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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Uma cónica de Carlos Coutinho

* Carlos Coutinho
 ·
Também é público e notório que a Esmeralda nunca perdoou a quem a quis batizar com o nome de Eleutéria, nome quase imposto pelo padre Adérito que era caçador, poeta e dono de um falcão adestrado na captura de perdizes e codornizes. Quando não encontrava alguma destas aves cozinháveis, o passarão predador regressava à varanda do passal com um coelho nas garras ou até com uma pomba, o que dava alento ao guloso e incontível abade para mais um soneto.  

   Ainda conheci este insigne clérigo, já um pouco marreco, que era de Pitões das Julianas, onde lhe ergueram uma estátua de granito, com um avejão indefinível cravado no ombro esquerdo, caneta na mão e a escrever num calhau aplanado em cima dos joelhos. Até morrer, não parou de mergulhar no oceano da terminologia, tendo deixado uma caixa de pinho cheia de dicionários e sebentas universitárias, enciclopédias, desenhos medíocres e um ror de folhas de papel amarelecido com o produto das suas escavações idiomáticas.

   Numa ainda se pode ler que qualquer palavra é um depósito de factos, atos, conceitos e crenças, inteiros uns, esgarçados outros, mas todos caldeados sem acasos nem incúrias, fazendo um étimo que hoje pode ter o significado oposto ao que teve há mil anos ou a menos de um século.

   Exemplos: aro, birra, clister, derrancado, etc.

   De facto, aro tanto pode ser uma palavra infeliz que perdeu a última sílaba por ação conspirativa dos alérgicos a perfumes, como nomear um pequeno arco, um anel, um círculo e até uma argola de certos jogos de bola, ou parte da armação dos óculos que circunda a lente. Em mecânica designa o guarnecimento anelar de uma roda. 

Já a birra, a que alguns também chamam chilique, é uma explosão emocional por vezes caraterizada por teimosia, choro, gritos, violência, desafio, reclamação furiosa, resistência a tentativas de pacificação e, em alguns casos, golpes ou outros comportamentos fisicamente violentos. O controlo físico pode ser perdido; a pessoa pode não conseguir ficar parada; e, mesmo que o objetivo seja alcançado, os birrentos nem sempre podem ser acalmados. 

   Quanto a clister, eu sabia que se trata de é um procedimento em que se utiliza água ou alguma outra substância com o objetivo eminentemente entérico de lavar o intestino, mas estava longe de imaginar há quem o designe por enema e mesmo por chuca, embora para todos seja uma injeção de líquido na parte inferior do intestino, com total desprezo pela douta sensibilidade do reto. 

   Na medicina tradicional, que nem sempre está errada, fiquei agora a saber, os usos mais frequentes de enemas são para aliviar a obstipação e para limpar o intestino, como meio de reduzir a termorregulação, como tratamento para encorpese e como forma de terapia de reidratação (protólise) em pacientes em que a terapia intravenosa não é aplicável.        

    Claro que isto não é coisa que se faça às grávidas, nem que se trate de gatas ou de cadelas, porque, além de merecerem o nosso maior respeito, já têm toda aquela região monopolizada pelas humidades deslizantes dos respetivos fetos.

De derrancado também há muito que pôr em questão, porque, embora seja um adjetivo pacífico, pode eventualmente ser um particípio verbal muito discutível. Comecei por conhecer o termo como sinónimo de raivoso, furioso incontrolavelmente bruto, mas agora vêm os dicionários dizer-me que é o “que ganhou ranço” ou está “apodrecido”, ou, pior ainda, “arruinado”.

   Dizem-me também que, em sentido figurado, é “o que se degradou moralmente”, além de que existe uma expressão regionalista que trata assim os hidrófobos, como, por exemplo, os gatos escaldados que, como é sabido, até da água têm medo.

É bom ter conhecido, mesmo na infância, um padre caçador e poeta que fazia o que queria com o seu falcão adestrado e clericalista. 

   P.S. – Pior ainda: em Urtigais do Vale, ora como adjetivo, ora como substantivo, tanateiro é quem fala de mais e este termo é, sobretudo, aplicado a rapariguitas que se pronunciam infatigavelmente sobre tudo e mais alguma coisa, apesar de Tanatos (Θάνατος), na mitologia grega, ser a personificação da morte, reinando Hades sobre os mortos no mundo inferior. Este nome foi transliterado em latim como Thanatus e o seu equivalente na mitologia romana é Mors ou Letum (Morte ou Leto).

2026 01 06

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

sábado, 30 de outubro de 2010

Cancões heróicas musicadas por Fernando Lopes Graça

Fernando Lopes Graça em Évora

Sábado, Abril 28, 2007


FERNANDO LOPES-GRAÇA

músico/compositor, 1906-1994
, Colocado por Victor Nogueira @ Sábado, Abril 28, 2007
.
Fotografia de Victor Nogueira

shortcut: [Album549931]
Canções Heróicas / Canções Regionais Portuguesas  - album cover

Fernando Lopes Graça
 (1906-1994)
Canções Heróicas
 
Acordai
.
Acordai,
Homens que dormis
A embalar a dor
dos silêncios vis!
Vinde, no clamor
Das almas viris,
Arrancar a flor
Que dorme na raiz!

Acordai,
Raios e tufões
Que dormis no ar
E nas multidões!
Vinde incendiar
De astros e canções
As pedras e o mar,
O mundo e os corações!

Acordai!
Acendei,
De almas e de sóis
Este mar sem cais,
Nem luz de faróis!

E acordai, depois
Das lutas finais,
Os nossos heróis
Que dormem nos covais
Acordai!
 

Jornada
.
Não fiques para trás, ó companheiro,
É de aço esta fúria que nos leva.
Pra não te perderes no nevoeiro,
Segue os nossos corações na treva.

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
Havemos de chegar ao fim da estrada,
Ao som desta canção.

Aqueles que se percam no caminho,
Que importa! Chegarão no nosso brado.
Porque nenhum de nós anda sozinho,
E até mortos vão ao nosso lado.

Vozes ao alto!
Vozes al alto!
etc.
 

Mãe Pobre
.
Terra Pátria serás nossa,
Mais este sol que te cobre,
Serás nossa,
Mãe pobre de gente pobre.

O vento da nossa fúria
Queime as searas roubadas;
E na noite dos ladrões
Haja frio, morte e espadas.

Terra Pátria serás nossa
Mais os vinhedos e os milhos,
Serás nossa,
Mãe que não esquece os filhos.

Com morte, espadas e frio,
Se a vida te não remir,
Faremos da nossa carne
As seraras do porvir.

Terra Pátria serás nossa,
Livre e descoberta enfim,
Serás nossa,
Ou este sangue o teu fim.

E se a loucura da sorte
assim nos quizer perder,
Abre os teus braços de morte
E deixa-nos aquecer.
 

Convite
.
Vinde ver a Primavera,
Vós que sois da minha terra.
Na raiz de cada chão
Nasce um canto contra a guerra.

Vinde ver o sol fecundo
E abraçar a ventania.
Nas vozes de cada fome
Há gritos de rebeldia
Vinde, vinde!
 

Firmeza
.
Sem frases de desânimo,
Nem complicações de alma,
Que o teu corpo agora fale,
Presente e seguro do que vale.

Pedra em que a vida se alicerça,
Argamassa e nervo,
Pega-lhe como um senhor
E nunca como um servo.

Não seja o travor das lágrimas
Capaz de embargar-te a voz;
Que a boca a sorrir não mate
Nos lábios o brado de combate.

Olha que a vida nos acena
Para além da luta.
Canta os sonhos com que esperas,
Que o espelho da vida nos escuta.
 

Cantemos o Novo Dia
.
Olhai que vamos passar,
Nosso canto é de verdade;
Vinde connosco lutar,
Nós somos a liberdade.

A terra está toda em flor
O céu é todo alegria.
A nossa voz é de amor,
- Cantemos o Novo Dia!

Ó jovem que és cavador,
Semeia, hás-de colher.
A papoila é nossa flor,
O trigo é nosso querer.

Toda a palavra é de amor,
A hora é nossa, confia,
Nosso olhar tem mais fulgor
- Cantemos o Novo Dia!

Há seiva forte a brotar,
Novas folhas a nascer,
A Primavera a chegar,
Os homens querem viver.

A juventude é mais moça
Quando o amor principia
Pois se a vida é toda nossa
- Cantemos o Novo Dia!
 

Combate
.
Nada poderá deter-nos
Nada poderá vencer-nos.
Vimos do cabo do mundo
Com este passo seguro
De quem sabe aonde vai.

Nada poderá deter-nos,
Nada poderá vencer-nos!

Guerras perdidas e ganhas
Marcaram o nosso corpo,
Mas nunca em nós foi vencida
Esta certeza sabida
De saber aonde vamos.

Nada poderá deter-nos,
Etc.

Os mortos não os deixamos
Para trás, abandonados,
Fizemos deles bandeiras,
Guias e mestres, soldados
Do combate que travamos.

Nada poderá deter-nos,
Etc.

Nada poderá deter-nos,
Pró assalto das muralhas
Nossos corpos são escadas,
Para as batalhas da rua
Nossos peitos barricadas.

Nada poderá deter-nos,
Etc.

Nada poderá vencer-nos,
Vimos do cabo do mundo
Vimos do fundo da vida:
Que somos o próprio mundo
E somos a própria vida.

Nada poderá deter-nos,
Etc.
 

Ronda
.
Amor, já se aproxima a hora
De darmos as mãos e dançar.
A ronda que começa agora,
Eia agora!
É para nela se bailar.

Mas precisamos ir primeiro
por uma madrugada fria,
Fazer dos anseios bandeira,
Na dor temperar a alegria.

Amor, já se aproxima a hora
De darmos as mãos e dançar.
Na ronda que começa agora,
Eia agora!
Havemos todos de entrar.

Se a vida vã que nos uniu
À morte assim nos entregasse,
Seria uma noite mais noite
Que a esta noite nos poupasse.

Amor, já se aproxima a hora
De darmos as mãos e dançar.
A ronda que começa agora,
Eia agora!
Não mais voltará a parar.

E o novo dia se levanta
Vadiando da rua ao telhado.
- Amor, estende a tua manta,
Vamos dormir sobre o passado.
 

Livre
.
Não há machado que corte
A raiz ao pensamento:

Não há morte para o vento,
Não há morte.

Se ao morrer o coração
Morresse a luz que lhe é querida,

Sem razão seria a vida,
Sem razão.

Nada apaga a luz que vive
Num amor, num pensamento,

Porque é livre como o vento
Porque é livre.
 

Canto de Esperança
.
Dentro de mim e de ti
Algo de novo estremece,
A vida abre-se e ri
Na hora que se entretece.
Vultos parados e sós,
Mudez da alma sozinha,
Tomai o corpo e a voz
Da vida que se adivinha.

Canta mais alto, avança e canta,
Lança-te à marcha, não te afastes.
Mistura a tua voz à voz que se levanta
Das chaminés e dos guindastes.

Rasgam-se os céus e a terra,
A esperança cai e refaz-se.
É o grito duma outra guerra:
Canto do homem que nasce.

Tomam forma consistente
As ilusões encobertas.
Caminha, caminha em frente
Para as novas descobertas.

Canta mais alto, avança e canta,
Etc.

Molda em teus dedos leais
Um destino à tua imagem.
Ao ódio dos vendavais
Ergue uma viva barragem.

Da alma do tempo imundo
Arranca a felicidade.
Homens humanos do mundo!
Homens de boa vontade!

Canta mais alto, avança e canta,
Etc.
 

Canto de Paz
.
Homens deixai abrir a alma ao que vier,
Deixai entrar a paz do tempo que ela quer.

De par em par aberta com sol até ao fundo,
Gastai a alma toda na harmonia do mundo.

Homens deixai abrir a alma ao que vier,
Etc.

Homens que vagueais pela berma da vida,
Tereis enfim sinais da glória prometida.

Homens deixai abrir a alma ao que vier,
Etc.

Na voz do Dia Novo a dar bom dia aos astros,
Quando a tristeza for só pó dos vossos rastros,

Homens deixai abrir a alma ao que vier,
Etc.
 

Canto Livre
.
Gema embora a terra inteira
Acurvada a iníquas leis;
Esta fonte sobranceira
Jamais de rojo a vereis.

Hó! Ninguém, ninguém a esmaga
Que eu sou livre como a vaga,
Que sacode sobre a plaga
O jugo de altos baixéis.

Liberdade é o mote escrito
No céu, na terra e no mar!
Di-lo a fera no seu grito
Di-lo a fera no seu grito
E as aves cruzando o ar,
Di-lo o vento da procela,
A vaga que se encapela
E nos espaços a estrela
E nos espaços a estrela
Em seu contínuo girar.

Eu sou livre; eis minha crença,
Nem força contra ela vale.
Que um tirano enfim me vença;
Triunfarei por seu mal.

Triunfarei, que algemado
E diante dele arrastado,
Sou livre! Será meu brado
Até ao momento final
Liberdade é o mote escrito
Etc.
 

Clamor
.
Ao sol os olhos vendados,
Braços na luta cingidos;
E ainda que algemados
- Algemados
Mas nunca vencidos!

Sabemos do sofrimento
O que no sofrimento há;
Se a dor é desalento
- Desalento
Outra fé nos dá!

Uma esperança em cada vida,
Que ao calor do ódio arde;
Luta até mesmo abatida
- Abatida
Mas nunca cobarde!

Carne que se não corrige,
Chicote com sangue a lava;
Se só na morte transige
- Transige
Mas nunca é escrava!
 

Ó Pastor que choras.
.
Ó pastor que choras;
O teu rebanho onde está?
Ó pastor que choras;
O teu rebanho onde está?
Deita as mágoas fora!
Carneiros é o que mais há!
Deita as mágoas fora!
Carneiros é o que mais há!

Uns de finos modos
Outros vis por desprazer:
Uns de finos modos
Outros vis por desprazer:
Mas carneiros todos
Com carne de obedecer!
Mas carneiros todos
Com carne de obedecer!

Quem te pôs na orelha
Essas cerejas pastor?
Quem te pôs na orelha
Essas cerejas pastor?
São de cor vermelha!
Vai pintá-las de outra cor...
São de cor vermelha!
Vai pintá-las de outra cor...

Vai pintar os frutos,
As amoras, os rosais:
Vai pintar os frutos,
As amoras, os rosais:
Vai pintar de luto
As papoilas dos trigais!
Vai pintar de luto
As papoilas dos trigais!
 

Canções de Catarina
.
Na fome verde das searas roxas
Passeava sorrindo Catarina
Passeava sorrindo Catarina

Ah!

Na fome verde das searas roxas
Ai a papoila,
Ai a papoila cresce na campina!
Ai a papoila cresce na campina!

Ah!

Na fome roxa das searas negras
Que levas, Catarina, em tua fonte?
Que levas, Catarina, em tua fonte?

Na fome roxa das searas negras
Ai devoraram,
Ai devoraram corvos o horizonte!
Ai devoraram corvos o horizonte!

Ah!

Na fome negra das searas rubras
Ai da papoila, ai de Catarina!
Ai da papoila, ai de Catarina!

Ah!

Na fome negra das searas rubras trinta balas,
Trinta balas gritaram na campina

Trinta balas
Trinta balas
Te mataram a fome

Catarina
 

As Papoilas
.
O papoilas dos trigais,
Em ondas de cor...
Em ondas de cor...
Sangrentas como os punhais
Do nosso suor...
Do nosso suor...

Dá vontade de arrancá-las,
Pô-las nas lapelas...
Pô-las nas lapelas...
E, depois,
E, depois, dependurá-las
Na luz das estrelas
Na luz das estrelas.

O papoilas como chagas
Em ondas de flor...
Em ondas de flor...
No sangue das vossas vagas
Anda a nossa dor
Anda a nossa dor.

Outras papoilas um dia,
Pela terra fora
Pela terra fora
Darão ao mundo a alegria
Duma nova aurora
Duma nova aurora.
 

Canção do Camponês
.
Adeus trigo, ai, adeus trigo,
Depois de ceifado, adeus:
Amanho-te e não mastigo,
Ai, nem eu, nem eu nem os meus.

O escravo da campina
Ouve o motor do tractor
Com ele mudas a sina -
Da terra és conquistador!.

Searas cor de sol posto,
Meu mar alto de aflição
Enche-o com suor do rosto,
Ai, em troca falta-me o pão.

O escravo da campina
Etc.

Ai campos, como os meus olhos.

Ai campos, como os meus olhos,
Rasos de água tanta vez:
Foram-se espigas nos molhos,
Ai, vem fome para o camponês.

O escravo da campina,
Etc.
 

Quando a Alegria for de todos
.
Quando a Alegria for de todos
Como bem que não tem dono
Como bem que não tem dono;
Quando a alegria for de todos
E tão naturalmente
E tão naturalmente
Como o ar que respiramos
Quando a alegria for de todos -
Que bom será viver
E Respirar a plenos pulmões
O ar saudável da alegria!
Como será bom e belo e fecundo
O riso da Vida
O riso da Vida
Nas bocas floridas,
Nas bocas floridas de palavras de Amor!
Ah!

Quando a alegria for de todos
Quando a alegria for de todos
todos, todos!.
 

Não te deites, Coração
.
Não te deites, coração,
À sombra dos teus amores.
Não durmas, olha para eles,
Com alegrias e dores.

Não tenhas medo. O calor,
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios não queima
Erguendo incêndios não queima
O que não é de queimar.

Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...
Nos incêndios naturais
Queima o ramo das saudades
E faz a tua canção
E faz a tua canção
Do surgir das tempestades!
 

Hino do Homem
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Homem, se homem queres ser
E não uma sombra triste,
Olha para tudo o que existe
Com olhos de bem ver.

Nada,
Nada receies saber.
Ao que não amas, resiste.

Mesmo vencido, persiste
E acabarás,
E acabarás por vencer.

Quere,
Quere e poderás poder.
Vai por onde decidiste.

A liberdade consiste
No que a razão
No que a razão
No que a razão te impuser.

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http://tv1.rtp.pt/canais-radio/antena2/arquivo_cancoes/fernando-lopes-graca-1.html
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Fernando Lopes-Graça (1906-1995)
Fernando Lopes-Graça foi um dos mais notáveis compositores e musicólogos contemporâneos. Nasceu a 17 de Dezembro de 1906, em Tomar. Estudou em Coimbra, no Conservatório Nacional. As «Variações Sobre um Tema Popular Português para Piano» são a sua primeira obra, datada de 1929.
Biografia de Fernando Lopes Graça: http://www.citi.pt/cultura/temas/frameset_graca.html






Portuguese Folk Music
Vol. IV – Alentejo  
«Esta antologia é o fruto das primeiras pesquisas que Giacometti realizou em Portugal. Contou com a preciosa colaboração de Fernando Lopes Graça, na selecção de trechos musicais e na análise dos mesmos»:
http://montra.alentejodigital.pt/cd.htm
Fernando Lopes-Graça dedicou toda uma vida à recolha de temas tradicionais. Juntamente com Michel Giacometti, fez uma recolha sobre os ritmos e cantares do povo português que é considerada como uma das mais importantes para os estudos etnográficos.  


Ouvir Cantares Tradicionais dirigidos por Fernando Lopes Graça:

Para ouvir poemas tradicionais cantados aceda a: http://www.utad.pt/~cmisto/repertoriobai.html
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Sobre as Canções Heróicas
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As Canções Heróicas/ /Canções Regionais Portuguesas foram compostas musicalmente por Fernando Lopes-Graça e cantadas pelo Coro da Academia de Amadores de Música com Olga Prats ao piano.
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São canções politicamente empenhadas que contribuíram para exaltar a liberdade e dar força a todos aqueles que lutavam contra o antigo regime. A primeira versão foi publicada, em 1946, sob o título de «Marchas, Danças e Canções – próprias para grupos vocais ou instrumentos populares». Foi apreendida pela Censura o que impediu que os poemas fossem ouvidos e cantados em espectáculos ou sessões públicas, como até então. Contudo, muitos resistentes continuaram a cantar as canções nos encontros clandestinos ou nos países onde se encontravam exilados. Em 1960, surge uma  colecção, mais alargada, com o nome de «Canções Heróicas, Dramáticas, Bucólicas e Outras». A nova edição destinava-se a celebrar o 50º aniversário da implantação da República e foi divulgada com grandes precauções, num meio muito restrito de pessoas. Finalmente, a versão final ficou conhecida por «Canções Heróicas».
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http://cvc.instituto-camoes.pt/poemasemana/05/02.html
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Lopes Graça

Juntamente com os poetas José Gomes Ferreira, João José Cochofel, Carlos de Oliveira, entre outros, compõe as Canções Heróicas, cantadas em defesa da paz e ...
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    Canciones de Canções Heróicas / Canções Regionais Portuguesas

  1. CANÇÕES HERÓICAS: Acordai (02' 08'')
  2. Jornada (01' 13'')
  3. Mãe Pobre (01' 52'')
  4. Convite (01' 06'')
  5. Firmeza (01' 26'')
  6. Cantemos o Novo Dia (01' 28'')
  7. Combate (02' 00'')
  8. Ronda (01' 52'')
  9. Livre (01' 32'')
  10. Canto da Esperança (02' 19'')
  11. Canto de paz (02' 46'')
  12. Canto Livre (03' 02'')
  13. Clamor (01' 33'')
  14. Ó Pastor que Choras (01' 22'')
  15. Canção de Catarina (01' 47'')
  16. As Papoilas (01' 14'')
  17. Canção do Camponês (02' 38'')
  18. Quando a Alegria for de Todos (01' 09'')
  19. Não te Deites Coração (01' 19'')
  20. Hino do Homem (01' 37'')
  21. CANÇÕES REGIONAIS PORTUGUESAS: Nossa Senhora das Preces (01' 54'')
  22. Lá em Sta. Iria (01' 31'')
  23. Nem contigo nem sem ti (02' 06'')
  24. S. João Adormeceu (03' 26'')
  25. Andorinha Gloriosa (01' 35'')
  26. Quatro Laços da Dança dos Paulitos (02' 15'')
  27. Fui-te ver, 'stavas lavando (02' 23'')
  28. Anda Duermente Niño (01' 02'')
  29. Oração de Sto. António (02' 18'')
  30. Ai de Mim Tanta Laranja (01' 51'')
  31. Moradoras Desta Casa (01' 12'')
  32. Deus Te Guarde, Pastorinha (03' 16'')
  33. Vai Colher a Rosa (02' 10'')
  34. Milho Verde, Milho Verde (01' 50'')
  35. Senhora do Livramento (01' 45'')
  36. Sete varas tem (02' 44'')
  37. Tascadeiras do Meu Linho (01' 45'')
  38. Ó Senhora do Amparo (02' 19'')
  39. Passarinha Trigueira (02' 02'')
  40. À Moda da Rita (03' 04'')
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domingo, 22 de agosto de 2010

Avieiros - Alves Redol

Avieiros

Alves Redol

Avieiros

Portugália, 1942
1ª edição
"... Incerto o pão na sua praia, só certa a morte no mar que os leva, eles partem. Da Vieira de Leiria vêm ao Ribatejo. Aqui labutam. Alguns voltam ainda, roídos das saudades do seu Mar. Muitos ficam. Avieiros lhes chamam na Borda de Água..."
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Um dos primeiros e mais marcantes romances do autor.
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Alves Redol 
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Nasceu em 1911 em Vila Franca de Xira. Romancista e Dramaturgo, foi um dos expoentes da literatura neo-realista em Portugal. Os dramas humanos do Ribatejo e do Douro são o tema central da sua obra, descritos em romances como Gaibéus, Barranco de Cegos ou no ciclo Port-Wine. Alves Redol  é, em si mesmo, uma personagem exemplar num movimento literário cuja ambição maior era fazer uma arte do povo e para o povo.
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O Mirante, diário on-line
Edição de 14-02-2008

Nauticampo promove comunidade no Parque das Nações
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Cultura dos pescadores avieiros quer ser património nacional




A cultura dos pescadores avieiros - que povoaram as margens do Tejo e deixaram marcas culturais na zona de Azambuja, Salvaterra de Magos e Vila Franca de Xira – quer ser elevada a património nacional. É pelo menos esta a intenção de um projecto que está a ser divulgado na Nauticampo 2008, um evento que decorre no Parque das Nações, em Lisboa, até 17 de Fevereiro, num espaço que conta com mais de 54 metros quadrados. 
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Os responsáveis pelo projecto, que envolve já 75 instituições, vão mostrar um barco avieiro, artes de pesca avieiras, fotos históricas, quadros a óleo sobre a temática e apresentarão um filme em formato DVD. Os responsáveis do projecto sublinham a “viragem histórica” na edição deste ano da Nauticampo, num “contributo muito importante para o desenvolvimento e dinamização da cultura ribeirinha do Tejo e em particular da cultura avieira”. “Em vez de uma ‘orientação ao produto’ (barcos, acessórios e equipamento), a Nauticampo vai evoluir no sentido de uma ‘orientação aos estilos de vida’ (paixão pelo mar, gosto pela aventura e forte ligação à família)”, sublinham.
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Para dia 16, está agendada uma conferência sobre as “vidas ribeirinhas na construção da identidade nacional”, promovida pela Associação Náutica da Marina do Parque das Nações, uma das instituições que se associou ao projecto, e pelo Centro Náutico Moitense.
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O projecto que visa elevar a cultura avieira a património nacional teve a sua origem numa investigação sobre os avieiros do Patacão (Alpiarça), realizada em Junho de 2006. Desde então, a Associação Independente para o Desenvolvimento Integrado de Alpiarça (AIDIA) e a Escola Superior de Educação de Santarém, que coordenam os trabalhos de candidatura, contactaram 135 instituições e pessoas, tendo sido realizadas cerca de 70 reuniões, incluindo o I Encontro Regional da Cultura Avieira, em Junho de 2007.
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“O interesse suscitado pelo projecto levou a que tenham aderido até esta data 75 das instituições e pessoas que foram contactadas”, afirmam. O objectivo é entregar a candidatura da cultura avieira a património nacional até 2009, depois da realização de um encontro nacional previsto para Outubro deste ano. 
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Os pescadores avieiros são provenientes da aldeia piscatória de Vieira de Leiria, concelho da Marinha Grande. No Inverno rumavam ao Tejo à procura de sustento. Deixavam o mar salgado e bravio e partiam no encalço da água doce onde pescavam o sável. Muitos viviam nos barcos avieiros, cobertos apenas, por uma lona. O quarto era à proa, a cozinha ao meio e a oficina da pesca à ré.
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A comunidade avieira também ergueu nas margens do Tejo as típicas casas palafíticas assentes em estacas de madeiras. Uma tradição que levaram da Praia da Vieira e que impedia que as cheias atingissem as casas. Com o passar dos anos os donos das terras da Borda d’Água autorizaram-nos a estabelecer-se nas margens do Tejo, onde começaram a construir as primeiras barracas. 
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Foram várias as aldeias construídas ao longo do Tejo, segundo a tradição dos pescadores da Praia da Vieira, mas hoje poucas resistem. 
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Além da Palhota, no concelho do Cartaxo, a única que conserva maiores semelhanças com a tradição avieira, ainda existem as ruínas do Patacão, aldeia abandonada em 1988. Nas Caneiras as novas casas de tijolo e as de madeira, pré-fabricadas, tomaram o lugar das barracas avieiras. O Esteiro do Nogueira, em Vila Franca de Xira, deu lugar a uma moderna marina e na foz do Alviela, as duas aldeias chamadas Barreiras do Rio e Barreiras do Tejo estão desde meados do século passado à espera que a chuva e o vento as deite abaixo.
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“Teimosos os avieiros sempre lutaram pela sobrevivência desde que viram que o Tejo tinha começado a morrer devagar. Os seus filhos, que emigraram ou foram trabalhar para as fábricas, ficaram à espera, sempre com os olhos postos no rio. E sabe-se lá porquê, o peixe que tinha desaparecido, voltou. Voltou o sável, voltou a lampreia. E voltaram à pesca os filhos dos últimos avieiros do Tejo, num regresso às raízes, enchendo o rio de belos barcos com a proa virada para o céu”, lê-se no site da Palhota Viva (www.palhotaviva.pt). A comunidade apaixonou escritores e foi motivo de inspiração de livros e filmes. O escrito neo-realista Alves Redol imortalizou também a comunidade com o romance dedicado aos “Ciganos do Rio”, como lhes chamou.
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Casa típica onde Alves Redol viveu alguns meses
Imagem captada a 30 de Junho de 2007
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http://www.leme.pt/imagens/portugal/rotas/rota-dos-avieiros/0034.html
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quarta-feira, 3 de março de 2010

Quilombolas - tradições e cultura da resistência - de Rafael Sanzio e André Cypriano


 Blog do Suplemento Cultural
Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Quilombolas - tradições e cultura da resistência

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Quilombolas - tradições e cultura da resistência - um belíssimo livro, embasado em uma profusão de dados e informações. Uma exposição inesquecível. Confira um pouco do passado/presente do Brasil ! (E.C.)
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Quilombolas é designação comum aos escravos refugiados em quilombos, ou descendentes de escravos negros cujos antepassados no período da escravidão fugiram dos engenhos de cana-de-açúcar, fazendas e pequenas propriedades onde executavam diversos trabalhos braçais para formar pequenos vilarejos chamados de quilombos. Mais de duas mil comunidades quilombolas espalhadas pelo território brasileiro mantêm-se vivas e atuantes, lutando pelo direito de propriedade de suas terras consagrado pela Constituição Federal desde 1988.
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"Local isolado, formado por escravos negros fugidos... Esta talvez seja a primeira idéia que vem à mente quando se pensa em quilombo. Se pedirem um exemplo, o Quilombo de Palmares, com seu herói Zumbi será certamente a referência mais imediata.
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Essa noção remete-nos a um passado remoto de nossa História, ligado exclusivamente ao período no qual houve escravidão no País. Quilombo seria, pois, uma forma de se rebelar contra esse sistema, seria onde os negros iriam se esconder e se isolar do restante da população.
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Consagrada pela “História oficial”, essa visão ainda permanece arraigada no senso comum. Por isso o espanto quando se fala sobre comunidades quilombolas presentes e atuantes nos dias de hoje, passados mais de cem anos do fim do sistema escravocrata.
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Foi principalmente com a Constituição Federal de 1988 que a questão quilombola entrou na agenda das políticas públicas. Fruto da mobilização do movimento negro, o Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) diz que:
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“Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os respectivos títulos.”
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A concretização desse direito suscitou logo de início um acalorado debate sobre o conceito de quilombo e de remanescente de quilombo. Trabalhar com uma conceituação adequada fazia-se fundamental, já que era isso o que definiria quem teria ou não o direito à propriedade da terra.
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No texto constitucional, utiliza-se o termo “remanescente de quilombo”, que remete à noção de resíduo, de algo que já se foi e do qual sobraram apenas algumas lembranças. Esse termo não corresponde à maneira que os próprios grupos utilizavam para se autodenominar nem tampouco ao conceito empregado pela antropologia e pela História.
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A Associação Brasileira de Antropologia (ABA), na tentativa de orientar e auxiliar a aplicação do Artigo 68 do ADCT, divulgou, em 1994, um documento elaborado pelo Grupo de Trabalho sobre Comunidades Negras Rurais em que se define o termo “remanescente de quilombo”:
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“Contemporaneamente, portanto, o termo não se refere a resíduos ou resquícios arqueológicos de ocupação temporal ou de comprovação biológica. Também não se trata de grupos isolados ou de uma população estritamente homogênea. Da mesma forma nem sempre foram constituídos a partir de movimentos insurrecionais ou rebelados, mas, sobretudo, consistem em grupos que desenvolveram práticas de resistência na manutenção e reprodução de seus modos de vida característicos num determinado lugar.”
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Deste modo, comunidades remanescentes de quilombo são grupos sociais cuja identidade étnica os distingue do restante da sociedade.
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É importante deixar claro que, quando se fala em identidade étnica, trata-se de um processo de auto-identificação bastante dinâmico, e que não se reduz a elementos materiais ou traços biológicos distintivos, como cor da pele, por exemplo.
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A identidade étnica de um grupo é a base para sua forma de organização, de sua relação com os demais grupos e de sua ação política. A maneira pela qual os grupos sociais definem a própria identidade é resultado de uma confluência de fatores, escolhidos por eles mesmos: de uma ancestralidade comum, formas de organização política e social a elementos lingüísticos e religiosos.
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Esta discussão fundamentou-se também nos novos estudos históricos que reviram o período escravocrata brasileiro, constatando que os quilombos existentes nessa época não eram frutos apenas de negros rebeldes fugidos. Eram inúmeros e não necessariamente se encontravam isolados e distantes de grandes centros urbanos ou de fazendas.
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Esses estudos mostraram que as comunidades de quilombo se constituíram a partir de uma grande diversidade de processos, que incluem as fugas com ocupação de terras livres e geralmente isoladas, mas também as heranças, doações, recebimentos de terras como pagamento de serviços prestados ao Estado, simples permanência nas terras que ocupavam e cultivavam no interior de grandes propriedades, bem como a compra de terras, tanto durante a vigência do sistema escravocrata quanto após sua abolição.
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O que caracterizava o quilombo, portanto, não era o isolamento e a fuga e sim a resistência e a autonomia. O que define o quilombo é o movimento de transição da condição de escravo para a de camponês livre." Saiba mais em http://www.cpisp.org.br/comunidades/


O LIVRO
Quilombolas - tradição e cultura da Resistência
de Rafael Sanzio e André Cypriano


Genero Biografias, Diarios, Memorias & Correspondencias
Assunto Fotografia

Capa Dura
Numero de Páginas 240

A Historia do Brasil contada nos livros escolares retratada os quilombos como realidade distante e apartada do dia-a-dia dos demais brasileiros...com fotos

O livro documenta 10 comunidades quilombolas remanescentes de quilombos, divulgando amplamente suas questões sociais e culturais.

Tiragem: 10 mil exemplares.

Patrocínio: Petrobras.

A EXPOSIÇÃO
Exposição Quilombolas - Tradições e Cultura da Resistência

Após visitar mais de 15 cidades brasileiras, chega a São Paulo a exposição Quilombolas - Tradições e Cultura da Resistência. Na capital, a mostra itinerante de fotografia inaugurada em 10 de outubro, na estação Sé do Metrô, podendo ser visitada até dia 30 do mesmo mês. Ainda na cidade, a partir de 10 de novembro, o público que circula pela estação Paraíso do Metrô também poderá acompanhar as imagens do fotógrafo documentarista André Cypriano, até o final do mês.

O registro fotográfico inédito realizado por André Cypriano em negativo convencional preto-e-branco, é resultado da pesquisa de campo em 11 comunidades negras remanescentes dos quilombos no Brasil, entre elas o Quilombo Cafundó, em Sorocaba, no interior de São Paulo

A mostra pretende divulgar a realidade das comunidades quilombolas brasileiras e incentivar o diálogo entre as comunidades afro-descendentes de cada região do país por onde passa, dando-lhes visibilidade e enfatizando as questões sociais, culturais, reconhecimento e participação social.

A exposição, que em São Paulo tem o patrocínio da DANA (Metrô Sé e Paraíso) e ArcelorMittal Brasil (Metrô Sé), com recursos do ProAC – Programa de Ação Cultural – Secretaria de Estado da Cultura, é composta por 27 fotografias em preto-e-branco, no formato 50 cm x 75 cm; sete fotografias panorâmicas, no formato 40 cm x 110 cm, seis fotografias em preto-e-branco 30 x 40 cm, dois mapas, cinco painéis de textos e legendas.

A mostra que se iniciou em 2006, foi concebida inicialmente para poucas cidades. No entanto, devido ao interesse de público e órgãos institucionais de cultura, a mostra já circulou por 15 cidades brasileiras e seis cidades da América Latina - Assunção, Buenos Aires, Montevidéu, La Paz, Lima e Bogotá. Nesta nova fase, estão programadas 15 exposições em todo o País, entre elas Campo Grande (01/12), e Porto Alegre (05/12).

A curadoria da exposição é de Denise Carvalho, produtora cultural e diretora da Aori Produções Culturais, empresa realizadora do projeto. O material original faz parte do livro Quilombolas - Tradições e cultura da resistência, com fotografias de André Cypriano e pesquisa de Rafael Sanzio Araújo dos Anjos.

SERVIÇO: Exposição Quilombolas - Tradições e Cultura da Resistência Local: Estação Sé do Metrô Praça da Sé S/N - Centro São Paulo - SP Visitação: 10 a 30 de outubro de 2009 Diariamente, no horário de funcionamento do Metrô

Exposição Estação Paraíso do Metrô 10 a 30 de novembro de 2009 Diariamente, no horário de funcionamento do Metrô Realização: Aori Produções Culturais www.aori.com.br Patrocínio: ArcelorMittal Dana Apoio Institucional: Secretaria de Estado da Cultura - PROAC Companhia do Metropolitano de São Paulo - Metrô Apoio Cultural: Mina Cultural

UM LANÇAMENTO E REALIZAÇÃO




publicado por o editor às 11:39.
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Ver também no Kant_O_Photomático - André Cypriano - . Fotografia // Arte da resistência.
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Índios escritores resgatam sua história

Daniel Munduruku

Cultura

Vermelho - 13 de Dezembro de 2009 - 17h04

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 Os índios escritores estão recuperando a história dos povos indígenas que os não índios ignoram. Seus livros, numa coleção de narrativas para crianças e adultos que relembram as tradições das 250 nações hoje sobreviventes no Brasil, variam no estilo, mas perseguem todos o mesmo objetivo - restaurar na ficção de lendas, novelas e romances a sabedoria dos ancestrais. 

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Pesquisas antropológicas e o registro de uma memória que vem sendo transmitida, de geração em geração, pela boca dos pajés, permitem resgatar toda essa riqueza cultural. Daniel Munduruku, ou Derpó, que em sua língua nativa significa Peixe Maluco, é um dos pioneiros desse esforço editorial.
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Ao lado de guerreiros como Marcos Terena, Kaká Werá, Aílton Krenak, Darlene Taukane, Eliane Potiguara e dezenas de outros autores que aparecem num catálogo literário organizado por entidades de defesa dos bens e direitos sociais dos índios, Daniel ajuda a espalhar a produção intelectual de seus parentes, pelo Brasil e no exterior.
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Aos 45 anos de idade e 13 de escritor, Daniel lança O Karaíba, uma história do pré-Brasil (Editora Manole, 98 págs., R$ 39), romance destinado ao público juvenil. É mais um livro para ler com o coração, conselho válido para todas as lendas buscadas nas profundezas dos séculos anteriores à chegada dos portugueses à Bahia.
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Essa é uma história de ficção", alerta Daniel, com a ressalva de que, se não ocorreu de verdade, é uma história que poderia ter acontecido. Karaíba foi um profeta que percorria as aldeias prevendo coisas assustadoras, como a chegada de um grande monstro que destruiria tudo. "Não sobrarão nem vestígios de nossa passagem sobre esta terra onde nossos pais viveram", anunciou o velho sábio a seus parentes que habitavam a Amazônia.
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"Tudo será revirado: as águas, a terra, os animais, as plantas, os lugares sagrados", era essa a visão de Karaíba que os índios confirmariam no futuro, quando um jovem se assustou com um ponto branco se aproximando da praia. "Fantasmas estão chegando!", gritou aos guerreiros da aldeia.
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O que aconteceu daí em diante, a história contada pelos não índios, os manuais ensinam nas escolas. Nas páginas desse seu pequeno romance, Daniel resgata um pouco da cultura e da tradição dos Munduruku, que se espalham hoje com uma população de 12 mil índios pelos Estados de Mato Grosso, Amazonas e Pará.
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Foi numa aldeia da região de Santarém (PA), entre os igarapés afluentes do Rio Tapajós, que Daniel viveu até os 15 anos. Quando o pai foi morar na cidade, continuou a visitar seu povo, como conta em outro livro, Meu Vô Apolinário (Studio Nobel), que ele define como "um mergulho no rio de (minha) memória". Casado com uma moça do Vale do Paraíba e pai de dois filhos, Daniel formou-se em Filosofia na Universidade Salesiana de Lorena e faz doutorado em Educação na USP, enquanto escreve e dá palestras pelo Brasil afora.
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Cultura para crianças
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A tradição e a cultura indígena também são compartilhadas com as crianças nas escolas. "Xibat?", pergunta o índio escritor-professor a uma turma de alunos da Escola Lourenço Castanho, no bairro do Ibirapuera, em São Paulo, na manhã de uma sexta-feira de novembro. Os meninos e meninas, de 8 a 10 anos, que no início do encontro tinham ouvido de Daniel uma saudação em língua indígena, logo traduzida para o português, não entenderam nada. Todos sorriam, esperando a tradução de mais essa palavra.
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"Tudo bem? Tudo legal? Tudo joia? Tudo porreta?", traduziu o índio, despejando uma enxurrada de gírias para quebrar o gelo. Depois contou que, na aldeia, ninguém se cumprimenta com beijos e abraços, mas só com uma saudação simples como xibat, olhando nos olhos, porque, como dizem os ancestrais, "o olho é a única parte do corpo que não mente". Explicou que Munduruku quer dizer Formiga Guerreira ou Gigante, um nome que, com um significado desse, só pode dar orgulho a seu povo. A criançada prestou a maior atenção.
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"Meu povo, que vive na floresta há séculos, entrou em contato com os não índios há uns 300 anos. Aprendeu a usar roupa quando lhe disseram que era pecado andar pelado, balançando os balangandãs. Aprendeu a comer alimentos, como o macarrão, que não faziam parte de sua tradição. Os índios comiam mandioca, anta, farinha, peixe. Os índios, que falavam sua língua tradicional, tiveram de aprender o português. Os povos indígenas, que falam 180 línguas nas diversas regiões do País, agora são bilíngues."
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Não havia como não prestar atenção. O horário reservado para a palestra estourou, porque Daniel cativou os alunos. Fez provocações engraçadas, riu, gritou alto de assustar até os adultos, cantou, ensaiou passos de dança, pintou a cara com tinta de jenipapo e de urucum, pôs um cocar de chefe na cabeça e um colar de festa no pescoço. Assumiu a identidade da aldeia ao relembrar a cultura dos ancestrais, mas deixou claro que fazia concessões à modernidade. Para divulgar a história dos índios e defender seus direitos, tem um blog na internet e se comunica por e-mail e por telefone celular.
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"O povo indígena é um povo humano, que tem raiva, alegria, amor e ciúme", disse Daniel, citando sentimentos que acompanham seus personagens. Ao descrever as aventuras de seus parentes - com namoros, casamentos, caçadas, guerras e alianças de paz - ele utiliza palavras atuais, como garoto, rapaz e moça. Tudo com poesia e figuras simbólicas, mas sem aquela linguagem tipo "virgem dos lábios de mel" com que José de Alencar se referia a Iracema.
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Derpó Munduruku, que hoje se orgulha desse nome, mesmo atendendo pelo registro civil que o rebatizou como Daniel, confessa que já sentiu vergonha de suas origens, quando era discriminado por causa da imagem que o índio tinha. "Além de considerar que o índio era preguiçoso e feio, diziam que ele atrapalha o progresso, pois tem muita terra e não sabe o que fazer com ela."
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Daniel queria ser bombeiro ou astronauta, não queria ser visto como um selvagem. "Agora, tenho consciência de minha identidade e gosto dela: sou um brasileiro-índio." E, quando ele lembrou que existem brasileiros brancos, negros, japoneses, italianos e cidadãos de muitas outras ascendências que nem por isso são menos brasileiros, todos entenderam. "Xibat?", perguntou o índio. "Xibat", respondeu a criançada em coro.
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Com O Estado de S.Paulo

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[Audiobook] Catando Piolhos, Contando Histórias – Daniel Munduruku ...

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Coisas de Índio: Versão Infantil

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Daniel Munduruku, autor deste bonito panorama sobre as comunidades indígenas do Brasil, é índio e gosta de ser índio. Ou seja, acha fundamental o resgate do orgulho indígena, tão em baixa desde que os brancos aqui aportaram. Tanto que a expressão "coisas de índio" tem valor negativo, querendo dizer: "coisas de gente esquisita, de ignorante". Mas, desde que conduzidos pela mão certa, basta uma rápida olhada na cultura e na história dos povos indígenas para vermos que não é bem assim. Coisas de índio é um livro para pesquisa, acessível, interessante e muito atraente, capaz de fazer com que o leitor sensível compreenda toda a riqueza e pluralidade das coisas dos nossos índios.
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http://www.planetanews.com/produto/L/44029/coisas-de-Indio--versao-infantil-daniel-munduruku.html
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quarta-feira, 23 de abril de 2008

O Brasil na vida e na obra de Ferreira de Castro

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* Maria Saraiva de Jesus
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Poucos autores como José Maria Ferreira de Castro possuem uma obra tão inextricavelmente ligada à sua vida..

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A sua experiência de vida na Amazónia, dos 12 aos 16 anos, é apro­veitada para as intrigas de Criminoso por Ambição (1916), Carne Faminta (1922), «O Escravo Redimido» (texto integrado no volume de novelas Sendas de Lirismo e de Amor - 1925), A Selva (1930) e Instinto Supremo (1968). A observação da vida de outros emigrantes serviu-lhe para a escrita de Emigrantes (1928), tendo localizado no estado de São Paulo uma intriga que certamente seria também verosímil em outros estados do Brasil.

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Das três primeiras obras citadas pouco se sabe, pois o autor não permitiu a sua reedição, considerando-as apenas experiências de juventude.
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Criminoso por Ambição, redigida no seringai Paraíso, quando o autor tinha 14 anos, é, no entanto, estudada por José Tavares 1, que dela transcreve extensos parágrafos. De Ossela, freguesia onde nasceu Ferreira de Castro, parte o herói, pobre e digno, para o Brasil, a fim de ganhar fortuna que o possa aproximar da sua amada, menina rica que lhe corresponde na paixão, mas que é também pretendida por um homem rico e de mau carácter. Após algumas aventuras, Simão vai trabalhar para um seringal, nas margens do rio Purus, no alto Amazonas, mas não alcança por esse meio a fortuna pretendida. E com um bilhete da lotaria que enriquece, deixando a seguir o Pará para ir casar com a sua amada a Ossela. Nesta ingénua narrativa de acção, o cenário brasileiro do Amazonas e do Pará está apenas brevemente marcado, como o está em Carne Faminta e em «O Escravo Redimido».
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Estas duas novelas são analisadas por Alexandre Cabral como ante­cedentes d'A Selva 2, pois também se passam em seringais amazónicos, apresentando algumas coincidências de enredo que serão mais desenvolvidas n'A Selva. Carne Faminta trata de um incesto entre mãe e filho, num espaço social em que não há outras mulheres. Também A Selva sublinha a frustração sexual dos seringueiros e demais empregados, num cenário em que as mulheres escasseiam e as poucas existentes são guardadas pelos maridos, que não hesitariam em matar a hipotética adúltera e o seu amante. Em «O Escravo Redimido», tal como n'A Selva, aparece o ex-escravo Tiago, em ambas as obras também conhecido pela alcunha «Estica», por coxear de uma perna, e em ambas este negro incendeia o barracão, causando a morte do dono do seringai. Nas duas obras o negro Tiago solidariza-se, no episódio do incêndio, com os seringueiros, vítimas do sistema esclavagista posto em prática pelo patrão. Em «O Escravo Redimido» os actos esclavagistas são provocados pela revolta dos seringueiros, causada pelo aumento dos preços dos géneros alimentícios, num contexto de desvalorização da borracha, e Tiago recebe claramente a soli­dariedade do autor, o que, aliás, é evidente no título da novela. N'A Selva, o acto de Tiago é directamente provocado pelo facto de o patrão ter mandado prender a um tronco cinco fugitivos com débito e de os ter mandado chicotear até provocar sangue com um peixe-boi. Alberto imagina-se num tribunal, como advogado de acusação de Tiago, e a atitude de solidariedade do autor fica, assim, mais diluída.
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O facto de o autor apenas aflorar a sua experiência amazonense nestas obras de juventude deveu-se ao misto de medo e fascínio com que o autor considera as suas reminiscências daquele «inferno verde», nas palavras sugestivas de Olavo Bilac. O autor confessa-o na introdução que escreveu para a edição comemorativa d'A Selva, de 1955:
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Foi também por isso, talvez, que durante muitos anos tive medo de revivê-la literariamente. Medo de reabrir, com a pena, as minhas feridas, como os homens lá avivavam, com pequenos machados, no mistério da grande floresta, as chagas das seringueiras. [...] .
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Esse velho terror dominou-me sempre que tentei aproximar-me da selva nos meus primeiros livros; e das poucas vezes que o fiz, para eles colhi apenas alguns ramos marginais, nunca indo além do passeante distraído que estende o braço e, sem parar, arranca a folha do arbusto erguido à beira do seu caminho 3.
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É A Selva a obra que mais coincidências oferece com a vida do autor, apesar dos elementos fictícios. Tal como Alberto, Ferreira de Castro também emigra para Belém, capital do Pará, recomendado a um conterrâneo, que logo se descarta da responsabilidade de o sustentar, enviando-o para o seringai Paraíso, numa das margens do rio Madeira, no alto Amazonas. Mas enquanto Ferreira de Castro emigra com apenas 12 anos, após a conclusão do ensino primário, Alberto é um jovem estudante do 4.º ano de Direito e tem 26 anos, quando se vê forçado a ir para Espanha e daí para o Brasil, para fugir à perseguição de que são alvo os monárquicos, após a derrota de Monsanto. No caso de Alberto, é um tio que o recebe em Belém do Pará e que o convence a ir para o seringai Paraíso. Tanto Ferreira de Castro como Alberto para lá se dirigem na terceira classe do barco «Justo Chermont»; Ferreira de Castro regressa a Belém do Pará no «Sapucaia» e para Alberto também se anuncia o retorno a Belém no mesmo barco. Ferreira de Castro regressa com 16 anos, tendo passado quatro no seringai, primeiro como seringueiro e depois como empregado no armazém aviador do seringai. Alberto também começa a trabalhar como seringueiro, passando para o armazém e o escritório, devido às circunstâncias de não produzir muito na colecta da borracha, de ter habi­litações superiores às de todas as outras personagens e também pelo facto de Binda, o antigo empregado do armazém, ser necessário para a fiscalização do seringai. Alberto e Ferreira de Castro têm várias outras tarefas, entre elas a de limparem e conservarem aceso o farol que indicava à navegação a localização do seringai. Mas, quando se consegue libertar, após alguns meses, Alberto planeia a partida imediata de Belém para Portugal, e Ferreira de Castro passa ainda cinco anos em Belém, totalmente abandonado pelo conterrâneo que se incumbira da sua protecção. Foram anos em que passou da extrema miséria, em grandes períodos de desemprego ou ocupando-se de actividades mal remuneradas, à relativa consideração que as suas actividades jornalísticas e a publicação em folhetins do seu primeiro romance, Criminoso por Ambição, lhe granjearam. Assim, em 1918 visita Manaus, convidado por uma associação de poveiros, e em 1919 faz uma viagem ao Sul do país, visitando o Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades.

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Foi provavelmente nessa viagem que obteve os vastos conhecimentos sobre a paisagem e as relações de trabalho que se verificavam no estado de São Paulo, de que dá mostras no romance Emigrantes.

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Tanto Emigrantes como A Selva possuem personagens individualizadas, no percurso das quais se centra a acção. No primeiro caso trata-se de Manuel da Bouça, pobre camponês analfabeto que emigra para o Brasil em busca de melhor sorte, com a esperança de ganhar um dote para a filha e de poder comprar as terras circunvizinhas às suas courelas, onde pensa construir uma casa nova. No segundo caso, é Alberto que centraliza os eventos narrados.

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Tanto Manuel da Bouça como Alberto regressam a Portugal tão pobres como tinham partido.

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Manuel da Bouça, após nove anos de dura labuta no interior e na cidade de São Paulo, vem mesmo muito mais pobre, porque entretanto perdera as suas courelas, hipotecadas para pagar os gastos da viagem de ida, e porque lhe morrera a mulher. O trabalho no Brasil não permite a nenhum deles sequer pagar a viagem de regresso. Manuel da Bouça só pudera comprar a passagem devido ao facto de, durante a confusão originada por uma revolução, ter roubado os anéis, a corrente e um relógio a um morto. Alberto só logra libertar-se da situação de quase escravidão que vivera no seringai Paraíso por a sua mãe se ter sacrificado para lhe enviar o dinheiro da viagem, depois de saber que os monárquicos tinham sido amnistiados em Portugal.
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N'A Selva assume maior importância a experiência de vida no Brasil. Por isto o romance inicia-se em Belém do Pará, desenvolve a descrição da viagem de vários dias no «Justo Chermont» e centra os episódios mais importantes na descrição da floresta amazónica e na vida vivida no seringai. Uma primeira macro-sequência passa-se em Belém, no barco e na chegada ao seringai, consistindo nos primeiros quatro capítulos. A macro-sequência que narra a vida na selva está estruturada em três sequências menores. Do capítulo V ao VIII, descreve-se a selva e o trabalho dos seringueiros. Do capítulo IX ao XIV, apresentam-se as relações sociais de Alberto com as personagens que vivem mais próximas do patrão e narra-se a fuga de cinco seringueiros, com c auxílio de Alberto. No capítulo XV prepara-se a partida de Alberto, com a recepção da personagem que o vem substituir, narra-se a chegada dos cinco seringueiros capturados, o castigo que lhes é aplicado e o incêndio do barracão.
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Emigrantes compõe-se de um percurso transatlântico que se organiza em três macro-sequências: Portugal - Brasil - Portugal. A primeira parte, introdutória, localiza-se do primeiro ao capítulo IX e apresenta as experiências na aldeia e na vila, aonde Manuel da Bouça vai tratar da documentação, os vários passos que dá em Lisboa, a viagem na terceira classe do navio «Darro» e os primeiros contactos com a paisagem brasileira, quando da entrada na baía da Guanabara e do passeio por algumas ruas do Rio de Janeiro. A parte referente à vida no Brasil, mais extensa, pode subdividir-se em três sequências menores. Na primeira ( do capítulo X até ao XI) desenvolve-se a consciencialização da dificuldade de encontrar trabalho em Santos e a contratação de Manuel da Bouça para ir trabalhar num cafezal do interior de São Paulo. A segunda sequência ( do capítulo XII ao XV) centra na fazenda Santa Efigénia as várias experiências das personagens, migrantes brasileiros e estrangeiros. A terceira sequência (desde o início da «Segunda Parte» até ao capítulo V) localiza na capital uma nova experiência de trabalho de Manuel da Bouça. Carregador num armazém, Manuel da Bouça encontra nesta tentativa o mesmo insucesso. Contacta com outro emigrante que vem na mesma ilusão de enri­quecimento e com outras personagens pobres, tendo algumas delas esperanças de construírem uma sociedade melhor, com uma revolução contra o governo. Manuel da Bouça, na sua alienação, pouco compreende e pouco participa na revolução. Embarcando em Santos, regressa a Portugal. A terceira macro-sequência (entre o capítulo VI da segunda parte e o capítulo VIII), cuja acção se localiza em Portugal, mostra na personagem a consciência de que já não tem lugar na sua aldeia. Envergonhado do seu fracasso, Manuel da Bouça mente, dando a impressão de que tivera sucesso, e vai para Lisboa esconder a pobreza, destinado «a uma outra vida que era ainda, para ele, um enigma» 4 . Na aldeia, num contraste irónico com as expectativas da partida, descobre que quem fizera um palacete na terra que pretendia comprar fora o Nunes, que lhe tinha tratado do passaporte e da passagem, agora enriquecido com a emigração de outros camponeses iludidos. Este facto não causa surpresas ao leitor, pois na primeira macro-sequência já o narrador omnisciente tinha revelado as mentiras da propaganda que o Nunes faz imprimir num jornal.
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Apesar de Emigrantes e A Selva possuírem protagonistas individualizados, torna-se evidente que ambos representam outras personagens, iden­tificadas nos títulos.
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Por detrás de Alberto, está a grande personagem da obra: a própria selva, da qual faz parte o grupo humano que nela vive, tentando domesticá-la para a extracção das suas riquezas. Em numerosos trechos, a selva encontra-se animizada, dotada de um poder de agressão comparado ao das suas feras, e mesmo antropomorfizada, como uma força oculta que combate o avanço dos seringueiros:
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Era um mundo à parte, terra embrionária, geradora de assombros e tirânica, tirânica! [...] Ali não existia mesmo a árvore. Existia o emaranhado vegetal, louco, desorientado, voraz, com alma e garras de fera esfomeada. Estava de sentinela, silencioso, encapotado, a vedar-lhe todos os passos, a fechar-lhe todos os caminhos, a subjugá-lo no cativeiro. Era a grande muralha verde e era a guarda avançada dos arbustos que vinham crescer em redor da cacimba e, degolados pelo terçado de Firmino, brotavam de novo, numa teima absurda e alucinante. A selva não aceitava nenhuma clareira que lhe abrissem e só descansaria quando a fechasse novamente, transformando a barraca em tapera, dali a dez, a vinte, a cinquenta, não importava a quantos anos - mas um dia! [...] A ameaça andava no ar que se respirava, na terra que se pisava, na água que se bebia, porque ali somente a selva tinha vontade e imperava despoticamente. Os homens eram títeres manejados por aquela força oculta, que eles julgavam, ilusoriamente, ter vencido com a sua actividade, o seu sacrifício e a sua ambição [p. 158].
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A Selva é, nitidamente, um romance de espaço, na clássica classificação de Wolfgang Kayser 5. É, sobretudo, um espaço geográfico e telúrico, em que se vem inscrever o espaço social. A função de Alberto, personagem com maior capacidade de reflexão, é a de orientar a focalização do mundo narrado, vendo os seres e as situações com olhos críticos, veiculando assim a visão do mundo do autor textual. Reagindo face aos mistérios e à exuberância da selva, Alberto está preparado para se dar conta do drama da luta insana dos cearenses maranhenses e pernambucanos que dela tentam arrancar meios para a sobrevivência, num sistema de trabalho que os acorrenta ao dono do seringai, numa dívida constante que os escraviza. Trata-se, também aqui, de migrações internas e externas, que vêm fazer incidir a luz sobre o drama do homem transplantado do seu meio, na luta pela vida.
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Mas é em Emigrantes que a temática da emigração mais tipicamente se revela. Trata-se de um romance de espaço social. Manuel da Bouça é um tipo social que representa todos os emigrantes, como se torna evidente no plural do título. A divisão em três cenários (Portugal - Brasil - Portugal) vem representar o percurso do emigrante português que foi típico no século XIX e na primeira metade do século XX.
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Joel Serrão comenta um quadro de João Evangelista que revela o destino dos emigrantes portugueses no continente americano. Entre 1880 e 1960, o Brasil recebeu 75,7 % da emigração portuguesa 6. Noutro quadro de João Evangelista apresenta-se o número de repatriados em estado de indigência. Entre 1919 e 1930, do Brasil regressam 9 596 indigentes, num total de 10 496 distribuídos pelo Brasil, os Estados Unidos da América, a França, a Espanha e diversos 7.

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Apesar desses dados, o Brasil representava então o Eldorado, paraíso de todas as opulências. A América do Norte também já começava a mitificar-se, através da propaganda dos engajadores, como se torna evidente na primeira macro-sequência da obra e na queixa final de Manuel da Bouça, ao pensar que, se tivesse ido para a América, talvez tivesse enriquecido.
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Mas não apenas em Portugal se difundia o mito do Brasil-Eldorado. De toda a Europa saíam pobres camponeses em busca das milagrosas riquezas do Brasil. As descrições do grupo humano da terceira classe dos navios e também no Brasil mostra italianos, espanhóis, polacos, romenos, russos, sérvios, croatas e eslovenos, etc. - personagens que embarcam no limiar da miséria, esperando ascender, pelo valor do seu trabalho, a um nível de vida verdadeiramente humano, e que afinal vão encontrar a mesma miséria no Brasil. São descritos por um narrador enternecido, em imagens colectivas que consideram globalmente o grupo humano: são «o rebanho» [pp. 88, 136, 141, 153, etc], «dóceis animais» [p. 87], «o grupo» [p. 135], «o feixe humano» [p. 135], «a sinistra manada» [p. 137], «o magote de homens» [p. 154]. A terceira classe em que viajam é o «curral humano» [p. 253].
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São Paulo, interessado em fazer produzir a lavoura no interior, organizava a recepção a estes emigrantes, oferecendo-lhes durante seis dias comida e estadia numa hospedaria, aonde iam ter os engajadores que lhes ofereciam trabalho nas fazendas. Alguns iam a expensas do governo estadual, com a promessa de ganharem grandes lotes de terra para cultivo. Depois, na Hospedaria dos Imigrantes, viam que as promessas se reduziam a um trabalho rude e mal pago por algum coronel proprietário que com eles queria enriquecer depressa. O dono da fazenda vendia-lhes a crédito ferramentas e géneros alimentícios, pelo dobro do seu valor. Daí que, com o seu pequeno salário, não conseguissem saldar a dívida e muito menos economizar dinheiro para a ascensão tão desejada.

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Também A Selva apresenta uma relação de trabalho semelhante, com a agravante de os produtos serem vendidos aos migrantes pelo triplo e até pelo quádruplo do seu valor, num contexto de desvalorização progressiva da borracha. Os seringueiros estavam quase sempre em débito, pelo que dificilmente conseguiam saldar a dívida e regressar ao seu estado. Quando algum tentava fugir, tinha atrás de si a polícia e era geralmente levado para o seringai, onde recebia duro castigo.
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Referem-se ainda imigrantes japoneses, vistos no «Justo Chermont», para o cultivo de mandioca, cana e milho, nos seringais pouco produtivos. No contexto da crise mundial dos anos 20 e 30, no Brasil a única saída para a imigração era então a agricultura, tendo passado o tempo em que, no comércio das cidades, havia lugar para os portugueses que se estabeleciam e que em alguns casos faziam sócios os seus caixeiros, como aparece na literatura do século XIX, em especial na obra de Camilo Castelo Branco. Tanto Alberto como Manuel da Bouça, nas cidades em que aportam, são esclarecidos sobre a falsidade dessa ilusão. A ficção certamente contribuiu para se difundir o mito do Brasil-Eldorado, mas já no século XIX Gomes de Amorim representa, no romance Aleijões Sociais (1870), a consciência das mentiras dos engajadores e o sistema de exploração a que eram sujeitos os imigrantes no Brasil.
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Para além das obras referidas, Ferreira de Castro publica em 1968 a sua última obra, cuja acção é passada em cenário brasileiro. Trata-se de Instinto Supremo, novela que narra a missão de pacificação dos índios parintintins, na selva amazónica, por um grupo de discípulos do general Cândido Rondon. O famoso lema de Rondon orienta a acção dos homens enviados pelo Serviço de Protecção aos índios e transmite-se aos trabalhadores por eles recrutados: «Morrer se necessário for; matar, nunca!» 8 . O etnólogo Curt Nimuendajú, um alemão naturalizado brasileiro, é a personagem que assume maior relevância, servindo de porta-voz do autor, na defesa da civilização a que querem levar os índios:
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Não há dúvida que a civilização está cheia de contradições. Está. [...] Mas só quem for cego pode admitir que a vida primitiva e a ignorância trazem a felicidade aos homens, como pensam alguns. Há muitas pequenas e grandes satisfações que somente os espíritos instruídos podem ter. E elas compensam largamente as nossas responsabilidades e mesmo alguns novos sofrimentos que a nossa evolução nos tenha dado e nos dê [p. 983].
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A evolução da acção é linear. Uma primeira macro-sequência pode ser identificada até ao capítulo VI, com a derrubada da mata para o acampamento, a chegada de Nimuendajú, o recrutamento da turma expedicionária e a ida para a floresta. No capítulo VII ergue-se o acampamento e, no terceiro dia, realiza-se o primeiro contacto, hostil, com os índios. Vários episódios de con­fronto e tentativas de pacificação preenchem esta segunda macro-sequência. Finalmente, o capítulo XII pode consistir numa última macro-sequência, pois nele dá-se a pacificação dos índios. Com a actuação de um intérprete, a comunicação entre civilizados e selvagens torna-se mais eficaz. A novela conclui-se com um telegrama em que se dá a notícia das pazes feitas e pede-se roupas e um professor primário. A obra baseia-se em factos históricos, acontecidos em 1922, indicando o autor a bibliografia em que se baseou. Mas, para Jacinto do Prado Coelho, «O Instinto Supremo é muito menos uma novela histórica que uma epopeia: se o episódio narrado tem raízes na história recente do Brasil, amplifica-se no espírito do leitor pelo seu vasto significado, como expressão da luta vitoriosa do Homem contra a Natureza - essa luta que dá um sentido à vida e um motivo para o Homem se orgulhar da sua dignidade» 9.

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Nas três obras da fase de maturidade cuja acção se passa no Brasil, estão bem representadas as características da realidade brasileira. Os diálogos utilizam um léxico e uma organização sintáctica típicos do português do Brasil, estando nalguns casos marcada a pronúncia das classes populares. Sobretudo A Selva, mas também O Instinto Supremo, apresentam um riquíssimo conjunto de informações sobre a fauna e a flora da região amazónica. Podemos, portanto, reafirmar o grande enriquecimento que ofereceu a Ferreira de Castro a sua experiência de vida no Brasil, apesar de todos os obstáculos que teve de enfrentar.

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Folhas, Letras & Outros Ofícios, Ano II, N.º 3 . Aveiro: Grupo Poético de Aveiro (Junho, 1998), 30-37.

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1 - JOSÉ TAVARES, Homenagem de Oliveira de Azeméis a Ferreira de Castro, separata do Arquivo do Distrito de Aveiro, Aveiro, 1970.
2 - ALEXANDRE CABRAL, «Antecedentes de "A Selva"» in Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro: 1916-1966, Lisboa, Portugália Editora, 1967, pp. 43-56.
3 - FERREIRA DE CASTRO, A Selva, Lisboa, Guimarães & Ca, [s.d.], pp. 19-20. Daqui para diante, as páginas desta obra serão indicadas no corpo de trabalho.
4 - FERREIRA DE CASTRO, Emigrantes, Lisboa, Guimarães & Ca, [s.d.], p. 290. Daqui para diante, as páginas desta obra serão indicadas no corpo de trabalho.
5 - Cf. WOLFGANG KAYSER, Análise e Interpretação da Obra Literária (Introdução à Ciência da Literatura), 6a ed. revista pela 16.ª alemã por Paulo Quintela, Coimbra, Arménio Amado, Editor, Sucessor, 1976, pp. 399-406.
6 - Cf. JOEL SERRÃO, A Emigração Portuguesa: Sondagem Histórica, 4.ª edição, Lisboa, Livros Horizonte, 1982, p. 46.
7 - Cf. Idem, ibidem, p. 38.
8 - FERREIRA DE CASTRO, Obras de Ferreira de Castro, 3.ª ed., vol. Ill, Porto, Lello & Irmão - Editores, 1979, 4 vols., p. 959. Outra página desta obra será indicada no corpo do trabalho.
9 - JACINTO DO PRADO COELHO, «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária», in In Memoriam de Ferreira de Castro, intr. e estruturação de Adelino Vieira Neves, [Cascais], Arquivo Bio-Bibliográfico dos Escritores e Homens de Letras de Portugal, 1976, pp.47-49 (p. 49).
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Gravura - A Selva: romance / Ferreira de Castro; [capa de Bernardo Marques]. - [1.ª ed.]. - Porto: Civilização, 1930. - 333 p.; 19 cm. - Broch.
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