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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Jonathan Cook - Sim, Trump é ordinário. Mas a extorsão global dos EUA é a mesma de sempre


US President Donald Trump and Ukraine's President Volodymyr Zelensky meet in the Oval Office of the White House in Washington, DC on 28 February, 2025 (AFP)

 

Sim, Trump é ordinário. Mas a extorsão global dos EUA é a mesma de sempre
por Jonathan Cook, MEE.

Se há uma coisa pela qual podemos agradecer ao Presidente dos EUA, Donald Trump, é esta: ele eliminou de forma decisiva a noção ridícula, há muito cultivada pelos media ocidentais, de que os EUA são um bom polícia global que impõe uma "ordem baseada em regras". Washington é melhor entendido como o chefe de um império de gangsters, com 800 bases militares em todo o mundo. Desde o fim da Guerra Fria, tem procurado agressivamente o "domínio global de espetro total", como define a doutrina do Pentágono educadamente.

Ou se presta fidelidade ao Don ou se é atirado ao rio. Na sexta-feira passada [28fev2025], o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky foi presenteado com um par de botas de betão de marca na Casa Branca. A novidade foi que tudo aconteceu em frente ao corpo de imprensa ocidental, na Sala Oval, e não numa sala das traseiras, fora das vistas. Foi ótimo para a televisão, disse Trump.

Os especialistas apressaram-se a tranquilizar-nos, dizendo que a cena de gritos foi uma espécie de número estranho de Trump. Como se a inospitalidade para com os líderes de Estado e o desrespeito para com os países que lideram fossem exclusivos desta administração. Veja-se apenas o exemplo do Iraque. A administração de Bill Clinton achou que "valia a pena" - como disse a sua secretária de Estado, Madeleine Albright, de forma infame - matar cerca de meio milhão de crianças iraquianas, impondo sanções draconianas durante a década de 1990. Sob o comando do sucessor de Clinton, George W Bush, os EUA desencadearam uma guerra ilegal em 2003, com base em argumentos totalmente falsos, que matou cerca de meio milhão de iraquianos, de acordo com as estimativas pós-guerra, e deixou quatro milhões de desalojados.

Aqueles que se preocupam com o facto de a Casa Branca humilhar publicamente Zelensky talvez devessem guardar a sua preocupação para as centenas de milhar de homens, na sua maioria ucranianos e russos, mortos ou feridos numa guerra totalmente desnecessária - uma guerra que, como veremos, Washington planeou cuidadosamente através da NATO nas duas décadas anteriores.

Capanga Zelensky

Todas essas baixas serviram o mesmo objetivo que no Iraque: lembrar ao mundo quem é que manda. Só que o público ocidental não compreende isto porque vive dentro de uma bolha de desinformação, criada para ele pelos media ocidentais.

Henry Kissinger, o antigo diretor da política externa dos EUA, afirmou: "Pode ser perigoso ser inimigo da América, mas ser amigo da América é fatal." Zelensky acabou de descobrir isso da maneira mais difícil. Os impérios de gangsters são tão inconstantes como os gangsters que conhecemos dos filmes de Hollywood. Durante a anterior administração de Joe Biden, Zelensky tinha sido recrutado como um capanga para fazer as vontades de Washington à porta de Moscovo. O pano de fundo - aquele que os media ocidentais mantiveram em grande parte fora de vista - é que, após o colapso da União Soviética, os EUA rasgaram tratados cruciais para tranquilizar a Rússia quanto às boas intenções da NATO. Do ponto de vista de Moscovo, e tendo em conta o historial de Washington, o guarda-chuva de segurança europeu da NATO deve ter parecido mais uma preparação para uma emboscada.

Embora Trump esteja agora empenhado em reescrever a história e apresentar-se como pacificador, ele foi fundamental para a escalada de tensões que levou à invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Em 2019, ele retirou-se unilateralmente do Tratado de 1987 sobre Forças Nucleares de Alcance Intermédio. Isso abriu a porta para que os EUA lançassem um potencial primeiro ataque contra a Rússia, usando mísseis estacionados nas proximidades dos membros da NATO, Roménia e Polónia. Também enviou armas anti-tanque Javelin para a Ucrânia, uma medida evitada pelo seu antecessor, Barack Obama, por recear que fosse vista como uma provocação.

A NATO prometeu repetidamente trazer a Ucrânia para o seu seio, apesar dos avisos da Rússia de que esse passo era visto como uma ameaça existencial, de que Moscovo não podia permitir que Washington colocasse mísseis na sua fronteira, tal como os EUA não aceitaram os mísseis soviéticos estacionados em Cuba no início da década de 1960. Washington avançou na mesma, chegando mesmo a apoiar um golpe ao estilo da revolução colorida em 2014 contra o governo eleito em Kiev, cujo crime foi ser demasiado simpático a Moscovo.

Com o país em crise, Zelensky foi eleito pelos ucranianos como candidato da paz, para pôr fim a uma guerra civil brutal - desencadeada por esse golpe - entre forças anti-russas e "nacionalistas" no oeste do país e populações de etnia russa no leste. O Presidente ucraniano quebrou rapidamente essa promessa.

Trump acusou Zelensky de ser um "ditador". Mas se o é, é apenas porque Washington assim o quis, ignorando a vontade da maioria dos ucranianos.

A mais vermelha das linhas vermelhas

A função de Zelensky era fazer um jogo da galinha com Moscovo. O pressuposto era que os EUA ganhariam qualquer que fosse o resultado. Ou o bluff do Presidente russo, Vladimir Putin, seria desfeito. A Ucrânia seria acolhida na NATO, tornando-se a mais avançada das bases avançadas da aliança contra a Rússia, permitindo que mísseis balísticos com armas nucleares ficassem estacionados a minutos de Moscovo. Ou então Putin iria finalmente concretizar as suas ameaças de anos de invasão do seu vizinho para impedir que a NATO ultrapassasse a mais vermelha das linhas vermelhas que ele tinha estabelecido sobre a Ucrânia.

Washington poderia então alegar "auto-defesa" em nome da Ucrânia, e ridiculamente simular receio perante o público ocidental de que Putin estaria a seguir a Polónia, a Alemanha, a França e a Grã-Bretanha. Foram estes os pretextos para armar Kiev ao máximo, em vez de procurar um acordo de paz rápido. E assim começou uma guerra de atrito por procuração contra a Rússia, utilizando homens ucranianos como carne para canhão. O objetivo era desgastar a Rússia militar e economicamente, e provocar o derrube de Putin.

Zelensky fez exatamente o que lhe foi pedido. Quando, no início, pareceu vacilar e considerou assinar um acordo de paz com Moscovo, o primeiro-ministro britânico da altura, Boris Johnson, foi despachado com uma mensagem de Washington: continuem a lutar. Este é o mesmo Boris Johnson que agora admite, sem qualquer problema, que o Ocidente está a travar uma "guerra por procuração" contra a Rússia. Os seus comentários não geraram qualquer polémica. O que é muito estranho, uma vez que os críticos que chamaram a atenção para este facto óbvio há três anos foram imediatamente denunciados por espalharem "desinformação sobre Putin" e "pontos de discussão" do Kremlin.

Pela sua obediência, Zelensky foi festejado como um herói, o defensor da Europa contra o imperialismo russo. Todas as suas "exigências" - exigências que tiveram origem em Washington - foram satisfeitas. A Ucrânia recebeu pelo menos 250 mil milhões de dólares em armas, tanques, jatos de combate, treino para as suas tropas, informações ocidentais sobre a Rússia e outras formas de ajuda. Entretanto, centenas de milhares de homens ucranianos e russos pagaram com as suas vidas - tal como as famílias que deixaram para trás.

Etiqueta da máfia

Agora o velho Don em Washington foi-se embora. O novo Don decidiu que Zelensky foi um fracasso caro. A Rússia não está ferida de morte. Está mais forte do que nunca. É hora de uma nova estratégia. Zelensky, imaginando ainda ser o capanga favorito de Washington, chegou à Sala Oval apenas para receber uma dura lição de etiqueta mafiosa.

Trump está a interpretar a sua punhalada nas costas como um "acordo de paz". E, em certo sentido, é-o. Com razão, Trump concluiu que a Rússia ganhou - a menos que o Ocidente esteja pronto para travar a Terceira Guerra Mundial e arriscar uma potencial guerra nuclear. Trump enfrentou a realidade da situação, mesmo que Zelensky e a Europa ainda estejam a lutar para o fazer.

Mas o seu plano para a Ucrânia é, na verdade, apenas uma variação do seu outro plano de paz - o de Gaza. Ali, quer limpar etnicamente a população palestiniana e, sobre os corpos dos muitos milhares de crianças mortas no enclave, construir a "Riviera do Médio Oriente" - ou "Trump Gaza", como lhe chamam num vídeo surrealista que partilhou nas redes sociais. Da mesma forma, Trump vê agora a Ucrânia não como um campo de batalha militar, mas como um campo económico onde, através de acordos inteligentes, pode obter riquezas para si e para os seus amigos bilionários.

Ele apontou uma arma à cabeça de Zelensky e da Europa. Façam um acordo com a Rússia para acabar com a guerra, ou estão por vossa conta contra uma potência militar muito superior. Vejam se os europeus podem ajudar-vos sem um fornecimento de armas de Washington.

Não surpreende que Zelensky, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e o presidente francês Emmanuel Macron se tenham reunido no fim de semana para encontrar um acordo que apaziguasse Trump. Tudo o que Starmer revelou até agora é que o plano vai "parar os combates". Isso é positivo. Mas os combates podiam ter sido travados, e deviam ter sido travados, há três anos.

Dinheiro, não paz

É profundamente insensato deixarmo-nos embalar pelo tribalismo - o mesmo tribalismo que as elites ocidentais procuram cultivar entre os seus públicos para que continuemos a tratar os assuntos internacionais como se fossem um jogo de futebol de alto risco. Ninguém aqui se comportou, ou está a comportar-se, de forma honrada.

O cessar-fogo na Ucrânia não é uma questão de paz. É uma questão de dinheiro, tal como foi a guerra anterior. Como todas as guerras são, em última análise. Um cessar-fogo aceitável para Trump, bem como para Putin, envolverá uma divisão dos bens da Ucrânia. Os minerais de terras raras, a terra e a produção agrícola serão a verdadeira moeda de troca do acordo. Zelensky compreende agora este facto. Ele sabe que ele e o povo da Ucrânia foram enganados. É o que tende a acontecer quando nos aconchegamos à máfia. Se alguém duvida da insinceridade de Washington em relação à Ucrânia, que olhe para a Palestina para ficar esclarecido.

No início da sua presidência, Trump tentou concretizar aquilo a que chamou o "acordo de paz do século", cuja peça central era a anexação de grande parte da Cisjordânia ocupada. A esperança era que os Estados do Golfo acabassem por financiar um programa de incentivo - a cenoura para o pau de Israel - para encorajar os palestinianos a fazer uma nova vida numa gigantesca zona industrial construída para o efeito no Sinai, junto a Gaza. Esse plano ainda está a fervilhar nos bastidores. No fim de semana, Israel recebeu luz verde de Washington para reavivar a sua fome genocida da população de Gaza, depois de Israel se ter recusado a negociar a segunda fase do acordo de cessar-fogo original. A administração Trump e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, estão agora a fazer passar a sua própria má fé por "rejeição" do Hamas.

Eles e a câmara de eco que são os media ocidentais estão a culpar o grupo palestiniano por se recusar a ser enganado numa "extensão" do que nunca passou de um falso cessar-fogo - o fogo de Israel nunca cessou. Israel quer todos os reféns de volta, sem ter de sair de Gaza, para que o Hamas não tenha qualquer influência para impedir Israel de reativar o genocídio total.

O povo de Gaza continua a ser alimentado no moinho de carne da máfia de Washington, tal como o povo ucraniano tem sido. Trump quer tirá-los do caminho para poder desenvolver um parque de diversões mediterrânico para os ricos, pago com o dinheiro do petróleo do Golfo e com as reservas de gás natural, até agora inexploradas, ao largo da costa de Gaza. Ao contrário dos seus antecessores, Trump não finge que a Ucrânia e Gaza são mais do que bens imobiliários geoestratégicos para Washington.

O grande abalo

A extorsão de Zelensky não surgiu do nada. Trump e os seus funcionários tinham-na assinalado com bastante antecedência. Há duas semanas, o correspondente industrial do jornal britânico Daily Telegraph escreveu um artigo intitulado "Eis porque Trump quer fazer da Ucrânia uma colónia económica dos EUA". A equipa de Trump acredita que a Ucrânia pode ter minerais de terras raras debaixo do solo no valor de cerca de 15 biliões de dólares - um tesouro que será fundamental para o desenvolvimento da próxima geração de tecnologia. Na sua opinião, o controlo da exploração e extração desses minerais será tão importante como o controlo das reservas de petróleo do Médio Oriente foi há mais de um século.

E o mais importante de tudo é que os EUA querem que a China, o seu principal rival económico - se não mesmo militar - seja excluída da pilhagem. A China detém atualmente o monopólio efetivo de muitos destes minerais críticos. Ou, como diz o Telegraph, os "minerais da Ucrânia oferecem uma promessa tentadora: a possibilidade de os EUA quebrarem a sua dependência dos fornecimentos chineses de minerais críticos que são utilizados em tudo, desde turbinas eólicas a iPhones e caças furtivos". Um rascunho do plano visto pelo Telegraph, nas suas palavras, "equivaleria à colonização económica da Ucrânia pelos EUA, com perpetuidade legal". Washington quer ter preferência em todos os depósitos no país.

No seu confronto na Sala Oval, Trump reiterou este objetivo: "Por isso, vamos utilizá-los [os minerais de terras raras da Ucrânia], tirá-los e utilizá-los para todas as coisas que fazemos, incluindo a IA, as armas e as forças armadas. E isso vai realmente satisfazer as nossas necessidades". Tudo isto significa que Trump tem um grande incentivo para que a guerra termine o mais rapidamente possível e para que o avanço territorial da Rússia seja travado. Quanto mais território Moscovo conquistar, menos território restará para os EUA pilharem.

Auto-sabotagem

A batalha contra a China por causa dos minerais de terras raras também não é uma inovação de Trump - e acrescenta uma camada adicional de contexto para explicar por que razão Washington e a NATO têm estado tão empenhados, nas últimas duas décadas, em afastar a Ucrânia da Rússia.

No verão passado, uma comissão restrita do Congresso sobre a concorrência com a China anunciou a formação de um grupo de trabalho para contrariar o "domínio de minerais críticos" de Pequim.

O presidente da comissão, John Moolenaar, observou que a atual dependência dos EUA em relação à China para estes minerais "tornar-se-ia rapidamente uma vulnerabilidade existencial no caso de um conflito". Outro membro da comissão, Rob Wittman, observou: "O domínio das cadeias de abastecimento mundiais de minerais críticos e de elementos de terras raras é a próxima fase da competição entre grandes potências".

O que Trump parece apreciar é o facto de a guerra por procuração da NATO contra a Rússia na Ucrânia ter, por defeito, levado Moscovo a aproximar-se ainda mais de Pequim. Tem sido uma auto-sabotagem em grande escala. Juntos, a China e a Rússia são um adversário formidável, que está no centro do crescente grupo Brics - composto pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Têm procurado expandir a sua aliança, acrescentando potências emergentes, para se tornarem um contrapeso à agenda global intimidatória de Washington e da NATO.

Mas um acordo com Putin sobre a Ucrânia daria a Washington a oportunidade de construir uma nova arquitetura de segurança na Europa - mais útil para os EUA - que colocasse a Rússia dentro da tenda e não fora dela. Isso deixaria a China isolada - um objetivo de longa data do Pentágono. E também deixaria a Europa menos central para a projeção do poder dos EUA, razão pela qual os líderes europeus - liderados por Keir Starmer - têm parecido e soado tão nervosos nas últimas semanas.

O perigo é que a "pacificação" de Trump na Ucrânia se torne simplesmente um prelúdio para o desenvolvimento de uma guerra contra a China, usando Taiwan como pretexto, da mesma forma que a Ucrânia foi usada contra a Rússia. Como Moolenaar sugeriu, o controlo dos EUA sobre minerais críticos - na Ucrânia e noutros locais - garantiria que os EUA deixariam de ser vulneráveis, no caso de uma guerra com a China, a perder o acesso aos minerais de que necessitariam para continuar a guerra. Isso libertaria a mão de Washington.

Trump pode estar a comportar-se de uma forma ordinária. Mas o império de gangsters que ele agora dirige está a liderar a mesma extorso global de sempre.

Posted by OLima at quarta-feira, março 05, 2025 

https://onda7.blogspot.com/2025/03/leituras-marginais_01749339301.htm
https://www.middleeasteye.net/opinion/trump-vulgar-us-global-shakedown-same-one-everl

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Helder Moura - (561) O desvelar das tendências militaristas atuais

 

 

O direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer, Tucídides.

 

Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão, não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo.

            

Diversos altos funcionários presos por crimes de guerraretomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês.

 

Na Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.

 

A revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz.

 

 

 

Quando apenas um mês depois de ter sido eleita como a 104ª primeira-ministra do Japão (21 de outubro de 2025), Sanae Takaichi, presidente do Partido Liberal Democrático (PLD), logo no seu primeiro discurso no parlamento ter afirmado que o Japão poderia envolver-se militarmente num conflito entre a China e Taiwan (“an attack on Taiwan could trigger the deployment of her country’s self-defence forces if the conflict posed an existential threat to Japan”), alterando radicalmente toda a política externa seguida até então pelo Japão, tal não fez mais que confirmar as tendências militaristas presentes não só no Japão mas que se têm vindo a apoderar das nossas sociedades.        

Uma das várias explicações para a emergência destas tendências, tem que ver com o que se passou na Segunda Guerra, particularmente com a forma como o pós-guerra que se lhe seguiu foi resolvido.

 

Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão, não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo. Washington debateu se deveria destituir o imperador, figura central do projeto imperial, mas, seguindo o conselho da antropóloga Ruth Benedict, optou por manter o imperador e outros símbolos do militarismo. Isto incluía o Santuário Yasukuni, dedicado aos mortos de guerra, fundado em 1869 e que ainda hoje alberga os restos mortais de mais de mil criminosos de guerra condenados.

 

Diversos altos funcionários presos por crimes de guerra, mas nunca julgados, retomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês. Entre eles estavam Yoshida Shigeru, diplomata de alto nível durante a guerra e primeiro-ministro do Japão durante a maior parte do período entre 1946 e 1954; Nobusuke Kishi, burocrata no nordeste da China durante a ocupação, ministro no gabinete de guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1957 a 1960; Shigemitsu Mamoru, ministro dos Negócios Estrangeiros no gabinete de guerra, julgado como criminoso de guerra de Classe A pelo seu papel na Coreia e preso, e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros na década de 1950; Okazaki Katsuo, diplomata durante os anos da guerra e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros de 1952 a 1954; Ikeda Hayato, funcionário do Ministério das Finanças durante os anos da guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1960 a 1964; e Sato Eisaku, funcionário do Ministério dos Transportes durante os anos da guerra e mais tarde primeiro-ministro de 1964 a 1972. Neste caso, todos eles fizeram parte da chamada "máfia manchu" que liderou a ocupação na China, manteve-se no poder.

 

Para que conste, Nobusuke Kishi foi o avô de Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão de 2006 a 2007 e novamente de 2012 a 2020. Muitas vezes é omitido o facto de Kishi ter sido o arquiteto da ocupação japonesa do nordeste da China e responsável pelo regime de trabalho forçado na China e na Coreia. Após a guerra, Kishi foi brevemente preso em Sugamo como suspeito de ser um criminoso de guerra de Classe A, sendo libertado sem julgamento em 1948. Esperou alguns anos antes de regressar à política com um objetivo fundamental: rever a Constituição de 1947 para remover o Artigo 9, que impunha restrições à militarização no Japão.

 

Em 1952, os EUA reabilitaram formalmente muitos oficiais japoneses que serviram durante a guerra, abrindo caminho para que homens como Kishi entrassem na política ativa e pavimentando o terreno para a formação do Partido Liberal Democrático (PLD) em 1955. Este partido é atualmente liderado por Sanae Takaichi, que nasceu em 1961 e que é a atual primeira-ministra do Japão.

 

Desde que entrou na política, Takaichi tem sido uma figura de destaque na direita chauvinista do Japão, tendo emergido por intermédio do seu mentor, Shinzo Abe. Tal como o avô de Abe, Kishi, Takaichi deseja rever a Constituição japonesa para que o Japão possa reconstruir as suas forças armadas. Em diversas ocasiões, demonstrou reverência pelo período anterior a 1945: visitou o Santuário Yasukuni, defende a conduta do Japão durante a guerra, questiona a natureza coerciva do sistema das "mulheres de conforto" e apoia a ideia de "restauração do orgulho" no passado imperialista. Afirmou que deseja que os manuais japoneses deixem de ser "autodepreciativos" e questionou a veracidade dos crimes de guerra cometidos em Nanquim. As opiniões de Takaichi, que nasceu após a guerra, ilustram que a ocupação americana não só falhou em erradicar a essência do fascismo da sociedade japonesa, como também lhe permitiu florescer.

 

 

Segundo o extenso artigo sobre “Os crimes de guerra do Japão”, antes e durante a Segunda Guerra Mundial, Império do Japão cometeu inúmeros crimes de guerra e crimes contra a humanidade em diversas nações da Ásia-Pacífico, nomeadamente durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Guerra do Pacífico. Estes crimes ocorreram durante o reinado do Imperador Hirohito.

Exército Imperial Japonês (IJA) e a Marinha Imperial Japonesa (IJN) foram responsáveis ​​por crimes de guerra entre 1927 e 1945, que levaram a 19 milhões a 30 milhões de mortes, desde assassinatos em massa, terrorismo, limpeza étnica, genocídio, escravatura sexual, massacres, experimentação em humanos, tortura, fome e trabalho forçado.

 

A liderança política e militar japonesa tinha conhecimento dos crimes das suas forças armadas, mas continuou a permiti-los e até a apoiá-los, com a maioria das tropas japonesas estacionadas na Ásia a participar ou a apoiar os assassinatos.

Embora não seja claro se o Imperador Hirohito foi informado da extensão total desses crimes, o irmão mais novo do Imperador, o Príncipe Mikasa, serviu como oficial no Exército Imperial Japonês estacionado na China, escreveu nas suas memórias que os oficiais utilizavam prisioneiros de guerra chineses para o treino com baioneta, a fim de fortalecer a determinação dos soldados japoneses. Além disso, observou que os prisioneiros de guerra eram asfixiados e fuzilados em grande número.

Serviço Aéreo do Exército Imperial Japonês participou em ataques químicos e biológicos contra civis durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial, violando acordos internacionais que o Japão tinha assinado, incluindo as Convenções de Haia, que proibiam o uso de "veneno ou armas envenenadas" nas guerras.

 

Após a Guerra, foram emitidos inúmeros pedidos de desculpas pelos crimes de guerra por parte de altos funcionários do governo japonês. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão reconheceu o papel do país em causar "tremendos danos e sofrimento" antes e durante a Segunda Guerra Mundial, particularmente o massacre e violação de civis em Nanquim pelo Exército Imperial Japonês.

No entanto, a questão continua a estar pronta a ser reaberta, com alguns membros do governo japonês, incluindo os ex-primeiros-ministros Junichiro Koizumi e Shinzō Abe, a terem prestado homenagem no Santuário Yasukuni, que honra todos os mortos de guerra japoneses, incluindo criminosos de guerra de Classe A condenados.

Segundo Shinzö Abe, o Japão aceitou o Tribunal de Tóquio e os seus julgamentos como condição para acabar a guerra, mas as suas sentenças não têm qualquer relação com as leis do Japão: assim, os condenados em crimes de guerra não são criminosos segundo a lei japonesa.

Além disso, alguns manuais de história japoneses fornecem apenas breves referências aos crimes de guerra, e certos membros do Partido Liberal Democrático negaram algumas das atrocidades, como o envolvimento do governo no rapto de mulheres para servirem como "mulheres de conforto", um eufemismo para escravas sexuais.

 

Quanto a assassinatos em massa, o historiador britânico Mark Felton afirma que foram mortas até 30 milhões de pessoas, a maioria civis:

 

Os japoneses assassinaram 30 milhões de civis enquanto "libertavam" do domínio colonial aquilo a que chamavam a Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental. Cerca de 23 milhões destas pessoas eram de etnia chinesa. É um crime que, em números absolutos, é muito maior do que o Holocausto naziNa Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.”

 

Quanto a experimentação em humanos e guerra biológica, unidades militares especiais japonesas realizaram experiências em civis e prisioneiros de guerra na China. O objetivo da experimentação era desenvolver armas biológicas que pudessem ser utilizadas para a guerra. Agentes biológicos e gases desenvolvidos a partir destas experiências foram utilizados contra o Exército Chinês e a população civil. Isto incluiu a Unidade 731 sob o comando de Shirō Ishii. As vítimas foram submetidas a experiências que incluíram, entre outras, vivissecção, amputações sem anestesia, testes de armas biológicas, transfusões de sangue de cavalo e injeção de sangue animal nos seus cadáveres. A anestesia não era utilizada porque se acreditava que os anestésicos afetariam adversamente os resultados das experiências:

 

Para determinar o tratamento da hipotermia, os prisioneiros eram levados para o exterior com um tempo gelado e deixados com os braços expostos, sendo periodicamente encharcados com água até congelarem completamente. O braço era posteriormente amputado; o médico repetia o processo na parte superior do braço da vítima até ao ombro. Depois de ambos os braços serem amputados, os médicos passavam para as pernas até que restassem apenas a cabeça e o tronco. A vítima era então utilizada para experiências com peste e agentes patogénicos”.

 

Do artigo referido, consta uma listagem que pode ser consultada respeitante a definições dos crimes de guerra japoneses, a lei internacional e a japonesa, o militarismonacionalismo , imperialismo e racismo japonêsarmas de destruição massivatortura de prisioneiros de guerra, os julgamentos de Tóquio, lista dos maiores crimes e massacres, dos crimes de guerra, e outros.

 

 

É no blog de 27 de setembro de 2017, “Os ovos da serpente”, que podem ler:

“[…] Ainda antes do fim da II Guerra já centenas de milhar de prisioneiros dos exércitos nazis capturados e para os quais não havia campos de internamento em quantidade suficiente, foram colocados nos navios de carga que regressavam vazios aos EUA depois de terem descarregado todo o material na Europa. E por lá ficaram.

 É sempre bom recordar que em 1939 os nazis contavam com mais de duzentos mil seguidores e simpatizantes nos EUA, que a revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz, e que entre os seus admiradores se encontravam o magnate automobilístico Henry Ford e o aviador Charles Lindbergh.

E que na Grã-Bretanha, a abdicação em 1936 do rei Eduardo VIII, Duque de Windsor, ficou certamente mais a dever-se às suas simpatias para com Hitler e o regime nazi do que com o facto de se pretender casar com uma divorciada americana. Eram notórias as simpatias da classe alta e dos aristocratas britânicos para com o regime nazi, o que talvez tenha levado Hitler a cometer o erro estratégico de acreditar que a implantação do seu regime na Grã-Bretanha seria relativamente fácil, não se preocupando muito em dificultar a retirada do exército britânico de Dunquerque.

 Na destruição e na confusão que se seguiu após o fim da II Guerra, a necessidade de se manter a funcionar um mínimo de administração pública nos países derrotados, e até na dificuldade de separar nazis de não nazis fez com que, intencionalmente ou não, muitos deles passassem despercebidos. Vamos acreditar que foram essas as razões e que não foi intencional.

Na realidade, os aliados que ocuparam a República Federal da Alemanha (Estados Unidos, Reino Unido e França) condenaram apenas 6650 ex-nazis, o que só por si era uma pequena parte do total dos membros do partido. E, as elites alemãs da época fizeram o resto.

Um recente estudo denominado “Projeto Rosemburg” apresentado publicamente por Heiko Maas, atual ministro da Justiça alemão, vem confirmar que em 1957, 77% dos funcionários com cargos de responsabilidade no Ministério da Justiça alemão (ou seja, três em cada quatro) eram antigos membros do partido nazi. O que não deixa de ser até curioso, porquanto essa percentagem em 1957 era mais alta do que durante o Terceiro Reich (http://www.dn.pt/mundo/interior/sistema-de-justica-alemao-do-pos-guerra-estava-dominado-por-ex-nazis-5434041.html) […]”.

E por lá estão.

 

E no blog de 1 de fevereiro de 2023, “Crimes de guerra e guerra sem crimes”,  poderão ler sobre o Tribunal de Nuremberga e o Tribunal de Tóquio::

 

“[..]A primeira sessão, sob a presidência do representante soviético, Gen. I.T. Nikitchenko, realizou-se a 18 de outubro de 1945, em Berlim. Foram acusados 24 ex-líderes nazis ​​por perpetuarem crimes de guerra, e ainda vários grupos (como a Gestapo, a polícia secreta nazi) acusados ​​por terem carácter criminoso. A partir de 20 de novembro de 1945, todas as sessões do tribunal passaram a ser realizadas no Palácio da Justiça em Nuremberga.

Após 216 sessões, a 1 de outubro de 1946, foi proferido o veredicto de 22 dos 24 réus originais (Robert Ley cometeu suicídio enquanto estava na prisão, e as condições físicas e mentais de Gustav Krupp von Bohlen und Halbach impediram que ele fosse julgado). Três dos réus foram absolvidos: Hjalmar Schacht, Franz von Papen e Hans Fritzsche. Quatro foram condenados a penas de prisão que variaram de 10 a 20 anosKarl DönitzBaldur von SchirachAlbert Speer e Konstantin von Neurath. Três foram condenados à prisão perpétuaRudolf HessWalther Funk e Erich Raeder. Doze dos réus foram condenados à morte por enforcamento. Dez deles - Hans FrankWilhelm FrickJulius StreicherAlfred RosenbergErnst KaltenbrunnerJoachim von RibbentropFritz SauckelAlfred JodlWilhelm Keitel e Arthur Seyss-Inquart - foram enforcados a 16 de outubro de 1946. Martin Bormann foi julgado e condenado à morte à revelia, e Hermann Göring suicidou-se antes de poder ser executado.

 

Para além deste tribunal, foram ainda constituídos logo de seguida, entre dezembro de 1946 e abril de 1949, outros 12 subsequentes tribunais militares para julgar crimes de guerra cometidos por chefias do partido nazi, médicosindustriaisjuízesministros e outros elementos de organizações nazis. Dos 3.887 casos, 3.400 foram abandonados, tendo sido presentes a tribunal 489, com 1.672 acusados, dos quais 1.416 foram condenados (200 foram executados, 279 condenados a prisão perpétua – embora em 1950 quase todos acabassem por serem soltos ao abrigo de uma amnistia).

 

Particular interesse tem também o caso do tribunal para julgar os crimes dos nazis japoneses (Tribunal de Tóquio) instaurado pelo General Douglas MacArthur, onde, devido ao encobrimento feito pelo próprio governo americano, os principais responsáveis pelos crimes horrendos da Unidade 731 (experiências com armas biológicas e químicas em humanos) não foram presentes à justiça, e onde devido aos então recentes bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui se invocou que os pilotos japoneses não podiam ser punidos por bombardearem cidades dado os pilotos americanos terem feito o mesmo […]”  

 

Na História da Guerra do Peloponeso, começada a escrever já lá vão 2.400 anos (431 a. C.), Tucídides pôs os poderosos Atenienses a explicar aos derrotados e impotentes melitanos, a razão para o genocídio que se lhe seguiu:

 

 “o direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer”, (capítulo XVII, Décimo sexto Ano da Guerra, A Conferência Melitana, O Destino de Melos).

 

domingo, 12 de maio de 2024

Entrevista a Serguéi Karaganov

 11 DE MAIO DE 2024

https://karaganov.ru/en

 É claro que o complexo industrial-militar-media anglo-saxónico, com a ajuda dos seus vassalos, pretende preservar a todo o custo a sua hegemonia global e as suas conquistas colonialistas.

A hegemonia não pode aceitar a mudança de paradigma de um mundo multipolar emergente.

Qualquer discussão sobre paz, diplomacia ou negociações relativas às guerras que iniciou está fora de questão. As populações ocidentais, cujas mentes estão contaminadas pelo neoliberalismo e pela russofobia, estão actualmente aterrorizadas por uma “iminente invasão russa”… O delírio em massa está a impedir que a RAZÃO regresse ao Ocidente. Como o resto do mundo pode lidar com esta loucura? E o que o resto do mundo pode esperar?

Voltamo-nos para o Professor Sergei A. Karaganov* – Presidente Honorário do Conselho de Política Externa e de Defesa (a principal organização pública de política externa da Rússia) e Diretor Acadêmico da Faculdade de Economia Mundial e Política Mundial da 'Escola Superior de Economia da Universidade de Moscou Universidade Nacional de Investigação – uma vez que há muito que oferece opiniões perspicazes sobre temas como a utilização da dissuasão nuclear como um alerta ao Ocidente para restaurar o bom senso e a necessária articulação da Rússia do Ocidente para o Oriente.

* * *

ALERTAR O OCIDENTE CONTRA A ESCALADA

Pergunta: Para alertar o Ocidente contra uma escalada da guerra na Ucrânia e contra a sua crescente agressão contra a Rússia, você argumentou a favor da dissuasão nuclear... Você acredita que os líderes ocidentais, a maioria dos quais estão dando um sentimento totalmente irracional, podem leva essas ameaças a sério?

Professor Karaganov: Muitas elites ocidentais já não têm noção de história e perderam o sentido de autopreservação. Chamo essa condição de “parasitismo estratégico”. O mesmo se aplica a boa parte da população ocidental, que se tornou complacente em relação à paz, em grande parte garantida pela dissuasão nuclear, que não compreende. Além disso, o nível intelectual da maioria das elites caiu drasticamente devido a mudanças nos padrões morais e à deterioração do seu sistema de ensino superior – especialmente na Europa. Portanto, há muito poucas pessoas que entendem essas questões.

A situação é um pouco melhor nos Estados Unidos, que parece ter retido pelo menos os restos de uma classe política com mentalidade estratégica, mas obviamente não está a comandar o espectáculo. No entanto, alguns permanecem próximos do poder e podem, por vezes, influenciar aqueles que estão no poder.

De qualquer forma, a situação ali é bastante preocupante. Apenas um exemplo: o Presidente Biden e o seu Secretário de Estado Blinken disseram recentemente que o aquecimento global é tão mau ou pior do que a guerra nuclear. Fiquei bastante chocado. É muito louco.

As populações ocidentais, habituadas durante décadas à democracia, à prosperidade e ao consumo de massa, parecem paralisadas e não resistirão a parar e privar o lobby da guerra do seu poder. A diplomacia também não funciona mais. O que você acha que está por trás dessa complacência ocidental? Falta de imaginação sobre como poderia ser a guerra em seu próprio solo? Um caso de deficiência cognitiva, delírios patológicos, orgulho, ignorância da história? Um disfarce para seu desespero e ansiedade em relação à sua própria existência? Ou poderia ser apenas uma fachada para uma estratégia friamente calculada da parte deles?

Todos os fatores que você mencionou desempenham um papel. Embora eu acredite que o fator mais importante seja a sua incapacidade e recusa em enfrentar a realidade. As pessoas estão tão acostumadas com essas imagens tremeluzentes em suas telas que as confundem com a realidade. Este é um problema para todas as nações, mas especialmente para aquelas mais afetadas pela tecnologia digital.

Há pessoas nos círculos dominantes do Ocidente – nos Estados Unidos, mas especialmente na Europa – que estão a perder a capacidade de governar o seu povo devido a problemas crescentes que não conseguem gerir ou mesmo enfrentar… como o aumento das desigualdades sociais, migração, até mesmo questões climáticas. Claro, eu poderia continuar e continuar…

O capitalismo moderno é um sistema totalmente inadequado. Baseia-se no crescimento sem fim do consumo, que acaba por matar a Terra. Em vez de tentar reduzir o consumo, as classes políticas ocidentais modernas estão a tentar transferir o fardo do combate à poluição e até a culpar as alterações climáticas nos fabricantes (a maioria dos quais estão no mundo “em desenvolvimento”), mas não nos consumidores – a maioria dos quais). estão nos países em desenvolvimento. no chamado mundo “desenvolvido”.

A lista de problemas e desafios não resolvidos é muito longa. Os círculos dirigentes tentam desviar a atenção dos seus cidadãos destes problemas criando um inimigo. Desta vez é a Rússia... Um alvo fácil devido à sua russofobia já generalizada e profundamente enraizada, mas também porque a Rússia é relativamente "pequena" em termos de economia, e perder a Rússia como parceiro económico custa mais barato do que perder a China. (Mas o sentimento anti-China também está a aumentar, especialmente nos Estados Unidos.)

Há uma camada crescente entre as elites ocidentais que começaram a preparar os seus cidadãos para a guerra. Entretanto, os líderes ocidentais cortaram completamente todos os laços entre os seus cidadãos, os russos e a própria Rússia. O comércio e até mesmo o discurso com os russos são mais ou menos proibidos, e quem visita a Rússia acaba sendo interrogado pela polícia ou pelos serviços de segurança. É sintomático de uma preparação para a guerra, deste aumento da hostilidade. Já conseguiram transformar a maioria dos ucranianos num rebanho de odiadores, todos os quais se dirigem obedientemente para o matadouro. Em seguida vêm algumas nações europeias.

Isto tudo é bastante sombrio. Estamos a observar isto com atenção e estamos conscientes de que algumas classes políticas ocidentais ou classes dominantes estão hoje tão desesperadas que instigam guerras para esconder a sua incompetência e/ou crimes.

OS ALVOS FÁCEIS DO OCIDENTE

Muitos notaram claramente a falta de interesse da Alemanha e da UE em investigar a destruição dos gasodutos Nord Stream… Depois vieram os “Taurus Leaks”, nos quais oficiais militares alemães puderam ser ouvidos  pela primeira vez discutindo ataques na Crimeia com o Forças Armadas dos Estados Unidos. oficiais  , quatro meses antes de Scholz e Pistorius tomarem conhecimento desses planos.

Recentemente, a Suécia e a Finlândia renunciaram à sua neutralidade estatal e acolhem agora bases da NATO no seu território, o que, segundo eles, lhes proporcionará mais segurança. O que você acha que está por trás desse comportamento? Por que se permitem tornar-se os primeiros alvos de uma guerra quente contra a Rússia? Porque é que estas pessoas estão a sacrificar os seus próprios países ao estado profundo americano? A quem eles realmente servem? A sua lealdade é a outra entidade e não ao seu próprio país?

Na verdade, o nível de inteligência e o sentido de responsabilidade da maioria das classes dominantes – particularmente na Europa – deterioraram-se seriamente. Os Estados Unidos – que neste caso quase tenho de aplaudir – criaram uma imensa classe compradora na Europa… uma classe que tem muito mais no coração os interesses dos Estados Unidos e as ordens que lhe dão do que os interesses dos seus próprios países. e povos.

O estado profundo americano não está apenas ancorado nos Estados Unidos… há também uma extensão na Europa. É constituída pelo que poderíamos chamar de “a classe imperialista liberal global” que visa servir “interesses comuns”. Mas os europeus são ainda piores do que os americanos, porque sacrificam abertamente os interesses das suas nações. Eles são claramente traidores da sua pátria... E é por isso que encobriram crimes como provocar a guerra na Ucrânia, a explosão do Nord Stream... é por isso que estão até dispostos a arriscar o fornecimento de armas de longo alcance à Ucrânia. . (Curiosamente, os Americanos não fornecem abertamente armas de longo alcance, porque entendem que isso poderia levar a uma escalada, mesmo nuclear.) Portanto, os Americanos estão simplesmente a sacrificar os Europeus. Eles já estão a usar a Ucrânia como bucha de canhão… e parece que estão a preparar-se para usar os seus aliados europeus também como bucha de canhão.

Observamos estes desenvolvimentos com grande preocupação e estamos conscientes de que, infelizmente, não temos praticamente parceiros razoáveis ​​na Europa. Estamos, portanto, nos preparando para o pior cenário possível. No entanto, esperamos que, ao intensificar a nossa prática de dissuasão nuclear, possamos acalmar algumas pessoas na Europa e nos Estados Unidos. Se isto não for bem sucedido, as numerosas crises que assolam o mundo acabarão por se transformar numa Terceira Guerra Mundial.

CRISES GLOBAIS EMERGENTES

Estas crises globais emergentes são o resultado de mudanças tectónicas na actual ordem mundial, baseadas principalmente na dominação de quinhentos anos do Ocidente, em grande parte baseada na sua superioridade militar. A pólvora e os canhões foram inventados na China. Mas os europeus, constantemente em guerra, aproveitaram-no melhor e tiveram um melhor sistema de organização do seu exército. Com base nisso, começaram a colonizar o resto do mundo, suprimindo e até destruindo certas civilizações (astecas, incas), primeiro extraindo renda colonial, depois neocolonial. Mas essa base começou a ser abalada pela antiga União Soviética, quando alcançou a paridade nuclear, e agora por uma Rússia ressuscitada. A convulsão de todo este sistema deu origem a inúmeras crises e conflitos. Mas, acima de tudo, ajudou a libertar “o resto”, “o Sul global” ou, melhor, “a maioria global”.

Agora a questão não é apenas como parar o Ocidente, mas também como parar as ondas crescentes de conflitos militares em todo o mundo. Ao abordarmos os nossos principais interesses de segurança, libertámos simultaneamente o resto do mundo do domínio ocidental e minámos a sua capacidade de desviar riqueza de outros países.

O Ocidente está agora num estado de desespero. Para incutir-lhes algum bom senso, precisamos de restaurar o “medo saudável”, isto é, restaurar a validade da dissuasão nuclear. Infelizmente, não vejo outra solução neste momento. Porque muitas pessoas, especialmente no Ocidente, parecem ter perdido a cabeça e o sentido de responsabilidade. 

O GENOCÍDIO EM CURSO...

Hoje, o genocídio bárbaro que “Israel” – como outra potência colonialista ocidental – está a levar a cabo contra os palestinianos continua inabalável. O sofrimento da população civil palestiniana é inconcebível e o resto do mundo continua a observá-lo. O que está a “comunidade internacional” a fazer – para acabar com os massacres perpetrados por “Israel” e a destruição da pátria palestiniana… e para fazer com que os Estados Unidos e a União Europeia parem de apoiar “Israel”? E… diria que o genocídio na Palestina (juntamente com os ataques militares em curso na Síria) e a guerra na Ucrânia são essencialmente parte de uma “Grande Guerra” contra as nações soberanas da maioria mundial que se recusam a tornar-se vassalos do Hegemon? ?

No actual “sistema global”, a “comunidade internacional” fará muito pouco para ajudar os palestinianos.

Vejo todo o conflito palestiniano como um elo numa cadeia de conflitos desencadeada por mudanças tectónicas de poder no sistema actual e pelas tentativas desesperadas do Ocidente para manter o seu domínio. É claro que os Estados Unidos – embora se retirem externamente dos muitos países e territórios em todo o mundo que ocuparam e dominaram – estão secretamente a causar instabilidade nesses territórios, a fim de criar problemas aos seus futuros líderes. E a maioria desses territórios fica na Eurásia.

Devo dizer que nunca teria imaginado como os israelitas poderiam ter lançado esta guerra [contra a Palestina] sem o apoio aberto dos Estados Unidos. Para todos os efeitos, parece que alguns setores nos Estados Unidos decidiram iniciar uma nova grande guerra no Médio Oriente para desestabilizar toda a região (de qualquer forma, os Estados Unidos já não dependem do petróleo e do gás do Médio Oriente). Leste, portanto, não tinham interesse em manter qualquer estabilidade ali).

O massacre em Gaza minou a legitimidade de Israel e não vejo como essa legitimidade poderia alguma vez ser restaurada. Parece que temos as sementes de uma nova grande guerra no Médio Oriente e de uma nova tragédia – também para o povo judeu, que também está a ser sacrificado pela estupidez e arrogância dos líderes israelitas. Não entendo os políticos israelenses. Obviamente perderam a cabeça… tal como a classe política europeia. E os palestinos continuam a ser massacrados por causa deste programa.

Para além da utilização da ameaça nuclear como meio de dissuasão... e considerando que as "instituições globais" como a ONU e o Tribunal Internacional de Justiça são ineficazes para impedir guerras e genocídios, e que são - poder-se-ia dizer - essencialmente nas mãos das elites ocidentais… não poderíamos conceber uma medida dissuasora adicional – como uma “Aliança de Resistência” global, actuando como uma “frente” activa contra o poder unipolar?

A maioria global é potencialmente muito mais poderosa do que o antigo Movimento Não-Alinhado e está, naturalmente, a tornar-se um factor muito mais importante na política internacional. Um novo sistema irá emergir nas próximas décadas – isto é, se sobrevivermos a este período de crises e guerras… e se pudermos evitar uma Terceira Guerra Mundial, que seria provavelmente a última guerra… e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar isto.

Não vejo qualquer possibilidade de criar o que poderia ser chamado de "Aliança de Resistência" num futuro próximo... no entanto, uma Comunidade de nações livres - "livres" no sentido de serem capazes de viver e trabalhar de acordo com os seus interesses nacionais - seria uma contribuição importante para a paz mundial. Mas para alcançar um futuro mundo de nações livres, para criar mais segurança e reduzir potenciais tensões, precisaremos de reintroduzir “bloqueios de segurança” no sistema internacional.

De momento, existe apenas um “bloqueio de segurança”: a dissuasão nuclear. Precisamos também de construir um novo sistema institucional paralelamente ao sistema existente que está em colapso. A ONU pode continuar a existir, mas obviamente não pode voltar a ser eficaz, porque o seu secretariado é dominado por funcionários orientados para o Ocidente. Deveríamos, portanto, construir um sistema institucional inteiramente novo baseado no BRICS+, SCO+ e outras instituições semelhantes.

Na verdade…precisamos de um novo conjunto de instituições que não sejam dominadas pelo Ocidente, cujo poder está em declínio e cuja autoridade moral desapareceu, porque falhou em todos os sentidos – política, económica e acima de tudo eticamente – depois de desencadear incontáveis ​​actos brutais. de violência. agressão quando teve a oportunidade de ditar o destino da comunidade mundial. Esta era do momento unipolar atingiu o seu auge na década de 1990 e no início de 2000.

As potências ocidentais mostraram o que valem. Eles agora devem ser deixados de lado. Temos de construir um sistema paralelo de governação global – um sistema que seja mais justo e mais eficaz. Precisamos de um novo Tribunal Internacional de Justiça, de instituições que ajudem a reduzir a fome no mundo e de instituições que trabalhem para melhorar a saúde global (durante a pandemia de Covid vimos como as nações ocidentais, que praticamente controlavam as instituições globais, não conseguiram lidar com a situação). enfrentar este desafio de forma adequada e adequada).

COLONIALISMO VERSUS INTERNACIONALISMO

A Rússia czarista era uma potência colonial e estava em competição feroz com os estados coloniais da Europa Ocidental, particularmente o Império Britânico. Como o colonialismo russo czarista diferia, digamos, do colonialismo britânico?

Sim, em muitos aspectos a Rússia czarista era uma potência colonial, mas era muito diferente das potências coloniais ocidentais. Quando os russos avançaram para leste e sul, conquistando e desenvolvendo a Sibéria, não recorreram a meios genocidas. Como os russos se misturaram com as elites locais, houve um grande número de casamentos interétnicos, de modo que os russos não eram colonialistas nos moldes ocidentais. Os czares até convidaram as elites locais para se juntarem à nobreza russa. Parece que quase duplicámos o número de príncipes que tínhamos quando incorporámos a Geórgia, cuja nobreza afirmava ser príncipe. Metade da nobreza russa era etnicamente não-russa. A Rússia absorveu as culturas dos povos colonizados em vez de suprimi-las. O racismo é quase completamente estranho aos russos.

Embora a Rússia tenha beneficiado naturalmente da riqueza dos países vizinhos, na maioria dos casos subsidiou-os... e este foi particularmente o caso durante a era soviética, quando a Rússia era o principal fornecedor de riqueza. Acredito que todas as repúblicas da antiga União Soviética, exceto uma, foram fortemente subsidiadas.

Somos, portanto, uma potência colonial apenas no nome. Em muitos aspectos, a Rússia metropolitana era uma colónia dos seus subúrbios. Depois, devido à sua necessidade de segurança, a Rússia expandiu-se, mas em muitos casos pagou um preço económico por esta expansão. Por exemplo, após a Segunda Guerra Mundial, a Ucrânia foi reconstruída antes de áreas da Rússia propriamente dita que tinham sofrido com a ocupação nazi. Podemos também constatar com certo orgulho que a maior parte das civilizações dos povos nórdicos da Sibéria persistiram até aos dias de hoje (ao contrário destes territórios usurpados nos Estados Unidos ou noutros lugares). Algumas das suas populações até aumentaram, por exemplo em Yakutia. Estudiosos russos e, especialmente, soviéticos criaram línguas escritas para esses povos e, claro, trouxeram a educação com eles. As línguas escritas das regiões bálticas, hoje estados, foram desenvolvidas em São Petersburgo no final do século XIX.

A Rússia não era, portanto, “colonialista” no sentido tradicional do termo. Em última análise, tratava-se da criação de um Estado comum em que as elites locais e as populações locais – que não eram de etnia russa – pudessem desempenhar um papel igual, e por vezes até mais importante e privilegiado, do que os próprios russos étnicos. É também uma consequência da nossa história... Fomos colonizados pelo império de Genghis Khan, mas os mongóis não nos impuseram a sua cultura, a sua língua ou as suas crenças. Nossa expansão imitou mais ou menos esse tipo de expansão. Portanto, não descreveria a nossa expansão como “colonialista”, mas sim “internacionalista”.

E, claro, a nossa expansão trouxe-nos recursos, especialmente da Sibéria. Primeiro foram as peles, o que chamamos de “ouro macio”, depois todos os tipos de pedras preciosas, prata, ouro, depois petróleo, gás. E agora a Sibéria é o celeiro da Rússia, a base do nosso futuro. A Sibéria fornecerá à Rússia e à Eurásia alimentos, água e recursos naturais durante décadas, senão séculos.

IMPÉRIOS VERSUS CIVILIZAÇÕES

Alguns defensores de um futuro mundo multipolar falam em reunir regiões geográficas do mundo em “impérios”… Qual seria então a posição da Rússia? A noção de “construir vários impérios” não representaria um problema num mundo multipolar?

É muito cedo para falar em impérios futuros, mas um império – além de ter sido por vezes um território de poder que reprimiu outros povos – foi também por vezes uma área que proporcionou segurança e bem-estar a muitos povos.

Não tenho certeza se veremos um mundo com vários impérios importantes. Acredito que já ultrapassamos esse período da história. Se falarmos da Rússia, será um dos centros culturais, políticos, económicos e militares do mundo. Será uma “civilização de civilizações” abrangendo muitos grupos étnicos… uma civilização eurasiana aberta a outros.

Pessoalmente, não gostaria que a Rússia se tornasse novamente um vasto império, porque a forma russa de construir um império foi, em última análise, à custa dos próprios russos. Os seus objectivos podem ter sido nobres, mas tiveram um custo demasiado elevado para o povo russo. Prefiro ver-nos como uma civilização de civilizações: respeitando os outros, aprendendo com as experiências de todas as nações... um guardião político-militar que garante a liberdade de outras nações escolherem o seu próprio caminho. Libertar o mundo da hegemonia é, em última análise, o nosso destino manifesto.

OLHANDO PARA O ORIENTE E PARA A MAIORIA MUNDIAL

A Rússia é a anfitriã do BRICS+ este ano… A Rússia também organizou e acolheu recentemente a Conferência Multipolaridade, o Festival Internacional da Juventude e muitos outros eventos para reunir a maioria mundial… O que poderia a Rússia aprender com a Ásia? África? América latina? E o que estas regiões poderiam aprender com a Rússia?

Aprendemos uns com os outros. Os russos têm a particularidade de ser uma nação culturalmente aberta. Esta abertura cultural é na verdade a própria essência de ser “russo”. Nascemos como uma “nação de nações”. Somos conhecidos como uma civilização estatal. Mas, mais uma vez, eu chamar-nos-ia “uma civilização de civilizações”. Ao longo dos séculos do nosso desenvolvimento, acolhemos muitas civilizações e somos, quase por definição, internacionalistas. É claro que temos racistas e chauvinistas na Rússia. Mas, no geral, os russos são excepcionalmente internacionalistas. Estamos, portanto, mais bem preparados do que a maioria para enfrentar o mundo multipolar, multicultural e multirracial de amanhã. Devemos aprender uns com os outros a viver em paz, respeitar e apoiar as culturas uns dos outros, desenvolver a nossa própria cultura e promovê-la em todo o mundo. Mas acima de tudo, devemos respeitar o carácter único de cada povo e promover um enriquecimento intercultural positivo.

Estou muito optimista em relação ao mundo que está por vir, se conseguirmos evitar uma Terceira Guerra Mundial. Mas esta é a nossa tarefa comum.

* * *

*Sergey Aleksandrovich Karaganov

Biografia detalhada:  https://karaganov.ru/en/

Especialização: Políticas externas e de defesa soviética/russa, aspectos económicos e de segurança da interacção russo-europeia, pivô russo para o Oriente.

Autor e editor de 28 livros e panfletos, publicou cerca de 600 artigos sobre política externa econômica, controle de armas, estratégia de segurança nacional, política externa e de defesa da Rússia. Artigos e livros foram publicados em mais de 50 países.

Presidente do conselho editorial e editor da revista “Russia in Global Affairs”. As opiniões mencionadas neste artigo não refletem necessariamente a opinião de Al Mayadeen, mas expressam exclusivamente a opinião do seu autor.

Publicada por Pena Preta à(s) sábado, maio 11, 2024 

https://foicebook.blogspot.com/2024/05/entrevista-de-karaganov.html