalho do PCP e de organizações de esquerda, 16 atentados a tiro.
«Uma onda de fundo do povo português», dirá Soares, englobando toda a
agitação da época. Para além do apoio às bombas e bombistas que aterrorizaram o
país no «Verão Quente» de 75 e a sua coordenação «estratégica» com
manifestações do PS contra a imaginária ameaça da «ditadura comunista»,
Carlucci não se esquece de visitar a hierarquia da igreja que pregava o medo
dos «comunas» que matavam os velhos com injecções atrás da orelha (ao contrário
do que agora votaram).
Entre 3 e 6 de Novembro, nas vésperas do golpe, reúne com os bispos de
Viseu, Vila-Real e Braga. Homem experiente, Carlucci, «pequeno e vivo… um
típico mafioso italiano», na descrição de Soares, apoia também, à socapa, os
super-revolucionários «de esquerda» que combatem os «revisas» do PCP com a
mesma raiva da direita, como o MRPP, a quem encheu de dinheiro.
«São como um saco para onde o dinheiro é atirado, não se sabe por quem, e
retirado à medida das necessidades», como refere, num ensaio, Saldanha Sanches,
então ex-dirigente dissidente da organização.
Em entrevista à «Association for Diplomatic Studies and Training»,
Carlucci, rememorando os seus tempos em Portugal afirmou, divertido: «O MRPP –
Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (sic) –,tomou a estação de
rádio católica, mas foi o Partido Comunista que foi considerado culpado.
Então temos o líder do Partido Comunista Português na televisão a dizer
que não são anti-católicos. Claro que ninguém acreditou!...».
Relatórios americanos desclassificados esclarecem o papel de Carlucci
em Portugal, pela sua própria voz: «Tudo o que a CIA fez foi sob o meu
comando».
E se as coisas tivessem corrido mal no 25 de Novembro? – a pergunta surge
no contexto da entrevista de Carlucci e Soares ao Público. «Honestamente, não tínhamos nenhum plano de
contingência. Soares vai para o Porto, no dia 25. Por estradas secundárias. O
general Lemos Ferreira tinha levado os aviões para o Norte. O general Pires
Veloso comandava as forças militares no Norte e o grupo dos nove conspirava
activamente».
Mas Carlucci admite ao jornal que «havia alguns apoios preparados».
«Sobretudo dos ingleses», diz. Um «simpático» agente do M16, enviado por
Callaghan, estivera em Portugal a ver o que era preciso. «Combustível para os
aviões do Lemos Ferreira. E isso eles podiam garantir.»
Assim se conclui que se a preparada resposta à engendrada «intentona da
esquerda» de 25 de Novembro, tivesse «dado para o torto» com a derrota da
direita, haveria uma solução à chilena, com aviões vindos do Norte a
bombardearem Lisboa, «a vermelha».
Por essa descarada ingerência da CIA em Portugal, então escondida mas
depois elogiada sem pudor por PS,PSD e CDS, Carlucci foi condecorado, em 2004,
por Jorge Sampaio e Santana Lopes, com a grã-cruz da Ordem do Infante Dom
Henrique, e Portas atribuiu-lhe a medalha de Defesa Nacional. «Por relevantes
serviços prestados».
_____________
PS – Apesar do que ainda agora se diz sobre o descalabro financeiro causado pelo «gonçalvismo», uma missão da OCDE que visitou Portugal em finais de 1975 considerou «a economia portuguesa surpreendentemente saudável», com um «desempenho extremamente robusto», atendendo à crise internacional e às mudanças acontecidas. Os Mello, os Champalimaud e os Espírito Santo é que ficaram mais pobres.
13 de Junho de 2018
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O 25 de Novembro e os herdeiros da contra-revolução
terça-feira, 7 de janeiro de 2025
João Fraga de Oliveira - Passagem de Ano?
POR JOÃO FRAGA DE OLIVEIRA TERÇA, 07 DE JANEIRO DE 2025
Não será que, afinal, no primeiro dia do ano de cada novo calendário, a vida neste tal ano «novo» vai continuar a ser apenas mais vida (e, infelizmente, para alguns nem isso…), a mesma vida … «velha»?
Uma das instituições sociais de séculos é a «Passagem de Ano».
Saudável pela participação social e partilha mais ou menos genuína da alegria e diversão, subjazem-lhe, no entanto, dois pressupostos cuja racionalidade é duvidosa: um, é o de que no último milionésimo segundo do último dia de cada ano para o primeiro milionésimo de segundo do ano seguinte há uma separação na vida de cada um e da sociedade; o outro pressuposto é o de que, então, há uma «passagem» para um outro tempo «novo» que sempre almejamos melhor («Bom», «Feliz», «Próspero»…) e não só mais tempo, o mesmo tempo.
Se bem que, afinal, quanto à classificação («velho», «novo») e separação dos anos, não surpreende, visto que tendemos a classificar tudo, a separar tudo:
- Separamos o passado do presente e este do futuro, quando sabemos (aprendemos com George Orwell) que o futuro é o passado que fizemos, tal como o presente é o futuro que quisermos;
- Separamos, por «idades», a própria vida em si: a idade da infância da idade da adolescência, esta da maioridade e, por sua vez, esta da idade maior, da velhice. Quando sabemos que, verdadeiramente, não existe na vida separação, mas sim íntima continuidade e interdependência entre estas idades humanas.
- Separamos a vida da morte, quando sabemos que a morte faz parte da vida e mesmo que, quando vimos (como já vimos) uma mãe (clinicamente) morta a dar à luz um bebé, a vida faz parte da morte;
- Separamos a saúde da doença, quando sabemos (aprendemos com a Organização Mundial de Saúde) que «saúde não é só a ausência de doença…»;
- Separamos a vida do trabalho, quando sabemos que a trabalhar, a «ganhar a vida», almejamos também ganhar vida (pela realização e integração profissional, pessoal e social) e não perder (ir perdendo, na doença) vida e, muito menos, num instante, perder (num acidente) a vida;
- Separamos a casa do trabalho, quando sabemos que «levamos» a casa (preocupações, pré-ocupações, pós-ocupações…) para o trabalho, tal como, até literalmente tantas vezes, levamos (o) trabalho para casa;
- Separamos o Homem da Natureza, quando sabemos que a natureza do Homem é fazer parte da Natureza;
- Separamos a Terra da Humanidade, quando sabemos que sem Terra não há Humanidade;
- Separamos e até abolimos, vamos abolindo (nas atitudes, nos comportamentos, nos propósitos, nas decisões e acções individuais ou colectivas e políticas), a humanidade da/na Humanidade, quando sabemos (aprendemos com Teixeira de Pascoaes) que «se eliminarmos a palavra humanidade ficaremos todos cobertos de pêlos num instante»;
- Separamos a economia da sociedade, quando sabemos (por exemplo, por Karl Polanyi e pelo Papa Francisco) que a economia, como ciência social que é – deve ser –, ou também é (para) a sociedade ou deixa de ser economia (para passar a ser mero economicismo);
- Separamos os pobres dos ricos, quando sabemos que «os pobres são pobres, porque os ricos são ricos» (e vice-versa);
- Separamos os negócios da amizade («amigos, amigos, negócios à parte»), quando sabemos que cada vez mais a própria amizade é objecto de negócio e que, assim, até são certas «amizades» que possibilitam grandes negócios (atas);
- Separamos o que dizemos do que fazemos, quando sabemos (aprendemos com Frei Tomás ...) que pouco diz o que dizemos se contraria o que (não) fazemos, tal como sabemos que pouco faz (se é que não desfaz) o que fazemos se contraria o que dizemos;
- Separamos o que somos do que fazemos, quando sabemos (aprendemos com Eduardo Galeano) que «o que somos é o que fazemos para mudar o que somos»;
- Separamos a teoria da prática, quando sabemos que não há melhor teoria do que uma boa prática e vice-versa;
- Separamos o caminhar do caminho, quando sabemos (aprendemos com António Machado) que «o caminho faz-se caminhando».
Separamos isto tudo e então, por esta altura, neste como em todos os anos da nossa vida, também, claro, separamos o «Ano Velho» do «Ano Novo».
Mesmo sabendo que «nada é cindível na vida» (citando uma saudosa primeira-ministra portuguesa, Eng.ª Maria de Lurdes Pintassilgo), mesmo sabendo que, como na canção (Sérgio Godinho) e na poesia (e nada há mais verdadeiro do que a poesia, no caso a de Eduardo Guerra Carneiro), «isto anda tudo ligado».
«Ano Velho» e «Ano Novo». Verdadeiramente, separamo-los?
É que então, se estes anos, o «velho» e o «novo», na realidade são inseparáveis, incindíveis, na nossa vida e na da sociedade, que «passagem» há de um para o outro, senão a de um calendário velho para um calendário novo?
Não será que, afinal, no primeiro dia do ano de cada novo calendário a vida neste tal ano «novo» vai continuar a ser apenas mais vida (e, infelizmente, para alguns nem isso…), a mesma vida… «velha»?
«É que então, se estes anos, o "velho" e o "novo", na realidade são inseparáveis, incindíveis, na nossa vida e na da sociedade, que "passagem" há de um para o outro, senão a de um calendário velho para um calendário novo?»
A não ser que entendamos que tempo não é (como não é) algo não meramente abstracto, que tempo é vida (individual, colectiva, social, …), vivência, que tempo é o que se faz (desfaz, refaz, deixa de se fazer…) com ele.
E, assim, «passagem de ano» poderá então não ser apenas mudar de calendário mas, na realidade, mudar de referências, de objectivos, de práticas. Enfim (José Mário Branco), «mudar de vida». Ao que não pode deixar de subjazer mudar apenas mudar de calendário, mas sim, sobretudo, mudar de ideário.
Um ideário que contemple, por exemplo – que não pode ser mais pertinente, porque actual, premente –, a passagem:
- Das desigualdades para a justiça social;
- Da competição desenfreada para a solidariedade;
- Do egoísmo para o altruísmo;
- Do individualismo para o relacionamento e participação social;
- Da exclusão e racismo para a inclusão;
- Da marginalização para a integração;
- Da pobreza para a dignidade das condições de vida;
- Da degradação das condições de trabalho e salários exíguos para o trabalho digno;
- Da exiguidade das (baixas) pensões para a dignidade da velhice e da invalidez;
- Do neoliberalismo para o Estado Social;
- Da mentira para a Verdade;
- Da guerra para a Paz…
Bem, mas de qualquer modo, à meia-noite em ponto de todos os anos, lá paramos (mesmo que a rodopiar alegremente num baile) todos (ou quase todos…) para «separar» o «Ano Novo» do «Ano Velho», para, na alegria (com)participada – o que é saudável – de umas passas, espumoso, música, fogo de artifício, festejarmos, feéricos, a «Passagem de Ano».
Ainda que no dia seguinte, logo um que tanto a isso agora nos empurra (como Dia Mundial da Paz), nos perguntemos: Passagem de Ano? Mesmo?
https://www.abrilabril.pt/nacional/passagem-de-ano
quinta-feira, 11 de julho de 2024
META vai limitar a utilização da palavra «sionismo» para esconder os crimes
11 DE JULHO DE 2024
A empresa de Zuckerberg não vai limitar, no entanto, a palavra «sionismo» se esta for elogiosa e faz uma premeditada confusão conceptual dizendo que esta está a ser usada para discriminar judeus e israelitas. Além do símbolo azul, a META adopta o lápis azul.
A partir de terça-feira, a META passou a limitar nas suas plataformas a palavra utilizada para caracterizar a doutrina racista e de limpeza étnica, o sionismo. A suposta justificação da empresa prende-se com o facto da palavra em questão perpetuar «estereótipos anti-semitas».
Segundo o comunicado do grupo de Mark Zuckerberg, a questão foi analisada no seu «Fórum Político», depois terem sido ouvidas «opiniões» e terem sido analisadas investigações «de diferentes perspectivas». Face a tal, diz o comunicado: «iremos agora remover o discurso que utiliza o termo “sionistas” em várias áreas onde o nosso processo mostrou que o discurso tende a ser utilizado para se referir a judeus e israelitas com comparações desumanizantes».
A empresa diz que a questão que surgiu durante o Fórum Político foi «como tratar as comparações entre termos de substituição para nacionalidade (incluindo sionistas) e criminosos (por exemplo, "os sionistas são criminosos de guerra")». Deste modo, consegue-se apreender que o foco da META é apagar os crimes promovidos pela Governo israelita movido pela doutrina sionista e branquea-los.
A justificação da dona do Facebook e Instagram visa, premeditadamente, criar uma confusão conceptual, já que é dito que «sionismo» é um ataque a outras pessoas «com base nas suas características protegidas, como a sua nacionalidade, raça ou religião».
De acordo com a mesma, foram supostamente consultadas «145 partes interessadas em representação da sociedade civil e do meio académico do Médio Oriente e de África, de Israel, da América do Norte, da Europa, da América Latina e da Ásia», sendo que os nomes não são revelados. As tais partes interessadas incluíram, alegadamente, «cientistas políticos, historiadores, juristas, grupos de direitos digitais e civis, defensores da liberdade de expressão e peritos em direitos humanos».
«Reconhecemos que não há nada que se aproxime de um consenso global sobre o que as pessoas querem dizer quando utilizam o termo "sionista". No entanto, com base na nossa pesquisa, envolvimento e investigação na plataforma sobre a sua utilização como termo de substituição para o povo judeu e israelita em relação a determinados tipos de ataques odiosos, iremos agora remover conteúdos que visem os "sionistas" com comparações desumanas», reitera a empresa.
Esta posição da META é um claro posicionamento num contexto de perpetuação do massacre que ocorre na Palestina. Importa relembrar que vários activistas pró-Palestina têm acusado a plataforma de censura por via do denominado «shadow ban», uma forma de limitar parcialmente um usuário ou o conteúdo de um usuário de forma a que não seja aparente a quem faz publicações. Face às acusações, a META em comunicado reconheceu que existiu limitações, mas que tal foi resultado de um «bug», ou seja, um erro involuntário e não premeditado das plataformas.
https://www.abrilabril.pt/internacional/meta-vai-limitar-utilizacao-da-palavra-sionismo-para-esconder-os-crimes
José Goulão - Aquilo era o retrato do inferno
(José Goulão, AbrilAbril, 11/07/2024)
Estivemos perante a inquietante prestação dos dois putativos chefes do império norte-americano, ou seja, do globalismo, do «mundo civilizado», os patrões dos nossos políticos «vocacionados» para o poder, os donos das nossas vidas.
As palavras que encimam este
texto são do já saudoso Fausto Bordalo Dias no épico monólogo de Fernão Mendes
Pinto em «o barco vai de saída»; tiveram evocação recente não apenas pela
partida triste de tão emblemático e inconfundível cantor e autor mas também
pelo dramático, igualmente arrepiante e nada épico debate entre os dois
candidatos à presidência dos Estados Unidos da América, Joseph Biden, pelo
Partido Democrático, e Donald Trump, pelo Partido Republicano; isto é, segundo
a praga dos comentadores que infesta os nossos dias, entre «a esquerda» e «a
direita».
Aquilo era o retrato do inferno,
não só porque entre os debatentes venha o diabo e escolha, mas também porque
estivemos perante a inquietante prestação dos dois putativos chefes do império
norte-americano, ou seja, do globalismo, do «mundo civilizado», os patrões dos
nossos políticos «vocacionados» para o poder, os donos das nossas vidas.
Achei prudente aguardar algum
tempo antes de abordar o tema, não pela complexidade e a profundidade do
conteúdo ideológico, intelectual, político e programático dos dois ogres;
esperei até ter uma ideia feita sobre as abordagens dominantes assumidas pela
comunidade dos comentadores, analistas, especialistas, politólogos e
cartomantes que transtornam os cérebros das populações submetidas ao «nosso
modo de vida», pelo menos dos cidadãos que ainda têm pachorra ou estômago para
se deixarem torturar por eles.
E estiveram uns para os outros,
candidatos e analistas, domésticos ou da estranja «civilizada». A indigência
pega-se, pelo menos foi o que demonstrou o tenebroso efeito em cadeia. Não
apenas porque a corporação do «comentariado» – parece que é assim que se
autodenominam – conseguiu encontrar matéria relevante no vácuo das ideias
expressadas pelos contendores, espremeu-se até para encontrar um vencedor e um
vencido, teorizou sobre as capacidades cognitivas de cada um, como se a
demência política pudesse ser aferida por uma qualquer escala científica. O
drama que tornou assustadoramente exponenciais as consequências da contenda
entre dois indivíduos sem carácter, esclerosados, irresponsáveis, ignorantes,
avatares de seres humanos degenerados, foi a maneira como este universo da
opinião única ignorou ou omitiu deliberadamente o que esteve e está
verdadeiramente e quase exclusivamente em causa nos episódios que envolvem os
candidatos e as próprias eleições presidenciais nos Estados Unidos da América.
Eles são os nossos chefes
Aquilo, o debate, era sem
qualquer dúvida o retrato do Inferno. O Inferno em que vivemos sem que muitos,
talvez a maioria, se dêem conta do risco de podermos transformar-nos em
poeiras radioactivas de um momento para o outro; o Inferno da vida que os
poderes representados por aqueles dois psicopatas nos impõem e garantem
continuar se as relações de forças internacionais e, sobretudo, a impaciência
activa dos povos do mundo não fizer desmoronar o império. Existem muitos
indícios de que ele já mal se aguenta de pé, mas não tenciona suicidar-se.
Ainda possui muitos recursos, explora sem reservas o ódio pelos seres humanos,
põe e dispõe das nossas vidas através dos métodos mais violentos e também mais
insidiosos, sem que se vislumbrem quaisquer limites para a sua sanha capazes de
o travar antes de chegar ao extremo de eliminar a vida no planeta.
Ainda há quem entenda estas
considerações como coisa de lunáticos, mas não percamos a noção de que o
simples facto de observarmos a colocação de marionetas transtornadas à cabeça
das coisas político-militares dominantes no mundo revela o grau supremo de liberdade
usufruído pelos monstros que, movendo-se silenciosamente em mundos
subterrâneos, conduzem a economia e as finanças globais. Esse poder real,
absoluto e incontestado serve-se da política e do militarismo como braços
visíveis, como centros de imposição comportamental, de manipulação e engenharia
social para transformar metodicamente os seres humanos em meros instrumentos ao
serviço de interesses que não são os seus, tornando-se até inimigos
involuntários de si próprios.
Joseph Biden e Donald Trump são
os nossos chefes visíveis. Para todos os efeitos, pensando apenas em termos da
ponta do iceberg dos poderes mundiais, são eles que mandam
na NATO, na ONU, na União Europeia, em cada um dos nossos
países que em tempos foram soberanos; que mexem os cordelinhos do terrorismo
transnacional «moderado», como a al-Qaida, o Isis e tantos outros heterónimos,
que fazem a guerra e decidem sobre a paz, que definem o que é a democracia e
como deve ser praticada, que funcionam como o alfa e o ómega do grande aparelho
transnacional de controlo mental, que impõem o mercado como a ditadura das
nossas existências, que espiam e se apropriam da nossa privacidade com métodos
e meios cada vez mais desumanos e sofisticados; que agem como arbitrários
«legisladores» e gestores da «ordem internacional baseada em regras», sistema
comportamental compulsório que subverte e impede o regular funcionamento do
direito internacional. São eles, em suma, o paradigma actual da nossa
democracia liberal, o «farol» da liberdade, dos «valores ocidentais», do
respeito pelos «direitos humanos», da «responsabilidade de proteger», através
da guerra, em cada recanto do mundo. A imagem que esses trastes alienados
transmitem aos olhos da população mundial espelha fielmente o estado em que se
encontram a política ocidental e a «nossa» democracia liberal – um retrato
do Inferno.
Veja as diferenças
Há quem pretenda estabelecer
distinções entre Joseph Biden e Donald Trump, como fariam em relação a qualquer
outra dupla em competição, suponhamos Hillary Clinton e a vice-presidente de
turno Kamala Harris. É uma atitude que não passa de um esforço irresponsável
para dar credibilidade a um sistema caduco, subvertido desde as proclamações
iniciais, já lá vão quase 250 anos, malévolo, desumano em nome da humanidade,
agressor em nome da paz e da democracia, expansionista e salteador dos bens e
das riquezas alheias, cobrindo e fundindo agora, sob as suas asas, o velho e o
novo colonialismo como práticas inerentes ao sistema imperial.
Diferentes e iguais, Biden e
Trump representam, apesar da pungente exibição de um grau irreversível de
decadência humana, duas faces da mesma moeda, um autêntico partido único
imperial gerindo simultaneamente os seus tentáculos que se movem através do Ocidente
colectivo como instrumentos indispensáveis da democracia liberal, a autêntica,
exclusiva e à qual temos de obedecer em rebanho e sem balir.
Nos Estados Unidos, os aparelhos
encarregados de fazer política designam-se Partido Democrático e Partido
Republicano; na Europa e no resto do Ocidente podem chamar-se, entre outras
coisas, «centro político», «bloco central», «convergência» entre socialistas,
conservadores e liberais, sistema que prevalece na composição e funcionamento
do aparelho autoritário baptizado como União Europeia.
Mecanismos de poder todos
diferentes e todos iguais, a exemplo do que sucede na cúpula do poder imperial
– quando é necessário que a política exerça o papel que lhe está reservado para
fazer cumprir as ordens do neoliberalismo e do seu deus inquestionável, o
mercado.
Analistas de «esquerda», muito
úteis para compor o ramalhete «pluralista» do comentariado doméstico, chegam a
qualificar Biden como um candidato «sério» perante um «mitómano» e outras
coisas do mesmo jaez que Donald Trump efectivamente é, além de mentiroso
contumaz, corrupto, ladrão de petróleo e outras riquezas alheias. Actividades
que, mantendo a memória em funcionamento, também não são estranhas ao
presidente e incumbente democrata.
Pela «seriedade» de Joseph Biden
falam a sua carreira política medíocre, mas, principalmente, corrupta,
manipuladora, belicista, cleptómana e sangrenta ao longo de mais de 50 anos. E
sempre afecta ao poder, fosse democrata ou republicano, como no caso do apoio
activo às invasões do Iraque cometidas por Bush pai e filho.
Biden foi fervoroso adepto dos
golpes terroristas na América Latina, África e Oriente, distinguiu-se nas
frentes de apoio ao sanguinário desmantelamento da Jugoslávia, à colonização
neoliberal e saqueadora da Rússia, às invasões do Iraque, do Afeganistão e da
Somália. Meteu e mete directamente as mãos nas permanentes carnificinas
sionistas contra o povo palestiniano – dizendo-se «sionista cristão» – e nas
invasões da Síria, através de «procuradores» terroristas, e da Líbia,
patrocinando a destruição e matança gerais, a começar pelo bárbaro assassínio
de Muammar Gaddafi. «Chegámos, vimos e ele morreu», proclamou, num arroubo
imperial, a então secretária de Estado Hillary Clinton, da administração Obama,
na qual Biden foi vice-presidente. Cargo onde desempenhou funções primordiais
no golpe nazi da Praça Maidan, na capital da Ucrânia, abrindo as portas ao
massacre de aproximadamente 14 mil pessoas no Donbass, entre 2014 e 2022, e à
perda de pelo menos 500 mil vidas no confronto militar directo entre a Ucrânia
e a Rússia que se lhe seguiu. Um currículo invejável para um político «sério».
A elite de «referência» do
garboso exército do comentariado acha que no confronto entre os Partidos
Democrático e Republicano tem o dever de assumir uma polida e até snob
inclinaçãozinha pela ala democrata, de comportamento muito mais «europeu»,
eivada de boas maneiras, capaz de fazer das guerras acontecimentos humanitários
e até ecológicos, – como se diz a propósito das manobras militares da NATO.
Exprime até sonoras condescendências e bem calibradas manifestações de afecto
pelas minorias LGBT, negras, de salvadores do planeta e tantas outras causas
ditas «fracturantes» como as questões do aborto e dos direitos da mulher. Ao
contrário do brutamontes Trump, que solta pela boca fora o que lhe passa pela
cabeça, carecendo da moderação, do cinismo e do oportunismo de discurso que
Biden foi praticando ao longo de meio século, movendo-se pelos corredores e
gabinetes de Washington.
Não esqueçamos, além disso, que o
Partido Democrático tutela até a Internacional Socialista, um ponto a seu favor
para a penetração mais profunda da Europa, com o mérito acrescido de ter
contribuído, como nenhuma instituição, para a evolução do anacrónico
«socialismo democrático» – uma aberração em tempos de extinção das ideologias –
em direcção ao «socialismo» com as cores neoliberais, que devem ser
obrigatoriamente ostentadas por todos os partidos «com vocação de poder».
Joseph Biden, um demente político
ao nível do seu rival Trump mas com um património de poder que deixa o
adversário nas divisões distritais, encaixa às mil maravilhas na encenação
cultivada pelo Partido Democrático. Fala bem (às vezes titubeia um pouco, é
certo, e quando mente é em defesa da democracia e dos direitos humanos), veste
melhor, exibe um esgar de sorriso bastante diplomático, caminha como se
estivesse numa passerelle (os esporádicos tropeções devem-se a sujidade nos
Ray-Ban de sol, imagem de marca dos expoentes securitários), cuida do corte de
cabelo e mantém o branco natural; usa boné apenas quando lhe é emprestado ou
oferecido por um craque da primeira liga de beisebol; até a sua evidente
demência cognitiva não passa de um sintoma de jet leg e de
cansaço inerente à complexa e aturada actividade no desempenho do cargo.
Donald Trump traduz melhor que
ninguém a actualidade do Partido Republicano. Fala como um trauliteiro, mente
por vício e não é para defender a democracia e os direitos humanos, veste como
um bimbo, ri-se de maneira alarve e boçal, caminha como um arruaceiro e
provavelmente até escarra no chão, tem o cabelo oxigenado e um penteado que não
lembra a ninguém, engana a Melânia, usa óculos escuros comprados nos
escaparates à porta dos armazéns Valmart numa vilória perdida do Kentucky,
prefere bonés nacionalistas e bacocos copiados dos gangs do
Metro de Nova York; e a sua demência cognitiva é de nascença, nada tem a ver
com a provecta idade.
Biden e Trump são como a água e o
azeite também quando chega o momento de produzir os cartazes e os videoclipes
de campanha, quando são chamados à televisão para debater ideias que não têm,
preocupações que não sentem, para usar e abusar dos truques ensinados pelos
assessores de imagem – e para reduzirem o confronto a ataques e insultos
pessoais, ainda que com ademanes díspares e opostos de elegância.
Porém, são gémeos na política,
igualmente eficazes quando se trata de servir como agentes administrativos e
«democráticos» do neoliberalismo; isto é, cumprem a tarefa para a qual são
indigitados pelo omnipresente e submerso «Estado profundo» e posteriormente
«escolhidos pelo povo» através de mecanismos eleitorais distorcidos,
antecedidos de peditórios milionários junto da gente que conta, concebidos em
delicadas degustações e capitosas soirées dançantes; e recorrendo também a
feiras de comércio político montadas em cenários de Hollywood, seguindo guiões
da série mais rasca onde se estipulam discursos ricos em piadas idiotas
recebidas com coros de gargalhadas a pedido, abrilhantadas por claques de cheerladies equipadas
à Barbie.
É assim a política que orienta a
prática da democracia liberal, a «nossa democracia», uma sucessão de rituais
cumpridos enquanto os verdadeiros donos disto tudo, de nós todos, senhores dos
impérios económicos e financeiros planetários decidem quanto há para decidir
nos cenáculos do mercado, deus da modernidade política, militar, social e
cultural. De vez em quando juntam-se nos conclaves conspirativos e decisórios
de Bilderberg, da Trilateral, do Fórum Económico Mundial e outros, para os
quais arrolam alguns plebeus prometedores para fazer deles os magarefes que
mantêm a política e os universos do comentariado nos eixos.
E a guerra, as guerras que
estamos vivendo e sofrendo, com as catástrofes humanitárias e as incertezas
inerentes, mais não são do que os veículos a que recorre o império em
desespero, tentando evitar que a evidente e irreversível decadência se torne
real mais dia menos dia, dando eventualmente lugar a uma ordem internacional
assente no direito internacional existente e na cooperação entre países
soberanos e iguais. Caso isto não aconteça, a loucura dos políticos «com
vocação de poder» instalados no areópago dos areópagos ocidentais, mergulhados
no seu autismo demente ao mesmo tempo que são manipulados pelos insaciáveis
senhores do dinheiro, deixar-nos-á sem apelo à mercê desses degenerados. Num
cenário assim consumado os insaciáveis monstros do mercado, que não admitem
limites ao respeito pelas suas exigências e são imunes a qualquer vínculo
emotivo com os seres humanos, usarão e abusarão do poder absoluto facultado
pelo fascismo neoliberal e, se acharem necessário, não hesitarão em
condenar-nos ao terror supremo capaz de limpar o planeta do excedente de
gentalha que os incomoda.
O debate patético, incongruente,
surreal na verdadeira acepção do conceito entre os dois homúnculos que lutam
pela gestão formal e a rogo de um império agónico revelou que a «nossa
civilização», o orgulhoso e arrogante «mundo ocidental» atingiu o grau zero e
mais rasteiro da política. Os políticos a quem o mercado entrega o poder por
via «eleitoral» e «liberal» não passam hoje de burocratas serviçais que, a bem
dizer, já quase nem tentam convencer-nos de que representam os nossos
interesses e a nossa vontade manifestada em papelinhos inúteis depositados num
caixotinho sem fundo. Eles são, afinal, juntamente com os acólitos da
propaganda e os salteadores do jornalismo, da academia e da cultura, os
autênticos idiotas úteis de um sistema infernal e incontrolável de poder do
qual só nos apercebemos (e já não é pouco) por via dos afloramentos que
infernizam a vida de cada um.
Aquele debate entre a fina-flor
demente dos idiotas deste «Ocidente» – e que terá pelo menos uma sequela,
segundo se diz – foi um retrato do inferno.
Desejamos, e para isso temos uma
tarefa tão urgente como gigantesca nas nossas mãos, que tal retrato não se
transforme num facto da vida – ou talvez aqui deva escrever-se morte – real.






