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terça-feira, 21 de julho de 2026

Margarida Davim - Muletas para pobres, burcas, ciganos e as ficções que engolimos


 

Foto Maxicam| Dreamstime.com

* Margarida Davim

Há uma coisa que a minha experiência me tem demonstrado: quando optamos por não virar as costas a quem não pensa como nós, há uma porta que se entreabre. Quando não tratamos o outro como um monstro, aproximamo-nos

Ele parece velho. As costas curvadas, a barriga protuberante, as calças beges, o casaco azul-escuro de malha clássico. O jeito pausado e definitivo de falar. Não fossem as marcas do acne ainda recente e os olhos azuis quase infantis no rosto muito redondo e nada diria que tem apenas 25 anos. Conheci-o em Curitiba, onde me serviu de guia para a empresa turística onde trabalha desde os 14 anos, um emprego infantil que a lei brasileira permite ao abrigo dos “estágios mirins”, que obrigam a que os menores tenham bom aproveitamento escolar e horários compatíveis com as atividades letivas para poderem desempenhar funções administrativas remuneradas e com descontos. Filho da classe trabalhadora, furou a vida com o método irrepreensível com que regista todas as atividades do dia e as notas das reuniões no seu Moleskine preto e o ímpeto de trabalho que o fez não ter fins de semana nem folgas durante um ano e meio seguido.

domingo, 31 de maio de 2026

Margarida Davim - Os ricos também choram

 


 Opinião Tudo é política

* Margarida Davim

No lobby da festa apareceram pequenas garrafinhas, daquelas que costumam ser usadas para servir bebidas, cheias de urina, com a cabeça calva de Bezos no rótulo, numa alusão às regras da Amazon que tornam um inferno uma simples ida à casa de banho durante um turno. Junto à passadeira vermelha, os manifestantes gritaram uma frase que resume bem o momento em que as descidas de impostos aos mais ricos se traduzem diretamente na falta de cuidados a todos os outros. “We need healthcare, not a another billionaire.”

Os vestidos de caudas impossíveis, os corpetes ao estilo de armaduras, as maquilhagens exageradas e os cabelos meticulosamente penteados ficaram subitamente expostos ao seu ridículo vazio. Era possível vê-lo nas caras dos convidados, que tentavam fugir rapidamente ao protesto que se desenrolava à porta. “Devias ter vergonha, Jeff Bezos”, lançava, com uma dignidade atordoante, uma mulher negra de 72 anos, que continua a ter de trabalhar num armazém da Amazon para viver, apesar da idade avançada. “Nós merecemos essa festa, nós merecemos muito mais do que recebemos”, avisava Mary Hill, projetada no arranha-céus, sem medo de ameaçar um dos senhores do mundo. “Há força nos números e há muitos mais de nós do que de vocês, bilionários.” Na rua, as pessoas comuns passavam e olhavam com um sorriso de admiração para aquela mulher franzina que subitamente tinha alcançado o tamanho de um gigante e, com a sua força, reduzia o multimilionário à sua imensa fragilidade de homem sozinho, capaz de ser esmagado pelos mesmos que oprime e explora.

O protesto não mudou o mundo. Um protesto sozinho nunca muda nada. Mas alguma coisa tremeu. E a prova disso chegou, pouco depois, quando o milionário CEO da empresa americana Vornado, Steven Roth, mostrou o quão temida e poderosa é esta mensagem ao comparar o slogan “tax the rich” a – imagine-se – um “discurso de ódio”. Roth teve a infelicidade de denunciar este ódio de classe na mesma semana em que saiu nos Estados Unidos um estudo que mostra que cerca de metade dos americanos não ganha, trabalhando, o suficiente para viver. “Os ricos”, disse ele ao New York Times, “são o epíteto do sonho americano. Estão no topo da pirâmide económica americana por uma razão. Deviam ser louvados e alvo de gratidão”, defendeu o milionário, para quem a simples ideia de que a sua riqueza deve ser taxada é semelhante a uma “tirada racista”.

A desfaçatez com que se compara um pedido de justiça social a ataques racistas só é possível graças a uma construção ideológica que associa riqueza – mesmo a mais desmedida – a mérito, ao mesmo tempo que se cria a ilusão de que a fortuna é um estatuto acessível a quem se esforce. A última década foi a era da pornografia da riqueza. Os média e as redes sociais encheram-se de imagens a que chamaram “aspiracionais”, ao mesmo tempo que as marcas de luxo encontravam formas de vender produtos aos menos abonados para que de alguma maneira eles se sentissem parte de um clube no qual nunca iriam verdadeiramente entrar. Os restaurantes passaram a ser gourmet. Os hotéis transformaram-se em boutiques. E uma massa de gente da classe trabalhadora ganhou assim a ilusão de estar mais perto de ser rica.

Esse é o truque. Que penses que és rico porque compraste um Tesla ou um BMW, porque foste de férias para um resort qualquer, porque podes dar-te ao luxo de ir aos restaurantes da moda, porque tens um salário de diretor, seguro de saúde e regalias. Isso não é ser rico. Parece que é, sobretudo quando há tanta gente que mal chega ao final do mês, tanta gente a adiar consultas médicas porque não pode pagá-las, tanta gente sem ter como pagar uma casa. Mas este truque é tão bem feito que até esses, tantas vezes muito perto de serem pobres, se sentem quase ricos, porque esgotaram as poupanças num iPhone ou andaram a amealhar o ano inteiro para uma semana em regime de “tudo incluído”.

E esse truque é importante precisamente por aquilo que nos disse Mary Hill, a trabalhadora que arrasta a sua velhice num armazém da Amazon para viver. “Porque há força nos números.” Porque há milhões e milhões de trabalhadores e apenas 12 pessoas que concentram mais de metade da riqueza da Humanidade. Repitam comigo: 12 pessoas. E pensem sobre isso de cada vez que acharem que são ricos ou que um dia vão ser ricos. Porque essa ideia é o que vos tem empobrecido. É graças a essa ideia que todos os dias perdemos direitos no trabalho, na saúde, na educação, na habitação. É essa ideia que permite que mais de metade da riqueza do mundo esteja nas mãos de uma dúzia.

O algoritmo do Instagram começou a mostrar-me memes sobre como os níveis de desigualdade regressaram a um ponto só comparável com o período antes da Revolução Francesa. Lembram-se da Revolução Francesa da “igualdade, liberdade, fraternidade” e das guilhotinas? O tal CEO americano deve ter-se lembrado e, por isso, tremeu. E por isso acusou de racismo quem só pede um mundo um pouco mais justo, quem só pede que haja uma maior distribuição da riqueza que existe e é criada todos os dias por quem trabalha. Quando pela primeira vez em décadas alguém aparece e os desafia de frente, a primeira reação é gritar “crime de ódio”, sem se lembrarem das vezes que escarneceram os “wokes” que lutavam contra a discriminação de minorias. Afinal, não existe minoria mais minoritária do que a dos milionários.

Na TVI, passa agora uma telenovela com o título Os Ricos Também Choram. É uma versão de um drama mexicano que se estreou em 1979, precisamente quando começou no mundo a onda que há mais de 40 anos tenta desmantelar as políticas públicas de redistribuição da riqueza. O título é comovente. Mas talvez o “também” esteja a mais. Afinal, humanos são só aqueles que ascendem ao topo da pirâmide. Louvemos o seu mérito e estejamos gratos pela sua existência. 

22.05.2026  

https://visao.pt/opiniao/tudo-e-politica/2026-05-22-os-ricos-tambem-choram-cronica-de-margarida-davim/

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Margarida Davim - Os ciganos que fazem frente a Ventura

* Margarida Davim 

"Bruno Gonçalves e Paulo Domingos são dois dos seis ciganos que vão a tribunal exigir a retirada dos cartazes racistas. Olga Mariano é uma das oito testemunhas. As suas histórias desmontam ideias feitas e dão corpo a um povo perseguido que, mais de 500 anos depois de chegar a Portugal, ainda tem de reivindicar a sua portugalidade", escreve Margarida Davim na Visão.

Olga Mariano hesita em falar. “Não quero dar mais palha a André Ventura. Ele quer usar-nos como uma escada para subir.” Mas o seu testemunho é importante. Aos 75 anos, poeta publicada, Olga confunde os últimos 27 anos da sua vida com o associativismo cigano e com a defesa da igualdade de género “para ciganos e não ciganos”. E é também por isso que o seu nome está entre as oito testemunhas indicadas pelo advogado Ricardo Sá Fernandes, na ação especial de tutela de personalidade, interposta por seis ciganos que querem obrigar Ventura a retirar os cartazes em que diz que “os ciganos devem cumprir a lei”, deixando claro que a liberdade de expressão não serve para promover a discriminação. “Como portuguesa que sou, sinto-me vandalizada na minha portugalidade. Ser cigano é uma cultura. Não admito a ninguém que deite abaixo a minha nacionalidade. A minha bandeira é a portuguesa. Dou voz a milhares de portugueses com uma cultura chamada cigana”, concede finalmente Olga.

Na verdade, não há muitos ciganos em Portugal. Estima-se que sejam entre 50 e 70 mil, e quem pertence à etnia que chegou a Portugal por volta de 1462 garante que não se deve falar em “comunidade cigana”, mas sim em “povo cigano”. “Não somos uma comunidade. Somos diferentes comunidades que fazem parte de um povo. É preciso conhecer”, diz Paulo Domingos, um dos autores da ação e presidente da Plataforma Nacional para os Direitos dos Ciganos. Mas voltemos a Olga Mariano para perceber como dentro deste povo há percursos e vidas diferentes, ainda que com uma cultura em comum. “Eu posso ser tudo o que eu quiser sem deixar de ser quem sou”, diz Olga, que foi a primeira mulher cigana a ter carta de condução em Portugal, ainda nos anos 1960, com o País mergulhado em ditadura e os direitos das mulheres longe de estarem garantidos.

A primeira cigana a ter carta

Olga nasceu numa família que, por ter casa própria no Alentejo, conseguiu escapar ao nomadismo forçado, incentivado por uma lei que só deixou de estar em vigor em 1985 e que decretava que a GNR devia manter uma vigilância apertada aos nómadas, leia-se ciganos, que, apesar de terem obtido a cidadania portuguesa em 1822, foram perseguidos em Portugal ao longo dos séculos. Não ser nómada permitiu a Olga Mariano, às suas duas irmãs e ao seu irmão fazerem a quarta classe. “Os meus pais sempre lutaram para que os filhos tivessem o quarto ano.” Ir além disso era economicamente impossível, mas depois de o pai deixar o Alentejo, onde era tratador de equídeos, e rumar ao Fogueteiro em busca de trabalho, Olga deu por si a ser fundamental para a família. Como foi a primeira a concluir os estudos, era a única que podia ter a carta de condução e, por isso, aquela que podia guiar a carrinha da família até às feiras em Cascais, onde vendiam nessa altura.

“Sempre fui de trabalho”, diz a cigana que garante nunca ter visto o pai discriminar as filhas ou tratar mal a mulher. “A minha mãe, que nasceu em 1917, e o meu pai, que nasceu em 1912, nunca fizeram distinção entre homem e mulher. A minha mãe sempre acompanhou o meu pai em tudo.” Os pais casaram-se quando ambos tinham mais de 20 anos e Olga casou-se também já depois dessa idade. “Isso de que os ciganos se casam em crianças são ideias preconcebidas. Tenho um filho que se casou aos 19, outro aos 30, com uma noiva que tinha 29, e são os dois ciganos. E a minha filha casou-se com 30.” E os casamentos arranjados? “Existe aquela fábula de pedir os miúdos quando são jovens, como no tempo dos reis. Isso existe. Mas os miúdos só casam se quiserem. Casamentos arranjados não existem”, garante, dando o exemplo do neto que estava “prometido” a uma prima desde bebé, mas acabou por se casar com outra rapariga cigana, “que não tem nada a ver”.

O que a cultura condena é o namoro e Olga vê aí a explicação para muitos ciganos se juntarem ainda muito jovens. “Tenho duas tias solteiras e primas solteiras. Não somos obrigados a casar. Em 99,9%, esses casamentos jovens são porque as miúdas querem casar. Há muito choro e tristeza quando as filhas se casam mais jovens”, garante.

Enquanto esteve casada, Olga Mariano fez a vida nas feiras. “Uma vida dura, ao sol e à chuva, a montar a barraca.” E indigna-se com quem acha que essa é uma ocupação para quem foge a obrigações. “Sempre fiz os meus descontos e paguei as minhas contribuições e o espaço da banca e os artigos. Comprei a carrinha, aluguei a minha casa, depois comprei uma casa. Sempre paguei tudo, como todos os portugueses. Não é nada de mais. Diria que 50% dos ciganos têm tudo certinho. E que, entre os 50% que não têm, talvez 80% sejam crianças. Não cumprir não é coisa de ser cigano ou não cigano. É de bom ou mau carácter.”

A vida mudou há 30 anos quando o marido morreu. Na cultura cigana, a mulher, que tem direito a uma espécie de “última palavra” no casal e que – ao contrário do homem – pode pedir o divórcio por não se sentir feliz, perde estatuto social quando passa a viúva. Mas Olga não se resignou a isso. Começou aí uma vida de ativismo (é a presidente da Associação Letras Nómadas e da Agarrar Eventos) e voltou aos estudos para se formar como mediadora sociocultural e formadora. Trabalhou em escolas e na Câmara Municipal do Seixal, estudou em Estrasburgo, deu formação e é hoje trabalhadora da Junta de Freguesia da Ajuda e deputada municipal pelo PS em Almada. Diz que levou “muita pancada de todos os lados” para se afirmar, mas acredita que é hoje uma das vozes mais respeitadas no povo cigano, porque também não gosta que se diga que há uma comunidade cigana.

“Existem várias comunidades ciganas. São muito diversas, com vários meios socioeconómicos. Os ciganos só têm três pontos em comum: o luto, o casamento e as leis de apaziguamento, que servem para os homens mais velhos resolverem pequenos conflitos em comunidade.” Um dos grandes valores ciganos é o respeito pelos mais velhos, outro é a família. “Para o povo cigano, a idade é sabedoria, uma sabedoria que tem grande valor porque é vivida. E as mulheres têm um grande papel. Os maridos não fazem nada sem o aconselhamento da mulher.” Ainda assim, Olga Mariano fez da sua vida e de parte da sua poesia uma luta pela igualdade de género. “A viúva deixa de ter papel relevante na sociedade. Isso para mim não tinha lógica. Tive de me impor no meu direito de mulher. Passados estes anos, os homens já vêm pedir para eu fazer parte de projetos e reuniões. Conquistei isso para as minhas mulheres”, diz, orgulhosa.

“Andrezito tem de cumprir a lei”

Bruno Gonçalves, de 49 anos, tem sido um companheiro de luta de Olga Mariano na Associação Letras Nómadas, que se dedica a incentivar ciganos a prosseguir os estudos e já conseguiu, desde 2014, que 40 ciganos e ciganas – há sempre a preocupação da paridade – acabassem uma licenciatura e 12 fizessem o mestrado, através de um programa de bolsas. Quando começou com este projeto, Bruno só tinha o 12º ano, mas a mulher resolveu inscrevê-lo no exame de acesso ao Ensino Superior para maiores de 18 anos. Entrou no Politécnico de Coimbra e licenciou-se em Animação Socioeducativa, sem perder um ano, apesar de ter de trabalhar de dia e estudar à noite.

“Entretanto, já fiz uma pós-graduação e agora quero fazer um mestrado, mas ainda não apanhei coragem”, confessa, explicando que só as dificuldades económicas o fizeram adiar os estudos. “Sou filho de um pai analfabeto. A minha mãe estudou até ao 6º ano. O meu pai sentia muita tristeza por não poder ajudar-nos na escola. Fui voluntariamente à escola. Não havia cá RSI”, diz, notando que este ano se formou um cigano em Medicina, “com bolsa de mérito da Gulbenkian”, e que há ciganos atores – como Henrique Barbosa, protagonista do filme Entroncamento – e até “um jurista na Câmara Municipal de Coimbra, responsável pela contratação pública”. A vida das feiras é dura e “cada vez mais há famílias a apostar na escolarização como elevador social”. Mas o estigma ainda pesa.

“O anticiganismo é uma forma de racismo. Grande parte destes jovens está no mercado de trabalho, mas diria que uns 70% não podem dizer que são ciganos. Como grande parte já não tem os traços físicos, vivem numa clandestinidade étnica. Ainda ontem falei com um cigano com 40 e tal anos, que está no Exército, e só agora decidiu assumir a sua identidade”, conta Bruno, revelando que muitos jovens apagam as redes sociais quando querem encontrar um trabalho para evitar alguma publicação que os denuncie como ciganos, se o departamento de recursos humanos fizer uma pesquisa.

Segundo dados do INE de 2024, 72,6% dos ciganos fazem parte dos 20% da população com rendimentos mais baixos. A isso não deve ser alheia a discriminação no mercado de trabalho, que faz com que muitos façam vida da venda ambulante ou apenas consigam empregos através de protocolos com o IEFP, muitas vezes para Juntas de Freguesia. Bruno Gonçalves diz que o aparecimento de empresas de TVDE, como a Uber e a Bolt, veio dar outras oportunidades de trabalho, porque “o patrão é a plataforma e não discrimina”, mas há também relatos de ciganos portugueses a imigrar, por exemplo, para o Reino Unido, onde fazem trabalhos sazonais agropecuários ou ficam como trabalhadores em fábricas ou armazéns.

Bruno Gonçalves divide o País em dois quando fala do povo cigano. “No Sul as coisas são mais complicadas. Há guetos, criados por políticas de habitação horríveis. O Centro e o Norte são menos agrestes para as comunidades ciganas. Quando há guetos, as coisas são mais complicadas.” Mas, sobretudo, divide a história recente da discriminação num antes e num depois de André Ventura. “As coisas estão muito mais complicadas desde 2017.” E, para Gonçalves, isso só tem explicação no oportunismo político. “Somos perto de 70 mil. É uma comunidade muito pequenina. Espanha tem um milhão de ciganos e, por isso, o Vox não se mete muito com eles. Na Andaluzia são 8% da população, podem definir eleições”, analisa, assumindo que não teve uma hesitação em procurar a ajuda jurídica de Ricardo Sá Fernandes para interpor uma ação que obrigasse Ventura a retirar os cartazes, depois de dias a responder a chamadas e mensagens de ciganos indignados com o racismo da mensagem dos outdoors.

“O Andrezito tem de cumprir a lei. Por muito que haja um milhão e meio que votaram nele, isto não é a república das bananas. Ele tem de cumprir a lei”, afirma, indignado, consciente de que mesmo uma vitória nos tribunais não vai enterrar a discriminação nem diminuir o apoio ao Chega. “Ser anticigano vai continuar a ser popular. É o campeonato da pobreza. São os mais pobres que votam no Chega e 78% das comunidades ciganas vivem na extrema pobreza. Os ciganos vivem menos dez anos do que a média nacional. É uma competição entre pobres para ver quem não desce de divisão”, comenta.

Despertar para a política

“O Chega não é um problema nosso”, declara Paulo Domingos, 58 anos, presidente da Plataforma Nacional para os Direitos dos Ciganos e um dos seis autores da ação judicial para retirar os cartazes. “O que está em causa não é uma etnia, é a Humanidade. Hoje são os ciganos, mas amanhã podem ser as mulheres, os pobres, os judeus, os jornalistas. O que pretendemos é impor um limite moral. Não tenho nada contra André Ventura. Sou um cristão. Tenho é contra o que ele faz e diz, que é tirar a dignidade ao povo cigano”, afirma à VISÃO o homem que no dia 6 de novembro encheu um auditório em Carnide para o Primeiro Congresso do Povo Cigano em Portugal. Lá dentro havia 150 lugares sentados, mas muitos ficaram de pé e outros ainda tiveram de ficar à porta, por a lotação estar esgotada.

Paulo admite que a adesão o surpreendeu. “Achei que não ia encher a casa. Reunimo-nos em festas ou casamentos ou nas igrejas evangélicas, mas não para falar de temas políticos.” Falou durante duas horas, mas garante que no fim “falaram homens e mulheres”, num evento que tinha como propósito ajudar o povo cigano a tomar “consciência do seu papel social e político”. Apesar do objetivo, Paulo Domingos assegura que a sua plataforma não tem pretensões ligadas a partidos ou ideologias. “Não tenho uma ideologia política estruturada. A Plataforma não está agregada a nenhum partido nem pretende estar”, assegura, explicando que neste Congresso conheceu “ciganos que estão com cargos em empresas ou ligados ao Estado, com nível intelectual e formação” e que só esse encontro já pode servir de semente para uma maior intervenção social do povo cigano em Portugal no futuro. “O que nos falta é a união. Não estamos habituados culturalmente a ter esta união”, admite, defendendo uma “maior abertura à sociedade” para desconstruir mitos e ideias feitas.

Criado como “um nómada moderno, não daqueles de burro e carroça, mas que viajavam de avião e tinham os carros da moda”, passando por vários países na infância e sempre acarinhado pelos anciãos dos lugares por onde passava, Paulo Domingos não se sentou nos bancos da escola e só aprendeu a ler e a escrever já adolescente, numa altura em que lhe interessava aproximar-se de raparigas não ciganas da sua idade. “Comecei a perceber que tinha um atraso em relação a quem não era cigano, que era não saber ler. Depois, quis aprender a falar bonito. Li tudo e mais alguma coisa.” O seu percurso de vida foi atribulado, mas sempre guiado pelo valor mais importante para qualquer cigano: a liberdade.

O primeiro emprego foi como vendedor numa empresa de produtos químicos. O diretor do departamento que o contratou era o único que sabia da sua origem. O patrão, um judeu, só descobriu que Paulo era cigano quando o chamou por ser o melhor vendedor da empresa. “Aprendemos a vender no útero da mãe”, brincou. Era tão bom, que o departamento de encomendas não conseguia dar vazão às vendas angariadas por Paulo. Por isso, o patrão deu-lhe um carro para ser ele a fazer as entregas. Foi subindo na empresa, até se desinteressar. Procurava a novidade.

Quando se casou, tinha 24 anos, a mulher tinha 23 e já tinha carta de condução. Ela era de uma família de feirantes e Paulo quis experimentar essa vida. Passados uns tempos, voltou a mudar e dedicou-se à consultadoria de empresas. “O que mais gostei de fazer foi consultoria empresarial, a desenvolver produtos e serviços. Já fazia isso sem saber o nome. Era um craque na minha área. Mas também fui vendedor de automóveis e angariador de imobiliário.” A vida correu-lhe bem, fez muito dinheiro. Mas as coisas mudaram quando, há 12 anos, perdeu um filho. Entrou numa depressão profunda, não conseguia sair de casa. E a mulher teve de voltar às feiras. A forma como a comunidade cigana que o rodeava o ajudou e a conversão ao cristianismo fizeram-no começar a voltar à vida e perceber que tinha de lançar a Plataforma, na qual uma das suas filhas, Maiara Domingos (outra das autoras da queixa para a retirada dos cartazes), é vice-presidente.

“A Plataforma é um projeto nacional. Já tenho delegados regionais. E muita coisa vai mudar depois deste primeiro Congresso Cigano. Acredito verdadeiramente que este foi o princípio de algo novo. Mas este trabalho não pode ser feito só com ciganos”, argumenta. Uma das coisas que fizeram com que avançasse para a ação judicial foi, aliás, a forma como não se levantou um coro de indignação perante uma mensagem racista contra os ciganos. “Nem o poder político nem o poder judicial vieram defender a nossa honra. A liberdade de expressão não pode ser usada como arma de desumanização. O que me fez avançar foi a colocação dos cartazes e a falta de uma voz que nos defendesse.”

Ciganos que morreram por Portugal

A 1 de dezembro de 2022, Marcelo Rebelo de Sousa fez algo inédito: usou o Dia da Restauração da Independência de Portugal para fazer um agradecimento histórico aos ciganos.“Ao lembrar tantos portugueses, de tantas origens, que se envolveram no movimento revolucionário, o Presidente da República quer lembrar também os portugueses de etnia cigana que, como reconheceu então o próprio rei D. João IV, deram a vida pela nossa independência nacional”, escreveu no site da Presidência. Foi a primeira homenagem pública ao “cavaleiro fidalgo” Jerónimo da Costa e a “muitos dos duzentos e cinquenta outros ciganos que serviram nas fronteiras e tombaram por Portugal”.

Este ano, Marcelo usou o Dia do Cigano, 8 de abril, para reforçar a importância da integração deste povo. Mas o Governo de Luís Montenegro deixou na gaveta a nova Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, que está para consulta pública há mais de um ano."

Texto de Margarida Davim na Revista Visão. Fotos de Luís Barra e Lucília Monteiro

https://visao.pt/.../2025-11-15-os-ciganos-que-fazem.../

domingo, 22 de junho de 2025

Luís Francisco - Quantos morreram na Guerra Colonial?


* Luís Francisco


Fotografia de uma condecoração póstuma (habitual no dia 10 Junho) de militares mortos na GUERRA COLONIAL

Sempre que ouvia a estimativa de 8.000 mortes portuguesas na Guerra do Ultramar, Pedro Marquês de Sousa, tenente-coronel do Exército, sentia-se desconfortável. Quase cinco décadas após o fim do período colonialista, Portugal continuava a não ter, sequer, um balanço fiável das vítimas mortais do conflito que desgastou o País durante mais de uma década e esteve, em última análise, na origem do movimento militar que depôs o regime do Estado Novo, em 1974. Depois de muito trabalho de investigação, o investigador e também professor na Academia Militar chegou a números bem mais pesados: morreram quase 10.500 militares portugueses em Angola, Guiné e Moçambique. No total, incluindo as baixas dos movimentos independentistas e entre a população civil, a guerra em África fez quase 45 mil mortos e 53 mil feridos. "E podem ser mais", assegura o autor do livro Os Números da Guerra de África, publicado pela Guerra & Paz. Uma obra que compila de forma exaustiva números durante tanto tempo esquecidos ou varridos para debaixo do tapete da burocracia. "Enquanto professor na Academia Militar, sempre incentivei os meus alunos a debruçarem-se sobre a Guerra Colonial. Eu próprio senti a necessidade de mergulhar no assunto. A estimativa de 8.000 mortes era injusta; não cobria, sequer, as baixas militares portuguesas, muito menos as perdas entre os movimentos independentistas e na população civil. "Pelas contas de Pedro Marquês de Sousa morreram 10.425 militares portugueses, 6.000 civis e 28.226 elementos dos movimentos separatistas. As estimativas de feridos graves apontam para 31.300 na tropa lusitana, 12.200 entre os civis e 9.450 nos movimentos de libertação.Estes números não são – nem podiam ser – definitivos, mas são uma base de trabalho fiável, construída com a consulta dos documentos da época disponibilizados pelas hierarquias militares – embora na Marinha haja ainda documentos classificados, a que os investigadores não têm acesso. É inevitável a perplexidade: como é que nunca tinha sido feito um levantamento rigoroso das baixas na Guerra de África? "Eu já não estou no ativo e não passei pela guerra – tenho 53 anos –, mas como militar há um embaraço… A sociedade portuguesa não conhece bem este conflito. Talvez não tenha ainda decorrido tempo suficiente para se criar um distanciamento que permita a abordagem científica do tema."A força dos números

A guerra em África foi o maior conflito da História recente de Portugal e teve um peso impressionante sobre o desenvolvimento do País nas décadas de 60 e 70 – a compra de corvetas para a Marinha implicou pagamentos até 1981. Na fase final do conflito, estavam destacados 163 mil militares no Ultramar, um esforço de guerra nunca visto num País que na altura tinha cerca de 8,5 milhões de habitantes. Pedro Marquês de Sousa faz a radiografia da organização, da logística, das atividades e das baixas desta imensa força militar. Mas analisa também o efeito que a guerra teve na metrópole, nas contas públicas (mais de 3% do Orçamento era encaminhado para o esforço militar e em 1973 o conflito absorveu cerca de 3,5 mil milhões de euros, feita a conversão para a moeda e a realidade atual), na sociedade portuguesa. Até em aspetos que pouco pareceriam ter a ver com o conflito: os casamentos de homens com menos de 20 anos, por exemplo, duplicaram após o início da guerra, em Angola, corria o ano 1961. A ideia era evitar o destacamento para África por ter uma família para sustentar, mas não funcionou.Em 1962, mais de 15% dos incorporados eram analfabetos. Um número que caiu para menos de metade no fim da década, mas com efeitos perversos, do ponto de vista do Estado Novo. Explica o autor: "À medida que o conflito se foi prolongando, os oficiais milicianos [o serviço militar obrigatório era responsável por 90% do contingente das unidades regulares] já tinham cultura política, absorvida nas universidades numa década muito ativa a esse nível. Ora pôr

estes homens a liderar unidades de combate numa guerra em que não acreditavam não podia dar bom resultado…"

230 mil "fugiram" à guerra

E estes eram os que iam para a guerra. Porque um dos dados que mais surpreenderam o investigador foi mesmo o de faltosos e desertores. O regime escondeu durante muito tempo a verdadeira dimensão desta recusa de pegar em armas, que explica também a dimensão avassaladora de outro fenómeno que marcou a demografia portuguesa neste período: a emigração (triplicou no período da guerra). Na década de 70, um em cada cinco jovens (20%) que deveriam apresentar-se à inspeção militar já não se encontravam em Portugal. Registaram-se 202 mil faltosos, a que se juntam 20 mil refratários e cerca de 9.000 desertores – ou seja, quase um quarto de milhão de jovens portugueses (230 mil) "fugiram" à tropa.Nos teatros de operações, e apesar do recrutamento maciço, havia, ainda assim, poucos soldados, na maioria mal treinados, mal armados e equipados, sujeitos a condições miseráveis e a uma máquina de guerra obsoleta e incompetente. "Os militares sentiram na pele a incapacidade do poder político para gerir a guerra. Não é por acaso que foram eles a depor o regime, aliás como já tinha acontecido depois da I Guerra Mundial, embora aí num sentido político completamente inverso", analisa

Pedro Marquês de Sousa. O autor adianta que fica ainda por fazer o trabalho de comparar a guerra de África com outros conflitos similares, envolvendo tropa regular de um lado e forças de guerrilha do outro. Como o do Vietname, por exemplo.Mas há números que nos dão algumas pistas também nessa vertente. Em Angola, Guiné e Moçambique havia 5 soldados portugueses para cada combatente dos movimentos de libertação. No Vietname (EUA vs. guerrilha norte-vietnamita), essa relação chegou a ser de 9 para 1, na Argélia (França vs. independentistas argelinos) era de 50 para 1. E em nenhum destes conflitos as forças regulares levaram a melhor. Mesmo recorrendo a meios de ética militar muito para lá do duvidoso. "Não se falava muito nisso, mas quando se perguntava se as tropas portuguesas usaram napalm nos teatros de guerra em África, a resposta era normalmente ‘nim’…", salienta Pedro Marquês de Sousa. "Neste livro, pelos números apresentados, fica bem evidente que se utilizou. Muito."

Fonte: Luís Francisco, artigo em 10/10/2021 (Visão)

https://www.sabado.pt/vida/detalhe/quantos-morreram-na-guerra-colonial

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Entrevista a Richard Zimler – Revista Visão 2020 12 13

 IDEIAS

13.12.2020 às 19h00

SÍLVIA SOUTO CUNHA

LUCÍLIA MONTEIRO

“As pessoas mais ignorantes, racistas, homofóbicas e misóginas pensam que têm luz verde para dar opiniões, aparecer, escrever e financiar campanhas eleitorais. Já não têm vergonha”


O escritor Richard Zimler em entrevista à VISÃO

As memórias têm o seu próprio tempo, sabemo-lo. Richard Zimler, 64 anos, autor norte-americano naturalizado português, com uma dúzia de romances muito amados, guardou durante 25 anos um romance inédito em Portugal. Insubmissos (Porto Editora, 356 págs., €17,70) faz a catarse da morte do irmão, e de tantos amigos nos braços do “Anjo da Morte”, sob as espadas dos “cossacos invisíveis” do vírus da sida. Romance poderoso, retrata essa outra pandemia, que varreu a América (e não só), nos anos 1990, e é leitura fundamental nesta proximidade do 1 de dezembro, Dia Mundial da Luta Contra a Sida. Um professor de música norte-americano com muitos lutos feitos, um aluno de guitarra infetado e o seu pai pedreiro enfrentam um diagnóstico positivo e a sombra da morte: “São três pessoas corajosas, à procura de uma redenção diferente. Este livro é um grito de paixão e de esperança”, descreve o autor. O título, militante, foi ideia do marido de Zimler, o cientista Alexandre Quintanilha, vencedor do Prémio Ciência Viva 2020 – um fechar de círculo com todo o sentido.


No prefácio de Insubmissos, conta que, em 1996, por receio dos conservadores e de uma não renovação do visto de trabalho em Portugal decidiu não publicar o romance. Acha que perdeu aí a oportunidade de ser agente de mudança?

Há momentos na vida em que nenhum dos caminhos possíveis é perfeito ou adequado. Em 1996, vi-me obrigado a escolher entre o sacrifício da não publicação do livro ou o da possibilidade de eu e o Alexandre [Quintanilha] não continuarmos a criar uma nova vida em Portugal: escolhi o caminho que me parecia mais sensato e com menos riscos. Não tenho remorsos. Se o livro tivesse sido publicado, poderia ter tido um impacto grande, mas podia ter provocado uma reação tão negativa que me obrigaria a sair do País. E eu estava ainda tão traumatizado, vulnerável e frágil, com a morte do meu irmão nos EUA, que a possibilidade de mudar, mais uma vez, era impensável.


Defende que, “sem o saber”, escreveu então um “livro muito corajoso e honesto”. Em 2020, Insubmissos é apresentado como obra arriscada. Publicá-la ainda é um gesto de coragem, ou há também, aqui, um certo marketing do nosso frágil mundo editorial?


Para o melhor e para o pior, nunca faço estratégias de marketing. Se as fizesse, nunca teria escrito um romance sobre um jovem seropositivo com VIH, porque obviamente nunca chegaria às listas de bestsellers, em 1996. Não sei se publicar Insubmissos exige muita coragem neste momento, o País evoluiu muito. Nos últimos dez anos, fiz mais de 400 encontros nas escolas e vejo jovens de 16, 17, 18 anos, que se assumiram como homossexuais ou lésbicas, e parecem-me bem aceites: falam abertamente sobre o tema, têm amigos, os professores encorajam-nos… Nas grandes cidades, é possível alguém ter uma orientação sexual diferente e ter uma vida realizada. Isso é espetacular. Por outro lado, sabemos que ainda há correntes muito, muito conservadoras, que preferiam que eu não tivesse o direito de me casar. Em 2010 [quando a Assembleia da República aprovou o casamento civil entre indivíduos do mesmo sexo], 97 deputados votaram contra um País de mais igualdade. Essas pessoas não desapareceram: alguns continuam no Parlamento, outros são administradores de empresas, Manuela Ferreira Leite (que liderava a campanha contra o direito ao casamento) ainda aparece na televisão… Esta gente ainda tem poder. Não faço ideia se vão complicar a minha vida. Já tenho a minha cidadania portuguesa, e estou numa posição mais sólida do que em 1996. Se alguém quiser correr comigo, vai ser muito difícil.


Há, agora, mais gente sem vergonha do seu discurso preconceituoso. Assistimos a um retrocesso?

Sem dúvida. Basta olhar para o meu país de origem, os EUA: 70 milhões votaram num sociopata, assumidamente racista, completamente ignorante, que não acredita na Ciência e nas alterações climáticas, que tirou a América do Acordo de Paris e que acha que podemos injetar-nos com desinfetante para combater o vírus da Covid-19. Setenta milhões de pessoas valorizam a ignorância! É um momento preocupante para o planeta. Em Portugal, o meu medo maior é que um partido como o Chega tem o apoio de organizações internacionais com imenso capital, e pode continuar a subir nas sondagens e representar uma força retrógrada e nefasta na sociedade portuguesa. Basta olhar para os outdoors do deputado do partido espalhados por todo o lado para saber que alguém com muito dinheiro os está a apoiar.


Acredita na tese do “insatisfeito” que aposta nas cartas fora do baralho democrático?

É difícil saber o porquê disto estar a acontecer. Eu diria que Trump, Boris Johnson, Viktor Orbán e muitos outros líderes abriram a caixa de Pandora. Atualmente, todas as pessoas mais ignorantes, racistas, homofóbicas, misóginas, pensam que têm luz verde para dar as opiniões, para financiar as suas campanhas eleitorais, para escrever nos jornais, para aparecer na televisão… Já não têm vergonha de expressar opiniões que, no passado, teriam sido consideradas estranhas, retrógradas e ofensivas. Lembro-me, por exemplo, da proposta do Chega para retirar os ovários às mulheres que interrompessem a gravidez, ou de separar os ciganos da restante população: era impensável um político propor isto há 20 anos.


A democracia não está equipada para lidar com isto?

Há muito tempo que levanto a pergunta seguinte: até que ponto devia uma democracia permitir a divulgação e o financiamento de grupos antidemocráticos? Não tenho a resposta. Mas é uma questão cada vez mais pertinente. E é evidente que temos todos de lutar para reforçar a nossa jovem democracia em Portugal.


Insubmissos assume-se como catarse e memorial ao seu irmão, vítima de sida. Harold, irmão do professor, cola-se a essa figura?

O meu irmão Jerry era uma pessoa complicada, insatisfeita com a vida, e não aceitava completamente a sua sensibilidade. Perto do fim, ficou com uma raiva terrível, direcionada em parte aos nossos pais. A situação tornou-se muito traumatizante para mim. Um dia, ele disse-me [esta frase citada no romance]: “Sem ti, eu seria um órfão.” Para mim, foi um momento absolutamente poderoso, em que percebi a minha responsabilidade: não havia mais ninguém. Nunca vou recuperar completamente daquilo, nem quero: tornou-me a pessoa que sou agora. [Silêncio.] É complexo.


O romance é a sua biografia com nomes trocados?

Insubmissos não é isso. Há muita ficção no livro. Nunca fiz uma viagem com o meu irmão ou com outra pessoa com estes conflitos e dramas: essa parte é como um road movie e nada tem que ver com a minha história. Estou presente mais no aspeto dos fantasmas: todos nós, que perdemos pais, avós, irmãos, etc., vivemos rodeados por fantasmas. E tenho uma teoria de que os mortos não são como os dos livros do Stephen King e dos filmes de terror: os mortos querem o melhor para nós, são uma fonte de garra, urgência, desejo, solidariedade e empatia.


Há uma passagem impressionante em que descreve os muitos amigos mortos pela sida em São Francisco, “pendurados num cabide especial no Madison Square Garden da minha memória”. Sente a “culpa do sobrevivente”?
Sim. Mas o que sinto mais é a injustiça. Às vezes, estou a andar pela rua, paro de repente, e é um murro no estômago: penso no Jerry e na injustiça de ele ter morrido aos 35 anos, um homem com a possibilidade de criar uma vida maravilhosa, e de tudo ter desaparecido devido a um vírus. Durante muito tempo, pensei que também ia morrer, porque podia ter apanhado o vírus antes de conhecer o Alexandre. Passei dez anos à espera dos primeiros sintomas da sida. Felizmente, não aconteceu. Mas se tivesse morrido em 1994, não teria escrito O Último Cabalista de Lisboa nem Insubmissos, não teria a carreira de romancista. Por isso, sinto-me grato, mesmo no pior dos dias, quando chove ou quando um deputado do Chega consegue entrar no Parlamento, de ter esta oportunidade de viver. De poder ver um pôr do sol, comer uma boa refeição, partilhar uma cama com o Alexandre.


Escreve: “É provável que seja pecado dizer isto, mas a cultura e a história sem sexo são praticamente inúteis.” O sexo, tão presente no romance, é essencial?
O sexo é importantíssimo por muitas razões. Uma delas é porque é uma força incontrolável. Os ditadores têm medo do sexo, porque as pessoas formam uniões físicas e espirituais sem qualquer controlo. E isso é magnífico. O sexo dá-nos a força para ultrapassar também os preconceitos. Um branco racista que se apaixona por uma negra tem a possibilidade de perceber que todos somos humanos, bonitos, fantásticos. E não há nada que aconteça ao nosso corpo que não aconteça ao cérebro e vice-versa. Uma história sem sexo não é possível.


Estamos novamente sob o ataque de “microscópicos cossacos”, “cossacos invisíveis que cheiram a pneumonia”. Parecem-lhe acertadas as comparações feitas entre a pandemia da sida e a da Covid-19?

Até certo ponto. Para mim, o que têm em comum é o facto de estarmos a viver com um nível constante de stresse, de risco. Nos anos 1990, em São Francisco, ninguém tinha outro assunto que não o da sida. Todos nós, homossexuais, pais, filhos, avaliamos o risco de infetar os outros.


À Covid-19 não chamamos um moralista “Anjo da Morte”. Ainda…
Sim, a sida veio com uma profunda estigmatização das primeiras comunidades afetadas: os homossexuais, os toxicodependentes… Daí a culpabilização abominável da vítima: “O vírus é um castigo de Deus.” Evitamos isto, no caso da pandemia da Covid-19. E tivemos sorte: se o vírus tivesse começado com ciganos em Portugal, imaginem a reação dos conservadores… Felizmente, a Covid-19 não é uma sentença de morte, ao contrário da sida: 99,9% dos que a apanhavam morriam em cinco, seis, sete, oito anos.


Crê que este vírus destrói a relação com o outro, como dizem alguns? Vem aí uma geração traumatizada?

Acredito que o ser humano pode recuperar rapidamente, esquecendo os traumas do passado. No meu caso, levou-me muito tempo a ultrapassar o medo completamente ilógico em relação às outras pessoas por causa da sida: demorou três, quatro anos. Provavelmente, vai demorar o mesmo tempo para que certas pessoas voltem a dar beijinhos ou abracem o seu irmão. Mas penso que isto não vai causar traumas entre os mais jovens: eles têm uma força vital tão grande…


Outra tese: vamos ter um mundo diferente e melhor?

Depende dos seres humanos, e eu já não acredito que estes aprendam com a História. Já escrevi muitos romances sobre a Inquisição, o Holocausto. Se os seres humanos tivessem aprendido as lições mais importantes do Holocausto, não teríamos guerras nem limpezas étnicas. Mas sou um otimista e acredito que é possível aprender lições valiosas com a Covid-19: a necessidade de valorizar a nossa própria vida, de proteger os outros, de focar nos valores de empatia e solidariedade, de desfocar os valores do egoísmo.


Saber qual dos dois presidentes, Trump ou Biden, leria Insubmissos, é conhecer a América atual?

Não sei… Os livros são fundamentais. Mas não sei se os políticos nos EUA beneficiariam da leitura deste romance ou d’O Último Cabalista de Lisboa. Os políticos atuais não são contadores de histórias e não valorizam a História ou a literatura: valorizam tweets. E Proust, Stendhal, Dostoievski, não dão soluções rápidas… Com Joe Biden e Kamala Harris, existe a possibilidade de negociar soluções duradouras, lógicas, sensatas e inteligentes – há zero possibilidades de tais soluções com os republicanos. O período dos EUA como farol da esperança acabou. Vai demorar décadas para que possa ser criada uma América com mais igualdade, menos racismo. E há muitas forças poderosas, como Wall Street, que não o desejam. Temos de ser todos insubmissos para lutar pela democracia.

https://visao.sapo.pt/ideias/2020-12-13-as-pessoas-mais-ignorantes-racistas-homofobicas-e-misoginas-pensam-que-tem-luz-verde-para-dar-opinioes-aparecer-escrever-e-financiar-campanhas-eleitorais-ja-nao-tem-vergonha/

sábado, 27 de março de 2021

António Lobo Antunes - Praça da Canção

* António Lobo Antunes

Passei a Faculdade a escrever. Não estudava, não ia às aulas, houve exames a que nem sequer compareci.

Ainda hoje me espanta a paciência com que o meu pai aturou isso tudo, ele que era muito autoritário e, por vezes, violento. Argumentava que queria ser escritor, não queria ser médico, soube muito mais tarde que o meu pai, para meu espanto, tinha a certeza que eu tinha talento embora não lhe mostrasse o que fazia: periodicamente queimava tudo junto à figueira do quintal, depois soube que ele ia lá sem me dizer nada, lia os restos que ficavam na cinza e copiava-os para um caderno verde. O meu pai possuía um respeito sagrado pelos artistas e talvez, na sua cabeça, pensasse que eu era um deles, enquanto eu, pouco mais do que um miúdo, vivia atormentado pelas minhas deficiências, sempre a dizer-me

- Ainda não é isto, ainda não é isto e levei vinte anos a encontrar o que seria a minha voz, quando me apareceu a Memória de Elefante. Disse

- Ainda não é isto mas acho que descobri o caminho.

E, depois, seguiu-se o trabalho de fazer crescer aquilo tudo. Mas, nessa altura, já havia terminado a Faculdade de Medicina, já havia passado mais de três anos na tropa, já vivera os horrores de África. Até então fora o tormento do curso, que o fez sofrer a ele e me aborrecia a mim. Mal começava a estudar pensava logo

- Devia estar a escrever e voltava aos poemas péssimos e à prosa mais do que medíocre de que então era capaz, certo que, escondido, morava em mim um grande talento. Não certo, certíssimo, ao ponto de sacrificar fosse o que fosse à literatura. Pai, agradeço-lhe a paciência que teve para comigo, peço-lhe perdão de o haver humilhado com a miséria das minhas notas, agradeço que no fundo de si, embora nunca mo dissesse, me haja compreendido. A certa altura, a meio do curso, aconteceu uma coisa que me abalou muito. Era o final dos anos 60, em que os estudantes se levantavam contra a ditadura: cargas policiais, violência, prisões. Tudo isto me passou um bocado ao lado, entregue, como estava, à minha luta com as palavras. Um colega, no hospital, entregou-me, com grandes pedidos de segredo, um maço de folhas policopiadas. Na primeira página estava escrito Praça da Canção e, por baixo, o nome do autor, que nada me dizia: Manuel Alegre. Foi certamente o livro mais lido, mais comentado, mais entusiasmante, mais influente para a minha geração. Num segundo

(pareceu-me que num segundo) tornou-se a bandeira dos estudantes contra o fascismo e a monstruosidade que vivíamos.

Não me interessou a sua qualidade literária. Interessou-me a corajosa chama daqueles versos e o imenso coração do autor.

Claro que Manuel Alegre era um poeta, não me ralou o tamanho do poeta que ele era, interessou-me o tamanho do que ele dizia.

A ousadia com que fez arder uma geração inteira, e o incêndio que levantou sozinho. Uma ocasião, na fronteira com a Zâmbia, morreu-me um camarada. Só sei dizer assim: morreu-me, porque me morreu de facto. De imediato veio-me à cabeça um poema de Manuel Alegre

Ó meu amigo que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

e comecei a chorar. Só quem passou por uma desgraça assim é capaz de entender isto até ao osso

Ó meu amigo que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Esta, e outras passagens do livro, ficaram comigo para sempre, ficarão comigo para sempre: que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Foi Manuel Alegre que o escreveu, e é a Manuel Alegre que o devo, porque se trata de uma prenda que nenhum dinheiro paga. Faz cinquenta anos que o livro surgiu, cinquenta anos de gratidão da minha parte. O Poeta mandou-me um exemplar comemorativo do aniversário do livro, com uma dedicatória cuja generosidade me tocou imenso. Manuel, não imaginas quanto estiveste comigo em África e quanto continuas comigo porque, em certo sentido, nunca saímos de lá. E tu ajudaste-me naquele exílio muito mais do que imaginas. Tenho pena que já não fumes porque o brinde que queria fazer-te agradecendo o muito que deste sem o saberes, ao estudantezinho anónimo que eu era, ao militar anónimo que eu fui, seria estender o meu cigarro para ti, dizer-te olhos nos olhos

Ó meu amigo que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

e esconder uma lágrima de homem para homem num chupão imenso.


Crónica de António Lobo Antunes, 23 de julho de 2015, in Revista Visão



Adriano Correia de Oliveira - Canção com Lágrimas


Canção com lágrimas, por Manuel Alegre

Eu canto para ti o mês das giestas
O mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti o mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem me dera em Lisboa
Quem me dera em Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem me dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol, Lisboa com lágrimas
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

A última conversa com Carlos do Carmo (1939-2021)

 

* Miguel Carvalho / Carlos do Carmo
Fadista faleceu aos 81 anos, no primeiro dia de 2021, no hospital de Santa Maria, em Lisboa, depois de aí ter entrado com um aneurisma na aorta. Na morte do cantor a quem o fado deve parte do seu renascimento pós-25 de Abril, a memória de um longa entrevista, em parte inédita, onde ele revisitou o seu percurso e fez as “pazes” com Amália

“Está a falar com um homem que, apesar de lhe terem feito muito mal aos sonhos, quer ir para debaixo da terra nem que seja com dois por cento dos sonhos que teve. Vi coisas muito boas e belas na minha vida. Coisas absolutamente superiores”.

Domingo, 3 de março de 2019.

Um amigo comum, Ribeiro Cardoso, estaciona o carro defronte do restaurante Cataplana da Gina, em Campo de Ourique. É noite, pouco passa das 21 horas. A porta do lado do copiloto abre-se, lenta, e Carlos do Carmo, então com 79 anos, levanta-se e sai devagar, amparando-se no automóvel e no meu braço, esforço que parece hercúleo. Está debilitado, mas bem-disposto. E pronto para uma noite de boa conversa, sem a ditadura do relógio.

Combinara-se jantar num local afetivo.

Durante semanas, eu insistira na importância de falarmos, pois sem o testemunho dele, o meu livro sobre as relações clandestinas de Amália Rodrigues com a oposição à ditadura e a forma como lidou com a revolução ficaria manco. Ao que sei, não precisou de ponderar muito: era mais a saúde que o preocupava e lhe retirava ânimo para conversas que se adivinhavam longas.

Durante quase duas horas falámos de tudo: do seu percurso artístico e pessoal, das amizades e inimizades dele, de ditadura e liberdade, de política e dos políticos que admira (citou alguns), do “irmão” José Carlos Ary dos Santos, de escritores e poesia. Eu crescera a ouvi-lo e disse-lhe que levaria para uma ilha deserta Um Homem na Cidade, um dos discos da minha vida. Comoveu-se.

Mas Amália Rodrigues era o tema principal. E a ele não lhe era fácil admitir a relação turbulenta, as ciumeiras mútuas, as invejas que se atravessaram na relação entre os dois. Não era o seu tema preferido, surpreenderia que o fosse. O mesmo diria Amália, certamente. Mas, admitiu, “não guardo memória de raivas”. Naquela noite, Carlos do Carmo fez contas a essa parte da vida. E as “pazes” com a mulher que, tal como ele, nunca deixou que o fado fosse atirado para o caixote do lixo da História. “Acho injusto dizer que ela foi a cantora do regime. O regime é que foi suficientemente esperto para aproveitar a voz do século. Essa justiça tem de ser feita porque ela era uma voz excecional. Também tenho uma dívida para com ela: quem foi que começou a divulgar o fado lá fora? Eu fui a seguir, depois apareceu esta geração. Quem é que abriu a porta? Essa dívida eu tenho”, reconheceu, concluindo. “A morte da Amália foi, em termos de reconhecimento, a coisa mais significativa que vi na vida. Nunca vi nada igual. Ela foi a maior voz do século XX. As circunstâncias e a inteligência dela resultaram nesse animal feroz e foi extraordinário esta mulher ter existido no fado”.

Resgatadas a essa noite, aqui ficam algumas das últimas memórias de Carlos do Carmo, em parte inéditas.

Era uma vez o fado

Eu fiz a escola primária, o liceu Passos Manuel e morava no Bairro da Bica. O pai, felizmente, mandou-me para um dos maiores colégios do mundo, na Suíça. Imagine o que acontece quando se encontra num local onde as pessoas dizem o que pensam e os jornais escrevem o que querem. Quando voltei, estava estupefacto. Mas não tive tempo de assimilar. O meu pai morreu em 1962, eu tinha 21 anos, a minha mãe não ia poder gerir O Faia, era a estrela da casa. Demos sequência à casa de fados, estive lá 20 anos, com muito sucesso. Quando foi o 25 de Abril, não fiz nenhuma censura, mas fui chamando artista por artista, e dizendo: “Isto é muito pobrezinho, não deves cantar”.

Fado perseguido I

A memória operária do fado era conhecida de muito poucas pessoas a seguir ao 25 de Abril. Eu tive sorte por causa do meu pai. Ele tinha sido livreiro e tinha livros sobre fado. Vouu agora gravar um fado, de um homem chamado João Black, fadista anarcossindicalista, que, em conjunto com o Avelino de Sousa, ia até ao Alentejo cantar o fado como quem vai organizar uma missa, isto nos anos 30.

Depois isto foi amolecendo. A censura fez uma parte e o medo fez a outra. Não se podia cantar um fado sem ser visto pela censura. Isso limitou muito as pessoas. Era quase um hino à pobreza. Mesmo nessa altura, nunca fui muito ligado a esse fado. E quando comecei a cantar fui-me socorrendo do reportório que havia na altura. Um dia tive uma surpresa magnífica. Canto um fado chamado Por morrer uma Andorinha e um dos velhos presos comunistas disse-me que era uma espécie de hino entre eles.

Fado perseguido II

Não é invenção dizer que o fado foi perseguido a seguir ao 25 de Abril, a vários níveis. Mas eu sou a última pessoa que deve falar disso, pois não fui perseguido. Tinha uma casa de fados [O Faia]. que era uma espécie de mostrador e as pessoas iam ali e eu não lhes perguntava se eram de esquerda ou se eram de direita. Procurei sempre manter um certo equilíbrio porque era uma casa comercial.

Cantar era sonhar

Se há alguém que não se deve queixar sou eu. Seria ingrato se o fizesse. Toda a minha vida artística é feita de coisas boas, de processos e desafios. Chamaram-me sempre maluco, cada disco era uma loucura, mas é assim que eu gosto. O meu reportório é o de um gajo maluco. O 25 de Abril teve muita importância na minha cabeça porque arejou muito, contribuiu muito para o ato de sonhar. E cantar era um ato de sonhar.


Um Homem na Cidade

É óbvio que, ao fazer Um Homem na Cidade, a coisa estalou. E fazíamos coisas interessantes com o Ary, com o Martinho da Assunção, coisas diferentes, que tinham a ver com a vida, a paixão real pelo fado, não uma paixão passageira, que só quem gosta muito de fado pode entender. O Ary tinha um grande respeito pelas pessoas mais velhas, uma certa ternura, e deixou “n” fados a “n” fadistas mais velhos nas casas de fado onde esteve. E as pessoas cantavam isso tranquilamente. Ele tinha esse culto. Nós conjugávamos muito bem essa maneira de sentir o fado. Sem elitismos. O que nós estávamos a respirar era liberdade.

Ary dos Santos I

O pai do [primeiro-ministro] António Costa detestava fado, mas o António disse-me que, graças ao Um Homem na Cidade, passou a gostar de fado. Aconteceu a muitas pessoas. Havia liberdade. Quando a gente pensa no que o Ary escreveu na Nova Feira da Ladra: “Na nossa feira da ladra já não há ladrões no escuro”. Isto é muito à frente. Ele está a falar de liberdade. Muitas vezes tinha de o travar, ele queria disparar para canções de intervenção. E eu dizia: “Zé Carlos, calma, eu sou um fadista. Não sou um cantor de intervenção. Há uma forma de intervir no fado, mas não assim”. E ele, que se intitulava “tia velha” e nos chamava “sobrinhas”, dizia: “Ah, a sobrinha está a ficar muito reacionária”. Lidar com o feitio dele, que não era fácil, mas foi maravilhoso.

Ary dos Santos II

O testamento dele foi feito a conversar com a minha mulher, todos os dias. E fazendo perguntas: “Judite, o que achas se eu fizer isto e aquilo?”. Ele deixou tudo o que era material, eletrodomésticos, tudo, à empregada açoriana. Deixou toda a roupa ao PCP. A gente chegava à Soeiro Pereira Gomes e havia gajos vestidos de alpaca…E no final, ele tinha quatro ou cinco pratas da avó e deixou cada uma destinada a cada amigo. Nós temos um açucareiro. Com o dinheiro que tinha, perguntou à Judite se achava bem comprar uma peça de ouro para um companheiro de quem ele gostou muito. Tudo feito com elevação e dignidade.

Fernando Lopes Graça

Para mim, não foi complicado defender o fado. Se eu cantava nas festas e nos comícios do PCP, estava completamente à vontade. Era muito claro para as pessoas que não pretendia nenhum cargo, nenhuma benesse. Portanto, sentia-me à vontade. O que me transtornava em relação ao fado era a ignorância das pessoas. E resolvi isso com o Fernando Lopes Graça. Ele era genial, mas era o “líder” de quem estava contra. Um dia estamos na embaixada da Bulgária, ele já estava bem bebido e queria ir para a Rua da Misericórdia para o coro de não sei quê… Fazia parte do seu trabalho. Ofereci-me para lhe dar boleia, ele entrou no meu carro e no caminho diz-me assim: “Você quem é?”. E eu: “Sou o Carlos do Carmo, o fadista”. E ele: “Oh, está do nosso lado, já não é mau”. Isso encetou uma relação e começamos a discutir. E tive a ajuda de um amigo precioso que foi o José Cardoso Pires. Que também era amigo dele e frequentador do fado, da boémia, do Faia, um gajo inesquecível. O Zé pegou no Lopes Graça e levou-o a uma sessão de fados da pesada – Fado Corrido, Fado Menor, Fado Mouraria – e o Lopes Graça saiu de lá fascinado. “Mas isto é que é o fado?”, perguntou ele. O Zé Cardoso Pires disse que sim. “Ah, mas isto é bom”. E pronto, arrumou-se isso. Sempre que estávamos juntos era uma coisa encantadora. “Então maestro, já está convertido?”. E ele: “Ó homem, às vezes a gente engana-se sem querer”.

Também silenciado

Antes do 25 de Abril cantava fado, mas não o choradinho, a lamechice, o estímulo da pobreza e da pequenez. Senti o peso do carimbo comunista depois, isso sim. Estive cinco anos sem cantar na RTP. Foi a altura em que comecei a cantar no estrangeiro. Se me perguntar se me lembro das pessoas que me fizeram isso, lembro-me. A algumas delas até lhes falo muito bem. Mas coitadas, fazem dó.

Foi o Daniel Proença de Carvalho que me resgatou para a RTP. Telefonou para minha casa e disse: “Ó Carlos, isto é uma vergonha, você não vem aqui cantar há não sei quantos anos”. Convidou-me, pôs-me a falar com a Maria Elisa e fizemos um programa.

Álvaro Cunhal I

Tenho os desenhos da prisão do Álvaro Cunhal dedicados por ele aos meus quatro netos. Quando assinou o primeiro, para o Sebastião, disse: “Você está a arranjar-me aqui um petisco… É que depois vêm os outros netos e eu não posso deixá-los para trás”. Então eu ia à sede do PCP perguntava se ele estava, se me podia receber, levava o desenho, e ele assinava.

Álvaro Cunhal II

Já não lhe sei dizer quantas vezes estive doente. E numa das vezes estive no Hospital Santa Maria, muito mal. O Álvaro Cunhal ligava todos os dias para a minha mulher, Judite. E uma das vezes disse: “Não é preciso dizer nada porque tenho lá gente amiga e sei como é que ele está”.

Amália e o PCP

A Amália dava dinheiro para as famílias dos presos políticos do PCP que estavam em dificuldades, pois os chefes de família estavam presos. Isto é um facto. Sei isso através do meu querido amigo Rogério Paulo, que era quem ia buscar o dinheiro a casa dela. O Rogério gostava de fado, dava-se muito bem com ela e ela sabia que ele era comunista. Ele contou-me isto com a maior naturalidade, não queria que eu soubesse das coisas por outros. Mas só soube depois do 25 de Abril.

PCP

Não se cospe na sopa. Não tenho razões para criticar alguém que tenha sido do PCP e hoje não seja. As pessoas fazem as suas opções, as suas escolhas. Assiste-me é o direito de intimamente ficar triste se a pessoa passa a falar a linguagem oposta. Eu sinto-me à vontade, fiz as campanhas, ia para Aveiro, Fafe, etc. Curiosamente, o tempo mostrou que os mais sectários foram aqueles que mais me dececionaram. Mas não faço qualquer julgamento. Se eu pertencesse ao PCP, diria algo mais, mas digo apenas que me entristece. Pessoas que eram de grande voluntarismo e, afinal…

Fado património

Sabe quanto tempo demorou a preparar a candidatura do fado? Seis anos e meio. Foi de tal ordem e de tal rigor que quando foi apresentada deram-na como exemplo de como se deve apresentar uma candidatura. Foi automaticamente aceite. E isto não parou, continua-se à procura. O Museu do Fado é uma máquina de busca, de interesse, de envolvimento. Ali trabalha-se a sério. Se quiser saber a cor das cuecas do Alfredo Marceneiro, em 1932, sabe.

Os sonhos e o Fim

Está a falar com um homem que, apesar de lhe terem feito muito mal aos sonhos, quer ir para debaixo da terra nem que seja com dois por cento dos sonhos que teve. Vi coisas muito boas e belas na minha vida. Coisas absolutamente superiores.

01.01.2021 às 13h20

https://visao.sapo.pt/atualidade/cultura/2021-01-01-a-ultima-conversa-com-carlos-do-carmo-1939-2021/

sábado, 31 de agosto de 2019

Ricardo Araújo Pereira - Museu de Salazar : uma excelente ideia

* Ricardo Araújo Pereira

A autarquia socialista de Santa Comba Dão deseja criar um Museu de Salazar. A iniciativa revela grandeza, porque Salazar não desejaria criar uma autarquia socialista em Santa Comba Dão.

Os amores não correspondidos são sempre comoventes. No entanto, é possível que este raciocínio não esteja correcto: se soubesse que a autarquia socialista quereria criar o Museu de Salazar, talvez Salazar não tivesse nada contra autarquias socialistas. É como se costuma dizer: o ódio nasce da ignorância, e provavelmente Salazar não gostava de socialistas apenas por não os conhecer bem.

Pessoalmente, há muito que sou favorável à criação de um Museu de Salazar. Mais precisamente, desde 1928. Creio que já nessa altura Salazar merecia um museu, onde ele pudesse figurar, devidamente empalhado, para alegria de todos. E julgo, aliás, que a ideia do Museu de Salazar peca por defeito. Devia ser criada uma grande Disneylândia do fascismo, em que os visitantes pudessem encontrar diversões tais como viver duas horas nos calabouços da PIDE, frente a um inspector munido de um martelo, ou passar uma tarde na frigideira no campo de concentração do Tarrafal; onde fosse possível denunciar amigos e conhecidos (aproveitando a experiência obtida junto do botão “denunciar”, das redes sociais), vestir a farda da bufa e fazer piqueniques em que uma sardinha dá para três. Além disso, iniciativas deste tipo resolvem um problema antigo: como taxar a estupidez? Muitas vezes se lamenta: “Ah, se a estupidez pagasse imposto...” Pois bem, cobrar bilhetes para o Museu de Salazar pode ser finalmente um modo eficaz de sacar dinheiro a idiotas.

Por outro lado, a criação do Museu de Salazar gera confusão, e eu sou um velho apreciador de confusões. Por exemplo, todos os saudosistas do Estado Novo, até aqui estridentemente receosos de que o poder socialista criasse em Portugal uma Venezuela, afinal tinham razão: por causa de um socialista, Portugal passa a ser um país em que, tal como na Venezuela, se idolatram ditadores. Não deve ser fácil, para um salazarista, ver-se na posição de ter de agradecer a um socialista uma linda homenagem ao doutor Salazar.

Do lado socialista também haverá confusão, de certeza. O PS assinalou – e bem – que a escolha de André Ventura para a autarquia de Loures era significativa do posicionamento ideológico de Passos Coelho, pelo que agora irá – até aposto – assinalar que a manutenção da confiança política no autarca de Santa Comba é significativa do posicionamento ideológico de António Costa. Também deste ponto de vista, a criação de um Museu de Salazar é extremamente pedagógica.



Cartoon de @João Fazenda
in Visão de 22.08.2019.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

António Lobo Antunes - O último abraço que me dás



*António Lobo Antunes
12.12.2013 

Para Luís Costa

O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em reis. Numa das últimas vezes que lá fui encontrei um homem que conheço há muitos anos. Estava tão magro que demorei a perceber quem era. Disse-me
- Abrace-me porque é o último abraço que me dá
durante o abraço
- Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento
e, ao afastarmo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito.
Com o meu corpo contra o dele veio-me à cabeça, instantâneo, o fragmento de um poema do meu amigo Alexandre O'Neill, que diz que apenas entre os homens, e por eles, vale a pena viver. E descobri-me cheio de respeito e amor. Um rapaz, de cerca de vinte anos, que fazia quimioterapia ao pé de mim, numa determinação tranquila:
- Estou aqui para lutar
e, por estranho que pareça, havia alegria em cada gesto seu. Achei nele o medo também, mais do que o medo, o terror e, ao mesmo tempo que o terror, a coragem e a esperança.
A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no malestar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida. O cabelo cresce-me de novo, acho-me, fisicamente, como antes, estou a acabar o livro e o meu pensamento desvia-se constantemente para a voz de um homem no meu ouvido
- Acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento
porque não aceito a aceitação, porque não aceito a crueldade, porque não aceito que destruam companheiros. A rapariga com a peruca no braço da cadeira. O senhor que não olhava para ninguém, olhava para o vazio. Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele. Vi morrer gente quando era médico, vi morrer gente na guerra, e continuo sem compreender. Isso eu sei que não compreenderei. Que me espanta. Que me faz zangar. Abrace-me porque é o último abraço que me dá: é uma frase que se entenda, esta? Morreu há muito pouco tempo. Foda-se. Perdoem esta palavra mas é a única que me sai. Foda-se. Quando eu era pequeno ninguém morria. Porque carga de água se morre agora, pelo simples facto de eu ter crescido? Morra um homem fique fama, declaravam os contrabandistas da raia. Se tivermos sorte alguém se lembrará de nós com saudade. De mim ficarão os livros. E depois? Tolstoi, no seu diário: sou o melhor; e depois? E depois nada porque a fama é nada.
O que é muito mais do que nada são estas criaturas feridas, a recordação profundamente lancinante de uma peruca de mulher num braço de cadeira. Se eu estivesse ali sozinho, sem ninguém a ver-me, acariciava uma daquelas madeixas horas sem fim. No termo das sessões de quimioterapia as pessoas vão-se embora. Ao desaparecerem na porta penso: o que farão agora? E apetece-me ir com eles, impedir que lhes façam mal:
- Abrace-me porque talvez não seja o último abraço que me dá.
Ao M. foi. E pode afigurar-se estranho mas ainda o trago na pele. Durante quanto tempo vou ficar com ele tatuado? O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria onde a dignidade dos escravos da doença os transforma em gigantes, onde só existem, nas palavras do Luís, Heróis.
Onde só existem Heróis. Não estou doente agora. Não sei se voltarei a estar. Se voltar a estar, embora não chegue aos calcanhares de herói algum, espero comportar-me como um homem. Oxalá o consiga. Como escreveu Torga o destino destina mas o resto é comigo. E é. Muito boa tarde a todos e as melhoras: é assim que se despedem no Serviço de Oncologia. Muito boa tarde a todos e até já, mesmo que seja o último abraço que damos.

http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/o-ultimo-abraco-que-me-das=f761252