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sábado, 28 de julho de 2018

JOSÉ PACHECO PEREIRA . Os livros e os papéis que vão para o lixo


OPINIÃO

Agora que ando com um grupo de amigos e voluntários “aos papéis”, estou numa posição privilegiada para saber onde milhares de livros e arquivos vão parar.
28 de Julho de 2018, 6:42

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Livros são uma das coisas que nos nossos dias têm mais probabilidade de ir parar ao lixo. Não exagero, é mesmo assim. As razões são cada vez mais habituais: despejos ou mudanças de casa sob a pressão das novas rendas e leis do inquilinato, e as novas casas por sua vez não têm espaço para os livros, divórcios, falecimentos, e “os meus filhos não se interessam por isto”. Não me cabe julgar, até porque estou consciente do drama que muitas vezes é esta separação de alguém dos livros de uma vida.
Mesmo quando são oferecidos a bibliotecas ou instituições, a resposta habitual é que não os querem. Conheço muitas destas histórias e podem-se compreender algumas das razões da recusa, e saber que, nalguns casos, não existem mesmo condições para os receber — nem pessoal para os tratar, nem espaço para os acolher, nem recursos para os conservar. Tudo isto é verdade. Mas estes “nãos” são também favorecidos por uma concepção “moderna” do que é uma biblioteca pública, com muita animação, Internet, jogos, música e DVD, e com uma enorme dificuldade em pôr as pessoas a ler livros. É um problema que transcende as bibliotecas, e que se relaciona com a dificuldade de manter, no mundo contemporâneo de distracções e rapidez, actividades “lentas” e silenciosas como a leitura.
Não é uma questão de ter qualquer fetichismo com os livros, mas a de registar uma clara desvalorização do valor patrimonial das bibliotecas que explica a demasiada pressa, desleixo e pouco cuidado em responder que não às ofertas, ou em encontrar alternativas que encaminhem os livros, em função da sua natureza, para outros destinos e outras necessidades. E por isso ou vão de imediato para o lixo, ou ficam uns anos em caixas para depois irem também para o lixo, para o bolor e para os bichos que os comem com mais vontade do que os humanos.
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Esta desvalorização do carácter patrimonial das bibliotecas leva muitas vezes a considerá-los um “peso morto” que ninguém consulta. Também não tem de ser assim, porque há maneiras de dar vida ao “morto” com vontade e imaginação. Na verdade, as listas dos livros que nunca foram consultados, que alguns investigadores e bibliotecários fizeram, principalmente fora de Portugal, e que jazem nas estantes há décadas, sem nunca terem visto um olhar humano, são particularmente interessantes. Também não me custa perceber que a mesma falta de imaginação nas bibliotecas é o espelho do conservadorismo e apatia nos temas de investigação nas universidades. Por exemplo, eu gostava de ler alguma investigação sobre a “má” poesia (em edições de autor, mas não só), que enche estantes sobre estantes, por que é que é “má”, por que é que é escrita, é escrita por quem e quem é que acha que deve gastar dinheiro a publicá-la. Suspeito que algumas respostas não são as que pensamos ser óbvias.
Agora que ando com um grupo de amigos e voluntários “aos papéis”, estou numa posição privilegiada para saber onde milhares de livros e arquivos vão parar. Já se salvaram muitos e continuamos a fazê-lo, mas também já fomos buscar bibliotecas e arquivos literalmente ao lixo. E não estamos a falar de pequenas bibliotecas, ou de livros de refugo, se é que há disso. Estamos a falar de verdadeiras bibliotecas que não são ajuntamentos, e que contêm critérios de selecção e sinais da identidade de quem as fez, dedicatórias, notas nos livros, coerência entre si. E, ainda mais grave, estamos a falar de arquivos e papéis únicos, correspondência, manuscritos, etc., que, desaparecendo, fazem desaparecer com eles parte da nossa história. A micro, mas também a macro. Por exemplo, o lixo diz-nos que estão a desaparecer arquivos e livros que pertenciam a antigos altos funcionários coloniais, que estão a morrer e, com eles, parte da nossa história “ultramarina”. Voltaremos noutra altura aqui.
Tudo isto vem a pretexto de um acontecimento desta semana. Avisados por um amigo de que estava ao ar livre num sucateiro informal, muito informal, num improvável local, uma grande pilha de livros, fomos lá ver e conseguimos falar com o homem que os recebeu, para fazer um favor a uma junta de freguesia que os despejou de uma camioneta como lixo. O seu valor para o nosso homem é o do papel, neste caso cerca de tonelada e meia.

https://www.publico.pt/2018/07/28/culturaipsilon/opiniao/os-livros-e-os-papeis-que-vao-para-o-lixo-1839344

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Douro - Sabedoria popular preserva património oral

 

 

 «Há um sítio na aldeia de Zedes, do concelho de Carrazeda de Ansiães, que é conhecido por `ermo` e onde nenhuma erva nasce apesar de a terra ser boa. Dizem os antigos que aquele é o sítio da reunião das bruxas e que, por isso, a erva ali não consegue nascer». Assim começa a lenda «Ermo das Bruxas», uma das inúmeras histórias, passadas de geração em geração, e que constam do livro «Património Imaterial do Douro - Narrações Orais». 

.Ana Clara; Fotos: Livro 'Património Imaterial do Douro - Narrações Orais' | sexta-feira, 26 de Novembro de 2010

Ao todo são 250 lendas e 166 contos populares que estavam em risco de extinção que Alexandre Parafita fez questão de resgatar às palavras guardadas na sabedoria dos mais velhos. Um trabalho só possível graças à transmissão de geração em geração daquilo que o tempo não apagou.

Desde «A mulher enterrada viva» ao «Carpinteiro e as feiticeiras» passando pela «Enxada que vertia sangue», são várias as lendas e contos recolhidos em Tabuaço, Carrazeda de Ansiães e Vila Flor. O autor explica ao Café Portugal como nasceu a ideia de preservar este património de memória popular. Um trabalho de recolha que demorou três anos.

O projecto nasceu em 2007 para cumprir um dos objectivos que presidiu à Função do Museu do Douro (onde a obra foi apresentada oficialmente a 26 de Novembro de 2010) e que reside na inventariação, recolha, investigação, valorização e divulgação do património imaterial do Douro Vinhateiro.

«Na sua primeira fase, o projecto incidiu sobre o concelho de Tabuaço, para, ao mesmo tempo, implementar a entrada em funcionamento neste município de um dos pólos museológicos do Museu do Douro (o Museu do Imaginário Duriense), o que foi conseguido», afirma o mentor da obra.

Alexandre Parafita, também investigador do Centro de Tradições Populares Portuguesas da Universidade de Lisboa, resgatou à memória de cerca de cem idosos dos concelhos de Vila Flor e Carrazeda de Ansiães, dezenas de peças de romanceiro e cancioneiro, lengalengas, rezas e mezinhas.

O autor salienta que a inventariação e o estudo do património imaterial é hoje um «imperativo das sociedades civilizadas, não só no quadro de uma preocupação global com a diversidade e o entendimento entre as culturas, mas também como forma de potenciar novas ofertas culturais a partir do exotismo e raridades etno-tradicionais».

«O Museu do Douro, com base neste trabalho, está em condições de estimular e potenciar projectos de turismo cultural e turismo do imaginário e outros associados aos lugares de memória da Região», sustenta.

Sobre a forma como os intervenientes reagiram a este levantamento, Alexandre Parafita diz que os idosos são, geralmente, «verdadeiras bibliotecas de saberes acumulados».

«Se soubermos estabelecer com eles uma saudável relação convivial, prontamente desfiam as suas memórias e, desse modo, lá vêm as lendas, as variantes de contos tradicionais, os romanceiros, cancioneiros e tudo o mais que tiverem para transmitir. E reagem muito bem, sobretudo quando percebem que, quem está ali para os ouvir, é alguém disponível para dar alguma nobreza aos seus saberes, e não para os ridiculizar, como tantas vezes sucede», acrescenta.

Segundo Alexandre Parafita, as muitas dezenas de contos tradicionais inventariados, obedecem a um critério científico adoptado pelos últimos catalogadores internacionais, e inscrevem-se em «sub-grupos de contos de animais, contos religiosos, contos de fadas, contos do ogre estúpido, mas também contos jocosos e divertidos (de padres, mulheres levianas, avarentos, doidos) e contos enumerativos».

Por sua vez, as inúmeras lendas traduzem explicações populares de fenómenos sagrados, diabólicos, mitológicos, históricos, entre outros, onde entram os episódios milagrosos sobre a origem de capelas, santuários, ou cruzeiros. Há, ainda, os rituais de almas penadas em tornos de antigas necrópoles, ou as sagas dos lobisomens nas suas encruzilhadas.

Sobrenatural e pagão

Em muitos destes contos e lendas existe uma grande marca do sobrenatural cristão e pagão. O autor realça que as populações rurais são profundamente religiosas e, nessa medida, são muito influenciadas pelo sobrenatural atrás indicado, mantendo formas de comunicação com o Além, através de orações, rezas e ensalmos, que traduzem momentos de inquietação absolutamente singulares.

«E nestes cenários lá vêm também as lendas de milagres e de almas inquietas, mas também de metamorfoses diabólicas, de lobisomens, etc. Se pretende saber se hoje as pessoas ainda acreditam, respondo-lhe que em muitos casos não tenho dúvidas disso. Algumas das lendas de almas penadas, de bruxas ou lobisomens, têm ou tiveram protagonistas conhecidos nas comunidades», sublinha o autor.

«Quando em Vilas Boas a alma de uma menina da aldeia apareceu nua na procissão nocturna, as pessoas acreditaram, pois a situação era verosímil no contexto creencial local. Os pais haviam-se esquecido, após a sua morte, de distribuir as roupinhas da filha pelos pobres, contrariando um costume ancestral», exemplifica.

O autor considera importante que o inventário nacional do Património Cultural Imaterial, a que Portugal está obrigado por força da convenção da UNESCO que subscreveu, se faça com «celeridade e com critério».

«Com celeridade, para recuperar a tempo o riquíssimo potencial da memória de quem ainda estão entre nós; com critério, para garantir a genuinidade do espólio cultural resgatado, evitando que sofra os flagelos da manipulação ou aculturação», argumenta.

E está convicto de que a memória oral «jamais deixará de ser um recurso importante na reconstrução da história». De resto, muitos documentos históricos tiveram, em algum tempo, «a memória oral como fonte credível».

«Muitas lendas, que tiveram a oralidade como meio exclusivo de transmissão, têm sido fundamentais para a descoberta de vestígios arqueológicos no nosso território, e têm permitido também equacionar factos históricos ignorados, ou reequacionar outros que vêm persistindo em nebulosas mais ou menos controversas», explica Alexandre Parafita.

Por fim, realça que o inventário do Património Imaterial do Douro não vai ficar por aqui. «Há muito trabalho para fazer, pois o Douro Vinhateiro tem ainda dezenas de outros concelhos muito ricos culturalmente e não seria justo que ficassem de fora. Contudo, tão importante como a realização do inventário é a realização dos estudos necessários sobre o espólio inventariado», conclui.
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Douro - Património oral resgatado para livro

No dia 26 de Novembro é lançado o segundo volume da obra Património Imaterial do Douro - Narrações Orais. O projecto empreendido pelo Museu do Douro, Peso da Régua, recolheu lendas e contos guardado na memória dos mais velhos.

Café Portugal | quarta-feira, 3 de Novembro de 2010

Lendas e contos de mouros, bruxas ou lobisomens, histórias populares guardadas na memória dos mais velhos e, por isso, em «risco de extinção» foram agora resgatados para livro. No total foram inventariadas 250 lendas e 166 contos populares.

O projecto faz parte do inventário do património imaterial da região duriense que está a ser promovido pelo Museu do Douro desde 2007 e que tem como coordenador científico Alexandre Parafita.

O investigador disse que o segundo volume da obra Património Imaterial do Douro - Narrações Orais é lançado a 26 de Novembro.

Alexandre Parafita resgatou ainda da memória de cerca de cem idosos dos concelhos de Vila Flor e Carrazeda de Ansiães «várias dezenas de peças de romanceiro e cancioneiro, lengalengas, rezas e mezinhas».

«Estes dois municípios possuem índices elevados de população idosa, profundamente influenciada pelo sobrenatural cristão e pagão, que continua a gerar cenários de inquietação no quotidiano rural», salientou.

Para o investigador, estas pessoas são os «porta-vozes da memória». Aqui, a «memória oral que se projecta através das lendas permite-nos identificar e conhecer um pouco desses mistérios que vêm do passado longínquos», frisou.

Parafita referiu que a memória oral de muitas aldeias referencia locais de aparições milagrosas, alguns associadas a procissões nocturnas de almas penadas, lugares onde se esconjuraram bruxas, demónios e lobisomens, mas também de refúgios de leprosos, de mouras encantadas e de valiosos tesouros protegidos pelo Livro de São Cipriano.

Estas lendas e contos revelam ainda vestígios de interesse arqueológico, explicam as origens de capelas, cruzeiros e santuários, ou a extinção de povoações por invasões de formigas, e ainda identificam lugares de transfiguração de almas penadas e suas revelações aos mortais (como acontece nas aldeias de Amedo, Arnal, Vilarinho das Azenhas e Vilas Boas).

Mas, por algumas destas aldeias, como Foz Tua, Tralhariz, Pombal de Ansiães, Vila Flor, Ribeirinha ou Vilas Boas, também se escondem histórias de rituais de lobisomens.

O investigador salientou que, com a narração da cura de uma criança leprosa, se explica a construção do santuário da Senhora da Assunção em Vilas Boas (Vila Flor), e que devido aos muitos ossos encontrados num vale após a mortandade que os cristãos infligiram nos mouros ao expulsá-los do castelo de Ansiães, nasce a justificação popular do nome de Vale da Osseira.

Alexandre Parafita frisou que o inventário vai prosseguir, dando resposta a um desafio da UNESCO para a salvaguarda do património imaterial.

Doutorado em Cultura Portuguesa, Alexandre Parafita é investigador do Centro de Tradições Populares Portuguesas da Universidade de Lisboa.
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Douro - Viagem ao Portugal do fantástico

O País tem muita História por registar no que respeita à memória oral, aquela que passa de geração em geração, nas margens da palavra escrita. Relatos que são um património vivo de muitas comunidades. Há um Portugal do fantástico, lugares onde se esconjuraram bruxas, demónios e lobisomens, sítios de aparições milagrosas, ermos com almas penadas, refúgios de leprosos e de mouras encantadas. Lendas e contos reunidas no segundo volume da obra «Património Imaterial do Douro - Narrações» e que o Café Portugal publica em exclusivo.

Café Portugal; Fotos: 'Património Imaterial do Douro - Narrações Orais' | sexta-feira, 26 de Novembro de 2010

Os idosos, os mais velhos, os que têm a sapiência na voz, são eles quem nos conduzem a mistérios e enredos que nos transportam a um passado que já vai longe. São lendas e contos reunidas por Alexandre Parafita, autor do livro que evoca as histórias guardadas nas memórias das populações de Tabuaço, Carrazeda de Ansiães e Vila Flor. Porque, o Douro também guarda personagens carregadas de mistério…



A mulher enterrada viva

A história de um padre, de uma criança e de malfeitores. A morte e os mistérios que a noite encerra numa lenda que mostra o pagão cristão. LER






O  «ermo» das bruxas

O «ermo», expressão que retrata um local sombrio, é local de reunião de bruxas. Ali estes seres possuídos de maldade faziam as rezas contra todos aqueles a quem queriam mal. LER.




                              


A menina nua na procissão

Almas penadas. Crenças ligadas à morte. Esta é uma lenda que conta como a rotina popular pode mudar o desfecho da fé cristã das populações. LER






O carpinteiro e as feiticeiras

As más acções também se cobram. Para os lados do Tua, houve tempos em que feiticeiras atormentavam aqueles que se excediam. São estórias onde o medo e o sobrenatural se misturam sempre com lições de moral pelo meio. LER



                          

            


A enxada que vertia sangue

A fé dos cristãos é retratada neste conto de forma muito peculiar. Os descrentes, aqueles que não tentam sequer acreditar na existência de Deus, têm castigos divinos à sua espera. Os homens, nas lendas populares, são sempre os alvos. LER
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domingo, 22 de agosto de 2010

Avieiros - Alves Redol

Avieiros

Alves Redol

Avieiros

Portugália, 1942
1ª edição
"... Incerto o pão na sua praia, só certa a morte no mar que os leva, eles partem. Da Vieira de Leiria vêm ao Ribatejo. Aqui labutam. Alguns voltam ainda, roídos das saudades do seu Mar. Muitos ficam. Avieiros lhes chamam na Borda de Água..."
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Um dos primeiros e mais marcantes romances do autor.
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Alves Redol 
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Nasceu em 1911 em Vila Franca de Xira. Romancista e Dramaturgo, foi um dos expoentes da literatura neo-realista em Portugal. Os dramas humanos do Ribatejo e do Douro são o tema central da sua obra, descritos em romances como Gaibéus, Barranco de Cegos ou no ciclo Port-Wine. Alves Redol  é, em si mesmo, uma personagem exemplar num movimento literário cuja ambição maior era fazer uma arte do povo e para o povo.
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O Mirante, diário on-line
Edição de 14-02-2008

Nauticampo promove comunidade no Parque das Nações
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Cultura dos pescadores avieiros quer ser património nacional




A cultura dos pescadores avieiros - que povoaram as margens do Tejo e deixaram marcas culturais na zona de Azambuja, Salvaterra de Magos e Vila Franca de Xira – quer ser elevada a património nacional. É pelo menos esta a intenção de um projecto que está a ser divulgado na Nauticampo 2008, um evento que decorre no Parque das Nações, em Lisboa, até 17 de Fevereiro, num espaço que conta com mais de 54 metros quadrados. 
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Os responsáveis pelo projecto, que envolve já 75 instituições, vão mostrar um barco avieiro, artes de pesca avieiras, fotos históricas, quadros a óleo sobre a temática e apresentarão um filme em formato DVD. Os responsáveis do projecto sublinham a “viragem histórica” na edição deste ano da Nauticampo, num “contributo muito importante para o desenvolvimento e dinamização da cultura ribeirinha do Tejo e em particular da cultura avieira”. “Em vez de uma ‘orientação ao produto’ (barcos, acessórios e equipamento), a Nauticampo vai evoluir no sentido de uma ‘orientação aos estilos de vida’ (paixão pelo mar, gosto pela aventura e forte ligação à família)”, sublinham.
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Para dia 16, está agendada uma conferência sobre as “vidas ribeirinhas na construção da identidade nacional”, promovida pela Associação Náutica da Marina do Parque das Nações, uma das instituições que se associou ao projecto, e pelo Centro Náutico Moitense.
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O projecto que visa elevar a cultura avieira a património nacional teve a sua origem numa investigação sobre os avieiros do Patacão (Alpiarça), realizada em Junho de 2006. Desde então, a Associação Independente para o Desenvolvimento Integrado de Alpiarça (AIDIA) e a Escola Superior de Educação de Santarém, que coordenam os trabalhos de candidatura, contactaram 135 instituições e pessoas, tendo sido realizadas cerca de 70 reuniões, incluindo o I Encontro Regional da Cultura Avieira, em Junho de 2007.
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“O interesse suscitado pelo projecto levou a que tenham aderido até esta data 75 das instituições e pessoas que foram contactadas”, afirmam. O objectivo é entregar a candidatura da cultura avieira a património nacional até 2009, depois da realização de um encontro nacional previsto para Outubro deste ano. 
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Os pescadores avieiros são provenientes da aldeia piscatória de Vieira de Leiria, concelho da Marinha Grande. No Inverno rumavam ao Tejo à procura de sustento. Deixavam o mar salgado e bravio e partiam no encalço da água doce onde pescavam o sável. Muitos viviam nos barcos avieiros, cobertos apenas, por uma lona. O quarto era à proa, a cozinha ao meio e a oficina da pesca à ré.
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A comunidade avieira também ergueu nas margens do Tejo as típicas casas palafíticas assentes em estacas de madeiras. Uma tradição que levaram da Praia da Vieira e que impedia que as cheias atingissem as casas. Com o passar dos anos os donos das terras da Borda d’Água autorizaram-nos a estabelecer-se nas margens do Tejo, onde começaram a construir as primeiras barracas. 
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Foram várias as aldeias construídas ao longo do Tejo, segundo a tradição dos pescadores da Praia da Vieira, mas hoje poucas resistem. 
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Além da Palhota, no concelho do Cartaxo, a única que conserva maiores semelhanças com a tradição avieira, ainda existem as ruínas do Patacão, aldeia abandonada em 1988. Nas Caneiras as novas casas de tijolo e as de madeira, pré-fabricadas, tomaram o lugar das barracas avieiras. O Esteiro do Nogueira, em Vila Franca de Xira, deu lugar a uma moderna marina e na foz do Alviela, as duas aldeias chamadas Barreiras do Rio e Barreiras do Tejo estão desde meados do século passado à espera que a chuva e o vento as deite abaixo.
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“Teimosos os avieiros sempre lutaram pela sobrevivência desde que viram que o Tejo tinha começado a morrer devagar. Os seus filhos, que emigraram ou foram trabalhar para as fábricas, ficaram à espera, sempre com os olhos postos no rio. E sabe-se lá porquê, o peixe que tinha desaparecido, voltou. Voltou o sável, voltou a lampreia. E voltaram à pesca os filhos dos últimos avieiros do Tejo, num regresso às raízes, enchendo o rio de belos barcos com a proa virada para o céu”, lê-se no site da Palhota Viva (www.palhotaviva.pt). A comunidade apaixonou escritores e foi motivo de inspiração de livros e filmes. O escrito neo-realista Alves Redol imortalizou também a comunidade com o romance dedicado aos “Ciganos do Rio”, como lhes chamou.
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Casa típica onde Alves Redol viveu alguns meses
Imagem captada a 30 de Junho de 2007
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http://www.leme.pt/imagens/portugal/rotas/rota-dos-avieiros/0034.html
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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Dois livros para preservar a língua colorida que cá temos - Porto

Sabe o que é um morcão? Uma trolitada? Um calhau com dois olhos? Encher-se de moscas? Se respondeu negativamente, não é do Norte, carago. Mas nem tudo está perdido. Dois livros lançados recentemente podem ajudá-lo a sobreviver a qualquer eventual incursão na terra do cimbalino. 
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Por Jorge Marmelo (texto) e Paulo Pimenta (foto)


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Alfredo Mendesa Se o Porto é uma naçom? É consoante. Mas, derivado de certas peculiaridades do português que aqui se fala, pelo menos dois livros, nos últimos meses, procuraram fazer um levantamento de algumas expressões e palavras características da cidade e da região ao seu redor. Heróis à Moda do Porto, o primeiro a surgir, atingiu os tops de vendas. E já este mês chegou às livrarias Porto, Naçom de Falares, do jornalista Alfredo Mendes. Não são propriamente exercícios de linguística ou de antropologia da língua, mas servem para demonstrar que o Porto tem um vocabulário que manda ventarolas e que continua a suscitar interesse.

Entre-se no Mercado do Bolhão num dia qualquer (a passada quinta-feira, por exemplo). Não será preciso andar por lá muito tempo para escutar duas clientes que, falando uma com a outra, se queixam de que um determinado comerciante é "muito trafulha". Mais adiante, até um marmanjo de quase 40 anos se vê transformado em "freguesinho". Mas basta, afinal, andar no moderníssimo metro para, à hora de almoço, ouvir o condutor avisar "o animal" (em Lisboa, chamam-lhe "emplastro") de que o segurança vai entrar para lhe acertar o passo - pô-lo na ordem, ou lá o que é.

O falar à moda do Porto, sem querer estar a armar ao pingarelho ou a arrotar postas de pescada, distingue-se basicamente por peculiaridades fonéticas (o famoso sotaque, que pode ser mais ou menos acentuado), pela utilização benévola do palavrão e pela invenção de palavras e expressões curiosas. Se o sotaque tripeiro tem sido objecto de inúmeras apropriações artísticas, do personagem José Esteves, de Herman José, aos mais recentes locutores do Telerural, passando pelas canções do Trabalhadores do Comércio, os dois livros recentemente lançados incidem sobretudo sobre as palavras e expressões próprias do vocabulário regional.

Património imaterial
"São palavras que vão desaparecendo e que são um património imaterial precioso, colorido", explica Alfredo Mendes, o autor de Porto, Naçom de Falares. A língua, diz, "está a ser normalizada e padronizada pelas televisões, por essa espécie de lisboetês que falam os locutores e os actores".

Há cerca de trinta anos, e sem nenhuma pretensão, Alfredo Mendes começou a coleccionar palavras e expressões que escutava nos locais onde se deslocava enquanto jornalista. "Tomava notas em papéis, nos guardanapos dos cafés", recorda. A obra foi, assim, crescendo por brincadeira e às mijinhas, para utilizar uma das 1735 expressões que Alfredo Mendes recolheu, e só passou a existir realmente quando o editor de um livro que dedicou ao café Piolho lhe perguntou se tinha mais alguma coisa que quisesse ou pudesse publicar. "Lembrei-me que tinha isto lá em casa", remata.

O livro inclui, para além do avantajado glossário, pequenas histórias ilustrativas do modo de falar da cidade e ainda um conjunto de notas biográficas sobre personagens curiosas e célebres, do Duque da Ribeira à Badalhoca das sandes de presunto, passando pelo boavisteiro Zé do Laço.

Bastante diferente foi o processo que levou à criação de Heróis à Moda do Porto, um livro que inclui um conjunto de contos clássicos (a Branca de Neve, por exemplo) contados ao jeito tripeiro. João Carlos Brito, editor e linguísta, encontrou num grupo de alunos de uma oficina de escrita criativa mão-de-obra ao preço da uva mijona e, para além do trabalho criativo, construiu um glossário com cerca de 450 expressões e palavras típicas daquilo a que ironicamente designam como o portoguês.

O livro já vendeu mais de dez mil exemplares e transformou-se num "fenómeno curiosíssimo", ao ponto de a editora Lugar da Palavra ter lançado também uma obra semelhante com sotaque alentejano. "É uma forma de, sem perder a qualidade académica, defender o património linguístico com algum humor, preservando a língua", considera João Carlos Brito.

Bué e tótil
Alfredo Mendes concorda: "Em vinte anos, há palavras e expressões de que já ninguém se lembra e que quase ninguém usa. Algumas são expressões que vieram do Português arcaico, do século XIV, ou que vieram do Douro e de Trás-os-Montes. Mas as pessoas convenceram-se de que é parolo falar assim".

João Carlos Brito recorda, a propósito, um teste que realizou com alunos do segundo ciclo com as palavras "tótil" e "bué", sinónimos populares e juvenis de "muito". "No Porto, há vinte anos, dizia-se tótil e em Lisboa, por causa da influência africana, bué. Hoje o tótil desapareceu e aqui no Porto diz-se bué tótil de vezes", graceja. "As distâncias, que antes ajudavam a preservar as especificidades, esbateram-se e hoje, com os chats na Internet, aquilo que se diz no Porto diz-se também, segundos depois, no resto do país", acrescenta para ilustrar a normalização que vai atingindo a língua.

As palavras, diz o povo, "leva-as o vento". "Mas a estas palavras isso já não acontecerá, ficam fixadas no livro", argumenta Alfredo Mendes. Não menos importante, a adesão do público a livros como Heróis à Moda do Porto demonstra que as pessoas ainda se interessam pelo assunto e gostam de reencontrar as suas origens também no que à língua diz respeito. "A capital caricaturiza tudo aquilo que é diferente e isso gera um complexo de inferioridade. Mas estes trabalhos ajudam a esbater esse preconceito. Se as palavras estão num livro, então talvez já não sejam parolas", reflecte o jornalista, convencido de que Porto, Naçom de Falares também se pode transformar num sucesso de vendas.

O fenómeno é também explicado por João Carlos Brito, segundo o qual existe no Porto, como talvez em mais lado nenhum, uma "identificação das pessoas com a sua cidade e a sua língua, um orgulho muito grande". "De forma indirecta, o livro promove um reencontro das pessoas com as suas raízes e é muito curioso que o epicentro das vendas dos Heróis à Moda do Porto tenha sido o Porto, enquanto o livro do Alentejo vende muito mais em Lisboa", revela.

Haverá, claro, quem não aprecie expressões como "gostar do bafo no cachaço", "via de serventia" ou "andar à mama", mas, a esses morcões, será melhor mandá-los encherem-se de moscas. Como o texto já vai grande à fartazana, trataremos agora de dar corda aos vitorinos e ir tratar de outra vida.
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Continua no Galeria & Photomaton 
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Trabalhadores do Comércio - O Norte é uma Naçóm, Carago

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O Tal Canal - José Esteves (Herman José)

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José Esteves - Herman José - Bámos lá Cambada

 

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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Biblioteca Nacional adquiriu espólio do escritor Urbano Tavares Rodrigues



Literatura


Público - 28.04.2010 - 18:31 Por Lusa


A Biblioteca Nacional (BN) adquiriu o espólio do escritor Urbano Tavares Rodrigues, que testemunha perto de seis décadas de criação nas áreas de conto, romance, ensaio, crítica, ficção, crónica e poesia, disse hoje fonte da instituição.

A aquisição do espólio de Urbano Tavares Rodrigues, 86 anos, insere-se no programa que a BN tem vindo a desenvolver no sentido de conseguir adquirir espólios de escritores vivos, como fez com Almeida Faria e Eugénio Lisboa, disse à agência o director da biblioteca.

Jorge Couto sublinhou que o programa - conhecido na biblioteca como o Clube do espólio dos Escritores Vivos por analogia ao título do filme o Clube dos Poetas Mortos - não é fácil, uma vez que é difícil os escritores separarem-se dos manuscritos que deram origem às suas obras e de um conjunto de obras, incluindo correspondência, que testemunham a sua vida.

Do espólio de Urbano Tavares Rodrigues, Jorge Couto destacou peças que eram do pai do escritor - o jornalista Urbano Rodrigues -, sublinhando que o facto da BN adquirir estes documentos preserva-os de eventuais dispersões no futuro.

"Com este programa, além de preservarmos o património literário e cultural, estamos também a desenvolver um projeto de arqueologia literária dos próprios autores, uma vez que a produção literária sofreu grandes modificações nas últimas décadas", acrescentou.

O diretor da BN disse ainda que no futuro a biblioteca irá contactar escritores que produzem só de forma informática de modo a que a memória de criação literária seja preservada nos seus diferentes tipos de produção.

O espólio contempla manuscritos de autor, alguns dos quais em várias versões, muita correspondência recebida de Portugal e do estrangeiro, algumas centenas de cartas, bilhetes e telegramas, nomeadamente de Fidelino de Figueiredo, Gaspar Simões, Álvaro Cunhal, Carlos de Oliveira, Jacinto do Prado Coelho, Aquilino Ribeiro, Cardoso Pires, Miguel Torga, Domingos Monteiro, David Mourão-Ferreira, Manuel da Fonseca, António Ramos Rosa ou Sophia de Mello Breyner.

Cartas de Manuel Teixeira Gomes, dirigidas a Urbano Rodrigues - seu biógrafo, jornalista e pai de Urbano Tavares Rodrigues - cartas publicadas apenas parcialmente na edição recente "O Cristal da Palavra", por Urbano Tavares Rodrigues e Vítor Wladimiro Ferreira, uma outra carta de Afonso Costa também a Urbano Rodrigues, que foi seu secretário, e um bilhete de Afonso Lopes Vieira para o mesmo destinatário são outros documentos que fazem parte do conjunto adquirido pela Biblioteca.

Nascido em Lisboa em Dezembro de 1923, Urbano Tavares Rodrigues é licenciado em filologia românica e é autor de uma vasta obra em diversos domínios.
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