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terça-feira, 21 de setembro de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

Modus vivendi

21 de setembro de 2010

Kurt Regschek

regschekkurt.jpg
o modelo, em duplicado
.

Proibir

A proibição denota
fraqueza: o descontrole
assume o comando
e a insanidade
vence
o efêmero perdura
o instante
e cede
ao grito
de guerra
rompo a proibição e permaneço
rompo a proibição e compareço
rompo a proibição e apresento
aos olhos
claros da história
a versão
livre
dos atos.
.
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Pedro Du Bois
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20 de setembro de 2010

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Franz von Stuck

puro perfil
.

Um livro aberto

.

Não há maior maravilha do que percorrer
as alturas estreladas, abandonar as lúgubres regiões da terra,
cavalgar as nuvens, subir aos ombros de Atlas,
e ver muito distantes, lá em baixo, as pequenas figuras
que vagueiam e erram, desprovidas de razão,
inquietas, no temor da morte, e aconselhá-las,
e fazer do destino um livro aberto.
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Ovídio

19 de setembro de 2010

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Kurt Regschek

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Kurt%20Regschek2.jpg
o som da imagem

Do hiato

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"Mas não adianta nada justificar-se. Não vale a pena explicar. É um sinal de fraqueza, contar velhas histórias. É um sinal de sensatez esconder o passado, mesmo que não exista nada para esconder. O poder de um homem reside na penumbra, nos movimentos entrevistos da sua mão e na expressão insondável do seu rosto. É a ausência de factos que atemoriza as pessoas: o hiato que nós criamos, dentro do qual elas vertem o seus medos, fantasias e desejos."
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Hilary Mantel, in Wolf Hall
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17 de setembro de 2010

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Franz von Stuck

orpheoFranz%20v.%20Stuck%201891.jpg
um Orfeu simbolista
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16 de setembro de 2010

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Guerras

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Guerras permanecem
em feridas e mortes
conferem a terra
arrasada
no troar dos canhões:
a guerra silenciosa
dos avanços
e o estertor
do corpo
sublimado ao grito
guerras reiniciam
o ciclo: o lance anterior
da escala: e a queda.
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Pedro Du Bois
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15 de setembro de 2010

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Kurt Regschek

EurydiceKurt%20Regschek%201973.jpg
uma outra Eurídice
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Do nome

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"O nome que escolhemos, o nome que fazemos, é importante."
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Hilary Mantel, in Wolf Hall
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14 de setembro de 2010

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Soneto na morte do homem que inventou as rosas de plástico

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O homem que inventou as rosas de plástico morreu.
Reparem na sua importância:
as suas flores imperecíveis e imaculadas nunca murcham
mas resolutamente velam o seu túmulo através da escuridão.
Ele não compreendeu a beleza nem as flores,
que enredam os nossos corações em redes suaves como o céu
e nos prendem com um fio de horas efémeras:
as flores são belas porque morrem.
A beleza sem o seu lado perecível
torna-se seca e estéril, um palco abandonado
com uma floresta de enganos. Mas a realidade
dá razão à invenção deste homem; ele conhecia a sua época:
uma visão do nosso tempo impiedoso revela-nos
homens artificiais cheirando rosas de plástico.
.
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Peter Meinke, trad. Ricardo Castro Ferreira
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13 de setembro de 2010

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Picasso

eurydicePablo%20Picasso.jpg
uma Eurídice diferente
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terça-feira, 31 de agosto de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi


31 de agosto de 2010

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Lucas Cranach o Velho

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LucasCranachder%C3%84ltereDrJohannesCuspinian1502.jpg
Dr. Johannes Cuspinian, em 1502
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30 de agosto de 2010

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Linguajar

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Construo a linguagem apropriada:
ao verbo movimento peças impensadas
comunico ao próximo a desestruturação
da diversidade: respeito as diferenças
avento ao tempo o substantivo
necessário à nominação
do espaço: reajo ao silêncio.
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Pedro Du Bois
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29 de agosto de 2010

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Julius LeBlanc Stewart

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Julius_LeBlanc_Stewart_-_The_Baptism.jpg
o baptismo, ou uma festa familiar
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Bordado

(gentileza de Amélia Pais)
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A noção do traço
sugerindo a presença da linha
e o manejo da agulha
sendo cadência
após cadência
no macio do pano branco
pra depois haver o risco duro de premeditadas paisagens
onde matizes de fumaças
dizem de sustos
sortes
da palavra acorrentando-se
do desenho escapulindo entre dedos dormentes
da pá
do pó
do pé violentando caminhos
da propalada paz de papel
dessa vontade de viver
entre-mentes,
humana-mente.
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Amélia Alves
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28 de agosto de 2010

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Constatação feliz

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Quanto melhor é a nossa vida emocional e maior a realização afectiva, menos precisamos de falar disso.
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27 de agosto de 2010

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il sommo poeta 

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Ó vós que em pequenina barca estais,
e o lenho meu que canta e vai, ansiados
de poder escutá-lo, acompanhais,
voltai aos vossos portos costumados,
não vos meteis no mar em que, presumo,
perdendo-me estaríeis extraviados.
Ninguém singrou esta água que eu assumo;
conduz-me Apolo e Minerva me inspira,
e nove Musas indicam-me o rumo.
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Dante Alighieri
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26 de agosto de 2010

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Sevilha

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Sevilha.jpg
hoje
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Debajo del cielo

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Al principio yo anhelaba ser el príncipe
de la poesía, el rey de las palabras,
un ministro de los poemas con una medalla
sobre mi oscuro pecho, una corona de oro
alumbrando con su dorada luz mi noble cabeza.
Después, bajé mis metas y me propuse ser
un licenciado, un doctor en gramática,
políglota, un James Joyce, usar barba,
un abrigo negro hasta los tobillos,las gafas
circulares,la pipa entre los labios
recitando los versos de Charles Baudelaire.
Recuerdo que tenía la foto de Vallejo
debajo del cristal de mi mesa de noche
y, mirándola, apoyaba mi rostro y mis manos
cruzadas encima de un bastón con el puño
de plata, en forma de león, para creer
un instante que mi nombre era César.
—Incluso estuve preso por parecerme a él.
Me decía a mí mismo frases de Kierkegaard:
“para el hombre que aspire a triunfar en la vida
existen dos caminos: ser César o ser Nada”.
Y yo lo repetía con la convicción de que era
(sólo faltaba tiempo) un dios o hijo de un dios.
Sin embargo,las cosas han cambiado y mi punto
de vista se cayó en un abismo. Ya no aspiro
a ser príncipe, ni ministro, ni rey, ni políglota
un día, mucho menos deseo ser Joyce o Baudelaire
porque ambos están muertos, y un hombre,
si está muerto, vale menos que un perro.
Ahora aspiro a las cosas sencillas de la vida.
(Me lo dijo Ray Carver y nunca lo entendí.)
Miro el agua de un río sin pensar qué es el agua,
me acuesto entre la hierba y disfruto del sol.
Pienso, respiro, siento cómo limpia el oxígeno
mi sangre, mis pulmones, late en mi corazón.
Soy feliz con vivir sencillo, aspiro a eso:
Posado, como un pájaro, sólo quiero una rama
para cantar mis versos, también una ventana
para mirar el mundo, aunque no tenga un piso,
ni un palacio, ni un templo. Un marco,
una ventana para asomar mis ojos, humilde,
con asombro, sabiendo que soy polvo,
y, debajo del cielo, un animal o nada.
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Dolan Mor
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25 de agosto de 2010

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Alexandre Cabanel

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Albayd%C3%A9%201848AlexandreCabanel.jpg
Albaydé, 1848.
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Fill my life with song

(gentileza de FL)
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Fly me to the moon
Let me play among the stars
Let me see what spring is like
On Jupiter and Mars
In other words, hold my hand
In other words, darling, kiss me
Fill my life with song
And let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adore
In other words, please be true
In other words, I love you "
.
Johnny Mathis
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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

27 de julho de 2010

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Marcas

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Tosco relógio
perdendo
tempo
na marcação
das horas
passadas.
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Pedro Du Bois
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24 de julho de 2010

Zagreb

Zagreb
São Marcos, no coração de Gornji Grad, na Cidade Velha
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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

 

27 de junho de 2010

Busca

Busco na eternidade
dias demarcados
aos gestos. Imobilizado
na ultrapassagem
de nuvens
encobertas: infinito
horizonte das esperas
entorno na consciência
de marginalidades. Estupor
sobreposto ao medo na metalização
do ocaso. Fogo
decompondo cinzas
em retorno.
.

Pedro Du Bois
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25 de junho de 2010

O Meu Coração

O meu coração é um lago, meu amor,
vem remar sobre ele.
Despedaçar-me-ei contra o teu barco como uma
pedra de jade contra a tua sombra branca.
O meu coração é uma vela, meu amor;
fecha a porta, por favor.
Arderei tranquilamente até ao fim
sem que uma única lágrima trema e caia
sobre a tua saia de seda.
O meu coração é um vagabundo, meu amor;
por favor, toca flauta.
Ficarei tranquilamente toda a noite
a ouvir-te tocá-la sob a lua.
O meu coração é uma folha caída, meu amor,
permite-me que fique um pouco no teu jardim.
Quando o vento soprar, deixar-te-ei,
e serei de novo um vagabundo solitário.
.
Dong-Myung Kim
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24 de junho de 2010

São João Baptista

sao-joao-batista.gif
no seu dia
.

Falar Na Cama

Falar na cama devia ser de resto,
o mais fácil, deitados remonta tão atrás,
como emblema de um par a ser honesto.
Mas passa mudo o tempo em seus vagares.
Lá fora, o vento, não de todo lesto,
Faz e dispersa nuvens pelos ares.
Ao longe, em seu negrume há as cidades. Não,
nada cuida de nós. Nada a mostrar
porque é que a tal distância do isolamento são
ainda mais difíceis de encontrar
palavras doces e verdadeiras prestes,
ou não inverdadeiras nem agrestes.
.
Philip Larkin
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23 de junho de 2010

Charles Sheeler

Precisionist_Painters_Charles_Sheeler.jpg
uma outra geometria
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Alterações

O latido do cão
não altera águas
paradas.
O poço
espelha
a imagem
de nuvens
em revoada.
O barulho do cão
some no espaço
diluído.
A água empoçada
permanece.
.
Pedro Du Bois
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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

08 de junho de 2010

Serenata

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio,
e a dor é de origem divina.
Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.
.
Cecília Meireles
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Gertrude Kaiserbier

Gertrude%20Kasebier.jpg
um olhar seduzido
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07 de junho de 2010

Noticiar

A notícia requenta
versões não acontecidas.
Crio manchetes e as apregôo
ao vento. Conduzo o tema
ao limite. Rasgo a folha
na virtuose do nada.
Concedo à imaginação
o arrevesado do recôndito
e a vendo como história.
Libertado geograficamente
estendo garras em espaços
onde capturo passagens.
Raso em superfícies, cinzelo
desconhecimentos: quedo
motivos não revelados.
.
Pedro Du Bois
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06 de junho de 2010

Tudo o que não sei

Bendito seja eu por tudo o que não sei
gozo tudo isso como quem sabe que há o sol
.
Fernando Pessoa
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05 de junho de 2010

Unidad

(para ti, que me tens dado sal e sonho à vida toda, neste dia especial)
.
Hay algo denso, unido, sentado en el fondo,
repitiendo su número, su señal idéntica.
Cómo se nota que las piedras han tocado el tiempo,
en su fina materia hay olor a edad,
y el agua que trae el mar, de sal y sueño.
Me rodea una misma cosa, un solo movimiento:
el peso del mineral, la luz de la miel,
se pegan al sonido de la palabra noche:
la tinta del trigo, del marfil, del llanto,
envejecidas, desteñidas, uniformes,
se unen en torno a mí como paredes.
Trabajo sordamente, girando sobre mí mismo,
como el cuervo sobre la muerte, el cuervo de luto.
Pienso, aislado en lo extremo de las estaciones,
central, rodeado de geografía silenciosa:
una temperatura parcial cae del cielo,
un extremo imperio de confusas unidades
se reúne rodeándome.
.
Pablo Neruda
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04 de junho de 2010

Robert Henri

Fay_Bainter%201919Robert%20Henri.jpg
Fay Bainter em pose pensativa
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O amor chegou com as chuvas

O amor chegou com as chuvas
e o fogo do desejo foi-se
aplacando Agora é tempo
de cantar Ao primeiro
ruído seco do trovão
os pavões abrem a cauda
em leque e começa a dança
Giridhara está no meu pátio
como um lírio que floresce
ao luar assim me abro
para Ele nesta chuva
Todos os poros do meu
corpo estão gelados
A tortura de Mira acabou
Hari cumpriu a sua promessa.
.
Mirabai, versão de Jorge Sousa Braga
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03 de junho de 2010

Gertrude Kaiserbier

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Beatrice Baxter Ruyl em 1902
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Corpus Christi

A Solenidade Litúrgica do Corpo e Sangue de Cristo, conhecida popularmente como "Corpo de Deus", é uma festa que celebra a presença real e substancial de Cristo na Eucaristia. De acordo com a lei geral da Igreja, este é um dos dez dias festivos de preceito.
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Poesia

(gentileza de Amélia Pais)
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Dias e noites
tangendo
em meus nervos
de harpa
vivo desta jóia
doentia do universo
e sofro
de não sabê-la
acender
na minha
palavra.
.
Giuseppe Ungaretti, trad. Elson Fróes
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Junina

junina.jpg
ilustração para um mês particular
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01 de junho de 2010

Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
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António Gedeão
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Juno

juno.jpg
uma bela deusa
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Junho

Junho, o meu mês favorito, onde cabem os aniversários de todos os meus amores:

Mês da união entre os opostos, de equilíbrio e amor, dedicado à Deusa Juno, a Grande Mãe da mitologia romana (representada por Hera na mitologia grega) e a todos os deuses e deusas que regem o Amor, a Paixão e a Beleza.
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sábado, 22 de maio de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi


21 de maio de 2010

Julia Margaret Cameron

julia-margaret-cameron2.jpg
"I longed to arrest all beauty that came before me, and at length the longing has been satisfied." Julia Margaret Cameron
.

Datas

Não é o dia aprazado
o atraso me faz
fragilizado
ao encontro:
altero o calendário
ao necessário
nos dias seguintes
retorno ao anterior
acaso: incompleto
o ciclo se debate
em dúvidas estelares.
.
Pedro Du Bois
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20 de maio de 2010

Ansel Adams

Jeffrey-Pine-Sentinel-DomeAnsel-Adams.jpg
da sombra

Que esperança será forte?

Acha a tenra mocidade
Prazeres acomodados,
E logo a maior idade
Já sente por pouquidade
Aqueles gostos passados.
Um gosto que hoje se alcança,
Amanhã já não o vejo;
Assim nos traz a mudança
De esperança em esperança
E de desejo em desejo.
Mas em vida tão escassa
Que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte,
Que quanto da vida passa
Está receitando a morte! 
.
Luís de Camões
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| 
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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

19 de maio de 2010

Imogen Cunningham

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cama (ainda) desfeita
.

A maior solidão

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre. 
.
Vinicius de Moraes

18 de maio de 2010

Adriana Molder

adriana_molder.jpg
um olhar fatal

Terror latente

Quanto terror latente
nesse mar gelado
que desde sempre
levamos na alma.
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António Castañeda

17 de maio de 2010

Helena Almeida

almeidahelena.jpg
pintura habitada
.
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No mistério do sem-fim

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta 
.
Cecília Meireles 
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15 de maio de 2010

Tangerinas

(gentileza de Amélia Pais)
.
Tangerinas em redor de minha vida:
geografia antiga
os hábitos frescos a infância como um rio
a mão poisada sobre muros sem tocar
breves as horas
e a leveza de cada tarde
nenhuma cicatriz no corpo
nenhuma solenidade.
Tangerinas como uma lenda até ao dia de hoje
- distância que às vezes ignoro.
Liberdade tão sagrada e tão nobre
como um gesto mudo e pobre.
Moçambique e meu bairro pequeno
aquelas coisas que voltam toda a vida
entre anos e deveres.
Tangerinas em redor dos meus lugares.
.
Jall Sinth Hussein
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13 de maio de 2010

A Previsão do Improviso

O tempo restante é abstração
da fera - besta
introduzida ao acaso
de fechar os olhos
ao descaso - feito
imagem simulada
ao não acontecido.
A improvisação reacende o mistério
ocupado em espaços delimitados.
.
Pedro Du Bois.

12 de maio de 2010

Castelo de Montemor-o-Novo

CastelodeMontemor-o-Novo.jpg
o lugar da mudança

Nápoles

Napoles-photo3613-5.jpg
o lugar de origem

Sete anos

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel serrana bela,
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prémio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la:
Porém o pai usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.
.
Luís Vaz de Camões
.
O Modus vivendi completa hoje sete anos, como carinhosamente lembrou a Catarina, amiga de quase todo esse tempo. Sete anos pode parecer pouco, mas na escala on line não é de todo; é um tempo longo, e o percurso dos conteúdos (da "linha de água" pessoal às meras escolhas, partilhando gostos) mostra-o claramente. 
.
Começado num tempo outro, (quase) oposto ao actual no plano da vida vivida, é hoje uma celebração da capacidade de mudança e do encontro pleno
.
Obrigada a todos os que por aqui passam, vendo o que os meus olhos viram, lendo as palavras que escolhi para pontuar um modo de vida.
.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi


26 de abril de 2010

Todos

Senhora de todas as horas,
refrão e canto; silêncio e hora
decorrida; na apresentação
mesquinha se diga revelada.
Em todos os balcões de bares,
senhora, em todos os caixas
de supermercados e nas filas
de ônibus, induza o espírito
ao retorno: como alimentar
corpos naturalmente expostos?
Senhora de todos os gostos, na hora
que é nossa em pertencer ao estado,
observe à sua volta e se revolte.
.
Pedro Du Bois
.

25 de abril de 2010

Salgueiro Maia

salgueiro-maia1.jpg
porque será sempre a minha imagem da Liberdade
.

Esquecer

(nesta data, um poema inédito oferecido ao Modus pelo seu autor)

Ainda me preocupo com a sobrevivência
acintosa do corpo fisicamente referido ao todo.
Por isso morro em medíocre estilo
e sou venerado no esquecimento.
.
Pedro Du Bois
.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

14 de abril de 2010

Fumo

Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas;
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!
.
Florbela Espanca

13 de abril de 2010

Antoine Pesne

Barbara%20campanini.jpg
A bailarina Barbara Campanini, em 1745

Da Injustiça

Amaldiçoado em lágrimas
rasgo olhos ao horizonte
poente
inutilizo a noite
na chegada
em refúgio
(os cães ladram)
rememoro a hora
da notícia transmitida
palavra por palavra
revejo minha imagem
cristalizada
no congelamento
da lágrima depositada
(os cães farejam)
as dores se afastam
no distanciamento
necessário ao medo
o corpo estremece
ao se pertencer em dores
no horizonte hostil
da janela aberta
o futuro se depara
com a impertinência
do presente
(os cães comem)
afasto suas mãos das minhas:
o contato é lucidez
inoportuna na desesperança
a oração despercebida
rompe o silêncio
e se perpetua
afago o deslizar da hora
em horas subsequentes
(os cães se defendem)
murmuro o nada acontecido
e desacordo em sonhos
o retorno convive
com o fato
desproporcionado
revivo o outono em folhas
pelo chão
recupero a sanidade
e me faço cristal
de rocha esfacelado
(os cães se diferenciam)
sofro o instante
e gesto
o silêncio
o emudecer transmite
a incerteza da pergunta
na vastidão ampliada
da insensibilidade
(os cães desfazem)
posso perguntar
o que bem entendo:
mas não entendo
posso exprimir
a minha raiva:
mas não pretendo
posso aproximar
os olhos à fotografia:
mas não enxergo
(os cães confundem)
calendários dizem que os anos passam
o exercício diuturno de recuperar
o inconsciente e o aguardar
refulgente: recomposto
o exército lancinante dos ataques
distribuí ossos que estalam
(os cães apavoram)
um dia destaco na pedra
o sinal: acordo
um dia acordo e na pedra
destaco o sinal
um sinal na pedra
é destaque quando acordo
(os cães se acovardam)
olho e enxergo
ouço e escuto
pego e sinto
levo à boca
e o sal amarga
o recesso de onde retirado
avaros dias de permanências
permanentes signos
aparentes esboços
o processo desarruma o fato
em procedimentos
(os cães arfam)
ouvidas as testemunhas
os peritos dizem
das especialidades
nada
nada
a improvável condenação
confundida em versos
na reversão da realidade
(os cães obedecem)
choro atravessar o espaço
desconsolado em fatuidades
remoço a fotografia
e me instalo diante
da orfandade
perder significa atos
ao despropósito
de continuar vivo
(os cães silenciam).

Pedro Du Bois

12 de abril de 2010

Eliseu Visconti

eliseu%20visconti.jpg
puro cansaço
 

Vivir es caminar

(gentileza de Amélia Pais)
.
Vivir es caminar breve jornada,
y muerte viva es, Lico, nuestra vida,
ayer al frágil cuerpo amanecida,
cada instante en el cuerpo sepultada.
Nada que, siendo, es poco, y será nada
en poco tiempo, que ambiciosa olvida;
pues, de la vanidad mal persuadida,
anhela duración, tierra animada.
Llevada de engañoso pensamiento
y de esperanza burladora y ciega,
tropezará en el mismo monumento.
Como el que, divertido, el mar navega,
y, sin moverse, vuela con el viento,
y antes que piense en acercarse, llega.


Francisco de Quevedo

11 de abril de 2010

Antoine Pesne

Antoine%20Pesne.jpg
Elisabeth Christine von Braunschweig-Bevern, c. 1739.
 

De regresso

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Fernando Pessoa
.

Mácula

Desprovido de mácula mancho o passo
com o sangue: acetinado preço
do inocente declarado; o pecado
urdido em mortes se rebela
contra o antagonismo da verdade;
o sangue jorra minha vida esvaída
ao sentido de me dizer libertado;
maculo histórias em interpretações
despropositadas, reinvento atos
de coragem em paródias
prosódias
sarcasmo
desprovido em mácula.
O sangue cessa o alvor
do corpo despropositado.
.-
Pedro Du Bois

10 de abril de 2010

Potsdam

sanssouci-palace-potsdam-d047.jpg
hoje é dia de visitar Sanssouci
| 

The Laughter Of Women

The laughter of women sets fire
to the Halls of Injustice
and the false evidence burns
to a beautiful white lightness
It rattles the Chambers of Congress
and forces the windows wide open
so the fatuous speeches can fly out
The laughter of women wipes the mist
from the spectacles of the old;
it infects them with a happy flu
and they laugh as if they were young again
Prisoners held in underground cells
imagine that they see daylight
when they remember the laughter of women
It runs across water that divides,
and reconciles two unfriendly shores
like flares that signal the news to each other
What a language it is, the laughter of women,
high-flying and subversive.
Long before law and scripture
we heard the laughter, we understood freedom.
.
Lisel Mueller

09 de abril de 2010

East Side Gallery

eastsidegallery08.jpg
hoje, aproveitando o bom tempo
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Stay

Now the journey is ending,
the wind is losing heart.
Into your hands it's falling,
a rickety house of cards.
The cards are backed with pictures
displaying all the world.
You've stacked up all the images
and shuffled them with words.
And how profound the playing
that once again begins!
Stay, the card you're drawing
is the only world you'll win.
.
Ingeborg Bachmann