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segunda-feira, 13 de maio de 2024

Marta Martins Silva entrevista Óscar Cardoso, da PIDE/DGS

* Marta Martins Silva

28 de Abril de 2024

Se estiver na rua e alguém disser "inspector" ainda se vira?

Sim. Muitas pessoas tratam-me assim.


Incomoda-o que definam a sua vida pelos dez anos na PIDE-DGS?

Foram os anos mais felizes da minha vida. Pelo contrário, tenho muito orgulho nisso.


Lembra-se da primeira vez em que teve noção do que era a PIDE?

Diziam que eram uns tipos muito duros. Mas como nunca me meti em manifestações não tive preocupação de saber. Depois do Exército servi na Guarda Republicana. Surgiu a oportunidade de ingressar na PIDE num quadro permanente de oficial miliciano. O futuro era mandarem-me embora quando não precisassem de mim.


Que funções desempenhou antes de ir para Angola?

Fui colocado na investigação. Conheci pessoas extraordinárias, nomeadamente José Barreto Sachetti, meu primeiro director. Vi como se faz um interrogatório, e depois estagiei nos vários serviços.


Há o mito de que se usava o método de interrogatório 'PIDE bom, PIDE mau'...

Isso até existe nos livros da Agatha Christie. Há sempre um mau e um bom.


E era o bom ou o mau?

Normalmente não interrogava. Assistia e coordenava. O meu papel era de inspector, que instruía o processo, e os chefes de brigada é que faziam os interrogatórios.


Muitas pessoas dizem que foram torturadas na PIDE.

Todos dizem que foram.


Nega que tenha havido tortura?

Nego. Estavam horas em pé até dizerem a verdade. Isso não era muito agradável, mas não havia tortura física. Sob palavra de honra: nunca vi torturar ninguém. Mas também devo dizer que o pavor que eles criaram sobre a PIDE facilitava o trabalho. Ficavam tão aterrorizados que contavam a história toda desde pequeninos. Só que quando vinham cá para fora tinham de dizer que foram torturados.


Quando foi para Angola levava directrizes de Lisboa para criar os Flechas?

Não. Vigorava lá a teoria de, com a Rodésia, África do Sul e Moçambique, constituir uma confederação antiterrorista. Em Portugal sabia-se disso e em Luanda havia um director muito inteligente que estaria dentro do complô, onde Angola se afastaria de Portugal. Disseram-me para ir lá ver o que se passava. Fui com essa missão, mas a versão oficial da transferência foi aplicar os conhecimentos de guerrilha num sítio onde havia. O director São José Lopes apercebeu-se e não me tratou bem. Andei por Angola toda, e depois pôs-me numa coisa de que não gostava nada: os Reservados.


Tinha de fazer o quê?

Se alguém precisava de uma licença, íamos ver os antecedentes. Em Luanda, onde vivia com a minha mulher, conheci o administrador Manuel Pontes, que passara a maior parte da vida nas terras do fim do Mundo. Falou-me do paraíso da caça que era o Cuando-Cubango, e de um povo extraordinário, os bosquímanos, dos quais tinha ouvido falar na cadeira de Etnografia. Pensei que era interessante aproveitá-los. Propus ao director, que arranjou uma maneira airosa de se ver livre de mim. Deu-me um Land Rover, e fui com a minha mulher e com o velhote. Só que o jipe não estava em boas condições.


Se calhar escolheram-vos o Land Rover pior...

Acredito [risos]. Comecei por recrutar oito, que pareciam múmias, deste tamanho [faz um gesto equivalente a metro e meio], e usavam arcos e flechas. Fizeram uma razia em acampamentos dos ‘turras’. Usavam flechas envenenadas, em arcos pequeninos. Quem apanhava uma flechada daquelas não tinha chance nenhuma. Começámos os flechas bosquímanos, com muito sucesso. Nas terras em que não há nada, descobriam água e o que comer. Raramente traziam alguém vivo, mas limpavam o terreno.


Foram usados contra missões que davam apoio a independentistas?

Que eu saiba, a única pessoa que fez isso fui eu, duas vezes. À missão de Xamavera, de padres franceses que davam apoio logístico aos bandidos, mandámos uns que não eram bosquímanos, fardados com camuflados da UNITA. Beberam a garrafeira, deram palmadas, mas não mataram ninguém. Foram-se embora. A outra foi numa missão da Catota, no Bié, da qual enviavam relatórios para a CIA. Foram lá uns tipos e o missionário resolveu partir.


Nessa altura também ficou a conhecer Jonas Savimbi.

Sim.


Que impressão tinha dele?

A pior. Era o mais traiçoeiro. Entendeu-se dar apoio à UNITA, com o compromisso de fazer tampão ao MPLA, e o Savimbi ficou malvisto com os países africanos. Houve uma altura em que foi preciso fazer um contacto na mata, no Moxico. Eu representava Portugal e da parte deles seria o próprio Savimbi. Fomos ao local, num helicóptero sul-africano, e apareceu-nos um preto de tanga. Mas com brilhantina no cabelo.


Não combinava muito...

E tinha unhas mais bem tratadas do que as minhas. Não gostei quando ele disse que o encontro era mais adiante. Avançámos 50 metros, mas voltámos para o helicóptero, para sobrevoar a zona. O piloto disse que não tinha combustível, e fomos à base encher o depósito. No regresso, chovia torrencialmente. Decidi que voltávamos na manhã seguinte. À noite, o nosso radiotelegrafista, que estava no acampamento da UNITA, comunicou que havia notícias de que os Flechas tinham sido massacrados. Disse-lhe para destruir o rádio e meter-se num buraco. De manhã começámos a ver corpos dos Flechas cortados aos bocados. A operação estava feita para o Savimbi se lavar perante os africanos.


Os Flechas não resultaram em Moçambique?

Aquilo estava tão bem feito que nem o director provincial de Moçambique sabia. Disse-me assim: "Não precisamos de flechas, não queremos flechas e temos raiva a quem quer. Portanto, a partir de agora, considere-se turista". Acabei por voltar para Angola e depois para Portugal, onde apanhei o 25 de Abril e fiquei 733 dias preso.


Onde é que esteve preso?

Caxias, Peniche e Alcoentre.


Pensou que podia morrer?

Tinham a amabilidade de nos dizer em Peniche que nos iam fuzilar. Também tive um plano de fuga. Consegui que a minha mulher me trouxesse uma granada e andei semanas com aquilo junto ao braço. No dia de ir à consulta externa de otorrino, meteram-me no Mercedes, abriu-se o portão e quando olhei pelo retrovisor tinha um Unimog atrás, com uma metralhadora e uma secção de atiradores. Não tinha chance nenhuma.


Quando é que foi julgado?

Estava em Alcoentre quando fizeram a acareação. Fui acusado de torturar um homem, mas eis um pormenor: quando ele disse que eu ia torturá-lo à cela, comandava uma companhia nos Açores e ainda não estava na PIDE. Outro era um lingrinhas, que me acusou de, com 50 homens, lhe ter dado uma surra. Bastava um para dar cabo dele.


Qual foi a primeira coisa que fez ao ser libertado?

Fui ter com os meus pais, a minha mulher e os meus filhos. Depois tentei arranjar emprego. Andei a vender margarina, mas não era o meu estilo. Tinha de me apresentar no posto de Oeiras, de 15 em 15 dias, e o sargento avisou que tinha lá um mandado de captura com o meu nome.


A que se devia o mandado?

Punham-se bombinhas nas sedes comunistas e eu ia a Badajoz buscar material para as fazer. Houve um tipo que estava a fabricar um dispositivo em casa, fez aquilo mal e ia ficando sem um pé. Foi para o hospital e começou a falar, sob efeito da anestesia.


Eram acções do ELP ou do MDLP?

Do ELP, com o Santos e Castro, com quem estive num subúrbio de Madrid. Foi lá que fiz o passaporte e apanhei o avião para a Rodésia


Ainda pensava que Portugal voltaria à situação anterior?

Estava tão desiludido que pensei esquecer-me de Portugal. Quando fui para a África do Sul, era ali que queria ficar, mas entretanto vi o país ceder – e não queria ser preso outra vez.


É procurado por pessoas do seu passado?

Muitas.


Que lhe querem bem ou que lhe querem mal?

Uma vez, à entrada desta propriedade, alguém escreveu "PIDE, vamos-te matar". Tive a tentação de escrever "venham à hora de almoço que há comida", mas pessoas daqui caiaram aquilo. Hoje, é aqui que quero viver.


Costuma votar?

De vez em quando voto, para que não seja um pior a vencer.


Entre os políticos actuais há alguém que se destaque?

O Rui Rio ou o Paulo Morais. Não vejo mais, até porque vivo atrás do sol-posto e evito a televisão. As raparigas do Bloco de Esquerda dizem coisas com piada, mas não vão a lado nenhum.


Oliveira Salazar foi o último político que respeitou?

Nunca respeitei políticos. Respeitei Salazar como estadista, e estabeleço a diferença entre uma coisa e outra.


Se Portugal fosse ainda pluricontinental teríamos um Presidente ou um primeiro-ministro africanos?

Poderia haver. Mais antiga é a ideia de Norton de Matos, em que a capital era Nova Lisboa e aqui seria o escritório na Europa. Era brilhante.


Se não tivesse acontecido o 25 de Abril chegaria a director-geral da PIDE?

A minha ambição era, quando visse o terrorismo acabado, ir para o Cuando-Cubango. Arranjava uma fazenda de gado, vivia lá, com os meus pretos e bosquímanos, e que ninguém me chateasse.


Como é que pensa que irá ser recordado no futuro?

Um português sem Portugal. Mas não me preocupo muito com isso.


ENTREVISTA  realizada em (2016)  

https://www.facebook.com/UniaoNacionalSalazar/posts

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Angola | CRIME E TRAIÇÃO NA ALTERNÂNCIA POLÍTICA – Artur Queiroz

 terça-feira, 9 de agosto de 2022

Artur Queiroz*, Luanda

No ano de 2014 tive a oportunidade de entrevistar, algures em Portugal, o antigo inspector da PIDE/DGS Óscar Cardoso, fundador dos Flechas e profundo conhecedor da UNITA de Jonas Savimbi. Um dia inesquecível. Saí de Luanda no voo da noite e à chegada a Lisboa liguei o telefone. Encontrei uma mensagem de minha irmã: “Vem que a Mamã faleceu”.  Minha querida Mãe tinha falecido ao fim da tarde do dia em que parti. 

No aeroporto de Lisboa estava à nossa espera alguém da confiança de Óscar Cardoso, que nos levaria ao local da entrevista. Face à tragédia, o José Ribeiro quis abortar o trabalho. Recusei. Fomos ao encontro do entrevistado. Já com tudo concluído (texto mais gravação de som e imagens) ainda tive tempo de me recolher uns minutos ante o caixão da Mamã. Não houve tempo para mais, porque tive de seguir logo para o aeroporto e regressar a Luanda.

Hoje mando o texto da entrevista que nunca foi para o ar na RNA e na TPA, por razões que desconheço. Mas saiu no Jornal de Angola. Leiam que vale a pena. Para que todos saibam qual é a alternância que a UNITA oferece às angolanas e aos angolanos.

O 25 de Abril em Portugal pôs fim à tenebrosa PIDE que perseguiu e assassinou milhares de lutadores pela liberdade, mas pouco se sabe para onde foram muitos dos chefes e agentes da polícia política fascista e colonial portuguesa. Numa quinta algures em Portugal o Jornal de Angola entrevistou aquele que foi o segundo homem da hierarquia da PIDE em Angola e que fundou os “Flechas”, Óscar Cardoso.

Diamantes e Marfim Fizeram Muitos Amigos à UNITA

Óscar Cardoso foi inspector-adjunto da PIDE/DGS. Era o número dois da organização em Angola. Nas savanas do Cuando Cubango fundou os Flechas para lutarem contra os guerrilheiros do MPLA, que ameaçavam levar a guerrilha ao Planalto Central. Em 1976, Óscar Cardoso foi para a Rodésia de Ian Smith onde criou forças especiais para enfrentar os guerrilheiros da ZANU, comandados por Robert Mugabe. Um ano depois foi para a África do Sul organizar as forças de Savimbi na guerra contra Angola. Pela primeira vez, depois da “Revolução dos Cravos” em Portugal e a extinção formal da polícia política portuguesa, um alto responsável da PIDE fala do percurso de Savimbi ao serviço de Portugal e do apartheid.

Jornal de Angola - Foi para Angola como militar ou já ao serviço da PIDE?

Óscar Cardoso - Eu era um homem de confiança do regime e a PIDE soube que o director da polícia em Angola, São José Lopes, estava metido numa conspiração com a Rodésia e a África do Sul para proclamarem a independência do território. Com São José Lopes estavam pessoas com grande poder económico na província. Era preciso travar aquilo. Fui para Luanda com essa missão. Nessa altura já era inspector.

JA - Conseguiu travar essa conspiração?

OC - A minha missão era secreta, mas São José Lopes soube tudo ainda eu não tinha desembarcado em Luanda. Por isso, quando cheguei, mandou-me para o Cuando Cubango alegando que havia movimentos subversivos na região que era preciso travar. Quis ver-se livre de mim, rapidamente. Na verdade, as forças do MPLA usavam o norte do Cuando Cubango para se infiltrarem no planalto central. Eu estudei antropologia na Escola Colonial e interessei-me pelos khoisan, os chamados bosquímanos. Conheci-os ao vivo. Quanto à conspiração, eles pararam na altura, mas nunca abandonaram o projecto. Logo a seguir ao 25 de Abril, retomaram-no.

JA - O que concluiu com os seus estudos?

OC - Os bosquímanos foram empurrados para os locais mais inóspitos e por isso odiavam todos os que não eram da tribo. Verifiquei que eram pisteiros espantosos. Liam os rastos como nós lemos um livro. Sabiam se as pegadas eram de homem ou mulher, se iam carregados ou não. Um dia até me disseram que a pista era de uma mulher grávida. O administrador Amaral Pontes tinha uma grande paixão pelos bosquímanos. Chamavam-lhe Tata Kun. Um dia decidimos fazer deles uma força armada no Cuando Cubango. Como as suas armas eram os arcos e flechas, pus-lhes o nome de “Flechas”.

JA - Como conseguiam enfrentar forças armadas só com arcos e flechas?

OC - As flechas eram armas terríveis. Eles conhecem um tubérculo altamente venenoso que fica uns dias em infusão. Depois embebem as pontas das flechas naquele líquido e quando acertam nas presas, elas ficam paralisadas. Nem os elefantes resistem ao veneno. Os bosquímanos conhecem a noite tão bem como o dia e atacavam o inimigo quando estava a dormir. Seguiam o lema do general chinês Sun Tse Wu, que existiu há mais de 3500 anos: sejam mais rápidos que o vento e tão misteriosos como a mata. Sejam destruidores como o fogo e silenciosos como as montanhas. Sejam impenetráveis como a noite e furiosos como o trovão.

JA - Os Flechas no Leste também eram bosquímanos?

OC – Não. Dado o êxito dos Flechas no Cuando Cubango, decidimos criar unidades em todos os postos situados no teatro de guerra. Em Gago Coutinho (Lumbala Nguimbo) foram recrutados os antigos guerrilheiros que se entregaram ou foram feitos prisioneiros. Depois também recebemos um grande reforço dos guerrilheiros da UNITA comandados pelo major Sachilombo, formado na academia militar de Nankin e que na época era o número dois da UNITA.

JA - A UNITA foi criada pela PIDE?

OC - Não, a UNITA foi criada pelo Savimbi e mais alguns companheiros, que receberam treino político e militar na China. Nós conhecíamos o perfil de todos e quando se instalaram na Frente Leste fomos estabelecendo contactos. Eles estavam a ser muito úteis, porque combatiam as forças do MPLA. Mas depois infiltraram-se na zona do Munhango e começaram a incomodar a actividade dos madeireiros. Nessa altura fizemos o que qualquer força de inteligência militar faz: estabelecemos contactos com Savimbi e os seus oficiais.

JA - Está a falar da “Operação Madeira”?

OC- Exactamente. O pessoal da PIDE e do comando da Frente Militar Leste começou a estabelecer contactos com Savimbi e os seus oficiais. Conseguimos resolver o problema dos madeireiros. Logo nos primeiros contactos verificámos que o Savimbi tinha muito gosto em trabalhar connosco. O general Bettencourt Rodrigues, um militar extraordinário, deu luz verde e a UNITA passou a combater ao lado das tropas portuguesas.

JA - Quem fez os contactos com a UNITA no Munhango?

OC - Alguns nomes são públicos, mas eu não vou repeti-los. Por uma questão de ética só dou eu a cara. E refiro o senhor general Bettencourt Rodrigues porque ele nunca escondeu o seu papel na Operação Madeira. O Savimbi estava cheio de vontade para combater as forças do MPLA e nós fizemos-lhe a vontade.

JA - Savimbi fez alguma exigência para lutar ao lado das tropas portuguesas e dos Flechas da PIDE?

OC - Fizemos um acordo, ele combatia os guerrilheiros do MPLA e nós dávamos em troca armas, apoio logístico e médico. O Savimbi esteve várias vezes internado no Hospital do Luso (Luena). Ele tinha problemas de saúde que se agravaram mais tarde. Recebeu tratamento várias vezes num hospital da África do Sul que tinha uma área secreta, destinada exclusivamente ao pessoal da UNITA.

JA - Depois da “Operação Madeira” a UNITA fez operações contra a tropa portuguesa?

OC - Fez algumas, para limpar a imagem. Quando se soube que Savimbi estava do nosso lado, perdeu prestígio em África. E ele queria mostrar que eram mentiras para o prejudicar. Fez uma operação que quase me custou a vida. Mas Deus salvou-me.

JA - Não me diga que Deus estava ao lado da PIDE?

OC - Pensem o que quiserem, mas eu fui salvo por Deus. Quando os comandantes Sachilombo e Pedro foram para Gago Coutinho, algum tempo depois começaram a circular notícias que davam a UNITA como uma organização ao serviço da PIDE. Então o Savimbi, que era muito traiçoeiro, resolveu fazer uma operação para limpar a imagem negativa. Armou-me uma cilada. Queria matar-me, matar um coronel da Força Aérea da África do Sul e o major Sachilombo.

JA - O que aconteceu?

OC – O Savimbi mandou dizer que queria enviar um grupo grande de guerrilheiros para nos ajudar na III e na IV Região do MPLA. Disse que o comandante Nzau Puna ia comandar esses grupos. Montámos a Operação Viragem e tratámos de todos os pormenores. O ponto de encontro era perto de Cangamba. Nós mandámos Flechas por terra em direcção ao local. Eu e o major Sachilombo fomos num helicóptero sul-africano, pilotado por um coronel. Aterrámos a cinco quilómetros do objectivo, num pequeno planalto, como estava previamente combinado. Veio ao nosso encontro um homem andrajoso, mas com as mãos e as unhas bem tratadas. Fiquei desconfiado com isso.

JA - Retiraram da zona?

OC - Desconfiei e manifestei as minhas desconfianças ao major Sachilombo. Mas decidimos acompanhar aquela figura estranha. Dois quilómetros à frente, encontrámos os nossos Flechas. Estavam todos sem armas. Disseram que os oficiais da UNITA lhes pediram para guardarem as armas porque estávamos numa operação de amizade e não fazia sentido andarem armados. Fiquei ainda mais desconfiado. O guia indicou-nos um morro a cerca de dez quilómetros. Era lá que estavam os homens da UNITA e o Savimbi. Nesse momento o major Sachilonmbo chamou-me à parte e disse para sairmos imediatamente dali. Dissemos aos homens para se dispersarem e esperarem a chegada do helicóptero.

JA - Como escaparam?

OC - Partimos apressadamente para o helicóptero e quando levantámos voo pedi ao piloto para sobrevoar o morro onde estava Savimbi e os seus homens. Mas o piloto disse que tinha pouco combustível e era melhor regressar a Cangamba para abastecer. Chegámos a uma hora que já não dava para regressar. No dia seguinte, ao nascer do sol, partimos para o local. Estava tudo limpo, mas sobre o morro caía uma chuva torrencial. Não se via nada. Demos algumas voltas até que o nosso radiotelegrafista em terra nos disse que quase todos os Flechas tinham sido mortos pela UNITA. Disse-lhe para desligar o rádio e esconder-se. Montámos uma operação de resgate. Os Flechas em terra tinham sido esquartejados. Foi horrível. Se não fosse aquela chuva hoje não estava aqui.

JA - Acabaram aí as relações com a UNITA?

OC - Continuaram, mas quisemos saber o que tinha acontecido. Os seus homens disseram que o Savimbi decidiu montar a Operação Baile para limpar a imagem da UNITA. Queria apresentar a minha cabeça, as do major Sachilombo e do coronel sul-africano. Além disso ficava com o helicóptero como troféu. Assim provava que nada tinha a ver com a PIDE e ainda acusava os portugueses de estarem aliados à África do Sul. Dizer ao mundo que tinha morto em combate o fundador dos Flechas era um grande trunfo. E fazia o papel de justiceiro em relação ao major Sachilombo.

JA - Essa foi a única operação contra as forças portuguesas?

OC - Ainda fizeram mais uma ou duas operações contra as forças armadas portuguesas, sempre para mostrar que a UNITA lutava contra nós. Eu alertei para este comportamento, mas nada pude fazer quando, depois do 25 de Abril, a inteligência apresentou Savimbi como o “muata da paz” e a UNITA como o “movimento dos brancos”.

JA - Ninguém o quis ouvir?

OC - Não, eu estava de licença graciosa em Portugal e apanhei lá os acontecimentos do 25 de Abril. Perdi os contactos e não pude agir. Aquela ideia de fazer do Savimbi o grande dirigente angolano da paz foi um erro trágico. Perderam os angolanos e os portugueses. Depois fui preso no Forte de Peniche. Estive lá dois anos. Comandei o forte e depois fui prisioneiro. Mas nunca ninguém me tocou com um dedo. Só quiseram destruir-me psicologicamente. Resisti.

JA - O senhor era considerado da linha dura da PIDE?

OC – O que é isso da linha dura? Nunca torturei ninguém. Nunca toquei com um dedo num preso. Havia um dirigente estudantil que andava a fazer asneiras. Foi preso. Quando o interroguei percebi que ele não valia nada. Telefonei à mãe para ir buscá-lo à sede da PIDE. No dia seguinte todos os estudantes souberam o que aconteceu e ele perdeu o prestígio. Depois do 25 de Abril reapareceu e hoje é um grande político. Mas confesso que, por vezes, era preciso dar uns calores.

JA - A PIDE tinha infiltrados nos movimentos de libertação?

OC - Sim, nós tínhamos e eles também tinham pessoas infiltradas nos nossos serviços.

JA - Depois do 25 de Abril foi julgado em Tribunal Militar?

OC - Fui julgado e no meu processo pessoal constavam relevantes serviços prestados à pátria, no Exército, na GNR e na PIDE/DGS. Apanhei dois meses de prisão por não me ter apresentado semanalmente no posto da GNR, como tinha sido determinado pelo Tribunal civil. Nos meses que se seguiram ao 25 de Abril soube que a UNITA tinha torturado e assassinado o Soba Matias no Cuando Cubango. Fiquei em choque. Ele era um valioso combatente ao serviço de Portugal.

JA - Quem era o Soba Matias?

OC - Um grande homem. Um dia foi ter comigo ao posto da PIDE em Serpa Pinto (Menongue) e disse que andavam homens da UNITA a fazer mal ao povo. Pediu-me oito armas para ir apanhá-los. Confiei nele e entreguei-lhe as armas. Apanhou os guerrilheiros da UNITA. Desde então, foi um combatente extraordinário. Depois do 25 de Abril os homens da UNITA foram à sua aldeia e mandaram-no arriar a bandeira portuguesa. Ele recusou. Torturaram-no até à morte e esquartejaram-no para servir de exemplo ao povo. Foi terrível.

JA - Mesmo sabendo disso, foi trabalhar com Savimbi na África do Sul?

OC - Eu tive de fugir de Portugal. Passei 730 dias preso em Peniche e quando saí em liberdade condicional, participei em algumas operações do ELP e do MDLP. Fui denunciado e os revolucionários queriam prender-me outra vez. Quando o autocarro se atrasa 15 minutos ficamos logo nervosos. Eu passei 730 dias da minha vida no Forte de Peniche. Não queria ficar preso nem mais um minuto. Contactei os meus amigos da Rodésia e fui para lá. Saí de Portugal clandestinamente e em Madrid os meus amigos do MDLP arranjaram-me um passaporte. Eles tinham muitos passaportes, em branco. Tive que arranjar um nome falso.

JA - Como passou a chamar-se?

OC - Rogério Ramon Pinto de Castro. Cada nome destes correspondia ao meu pseudónimo nas organizações a que pertencia: Exército de Libertação de Portugal (ELP), Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), Frente de Libertação dos Açores (FLA) e Frente de Libertação da Madeira (FLAMA). Preenchemos o passaporte e um amigo fez um carimbo com uma batata para parecer verdadeiro. Assim embarquei para Salisbúria (actual Harare, capital do Zimbabwe).

JA - Em Portugal participou nos atentados do MDLP e do ELP?

OC - Ajudei a fazer atentados. Mas só atacámos as sedes do Partido Comunista. Ainda tentámos salvar Portugal, mas quando precisámos de um presidente, o general Spínola fugiu para Espanha. Percebi logo que aquilo não ia dar nada.

JA - António Spínola não era o vosso chefe?

OC - Nunca foi. O ELP foi fundado pelo coronel Santos e Castro. O MDLP foi criado pelo comandante Alpoim Calvão. A FLAMA tinha pouco peso e a FLA não ia a lado nenhum. A CIA pediu-me para ir aos Açores ver se havia possibilidades da independência do arquipélago. Mas isso só era possível se derrotássemos os comunistas. Moscovo estava por trás do 25 de Abril. Eles queriam Portugal na órbita comunista por causa das colónias. Mas percebi logo que não íamos a lado nenhum. Então decidi oferecer os meus préstimos à Rodésia.

JA - Trabalhou com a CIA?

OC - Sim, trabalhei, mas só depois do 25 de Abril. Fui aos Açores ver se havia possibilidade de declarar a independência do arquipélago. Os meus contactos foram muito importantes, mais tarde. O meu amigo Daniel Chipenda foi abandonado pelos americanos depois da independência de Angola e eu meti-o na CIA.

JA - Antes de irmos à Rodésia: qual foi o papel de Mário Soares no Verão Quente?

OC - Serviu-se de nós. Ele queria poder a todo o custo. Apoiou os operacionais do ELP e do MDLP, trabalhou com a CIA, fez tudo o que Carlucci lhe mandou fazer. Quando conseguiu o que queria, abandonou os amigos. É muito parecido com o Savimbi. Por isso, sou capaz de me sentar à mesa com todos, menos com os socialistas.

JA - Qual foi o seu papel na Rodésia de Ian Smith?

OC - Organizei as forças especiais, para enfrentarem os guerrilheiros da ZANU. Eu ganhei muita experiência em Angola e acabei por criar “Flechas” na Rodésia. Um ano depois, fui-me embora. Eles tratavam-me como se fosse um criado. Nunca fui tão maltratado. Meti-me num avião e aterrei em Joanesburgo. Viram o apelido Castro no meu passaporte, o meu rosto barbudo e disseram que era um espião cubano. Pedi um rand para telefonar ao brigadeiro Ben Roos. Recusaram. Ofereci dez dólares rodesianos por um rand. Nada. Depois veio um oficial, ouviu a minha história e deu-me um rand para telefonar. Falei com o brigadeiro e ele mandou logo os seus homens tirar-me do aeroporto.

JA - Foi assim que ficou a trabalhar com os sul-africanos?

OC - A minha ideia era essa. Ben Roos disse-me que a África do Sul estava a preparar a batalha final contra Angola e que iam ganhar. Convidou-me para ser o oficial superior de ligação com os homens da UNITA e do Batalhão Búfalo. Aceitei. Mas alertei imediatamente o brigadeiro para a personalidade do Savimbi. Ele já sabia tudo. Foi assim que fui parar a Oshakati, onde montei o comando. E comecei a trabalhar com o pessoal da UNITA.

JA - Quem era o seu contacto?

OC - Era o senhor Isaías Samakuva, um homem muito apagado e extremamente limitado. Tinha pouco rasgo. Não é fácil trabalhar com pessoas que não percebem nada do que lhes dizemos. Expliquei-lhe que a África do Sul queria que a UNITA servisse de tampão aos avanços da SWAPO. Mas o Savimbi tinha-lhe dito que a UNITA estava a lutar contra os cubanos e os russos e ele repetia esse discurso por tudo e por nada. Mas não tomava qualquer decisão. 

JA - Nessa altura falou com Jonas Savimbi?

OC - Muitas vezes. Mas ele nada tinha a ver com as operações, os sul-africanos não lhe davam confiança para isso. Em Oshakati e no Rundu só tratávamos de inteligência, de operações militares e de sabotagens. O Savimbi era o político, nada tinha a ver com estas coisas. A base militar principal era na Jamba. Os sul-africanos e os americanos criaram ali aquela estrutura, grande em qualquer parte do mundo. Lá nada faltava. Mas eu estava mais ligado à inteligência e às operações. No início, o objectivo era travar a SWAPO. O Savimbi aceitou as regras, mas cedo mostrou que o seu único pensamento estava no combate ao MPLA para um dia chegar ao poder em Angola. Além de traiçoeiro, ele era de uma ambição sem limites.

JA - Qual era a sua missão?

OC - Fazia tudo. Vezes sem conta fui levar armas e munições à fronteira. Transportei dezenas de feridos. Eles eram retirados de Angola em bicicletas e chegavam à fronteira num estado lastimável. Quase sempre tinham que ser mandados para o Rundu. Quando o Hospital de Ondângua não respondia à gravidade dos feridos, iam para Pretória, para o Hospital Voortekerhoogte. Ali os serviços secretos criaram uma área só para o pessoal da UNITA. Ninguém tinha acesso a essa zona. Médicos, enfermeiros, técnicos e pessoal de apoio eram todos credenciados pelos serviços secretos.

JA - A UNITA usava armas sul-africanas?

OC - Nem pensar. A África do Sul não podia arriscar tanto. Montámos um esquema perfeito. Comprávamos armas de origem soviética à Hungria e a UNITA dizia que aquele material era apreendido às FAPLA nos combates. Todas as armas eram soviéticas. Entregávamos o material em Omungwelume, no Marco 14. Ali era o centro logístico. No Rundu tínhamos o grande aeroporto onde chegavam os aviões carregados de material. Nesta altura, também estava activo o Batalhão Búfalo, treinado pelo meu amigo Jan Breytenbach, um grande militar sul-africano. E tínhamos Flechas do Cuando Cubango. Hoje vivem algures na África do Sul, abandonados por todos.

JA - Na Jamba encontrou aqueles políticos portugueses que iam ver Savimbi?

OC - A Jamba era mais para mostrar a organização da UNITA e eu trabalhava como operacional. Ali estavam todos seguros, os aviões da Força Aérea Angolana não tinham capacidade de ir lá bombardear e regressar às suas bases. Os portugueses iam mais para tratar de negócios. Os diamantes e o marfim fizeram muitos amigos à UNITA.

JA - Sabe o que aconteceu com o avião de João Soares?

OC - Claro que sei. O avião era de um grande amigo meu, Joaquim Silva Augusto, comerciante no Rundu. Ele como piloto não era grande coisa. Carregaram os porões com pontas de marfim e com diamantes. Levantaram voo, mas o Augusto não conseguiu aguentar o aparelho no ar. Foi terrível, ficaram todos em mau estado. Foram transportados para o Hospital Verwoerd, onde a minha mulher era enfermeira. Só sabíamos que o Augusto estava gravemente ferido. A minha mulher foi imediatamente para o hospital, mas não encontrou o Augusto, estava a fazer exames de Raios X. Os outros tinham os olhos negros, estavam irreconhecíveis.

JA - Como soube que um dos feridos era João Soares?

OC - A minha mulher soube que os feridos eram todos portugueses. No dia seguinte já encontrou no hospital a mãe e a esposa de João Soares. Ele estava gravemente ferido. O nosso amigo Augusto, também. O tráfico de diamantes e de marfim daquela vez correu mal.

JA - João Soares diz que isso é invenção do Jornal de Angola.

OC - O avião estava cheio de marfim e diamantes. Perguntem ao nosso amigo Augusto, que ele confirma tudo. A UNITA roubava os diamantes em Angola e matava os elefantes. Depois os amigos iam à Jamba buscar o material.

JA - É verdade que os sul-africanos pediram a Mário Soares apoio à UNITA, em troca de lhe salvarem o filho?

OC - Desconheço. O Mário Soares não foi à África do Sul ver o filho ao hospital. Maria Barroso esteve lá muitos dias. A esposa de João Soares também. É uma situação interessante. Eu trabalhava com os sul-africanos na ligação com a UNITA. E Mário Soares apoiava a UNITA em Portugal. Estávamos unidos no mesmo objectivo. Mas para mim, esse homem foi o que de pior aconteceu à minha querida pátria.

JA - Pertencia às Forças Armadas Sul-Africanas?

OC - Trabalhei sempre com a inteligência militar. E sou coronel na reforma da Força Aérea da África do Sul. Fui condecorado. Quando chegou a altura de ir para casa perguntaram-me se queria uma pensão mensal ou se queria receber tudo de uma vez. Preferi o dinheiro todo. Deram-me 100.000 euros. Fui muito bem tratado na África do Sul. Participei nas negociações que conduziram à retirada das nossas tropas de Angola.

JA - Como oficial das forças sul-africanas?

OC - Sim, nessa condição. Era perito em inteligência militar. Reuni-me com os oficiais angolanos e tratámo-nos todos com respeito. Do lado angolano estava gente com muito valor. Retirámos as nossas forças para além do paralelo determinado. Mas a guerra através da UNITA continuou até à Batalha do Cuito Cuanavale. Foi a batalha final. Os angolanos saíram vitoriosos. Tenho de reconhecer que foram heroicos, bateram-se pela pátria deles, como ninguém. São os vencedores.

JA - Tem alguma pensão do Estado Português?

OC - Tenho uma pensão, porque servi Portugal no Exército, na GNR e na PIDE/DGS. Fui condecorado e louvado. Mas agora andam a cortar-me a pensão. Estou muito triste com o presente de Portugal e apreensivo quanto ao futuro. Há demasiada corrupção. Deve ser o país mais corrupto do mundo. Depois as manobras do super capitalismo estão a lançar as pessoas na pobreza.

*Jornalista

à(s) agosto 09, 2022 

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