Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
Jonathan Cook - Sim, Trump é ordinário. Mas a extorsão global dos EUA é a mesma de sempre
quarta-feira, 10 de dezembro de 2025
Helder Moura - (561) O desvelar das tendências militaristas atuais
O direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer, Tucídides.
Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão, não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo.
Diversos altos funcionários presos por crimes de guerra, retomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês.
Na Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.
A revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz.
Quando apenas um mês depois de ter sido eleita como a 104ª primeira-ministra do Japão (21 de outubro de 2025), Sanae Takaichi, presidente do Partido Liberal Democrático (PLD), logo no seu primeiro discurso no parlamento ter afirmado que o Japão poderia envolver-se militarmente num conflito entre a China e Taiwan (“an attack on Taiwan could trigger the deployment of her country’s self-defence forces if the conflict posed an existential threat to Japan”), alterando radicalmente toda a política externa seguida até então pelo Japão, tal não fez mais que confirmar as tendências militaristas presentes não só no Japão mas que se têm vindo a apoderar das nossas sociedades.
Uma das várias explicações para a emergência destas tendências, tem que ver com o que se passou na Segunda Guerra, particularmente com a forma como o pós-guerra que se lhe seguiu foi resolvido.
Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão, não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo. Washington debateu se deveria destituir o imperador, figura central do projeto imperial, mas, seguindo o conselho da antropóloga Ruth Benedict, optou por manter o imperador e outros símbolos do militarismo. Isto incluía o Santuário Yasukuni, dedicado aos mortos de guerra, fundado em 1869 e que ainda hoje alberga os restos mortais de mais de mil criminosos de guerra condenados.
Diversos altos funcionários presos por crimes de guerra, mas nunca julgados, retomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês. Entre eles estavam Yoshida Shigeru, diplomata de alto nível durante a guerra e primeiro-ministro do Japão durante a maior parte do período entre 1946 e 1954; Nobusuke Kishi, burocrata no nordeste da China durante a ocupação, ministro no gabinete de guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1957 a 1960; Shigemitsu Mamoru, ministro dos Negócios Estrangeiros no gabinete de guerra, julgado como criminoso de guerra de Classe A pelo seu papel na Coreia e preso, e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros na década de 1950; Okazaki Katsuo, diplomata durante os anos da guerra e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros de 1952 a 1954; Ikeda Hayato, funcionário do Ministério das Finanças durante os anos da guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1960 a 1964; e Sato Eisaku, funcionário do Ministério dos Transportes durante os anos da guerra e mais tarde primeiro-ministro de 1964 a 1972. Neste caso, todos eles fizeram parte da chamada "máfia manchu" que liderou a ocupação na China, manteve-se no poder.
Para que conste, Nobusuke Kishi foi o avô de Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão de 2006 a 2007 e novamente de 2012 a 2020. Muitas vezes é omitido o facto de Kishi ter sido o arquiteto da ocupação japonesa do nordeste da China e responsável pelo regime de trabalho forçado na China e na Coreia. Após a guerra, Kishi foi brevemente preso em Sugamo como suspeito de ser um criminoso de guerra de Classe A, sendo libertado sem julgamento em 1948. Esperou alguns anos antes de regressar à política com um objetivo fundamental: rever a Constituição de 1947 para remover o Artigo 9, que impunha restrições à militarização no Japão.
Em 1952, os EUA reabilitaram formalmente muitos oficiais japoneses que serviram durante a guerra, abrindo caminho para que homens como Kishi entrassem na política ativa e pavimentando o terreno para a formação do Partido Liberal Democrático (PLD) em 1955. Este partido é atualmente liderado por Sanae Takaichi, que nasceu em 1961 e que é a atual primeira-ministra do Japão.
Desde que entrou na política, Takaichi tem sido uma figura de destaque na direita chauvinista do Japão, tendo emergido por intermédio do seu mentor, Shinzo Abe. Tal como o avô de Abe, Kishi, Takaichi deseja rever a Constituição japonesa para que o Japão possa reconstruir as suas forças armadas. Em diversas ocasiões, demonstrou reverência pelo período anterior a 1945: visitou o Santuário Yasukuni, defende a conduta do Japão durante a guerra, questiona a natureza coerciva do sistema das "mulheres de conforto" e apoia a ideia de "restauração do orgulho" no passado imperialista. Afirmou que deseja que os manuais japoneses deixem de ser "autodepreciativos" e questionou a veracidade dos crimes de guerra cometidos em Nanquim. As opiniões de Takaichi, que nasceu após a guerra, ilustram que a ocupação americana não só falhou em erradicar a essência do fascismo da sociedade japonesa, como também lhe permitiu florescer.
Segundo o extenso artigo sobre “Os crimes de guerra do Japão”, antes e durante a Segunda Guerra Mundial, o Império do Japão cometeu inúmeros crimes de guerra e crimes contra a humanidade em diversas nações da Ásia-Pacífico, nomeadamente durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Guerra do Pacífico. Estes crimes ocorreram durante o reinado do Imperador Hirohito.
O Exército Imperial Japonês (IJA) e a Marinha Imperial Japonesa (IJN) foram responsáveis por crimes de guerra entre 1927 e 1945, que levaram a 19 milhões a 30 milhões de mortes, desde assassinatos em massa, terrorismo, limpeza étnica, genocídio, escravatura sexual, massacres, experimentação em humanos, tortura, fome e trabalho forçado.
A liderança política e militar japonesa tinha conhecimento dos crimes das suas forças armadas, mas continuou a permiti-los e até a apoiá-los, com a maioria das tropas japonesas estacionadas na Ásia a participar ou a apoiar os assassinatos.
Embora não seja claro se o Imperador Hirohito foi informado da extensão total desses crimes, o irmão mais novo do Imperador, o Príncipe Mikasa, serviu como oficial no Exército Imperial Japonês estacionado na China, escreveu nas suas memórias que os oficiais utilizavam prisioneiros de guerra chineses para o treino com baioneta, a fim de fortalecer a determinação dos soldados japoneses. Além disso, observou que os prisioneiros de guerra eram asfixiados e fuzilados em grande número.
O Serviço Aéreo do Exército Imperial Japonês participou em ataques químicos e biológicos contra civis durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial, violando acordos internacionais que o Japão tinha assinado, incluindo as Convenções de Haia, que proibiam o uso de "veneno ou armas envenenadas" nas guerras.
Após a Guerra, foram emitidos inúmeros pedidos de desculpas pelos crimes de guerra por parte de altos funcionários do governo japonês. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão reconheceu o papel do país em causar "tremendos danos e sofrimento" antes e durante a Segunda Guerra Mundial, particularmente o massacre e violação de civis em Nanquim pelo Exército Imperial Japonês.
No entanto, a questão continua a estar pronta a ser reaberta, com alguns membros do governo japonês, incluindo os ex-primeiros-ministros Junichiro Koizumi e Shinzō Abe, a terem prestado homenagem no Santuário Yasukuni, que honra todos os mortos de guerra japoneses, incluindo criminosos de guerra de Classe A condenados.
Segundo Shinzö Abe, o Japão aceitou o Tribunal de Tóquio e os seus julgamentos como condição para acabar a guerra, mas as suas sentenças não têm qualquer relação com as leis do Japão: assim, os condenados em crimes de guerra não são criminosos segundo a lei japonesa.
Além disso, alguns manuais de história japoneses fornecem apenas breves referências aos crimes de guerra, e certos membros do Partido Liberal Democrático negaram algumas das atrocidades, como o envolvimento do governo no rapto de mulheres para servirem como "mulheres de conforto", um eufemismo para escravas sexuais.
Quanto a assassinatos em massa, o historiador britânico Mark Felton afirma que foram mortas até 30 milhões de pessoas, a maioria civis:
“Os japoneses assassinaram 30 milhões de civis enquanto "libertavam" do domínio colonial aquilo a que chamavam a Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental. Cerca de 23 milhões destas pessoas eram de etnia chinesa. É um crime que, em números absolutos, é muito maior do que o Holocausto nazi. Na Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.”
Quanto a experimentação em humanos e guerra biológica, unidades militares especiais japonesas realizaram experiências em civis e prisioneiros de guerra na China. O objetivo da experimentação era desenvolver armas biológicas que pudessem ser utilizadas para a guerra. Agentes biológicos e gases desenvolvidos a partir destas experiências foram utilizados contra o Exército Chinês e a população civil. Isto incluiu a Unidade 731 sob o comando de Shirō Ishii. As vítimas foram submetidas a experiências que incluíram, entre outras, vivissecção, amputações sem anestesia, testes de armas biológicas, transfusões de sangue de cavalo e injeção de sangue animal nos seus cadáveres. A anestesia não era utilizada porque se acreditava que os anestésicos afetariam adversamente os resultados das experiências:
“Para determinar o tratamento da hipotermia, os prisioneiros eram levados para o exterior com um tempo gelado e deixados com os braços expostos, sendo periodicamente encharcados com água até congelarem completamente. O braço era posteriormente amputado; o médico repetia o processo na parte superior do braço da vítima até ao ombro. Depois de ambos os braços serem amputados, os médicos passavam para as pernas até que restassem apenas a cabeça e o tronco. A vítima era então utilizada para experiências com peste e agentes patogénicos”.
Do artigo referido, consta uma listagem que pode ser consultada respeitante a definições dos crimes de guerra japoneses, a lei internacional e a japonesa, o militarismo, nacionalismo , imperialismo e racismo japonês, armas de destruição massiva, tortura de prisioneiros de guerra, os julgamentos de Tóquio, lista dos maiores crimes e massacres, dos crimes de guerra, e outros.
É no blog de 27 de setembro de 2017, “Os ovos da serpente”, que podem ler:
“[…] Ainda antes do fim da II Guerra já centenas de milhar de prisioneiros dos exércitos nazis capturados e para os quais não havia campos de internamento em quantidade suficiente, foram colocados nos navios de carga que regressavam vazios aos EUA depois de terem descarregado todo o material na Europa. E por lá ficaram.
É sempre bom recordar que em 1939 os nazis contavam com mais de duzentos mil seguidores e simpatizantes nos EUA, que a revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz, e que entre os seus admiradores se encontravam o magnate automobilístico Henry Ford e o aviador Charles Lindbergh.
E que na Grã-Bretanha, a abdicação em 1936 do rei Eduardo VIII, Duque de Windsor, ficou certamente mais a dever-se às suas simpatias para com Hitler e o regime nazi do que com o facto de se pretender casar com uma divorciada americana. Eram notórias as simpatias da classe alta e dos aristocratas britânicos para com o regime nazi, o que talvez tenha levado Hitler a cometer o erro estratégico de acreditar que a implantação do seu regime na Grã-Bretanha seria relativamente fácil, não se preocupando muito em dificultar a retirada do exército britânico de Dunquerque.
Na destruição e na confusão que se seguiu após o fim da II Guerra, a necessidade de se manter a funcionar um mínimo de administração pública nos países derrotados, e até na dificuldade de separar nazis de não nazis fez com que, intencionalmente ou não, muitos deles passassem despercebidos. Vamos acreditar que foram essas as razões e que não foi intencional.
Na realidade, os aliados que ocuparam a República Federal da Alemanha (Estados Unidos, Reino Unido e França) condenaram apenas 6650 ex-nazis, o que só por si era uma pequena parte do total dos membros do partido. E, as elites alemãs da época fizeram o resto.
Um recente estudo denominado “Projeto Rosemburg” apresentado publicamente por Heiko Maas, atual ministro da Justiça alemão, vem confirmar que em 1957, 77% dos funcionários com cargos de responsabilidade no Ministério da Justiça alemão (ou seja, três em cada quatro) eram antigos membros do partido nazi. O que não deixa de ser até curioso, porquanto essa percentagem em 1957 era mais alta do que durante o Terceiro Reich (http://www.dn.pt/mundo/interior/sistema-de-justica-alemao-do-pos-guerra-estava-dominado-por-ex-nazis-5434041.html) […]”.
E por lá estão.
E no blog de 1 de fevereiro de 2023, “Crimes de guerra e guerra sem crimes”, poderão ler sobre o Tribunal de Nuremberga e o Tribunal de Tóquio::
“[..]A primeira sessão, sob a presidência do representante soviético, Gen. I.T. Nikitchenko, realizou-se a 18 de outubro de 1945, em Berlim. Foram acusados 24 ex-líderes nazis por perpetuarem crimes de guerra, e ainda vários grupos (como a Gestapo, a polícia secreta nazi) acusados por terem carácter criminoso. A partir de 20 de novembro de 1945, todas as sessões do tribunal passaram a ser realizadas no Palácio da Justiça em Nuremberga.
Após 216 sessões, a 1 de outubro de 1946, foi proferido o veredicto de 22 dos 24 réus originais (Robert Ley cometeu suicídio enquanto estava na prisão, e as condições físicas e mentais de Gustav Krupp von Bohlen und Halbach impediram que ele fosse julgado). Três dos réus foram absolvidos: Hjalmar Schacht, Franz von Papen e Hans Fritzsche. Quatro foram condenados a penas de prisão que variaram de 10 a 20 anos: Karl Dönitz, Baldur von Schirach, Albert Speer e Konstantin von Neurath. Três foram condenados à prisão perpétua: Rudolf Hess, Walther Funk e Erich Raeder. Doze dos réus foram condenados à morte por enforcamento. Dez deles - Hans Frank, Wilhelm Frick, Julius Streicher, Alfred Rosenberg, Ernst Kaltenbrunner, Joachim von Ribbentrop, Fritz Sauckel, Alfred Jodl, Wilhelm Keitel e Arthur Seyss-Inquart - foram enforcados a 16 de outubro de 1946. Martin Bormann foi julgado e condenado à morte à revelia, e Hermann Göring suicidou-se antes de poder ser executado.
Para além deste tribunal, foram ainda constituídos logo de seguida, entre dezembro de 1946 e abril de 1949, outros 12 subsequentes tribunais militares para julgar crimes de guerra cometidos por chefias do partido nazi, médicos, industriais, juízes, ministros e outros elementos de organizações nazis. Dos 3.887 casos, 3.400 foram abandonados, tendo sido presentes a tribunal 489, com 1.672 acusados, dos quais 1.416 foram condenados (200 foram executados, 279 condenados a prisão perpétua – embora em 1950 quase todos acabassem por serem soltos ao abrigo de uma amnistia).
Particular interesse tem também o caso do tribunal para julgar os crimes dos nazis japoneses (Tribunal de Tóquio) instaurado pelo General Douglas MacArthur, onde, devido ao encobrimento feito pelo próprio governo americano, os principais responsáveis pelos crimes horrendos da Unidade 731 (experiências com armas biológicas e químicas em humanos) não foram presentes à justiça, e onde devido aos então recentes bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui se invocou que os pilotos japoneses não podiam ser punidos por bombardearem cidades dado os pilotos americanos terem feito o mesmo […]”
Na História da Guerra do Peloponeso, começada a escrever já lá vão 2.400 anos (431 a. C.), Tucídides pôs os poderosos Atenienses a explicar aos derrotados e impotentes melitanos, a razão para o genocídio que se lhe seguiu:
“o direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer”, (capítulo XVII, Décimo sexto Ano da Guerra, A Conferência Melitana, O Destino de Melos).
domingo, 12 de maio de 2024
Entrevista a Serguéi Karaganov
É claro que o complexo industrial-militar-media
anglo-saxónico, com a ajuda dos seus vassalos, pretende preservar a todo o
custo a sua hegemonia global e as suas conquistas colonialistas.
A hegemonia não pode aceitar a mudança de paradigma de
um mundo multipolar emergente.
Qualquer discussão sobre paz, diplomacia ou
negociações relativas às guerras que iniciou está fora de questão. As
populações ocidentais, cujas mentes estão contaminadas pelo neoliberalismo e
pela russofobia, estão actualmente aterrorizadas por uma “iminente invasão
russa”… O delírio em massa está a impedir que a RAZÃO regresse ao Ocidente.
Como o resto do mundo pode lidar com esta loucura? E o que o resto do mundo
pode esperar?
Voltamo-nos para o Professor Sergei A. Karaganov* –
Presidente Honorário do Conselho de Política Externa e de Defesa (a principal
organização pública de política externa da Rússia) e Diretor Acadêmico da
Faculdade de Economia Mundial e Política Mundial da 'Escola Superior de
Economia da Universidade de Moscou Universidade Nacional de Investigação – uma
vez que há muito que oferece opiniões perspicazes sobre temas como a utilização
da dissuasão nuclear como um alerta ao Ocidente para restaurar o bom senso e a
necessária articulação da Rússia do Ocidente para o Oriente.
* * *
ALERTAR O
OCIDENTE CONTRA A ESCALADA
Pergunta: Para alertar o Ocidente
contra uma escalada da guerra na Ucrânia e contra a sua crescente agressão
contra a Rússia, você argumentou a favor da dissuasão nuclear... Você acredita
que os líderes ocidentais, a maioria dos quais estão dando um sentimento
totalmente irracional, podem leva essas ameaças a sério?
Professor Karaganov: Muitas elites ocidentais já
não têm noção de história e perderam o sentido de autopreservação. Chamo essa
condição de “parasitismo estratégico”. O mesmo se aplica a boa parte da
população ocidental, que se tornou complacente em relação à paz, em grande
parte garantida pela dissuasão nuclear, que não compreende. Além disso, o
nível intelectual da maioria das elites caiu drasticamente devido a mudanças
nos padrões morais e à deterioração do seu sistema de ensino superior –
especialmente na Europa. Portanto, há muito poucas pessoas que entendem essas
questões.
A situação é um pouco melhor nos Estados Unidos, que
parece ter retido pelo menos os restos de uma classe política com mentalidade
estratégica, mas obviamente não está a comandar o espectáculo. No entanto,
alguns permanecem próximos do poder e podem, por vezes, influenciar aqueles que
estão no poder.
De qualquer forma, a situação ali é bastante
preocupante. Apenas um exemplo: o Presidente Biden e o seu Secretário de Estado
Blinken disseram recentemente que o aquecimento global é tão mau ou pior do que
a guerra nuclear. Fiquei bastante chocado. É muito louco.
As populações ocidentais,
habituadas durante décadas à democracia, à prosperidade e ao consumo de massa,
parecem paralisadas e não resistirão a parar e privar o lobby da guerra do seu
poder. A diplomacia também não funciona mais. O que você acha que está por trás
dessa complacência ocidental? Falta de imaginação sobre como poderia ser a
guerra em seu próprio solo? Um caso de deficiência cognitiva, delírios
patológicos, orgulho, ignorância da história? Um disfarce para seu desespero e
ansiedade em relação à sua própria existência? Ou poderia ser apenas uma
fachada para uma estratégia friamente calculada da parte deles?
Todos os fatores que você mencionou desempenham um
papel. Embora eu acredite que o fator mais importante seja a sua incapacidade e
recusa em enfrentar a realidade. As pessoas estão tão acostumadas com essas
imagens tremeluzentes em suas telas que as confundem com a realidade. Este é um
problema para todas as nações, mas especialmente para aquelas mais afetadas
pela tecnologia digital.
Há pessoas nos círculos dominantes do Ocidente – nos
Estados Unidos, mas especialmente na Europa – que estão a perder a capacidade
de governar o seu povo devido a problemas crescentes que não conseguem gerir ou
mesmo enfrentar… como o aumento das desigualdades sociais, migração, até mesmo
questões climáticas. Claro, eu poderia continuar e continuar…
O capitalismo moderno é um sistema totalmente
inadequado. Baseia-se no crescimento sem fim do consumo, que acaba por matar a
Terra. Em vez de tentar reduzir o consumo, as classes políticas ocidentais
modernas estão a tentar transferir o fardo do combate à poluição e até a culpar
as alterações climáticas nos fabricantes (a maioria dos quais estão no mundo
“em desenvolvimento”), mas não nos consumidores – a maioria dos quais). estão
nos países em desenvolvimento. no chamado mundo “desenvolvido”.
A lista de problemas e desafios não resolvidos é muito
longa. Os círculos dirigentes tentam desviar a atenção dos seus cidadãos destes
problemas criando um inimigo. Desta vez é a Rússia... Um alvo fácil devido à
sua russofobia já generalizada e profundamente enraizada, mas também porque a
Rússia é relativamente "pequena" em termos de economia, e perder a
Rússia como parceiro económico custa mais barato do que perder a China. (Mas o
sentimento anti-China também está a aumentar, especialmente nos Estados Unidos.)
Há uma camada crescente entre as elites ocidentais que
começaram a preparar os seus cidadãos para a guerra. Entretanto, os líderes
ocidentais cortaram completamente todos os laços entre os seus cidadãos, os
russos e a própria Rússia. O comércio e até mesmo o discurso com os russos são
mais ou menos proibidos, e quem visita a Rússia acaba sendo interrogado pela
polícia ou pelos serviços de segurança. É sintomático de uma preparação para a
guerra, deste aumento da hostilidade. Já conseguiram transformar a maioria dos
ucranianos num rebanho de odiadores, todos os quais se dirigem obedientemente
para o matadouro. Em seguida vêm algumas nações europeias.
Isto tudo é bastante sombrio. Estamos a observar isto
com atenção e estamos conscientes de que algumas classes políticas ocidentais
ou classes dominantes estão hoje tão desesperadas que instigam guerras para
esconder a sua incompetência e/ou crimes.
OS ALVOS FÁCEIS DO OCIDENTE
Muitos notaram claramente a falta
de interesse da Alemanha e da UE em investigar a destruição dos gasodutos Nord
Stream… Depois vieram os “Taurus Leaks”, nos quais oficiais militares alemães
puderam ser ouvidos pela primeira vez discutindo ataques na Crimeia com o
Forças Armadas dos Estados Unidos. oficiais , quatro
meses antes de Scholz e Pistorius tomarem conhecimento desses planos.
Recentemente, a Suécia e a
Finlândia renunciaram à sua neutralidade estatal e acolhem agora bases da NATO
no seu território, o que, segundo eles, lhes proporcionará mais segurança. O
que você acha que está por trás desse comportamento? Por que se permitem
tornar-se os primeiros alvos de uma guerra quente contra a Rússia? Porque é que
estas pessoas estão a sacrificar os seus próprios países ao estado profundo
americano? A quem eles realmente servem? A sua lealdade é a outra entidade e
não ao seu próprio país?
Na verdade, o nível de inteligência e o sentido de
responsabilidade da maioria das classes dominantes – particularmente na Europa
– deterioraram-se seriamente. Os Estados Unidos – que neste caso quase tenho de
aplaudir – criaram uma imensa classe compradora na Europa… uma classe que tem
muito mais no coração os interesses dos Estados Unidos e as ordens que lhe dão
do que os interesses dos seus próprios países. e povos.
O estado profundo americano não está apenas ancorado
nos Estados Unidos… há também uma extensão na Europa. É constituída pelo que
poderíamos chamar de “a classe imperialista liberal global” que visa servir
“interesses comuns”. Mas os europeus são ainda piores do que os americanos,
porque sacrificam abertamente os interesses das suas nações. Eles são
claramente traidores da sua pátria... E é por isso que encobriram crimes como
provocar a guerra na Ucrânia, a explosão do Nord Stream... é por isso que estão
até dispostos a arriscar o fornecimento de armas de longo alcance à Ucrânia. .
(Curiosamente, os Americanos não fornecem abertamente armas de longo alcance,
porque entendem que isso poderia levar a uma escalada, mesmo nuclear.)
Portanto, os Americanos estão simplesmente a sacrificar os Europeus. Eles já
estão a usar a Ucrânia como bucha de canhão… e parece que estão a preparar-se
para usar os seus aliados europeus também como bucha de canhão.
Observamos estes desenvolvimentos com grande
preocupação e estamos conscientes de que, infelizmente, não temos praticamente
parceiros razoáveis na Europa. Estamos, portanto, nos preparando para o
pior cenário possível. No entanto,
esperamos que, ao intensificar a nossa prática de dissuasão nuclear, possamos acalmar algumas pessoas na Europa
e nos Estados Unidos. Se isto não for bem sucedido, as numerosas
crises que assolam o mundo acabarão por se transformar numa Terceira
Guerra Mundial.
CRISES GLOBAIS EMERGENTES
Estas crises globais emergentes são o resultado de
mudanças tectónicas na actual ordem mundial, baseadas principalmente na
dominação de quinhentos anos do Ocidente, em grande parte baseada na sua
superioridade militar. A pólvora e os canhões foram inventados na China. Mas os
europeus, constantemente em guerra, aproveitaram-no melhor e tiveram um melhor
sistema de organização do seu exército. Com base nisso, começaram a colonizar o
resto do mundo, suprimindo e até destruindo certas civilizações (astecas, incas),
primeiro extraindo renda colonial, depois neocolonial. Mas essa base começou a
ser abalada pela antiga União Soviética, quando alcançou a paridade nuclear, e
agora por uma Rússia ressuscitada. A convulsão de todo este sistema deu origem
a inúmeras crises e conflitos. Mas, acima de tudo, ajudou a libertar “o resto”,
“o Sul global” ou, melhor, “a maioria global”.
Agora a questão não é apenas como parar o Ocidente,
mas também como parar as ondas crescentes de conflitos militares em todo o
mundo. Ao abordarmos os nossos principais interesses de segurança, libertámos
simultaneamente o resto do mundo do domínio ocidental e minámos a sua
capacidade de desviar riqueza de outros países.
O Ocidente está agora num estado de desespero. Para
incutir-lhes algum bom senso, precisamos de restaurar o “medo saudável”, isto
é, restaurar a validade da dissuasão nuclear. Infelizmente, não vejo outra
solução neste momento. Porque muitas pessoas, especialmente no Ocidente,
parecem ter perdido a cabeça e o sentido de responsabilidade.
O GENOCÍDIO EM CURSO...
Hoje, o genocídio bárbaro que
“Israel” – como outra potência colonialista ocidental – está a levar a cabo
contra os palestinianos continua inabalável. O sofrimento da população civil
palestiniana é inconcebível e o resto do mundo continua a observá-lo. O que
está a “comunidade internacional” a fazer – para acabar com os massacres
perpetrados por “Israel” e a destruição da pátria palestiniana… e para fazer
com que os Estados Unidos e a União Europeia parem de apoiar “Israel”? E… diria
que o genocídio na Palestina (juntamente com os ataques militares em curso na
Síria) e a guerra na Ucrânia são essencialmente parte de uma “Grande Guerra”
contra as nações soberanas da maioria mundial que se recusam a tornar-se
vassalos do Hegemon? ?
No actual “sistema global”, a “comunidade
internacional” fará muito pouco para ajudar os palestinianos.
Vejo todo o conflito palestiniano como um elo numa
cadeia de conflitos desencadeada por mudanças tectónicas de poder no sistema
actual e pelas tentativas desesperadas do Ocidente para manter o seu domínio. É
claro que os Estados Unidos – embora se retirem externamente dos muitos países
e territórios em todo o mundo que ocuparam e dominaram – estão secretamente a
causar instabilidade nesses territórios, a fim de criar problemas aos seus
futuros líderes. E a maioria desses territórios fica na Eurásia.
Devo dizer que nunca teria imaginado como os
israelitas poderiam ter lançado esta guerra [contra a Palestina] sem o apoio
aberto dos Estados Unidos. Para todos os efeitos, parece que alguns setores nos
Estados Unidos decidiram iniciar uma nova grande guerra no Médio Oriente para
desestabilizar toda a região (de qualquer forma, os Estados Unidos já não
dependem do petróleo e do gás do Médio Oriente). Leste, portanto, não tinham
interesse em manter qualquer estabilidade ali).
O massacre em Gaza minou a legitimidade de Israel e
não vejo como essa legitimidade poderia alguma vez ser restaurada. Parece que
temos as sementes de uma nova grande guerra no Médio Oriente e de uma nova
tragédia – também para o povo judeu, que também está a ser sacrificado pela
estupidez e arrogância dos líderes israelitas. Não entendo os políticos
israelenses. Obviamente perderam a cabeça… tal como a classe política europeia.
E os palestinos continuam a ser massacrados por causa deste programa.
Para além da utilização da ameaça
nuclear como meio de dissuasão... e considerando que as "instituições
globais" como a ONU e o Tribunal Internacional de Justiça são ineficazes
para impedir guerras e genocídios, e que são - poder-se-ia dizer - essencialmente
nas mãos das elites ocidentais… não poderíamos conceber uma medida dissuasora
adicional – como uma “Aliança de Resistência” global, actuando como uma
“frente” activa contra o poder unipolar?
A maioria global é potencialmente muito mais poderosa
do que o antigo Movimento Não-Alinhado e está, naturalmente, a tornar-se um
factor muito mais importante na política internacional. Um novo sistema irá
emergir nas próximas décadas – isto é, se sobrevivermos a este período de
crises e guerras… e se pudermos evitar uma Terceira Guerra Mundial, que seria
provavelmente a última guerra… e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso
alcance para evitar isto.
Não vejo qualquer possibilidade de criar o que poderia
ser chamado de "Aliança de Resistência" num futuro próximo... no
entanto, uma Comunidade de nações livres - "livres" no sentido de
serem capazes de viver e trabalhar de acordo com os seus interesses nacionais -
seria uma contribuição importante para a paz mundial. Mas para alcançar um
futuro mundo de nações livres, para criar mais segurança e reduzir potenciais
tensões, precisaremos de reintroduzir “bloqueios de segurança” no sistema
internacional.
De momento, existe apenas um “bloqueio de segurança”:
a dissuasão nuclear. Precisamos também de construir um novo sistema
institucional paralelamente ao sistema existente que está em colapso. A ONU
pode continuar a existir, mas obviamente não pode voltar a ser eficaz, porque o
seu secretariado é dominado por funcionários orientados para o Ocidente.
Deveríamos, portanto, construir um sistema institucional inteiramente novo
baseado no BRICS+, SCO+ e outras instituições semelhantes.
Na verdade…precisamos de um novo conjunto de
instituições que não sejam dominadas pelo Ocidente, cujo poder está em declínio
e cuja autoridade moral desapareceu, porque falhou em todos os sentidos –
política, económica e acima de tudo eticamente – depois de desencadear
incontáveis actos
brutais. de violência. agressão quando teve a oportunidade de ditar o destino da
comunidade mundial. Esta era do “momento unipolar” atingiu o seu auge na década de 1990 e
no início de 2000.
As potências ocidentais mostraram o que valem. Eles
agora devem ser deixados de lado. Temos de construir um sistema paralelo de
governação global – um sistema que seja mais justo e mais eficaz. Precisamos de
um novo Tribunal Internacional de Justiça, de instituições que ajudem a reduzir
a fome no mundo e de instituições que trabalhem para melhorar a saúde global
(durante a pandemia de Covid vimos como as nações ocidentais, que praticamente
controlavam as instituições globais, não conseguiram lidar com a situação).
enfrentar este desafio de forma adequada e adequada).
COLONIALISMO VERSUS INTERNACIONALISMO
A Rússia czarista era uma potência
colonial e estava em competição feroz com os estados coloniais da Europa
Ocidental, particularmente o Império Britânico. Como o colonialismo russo
czarista diferia, digamos, do colonialismo britânico?
Sim, em muitos aspectos a Rússia czarista era uma
potência colonial, mas era muito diferente das potências coloniais ocidentais.
Quando os russos avançaram para leste e sul, conquistando e desenvolvendo a
Sibéria, não recorreram a meios genocidas. Como os russos se misturaram com as
elites locais, houve um grande número de casamentos interétnicos, de modo que
os russos não eram colonialistas nos moldes ocidentais. Os czares até
convidaram as elites locais para se juntarem à nobreza russa. Parece que quase
duplicámos o número de príncipes que tínhamos quando incorporámos a Geórgia,
cuja nobreza afirmava ser príncipe. Metade da nobreza russa era etnicamente
não-russa. A Rússia absorveu as culturas dos povos colonizados em vez de
suprimi-las. O racismo é quase completamente estranho aos russos.
Embora a Rússia tenha beneficiado naturalmente da
riqueza dos países vizinhos, na maioria dos casos subsidiou-os... e este foi
particularmente o caso durante a era soviética, quando a Rússia era o principal
fornecedor de riqueza. Acredito que todas as repúblicas da antiga União
Soviética, exceto uma, foram fortemente subsidiadas.
Somos, portanto, uma potência colonial apenas no nome.
Em muitos aspectos, a Rússia metropolitana era uma colónia dos seus subúrbios.
Depois, devido à sua necessidade de segurança, a Rússia expandiu-se, mas em
muitos casos pagou um preço económico por esta expansão. Por exemplo, após a
Segunda Guerra Mundial, a Ucrânia foi reconstruída antes de áreas da Rússia
propriamente dita que tinham sofrido com a ocupação nazi. Podemos também
constatar com certo orgulho que a maior parte das civilizações dos povos nórdicos
da Sibéria persistiram até aos dias de hoje (ao contrário destes territórios
usurpados nos Estados Unidos ou noutros lugares). Algumas das suas populações
até aumentaram, por exemplo em Yakutia. Estudiosos russos e, especialmente,
soviéticos criaram línguas escritas para esses povos e, claro, trouxeram a
educação com eles. As línguas escritas das regiões bálticas, hoje estados,
foram desenvolvidas em São Petersburgo no final do século XIX.
A Rússia não era, portanto, “colonialista” no sentido
tradicional do termo. Em última análise, tratava-se da criação de um Estado
comum em que as elites locais e as populações locais – que não eram de etnia
russa – pudessem desempenhar um papel igual, e por vezes até mais importante e
privilegiado, do que os próprios russos étnicos. É também uma consequência da
nossa história... Fomos colonizados pelo império de Genghis Khan, mas os
mongóis não nos impuseram a sua cultura, a sua língua ou as suas crenças. Nossa
expansão imitou mais ou menos esse tipo de expansão. Portanto, não descreveria
a nossa expansão como “colonialista”, mas sim “internacionalista”.
E, claro, a nossa expansão trouxe-nos recursos,
especialmente da Sibéria. Primeiro foram as peles, o que chamamos de “ouro
macio”, depois todos os tipos de pedras preciosas, prata, ouro, depois
petróleo, gás. E agora a Sibéria é o celeiro da Rússia, a base do nosso futuro.
A Sibéria fornecerá à Rússia e à Eurásia alimentos, água e recursos naturais
durante décadas, senão séculos.
IMPÉRIOS VERSUS CIVILIZAÇÕES
Alguns defensores de um futuro
mundo multipolar falam em reunir regiões geográficas do mundo em “impérios”…
Qual seria então a posição da Rússia? A noção de “construir vários impérios”
não representaria um problema num mundo multipolar?
É muito cedo para falar em impérios futuros, mas um
império – além de ter sido por vezes um território de poder que reprimiu outros
povos – foi também por vezes uma área que proporcionou segurança e bem-estar a
muitos povos.
Não tenho certeza se veremos um mundo com vários
impérios importantes. Acredito que já ultrapassamos esse período da história.
Se falarmos da Rússia, será um dos centros culturais, políticos, económicos e
militares do mundo. Será uma “civilização de civilizações” abrangendo muitos
grupos étnicos… uma civilização eurasiana aberta a outros.
Pessoalmente, não gostaria que a Rússia se tornasse
novamente um vasto império, porque a forma russa de construir um império foi,
em última análise, à custa dos próprios russos. Os seus objectivos podem ter
sido nobres, mas tiveram um custo demasiado elevado para o povo russo. Prefiro
ver-nos como uma civilização de civilizações: respeitando os outros, aprendendo
com as experiências de todas as nações... um guardião político-militar que
garante a liberdade de outras nações escolherem o seu próprio caminho. Libertar
o mundo da hegemonia é, em última análise, o nosso destino manifesto.
OLHANDO PARA O ORIENTE E PARA A MAIORIA MUNDIAL
A Rússia é a anfitriã do BRICS+
este ano… A Rússia também organizou e acolheu recentemente a Conferência
Multipolaridade, o Festival Internacional da Juventude e muitos outros eventos
para reunir a maioria mundial… O que poderia a Rússia aprender com a Ásia?
África? América latina? E o que estas regiões poderiam aprender com a Rússia?
Aprendemos uns com os outros. Os russos têm a
particularidade de ser uma nação culturalmente aberta. Esta abertura cultural é
na verdade a própria essência de ser “russo”. Nascemos como uma “nação de
nações”. Somos conhecidos como uma civilização estatal. Mas, mais uma vez, eu
chamar-nos-ia “uma civilização de civilizações”. Ao longo dos séculos do nosso
desenvolvimento, acolhemos muitas civilizações e somos, quase por definição,
internacionalistas. É claro que temos racistas e chauvinistas na Rússia. Mas, no
geral, os russos são excepcionalmente internacionalistas. Estamos, portanto,
mais bem preparados do que a maioria para enfrentar o mundo multipolar,
multicultural e multirracial de amanhã. Devemos aprender uns com os outros a
viver em paz, respeitar e apoiar as culturas uns dos outros, desenvolver a
nossa própria cultura e promovê-la em todo o mundo. Mas acima de tudo, devemos
respeitar o carácter único de cada povo e promover um enriquecimento
intercultural positivo.
Estou muito optimista em relação ao mundo que está por
vir, se conseguirmos evitar uma Terceira Guerra Mundial. Mas esta é a nossa
tarefa comum.
* * *
*Sergey Aleksandrovich Karaganov
Biografia detalhada: https://karaganov.ru/en/
Especialização: Políticas externas e de defesa
soviética/russa, aspectos económicos e de segurança da interacção
russo-europeia, pivô russo para o Oriente.
Autor e editor de 28 livros e panfletos, publicou
cerca de 600 artigos sobre política externa econômica, controle de armas,
estratégia de segurança nacional, política externa e de defesa da Rússia.
Artigos e livros foram publicados em mais de 50 países.
Presidente do conselho editorial e editor da revista
“Russia in Global Affairs”. As opiniões mencionadas neste artigo não refletem
necessariamente a opinião de Al Mayadeen, mas expressam exclusivamente a
opinião do seu autor.
Publicada por Pena Preta à(s) sábado, maio 11, 2024

