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terça-feira, 2 de junho de 2026

Bruno Carvalho - A rapaziada de vermelho




*  Bruno Carvalho

Amanhã, quando ouvires falar mal da rapaziada de vermelho, lembra-te que estão na linha da frente para defender os teus direitos e os dos teus filhos. Lembra-te que és tu, todos nós, que fazemos o país funcionar. 

Apartir desta noite, milhares de mulheres e homens vestidos com coletes vermelhos da CGTP vão estar à porta dos seus locais de trabalho. Não vão apenas perder um dia de salário como todos os grevistas. Vão passar uma noite em branco para esclarecer ainda mais trabalhadores a aderir à greve geral e vão denunciar qualquer ilegalidade cometida pelos patrões. Provavelmente, sem cometerem qualquer crime, alguns serão arrastados, agredidos ou detidos pela polícia a mando daqueles que vivem à custa do suor do nosso trabalho. 

E eis aqui o facto ineludível: se as greves não servissem para nada, não se esforçariam tanto para que não acontecessem, se os sindicatos fossem inúteis, não tratariam de impedir a sua actividade. Através da chantagem e da ameaça, os patrões procuram amedrontar os trabalhadores. Quando não conseguem, chamam a polícia. Por muito que se tape o sol com a peneira, hoje como há um século, vivemos numa permanente guerra de classes. 

Se te portares bem, no fim do ano, eles dão-te uma palmada nas costas e tu dás-lhes uma casa de férias ou um novo Tesla. Luís Montenegro não governa para ti. Governa para eles. É um empregado dos grandes grupos económicos e financeiros. Por isso, amanhã, quando ouvires falar mal da rapaziada de vermelho, lembra-te que estão na linha da frente para defender os teus direitos e os dos teus filhos. Lembra-te que és tu, todos nós, que fazemos o país funcionar. 

Quando o fogo destrói as nossas aldeias, quando a tempestade derruba as nossas casas ou quando os rios arrastam tudo, eles nada fazem. Às vezes parece que nos esquecemos que estamos entregues a nós próprios. À nossa classe. E somos bem mais do que eles. 

«E por mais que nos custe, por mais dor que possa causar, fazer greve é um dever de todo o trabalhador. Outros morreram a fazê-la quando amavam a vida tanto ou mais do que tu, quando precisavam do salário tanto ou mais do que tu, num tempo de fome e miséria.»

A cada madrugada, enchemos autocarros, comboios e metros, apinhados como gado, para encher os bolsos do patrão por uma recompensa miserável. Aumenta a renda, aumenta a conta do gás, aumenta o preço das compras do supermercado, aumenta o combustível, aumenta tudo menos os nossos salários.

Se o Governo quer agora, através do pacote laboral, limitar o direito à greve e a intervenção dos sindicatos nos locais de trabalho, o nosso dever é estar na linha da frente. Com coragem. Por isso, a partir desta noite devemos apoiar os nossos, a rapaziada de vermelho. Ou vestir-nos também de vermelho e engrossar os piquetes como a mais bonita das muralhas humanas.

Quando algum dos nossos os insultar ou disser que não querem é trabalhar, lembra-o que quem não quer trabalhar é o patrão. E por mais que nos custe, por mais dor que possa causar, fazer greve é um dever de todo o trabalhador. Outros morreram a fazê-la quando amavam a vida tanto ou mais do que tu, quando precisavam do salário tanto ou mais do que tu, num tempo de fome e miséria.

Provavelmente, os teus pais ou os teus avós eram operários. Talvez elas fossem costureiras e eles sapateiros, talvez trabalhadores agrícolas, quem sabe operárias numa fábrica de conservas ou metalúrgicos. Muitos deles fizeram greve para conquistar alguns dos direitos que temos hoje e que nos querem tirar. A luta de classes é um continuum histórico de avanços e recuos. Porque eles foram, nós somos. E porque nós somos, outros serão.

Viva a greve geral!
Morte ao Pacote Laboral!

2026-06-02

https://abrilabril.pt/trabalho/rapaziada-de-vermelho?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Manuel Augusto Araújo - BOA EDUCAÇÃO, MÁ EDUCAÇÃO

 

▪️Manuel Augusto Araújo

O alvoroço, o que os transtorna, é a eventualidade de verem sentado no Palácio de Belém um demagogo manipulador sem escrúpulos e sem os tiques de falsa erudição de Cotrim para mascarar as suas demagogias.

As eleições presidenciais, ultrapassada a primeira volta, com algumas notas que merecem referência, entre os candidatos do consenso neoliberal – como o classificou certeiramente António Filipe, ainda que esse consenso seja variável e tenha vários matizes –, a segunda volta entre um candidato pouco entusiasmante, coleccionador de banalidades atérmicas ditas consensuais e um outro que é um demagogo manipulador sem escrúpulos, provocou um sobressalto entre barões assinalados de vários quadrantes políticos, que porém não demoveu partidos políticos como o PSD, CDS, IL de se entricheirarem numa neutralidade entre os dois candidatos, apesar de um ser manifestamente contra a democracia como está inscrita na Constituição, no que é acolitado pela IL, com o objectivo indisfarçado de a rever para recuperar os três salazares, o estado de sítio do salazarismo-fascista actualizado aos ventos da história. 

Como vivemos um tempo dominado pelas máquinas mediáticas difundidas e controladas pelas oligarquias que favorecem as direitas, o seu avanço transnacional conquista cada vez mais espaço e relevância, por todo o mundo e por esta nossa periferia. Nesse ambiente, em linguagem modernaça nesse ecossistema, multiplicam-se os debates entre os candidatos mas o que mais se sobreleva são os comentadores que nas suas inúmeras chalras procuram um vencedor e um perdedor, em que a argumentação política de cada um dos intervenientes, muitas vezes intencionalmente condicionada a favor de um dos contendores pelos moderadores, é atirada para segundo plano, numa simulação de que se está a discutir política quando de facto o que se promove é a despolitização afundada no destaque concedido à capacidade argumentativa mesmo que utilize as mais evidentes mentiras, meias verdades, manipulações factuais, todo o arsenal sobretudo de políticos dispostos a os usarem sem pejo. A generalidade dos comentadores classifica as performances, não a validade dos argumentários, pelo que não espanta que em relação a André Ventura até se tenha ouvido elogiar a sua eficácia em fixar o seu eleitorado, mesmo angariar alguns nos terrenos da direita, ainda que tenha repetido sem um segundo de intervalo a mesma cassete bem ornada de falsificações, como é seu timbre.

A persistência desta situação amplifica-se com uma inusitada surgência de politólogos, cientistas (?) políticos, investigadores (?) de comunicação política e afins que florescem entre as hordas dos encartados, há sempre um a cada esquina. Uma dessas personagens consegue entrever, no último debate entre os dois candidatos frente a frente na segunda volta «que não houve neste debate nenhuma posição que seja insanável em termos de convívio futuro (…) provavelmente, estas duas figuras vão encontrar-se no futuro e trabalhar juntas mas em circunstâncias diferentes – e, muito provavelmente, com Seguro como Presidente da República e talvez ainda com Ventura como primeiro-ministro. De facto, vemos que há essa noção ali implícita». De facto o confronto foi temperado, até por via dos hibernados moderadores, mas apesar da baixa temperatura e do mal-estar da democracia que está a degenerar, que se está a auto-corroer pelos vírus fascistas, pelos autoritarismos que saem debaixo dos tapetes, que entram pelas suas frinchas, o que para esta não sei quê politóloga configura uma normalidade futura, ainda que não seja expectável no imediato que o Chega alcance uma maioria, ou uma maioria numa qualquer espúria coligação, que coloque André Ventura em primeiro-ministro.

A banalização dos tiques fascizantes do Chega, também até mais da IL, essa pela via das etiquetas de boas maneiras e tiques corporativos, transparece como uma evidência nos copiosos grupos de falantes com acento fixo ou variável nos meios de comunicação social, em que uma boa parte são professores(as) universitários(as) com vários doutoramentos e pós-graduações, como actualmente é costumeiro e vezeiro nas misérias académicas, sobretudo nas áreas das ciências humanas, que proliferam nas universidades por todo o mundo e arredores onde nos situamos, em que é dominante a esterilidade do pensamento político reduzido a uma quase paródia, como tem sido exposto pelo que subsiste de pensadores sólidos da elite democrática e progressista como Georges Steiner, Noam Chomsky, Russell Jacoby, Edward Bernays, Domenico Losurdo, Edward W. Said, Sheldon S. Wolin, Zachary Karabell, Chris Hedge, Julien Benda ou István Mészaros.1

«A generalidade dos comentadores classifica as performances, não a validade dos argumentários, pelo que não espanta que em relação a André Ventura até se tenha ouvido elogiar a sua eficácia em fixar o seu eleitorado, mesmo angariar alguns nos terrenos da direita, ainda que tenha repetido sem um segundo de intervalo a mesma cassete bem ornada de falsificações, como é seu timbre.»

Outra das reacções a uma segunda volta das presidenciais entre António José Seguro e André Ventura, foi a da rejeição do segundo, com até declarado apoio ao primeiro, por muitos independentes mas também, como já se referiu, por muitos dos barões assinalados dos partidos que declararam neutralidade. Houve quem embandeirasse em arco e muito fogo de artifício, afirmando mesmo um habitual escriba de um jornal dito de referência, queira o que queira isso dizer ou não, que também é presença assídua nos ecrãs televisivos onde tartamudeia lugares comuns como se fossem detalhadas cerebralizações, proclamando que chegamos ao tempo em que a direita deixou de ser «fascista», acrescentando quase orgasticamente que «a direita democrática, ou a área "não-socialista", dá uma bofetada com luva branca à esquerda panfletária que a continua a olhar como "fascista". Quando, e se, a qualidade da democracia voltar a estar em causa, sabemos que há portugueses de bem a dar a cara para os defender». É a leitura mais mediocremente simplista em que subjaz uma básica conjectura direitolas.

O que será a «esquerda panfletária»? Não devemos errar muito, pelo andar da carruagem da figura, que, sem muita coragem para o nomear, se esteja a referir ao PCP, o qual chama fascista ao que é fascista, reaccionário ao que é reaccionário, direita ao que é direita, extrema-direita ao que é extrema-direita, não se deixa enrodilhar no linguajar pós-moderno dos populismos, das democracias iliberais, mas sempre soube e assim o demonstrou ao longo da sua longa história de luta pela democracia e pelas amplas liberdades, distinguir mesmo entre os reaccionários e os de direita não os metendo indistintamente no mesmo saco. O que ele não entende – é o problema da escassez das tão celebradas por Poirot celulazinhas cinzentas –, porque atesta de forma parvóide a morte do fascismo. Escasseia-lhe entendimento para perceber os avisos de Umberto Eco que explicava que o fascismo não é um sistema fechado, é um fenómeno psicológico e cultural — o «Ur-Fascismo» – que pode ressurgir sob novas roupagens, mesmo em tempos de democracia, e que quando voltar  fascismo não dirá «eu sou o fascismo», dirá «eu sou a liberdade». Tal como não ouviu um personagem do filme de João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne, 1997, com uma frase premonitória, de uma implacável lucidez: «hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas».

Os neo-fascistas dispensam os desfiles militarizados dos camisas negras, castanhas, azuis, verdes, mesmo quando exibem motoserras não tiram as gravatas, dispensam o arregaçar as mangas, mantêm intactos os seus sinistros objectivos, a tipologia dos seus financiadores destacados capitalistas, muitos deles com negócios obscuros, alguns sob a alçada da justiça, apesar de bem se saber que o direito é sempre o direito dos mais fortes à liberdade. Na praça pública, em que a comunicação social cada vez mais nas mãos das oligarquias lhes concede excessivo tempo de antena, continuam seguidores das principais palavras de ordem dos fascismos históricos, reactivadas, assimiladas e actualizadas pelas exigências e modas contemporâneas, com variantes em conformidade com a sua inserção territorial, de que é exemplo a generalizada islamofobia ser ou não associada ao ódio aos ciganos.

A difusão do neofascismo, mais puro e duro ou mais difuso, está a marcar o nosso tempo e com ele a alargar a imparável mancha de óleo do filisteísmo, do farisaísmo, das banalidades estereotipadas e quotidianas, das falsas notícias instituídas como norma, a mais completa submissão aos poderes que se dizem querer subverter, com o truque de se apresentarem como anti-sistema, quando são os mais radicais defensores do sistema para que este se torne ainda mais presente e activo em atendimento das especulações do grande capital. Sistema mais ou menos brutal conforme as circunstâncias. Decretar a morte do fascismo é cegar-se voluntariamente, na realidade é pago para isso, perante a desmesurada presença do gauleiter do Chega na comunicação social escrita, televisiva, radiofónica, para sustentar a sua tese de que «o que está em jogo, nisso têm razão os apologistas de Ventura, não é uma ameaça do fascismo (...) Nada em André Ventura ou no Chega se conjuga para impor um programa totalitário com milícias de camisa negra ou castanha a marchar no compasso das coreografia marciais. No que não têm razão é negarem que André Ventura e o seu programa são apenas uma manifestação normal da democracia». Aqui entronca uma questão de fundo que é perante o risco de Ventura se eleger Presidente da República concluir que «a direita democrática esteve à altura das suas responsabilidades num momento crítico da democracia.» Mais uma simplificação, em boa verdade não se lhe pode exigir mais. O momento é crítico para a democracia tal como António Guerreiro, numa das suas crónicas no Ypsilon, sublinhou: « o que já está a acontecer com a democracia: a pós-democracia já começa a ser um conceito pouco útil e já há quem coloque a hipótese da “des-democracia” (devemo-la às análises da autoria da norte-americana Wendy Brown, professora de Ciência Política na Universidade da Califórnia).

A desdemocracia já se manifesta de outra maneira que não é a de um mal-estar da democracia: não é um mal infligido por causas exteriores, mas uma doença interna que decorre do seu desenvolvimento interior. A ascensão de sentimentos fascistas e o desejo autoritário, isto é, de uma ordem governada por uma personalidade autoritária (fazendo coincidir a política com uma psicologia), configuram uma desdemocracia em curso, uma democracia que se está a desfazer a partir do seu interior, num processo de degenerescência que faz nascer o desejo autoritário». Quando por cá se permite a construção de um partido que é declaradamente contra a Constituição, que reiteradamente não cumpre decisões do Tribunal Constitucional, há que questionar este súbito despertar democrático.

«Na praça pública, em que a comunicação social cada vez mais nas mãos das oligarquias lhes concede excessivo tempo de antena, continuam seguidores das principais palavras de ordem dos fascismos históricos, reactivadas, assimiladas e actualizadas pelas exigências e modas contemporâneas, com variantes em conformidade com a sua inserção territorial, de que é exemplo a generalizada islamofobia ser ou não associada ao ódio aos ciganos.»

Coloque-se uma hipótese: se em vez de André Ventura o adversário de António José Seguro fosse Cotrim Figueiredo, o repúdio desses barões assinalados seria o mesmo? No entanto tanto Ventura como Cotrim pugnam por uma profunda revisão constitucional, chegaram mesmo a propor um pacto com esse objectivo, que aplainasse a democracia tal como está instituída, preconizando formas mais autoritárias. Ambos são favoráveis à privatização do que ainda resta por privatizar e nisso Cotrim até é mais vocal. Os direitos sociais, económicos e políticos são para Ventura esmurrar e Cotrim motoserrar. Cotrim poderia eventualmente ter contra ele um alegado e não provado caso de assédio sexual, que no Portugal coutada do macho ibérico, como um ilustre juiz despachou num julgamento de violação de duas jovens estrangeiras que estavam a pedi-las, qualquer mulher só por ser mulher está sempre a pedi-las, não lhe deveria desgastar substancialmente os apoios. Se fosse Cotrim em vez de Ventura haveria algum similar sobressalto democrático? Cotrim que, não passando à segunda volta, também não se demarcou de extrema-direita, preferindo avisar sobre os riscos de se ter um presumível perigoso socialista em Belém. 

O alvoroço, o que os transtorna, é a eventualidade de verem sentado no Palácio de Belém um demagogo manipulador sem escrúpulos e sem os tiques de falsa erudição de Cotrim para mascarar as suas demagogias. O que os perturba e assusta é a eventualidade de, num jantar num qualquer Palácio da Ajuda, abancar um Presidente da República que se desbrague em discursos carregados de impropérios, que confunda os talheres de carne com os de peixe, não distinga copos de vinho tinto dos de vinho branco, que no limite até limpe os beiços com a gravata. Por detrás do pano de fundo deste vasto bater de tambores, da direita à esquerda, com declarados apoios a Seguro, os partidos políticos em que se inscrevem o façam entricheirando-se numa neutralidade oportunista, não vá o diabo tecê-las e muitas dessas tessituras até se encontram.

Uma última e muito reveladora observação é o silêncio desses partidos e personalidades sobre a Operação Irmandade da PJ que investigou o grupo neo-nazi 1143, a qual não lhes provocou grande indignação pública, tal como nem timidamente invectivaram o candidato presidencial Ventura que acaba por considerar essa bandidagem seus eleitores, apoiantes, mesmo companheiros de estrada, como foi evidente na sua última entrevista na RTP. O que se poderá concluir? É que o muito festejado e celebrado consenso entre direitas e esquerdas em torno da escolha que está em causa está muito mais ancorado entre a má educação de um candidato e a boa educação do outro do que na defesa da democracia tal como a vivemos, com todos os défices acumulados em anos de governos PS, PSD, CDS. Um candidato à direita, com os mesmos princípios e objectivos, mas mais palatável que Ventura, não produziria esta sucessão de declarações, o que de algum modo implode a pulsão democrática que tanto excita essa turbamulta de comentadores e jornalistas. Há que enfatizar que, depois de anos e anos a perorar sobre o desaparecimento de direitas e esquerdas, agora lembram-se que essa diferenciação sempre existe e está para durar, a que se adicionam todos os outros que, quando declaram não ser de direita nem esquerda, são obviamente de direita.

Merece ainda destaque as intranquilidades dos intelectuais orgânicos na hipótese de André Ventura ter o apoio de um em cada quatro portugueses depois de se ter comemorado os 50 anos do 25 de Abril, interrogando-se mesmo onde é que se terá falhado! Não sabem? Há muito para lembrar-lhes, sem colocar qualquer dúvida sobre o seu empenho democrático, principalmente porque nestes 50 anos ocuparam lugares importantes nas instituições democráticas e foram dos que mais presença assídua tiveram nos meios de comunicação social. É bom auxiliarmos a sua memória. 

▪️1.Refiram-se, entre outros, Russell Jacoby, The Last Intellectuals: American Culture in the Age of Academe, Basic Books, 1987; Edward Bernays, Propaganda, Comment Manipuler l'Opinion en Democratie, La Découverte, 2007; Zachary Karabell, What's College For? The Strugle to Define the American Higher Education, Basic Books, 1998; Edward W. Said, Des Intellectuels et du Pouvoir, Seuil, 1996; Noam Chomsky, Mudar o Mundo, Bertrand, 2014; Domenico Losurdo, Critique de l’apolitisme. La leçon de Hegel d’hier à nos jours, Delga 2014; Frank Furedi, Where are the Intellectuals Gone? Cofronting 21th century Philistinism, Continuum, 2004; Sheldon S. Wolin, Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism, Princeton University Press, 2008; István Mészáros, A teoria da alienação em Marx, Boitempo, 2016, Chis Hedges, La Mort de l'Élite Progressiste, Lux Futur Proche, 2012.

▪️ www.abrilabril.pt

«Golconda», de Rene Magritte, 1953Créditos/ The Menil Collection, Houston

03 de Fevereiro de 2026

https://www.abrilabril.pt/nacional/boa-educacao-ma-educacao

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Jorge Seabra - Carlucci e Companhia

 * Jorge Seabra  

Se a preparada resposta à engendrada «intentona da esquerda» de 25 de Novembro tivesse «dado para o torto» com a derrota da direita, haveria uma solução à chilena, com aviões vindos do Norte a bombardearem Lisboa, «a vermelha».


Créditos/ Jornal de Negócios  

Voltar ao passado pode parecer fútil num tempo em que se desenrolam importantes lutas pela reposição de direitos do trabalho e já cheio de temas «fracturantes», que um amigo, com humor, diz serem uma questão ortopédica.

Contudo, as memórias podem ajudar a perceber como algumas forças políticas se alinharam em tempos idos, escondendo, debaixo de um manto diáfano de belas frases, objectivos estratégicos ligados aos piores interesses.

Vem isto a propósito do recente falecimento de Frank Carlucci, antigo embaixador americano em Portugal entre 1975 e 78, indo depois ocupar o cargo de Director-adjunto da CIA (78-81).

«Durante o longo tempo em que esteve em Portugal, criou, com o futuro Presidente Mário Soares, uma cumplicidade estratégica essencial», – declarou o Presidente Marcelo, também ele um amigo de Frank Carlucci.

Na realidade, Carlucci esteve só três anos como embaixador em Portugal mas foi, de longe, o mais famoso de todos. E a forma como se fala dele é, agora, muito diferente. 

«Cumplicidade estratégica» entre Carlucci e Mário  Soares?...

Nos anos 70, se alguém o dissesse, corria o sério risco de ser apelidado de mentiroso, radical, sectário comunista! Mesmo o jovem Marcelo, ainda a adaptar-se à mudança por ter vivido sempre «encostado» à ditadura, talvez dissesse que nem conhecia o ianque…

A ligação aos USA e à CIA, então implicados no sangrento golpe de Pinochet, no Chile (1973), queimava. O presidente eleito, Salvador Allende, e a via pacífica para uma sociedade mais justa de matriz socialista, sucumbiam à violência da CIA que supervisionou a imposição de uma brutal ditadura. 

Um ano depois, em Portugal, a Revolução do Cravos, punha de novo o povo a berrar «o povo unido jamais será vencido» e outras coisas acabadas de silenciar à bala no Chile.

Para os USA, era mais uma intolerável chatice. Agora na Europa. Lá teria a CIA de fazer as malas e vir tratar do assunto. E foi o que fez. Demitiu o embaixador «normal» e enviou para cá um dos seus mais qualificados agentes em assuntos «especiais».

Carlucci era o homem. Tinha estado no Congo onde desempenhara um papel principal no assassinato de Lumumba, o mítico dirigente nacionalista africano, admirado em todo o mundo.

Obedecendo a Eisenhower (Robert Johnson, membro do National Security Council, confirmou depois ter ouvido o presidente dos USA dar a ordem para matar o primeiro-ministro congolês), Carlucci foi enviado para o Congo para tratar do assunto.

A CIA chegou a pensar usar armas químicas (método que agora se diz ser uma marca dos russos), mas o crime resolveu-se com a ajuda de belgas e catangueses.

«Do calor sanguinário do Congo, Frank Carlucci voou para o Brasil "ainda a tempo de ajudar a derrubar o governo de João Goulard" (The strange career of Frank Carlucci – Francis Schoor), que ameaçava aumentar os salários e nacionalizar as principais indústrias.»

O desaparecimento de Lumumba serviu para os americanos imporem Mobutu, um exemplo de democrata que matou todos os que vagamente se lhe opuseram na delapidação das riquezas do país. Anos depois, como detalhou a revista Afrique-Asie, a sua fortuna pessoal (incluindo um palacete isolado, frente ao mar, no Algarve), correspondia a toda a dívida externa do país.

Do calor sanguinário do Congo, Frank Carlucci voou para o Brasil «ainda a tempo de ajudar a derrubar o governo de João Goulard» (The strange career of Frank Carlucci – Francis Schoor), que ameaçava aumentar os salários e nacionalizar as principais indústrias.

A CIA apoiou e financiou os generais golpistas de extrema-direita (Ranieri Mazilli , Castelo Branco, Costa e Silva, Medici, Geisel e João Figueiredo), que instalaram um longo período de ditadura. E Carlucci lá estava a ajudar o Brasil a libertar-se de «comunas», intelectuais e cantores, manifestando mais uma vez o seu amor pela democracia, com prisões, torturas e assassinatos da «Operação Condor», aproveitando para aprender o português.

Chegado em Janeiro de 75, Frank Carlucci iniciou as suas funções de embaixador em Portugal, passando as primeiras semanas em… Madrid.
A estadia na capital espanhola aparece justificada, pelo Presidente Marcelo, por «razões de segurança».

Mas talvez essa questão fosse secundária, até porque Carlucci era um homem habituado a riscos que, de resto, em Portugal e em Janeiro de 75, nem eram demasiados.

A explicação será mais pragmática. Madrid era o ponto de encontro dos opositores à Revolução dos Cravos, onde se urdiam as conspirações do ELP («Exército  de Libertação de Portugal»), do pide Barbieri Cardoso, e do MDLP («Movimento Democrático de Libertação de Portugal»), de Spínola, que queriam «libertar» a terra-pátria, supostamente dominada pelos «comunas». Era com eles que Carlucci precisava de começar a trabalhar. Em breve o ar em Portugal, principalmente a Norte, iria aquecer.

Como sumariza Jorge Sarabando, no seu livro O 25 de Novembro a Norte (que, com o de Miguel Carvalho, Quando Portugal Ardeu, constituem leituras obrigatórias para perceber o que se passou), «a estratégia delineada, sem nada de inteiramente novo que já não tivesse sido experimentado em outros teatros de operações, foi adaptada às circunstâncias, às forças em presença e ao perfil dos actores no terreno. Captar apoios militares, dividir o MFA e o movimento popular, impedir a coordenação dos centros de decisão, promover a sabotagem económica e a fuga de capitais, utilizar a chantagem económica e militar internacional, financiar organizações patronais e sindicais divisionistas, controlar a comunicação social, incentivar a instabilidade e o descrédito das instituições no quadro de uma escalada de insegurança e de tensão. Em pano de fundo, a defesa da liberdade supostamente ameaçada.»

Logo a 11 de Março de 75 deu-se o golpe falhado de Spínola, fugindo aos hábitos mais organizados de Carlucci. Mas o «Verão Quente» estava a chegar já com o trabalho adiantado, com os padres a pregarem contra os vermelhos e o terrorismo das bombas do ELP e do MDLP a incendiarem e matarem à esquerda, tudo enquadrado na «cumplicidade  estratégica essencial» de Carlucci com Soares, forjada «numa pequena cúpula do telhado da embaixada», longe dos olhares dos portugueses.

«Madrid era o ponto de encontro dos opositores à Revolução dos Cravos, onde se urdiam as conspirações do ELP ("Exército de Libertação de Portugal"), do pide Barbieri Cardoso, e do MDLP ("Movimento Democrático de Libertação de Portugal"), de Spínola, que queriam "libertar" a terra-pátria, supostamente dominada pelos "comunas". Era com eles que Carlucci precisava de começar a trabalhar.»

«O doutor Soares e eu passávamos muitas horas aqui a conversar sobre os problemas políticos portugueses», disse o ex-embaixador dos USA, numa entrevista ao Público, em 23-9-2006.

E, entre Maio de 75 e Abril de 77, houve 566 acções terroristas, contabilizando 310 atentados à bomba, 194 assaltos e incêndios a sedes e centros de trabalho do PCP e de organizações de esquerda, 16 atentados a tiro.

«Uma onda de fundo do povo português», dirá Soares, englobando toda a agitação da época. Para além do apoio às bombas e bombistas que aterrorizaram o país no «Verão Quente» de 75 e a sua coordenação «estratégica» com manifestações do PS contra a imaginária ameaça da «ditadura comunista», Carlucci não se esquece de visitar a hierarquia da igreja que pregava o medo dos «comunas» que matavam os velhos com injecções atrás da orelha (ao contrário do que agora votaram).

Entre 3 e 6 de Novembro, nas vésperas do golpe, reúne com os bispos de Viseu, Vila-Real e Braga. Homem experiente, Carlucci, «pequeno e vivo… um típico mafioso italiano», na descrição de Soares, apoia também, à socapa, os super-revolucionários «de esquerda» que combatem os «revisas» do PCP com a mesma raiva da direita, como o MRPP, a quem encheu de dinheiro.

«São como um saco para onde o dinheiro é atirado, não se sabe por quem, e retirado à medida das necessidades», como refere, num ensaio, Saldanha Sanches, então ex-dirigente dissidente da organização.

Em entrevista à «Association for Diplomatic Studies and Training», Carlucci, rememorando os seus tempos em Portugal afirmou, divertido: «O MRPP – Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (sic) –,tomou a estação de rádio católica, mas foi o Partido Comunista que foi considerado culpado. Então temos o líder do Partido Comunista Português na televisão a dizer que não são anti-católicos. Claro que ninguém acreditou!...».

Relatórios americanos desclassificados esclarecem o papel de Carlucci em Portugal, pela sua própria voz: «Tudo o que a CIA fez foi sob o meu comando».

E se as coisas tivessem corrido mal no 25 de Novembro? – a pergunta surge no contexto da entrevista de Carlucci e Soares ao Público. «Honestamente, não tínhamos nenhum plano de contingência. Soares vai para o Porto, no dia 25. Por estradas secundárias. O general Lemos Ferreira tinha levado os aviões para o Norte. O general Pires Veloso comandava as forças militares no Norte e o grupo dos nove conspirava activamente».

Mas Carlucci admite ao jornal que «havia alguns apoios preparados». «Sobretudo dos ingleses», diz. Um «simpático» agente do M16, enviado por Callaghan, estivera em Portugal a ver o que era preciso. «Combustível para os aviões do Lemos Ferreira. E isso eles podiam garantir.»

Assim se conclui que se a preparada resposta à engendrada «intentona da esquerda» de 25 de Novembro, tivesse «dado para o torto» com a derrota da direita, haveria uma solução à chilena, com aviões vindos do Norte a bombardearem Lisboa, «a vermelha».

Por essa descarada ingerência da CIA em Portugal, então escondida mas depois elogiada sem pudor por PS,PSD e CDS, Carlucci foi condecorado, em 2004, por Jorge Sampaio e Santana Lopes, com a grã-cruz da Ordem do Infante Dom Henrique, e Portas atribuiu-lhe a medalha de Defesa Nacional. «Por relevantes serviços prestados».

À bomba e a tiro, quase sempre. No Congo, no Brasil ou em Portugal. Sem a piedade de um anjo ou a vida de um político «normal», como agora o querem descrever. Deixando um rasto de pobreza, corrupção e morte.
Também, na altura, o PS, com um discurso de esquerda e agitando de vez em quando um retrato de Marx, optou pela defesa dos grandes interesses…

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PS – Apesar do que ainda agora se diz sobre o descalabro financeiro causado pelo «gonçalvismo», uma missão da OCDE que visitou Portugal em finais de 1975 considerou «a economia portuguesa surpreendentemente saudável», com um «desempenho extremamente robusto», atendendo à crise internacional e às mudanças acontecidas. Os Mello, os Champalimaud e os Espírito Santo é que ficaram mais pobres.  

 13 de Junho de 2018

https://www.abrilabril.pt/nacional/carlucci-e-companhia


O 25 de Novembro e os herdeiros da contra-revolução


Editorial AbrilAbril

Quem hoje clama pela celebração do 25 de Novembro são os «herdeiros» das acções contra-revolucionárias – golpe Palma Carlos, 28 de Setembro e 11 de Março, que procuram apagar as comemorações dos 50 anos de Abril e reclamam a subversão da Constituição.

Os acontecimentos do 25 de Novembro de 1975 são o corolário de um longo período de instabilidade e de várias tentativas golpistas de estancar a Revolução de Abril e as suas conquistas, e inviabilizar a aprovação e promulgação da Constituição da República.

O 25 de Novembro de 1975 surge na sequência do chamado «verão quente», da queda do V Governo Provisório e do afastamento do general Vasco Gonçalves, objectivo que há muito era perseguido pelas forças de direita, da social-democracia e de sectores esquerdistas, embora o objectivo fosse muito para além da demissão do então primeiro-ministro.

No período que antecedeu o 25 de Novembro, a violência e o terrorismo foram uma imagem de marca das forças reaccionárias no combate aos democratas e às forças mais consequentes na defesa do 25 de Abril e das suas conquistas, com particular destaque para o PCP, cujos centros de trabalho e militantes se tornaram no alvo principal.

Um retrato muito elucidativo dessa violência foi deixado pelo historiador José Freire Antunes, que foi deputado e dirigente do PPD/PSD, no seu livro O Segredo do 25 de Novembro: «A violência assenta arraiais no Minho. Nos primeiros dias de Agosto, só num raio de vinte quilómetros, e em três dias, foram destruídas sete sedes partidárias, incendiados e pilhados quatro escritórios, mortas duas pessoas e feridas dezenas. […] Em certas localidades, em dias de assalto, ouve-se falar espanhol e brasileiro. Vêem-se também camionetas com forasteiros de ar profissional. São mercenários do ódio, pagos pelos ricos.

Os sinos tocam a rebate em muitas aldeias. Nos dias de feira, ou depois da missa, activistas calcorreiam as ruas.

"Morte aos comunistas que nos querem roubar os filhos."

[…] Há mãos clandestinas a atear esta fogueira.

Nas águas turvas do descontentamento pescam o MDLP e o ELP. Frotas de exilados, com estímulos da direita europeia, fazem a sua "cruzada branca" contra a "opressão vermelha".

Ensinam a fabricar coktails molotov nos seus panfletos. [...] Ateiam incêndios, põem bombas, matam comunistas, conspiram nos seminários e nas sacristias. Pagam a marginais e antigos quadros do Exército.

O CDS e o PPD são a capa legal desses núcleos. [...] É certamente para brindar a essa vitória que Frank Carlucci, o dinâmico embaixador dos Estados Unidos, vai fazer a volta dos bispos. De 3 a 6 de Novembro, encontra-se com os bispos de Viseu, Vila Real, Braga».

Em contraponto, Avelãs Nunes, no seu livro O Novembro que Abril não merecia, fala-nos da justiça dos vencedores que «acabou por ditar a absolvição de todos os criminosos responsáveis pelos crimes do terrorismo de extrema-direita, com cumplicidades ao mais alto nível. Iniciado o julgamento dos bombistas em 16/11/1977, os acusados foram quase todos absolvidos (nem sequer foram condenados pelo crime de posse de armas e explosivos proibidos). Só três foram condenados, a penas que não chegaram a cumprir. Ramiro Moreira, "o mais violento dos três condenados", fugiu para Espanha (mas vinha a Portugal sempre que queria), conseguiu um emprego bem remunerado em Madrid, na Petrogal (empresa do estado português!) e acabou por ser indultado por Mário Soares (Dezembro de 1991)».

O 25 de Novembro, ao contrário de afirmações e insinuações de alguns dos seus protagonistas, não foi um golpe promovido pelo PCP, pela Esquerda Militar ou pela chamada «ala gonçalvista» do MFA, mas sim um golpe militar contra-revolucionário, fruto de uma cuidada e longa preparação, no quadro de um tumultuoso processo de rearrumação de forças no plano político e militar. Um processo que contou com envolvimento dos EUA, em particular do então embaixador em Portugal, Frank Carlucci.

No seu livro, A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril, Álvaro Cunhal revela uma conversa telefónica, na noite de 24 para 25 de Novembro, «entre o Presidente da República Costa Gomes e o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em que este, tendo tomado a iniciativa do contacto, nos termos habituais da ligação institucional com a Presidência da República, comunicou ao Presidente, desmentindo especulações em curso, que o PCP não estava envolvido em qualquer iniciativa de confronto militar e insistia em apontar a necessidade de uma solução política».

Na preparação política do 25 de Novembro, Mário Soares e o PS desempenharam também uma acção importante. Aliás, foi pela mão dos socialistas, através da formação do primeiro governo constitucional, que foi institucionalizado o processo contra-revolucionário.

No fundo, os que hoje nos pretendem impingir as comemorações do 25 de Novembro são os herdeiros do golpismo que não conseguiu, por completo, liquidar as conquistas da Revolução, o regime democrático e a Constituição da República.

São os mesmos que, entre outras malfeitorias, tentaram acabar com os subsídios de férias e Natal, e que procuram estrangular direitos laborais, sociais e políticos.

São os mesmos que, em nome de um liberalismo que já conhecemos, querem acabar com o direito à saúde e à educação.

São os mesmos que, com mais ou menos gritaria contra o «sistema», representam o pior do sistema capitalista e são herdeiros saudosistas das concepções e objectivos a que a revolução de Abril pôs termo em 1974.

25 de Novembro de 2023

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terça-feira, 7 de janeiro de 2025

João Fraga de Oliveira - Passagem de Ano?



POR JOÃO FRAGA DE OLIVEIRA TERÇA, 07 DE JANEIRO DE 2025

Não será que, afinal, no primeiro dia do ano de cada novo calendário, a vida neste tal ano «novo» vai continuar a ser apenas mais vida (e, infelizmente, para alguns nem isso…), a mesma vida … «velha»?

Uma das instituições sociais de séculos é a «Passagem de Ano».

Saudável pela participação social e partilha mais ou menos genuína da alegria e diversão, subjazem-lhe, no entanto, dois pressupostos cuja racionalidade é duvidosa: um, é o de que no último milionésimo segundo do último dia de cada ano para o primeiro milionésimo de segundo do ano seguinte há uma separação na vida de cada um e da sociedade; o outro pressuposto é o de que, então, há uma «passagem» para um outro tempo «novo» que sempre almejamos melhor («Bom», «Feliz», «Próspero»…) e não só mais tempo, o mesmo tempo.

Se bem que, afinal, quanto à classificação («velho», «novo») e separação dos anos, não surpreende, visto que tendemos a classificar tudo, a separar tudo:

- Separamos o passado do presente e este do futuro, quando sabemos (aprendemos com George Orwell) que o futuro é o passado que fizemos, tal como o presente é o futuro que quisermos;

- Separamos, por «idades», a própria vida em si: a idade da infância da idade da adolescência, esta da maioridade e, por sua vez, esta da idade maior, da velhice. Quando sabemos que, verdadeiramente, não existe na vida separação, mas sim íntima continuidade e interdependência entre estas idades humanas.

- Separamos a vida da morte, quando sabemos que a morte faz parte da vida e mesmo que, quando vimos (como já vimos) uma mãe (clinicamente) morta a dar à luz um bebé, a vida faz parte da morte;

- Separamos a saúde da doença, quando sabemos (aprendemos com a Organização Mundial de Saúde) que «saúde não é só a ausência de doença…»;

- Separamos a vida do trabalho, quando sabemos que a trabalhar, a «ganhar a vida», almejamos também ganhar vida (pela realização e integração profissional, pessoal e social) e não perder (ir perdendo, na doença) vida e, muito menos, num instante, perder (num acidente) a vida;

- Separamos a casa do trabalho, quando sabemos que «levamos» a casa (preocupações, pré-ocupações, pós-ocupações…) para o trabalho, tal como, até literalmente tantas vezes, levamos (o) trabalho para casa;

- Separamos o Homem da Natureza, quando sabemos que a natureza do Homem é fazer parte da Natureza;

- Separamos a Terra da Humanidade, quando sabemos que sem Terra não há Humanidade;

- Separamos e até abolimos, vamos abolindo (nas atitudes, nos comportamentos, nos propósitos, nas decisões e acções individuais ou colectivas e políticas), a humanidade da/na Humanidade, quando sabemos (aprendemos com Teixeira de Pascoaes) que «se eliminarmos a palavra humanidade ficaremos todos cobertos de pêlos num instante»;

- Separamos a economia da sociedade, quando sabemos (por exemplo, por Karl Polanyi e pelo Papa Francisco) que a economia, como ciência social que é – deve ser –, ou também é (para) a sociedade ou deixa de ser economia (para passar a ser mero economicismo);

- Separamos os pobres dos ricos, quando sabemos que «os pobres são pobres, porque os ricos são ricos» (e vice-versa);

- Separamos os negócios da amizade («amigos, amigos, negócios à parte»), quando sabemos que cada vez mais a própria amizade é objecto de negócio e que, assim, até são certas «amizades» que possibilitam grandes negócios (atas);

- Separamos o que dizemos do que fazemos, quando sabemos (aprendemos com Frei Tomás ...) que pouco diz o que dizemos se contraria o que (não) fazemos, tal como sabemos que pouco faz (se é que não desfaz) o que fazemos se contraria o que dizemos;

- Separamos o que somos do que fazemos, quando sabemos (aprendemos com Eduardo Galeano) que «o que somos é o que fazemos para mudar o que somos»;

- Separamos a teoria da prática, quando sabemos que não há melhor teoria do que uma boa prática e vice-versa;

- Separamos o caminhar do caminho, quando sabemos (aprendemos com António Machado) que «o caminho faz-se caminhando».

Separamos isto tudo e então, por esta altura, neste como em todos os anos da nossa vida, também, claro, separamos o «Ano Velho» do «Ano Novo».

Mesmo sabendo que «nada é cindível na vida» (citando uma saudosa primeira-ministra portuguesa, Eng.ª Maria de Lurdes Pintassilgo), mesmo sabendo que, como na canção (Sérgio Godinho) e na poesia (e nada há mais verdadeiro do que a poesia, no caso a de Eduardo Guerra Carneiro), «isto anda tudo ligado».

«Ano Velho» e «Ano Novo». Verdadeiramente, separamo-los?

É que então, se estes anos, o «velho» e o «novo», na realidade são inseparáveis, incindíveis, na nossa vida e na da sociedade, que «passagem» há de um para o outro, senão a de um calendário velho para um calendário novo?

Não será que, afinal, no primeiro dia do ano de cada novo calendário a vida neste tal ano «novo» vai continuar a ser apenas mais vida (e, infelizmente, para alguns nem isso…), a mesma vida… «velha»?

«É que então, se estes anos, o "velho" e o "novo", na realidade são inseparáveis, incindíveis, na nossa vida e na da sociedade, que "passagem" há de um para o outro, senão a de um calendário velho para um calendário novo?»

A não ser que entendamos que tempo não é (como não é) algo não meramente abstracto, que tempo é vida (individual, colectiva, social, …), vivência, que tempo é o que se faz (desfaz, refaz, deixa de se fazer…) com ele.

E, assim, «passagem de ano» poderá então não ser apenas mudar de calendário mas, na realidade, mudar de referências, de objectivos, de práticas. Enfim (José Mário Branco), «mudar de vida». Ao que não pode deixar de subjazer mudar apenas mudar de calendário, mas sim, sobretudo, mudar de ideário.

Um ideário que contemple, por exemplo – que não pode ser mais pertinente, porque actual, premente –, a passagem:

- Das desigualdades para a justiça social;

- Da competição desenfreada para a solidariedade;

- Do egoísmo para o altruísmo;

- Do individualismo para o relacionamento e participação social;

- Da exclusão e racismo para a inclusão;

- Da marginalização para a integração;

- Da pobreza para a dignidade das condições de vida;

- Da degradação das condições de trabalho e salários exíguos para o trabalho digno;

- Da exiguidade das (baixas) pensões para a dignidade da velhice e da invalidez;

- Do neoliberalismo para o Estado Social;

- Da mentira para a Verdade;

- Da guerra para a Paz…

Bem, mas de qualquer modo, à meia-noite em ponto de todos os anos, lá paramos (mesmo que a rodopiar alegremente num baile) todos (ou quase todos…) para «separar» o «Ano Novo» do «Ano Velho», para, na alegria (com)participada – o que é saudável – de umas passas, espumoso, música, fogo de artifício, festejarmos, feéricos, a «Passagem de Ano».

Ainda que no dia seguinte, logo um que tanto a isso agora nos empurra (como Dia Mundial da Paz), nos perguntemos: Passagem de Ano? Mesmo?

https://www.abrilabril.pt/nacional/passagem-de-ano

quinta-feira, 11 de julho de 2024

META vai limitar a utilização da palavra «sionismo» para esconder os crimes

 


11 DE JULHO DE 2024

A empresa de Zuckerberg não vai limitar, no entanto, a palavra «sionismo» se esta for elogiosa e faz uma premeditada confusão conceptual dizendo que esta está a ser usada para discriminar judeus e israelitas. Além do símbolo azul, a META adopta o lápis azul. 

A partir de terça-feira, a META passou a limitar nas suas plataformas a palavra utilizada para caracterizar a doutrina racista e de limpeza étnica, o sionismo. A suposta justificação da empresa prende-se com o facto da palavra em questão perpetuar «estereótipos anti-semitas».

Segundo o comunicado do grupo de Mark Zuckerberg, a questão foi analisada no seu «Fórum Político», depois terem sido ouvidas «opiniões» e terem sido analisadas investigações «de diferentes perspectivas». Face a tal, diz o comunicado: «iremos agora remover o discurso que utiliza o termo “sionistas” em várias áreas onde o nosso processo mostrou que o discurso tende a ser utilizado para se referir a judeus e israelitas com comparações desumanizantes».

A empresa diz que a questão que surgiu durante o Fórum Político foi «como tratar as comparações entre termos de substituição para nacionalidade (incluindo sionistas) e criminosos (por exemplo, "os sionistas são criminosos de guerra")». Deste modo, consegue-se apreender que o foco da META é apagar os crimes promovidos pela Governo israelita movido pela doutrina sionista e branquea-los. 

A justificação da dona do Facebook e Instagram visa, premeditadamente, criar uma confusão conceptual, já que é dito que «sionismo» é um ataque a outras pessoas «com base nas suas características protegidas, como a sua nacionalidade, raça ou religião».

De acordo com a mesma, foram supostamente consultadas «145 partes interessadas em representação da sociedade civil e do meio académico do Médio Oriente e de África, de Israel, da América do Norte, da Europa, da América Latina e da Ásia», sendo que os nomes não são revelados. As tais partes interessadas incluíram, alegadamente, «cientistas políticos, historiadores, juristas, grupos de direitos digitais e civis, defensores da liberdade de expressão e peritos em direitos humanos».

«Reconhecemos que não há nada que se aproxime de um consenso global sobre o que as pessoas querem dizer quando utilizam o termo "sionista". No entanto, com base na nossa pesquisa, envolvimento e investigação na plataforma sobre a sua utilização como termo de substituição para o povo judeu e israelita em relação a determinados tipos de ataques odiosos, iremos agora remover conteúdos que visem os "sionistas" com comparações desumanas», reitera a empresa.

Esta posição da META é um claro posicionamento num contexto de perpetuação do massacre que ocorre na Palestina. Importa relembrar que vários activistas pró-Palestina têm acusado a plataforma de censura por via do denominado «shadow ban», uma forma de limitar parcialmente um usuário ou o conteúdo de um usuário de forma a que não seja aparente a quem faz publicações. Face às acusações, a META em comunicado reconheceu que existiu limitações, mas que tal foi resultado de um «bug», ou seja, um erro involuntário e não premeditado das plataformas.  

https://www.abrilabril.pt/internacional/meta-vai-limitar-utilizacao-da-palavra-sionismo-para-esconder-os-crimes 

José Goulão - Aquilo era o retrato do inferno

(José Goulão, AbrilAbril, 11/07/2024)

Estivemos perante a inquietante prestação dos dois putativos chefes do império norte-americano, ou seja, do globalismo, do «mundo civilizado», os patrões dos nossos políticos «vocacionados» para o poder, os donos das nossas vidas.

As palavras que encimam este texto são do já saudoso Fausto Bordalo Dias no épico monólogo de Fernão Mendes Pinto em «o barco vai de saída»; tiveram evocação recente não apenas pela partida triste de tão emblemático e inconfundível cantor e autor mas também pelo dramático, igualmente arrepiante e nada épico debate entre os dois candidatos à presidência dos Estados Unidos da América, Joseph Biden, pelo Partido Democrático, e Donald Trump, pelo Partido Republicano; isto é, segundo a praga dos comentadores que infesta os nossos dias, entre «a esquerda» e «a direita».

Aquilo era o retrato do inferno, não só porque entre os debatentes venha o diabo e escolha, mas também porque estivemos perante a inquietante prestação dos dois putativos chefes do império norte-americano, ou seja, do globalismo, do «mundo civilizado», os patrões dos nossos políticos «vocacionados» para o poder, os donos das nossas vidas.

Achei prudente aguardar algum tempo antes de abordar o tema, não pela complexidade e a profundidade do conteúdo ideológico, intelectual, político e programático dos dois ogres; esperei até ter uma ideia feita sobre as abordagens dominantes assumidas pela comunidade dos comentadores, analistas, especialistas, politólogos e cartomantes que transtornam os cérebros das populações submetidas ao «nosso modo de vida», pelo menos dos cidadãos que ainda têm pachorra ou estômago para se deixarem torturar por eles.

E estiveram uns para os outros, candidatos e analistas, domésticos ou da estranja «civilizada». A indigência pega-se, pelo menos foi o que demonstrou o tenebroso efeito em cadeia. Não apenas porque a corporação do «comentariado» – parece que é assim que se autodenominam – conseguiu encontrar matéria relevante no vácuo das ideias expressadas pelos contendores, espremeu-se até para encontrar um vencedor e um vencido, teorizou sobre as capacidades cognitivas de cada um, como se a demência política pudesse ser aferida por uma qualquer escala científica. O drama que tornou assustadoramente exponenciais as consequências da contenda entre dois indivíduos sem carácter, esclerosados, irresponsáveis, ignorantes, avatares de seres humanos degenerados, foi a maneira como este universo da opinião única ignorou ou omitiu deliberadamente o que esteve e está verdadeiramente e quase exclusivamente em causa nos episódios que envolvem os candidatos e as próprias eleições presidenciais nos Estados Unidos da América.

Eles são os nossos chefes

Aquilo, o debate, era sem qualquer dúvida o retrato do Inferno. O Inferno em que vivemos sem que muitos, talvez a maioria, se dêem conta do risco de podermos transformar-nos em poeiras radioactivas de um momento para o outro; o Inferno da vida que os poderes representados por aqueles dois psicopatas nos impõem e garantem continuar se as relações de forças internacionais e, sobretudo, a impaciência activa dos povos do mundo não fizer desmoronar o império. Existem muitos indícios de que ele já mal se aguenta de pé, mas não tenciona suicidar-se. Ainda possui muitos recursos, explora sem reservas o ódio pelos seres humanos, põe e dispõe das nossas vidas através dos métodos mais violentos e também mais insidiosos, sem que se vislumbrem quaisquer limites para a sua sanha capazes de o travar antes de chegar ao extremo de eliminar a vida no planeta. 

Ainda há quem entenda estas considerações como coisa de lunáticos, mas não percamos a noção de que o simples facto de observarmos a colocação de marionetas transtornadas à cabeça das coisas político-militares dominantes no mundo revela o grau supremo de liberdade usufruído pelos monstros que, movendo-se silenciosamente em mundos subterrâneos, conduzem a economia e as finanças globais. Esse poder real, absoluto e incontestado serve-se da política e do militarismo como braços visíveis, como centros de imposição comportamental, de manipulação e engenharia social para transformar metodicamente os seres humanos em meros instrumentos ao serviço de interesses que não são os seus, tornando-se até inimigos involuntários de si próprios. 

Joseph Biden e Donald Trump são os nossos chefes visíveis. Para todos os efeitos, pensando apenas em termos da ponta do iceberg dos poderes mundiais, são eles que mandam na NATO, na ONU, na União Europeia, em cada um dos nossos países que em tempos foram soberanos; que mexem os cordelinhos do terrorismo transnacional «moderado», como a al-Qaida, o Isis e tantos outros heterónimos, que fazem a guerra e decidem sobre a paz, que definem o que é a democracia e como deve ser praticada, que funcionam como o alfa e o ómega do grande aparelho transnacional de controlo mental, que impõem o mercado como a ditadura das nossas existências, que espiam e se apropriam da nossa privacidade com métodos e meios cada vez mais desumanos e sofisticados; que agem como arbitrários «legisladores» e gestores da «ordem internacional baseada em regras», sistema comportamental compulsório que subverte e impede o regular funcionamento do direito internacional. São eles, em suma, o paradigma actual da nossa democracia liberal, o «farol» da liberdade, dos «valores ocidentais», do respeito pelos «direitos humanos», da «responsabilidade de proteger», através da guerra, em cada recanto do mundo. A imagem que esses trastes alienados transmitem aos olhos da população mundial espelha fielmente o estado em que se encontram a política ocidental e a «nossa» democracia liberal – um retrato do Inferno.

Veja as diferenças

Há quem pretenda estabelecer distinções entre Joseph Biden e Donald Trump, como fariam em relação a qualquer outra dupla em competição, suponhamos Hillary Clinton e a vice-presidente de turno Kamala Harris. É uma atitude que não passa de um esforço irresponsável para dar credibilidade a um sistema caduco, subvertido desde as proclamações iniciais, já lá vão quase 250 anos, malévolo, desumano em nome da humanidade, agressor em nome da paz e da democracia, expansionista e salteador dos bens e das riquezas alheias, cobrindo e fundindo agora, sob as suas asas, o velho e o novo colonialismo como práticas inerentes ao sistema imperial.

Diferentes e iguais, Biden e Trump representam, apesar da pungente exibição de um grau irreversível de decadência humana, duas faces da mesma moeda, um autêntico partido único imperial gerindo simultaneamente os seus tentáculos que se movem através do Ocidente colectivo como instrumentos indispensáveis da democracia liberal, a autêntica, exclusiva e à qual temos de obedecer em rebanho e sem balir. 

Nos Estados Unidos, os aparelhos encarregados de fazer política designam-se Partido Democrático e Partido Republicano; na Europa e no resto do Ocidente podem chamar-se, entre outras coisas, «centro político», «bloco central», «convergência» entre socialistas, conservadores e liberais, sistema que prevalece na composição e funcionamento do aparelho autoritário baptizado como União Europeia.

Mecanismos de poder todos diferentes e todos iguais, a exemplo do que sucede na cúpula do poder imperial – quando é necessário que a política exerça o papel que lhe está reservado para fazer cumprir as ordens do neoliberalismo e do seu deus inquestionável, o mercado.

Analistas de «esquerda», muito úteis para compor o ramalhete «pluralista» do comentariado doméstico, chegam a qualificar Biden como um candidato «sério» perante um «mitómano» e outras coisas do mesmo jaez que Donald Trump efectivamente é, além de mentiroso contumaz, corrupto, ladrão de petróleo e outras riquezas alheias. Actividades que, mantendo a memória em funcionamento, também não são estranhas ao presidente e incumbente democrata.

Pela «seriedade» de Joseph Biden falam a sua carreira política medíocre, mas, principalmente, corrupta, manipuladora, belicista, cleptómana e sangrenta ao longo de mais de 50 anos. E sempre afecta ao poder, fosse democrata ou republicano, como no caso do apoio activo às invasões do Iraque cometidas por Bush pai e filho.

Biden foi fervoroso adepto dos golpes terroristas na América Latina, África e Oriente, distinguiu-se nas frentes de apoio ao sanguinário desmantelamento da Jugoslávia, à colonização neoliberal e saqueadora da Rússia, às invasões do Iraque, do Afeganistão e da Somália. Meteu e mete directamente as mãos nas permanentes carnificinas sionistas contra o povo palestiniano – dizendo-se «sionista cristão» – e nas invasões da Síria, através de «procuradores» terroristas, e da Líbia, patrocinando a destruição e matança gerais, a começar pelo bárbaro assassínio de Muammar Gaddafi. «Chegámos, vimos e ele morreu», proclamou, num arroubo imperial, a então secretária de Estado Hillary Clinton, da administração Obama, na qual Biden foi vice-presidente. Cargo onde desempenhou funções primordiais no golpe nazi da Praça Maidan, na capital da Ucrânia, abrindo as portas ao massacre de aproximadamente 14 mil pessoas no Donbass, entre 2014 e 2022, e à perda de pelo menos 500 mil vidas no confronto militar directo entre a Ucrânia e a Rússia que se lhe seguiu. Um currículo invejável para um político «sério».

A elite de «referência» do garboso exército do comentariado acha que no confronto entre os Partidos Democrático e Republicano tem o dever de assumir uma polida e até snob inclinaçãozinha pela ala democrata, de comportamento muito mais «europeu», eivada de boas maneiras, capaz de fazer das guerras acontecimentos humanitários e até ecológicos, – como se diz a propósito das manobras militares da NATO. Exprime até sonoras condescendências e bem calibradas manifestações de afecto pelas minorias LGBT, negras, de salvadores do planeta e tantas outras causas ditas «fracturantes» como as questões do aborto e dos direitos da mulher. Ao contrário do brutamontes Trump, que solta pela boca fora o que lhe passa pela cabeça, carecendo da moderação, do cinismo e do oportunismo de discurso que Biden foi praticando ao longo de meio século, movendo-se pelos corredores e gabinetes de Washington.

Não esqueçamos, além disso, que o Partido Democrático tutela até a Internacional Socialista, um ponto a seu favor para a penetração mais profunda da Europa, com o mérito acrescido de ter contribuído, como nenhuma instituição, para a evolução do anacrónico «socialismo democrático» – uma aberração em tempos de extinção das ideologias – em direcção ao «socialismo» com as cores neoliberais, que devem ser obrigatoriamente ostentadas por todos os partidos «com vocação de poder».

Joseph Biden, um demente político ao nível do seu rival Trump mas com um património de poder que deixa o adversário nas divisões distritais, encaixa às mil maravilhas na encenação cultivada pelo Partido Democrático. Fala bem (às vezes titubeia um pouco, é certo, e quando mente é em defesa da democracia e dos direitos humanos), veste melhor, exibe um esgar de sorriso bastante diplomático, caminha como se estivesse numa passerelle (os esporádicos tropeções devem-se a sujidade nos Ray-Ban de sol, imagem de marca dos expoentes securitários), cuida do corte de cabelo e mantém o branco natural; usa boné apenas quando lhe é emprestado ou oferecido por um craque da primeira liga de beisebol; até a sua evidente demência cognitiva não passa de um sintoma de jet leg e de cansaço inerente à complexa e aturada actividade no desempenho do cargo.

Donald Trump traduz melhor que ninguém a actualidade do Partido Republicano. Fala como um trauliteiro, mente por vício e não é para defender a democracia e os direitos humanos, veste como um bimbo, ri-se de maneira alarve e boçal, caminha como um arruaceiro e provavelmente até escarra no chão, tem o cabelo oxigenado e um penteado que não lembra a ninguém, engana a Melânia, usa óculos escuros comprados nos escaparates à porta dos armazéns Valmart numa vilória perdida do Kentucky, prefere bonés nacionalistas e bacocos copiados dos gangs do Metro de Nova York; e a sua demência cognitiva é de nascença, nada tem a ver com a provecta idade.

Biden e Trump são como a água e o azeite também quando chega o momento de produzir os cartazes e os videoclipes de campanha, quando são chamados à televisão para debater ideias que não têm, preocupações que não sentem, para usar e abusar dos truques ensinados pelos assessores de imagem – e para reduzirem o confronto a ataques e insultos pessoais, ainda que com ademanes díspares e opostos de elegância. 

Porém, são gémeos na política, igualmente eficazes quando se trata de servir como agentes administrativos e «democráticos» do neoliberalismo; isto é, cumprem a tarefa para a qual são indigitados pelo omnipresente e submerso «Estado profundo» e posteriormente «escolhidos pelo povo» através de mecanismos eleitorais distorcidos, antecedidos de peditórios milionários junto da gente que conta, concebidos em delicadas degustações e capitosas soirées dançantes; e recorrendo também a feiras de comércio político montadas em cenários de Hollywood, seguindo guiões da série mais rasca onde se estipulam discursos ricos em piadas idiotas recebidas com coros de gargalhadas a pedido, abrilhantadas por claques de cheerladies equipadas à Barbie.

É assim a política que orienta a prática da democracia liberal, a «nossa democracia», uma sucessão de rituais cumpridos enquanto os verdadeiros donos disto tudo, de nós todos, senhores dos impérios económicos e financeiros planetários decidem quanto há para decidir nos cenáculos do mercado, deus da modernidade política, militar, social e cultural. De vez em quando juntam-se nos conclaves conspirativos e decisórios de Bilderberg, da Trilateral, do Fórum Económico Mundial e outros, para os quais arrolam alguns plebeus prometedores para fazer deles os magarefes que mantêm a política e os universos do comentariado nos eixos.

E a guerra, as guerras que estamos vivendo e sofrendo, com as catástrofes humanitárias e as incertezas inerentes, mais não são do que os veículos a que recorre o império em desespero, tentando evitar que a evidente e irreversível decadência se torne real mais dia menos dia, dando eventualmente lugar a uma ordem internacional assente no direito internacional existente e na cooperação entre países soberanos e iguais. Caso isto não aconteça, a loucura dos políticos «com vocação de poder» instalados no areópago dos areópagos ocidentais, mergulhados no seu autismo demente ao mesmo tempo que são manipulados pelos insaciáveis senhores do dinheiro, deixar-nos-á sem apelo à mercê desses degenerados. Num cenário assim consumado os insaciáveis monstros do mercado, que não admitem limites ao respeito pelas suas exigências e são imunes a qualquer vínculo emotivo com os seres humanos, usarão e abusarão do poder absoluto facultado pelo fascismo neoliberal e, se acharem necessário, não hesitarão em condenar-nos ao terror supremo capaz de limpar o planeta do excedente de gentalha que os incomoda.

O debate patético, incongruente, surreal na verdadeira acepção do conceito entre os dois homúnculos que lutam pela gestão formal e a rogo de um império agónico revelou que a «nossa civilização», o orgulhoso e arrogante «mundo ocidental» atingiu o grau zero e mais rasteiro da política. Os políticos a quem o mercado entrega o poder por via «eleitoral» e «liberal» não passam hoje de burocratas serviçais que, a bem dizer, já quase nem tentam convencer-nos de que representam os nossos interesses e a nossa vontade manifestada em papelinhos inúteis depositados num caixotinho sem fundo. Eles são, afinal, juntamente com os acólitos da propaganda e os salteadores do jornalismo, da academia e da cultura, os autênticos idiotas úteis de um sistema infernal e incontrolável de poder do qual só nos apercebemos (e já não é pouco) por via dos afloramentos que infernizam a vida de cada um.

Aquele debate entre a fina-flor demente dos idiotas deste «Ocidente» – e que terá pelo menos uma sequela, segundo se diz – foi um retrato do inferno.

Desejamos, e para isso temos uma tarefa tão urgente como gigantesca nas nossas mãos, que tal retrato não se transforme num facto da vida – ou talvez aqui deva escrever-se morte – real.