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domingo, 7 de junho de 2026

Jorge Wemans - As “coisas novas” da primeira encíclica de Leão XIV


O Papa Leão XIV assina a a sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, a 15 de Maio, numa fotografia divulgada pelos serviços de comunicação do Vaticano VATICAN MEDIA - VIA REUTERS

As “coisas novas” da primeira encíclica de Leão XIV


Este Papa não esperou que amadurecesse o debate sobre o impacte da IA. Leão XIV arrisca a sua palavra quando muitos outros responsáveis ainda nada disseram sobre as “coisas novas” do nosso tempo.

Jorge Wemans

7 de Junho de 2026


É sobre “a sede de inovações que se apoderou das sociedades” esta encíclica. A frase escreveu-a Leão XIII em 1895 a abrir a encíclica Rerum Novarum, mas aplica-se por inteiro à Magnifica Humanitas de Leão XIV. Há 150 anos a Revolução Industrial, hoje a Inteligência Artificial (IA). Tempos e questões diferentes, uma mesma preocupação: que “temíveis conflitos” são criados e alimentados por estas inovações, que humanidade edificam? O olhar do actual Papa sobre os desafios do mundo de hoje leva-o a inovar em múltiplos aspectos, de tal forma que esta sua encíclica difere de todas as anteriores dedicadas à “questão social”.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Rodrigo Tavares - Ao ler este artigo está a violar os direitos humanos

* Rodrigo Tavares

Professor catedrático convidado na Nova SBE

A pergunta decisiva não é se algo é verde ou ético, mas que danos esconde

Não há nenhuma atividade económica, nenhum produto, nenhuma transação financeira que não gere impactos negativos para a sociedade ou para o meio ambiente. Nenhuma.

Ao ler este artigo o caro leitor está a usar um computador ou telemóvel que contem alumínio, antimónio, arsénico, bário, berílio, bismuto, boro, cálcio, cério, chumbo, cobalto, cobre, crómio, disprósio, estanho, estrôncio, európio, ferro, flúor, fósforo, gadolínio, gálio, germânio, grafite, índio, ítrio, lantânio, lítio, magnésio, manganês, molibdénio, neodímio, nióbio, níquel, ouro, paládio, platina, potássio, prata, praseodímio, selénio, silício, sódio, tântalo, telúrio, térbio, titânio, tungsténio, zinco e zircónio. São materiais provenientes de cadeias mineiras e industriais ligadas a países como Myanmar, Tajiquistão, China, Rússia, República Democrática do Congo, Gabão, Nigéria, Bielorrússia ou Zimbabué.

Agora seria chegado o momento em que eu citaria vários relatórios de ONGs que alertam para a violação dos direitos humanos na exploração de minérios nestes países. Bastava esticar o dedo para o Google ou um LLM. Prefiro destacar o livro Cobalt Red de Siddharth Kara, finalista do prémio Pulitzer, sobre as condições animalescas em que o cobalto é minerado na República Democrática do Congo. Se o comprar pela Amazon, aproveite e leia também The Everything War: Amazon’s Ruthless Quest to Own the World and Remake Corporate Power, escrito por Dana Mattioli, jornalista veterana do Wall Street Journal e também finalista do Pulitzer pelo seu trabalho sobre a Amazon.

Continuo? Na montagem de computadores e telemóveis, a violação de direitos humanos resulta da pressão contratual exercida pelas marcas sobre fornecedores, através de preço-alvo, prazos de lançamento e penalizações por atraso. Essa pressão converte-se em vínculos laborais precários, trabalho suplementar quase obrigatório, metas horárias extenuantes, controlo punitivo da produtividade e fraca liberdade sindical, afetando o direito ao trabalho digno, ao descanso e à associação coletiva. A exposição a soldaduras, solventes, resinas, retardadores de chama, poeiras metálicas e riscos de baterias de iões de lítio, quando não acompanhada por ventilação, proteção e vigilância médica eficazes, como acontece frequentemente, viola ainda o direito à saúde e à segurança no trabalho.

Não faltam precedentes. Nas fábricas da Foxconn e da Pegatron, auditorias e investigações identificaram violações de normas laborais e da lei chinesa. A Samsung viu tribunais sul-coreanos reconhecerem doenças profissionais associadas à produção de semicondutores. A Apple tem sido criticada pela distância entre os seus compromissos públicos de responsabilidade social e a precariedade laboral dos seus fornecedores. Não há escassez de denúncias. Recomendo o artigo do Financial Times, “Inside China’s mega iPhone factory: long hours, discrimination and delayed pay”, disponível aqui.

Há ainda as violações ambientais. A cadeia do computador consome água, energia e reagentes químicos, gera rejeitados, emite poluentes e produz lixo eletrónico. No fim de vida, placas, baterias, cabos e ecrãs podem entrar em circuitos informais de reciclagem, onde a recuperação de cobre, ouro ou alumínio envolve queima de cabos, banhos ácidos e desmontagem manual sem proteção. O resultado é contaminação do ar, do solo e da água por metais pesados e compostos tóxicos. A autora do livro High Tech Trash: Digital Devices, Hidden Toxics, and Human Health fez uma investigação notável sobre o problema.

Se quiser conhecer os impactos positivos e negativos de todas as empresas listadas em bolsa, recomendo esta plataforma finlandesa. Pode começar pela Apple (aqui).

Entre o impulso de corrigir o mundo e os meios disponíveis para o fazer há cadeias globais de extração, transporte, fabrico, e consumo que comprometem a santidade de qualquer gesto sustentável. Dito de outra forma, a transição de uma economia fóssil para uma economia verde não elimina a dependência de recursos finitos; apenas substitui o petróleo, o gás e o carvão pelo cobre, o lítio, o níquel, o cobalto, a grafite, as terras raras e outros metais indispensáveis à descarbonização.

E é exatamente quando chegamos a este ponto, emaranhados em incoerências e contradições, frustrados com os trade-offs e com a impossibilidade da coerência absoluta, conscientes de que cada solução conserva dentro de si uma forma de perda, que a sustentabilidade deixa de ser uma técnica de otimização e passa a ser uma prática de mitigação de custos sociais e ambientais. Quando ser sustentável se revela insustentável, a sustentabilidade é escolher o menos insustentável. No fundo, tudo se reduz a uma contabilidade honesta dos danos.

A UE seguiu o caminho contrário. Em 2020, criou a Taxonomia Europeia para classificar as atividades económicas ambientalmente sustentáveis. Mas o sistema tornou-se um labirinto técnico de critérios, atos delegados, salvaguardas, indicadores financeiros e obrigações de reporte. Equipas de sustentabilidade, finanças, auditoria e compliance precisam hoje de formação especializada para decifrar a máquina Enigma regulatória. Criada para reduzir o greenwashing, a taxonomia acabou também por oferecer às empresas uma linguagem técnica capaz de ocultar, relativizar ou diluir aquilo que permanece insustentável.

Não precisamos de atividades económicas, produtos ou transações financeiras “verdes”, “sustentáveis”, “eco”, “bio”, “orgânicas”, “naturais”, “amigas do ambiente”, “carbono neutro”, “sem plástico”, “recicláveis”, “reutilizáveis”, “conscientes”, “responsáveis”, “éticos”, “limpos”, “circulares”, “de impacto positivo” ou “alinhados com a transição” como se esses rótulos fossem bulas papais. Precisamos de saber, com precisão, que danos reduzem, que danos produzem, onde ocorrem, sobre quem recaem e quando se manifestam. A linguagem da sustentabilidade tornou-se demasiado adjectival e pouco contabilística.

Se a maioria dos produtos já tem a sua versão “verde”, há que reconhecer que os fabricantes de computadores e telemóveis parecem admitir, ainda que por omissão, que os seus produtos não podem ser verdadeiramente sustentáveis e éticos, nem sequer no plano da retórica. Pelo menos isso.

2026 04 30

https://expresso.pt/opiniao/2026-04-30-

quinta-feira, 26 de março de 2026

Daniel Oliveira - Chega nas autarquias: Sorria, foi enganado outra vez e sabia

* Daniel Oliveira

Desvinculações do partido para ganhar pelouros, casos, nomeações escandalosas, balbúrdia entre vereadores. Nada disto é surpreendente no partido que queria acabar com os tachos e a bandalheira, mas é a rampa de lançamento de quem não conseguiu lugares noutros lados. Não é provável que os seus eleitores não o saibam. Mas não é um voto de exigência, é um voto de desistência

Em várias autarquias houve acordos com o Chega, sobretudo em câmaras do PSD. De uma forma ou de outra, formal (Sintra) ou informalmente (Lisboa), os vereadores do Chega ajudaram a construir maiorias em cinco dos seis maiores concelhos do país. Isto seria uma estratégia de poder. Mas na maior parte das câmaras talvez seja difícil falar de estratégia.

Em apenas cinco meses fora oito os vereadores eleitos pelo Chega que abandonaram o partido e passaram a independentes: em Lisboa, Ana Simões Silva (eleita por um voto de diferença) desfiliou-se e integrou o executivo de Carlos Moedas, assumindo os pelouros da Saúde e do Desperdício Alimentar. Em Vila Nova de Gaia, António Barbosa seguiu o mesmo caminho e entrou no executivo de Luís Filipe Menezes com pelouros das Feiras, Mercados, Ambiente e Bem-Estar Animal. Em Coimbra, Maria Lencastre Portugal desfiliou-se e foi nomeada para funções executivas numa empresa municipal de Ana Abrunhosa, do PS. Em Mirandela, Luís Saraiva conseguiu sair do partido ainda antes da tomada de posse, deixando claro ao que vinha. No Funchal, Luís Filipe Santos e Jorge Afonso Freitas saíram do partido, mas mantiveram-se sem pelouros. O mesmo aconteceu na Marinha Grande, com Emanuel Vindeirinho. E em Ourém, Rita Sousa renunciou ao mandato, o que é um pouco diferente.

Em poucos meses, o Chega já soma mais casos de demissões, desvinculações e ruturas do que partidos com muito mais vereadores e presidências de câmara. Mais do que divergências, é gente à procura de um lugar ao sol.

Em São Vicente, na Madeira (outro dos três concelhos conquistados pelo Chega), o presidente retirou os pelouros aos outros vereadores do seu partido e governa sozinho. Em Portimão, 19 eleitos do Chega a ameaçarem demitir-se em bloco porque dois dos três vereadores do partido viabilizaram o orçamento do PS. Dizem que o fizeram porque o orçamento é bom. Permitam-me duvidar.

Em Lisboa, o vereador que não abandonou o partido queimou-se com a nomeação da Mafalda Livermore para a administração dos Serviços Sociais da Câmara. A sua namorada é alvo de investigação por burla e exploração de imigrantes. Mas as nomeações de pessoas demasiado próximas é um clássico no partido que ia lutar contra o nepotismo – Rui Cristina, presidente da Câmara de Albufeira, levou a irmã para assessora. Explicou-se: “Sei que todos os presidentes de câmara gostariam de ter uma irmã qualificada como esta para trabalhar em prol dos munícipes”.

Onde não há debandada há balbúrdia.

Tudo contrasta com o partido que promete acabar com a bandalheira, o oportunismo e os arranjinhos do sistema. Mal se aproximam dos únicos tachos a que já têm acesso, ninguém lhes ensina nada. Porque o Chega não passa de uma rampa de lançamento para quem foi rejeitado por outros partidos. Cresceu muito e depressa, tem falta de quadros e recebeu o refugo de carreiristas que, chegados ao poder, tratam da vidinha. Sejamos justos: estando longe do poder nacional, ainda são carreiras de pouca ambição.

Nada disto deveria surpreender os eleitores. Já no mandato anterior o Chega acumulava episódios nas autarquias e na Assembleia da República. O deputado Miguel Arruda foi só o mais mediático, por ser risível. Num recorde absoluto de problemas com a justiça, há dirigentes e deputados do partido da “lei e da ordem” envolvidos em processos que vão da condução sob efeito de álcool a abuso de menores – esta semana já vai no quinto suspeito de pedofilia.

Não é provável que a maioria dos eleitores do Chega desconheça estes casos. Que não saiba que os vereadores que elegeu saltaram para fora do partido para chegar ao pote. Que viva a leste do destino do seu voto. Alguns estarão de tal forma fanatizados que ou justificarão o injustificável ou encontrarão consolo no burocrático distanciamento do líder cada vez que algum caso chega aos jornais. O eleitorado do Chega é o sonho de qualquer político: dá tudo sem exigir nada.

Mas a maioria apenas confirma a tese que tenho há algum tempo: o voto no Chega não é dos desiludidos da democracia, mas dos que desistiram dela. Não é um voto de exigência, é um voto de desistência. Não querem abalar o sistema, aceitam a caricatura do sistema, porque “eles são todos iguais”. Estão-se nas tintas. Já não esperam nada. Sobretudo daqueles em quem votam.

2026 03 26

 https://expresso.pt/opiniao/2026-03-26-chega-nas-autarquias-sorria-foi-enganado-outra-vez-e-sabia

sexta-feira, 6 de março de 2026

Alfredo Barroso - MORREU ANTÓNIO LOBO ANTUNES


MORREU ANTÓNIO LOBO ANTUNES, ADMIRÁVEL CRONISTA E, SEM DÚVIDA, GRANDE ROMANCISTA QUE LI POUCO POR PREGUIÇA…

- confessa Alfredo Barroso, mais virado para as crónicas

António Lobo Antunes era sobretudo, para mim, um cronista genial, da envergadura de Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz, admiráveis cronistas do século XIX português. Oxalá reeditem, e tornem a pôr à venda as crónicas que ele escreveu. Leem-se, tal como as de Camilo e Eça, por puro prazer, deleite e admiração pela extraordinária riqueza e flexibilidade da escrita.

Foi um amigo meu, o Joaquim Brandão, quem me alertou, já lá vai quase meio século, para a “Memória de Elefante”, a que se seguiu, pois claro, a leitura de “Os Cus de Judas”. Vieram depois “A Morte de Carlos Gardel” e o “Manual dos Inquisidores”. E por aqui me fiquei.

Confesso que, neste último, não apreciei a insistência nas repetições, uma técnica de construção narrativa do autor cheia de desarrincanços, mas que me transtornava a leitura, o que só prova que me tornei preguiçoso e não sou bom leitor dos romances de António Lobo Antunes. Nota-se a cadência das repetições – como se topa logo desde o começo do ‘Manual’, com a insistência do latifundiário em dizer que não tira o chapéu da cabeça enquanto sodomiza criadas, por exemplo, «a filha do caseiro (…) acocorada num banquinho de pau», ou «a cozinheira estendida de costas no altar, de roupa em desordem e avental ao pescoço». E repete as explicações: «Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão»…

E assim por diante, com repetições em série cheias de imaginação, muito sainete e manifesto talento literário. Até a um apocalipse final em que as palavras, frases e ideias se embrulham e atropelam, no meio de «cabanas desfeitas pela guerra e pela chuva», da ordem «queimem esta merda toda», e dum pai a implorar´repetidamente: «peço-lhe que não se esqueça de dizer ao pateta do meu filho que apesar de tudo eu». E acaba assim, a frase interrompida sem reticências…

O narcisismo, ou melhor, o fascínio de António Lobo Antunes pela sua própria escrita é mais que evidente, sobretudo nos romances que escreveu e menos nas suas admiráveis crónicas. Mas era, sem dúvida, um admirável escritor, sempre a lamentar que não lhe atribuíssem o Prémio Nobel da Literatura…

NOTÍCIA DA DEMÊNCIA E DA MORTE

O certo é que António Lobo Antunes morreu, esta quinta-feira, dia 5 de Março de 2026, com 83 anos de idade (só mais dois do que eu). Dizem as notícias da sua morte que escreveu mais de três dezenas de romances, e que, nos últimos anos, se afastou bastante do mundo, devido à demência que o afectou.

«A doença que o foi invadindo, acentuou-se durante o confinamento causado pela pandemia de Covid-19», revelou João Céu e Silva, seu biógrafo, citado pelo Expresso. O jornalista explicou que os sintomas da doença terão começado vários anos antes. Alguns desses sintomas são a perda de memória, a dificuldade de fazer novas aprendizagens, a perda frequente de objetos de valor, como carteiras e chaves, ou esquecer-se da comida ao lume. Cuidado Alfredo, ela vem aí…

“É a minha geração partindo”, comentou comovida a escritora Lídia Jorge, logo de manhã, tinha acabado de receber a notícia. “É uma geração que cumpriu o seu dever: deixámos a memória de um tempo de mudança extraordinária no país, e à frente de todos nós esteve ele.”

Para Lídia Jorge, António Lobo Antunes (ALA) foi capaz de pegar “nas aquisições do romance psicológico e fazer dele uma espécie de modelo inventivo para falar da história viva, ativa, portuguesa”, sublinhando “o que hoje é evidente, a necessidade da relação entre a Europa e o mundo colonial”, e fazendo-o por meio de “um estilo, um modo e uma forma que são universais”.

Essa forma que, segundo Gonçalo M. Tavares, é “das mais contagiantes em termos de estilo e de tom de escrita”. O autor, de 55 anos, conta que leu Lobo Antunes muito novo. “Ele falava muito de o leitor apanhar com os seus livros uma espécie de vírus, de doença benigna. Quando se é novo, é dificil ler e não escrever como ele. É uma avalanche de ritmo, de repetições, de diálogos, da própria estrutura da página... O leitor, depois de o ler, tem de resistir muito par não escrever como ele.”

E se gostou dos primeiros – cita o “Tratado das Paixões da Alma” e “Ordem Natural das Coisas” -, considera que a segunda fase de ALA finca o pé na linguagem de um modo “impressionante e corajoso” como poucos. “Esses últimos livros, sendo mais difíceis, estavam num mundo em que o romance se dissolve no trabalho da linguagem, em que se assume que a história não é importante. Coloca-se no campo da linguagem, do ritmo, da frase, da metáfora”.

Dulce Maria Cardoso concorda que António Lobo Antunes manteve o selo de qualidade e de originalidade até ao fim. “Fechou com chave de ouro, com “O Tamanho do Mundo”, que é um bom livro”, observa. “Sinto-me devedora dele, aprendi muito. Aprendi sobretudo, desde o início, essa coisa maravilhosa de que a escrita é trabalho, trabalho, trabalho. Ele próprio aplicou isso no seu caminho, ao evoluir muito ao longo dos anos”, diz a autora de “O Retorno”, que pouco se cruzou com o escritor nascido em Benfica.

Carlos Vaz Marques, jornalista e editor que conheceu o romancista, prefere recordá-lo relatando um dos “vários episódios marcantes” dos seus encontros com ele. “Fui entrevistar o António ao Hospital Miguel Bombarda, onde ele era médico psiquiatra. Levei um daqueles gravadores a pilhas, pequeninos, para registar a conversa. A meio do diálogo, batem à porta do gabinete. ‘Entre.’ Abre-se a porta e surge um homem de olhar vago, naquela espécie de farda hospitalar que vestiam os doentes em ambulatório. ‘Já está, sôtor; aqui tem.’ E lança dali mesmo uma chave, saindo de imediato. ‘Pedi-lhe para me ir arrumar o carro’, explica o médico. E depois, sem transição, sem qualquer inflexão especial, a frase fulgurante, guardada pelo gravador: ‘É um tipo porreiro. Matou o pai.’ Nunca mais ouvi alguém dizer de alguém que ‘é um tipo porreiro’ sem voltar a ouvir a frase do António. Que pena tenho de já só a poder ouvir, naquela voz bem timbrada, na minha cabeça.”

Campo d’Ourique, 5 de Março de 2026

https://www.facebook.com/somera.simoes/post

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Susana Peralta - Chega e o seu financiamento

* Susana Peralta

Há uma ironia deliciosa, daquelas que fariam rir se não fizessem chorar, na narrativa Venturiana do "povo contra as elites".

André Ventura discursa contra o "sistema de interesses instalados" num hotel de luxo em Cascais onde o quarto mais barato custa mais que o salário mínimo de meio mês. Proclama-se voz dos abandonados e esquecidos enquanto janta em Monsanto com barões, condes e marqueses que financiam a sua cruzada populista com transferências de cinco dígitos. Promete "limpar Portugal" da corrupção enquanto esconde da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) os nomes de quem realmente paga as contas do CHEGA.

É teatro. Obviamente. Mas é teatro tão bem encenado, com cenografia tão convincente, que milhares acreditam. Acreditam que o homem financiado pela família Champalimaud — donos dos CTT, de hotéis de luxo, de participações no que resta do império BES — é verdadeiramente o paladino do povo. Que o político apoiado por comerciantes de armas, especuladores imobiliários e aristocratas ligados a redes bombistas do pós-25 de Abril é genuinamente anti-sistema. É preciso uma suspensão de descrença digna de ópera Wagneriana.

Mas talvez o mais fascinante não seja a hipocrisia — essa é banal, universal, transversal ao espectro político. O fascinante é a elegância com que o esquema funciona. A precisão cirúrgica com que as políticas do Chega servem exactamente os interesses de quem o financia, enquanto a narrativa pública fala de outra coisa completamente diferente. É engenharia social de alto nível. Merece, no mínimo, análise.

Comecemos pelos factos. Não as teorias da conspiração, não as especulações — os factos duros, documentados, publicados por jornalistas que fizeram o trabalho aborrecido de ler extractos bancários e cruzar transferências.

A família Champalimaud, nas suas várias ramificações aristocráticas e empresariais, transferiu dezenas de milhares de euros para o Chega entre 2021 e 2022.

Manuel Carlos de Melo Champalimaud, maior accionista dos CTT na altura, dez mil euros. Miguel de Mendia Montez Champalimaud, dono do The Oitavos (esse hotel de luxo onde Ventura faz comícios anti-elite), valores não especificados mas documentados. Miguel Vilardebó Sommer Champalimaud, dez mil. Mafalda Mendia Champalimaud, dez mil, repetidos. Eduardo Guedes Queiroz Mendia, ex-administrador da Espart (o braço imobiliário do Grupo Espírito Santo, aquele que implodiu levando as poupanças de milhares), também contribuiu generosamente.

Não são os únicos. João Maria Ribeiro Bravo, empresário que vende armas e helicópteros ao Estado português e que recentemente foi alvo de buscas da PJ na operação "Torre de Controlo" sobre alegado cartel de helicópteros, não só deu cinco mil euros como organizou almoços de angariação para o Chega. Miguel Costa Félix, do sector imobiliário e turismo, 2500 euros. Isto é apenas aquilo que fácilmente se consegue confirmar e validar (apenas a ponta do novelo).

Pedro Maria Cunha José de Mello, também presente. E há mais — condes, marqueses, barões, gente com títulos que pensávamos extintos mas que afinal andam por aí, vivos, ricos, e a financiar o partido que promete defender os pobres contra os poderosos.

Alguns destes financiadores têm histórias particularmente saborosas. Miguel Sommer Champalimaud esteve implicado na tentativa de golpe spinolista de Setembro de 1974. Francisco Van Uden, monárquico na linha de sucessão ao trono, foi chefe operacional do ELP (Exército de Libertação de Portugal), organização terrorista de extrema-direita responsável por atentados no pós-revolução. Eduardo de Melo Mendia, quinto conde de Mendia, aparece nos Paradise Papers. Luís Mendia de Castro, quarto conde de Nova Goa, movimenta-se em instituições financeiras. São pessoas sérias. Gente de bem. Defensores da ordem, da hierarquia, da propriedade. Exactamente o tipo de aristocracia financeira que qualquer populista genuíno combateria até à morte.

Mas Ventura não combate. Ventura agradece. E retribui.

Porque aqui está o verdadeiro génio do esquema: as políticas do Chega alinham-se perfeitamente com os interesses de quem o financia, mas essa ligação nunca é explicitada. Nunca é discutida. Fica escondida nas entrelinhas dos programas eleitorais, camuflada por retórica sobre "povo", "nação", "soberania".

É preciso ler com atenção — e poucos lêem — para perceber que o partido que se apresenta como defensor dos trabalhadores tem no seu programa a privatização de tudo o que o Estado ainda controla.

Leiamos, então. Directamente do programa do Chega, página 45: "Ao Estado não compete a produção ou distribuição de bens e serviços, sejam eles serviços de Educação ou Saúde, ou sejam os bens vias de comunicação ou meios de transporte". Não é ambíguo. Não é metafórico. É literal. O Chega defende que o Estado se retire completamente da provisão de serviços. Saúde? Privada. Educação? Privada. Transportes? Privados. Tudo.

Página 49, sobre saúde especificamente: "o Estado não deverá, idealmente, interferir como prestador de bens e serviços no Mercado da Saúde mas ser apenas, um árbitro imparcial e competente".

Traduzindo do economês para português: acabar com o SNS. Não reformá-lo. Não melhorá-lo. Acabar com ele. Transformá-lo num sistema de seguros privados onde quem tem dinheiro tem saúde e quem não tem azar. Exactamente o modelo americano que está a fazer a esperança de vida nos EUA decrescer pela primeira vez em décadas entre países desenvolvidos. Exactamente o que beneficiaria os grandes grupos de saúde privada. Exactamente o que poderia interessar a quem tem investimentos nessas áreas.

E a flat tax? Ah, a flat tax. A Iniciativa Liberal teve o bom senso de recuar nesta barbaridade fiscal depois de economistas a trucidarem publicamente. O Chega não. Mantém no programa a taxa única de IRS de 15%, com ambição declarada de chegar a 0%. Para quem ganha 800 euros por mês, isto é desastroso — pagaria mais impostos que no sistema actual. Para quem ganha 10.000, 50.000, 100.000 euros por mês, é o paraíso fiscal. Uma redistribuição massiva de riqueza de baixo para cima, dos que trabalham para os que especulam, dos assalariados para os rentistas.

E o IMI? Também a 0%, segundo Ventura. Beneficiando essencialmente quem? Os grandes proprietários. As famílias com património imobiliário massivo. As fortunas fundiárias. Não as pessoas que compraram penosamente um T1 nos subúrbios. Essas pagariam através do IVA — que o Chega quer aumentar, concentrando a tributação no consumo, o imposto mais regressivo que existe, aquele que pesa mais sobre quem ganha menos.

Há um padrão aqui. Um padrão claro, documentado, verificável. As políticas do Chega beneficiam sistematicamente os ricos. Os muito ricos. Os obscenamente ricos. Privatização de serviços públicos? Óptimo para quem pode comprar os activos privatizados. Flat tax? Maravilhoso para quem ganha rendimentos de capital. Fim do IMI? Perfeito para grandes proprietários. Parcerias público-privadas na saúde? Excelente para grupos privados do sector. Desregulamentação do mercado imobiliário? Fantástico para especuladores.

E para o "povo" que Ventura diz representar? Para os trabalhadores precários, os jovens sem casa, os reformados com pensões miseráveis, as famílias que dependem do SNS porque não têm dinheiro para seguros privados? Para esses, o programa do Chega oferece o quê exactamente? Retórica. Indignação. Inimigos convenientes — imigrantes, ciganos, "esquerdalha". Mas soluções concretas que melhorem as suas vidas? Nenhumas. Pelo contrário: políticas que as piorariam drasticamente.

Isto não é acidente. Não é incompetência. Não é Ventura a ser ingénuo e a deixar-se capturar por interesses que não compreende. É design. É o modelo de negócio. Mobilizar os ressentimentos legítimos das classes trabalhadoras — que existem, que são reais, que merecem atenção — e canalizá-los não para políticas redistributivas que melhorariam as suas vidas, mas para uma agenda que serve os interesses da elite financeira e aristocrática que financia o movimento. É o velho truque. Tão velho quanto a própria política. Tão eficaz quanto sempre foi. Dar aos pobres um inimigo mais pobre ainda (o imigrante, o "subsidiodependente") enquanto se rouba o que resta da sua protecção social para entregar aos ricos. É como funcionou o fascismo. Como funciona o populismo autoritário em todo o lado. Prometem ordem, nação, tradição. Entregam desregulamentação, privatização, transferência de riqueza para cima.

E funciona porque a narrativa é convincente. Porque Ventura é bom no que faz — mobilizar emoção, criar identificação, performar autenticidade. Porque os media amplificam sem contexto. Porque os adversários políticos respondem com indignação moral em vez de exposição factual. Porque a maioria das pessoas não vai ler os programas eleitorais, os extractos bancários, as investigações jornalísticas. Vão apenas ouvir o discurso, ver as imagens, sentir a raiva.

E há tanto por que estar com raiva. Legitimamente. O sistema político português falhou muita gente. A precariedade é real. Os salários são vergonhosos. A habitação é inacessível. Os serviços públicos estão degradados. As instituições perderam credibilidade. Tudo isto é verdade. Tudo isto precisa de resposta. Mas a resposta do Chega não é resposta — é exploração. É pegar nessa raiva legítima e usá-la para implementar exactamente as políticas que piorarão os problemas que a geraram.

Porque quem pensa que privatizar o SNS vai melhorar o acesso à saúde dos pobres é ingénuo ou desonesto. Quem acredita que uma flat tax vai beneficiar trabalhadores precários não percebe matemática básica. Quem imagina que acabar com a regulação do mercado de trabalho vai aumentar salários desconhece história económica elementar. Estas não são soluções. São transferências de riqueza e poder para quem já tem demasiado de ambos.

E os financiadores do Chega sabem disto. Obviamente. Não são estúpidos. São, na verdade, bastante inteligentes. Investiram em Ventura porque viram uma oportunidade. Viram um talento performativo raro combinado com ausência de escrúpulos ideológicos. Viram alguém que podia mobilizar massas enquanto servia interesses de classe. Viram o veículo perfeito para uma agenda que nunca ganharia eleições se fosse apresentada honestamente.

Porque se Manuel Champalimaud se candidatasse às eleições com o programa "vou privatizar os CTT, o SNS, a educação pública, e baixar os impostos aos ricos", seria trucidado nas urnas. Mas Ventura pode propor exactamente isso — desde que embrulhe em bandeiras, hinos, retórica nacionalista, e acuse os outros de serem as verdadeiras elites. É marketing genial. É terrível. Mas é genial.

E nós, espectadores mais ou menos cúmplices, assistimos. Alguns indignados, outros entusiasmados, a maioria apenas cansada. Partilhamos os escândalos, comentamos as polémicas, esquecemos os detalhes. Porque os detalhes são aborrecidos. Extractos bancários são aborrecidos. Programas eleitorais são aborrecidos. Análise de políticas fiscais é aborrecida. Ler este artigo é aborrecido. Muito mais fácil ver Ventura a gritar, a apontar dedos, a prometer limpeza e ordem.

E enquanto isso, os Champalimauds, os Bravos, os Mendias, os condes e marqueses, vão transferindo os seus cinco e dez mil euros. Jantam em Monsanto. Almoçam no Oitavos. Financiam o homem do povo. E sorriem, imagino, com aquele sorriso de quem sabe que fez um bom investimento. Porque afinal, por uns milhares de euros — que para eles são trocos, loose change, o que gastam num fim-de-semana em Saint-Tropez — estão a comprar políticas que lhes valerão milhões.

É um esquema elegante. Eficiente. Rentável. E completamente legal. Porque em 2017, PS, PSD, PCP, BE e PEV votaram para abolir os limites de donativos a partidos. Abriram as portas. Deixaram o dinheiro fluir livremente. E agora surpreendem-se — ou fingem surpreender-se — que haja quem aproveite.

O Chega esconde nomes da lista de financiadores entregue à Entidade das Contas. Omite doações. "Esquece-se" de reportar transferências. E não há consequências. Porque não há fiscalização real. Porque a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) tem três pessoas para fiscalizar todos os partidos. Porque o sistema foi desenhado para não funcionar. Porque a opacidade convém a todos. E assim continuamos. Ventura grita contra as elites. As elites financiam Ventura. O povo aplaude. Os ricos enriquecem. O SNS definha. Os salários estagnam. As casas ficam inacessíveis. E daqui a uns anos, quando as políticas do Chega forem implementadas — se forem —, quando os hospitais públicos forem entregues a privados, quando a flat tax transferir mais milhares de milhões para o topo, quando a última rede de protecção social for desmantelada, talvez olhemos para trás e perguntemo-nos como é que deixámos isto acontecer.

Mas provavelmente não. Provavelmente estaremos demasiado ocupados com a próxima indignação, o próximo escândalo, o próximo inimigo conveniente que Ventura nos apontar. Porque o espetáculo não pára. Nunca pára. E nós somos simultaneamente audiência e combustível, vítimas e cúmplices.

Bem-vindos ao populismo do século XXI. Onde os paladinos do povo têm contas nas Ilhas Caimão e os defensores dos trabalhadores jantam com marqueses. Onde a retórica é de esquerda mas as políticas são de direita radical. Onde tudo é performance, nada é real, e os únicos que ganham são precisamente aqueles contra quem o populista diz lutar.

É deprimente. É previsível. É evitável. Mas não será evitado. Porque evitá-lo exigiria ler os programas, seguir o dinheiro, conectar os pontos. E isso dá trabalho. Muito mais trabalho que partilhar mais um vídeo de Ventura e sentirmo-nos indignados ou validados.

Então os Champalimauds continuarão a transferir. Ventura continuará a gritar. O povo continuará a acreditar. E os condes continuarão a sorrir, porque afinal descobriram a formula perfeita: comprar uma revolução popular que serve os interesses da aristocracia.

É quase poético. Se não fosse trágico.

https://ponteeuropa.blogspot.com/2026/02/chega-e-o-seu-financiamento-um-artigo.html
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Por Carlos Esperança - fevereiro 19, 2026

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Helder Moura - (570) A arte de virar o bico ao prego

 * hélder moura

Sabíamos que essa história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa, Mark Carney, 1º Ministro do Canadá.

 Se não estão à mesa, estão no menu, Mark Carney.

Isto não é soberania. É a performance da soberania enquanto se aceita a subordinação.

  

No dia 20 de janeiro de 2026, Mark Carney, ex-banqueiro central e atual primeiro-ministro do Canadá, proferiu um notável discurso (vídeotranscrição) no Fórum Económico Mundial, em Davos.

Tratou-se aparentemente de um ataque à “ordem internacional baseada em regras”, o conceito que as nações ocidentais com impérios impuseram, promoveram e utilizaram para poderem justificar os seus inúmeros desvios e abusos ao direito internacional. Eis, o que entre outros, Carney disse:

 

“Esta noite falarei de uma rutura na ordem mundial, do fim de uma ficção agradável e do início de uma dura realidade onde a geopolítica – onde a grande potência dominante – não está sujeita a limites nem restrições. […]”

“[…] Parece que todos os dias somos recordados de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências. De que a ordem baseada em regras está a desaparecer. De que os fortes fazem o que podem e os fracos devem sofrer o que devem.”

“[…] Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob aquilo a que chamávamos uma ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Pudemos seguir políticas externas baseadas nesses valores sob a sua proteção.

Sabíamos que essa história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam quando lhes conviesse. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variável consoante a identidade do arguido ou da vítima.

Esta ficção era útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de litígios.

Assim, pendurámos a placa na janela. Participámos nos rituais. E, em grande parte, evitámos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade.

Este acordo já não funciona.

Deixem-me ser direto: estamos no meio de uma rutura, não de uma transição.

Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas áreas das finanças, da saúde, da energia e da geopolítica expuseram os riscos da integração global extrema.

Mais recentemente, as grandes potências começaram a utilizar a integração económica como arma. As tarifas como forma de pressão. Infraestrutura financeira como coerção. Cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a explorar.

Não se pode “viver na mentira” do benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da sua subordinação.”

“[…] E há outra verdade: se as grandes potências abandonarem até a pretensão de regras e valores em prol da busca irrestrita do seu poder e interesses, os ganhos do “transacionalismo” tornar-se-ão mais difíceis de replicar. As potências hegemónicas não podem monetizar continuamente os seus relacionamentos.

Os aliados diversificar-se-ão para se protegerem contra a incerteza. Contratarão seguros. Aumentarão as opções. Isto reconstrói a soberania – soberania que antes se baseava em regras, mas que estará cada vez mais ancorada na capacidade de resistir à pressão.

Como disse, esta gestão clássica do risco tem um preço, mas este custo da autonomia estratégica, da soberania, também pode ser partilhado. Os investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada um construir a sua própria fortaleza. Os padrões partilhados reduzem a fragmentação. As complementaridades são um resultado positivo.

A questão para as potências médias, como o Canadá, não é se se devem adaptar a esta nova realidade. Devemos. A questão é se nos adaptamos simplesmente construindo muros mais altos – ou se podemos fazer algo mais ambicioso.”

 

Mas, atenção: Carney não defende um regresso completo ao Estado de Direito. Não pede que o direito internacional seja aplicado de forma igual a todas as nações. Defende uma colaboração entre as "potências médias" para resistir à hegemonia e poderem continuar a explorar o resto do mundo:

 

“As potências médias devem agir em conjunto porque, se não estão à mesa, estão no menu.

As grandes potências podem dar-se ao luxo de agir sozinhas. Têm a dimensão do mercado, a capacidade militar, a influência para ditar as regras. As potências médias não. Mas quando negociamos apenas bilateralmente com uma potência hegemónica, negociamos a partir da fraqueza. Aceitamos o que nos é oferecido. Competimos entre nós para sermos os mais complacentes.

Isto não é soberania. É a performance da soberania enquanto se aceita a subordinação.

Num mundo de rivalidade entre grandes potências, os países intermédios têm uma escolha: competir entre si pela influência ou unir-se para criar um terceiro caminho com impacto.”

“[…] Não devemos permitir que a ascensão do poder coercivo nos impeça de ver que o poder da legitimidade, da integridade e das regras se manterá forte — se optarmos por exercê-lo em conjunto.”

 

Carney está a implorar aos vassalos da potência hegemónica que resistam coletivamente ao seu poder e, ao mesmo tempo, apelando às "médias potências" para que se juntem ao Canadá no novo clube.

Descartar a “ordem baseada em regras”, expô-la como a mentira que sempre foi, é um bom passo na direção certa. É uma mudança fundamental na forma de ver o mundo.

Mas também há que ter cuidado para não se cair na armadilha do significado que querem atribuir à ovação de pé que Carney escutou em Davos.

Recorde-se que os “liberais” como Carney, depois de patrocinarem o genocídio em Gaza, de saudarem o rapto de Nicolás Maduro, de celebrarem o bombardeamento do Irão, de apoiarem os ataques mortais contra Beirute e Iraque e aplaudirem o assassinato do governo do Iémen, de repente, quando Trump tenta tomar a Gronelândia, pregam a adesão ao direito internacional.

Recorde-se que estes mesmos líderes da França, Alemanha, Itália, Polónia, Reino Unido e outros, que numa declaração conjunta, afirmaram que o futuro da Gronelândia só poderia ser decidido “respeitando os princípios da Carta da ONU, incluindo a soberania, a integridade territorial e a inviolabilidade das fronteiras”, que pouco mais de duas semanas antes, tinham apoiado o ataque dos EUA à Venezuela e o rapto de Maduro.

A "ordem internacional baseada em regras" foi útil para alguns até deixar de o ser. Agora que foi declarada morta, fica a dúvida sobre que outro conceito fictício será inventado.

E quando os tidos como principais órgãos de comunicação social relatam que o discurso, escrito pelo próprio Carney, foi recebido com aplausos de pé, talvez queiram com isso dizer que os aplausos de pé possam ser tomados como prova de legitimidade, quando são meramente sinais de aprovação da elite.

É que talvez seja desta forma eficiente, educada e sob aplausos estrondosos que o modelo avança.  Provavelmente já nem está na fase de modelo ….

 https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Pedro Tadeu - TEMOS DE SER VASSALOS OU ESCRAVOS DE TRAMP?

🤔
Por Pedro Tadeu - Jornalista 

"Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra coisa.” Esta frase de protesto contra o presidente norte-americano, Donald Trump, dita na segunda-feira em Davos no Forum Económico Mundial, pelo primeiro-ministro da Bélgica, Bart de Wever, desvenda, por um lado, como as elites europeias sempre aceitaram pacificamente uma subserviência com características medievais face aos Estados Unidos da América e, por outro lado, como não desejam o fim desta forma de feudalismo e aceitam ter um suserano desde que ele, magnânimo, lhes dê algumas benesses.

Durante décadas a União Europeia e o Reino Unido viveram numa condição de subserviência estratégica, disfarçada de aliança e parceria. A narrativa que nos contaram após o fim da União Soviética era a de que passava a vigorar uma “ordem internacional baseada em regras”. A União Europeia até integrou a definição no artigo 21.º do Tratado da UE, mas ligou-a ao cumprimento do direito internacional e da Carta das Nações Unidas. Contudo, essa ordem continha, desde o seu início, a semente da hegemonia norte-americana, que sempre se esteve nas tintas para a ONU.~

Tivemos assim a intervenção da NATO na Jugoslávia (1999). Esta ação não foi autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU, a Carta da ONU. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos a invasão do Iraque pela coligação liderada pelos EUA e pelo Reino Unido em 2003, também sem aprovação do Conselho de Segurança, baseada em justificações falsas, como a alegação de armas de destruição massiva. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos intervenções com “mudança de regime” e uso abusivo de mandados da ONU, como foi o caso da Líbia, em 2011. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Temos o caso do embargo a Cuba. Desde 1962, os EUA mantêm um embargo e, ano após ano, a ampla maioria dos países vota na Assembleia Geral da ONU a condenação dessa política. Os europeus, vassalos, aceitam a vontade norte-americana.

Temos casos de duplo-padrão na adesão às instituições jurídicas internacionais. Por exemplo, a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar (UNCLOS): os EUA não ratificaram o tratado, mas invocam as suas disposições em patrulhas de “liberdade de navegação” no Mar do Sul da China.

O mesmo se passa no caso do Tribunal Penal Internacional (TPI): os EUA recusaram aderir ao Estatuto de Roma, mas apoiam o recurso ao TPI contra lideranças de países adversários.

E há o duplo-critério. Um exemplo recorrente é a relação dos EUA com Israel, que viola imensas resoluções do Conselho de Segurança e da Assembleia-Geral, mas tem uma garantia de excecionalidade que até lhe permitiu fazer um verdadeiro genocídio em Gaza.

Os europeus são cúmplices e participantes de tudo isto.

Esta subserviência política, esta aceitação de um sistema de “regras” definidas por Washington, foi consentida e alimentada durante décadas pelos europeus, muito antes de Trump decidir que quer ficar com a Gronelândia, de raptar o presidente da Venezuela, de fazer uma “ONU privada” com o seu Conselho da Paz e de querer dominar todo o continente americano. É uma “ordem internacional baseadas em regras” variáveis, como acontece desde o fim da Guerra Fria, mas agora com vítimas que se achavam donas do mundo e se vêem agora no papel de vassalos ou, pior, de escravos.~

Por mim, nem vassalagem, nem escravidão.


23 Jan 2026

 https://www.dn.pt/opiniao/temos-de-ser-vassalos-ou-escravos-de-trump

sábado, 6 de dezembro de 2025

Jaime Nogueira Pinto - Outra História

Jaime Nogueira Pinto

Colunista do Observador

A História oficial, sobretudo quando não prima pela verdade, tende a ser efémera. E pode sempre rever-se e refazer-se.

06 dez. 2025,  

Não há quem não saiba que a História é feita pelos vencedores. Aqui e em todo o lado. Mas sabe-se também que a História oficial, sobretudo quando não prima pela verdade, tende a ser efémera. E pode sempre rever-se e refazer-se.

Sobre o 25 de Novembro, cuja celebração parece causar grande consternação à esquerda e na Esquerda e motivar jogos florais, já escrevi o que tinha a escrever – mais recentemente, num livro organizado por Jerónimo Fernandes, que reúne um tenebroso conjunto de 32 autores de “extrema-direita”, digamos que uma Hidra de 32 cabeças onde, entre “passistas” e outros perigosos fascistas e extremistas, até cabeças (!) do Chega serpenteiam.

Apesar de terem sido os Comandos de Jaime Neves – entre os quais os Convocados, ou seja, os que tinham servido no Ultramar e voltaram às fileiras para parar a Esquerda radical – a fazer o 25 de Novembro, o que resultou do dia foram 50 anos de Centrão, isto é, de poder repartido entre o PS (mais à esquerda e por mais tempo) e o PSD (menos à esquerda e por menos tempo). Ficaram também como eternos cronistas da República historiadores e intelectuais de esquerda, nas suas várias sensibilidades e modalidades, assistindo-se ainda à súbita conversão à democracia eleitoral e à respeitabilidade democrática do Partido Comunista Português.

Sem o 25 de Novembro, sem os Comandos, sem os Convocados e a Força Aérea que, no terreno, evitaram a vitória da Esquerda radical, não teríamos em Portugal democracia liberal. Teríamos um regime comunista com alguns esquerdistas festivos no poder, bons rapazes, simpatizantes de Trotsky e dos maoistas, como os que torturaram presos políticos no RALIS e na Polícia Militar e se dedicaram a fuzilamentos simulados em vários aquartelamentos. Tudo boa gente. De qualquer forma, com Ialta em vigor, com o “povo do Norte” em alvoroço e uma coligação negativa, da extrema-direita o Grupo dos Nove e ao PS, a festa nunca iria durar muito. Mas os estragos e o prejuízo seriam consideráveis.

Não digo que o Centrão e militares como Vasco Lourenço ou outros do Grupo dos Nove alinhassem nas veleidades, barbaridades e festividades da esquerda radical, mas se não fossem, no terreno, os Comandos de Neves, os oficiais da Força Aérea e os paraquedistas do brigadeiro Almendra chegados de Angola, não sei bem quem tiraria do poder os revolucionários. Costa Gomes e os “moderados”? Duvido.

O Dr. Soares, quando percebeu que o PREC e a Extrema-Esquerda não queriam fazer a festa só contra os “fascistas” e os “reaccionários”, também teve um papel na resistência. A política é assim: o Inimigo nem sempre faz o Amigo, mas faz muitas vezes o aliado útil e objectivo.

fEsquerdas e direitas radicais

Estou à vontade quanto ao Estado Novo, onde não tive cargos ou responsabilidades. Nem eu, nem os meus companheiros do Jovem Portugal e depois da Política, nem tão pouco os nossos amigos do Grupo de Coimbra fomos alguma vez salazaristas. O nosso empenho era a defesa do então Ultramar, talvez porque gostávamos de ser cidadãos de uma nação grande, independente, plurirracial, com uma identidade forte. Uma nação que, na Europa e em África, crescia economicamente, apesar da guerra. Havia polícia política e censura prévia, mas nós não gostávamos nem precisávamos delas. Porém, havia uma guerra, em África, e não tinham as democracias na 2ª Guerra Mundial censura? Não tinham também neutralizado os suspeitos de colaboração com o inimigo, e sem sequer lhes perguntarem de que lado estavam (fizeram-no os americanos com os nipo-americanos e os ingleses com os militantes da British Union of Fascists de Oswald Mosley)?

Depois, que autoridade moral têm os militantes da esquerda radical, que admiravam Mao Tsé-Tung ou até Pol Pot e os desviacionistas trotskistas, para criticar, os que, aos vinte anos, queríamos transformar o império português numa grande nação euro-africana, com igualdade, e integração racial, desenvolvida economicamente? Talvez tivéssemos então, nas referências históricas, os nossos excessos, mas não éramos nós que fazíamos das faculdades um Estado autoritário, censório e policiado, onde era obrigatório ser “alinhado”.

E convém também lembrar que o Estado Novo não foi só a PIDE, a Censura e a mortalidade infantil. Foi também um tempo em que, pela primeira vez em Portugal houve mais gente a saber ler e escrever que os que não sabiam; um tempo em que se executou o maior rol de obras públicas depois do fontismo e se fez a segunda revolução industrial. Foi ainda nos últimos anos do regime que Portugal se aproximou em números de capitação e renda dos países economicamente mais desenvolvidos da Europa. Pela primeira e última vez.

Ao longo de quase 50 anos de poder, entre a Ditadura Militar (1926-1933) e o Estado Novo (1933- 1974), houve abusos, saneamentos, prisões, gente a morrer nas cadeias? Houve casos de corrupção e de favoritismo? Com certeza que houve. Mas tinham acontecido piores abusos contra os católicos, os monárquicos e os sindicalistas na Primeira República, e repetiram-se contra a direita patriota e ultramarinista depois de Abril, no 28 de Setembro e no 11 de Março. Depois do 25 de Abril, quando andaram a investigar a corrupção na “longa noite fascista”, ainda conseguiram descortinar uns gastos fora da caixa de um ex-presidente da RTP, mas foi um Nuremberg bastante modesto, convenhamos.

Há muitos anos, quando discutia com o Dr. Cunhal estes desmandos numa entrevista na Rádio Renascença, e lhe disse que eles, comunistas, tinham feito como o Estado Novo e a PIDE quando puderam, perguntou-me se eu queria comparar umas centenas de fascistas e reaccionários uns meses na cadeia com os muitos anos dos comunistas nas prisões do fascismo. Respondi-lhe, com todo o respeito que me merecia um velho e coerente lutador como ele, que a única razão pela qual só tinham sido meses fora o 25 de Novembro. Senão, teriam sido muitos anos e muitos mortos, torturados ou liquidados, a avaliar pelo modus operandi dos comunistas quanto a reais ou supostos inimigos em todos os países onde o comunismo se tinha instalado. Com uma agravante: enquanto os regimes autoritários e até as ditaduras da direita permitiam igrejas, comunidades religiosas e propriedade privada, o comunismo perseguia e proibia as religiões e a propriedade privada, acabando com a sociedade civil.

O 25 de Novembro e a Liberdade

E se não fosse o 25 de Novembro, também não haveria liberdade em Portugal. Não era o slogan dos “abrilinos” mais ortodoxos “não há liberdade para os inimigos da liberdade” (sabendo nós – e eles – perfeitamente quem definiria os “inimigos da liberdade”)?

Na história do 25 de Novembro há um ponto importante e interessante que discuti há dias com a Irene Flunser Pimentel na Radio Comercial: a envolvente internacional. É uma envolvente que explica a neutralidade do PCP, que não pôs o seu peso militar e civil na balança no 25 de Novembro. A URSS não queria quebrar as regras de Ialta de partilha da Europa com os Estados Unidos (confirmados no Verão de 1975 em Helsínquia) e o Dr. Cunhal e a cúpula do PCP eram disciplinados.

Também estou convencido que se houvesse uma guerra civil, embora pudesse hipoteticamente constituir-se uma Comuna de Lisboa (talvez sem o fuzilamento de bispos e padres da Comuna de Paris), os comunistas e a esquerda radical acabavam vencidos. E em risco de serem outra vez proibidos.

Rectificações históricas

A acabar, duas explicações e rectificações: a história da bandeira a meia-haste, na morte de Hitler, ouvi-a contar e explicar por Franco Nogueira, um “patriota da Rotunda” convertido ao Estado Novo pelo lado do patriotismo ultramarino. Em 3 de Maio de 1945, no terceiro dia depois do suicídio de Hitler em Berlim, a bandeira nacional apareceu a meia-haste nos edifícios públicos: Portugal era neutral no conflito, por isso, e uma vez que morrera um chefe de Estado, o Secretário-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Luís Teixeira de Sampaio, dera instruções nesse sentido, de acordo com o Protocolo. Depois, perante algum barulho dos Aliados e das oposições, Teixeira de Sampaio quis demitir-se, arcando com as responsabilidades de um erro político, na consequência da observação cega do Protocolo. A meia-haste não tinha, assim, nada de ideológico – Salazar fora crítico do nazismo, bem antes da sua derrota. Teixeira de Sampaio estava contrito perante os clamores que causara e disposto a ser o bode expiatório. Mas Salazar, ministro dos Estrangeiros desde 1936, conteve-lhe o gesto, e mandou-lhe um dos seus habituais bilhetinhos – “De hora a hora, Deus melhora”…

Quanto à morte do general Humberto Delgado, assassinado em Espanha pelo agente da PIDE Casimiro Monteiro, no que apareceu como uma dupla armadilha – o general Delgado pensava que se ia encontrar com oposicionistas, os agentes da PIDE pensavam que Delgado se vinha entregar ou estavam ali para o deter – há várias teses. Mas não creio que Salazar tivesse alguma coisa que ver com o crime. Alberto Franco Nogueira, ministro dos Estrangeiros ao tempo, contava-me, anos depois, que nunca tinha visto ninguém tão aflito como o director da PIDE, major Silva Pais, quando lhe pediu conselho sobre como havia de comunicar a Salazar o assassinato. Salazar não mandava assassinar opositores.

De resto, o general Delgado, como demonstram os livros publicados sobre os emigrados em Argel, era um factor de divisão entre os oposicionistas residentes – republicanos do Reviralho, soaristas e comunistas; era, acima de tudo, um elemento de divisão das várias famílias da oposição. Só depois de morto se tornou um símbolo unitário.

A propósito, na nota biográfica de Humberto Delgado, no suplemento ao Dicionário de História de Portugal, coordenado por António Barreto e Maria Filomena Mónica, escreve David Lander Raby, sobre os últimos tempos de Humberto Delgado:

“De volta do Brasil, acabou por aceitar a colaboração que permitiu a formação em Dezembro de 1962 da Frente Patriótica de Libertação Portuguesa, e finalmente chegou a Argel (onde a Frente tinha o apoio do Presidente Ben Bella) em Junho de 1964. Mas em menos de dois meses estava praticamente de relações cortadas com a maioria dos membros da Junta e acabou por separar-se completamente da FPLN em Outubro, criando a sua própria “Frente Portuguesa de Libertação Nacional”, que nunca chegou a ter uma existência real. O rompimento com a FPLN foi o princípio do fim para HD; não era possível reconciliar a sua vontade de acção armada a curto prazo e a perspectiva cautelosa da maioria da oposição. Cada vez mais abandonado, HD caiu na armadilha montada pela PIDE, entrando em Espanha com a sua secretária brasileira, Arajaryr de Campos, acreditando que ia encontrar-se na fronteira com oficiais do exército português dispostos a levantarem-se contra o regime.”

A partir daqui, surgem narrativas fantasiosas ou, pelo menos, pouco verosímeis, que avançam com uma cumplicidade ou mesmo com um complot entre o “bando de Argel” e a PIDE para liquidar o “general sem medo”.

Do julgamento do caso em Portugal, e mesmo das narrativas hostis, infere-se sempre o desconhecimento de Salazar da “operação Outono”. A versão que sempre ouvi de quem sabia alguma coisa por ter conversado com elementos envolvidos no crime, foi que Delgado, convencido que se ia encontrar com militares oposicionistas, quis reagir, quando se deu conta que caíra na armadilha da PIDE. Ia armado e puxou da pistola ou do revólver, mas Casimiro Monteiro foi mais rápido e matou-o. Também no filme realizado por Bruno de Almeida e Frederico Delgado Rosa, Operação Outono, há uma implícita absolvição de Salazar quando, numa discussão de responsáveis da PIDE, surge a pergunta: “E como vamos dizer ao Doutor Salazar?” – “Dizemos-lhe que foram os comunistas!”

Não foram, embora talvez não tivessem ficado particularmente consternados. Mas isso é outra história.

https://observador.pt/opiniao/outra-historia/

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

João Costa - Três Joanas Gorjão Henriques para cada Ventura



* João Costa

Professor universitário, ex-ministro da Educação

Não precisamos de nenhum Salazar, mas precisamos de muitos jornalistas como a Joana Gorjão Henriques. Que sai da espuma dos dias para investigar e mostrar o que não vemos nas bolhas do privilégio em que estamos. Que sabe onde estão os imigrantes todos os dias. São os que cuidam de nós
Tive a oportunidade de ver esta semana o documentário Racismo. Uma descolonização em cursode Joana Gorjão Henriques e Mariana Godet. Recomendo vivamente a todos os que procuram perceber o fenómeno do racismo em Portugal. Aprendi, espantei-me sem me surpreender e comovi-me. Sobretudo, vi novas portas abertas para percebermos o racismo num país em que ele sempre existiu, mas que agora o encontra legitimado no discurso político.

Este documentário mostra a realidade dos últimos anos do colonialismo português, como era a relação entre brancos e negros, tendo eu encontrado o seu máximo valor nas entrevistas feitas a quem cresceu em África e percebeu, mais tarde, a banalização da discriminação que não via em criança.

Os negros era menos pessoas e ninguém achava estranho. Os negros viviam em condições sub-humanas e isso não era questionado. Na casa dos patrões, mas sem direito a cama. A cuidar das crianças dos brancos, mas sem poderem ter as suas. Eram vistos como seres menores, que serviam para servir. As mulheres podiam ser usadas, apenas porque eram negras, podendo ser violadas de formas que não se admitiam possíveis nem legítimas fossem elas brancas.

Impressiona ouvir o relato de uma das entrevistadas, que tem hoje a consciência de que, ao vir a Portugal, advogava valores certos, mas ao regressar a África assumia de novo a normalidade do mal. Porque lá era simplesmente assim.

Este é um documentário sobre a banalização do mal. Não há culpas nos que cresceram assim e só muito mais tarde perceberam que esse “assim” não tinha razão de ser e era iníquo. Há, porém, muitas culpas em quem fomentou e alimentou este regime para lá de todos os tempos em que o colonialismo já tinha sido identificado como inaceitável por todo o mundo. As colónias alimentavam os vícios de uma metrópole em que a ditadura se prolongava, alimentada pela exploração de partes do mundo, com o dinheiro de formas não oficiais de escravatura e com esquemas de corrupção escondidos para sustentar o status quo político e social. O mal banaliza-se quando nem sequer é questionado, como este documentário tão bem mostra. O outro estava lá para servir e os seus direitos não existiam. Os poucos direitos que conseguiam ter eram vistos como um favor daqueles que eram servidos. Não questionar a igualdade de direitos, porque se considera que o outro é diferente, é viver na bolha da indiferença.

Joana Gorjão Henriques e Mariana Godet instam-nos a refletir sobre este passado para percebermos o presente assustador para que nos precipitam. São demasiados assuntos não resolvidos e feridas que não sararam. A fuga dos brancos, deixando para trás o que era seu, foi associada, explícita ou implicitamente, a uma apropriação dos seus direitos por aqueles que se habituaram a ver como não os tendo. Muitos dos que chegaram e foram alvo de ódio canalizaram a sua frustração para aqueles que ficaram nos seus lugares e que não eram vistos como iguais. O ressentimento veio nas malas e nunca foi desempacotado. Há uma aceitação da superioridade de uns sobre os outros, que nunca foi superada, ainda que tenha ficado em modo mais ou menos latente durante algumas décadas.

Cresci a ver racismo por todo o lado. Sobretudo entre os utilizadores frequentes da adversativa. “Não sou racista, mas…”. O que não era racista, mas não gostava que a filha namorasse com um negro. O que não era racista, mas achava que eles não “falavam bem” O que não era racista, mas preferia não morar no mesmo prédio que os outros. Estes “mas” não foram suficientemente observados nem escrutinados e vivemos demasiado tempo na ilusão de que não havia um problema estrutural a tratar no nosso país. Joana Gorjão Henriques e Mariana Godet desmontam bem as narrativas que ainda invadem a forma como aprendemos história de Portugal. Onde está o colonialismo fofinho português nos relatos da escravatura recente do trabalho não pago, nas fotos que se tiram com o direito a tocar no peito das mulheres negras ou no recrutamento de trabalhadores forçados a deixar as suas famílias? Entender que tudo não passou de uma narrativa montada, e ainda alimentada, é fundamental para percebermos o recrudescimento da violência racial. Convencemo-nos que éramos bons, por isso não podemos acreditar que ainda hoje podemos viver a herança dos sentimentos maus fomentados.

Hoje interessa à extrema-direita alimentar o ressentimento e o ódio. Encontrar novos e velhos culpados por tudo o que nos corre mal. Oportunistas e cobardes, atacam os que já são mais vulneráveis. André Ventura quer expulsar os imigrantes, mas fica atrapalhado quando se lhe pergunta por que motivo não fala sobre os milionários extrativistas. Não fala porque não lhe convém, porque sabe que é mais fácil construir em cima de ódios reprimidos. O Chega pede três Salazares para “pôr ordem” em Portugal. Mente sobre o passado para iludir sobre o presente e reza para que ninguém veja estes documentários, que mostram os discursos sinistros e enganadores do próprio Salazar, a negar as evidências, corrupto, a mentir sobre o que se passava em África.

Não precisamos de nenhum Salazar, mas precisamos de muitos jornalistas como a Joana Gorjão Henriques. Que sai da espuma dos dias para investigar e mostrar o que não vemos nas bolhas do privilégio em que estamos. Que sabe onde estão os imigrantes todos os dias. São os que cuidam de nós. Os que já se foram embora quando chegamos aos nossos locais de trabalho e fizeram tudo o que nenhum português quer fazer. Andam nos transportes em sentido contrário e não têm direito de ver os seus filhos acordar, porque ainda não chegaram a casa. Para cada entrevista a André Ventura, façam duas entrevistas às vítimas do seu racismo. Hoje como ontem, começa-se a encolher os ombros a cada disparate dito pelos amigos do Chega, como se fosse apenas mais um. O problema é que, de cada vez que encolhemos os ombros, voltamos a banalizar este ódio pela cor da pele do outro.

Para cada Ventura, três Joanas, porque três Venturas não valem um terço de Joana. Para pôr ordem neste mal, para nos lembrar que é pela informação e pelo conhecimento que vamos. Levem documentários como este às escolas e ajudem os mais jovens a perceber a diferença entre a profundidade da investigação e a boçalidade irresponsável dos tik-tok da extrema-direita.
 2025 12 02

https://expresso.pt/opiniao/2025-12-02-tres-joanas-gorjao-henriques-para-cada-ventura-60cb83a5

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Aurélien -- Você não consegue chegar lá partindo daqui.

 

* Aurélien

Todas aquelas coisas chatas depois da derrota na Ucrânia.


Os especialistas têm nos proporcionado muita diversão inocente ultimamente, e gerado muita controvérsia interessante, ao opinarem sobre temas como possíveis planos de paz para a Ucrânia, possíveis golpes de Estado em Kiev, supostas tentativas ocidentais de substituir Zelensky, o impacto potencial de investigações de corrupção, hipotéticos futuros destacamentos de forças ocidentais na Ucrânia, e assim por diante. Tudo isso é (em sua maioria) diversão inofensiva, e mantém os especialistas, que precisam de audiência e dinheiro, mas não possuem qualquer conhecimento político ou militar, ocupados de forma inócua. Contudo, grande parte disso permanece no nível de especulação desenfreada.

Por outro lado, há vários anos venho tentando incentivar as pessoas a analisarem questões mais fundamentais e de longo prazo sobre as adaptações que o Ocidente terá de fazer em função de uma vitória russa e da preeminência militar da Rússia na Europa. Hoje, quero abordar uma questão que, até onde sei, sequer foi levantada, muito menos devidamente considerada. Se a relação entre a Rússia e o Ocidente após a Ucrânia for tensa e conflituosa, e se a possibilidade de um conflito aberto não for descartada, como podemos sequer compreender o que isso poderá significar e como, se é que é possível, podemos nos preparar para tal?

É claro que alguns políticos e especialistas já acreditam ter a resposta. Assim, fantasias de gastar 5% do PIB em defesa, planos mirabolantes para retomar o serviço militar obrigatório (ou algo parecido), tentar reconstruir a capacidade de produção militar, comprar mais deste ou daquele tipo de equipamento… certamente a resposta está aí em algum lugar, não é? Mas não está. Como já enfatizei repetidamente, nada disso faz sentido, e a maior parte é um desperdício de dinheiro, até que se reflita bastante e se tenha uma ideia clara do que se pretende alcançar. Caso contrário, é como ir a uma loja de jardinagem e voltar com uma coleção aleatória de ferramentas e plantas sem a menor ideia do que fazer com elas. Mas, para o Ocidente, é claro, o problema é ainda pior: imagine trinta famílias de diferentes tamanhos e rendas tentando decidir os detalhes de como, se é que é possível, recuperar um terreno baldio, e você terá uma vaga ideia dos problemas envolvidos.

Neste ensaio, abordarei três questões. Primeiro, como devemos entender essa conversa sobre conflito e até mesmo “guerra” entre a Rússia e o “Ocidente”, e é sequer possível discuti-la de forma sensata? Segundo, o que essa compreensão implicaria em termos práticos? E terceiro, supondo que as duas primeiras questões possam ser respondidas, o que seria realmente necessário caso se decidisse dar uma resposta? É evidente que essas questões são interdependentes e, em certa medida, se sobrepõem, mas tentarei, mesmo assim, abordá-las em uma sequência lógica e, em particular, utilizarei exemplos históricos. Quero enfatizar o quão impreciso é o conceito de “guerra” com a Rússia e como estamos vivendo um momento de incerteza estratégica sem precedentes, mesmo que nossos políticos e especialistas pareçam não perceber isso.

Para começar, já nem sabemos o que é “guerra”. Tecnicamente, claro, não existem mais guerras, exceto aquelas autorizadas pelo Conselho de Segurança. Em vez de “guerras”, que eram situações legais declaratórias , temos “conflitos armados”, que são situações objetivas definidas por níveis de violência em certas áreas. (Não temos tempo para entrar nos porquês e nos detalhes: basta dizer que essa simples mudança é evidentemente complexa demais para a maioria dos políticos e especialistas compreenderem.) Mas os velhos hábitos de pensamento persistem, e especialistas falam da Grã-Bretanha ou da França “em guerra” com a Rússia, enquanto políticos dizem acreditar que uma “guerra” pode “eclodir” na próxima década, mesmo que nenhum dos dois tenha muita ideia do que isso significa.

Vamos tentar dissipar um pouco a confusão dizendo que o que está sendo invocado aqui é a ideia de que, em algum momento num futuro próximo, forças ocidentais e russas poderiam entrar em confronto, levando a uma troca de tiros, possíveis baixas e uma possível escalada para um conflito maior. Se isso corresponde ou não à compreensão popular de "guerra" é irrelevante, principalmente porque um simples choque entre aeronaves sobre o Mar do Norte seria suficiente, por si só, para gerar uma crise diplomática no Ocidente, mesmo que a situação não se deteriorasse ainda mais.

O problema é que, essencialmente pela primeira vez na história, não temos ideia de como seria um conflito sério com outro Estado (ou "guerra", se preferir) na prática, nem como, ou mesmo por que, ele seria travado. Assim, a "guerra" com a Rússia hoje é apenas uma espécie de conceito existencial. Durante a maior parte da história da humanidade, não foi assim. No século XVIII, na Europa, a guerra era uma questão de objetivos políticos, batalhas planejadas, exércitos profissionais, campanhas eleitorais, tratados de paz e ganhos e perdas. As consequências a longo prazo da Revolução Francesa e a crescente sofisticação dos governos fizeram com que, no final do século XIX, a guerra fosse vista como um empreendimento contínuo, com grandes exércitos de recrutas, travada por objetivos importantes, geralmente territoriais. Antes de 1914, a guerra era vista principalmente como algo relacionado à industrialização, à mobilização de forças muito grandes, ao transporte ferroviário e a um conflito longo e sangrento. (É um mito que os exércitos europeus em 1914 esperassem uma guerra curta, embora certamente desejassem que fosse.) Antes de 1939, a guerra era concebida como algo que exigia toda a capacidade de uma nação, envolvendo destruição massiva e o uso de novas tecnologias, como aeronaves, além do potencial de exterminar a civilização europeia. Além de divagarem sobre drones, poucos dos especialistas de hoje parecem ter sequer a mais remota ideia de como um conflito futuro poderá ser, o que talvez seja perdoável no momento, ou mesmo de terem pensado nisso de forma organizada antes de escreverem algo, o que não é.

A questão aqui não é que estudos, planos, exercícios etc. impliquem previsão. Essa é uma suposição comum, mas está errada. O ponto é que você precisa ter algumas premissas básicas sobre a natureza e a extensão de qualquer conflito em que possa se envolver, ou simplesmente não conseguirá planejar nada. Essas premissas podem ser parcial ou até mesmo totalmente invalidadas com o tempo, mas pelo menos fornecem uma base para o trabalho e para que os militares elaborem planos. Não faz sentido a liderança política pedir aos militares que "planejem para a guerra" sem essas premissas mínimas: seria o mesmo que ir a uma seguradora e pedir "uma apólice de seguro". Vejamos alguns exemplos.

O fator que mudou tudo após a Primeira Guerra Mundial foi o bombardeiro tripulado, cuja capacidade de "ultrapassar" fronteiras e até oceanos, lançando bombas diretamente sobre cidades, aterrorizou tanto os governos quanto o público em geral. Medidas de defesa passiva, na medida do possível, foram tomadas e, num vislumbre precoce da teoria da dissuasão, discutiu-se a construção de bombardeiros de longo alcance para desencorajar potenciais inimigos. Naquela época, porém, não havia defesa contra tal ataque: o político britânico Stanley Baldwin foi muito ridicularizado por sua declaração de 1932 de que "o bombardeiro sempre conseguirá passar", mas ele não disse nada além da verdade. Como Baldwin apontou, mesmo com caças em alerta máximo, quando estes pudessem ser acionados e localizar seus alvos, os bombardeiros já estariam a caminho de casa. Contudo, essa constatação forneceu uma orientação para a futura política aérea britânica: desenvolvimento de caças de alta velocidade capazes de se comunicar com o solo e entre si, desenvolvimento de radares para alerta antecipado e formação de um sistema central de comando e controle para a defesa aérea. Ao mesmo tempo, a frota de bombardeiros foi enormemente expandida e novos tipos de aeronaves foram encomendados, na esperança de desferir um golpe rápido e decisivo contra a Alemanha. É verdade que a realidade acabou sendo um pouco diferente, como geralmente acontece, mas foi essencialmente essa estrutura que permitiu aos britânicos vencer a Batalha da Grã-Bretanha e que significou que eles começaram a guerra com um conjunto coerente de políticas e planos.

Em contraste, a enorme guerra convencional e nuclear na Europa, temida entre as décadas de 1950 e 1980, nunca chegou a ser travada. Mas ambos os lados levaram a possibilidade extremamente a sério, e por isso existiam planos e doutrinas coerentes para tal guerra. Isso era particularmente verdadeiro para a União Soviética, para quem essa seria a Grande Guerra: o conflito final, inconcebivelmente destrutivo, lançado pelo Ocidente num esforço desesperado para frustrar o triunfo mundial do comunismo e que definiria o futuro da humanidade. Esperava-se que a guerra fosse total, incluindo o que na época era descrito timidamente como uma “troca nuclear estratégica”, e que resultasse numa devastação pior do que a da Segunda Guerra Mundial, da qual levaria décadas para se recuperar. Mas a prioridade incondicional dada aos gastos militares, uma economia de guerra permanente e uma preparação antecipada massiva levariam a União Soviética à vitória. Se tiver interesse, você pode acompanhar essa mentalidade apocalíptica em todos os níveis dos preparativos militares soviéticos.

O Ocidente não pensava nesses termos e, por razões políticas, não podia, mas isso não o impediu de desenvolver doutrinas e estruturas que tentassem contrariar os preparativos soviéticos. Presumia-se que a União Soviética seria a atacante (o que, de fato, era sua doutrina) e que uma crise levaria semanas para se desenvolver. Isso significava que as forças da OTAN poderiam ser otimizadas para a defesa (portanto, tanques mais lentos e pesados, por exemplo) e que forças relativamente pequenas em tempos de paz poderiam ser complementadas por milhões de reservistas mobilizados, o que, incidentalmente, implicava um serviço militar obrigatório ou algo semelhante. Por sua vez, e importante para os dias de hoje, havia pouca necessidade de se preocupar com a logística da projeção de forças para a frente de batalha. A OTAN também dava muita importância ao poder aéreo, onde o considerava superior ao do Pacto de Varsóvia.

Felizmente, nunca saberemos como uma guerra desse tipo teria sido na prática, mas o fato de cada lado ter um conceito bastante preciso, e de isso ter servido de base para planos, estruturas de força, treinamento e exercícios, mostra o quão distantes estamos, em comparação, de qualquer reflexão organizada sobre um hipotético “conflito” futuro. Portanto, teremos que fazer isso por eles. Proponhamos que analisemos uma gama de possibilidades, desde confrontos de pequena escala entre forças russas e ocidentais, sem necessariamente causar baixas, até algum tipo de engajamento direto por terra e ar no continente europeu para objetivos limitados. Podemos supor conflitos de maior escala e abrangência, se quiserem, mas a realidade é que eles estão agora, e provavelmente sempre estarão, além da capacidade do Ocidente de conduzi-los. Nada do que se viu na evolução da doutrina militar ocidental desde 2022, muito menos na prática militar, sugere que o Ocidente sequer tenha começado a assimilar as lições do conflito na Ucrânia.

Antes de prosseguirmos, preciso enfatizar que definir os cenários militares para o planejamento é apenas parte da tarefa. A outra parte, muito mais difícil, é elaborar algum tipo de doutrina política e procedimentos para lidar com o surgimento de conflitos ou com a ameaça de um conflito. Fazer isso em nível nacional não é fácil. Fazer isso em nível internacional pode ser uma agonia. A única vez em que uma OTAN (bem menor) teve que enfrentar uma operação militar séria foi no Kosovo, em 1999, e isso quase destruiu a aliança. Tentar lidar, por exemplo, com uma exigência russa de que os navios da OTAN mantenham uma certa distância de embarcações russas em exercício, sob a ameaça de serem atacadas, provavelmente seria suficiente para paralisar o processo de tomada de decisão em Bruxelas após apenas alguns minutos de discussão, sem uma solução óbvia. Portanto, o primeiro objetivo, e um que eu acho que nunca alcançaremos, será um conceito político-militar da OTAN acordado para lidar com provocações, acidentes e escaladas com a Rússia.

Certo, mas vamos supor que sim. Que tipos de planos devemos orientar os militares a elaborar, para quais tipos de contingências? Aqui estão alguns exemplos e, mais uma vez, não os apresento como profecias. Em vez disso, são exemplos genéricos dos tipos de suposições necessárias para que toda essa conversa sobre "preparação para a guerra" se concretize de fato.

A primeira, que considero bastante realista, é o policiamento das fronteiras aéreas e marítimas. Uma grande potência militar, como a Rússia é atualmente, possui, em virtude desse status, uma capacidade de intimidação contra nações mais fracas, como as da Europa, ou os Estados Unidos, enquanto potência europeia. Essa capacidade é existencial, independentemente de ser usada deliberadamente ou não. Mas eu esperaria que os russos, tanto por princípios gerais quanto por razões específicas, sondassem as fronteiras aéreas e marítimas ocidentais, buscando interromper exercícios da OTAN, perturbar o tráfego marítimo e aéreo e assim por diante. Se os russos estivessem pressionando, ao mesmo tempo, por algum tipo de Tratado de Segurança Europeu que os favorecesse fortemente, então esse tipo de comportamento seria bastante lógico e razoável. Algum tipo de política da OTAN para responder a tais situações será necessária, e duvido que seja fácil de elaborar. Mas chegaremos às consequências práticas mais adiante.

Em seguida, há os cenários de fronteira terrestre, que poderiam envolver conflito direto entre as forças russas e da OTAN através de fronteiras internacionais. Na prática, esses cenários se limitam aos Estados Bálticos e à Finlândia, que, convenientemente, concedeu à OTAN uma extensa fronteira com a Rússia, que esta não consegue defender. Não precisamos nos preocupar, por ora, com a forma como tal crise poderia surgir, até porque a história sugere que essas tentativas costumam ser fúteis. Vale apenas ressaltar, talvez, que outro conflito na Geórgia também poderia provocar exigências, por parte de pessoas ignorantes e belicosas, pela intervenção da OTAN, e isso teria que ser levado em consideração, ao menos em teoria.

Por fim, haveria um conflito deliberado em larga escala entre a Rússia e a OTAN, por algum motivo que nem vamos abordar aqui. Na prática, isso teria que ser iniciado pela Rússia, porque a OTAN não tem forças nem capacidade logística para lançar um ataque por conta própria, mesmo que tivesse coesão política, como veremos adiante. Isso envolveria forças russas transitando pela Bielorrússia e Ucrânia e invadindo, provavelmente, a Polônia, a Hungria, a Eslováquia e a Romênia, antes de, possivelmente, ir além.

Neste ponto, quero abordar aspectos tediosos, porém essenciais para a compreensão, como mapas, distâncias, estradas e rotas de transporte aéreo e marítimo. O primeiro ponto a ressaltar é que não estamos falando da Guerra Fria. Naquela época, forças maciças eram mobilizadas, efetivamente frente a frente. Só a Bundeswehr (Forças Armadas Alemãs) podia mobilizar doze divisões em 48 horas (e em seu próprio território, é claro), além de unidades de defesa territorial. Belgas, holandeses e franceses já tinham forças posicionadas. Reforços (principalmente pessoal e unidades leves) chegariam por terra e trem para a batalha apocalíptica no que hoje é o centro da Alemanha. Os britânicos, com tropas ainda mais distantes, teriam transportado cerca de 40.000 soldados para reforçar suas quatro divisões, mas, novamente, a maior parte dos reforços era composta por pessoal ou unidades leves, e eles estavam a apenas algumas horas de Antuérpia. Praticamente nenhuma infraestrutura para isso existe hoje.

As forças do Pacto de Varsóvia também não tinham um longo caminho a percorrer. O Grupo de Forças Soviéticas na Alemanha, com cerca de 350.000 homens e mantido em alerta máximo permanente, deveria ser aniquilado nos primeiros dias de combate, por isso levaram consigo toda a sua logística. Esperava-se, então, que o segundo e o terceiro escalões conseguissem avançar até o Canal da Mancha, praticamente sem resistência. Em contraste, um ataque russo hoje contra a Polônia, através da Ucrânia ou da Bielorrússia, mesmo partindo de um ponto como Kharkiv, teria que avançar mil quilômetros apenas para chegar à fronteira polonesa. Isso talvez coloque em perspectiva as sugestões sobre uma "ameaça" russa à França ou ao Reino Unido.

Manteremos essa possibilidade em mente como teórica, sobretudo porque se trata de um caso extremo do que será um tema recorrente no restante deste ensaio: as distâncias, o terreno, a disponibilidade de forças, os problemas de reabastecimento logístico seriam uma ordem de grandeza mais graves do que qualquer operação militar já enfrentada, e os recursos disponíveis, mesmo no caso russo, são drasticamente menores do que em tempos recentes.

A realidade é que um conflito armado de grande escala entre a Rússia e o Ocidente seria travado predominantemente com mísseis e drones, e seria extremamente unilateral. Os russos não têm capacidade, se é que alguma vez tiveram, para invadir a Europa Ocidental com forças terrestres convencionais: aliás, eu argumentei, e continuo a acreditar, que mesmo a ocupação total da Ucrânia seria uma meta ambiciosa demais. Mas os mísseis e drones russos atuais, quanto mais os de um futuro próximo, poderiam atingir alvos ocidentais por terra, mar e ar: o Pentágono, o Palácio do Eliseu, o número 10 de Downing Street, todos seriam vulneráveis, e mesmo cobrir a superfície dos países ocidentais com baterias Patriot (se é que algum dia poderiam ser implantadas em tal número) não seria suficiente para detê-los. E basta olhar um mapa para perceber por que, mesmo que o Ocidente desenvolvesse mísseis semelhantes, suas aeronaves não conseguiriam se aproximar o suficiente para lançá-los. A geografia é implacável. Mas isso não é nenhuma novidade. Numa das partes menos estudadas do Livro 1 de Da Guerra , Clausewitz insistiu no “país” como um “elemento integrante” do conflito, e na importância de fortalezas, rios e montanhas para absorver forças que, de outra forma, estariam disponíveis para o combate: algo sobre o qual aqueles que reclamam da “lentidão” dos russos na Ucrânia fariam bem em refletir.

Para manter as coisas em proporções administráveis, vamos considerar o caso do destacamento de forças da OTAN em algum tipo de função “dissuasora” ou “preventiva”, no caso de um confronto que pudesse levar a combates reais. Os cenários mais óbvios incluiriam um conflito envolvendo os Estados Bálticos, a Finlândia ou ambos, e uma crise no Mar Negro com o possível risco de confronto naval e operações anfíbias contra a Bulgária e a Romênia. (Poderíamos incluir a Geórgia também para tornar as coisas um pouco mais interessantes.)

Então, o que é um papel “dissuasor” ou “preventivo” em tais situações? Como o próprio nome sugere, trata-se de uma atividade destinada a impedir que algo aconteça ou, no mínimo, a evitar que uma situação piore. Mas como fazer isso? Bem, existem dois elementos fundamentais. Primeiro, é preciso ser capaz de agir rapidamente; segundo, é preciso ter um plano de escalonamento visível para o caso de a dissuasão falhar. Caso contrário, a postura não será credível. Durante a Guerra Fria, e por um tempo depois, existiu uma unidade da OTAN chamada Força Móvel Terrestre do Comando Aliado da Europa. Era uma pequena unidade multinacional de alta prontidão, destinada a ser mobilizada rapidamente para os flancos da OTAN. Por razões políticas, praticamente todos os membros da OTAN designaram um contingente, mesmo que pequeno. Ela foi mobilizada muitas vezes em exercícios ao longo dos anos e provavelmente poderia ter sido mobilizada em uma crise real, desde que houvesse um acordo político. No entanto, ela tinha duas características importantes. Primeiro, seu componente terrestre era uma brigada leve de cerca de 5.000 homens. Seu potencial militar era, portanto, muito limitado, e seu objetivo principal era servir como um sinal político. No entanto, por trás da AMF(L) havia uma máquina militar muito maior, capaz de ser mobilizada com relativa rapidez. Assim, a mobilização da AMF(L) visava ser um aviso político: estamos prontos para lutar, se necessário, e a cavalaria não está longe.

É evidente que tal lógica não é possível hoje. De tempos em tempos, falava-se sobre o envio de forças “dissuasoras” europeias para partes da Ucrânia, e comentaristas entusiasmados frequentemente afirmavam que isso iria acontecer. Claro que não aconteceu, porque havia uma falha fundamental: se os russos não se intimidassem com a mera presença das forças europeias e simplesmente as ignorassem, quanto mais as atacassem, não haveria mais nada que o Ocidente pudesse fazer. Nessa situação, os russos teriam o que se chama de “domínio da escalada”, ou seja, poderiam passar a níveis progressivamente mais altos de violência, e o Ocidente não. Na prática, a própria força dissuasora proposta foi dissuadida de ser enviada. Podemos esperar uma história mais ou menos semelhante nos flancos da OTAN. Se quiserem, os russos sempre podem superar qualquer contingente da OTAN sem o menor esforço. A única esperança que tal envio teria é que os russos não desejassem um confronto armado com a OTAN por razões políticas mais amplas. Isso pode ser verdade, mas seria imprudente contar com isso, e, claro, depende de quão seriamente os próprios russos encaram a situação. Da mesma forma, nada impediria os russos de ameaçarem simplesmente aniquilar a força com mísseis e drones, a menos que ela fosse retirada, ou mesmo de ameaçarem destruí-la em seu caminho para a posição. Como essa é uma ameaça que eles de fato poderiam cumprir, configura uma postura de dissuasão.

O que nos leva à última parte deste ensaio. Suponhamos que, mesmo assim, se inicie o planejamento de uma operação desse tipo em algum ponto nos flancos da OTAN. O que ela envolveria e seria sequer possível? Minha argumentação é que as respostas são (1) mais do que você provavelmente pode imaginar e (2) não. Mas vamos detalhar um pouco mais.

Durante a Guerra Fria, as forças permanentes eram bastante numerosas: só o Exército Alemão contava com cerca de 350.000 homens em tempos de paz, e o francês um pouco mais, mesmo sem considerar os reservistas que podiam ser mobilizados rapidamente. Isso significava que grandes contingentes podiam ser destacados perto das fronteiras ou na própria Alemanha. As unidades permaneciam em seus postos por longos períodos (eu conhecia alguns oficiais britânicos que passaram quase toda a sua carreira operacional na Alemanha), desenvolviam sua própria infraestrutura e conheciam muito bem a área onde iriam lutar. Nem a OTAN nem o Pacto de Varsóvia precisariam "projetar" as forças para um futuro conflito: as mais importantes já estavam lá. A estrutura logística estava estabelecida, os sistemas de transporte eram altamente desenvolvidos e, em muitos casos, ambos os lados simplesmente haviam assumido o controle das instalações da antiga Wehrmacht.

Agora, se considerarmos um dos exemplos acima, o Exército finlandês normalmente se preocupa com o treinamento em tempos de paz (cerca de 20.000 recrutas por ano). Pelo menos no momento, não possui forças permanentes e profissionais que possam ser estacionadas em sua fronteira com a Rússia — que por si só tem mais de 1.300 quilômetros de extensão — e, portanto, depende da mobilização para qualquer resistência útil. Acontece que, durante a Guerra Fria, a fronteira entre a Alemanha Oriental e Ocidental tinha praticamente a mesma extensão: em tempos de paz, cerca de um milhão de soldados da OTAN estavam posicionados atrás dela.

Claramente, não se pode forçar muito a analogia. O terreno é, para dizer o mínimo, diferente da Alemanha, como o Exército Vermelho descobriu em 1939/40, assim como o clima (Clausewitz novamente). E o único objetivo plausível para os russos seria Helsinque, no extremo sul do país. Acima de tudo, o Exército Russo de hoje é uma fração do que era em 1939, quando mobilizou um milhão de homens apenas para essa operação. Por outro lado, se a OTAN quisesse "dissuadir" ou "demonstrar determinação" ao longo daquela que é hoje sua fronteira mais extensa com a Rússia, de longe, não teria muitas opções. Se as forças pudessem ser encontradas de alguma forma (veja o próximo parágrafo), uma presença permanente da OTAN no país, mesmo no sul, seria um empreendimento logístico fabulosamente caro e difícil, que exigiria talvez uma década de planejamento e construção e, provavelmente, na prática, se resumiria a uma presença apenas nos arredores de Helsinque, com incursões ocasionais fora dessa região.

Mas será que as forças necessárias seriam encontradas, de qualquer forma? Se quisermos uma força apenas simbólica — um batalhão multinacional, por exemplo — então a resposta provavelmente é “sim”. Mas seria um gesto puramente simbólico, sem qualquer significado militar e, como vimos, sem valor dissuasor. (Isso não significa que não vá acontecer, é claro.) Mas as chances de se mobilizar uma força internacional permanente de tamanho útil são remotas. Os exércitos são pequenos hoje em dia em comparação com a Guerra Fria, e há poucos indícios de que se tornarão significativamente maiores. Uma coisa é ter forças belgas mobilizadas na Alemanha durante a Guerra Fria, a poucas horas de casa. Outra é ter unidades de infantaria mobilizadas por alguns meses no Iraque ou no Afeganistão em condições de campo. Mas ter uma fração importante do seu Exército permanentemente mobilizada a milhares de quilômetros de casa em tempos de paz provavelmente está além da capacidade de qualquer Estado europeu hoje em dia, mesmo que fosse politicamente aceitável. Além disso, por que a Finlândia? Não deveríamos fazer o mesmo pelos Estados Bálticos, pela Polônia, pela Romênia e outros também, ou até mesmo em vez deles? As discussões, principalmente sobre financiamento, poderiam se estender por anos. (E acredite, isso é apenas a ponta do iceberg dos problemas.)

Como eles não vêm até nós, e como não podemos chegar até eles, a única maneira pela qual as forças ocidentais (incluindo as dos EUA) poderiam se encontrar "em guerra" com a Rússia seria se fossem mobilizadas em uma crise. Há, como você pode imaginar, alguns problemas com essa ideia. O tempo é o primeiro. Para reiterar, mesmo durante a Guerra Fria, um ataque de curto prazo não era considerado muito provável. Havia toda uma indústria de Indicadores de Alerta que as agências de inteligência de ambos os lados monitoravam, e presumia-se que a guerra se seguiria a um período de tensão política que poderia durar semanas. Assim, os exercícios militares da OTAN (e imagina-se que exercícios semelhantes em Moscou) incluíam uma análise minuciosa sobre quando a crise seria suficientemente grave para mobilizar e deslocar forças. Mas, repetindo novamente, as distâncias e os requisitos de transporte, e, portanto, os prazos naquela época, simplesmente não eram comparáveis ​​à situação atual. Além disso, as unidades eram mobilizadas para áreas que conheciam, juntavam-se a outras unidades já presentes, e os meios de transporte necessários para as distâncias relativamente curtas envolvidas existiam naquela época. Não existem mais.

Vamos nos deter nesse último pensamento. Afinal, embora não haja um aumento exorbitante nos gastos com defesa, nem uma expansão maciça das forças armadas, diversos governos planejam adquirir novos equipamentos ou mais dos mesmos, e é provável que haja um aumento modesto no tamanho e na capacidade das forças ocidentais, teoricamente para enfrentar a “ameaça” russa e enfrentá-la em operações militares. Mas a questão é se isso realmente faz algum sentido, e o argumento até agora sugere que não. Tais forças são pequenas demais e fracas demais para terem qualquer valor dissuasor, e seriam rapidamente aniquiladas em qualquer combate. Mas tudo bem, digamos que, por ser necessário “fazer alguma coisa”, a OTAN estabeleça algum tipo de força de intervenção pronta para se deslocar rapidamente para o local de um possível confronto e fornecer, pelo menos, uma resposta política e uma presença militar simbólica.

Ou talvez não. Lembre-se de que, durante a Guerra Fria, a orientação da OTAN era defensiva. Presumia-se que as forças da OTAN recuariam para suas próprias linhas de logística, utilizando boas estradas e rotas conhecidas. Embora houvesse a esperança de contra-atacar e, em última instância, expulsar o Exército Vermelho do território da OTAN, não havia intenção, e de qualquer forma não havia capacidade, para ir além. Assim, a logística foi relativamente negligenciada, e pouca atenção foi dada ao deslocamento, e nenhuma à projeção de força. Simplesmente não era necessário planejar a projeção de forças a centenas de quilômetros de distância, portanto, as capacidades, habilidades, equipamentos e pessoal para tal nunca foram desenvolvidos. Nos últimos trinta anos, houve apenas um esforço sério de projeção de força à distância, e esse foi o Iraque 2.0. Nesse caso, o deslocamento foi feito por mar, e as forças invasoras tiveram todo o tempo que desejaram e o controle total das rotas aéreas e de transporte. Mas a capacidade para tal operação não existe mais, mesmo que fosse relevante neste caso.

Assim, enviar mesmo uma força simbólica, motivada por razões políticas — digamos, duas brigadas mecanizadas e um quartel-general, com 10 a 12 mil militares — para as fronteiras da OTAN exigiria uma projeção de força a uma distância nunca antes tentada na história militar, num momento em que a capacidade ocidental de movimentar tropas pesadas nunca foi tão limitada. E teria de ser feito rapidamente. Isso cria uma série de problemas, porque uma força multinacional teria de ser mantida em um estado permanente de prontidão elevada, totalmente treinada, totalmente equipada, totalmente exercitada e pronta para ser mobilizada. (Em comparação, vários exércitos europeus orgulham-se de ter um batalhão com esse nível de prontidão.) Mesmo assim, os desafios logísticos de projetar forças a essa distância são enormes. Um tanque moderno pesa cerca de 60 toneladas e só pode ser transportado por ferrovia ou, longe das linhas férreas, por um transportador de tanques de 30 toneladas. Mas os transportadores de tanques são usados ​​hoje em dia apenas para movimentações rotineiras e não há o suficiente deles na Europa para garantir qualquer mobilidade estratégica real. Muitas pontes rodoviárias e ferroviárias na Europa não suportam cargas desse porte. Essencialmente, o mesmo se aplica à maioria dos outros tipos de unidades. Talvez, ao longo de algumas semanas ou um mês, uma única brigada consiga chegar, um tanto desgastada pela viagem, a tempo do fim da crise.

A OTAN realizou exercícios concebidos para, pelo menos, ensaiar essa capacidade, e os resultados não foram nada animadores. Fomos informados de que o Exercício DACIAN FALL, realizado recentemente, "envolveu" o envio de uma brigada multinacional de 5.000 homens para a Romênia, dos quais 3.000 eram franceses. Mas é quase impossível ter certeza até mesmo dos fatos básicos. Algo entre 500 e 800 soldados franceses já estavam posicionados, e alguns dos "envolvidos" nunca chegaram a sair da França. A maioria das estimativas aponta para um número de tropas efetivamente enviadas de, no máximo, 2.000, e mesmo assim, levaram semanas para chegar. Provavelmente, este é o melhor resultado que se pode esperar.

Mas certamente, você deve estar pensando, isso não aconteceu na Segunda Guerra Mundial? Os alemães não conquistaram grandes extensões de território russo em questão de semanas, e ainda por cima enfrentando resistência? Se eles conseguiram mobilizar milhões de homens dessa forma, por que nós não conseguiríamos mobilizar alguns milhares? Bem, por muito tempo, nossa compreensão desse episódio — na ausência de fontes soviéticas confiáveis, diga-se de passagem — veio das memórias tendenciosas de generais alemães, segundo os quais os vitoriosos tanques Panzer teriam aberto caminho até Moscou não fosse a intervenção das chuvas de outono e do frio do inverno, nenhum dos quais poderia ter sido previsto. Mas com a abertura dos arquivos soviéticos e com as pesquisas de uma nova geração de historiadores militares — notadamente David Stahel — fica claro que a invasão estava fadada ao fracasso desde o início, e por razões muito semelhantes às discutidas acima. O Alto Comando Alemão não fez nenhuma tentativa séria de avaliar a capacidade do Exército Vermelho e simplesmente presumiu que, após algumas grandes vitórias alemãs, ele se desintegraria, o regime em Moscou cairia e toda a campanha terminaria em seis ou oito semanas. (Isso pode lhe lembrar algo.) A logística foi simplesmente ignorada, pois a campanha terminaria antes que os problemas logísticos surgissem, ainda mais porque Stalin havia anexado metade da Polônia em 1939 e, portanto, os dois exércitos estavam frente a frente. O consenso atual é que, uma vez que essa fantasia de vitória rápida não se concretizou, a campanha estava basicamente perdida.

De fato, pode-se argumentar que os alemães só chegaram tão longe devido a erros catastróficos do lado soviético. Grande parte da culpa foi de Stalin: por vender aos alemães o combustível usado na invasão, pela destruição do corpo de oficiais do Exército Vermelho, por ignorar os avisos de ataque até o último segundo e, principalmente, por insistir que o Exército Vermelho fosse posicionado perto da fronteira para contra-atacar rapidamente, o que significava que, uma vez que os alemães cruzassem a linha de frente, o Exército Vermelho não tinha muita reserva. Mas, por outro lado, o Exército Vermelho conseguiu operar com sucesso na lama e em temperaturas abaixo de zero porque estava treinado e equipado para isso, e parece ter compreendido o que Clausewitz disse sobre a importância da "pátria", usando isso a seu favor.

O que é mais do que a nossa geração atual de especialistas (incluindo especialistas militares, infelizmente) parece ser capaz de compreender. A distância não pode ser simplesmente ignorada. É preciso combustível para mover qualquer coisa, inclusive o veículo que a move. Uma brigada blindada pode ter até 250 veículos de combate, e outros tantos em funções de apoio, e você não pode enviar tudo isso como anexo de um e-mail ou como um pacote da Amazon. Veículos e equipamentos exigem manutenção em instalações sofisticadas. Uma brigada blindada consome talvez de quinze a vinte toneladas métricas de alimentos por dia. E assim por diante.

Em outras palavras, a “guerra” que políticos e especialistas parecem antecipar com entusiasmo não acontecerá, porque não pode acontecer. Há uma série de coisas que poderiam ocorrer, desde confrontos aéreos e navais de pequena escala até ataques russos massivos e paralisantes contra um ou mais países ocidentais, passando por movimentações políticas de pequena escala nas fronteiras. Mas nada muito além disso. A ideia de batalhas blindadas massivas nos Estados Bálticos é uma fantasia, e esperemos que nenhum governo ocidental jamais a leve a sério. Há questões mais importantes e fundamentais com que nos preocuparmos neste momento.

26 de novembro de 2025

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