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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Lúcia Gomes - Carta aberta a um fascista de 17 anos

* LÚCIA GOMES
3.11.19

Tem 17 anos e já transpira colonialismo e saudosismo bafiento em cada palavra. A sua genealogia ditou que pudesse ser publicado num jornal de referência do mofo salazarista mas o seu artigo é, para além de decadente (porque o jovem com tanto para dar mais parece uma criatura mumificada acabada de encontrar num qualquer cenotáfio de um panteão com festas de uma startup), perigoso e sintomático de uma pretensa elitezinha que acha que o país precisa deles.

Vou dizer-te uma coisa, Manuel Bourbon Ribeiro: o país não precisa de ti. Nem precisa das tuas reflexões. O país teve décadas de gente como tu, ainda os tem, em lugares de poder. No teu caso, nem sequer se pode falar em meritocracia porque o que tu tens é a conta bancária dos papás e um família que enriqueceu à custa da apropriação da mais valia criada por outros e assim construiu a sua fortuna. Sabes, Manelinho, essa grandiosidade de que falas e que gabas ao longo da tua composição, foi feita à custa da escravização dos povos. Do nosso e dos povos africanos, dos povos indígenas da América Latina. À custa da espoliação das riquezas naturais que lhes pertenciam e que nós dissemos serem nossas, desbaratando-as nesse império de tão grandes feitos e deixando algumas remanescências naquilo que alguns chamam museus mas que eu gosto de chamar arquivos do imperialismo. É que - e tu estás a estudar Direito, Manelinho, já deves ter aprendido uma ou outra coisa - esses tesouros foram roubados (sim, roubados - com violência. Não chegaram sequer a ser furtados, sabes a diferença, não é, Manelinho?) - e com eles há muitas histórias que podem ser contadas.

Mas como eu não quero chatear-te com coisas do passado, embora claramente prefiras viver nele, posso aconselhar-te alguns filmes, para não perderes muito tempo, em que com algumas horas do teu tempo certamente preenchido com actividades que mais ninguém com 17 anos pode ter - porque não tem dinheiro, Manelinho - poderás apreender a violência, a brutalidade, a desumanidade da grandiosidade que apregoas. Olha: podes começar com o Silence, do Martin Scorsese. Sabes que mesmo para contar esses factos históricos houve quem fosse preso pela PIDE, em 1964, interrogado, ameaçado, por simplesmente escrever sobre eles? Podes ler as  “Raízes da Expansão Portuguesa”, de António Borges Coelho, historiador, combatente antifascista, que esteve 6 anos encarcerado por um regime que seguramente gostarás - enquadra-se nas tuas palavras e no que tu pretendes recuperar e dar ao teu país - durante seis anos, parte dos quais no isolamento onde "só há a memória”, que vai “a horizontes completamente inconcebíveis”. “Esse isolamento é quebrado para interrogatório e para ir à tortura, mas a maior tortura é para muitos precisamente esse isolamento contínuo, contínuo, contínuo, sem haver nada”.

Podes mesmo viajar até outros países, porque o teu continua num negacionismo sem paralelo, e ver fotografias, relatos, provas de que a quimera e os sonhos que dizes ter e que são os que outrora Portugal teve, se materializaram no facto de o povo português ser o mais bárbaro na sua tortura colonizadora. Sim, o mais bárbaro. Mais do que os ingleses e os holandeses e não deve ser tarefa fácil! É que, Manelinho, para indicarem que o território onde tinham chegado agora era seu, os portugueses colocavam à entrada estacas com indígenas empalados para que toda a gente soubesse quem estava no comando. Ou enfiavam nativos que se recusassem à conversão católica em buracos subterrâneos, presos pelos pés, para que morressem lentamente. Presumo que seja a isto que te referes quando falas em grandiosidade. Porque, Manelinho, especiarias e tecidos podiam ter trazido sem estas práticas. Mapas, também os podiam desenhar sem subjugar e dizimar povos e natureza.

Mas vê por ti, vai ao Merseyside Maritime Museum em Liverpool (aproveitas para tirar umas fotos para o teu Instagram a dizer como és tão culto e conheces os Beatles, não precisas de dizer a ninguém que foste a este museu) e lê. Lê, Manelinho. Tu deves saber várias línguas. Até deves compreender isto:
"To most white people, slavery and colonialism are just part of a distant memory of nothing in particular. For whites, slavery did not last particularly long, its benefits accrued only to a tiny proportion of white people and the evils of slavery are overshadowed by the role played by British abolitionists. In any case, the rise of Western nations, Britain, and the United States in particular, as the industrial supremos of the world, is explicable to them simply in terms of English innate genius. Poverty and penury in Africa, and racial inequality in the West, is explained in terms of black inability, incompetence or laziness. To black people, though, slavery and colonialism reiterate themselves in our everyday lives, and evoke poignant and immediate memories of suffering, brutalisation and terror. For black people, Western nations achieved their industrial growth and economic prosperity on the backs of slaves, abolished slavery primarily for economic reasons, have discriminated against black people ever since, and are unrepentant about any of it. African under-development and racial inequality in the West is understood primarily in terms of racism and racist hostility of whites.”

Depois, Manelinho, não tentes - a sério, nem tentes - fingir que sabes o que é uma mãe não ter dinheiro para uma creche - até porque deves ser contra as famílias monoparentais, por exemplo, porque irão contra a tua noção patética de família. Não digas que não te deixam escolher hospitais: tu tens dinheiro para ir onde quiseres e nós, os que não temos, temos um Serviço Nacional de Saúde que é dos melhores do mundo. E sim, precisa de investimento, mas não para podermos ir a um privado. Porque no público temos os melhores profissionais, a melhor tecnologia, os melhores assistentes operacionais e enfermeiros e tu serás melhor tratado num hospital público do que num qualquer privado, ainda que não tenhas um quarto só para ti e wifi para navegares. Porque quando falas em liberdade de escolha o que queres dizer é desvio de recursos para financiamento dos grupos económicos que enchem os bolsos de famílias como a tua. Seja na saúde, seja na educação. Porque é a escola pública que garante a igualdade, o progresso, o desenvolvimento integral. Que permite que pessoas como tu, racistas, supremacistas, aprendam valores de solidariedade, tenham uma educação de excelência reconhecida mundialmente, progridam em todos os ciclos de ensino sem que o dinheiro dos papás seja condição para terem a educação até ao grau que pretendem ter.

Não pretendas saber, Manelinho, o que é não ter dinheiro para comprar livros, para ir até à escola porque não se tem carro, para ir comprar medicação, o que é o isolamento dos idosos, o que é estar endividado. Sabes porquê, Manelinho? Porque nós, os que estudámos com livros emprestados, os que tínhamos boleia de vizinhos ou íamos a pé quilómetros até à escola, os que vimos os nossos avós a morrerem sozinhos, os que vimos os nossos pais morrerem de cancro aos 54 anos, os que só comíamos sopa porque o salário das nossas mães não dava para mais do que pagar a casa, as roupas e a alimentação (e olha que roupa só era comprada duas vezes ao ano, de resto era dada), os que sempre passamos férias em casa, os que temos vários tios (porque os nossos avós tinham 8 filhos mas não eram como os teus seis irmãos, trabalhavam desde os 12 nesses tempos áureos que evocas), os que trabalhamos para pagar os nossos cursos, sabemos bem que os salários dos nossos pais são baixos porque os salários dos teus são altos (e são eles que detêm as empresas que exploram os nossos pais), porque as leis são feitas por e para os teus pais e os amigos dos teus pais, porque tu só escreves nos jornais porque os donos deles são os amigos dos teus pais e um dia serão os teus.

Não pretendas, Manelinho, jamais, achar que o teu curso de Direito valerá algum dia mais do que o meu, porque eu exerço-o do lado certo da barricada. Não julgues que os teus 17 anos algum dia darão a este país mais do que os meus 17 porque nessa idade já eu combatia, com tantos outros, racismos, xenofobias, classismos, opressão e exploração. E jamais penses que este país precisa de ti. Este país precisa de Serviço Nacional de Saúde público, gratuito, universal e de qualidade. Precisa da escola pública, gratuita e universal. Precisa de combater o preconceito - em função do sexo, da orientação sexual, da deficiência, da classe. Precisa de dar a conhecer em todo o lado - na escola, na rua, no parlamento - a Constituição, o combate ao fascismo, as histórias dos antifascistas, os relatos da tortura, a barbárie dos Descobrimentos, precisa de melhores salários para os trabalhadores, precisa de uma Administração Pública de qualidade que dignifique os seus trabalhadores e utentes, precisa de mais e mais serviços públicos, precisa de combater a violência policial.

Manelinho: nenhum fascista é necessário. Nem em Portugal nem em lado nenhum. E tu, com os teus 17 anos, deverias sentir uma profunda e enorme vergonha por estares do lado opressor da história. Porque não é a ti que ela dará razão.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Lúcia Gomes - O outro lado da cortiça




O OUTRO LADO DA CORTIÇA
SEXTA-FEIRA, 1 DE FEVEREIRO DE 2019
PUBLICADO POR LÚCIA GOMES

Nasci, cresci e vivi grande parte da minha vida em Santa Maria da Feira. Ainda vivo espartilhada entre cidades, sendo que é ali o meu lar. No meu Partido, toda a vida, estive lado a lado com corticeiros. Era fácil saber quem eram mesmo sem lhes falar porque grande parte deles tinha marcado no corpo o seu saber. Literalmente. Uns tinham perdido um dedo na broca, outros parte de dedos.

Desde muito cedo, com eles, estive à porta das muitas corticeiras do nosso concelho. Hoje contam-se as que sobraram porque a maioria foi asfixiada pelo poder do Grupo Amorim. Não é raro ouvir que um pequeno empresário se suicidou por não poder pagar as dívidas. Mais uma família que fecha a sua pequena fábrica, estrangulada com os créditos dos amigos do BES (lembram-se daquela linha de crédito a micro, pequenas e médias empresas liderada pelo BES e apoiada pelo governo Sócrates?).

Foi à porta dessas empresas, onde todos os meses estávamos, que cedo tomei nota em primeira mão da discriminação salarial brutal entre mulheres e homens no sector corticeiro. Eram mais de cem euros para tarefas iguais. Ali, à porta, havia trabalhadores que timidamente aceitavam o papel do PCP e o escondiam para que não fossem vistos. Também muitos nos diziam que nunca iríamos ganhar nada porque o país precisa é dos engenheiros e doutores do CDS e do PSD, que os operários nunca chegariam a lado nenhum.

Eram locais difíceis onde, não raras vezes, os seguranças estavam muito atentos a quem queria receber um papel ou falar connosco.

Fazíamos, contudo, questão de parar os carros de alta cilindrada à saída para lhes entregar os documentos e fazer saber que ali estávamos e ali iríamos voltar.

Foram milhares de distribuições. Foram também milhares de vigílias junto à APCOR de cada vez que uma empresa fechava, deixando trabalhadores meses e meses sem salários e roubando as máquinas do interior da empresa. Marchas à chuva, concentrações ao sol, as ruas de Santa Maria de Lamas iam sempre dar aos patrões da cortiça.

Foi ali também que ouvi as histórias das mulheres que cuidavam dos pais e dos filhos, que trabalhavam desde os 10 ou 12, que não sabiam como iam cuidar da família: nenhuma falava de si. Foi ali que vi os natais (sempre os natais) que lhes anunciavam o desemprego.

Foi ali que conheci o Sindicato dos Operários Corticeiros, o Alírio, o Mota, o Germano (e tantos outros) e que vi como o Sindicato foi crescendo, sempre do lado certo. Como orgulhosamente tornou a igualdade salarial na sua prioridade apesar de, no parlamento, o Bloco de Esquerda insistir em culpar o sindicato acusando-o de assinar um acordo colectivo de trabalho ou a UMAR publicamente atacar estes (e estas!) trabalhadores, incluindo na queixa que apresentaram tendo por base o acordo colectivo. E lembro-me bem do que, à data senti: nunca os tinha visto em nenhuma destas concentrações ou vigílias, em reuniões, à porta de fábricas e, ainda assim, culpavam os próprios trabalhadores por uma desigualdade imposta pelos patrões com total alheamento de como funciona uma negociação colectiva de um acordo. Sem sequer entender porque é que tinham assinado o acordo e ignorado, deliberadamente, a luta de anos que vinham a desenvolver para acabar com as discriminações salariais.

Elas, eventualmente, acabaram no papel, por via do acordo tripartido e faseado celebrado com o Ministério do Trabalho e, escusado será dizer, já sabemos quem chama a si a vitória.

Mais uma vez, os corticeiros caíram no esquecimento porque já não saíam nos jornais.

Mas continuam a trabalhar ao dia, à semana, a perder partes das suas mãos nas brocas, a receber o salário mínimo, a ver empresas a fechar, a concentrarem-se à porta das empresas e da APCOR. O Alírio, o Armando, o Germano, lá continuam. E reencontrei-me com eles, na semana passada, em frente à Câmara Municipal da Feira, onde dezenas e dezenas de trabalhadores estavam em solidariedade com Cristina Tavares, a Cristina que para muitos de nós é a única Cristina de que falamos. A mesma que foi encontrar forças, ninguém sabe bem onde, para ultrapassar os actos violentos, humilhantes e degradantes que lhe infligiram porque insiste, insiste e insiste em manter o seu posto de trabalho.

Já conheço bem a sua história porque não há camarada que não ma conte, não há dirigente sindical que não a saiba, não há um sindicalista que não tenha estado numa acção promovida pela CGTP, não há uma mulher do MDM que não tenha já manifestado a sua solidariedade.

E não, não conheço Cristina pessoalmente nem faço gáudio disso para poder escrever um artigo de jornal apenas para dizer isso mesmo. Não preciso de conhecer porque cresci no meio de muitas Cristinas. Mas admiro-a. Profundamente. Não sei como se resiste a tamanha violência.

Naquela concentração ouvi Arménio Carlos dizer que já lhe ofereceram milhares de euros para que desistisse dos processos e se afastasse. Mas Cristina respondeu sempre a mesma coisa: não quero o vosso dinheiro, quero o meu posto de trabalho.

E sei bem como é difícil esta postura até ao fim. Muitos foram já os que vi não o conseguir fazer e de nenhuma forma critico quem ao fim de anos a ser violentado (há muitas formas de assédio), não aguente mais. Num só dia, já assisti à assinatura de 24 rescisões e despedi-me de um a um com lágrimas nos olhos. Já passaram três anos sobre esse dia e apenas um encontrou trabalho.

Esta postura de Cristina devia ser um exemplo para os governantes. Despedida uma e outra vez, não desiste. Mas o governo não quer saber. Os deputados do PS, do PSD, do CDS, do PAN não querem saber. Nestas concentrações, vejo sempre os «mesmos»: PCP, Bloco de Esquerda, Os Verdes. Sempre.
São os únicos que sabem quem é a Cristina. Ou que querem saber. Cristina não inspira as fotos das deputadas na assembleia da república. Não se juntam para lhe prestar homenagem. Não inspira as associações «feministas» a fazerem concentrações, vídeos para o instagram, posts para as redes sociais. Não inspira o entretainer Marcelo. Como nunca inspiraram as trabalhadoras da Triumph. Para esta gente, as operárias são talvez menores.

Há pouco tempo vi um filme sobre um advogado, activista, que sempre lutou contra o racismo,  pelos direitos civis dos negros. Um desajeitado, mal vestido que andava de autocarro. Não falava a linguagem da modernidade, ainda ouvia cassetes, não se ajeitou numa palestra da nova geração de activistas que rapidamente o descartou. E alguém diz «We stand on his shoulders. We stand on their shoulders».

E é isso que sinto de cada vez que revejo os meus camaradas corticeiros, de cada vez que leio notícias sobre a Cristina. Nós andamos sobre os ombros deles. São eles e a sua luta que nos sustentam, que sustentam a nossa luta. São eles que nos carregam. Eles e tantos outros. Invisíveis aos olhos do governo e da propaganda (sim, propaganda) feminista liberal.

Mas como dizia Big Jim Larkin, sindicalista irlandês, the great only appear great because we are on our knees, Let us rise. E quando o povo se levanta é sempre cedo.

*A 9 de Fevereiro a CGTP convocou nova concentração de solidariedade com Cristina Tavares, em Lourosa, Santa Maria da Feira.

PUBLICADO POR LÚCIA GOMES 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Lúcia Gomes - CRÓNICAS DE VIAGEM - A MILÍCIA DO AUTOCARRO 712

QUARTA-FEIRA, 23 DE SETEMBRO DE 2015


Tudo o que vou relatar, aconteceu. Cheguei ao trabalho ainda me tremiam as mãos de incredulidade com o que tinha acabado de se passar.


Enquanto esperava o autocarro (mais uma vez, o 712), vi-o a parar em frente a uma escola. Começaram a sair pessoas a correr e uma delas parou ao meu lado e disse «Isto nunca me aconteceu...Meu deus, vai entrar? Cuidado com a criança». A criança estava ao meu lado num carrinho de bebé e outra pessoa disse o mesmo. Perguntei o que se passava e a senhora diz-me que estava um maluco à porrada no autocarro. Perguntei logo se já tinham chamado a polícia (parecia-me lógico, em vez de ser o motorista a parar o autocarro e a enfrentar a situação).


O autocarro pára à minha frente e vejo seis fiscais da Carris, 5 deles enormes (muito altos e dois deles altos e muito gordos). Vejo um jipe da GNR a chegar que passou a escoltar o autocarro. Entrei convencida que o «maluco» estaria dentro do autocarro, mas só via fiscais a barrar passagens. Pela conversa apercebi-me de que o «maluco» estaria numa paragem à frente por ter deixado a mochila dentro do autocarro.



Perguntei a um dos fiscais se os passageiros tinham sido agredidos, ao que me respondeu «Não, fomos nós». Ora, isto começou a parecer-me estranho. Chegados à paragem ouço «Não abras a porta!». Vejo uma pessoa acercar-se do autocarro. Um jovem alto bateu à porta e disse «Por favor devolvam-me a mochila, tenho que ir trabalhar». E seguiu-se este diálogo:



- Não damos mochila nenhuma. Identifique-se.

- Não me identifico nada, a não ser que a PSP me peça identificação. Devolvam-me a mochila.
- Não senhor. O senhor quer andar de autocarro tem que pagar.
- Ouça, já lhe disse que o meu passe tem dinheiro. Não tenho culpa que a máquina não esteja a funcionar.
- Identifique-se.
- Aliás, eu tentei sair do autocarro, este senhor é que me barrou a saída e agrediu-me. Dê-me a mochila que eu estou atrasado para o trabalho.
- Não damos mochila nenhuma.
- Com esta palhaçada estão a deixar aquelas pessoas todas [apontou para uma paragem cheia de gente] à vossa espera! Quero a minha mochila, vocês não podem fazer isto.
- Esteja calado!
- Eu não tenho dinheiro para pagar nenhuma multa, eu tinha dinheiro no passe, dê-me a minha mochila ou é preciso ser a mal?



[Estava um GNR e um PSP a assistir a tudo, sem se manifestarem]



Nisto, não consegui ficar calada ao ver seis fiscais a ameaçarem o homem e a ficarem com os seus pertences. Levanto-me do banco e dirijo-me à porta.



- Sou advogada. Vocês não podem fazer isto. Está ali a PSP e a GNR podem tomar conta da ocorrência e identificar este senhor. Têm que lhe dar a mochila.

- É o quê? Esteja mas é calada, não sabe nada.
- Os senhores não podem fazer isto, não são agentes da autoridade.
- Não sabe nada, vá mas é estudar.



Um dos fiscais vira-se para trás, empurra-me e grita «Saia daqui».



Insisto.



- Não são agentes da autoridade. Façam o favor de devolver a mochila.



O fiscal continua a empurrar-me em direcção às traseiras do autocarro e pergunto se ele me vai agredir ou expulsar.



Insisto.



- Não podem fazer isto.

- Não devolvemos nada, cale-se.



Nisto vou buscar a mochila. Sou agarrada no braço pelo mesmo fiscal que me projecta para o banco do lado. O senhor «maluco» entra no autocarro e pega na sua mochila e esse fiscal que me agarrou e o mais alto deles todos acercam-se dele para lhe bater e eu meto-me no meio. O GNR entra e diz «Calma, calma» e nada faz.



Peço ao fiscal que se identifique e digo-lhe que ele não pode agir assim. Ouço um «esteja calada» e o mais alto vocifera insultos. Um deles diz que por ser advogada não tenho autoridade nenhuma, ao que respondo que é verdade, somos dois. Mas como cidadã tenho o dever de defender pessoas quando vejo os seus direitos a serem violados.



Nisto saem todos do autocarro, que fecha as portas e arranca. Apanha as pessoas da paragem e ao virar-me para trás começo a ser violentamente insultada por todos os passageiros que permaneceram em silêncio todo o tempo.



«Não viu o que ele fez, estavam crianças! Não viu! Ele a atirar carrinhos do Lidl, se fosse consigo... Ainda o foi defender?»



Respondi que todos têm direitos e que os fiscais não podem identificar pessoas, ficar com os seus pertences e agredi-las.



- Podem, podem. Não viu o que ele fez! Estavam crianças!

- Minha senhora, estava a PSP e a GNR. Não podemos fazer justiça pelas próprias mãos.
- Ai não? Ele é que estava a fazer. E os fiscais têm razão. Ele merecia.
- Minha senhora, todos temos direitos. Mesmo os que cometem crimes.
- Você deve ser boa, deve.
- Nem imagina.



Pausa:

Portanto, um passageiro, que tinha o passe carregado e a máquina não obliterou, é abordado por seis fiscais. Explica. Querem passar-lhe multa. Pede para sair do autocarro. Bloqueiam-lhe a passagem e agridem-no. Responde com agressões. 6 fiscais agridem-no de volta. As pessoas saem do autocarro em pânico. As que ficam, acham que os fiscais têm razão, deviam ficar com a mochila dele e agredi-lo. As autoridades são chamadas, assistem e deixam que os fiscais continuem a exercer violentamente a sua inexistente autoridade.



Maluco! Maluco! Gritam as pessoas assustadas. Maluco!



Fim da pausa.



O senhor da frente disse-me que não respondesse a mais nada. Ouço uma passageira que tinha entrado a dizer:



- As pessoas não têm dinheiro para pagar o passe. Está muito caro. Ele já tinha saído do autocarro, não podem ficar com as coisas dele!



O senhor da frente diz-me: estão todos muito exaltados. Isto vai piorar. E os julgamentos são públicos. Sou advogado há 52 anos, sei bem o que está a sentir. Mas isto vai piorar. Por isso lhe disse que tivesse calma. Estava descorada. Logo hoje, que até tinha posto um bocadinho de blush.



É isto que esta política está a criar: desespero, violência, abusos de autoridade, linchamentos públicos. A razão deixa de existir. A solidariedade nem vê-la. O outro é sempre culpado. É sempre o que ameaça a nossa segurança, o nosso emprego, o nosso bem-estar. Não interessa que história há ali. Ganha o que tiver mais força. Sabendo disto não consigo deixar de sentir desprezo. Pela atitude dos fiscais e pela atitude das pessoas que prontamente me insultaram e pediam sangue. Pensei que talvez votassem na direita e achassem que assim é que se está bem. Que precisamos de intervenções musculadas contra os patifes que não têm dinheiro. Perguntava-me quando uma coisa destas iria acontecer. Foi hoje. Esperava, sinceramente, outra resposta por parte dos passageiros. Mas o capitalismo sabe demasiado bem o que faz. E as evidências estão aí.



*Foto - Police Athletic League, Stanley Kubrick