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terça-feira, 18 de março de 2008

"Quando não devemos calar"

http://www.martinezinvestigations.com/images/farc-guards-2.jpg

Oscar Niemeyer


Quando ocorreu a invasão do Equador pela Colômbia, no dia 1º do mês corrente, que resultou na morte de 20 combatentes e de um dos principais líderes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Raúl Reyes, escrevi um texto, revoltado com o que havia acontecido. Infelizmente, o texto que redigi não chegou aos jornais antes da solução adotada graças à pronta e corajosa intervenção dos governos latino-americanos, que deram ao mundo uma demonstração de unidade e força em defesa de sua soberania nacional.


Por Oscar Niemeyer



Como eu não me limitava a comentar as notícias sobre as Farc que surgiam nos jornais, mas mencionava fatos ou contatos que tive com aquele grupo, tomei a decisão de divulgar o artigo que havia elaborado e agora transcrevo:


"É bom, quando nos vemos diante da necessidade de escrever sobre qualquer assunto, verificarmos que a seu respeito já nos tínhamos manifestado anteriormente, que a nossa reação não surge de um fato novo ocorrido, mas de qualquer coisa que já nos tinha ocupado e sobre ela havíamos assumido uma posição definida.


Refiro-me ao que vem se passando com as Farc, um grupo de revolucionários que, instalados no território da Colômbia, vem-se opondo há décadas ao governo reacionário ainda existente naquele país.


É importante aqui registrar, aos que insistem em falar da violência dos revoltosos das Farc, a opinião do historiador britânico Eric Hobsbawm ("Globalização, democracia e terrorismo", Companhia das Letras): o combate ao terrorismo, ao longo dos últimos anos, por parte das autoridades colombianas, tem superado, em muito, a violência política desses guerrilheiros.


Lembro-me do emissário desse grupo que, muitos anos atrás, me procurou em meu escritório de Copacabana, pedindo-me que desenhasse um cartaz contra o Plano Colômbia, que, organizado pelo governo norte-americano, visava intervir nas Farc, ferindo a soberania do país.


Recordo a maneira emocionada como aquele emissário me falava do assunto, da revolta que exibia ao comentar a violência com que o governo colombiano tentava destruí-los. Em poucos dias, desenhei o cartaz que ele havia me pedido -um protesto contra aquele plano odioso. Uma colaboração política que muito me agradou, ao saber ter sido aquele cartaz utilizado até na Europa.


O tempo correu e, sem possuir a força para eliminar o movimento político já instalado no país, o governo reacionário de Bogotá passou a acusar a direção das Farc de ser conivente com o narcotráfico em crescente expansão na Colômbia.


Agora, no momento em que toda a América Latina se une contra as ameaças do imperialismo norte-americano, é que, numa atitude de violência e desrespeito inexplicável, o governo da Colômbia resolve invadir o território do Equador, comprometendo a unidade com que a América Latina tão bem vem se organizando contra todas essas pressões vindas dos Estados Unidos.


Com sensatez e firmeza, o governo brasileiro, por meio de seu ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, reclamou uma palavra de desculpa por parte do presidente colombiano, Álvaro Uribe. E de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, veio a resposta direta e corajosa que a esquerda latino-americana esperava.


Sabemos muito bem que os Estados Unidos têm a ambição de se apossar das riquezas existentes na Amazônia e que o governo da Colômbia se presta a servir de ponta-de-lança para essa finalidade.


Mas agrada-nos, principalmente, constatar a maneira altiva e vigorosa com que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem atuando frente aos problemas desta América Latina tão vulnerável e ofendida".


Fonte: Folha de S.Paulo

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in Vermelho 17 DE MARÇO DE 2008 - 11h10

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sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Oscar Niemeyer e o comunismo como valor

Leonardo Boff



Apesar dos abatimentos nacionais e internacionais deste agônico 2007, tivemos, no dia 15 de dezembro, uma discreta alegria: os cem anos de nosso maior arquiteto Oscar Niemeyer. Sua voz suave e cansada nos conclama para a solidariedade e para uma grande simplicidade de vida.

Sua visão de mundo se funda no comunismo, ao qual foi fiel durante toda a vida, em tempos em contratempos,. Mas trata-se de um comunismo como valor ético que visa a resgatar da sociabilidade humana, a capacidade de sentir o outro e de caminhar com ele como companheiro e não como competidor. "É preciso olhar o outro, ser solidário; as pessoas que só pensam em suas profissões não vêem a pobreza; só querem ser vencedores". Para ele o importante "não é ser arquiteto, ser especialista, ser mundialmente reconhecido. O importante é a vida e a amizade. A palavra mais importante da minha vida é solidariedade".

Essa solidariedade especialmente para com os pobres, o torna simples como simples são as suas formas arquitônicas. Vive a verdadeira humildade de quem comunga do mesmo húmus (donde vem humildade):"todo mundo é igual; a pessoa vem à Terra, conta a sua historinha e vai embora".

Nunca esquecerei uma longa conversa com ele durante um almoço em Petrópolis no final dos anos 70. Naquele dia acabava de retornar de Cuba. Eram ainda os tempos de relativa abundância, antes da queda da União Soviética. Contava-lhe como era universal o sistema de saúde, como o ensino era aberto a todos, independentemente de sua extração social ou racial, como não se viam favelas na ilha e como a população incorporara uma vida de austeridade compartilhada. E referi-lhe as longas conversas com Fidel, noite a dentro, sobre religião e a teologia da libertação que tentava e ainda tenta fazer do Cristianismo uma força de transformação histórica contra a pobreza e a marginalização social. Dizia-lhe citando Frei Betto: "Cuba parece uma Bahia que deu certo". Vi que Oscar ouvia tudo atentamente e seus olhos brilhavam de satisfação.

Qual não foi a minha supresa quando dias após li na Folha de São Paulo um artigo dele sobre a nossa conversa com um desenho de sua autoria: duas montanhas uma das quais encimada por uma cruz. E lá dizia: "descendo a serra de Petrópolis, eu que não creio, rezava ao Deus de Frei Boff, para que aqueles benefícios que Cuba realizou para o seu povo, chegassem também, um dia, ao povo brasileiro".

Por causa de sua solidariedade para com o povo cubano que sofre ainda um atroz embargo imposto pelos Estados Unidos, está abrindo em Cuba um posto avançado, uma escola de arquitetura, sem qualquer lucro, apenas o necessário para manter o escritório.

Pessoas assim nos fazem crer que o ser humano é resgatável, que a voracidade da acumulação privada de riqueza distorce o sentido da vida, que o ideal capitalista é profundamente perverso porque inumano, nada solidáro e alheio à qualquer comiseração para com o próximo.

Sua mensagem maior que vale mais que qualquer discurso de alguma autoridade religiosa foi expressa no Jornal do Brasil de 21 de abril deste ano:"O fundamental é reconhecer que a vida é injusta e só de mãos dadas, como irmãos e irmãs, podemos vivê-la melhor".

Com estas palavras fechamos 2007 com a esperança de que 2008 comece a realizar o sonho singelo deste ancião sábio e simples que na construção da catedral de Brasília com seus braços estendidos ao céu, deu forma à sua secreta mística da solidariedade, nascida do mais puro ideal comunista.

- Leonardo Boff é Teólogo, da Comissão da Carta da Terra


http://alainet.org/active/21389

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

OSCAR NIEMEYER em "CONVERSA DE ARQUITECTO"


OSCAR NIEMEYER
CAMPO DAS LETRAS REEDITA "CONVERSA DE ARQUITECTO"

Oscar Niemeyer é unanimemente considerado um dos maiores vultos de sempre da arquitectura mundial, tendo assinado projectos como a cidade de Brasília, ou a sede das Nações Unidas em Nova Iorque assim como muitas, muitas outras obras de indiscutível valor, espalhadas pelas mais diversas cidades do Mundo.

Oscar Niemeyer faz no próximo sábado, dia 15 de Dezembro, 100 anos!

A Campo das Letras associa-se às inúmeras comemorações do seu centésimo aniversário reeditando
"Conversa de Arquitecto", um livro que resultou de um pedido feito a Oscar Niemeyer para que preparasse alguns textos que dessem a conhecer aos interessados em arquitectura, e aos jovens em especial, uma aproximação aos seus métodos e concepções de trabalho.
O resultado é esta pequena obra-prima da literatura e plasticidade.

Outros livros de Oscar Niemeyer
na Campo das Letras:

"Meu Sósia e Eu"

"As Curvas do Tempo"


Não é o ângulo recto que me atrai
nem a linha recta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual,
a curva que encontro nas montanhas
do meu país,
no curso sinuoso dos seus rios,
nas ondas do mar,
no corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o universo,
o universo curvo de Einstein.



CAMPO DAS LETRAS - Editores, S.A. > Edifício Mota-Galiza - R. Júlio Dinis, 247 - 6º E 1 > 4050-324 Porto
campo.letras@mail.telepac.pt > Tel. (351) 22 608 08 70 > Fax (351) 22 608 08 80


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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Niemeyer, o Brasil e o mundo



Esta semana será de intensas comemorações -- que já vêm se dando ao longo deste ano de 2007 – dos cem anos de nosso arquiteto maior, Oscar Niemeyer. Equipes de televisão e rádio, jornais e revistas do mundo inteiro se revezam em visitas diárias ao seu escritório da Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, criando problemas para a sua rotina. “Não consigo trabalhar, são tantos jornalistas querendo falar comigo, mas procuro desviar do assunto arquitetura, e falo da vida, da luta política, isso que é importante”, dizia ele à revista Princípios numa destas entrevistas. Niemeyer chega todo dia às 10h30 para o trabalho. Atualmente desenvolve três projetos, dos quais o que mais o estimula é o do Centro Cultural Oscar Niemeyer – Avilés – na Espanha.


Em relação ao Brasil, Niemeyer considera que o atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva tem se mostrado a favor do povo, contra a miséria, a violência e, principalmente, contra o intervencionismo norte-americano. Sobre a perspectiva futura, declarou por e-mail ao caderno Mais da Folha de S.Paulo que ”prefere pensar que um dia a vida será mais justa, que os homens não se olharão a procurar defeitos uns dos outros, como tantas vezes acontece. Que, ao contrário, haverá sempre a idéia de que em todos há um lado bom, uma dada qualidade a destacar (Lênin dizia que 10% de ualidades já seriam suficientes). Nesse dia, será com prazer que um procurará ajudar o outro. É a solidariedade – que ainda não existe, de um modo geral – a prevalecer”.


Niemeyer nasceu em 15 de dezembro de 1907, no Rio de Janeiro. Logo em 1934 formou-se em arquitetura pela Escola Nacional de Belas Artes e em 1935 começa a trabalhar no escritório de Lúcio Costa. Em 1936 conhece o renomado arquiteto Le Corbusier, com quem trabalhou em 1947 no projeto da sede da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque, nos EUA. Em 1940, a convite do então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, projeta o cassino, a Casa do Baile, o clube e a igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, na capital mineira. Em 1945 filia-se ao Partido Comunista do Brasil, com a sigla PCB. Em 1951 projeta o Ibirapuera e o prédio Copan, no centro de São Paulo. Em 1955 funda a revista "Módulo", especializada em arquitetura no Rio de Janeiro. Em 1956 organiza o concurso para a escolha do plano piloto de Brasília, finalmente vencido por Lúcio Costa. Em 30 de junho de 1958 inaugura o Palácio da Alvorada, primeiro edifício brasiliense. Em 1963 Oscar Niemeyer recebe o Prêmio Lênin internacional em favor da paz mundial. Em 1968 projeta a sede da editora italiana Mondadori.


A partir de 1972, Niemeyer abre um escritório em Paris, na França. Em 1983 projeta o espaço público do Sambódromo no Rio de Janeiro. Em 1988 recebe o prêmio Pritzker, uma espécie de prêmio Nobel da arquitetura. Em 1989 inaugura o conjunto arquitetônico do Memorial da América Latina, numa iniciativa do Governo Orestes Quércia em São Paulo. Em 1991 projeta o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (RJ). Em 2003 inicia a construção do auditório do Parque do Ibirapuera, em São Paulo e em 2006 inaugura o Museu Nacional Honestino Guimarães e a Biblioteca Nacional Leonel de Moura Brizola, que completam o Complexo Cultural da República, previsto pelo projeto de Brasília dos anos 50. Tem espalhadas pelo mundo dezenas de obras das quais as mais significativas são a mesquita de Argel, na Argélia, a sede do Partido Comunista Francês e a do jornal L'Humanité, a praça da cidade portuária de Le Havre, na França, entre outras. A vida de Oscar Niemeyer tem sido um exemplo de excelência em sua arte, e ao mesmo tempo de compromisso militante em prol de uma sociedade mais justa e do socialismo.

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in vermelho 10 DE DEZEMBRO DE 2007
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ver também

Fundação Oscar Niemeyer

Oscar Niemeyer - Wikipédia