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sábado, 1 de março de 2014

Clarice Lispector - Restos de Carnaval


Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.

No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.

E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça - eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável - e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.

Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com os quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.

Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga - talvez atendendo a meu mudo apelo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel - resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.

Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas - àidéia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha - mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quando ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.

Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.

Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge - minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa - mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil - fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.

Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido, sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.

Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

http://claricelispector.blogspot.pt/2007/12/restos-do-carnaval.html

terça-feira, 3 de setembro de 2013

um poema de Clarice Lispector

um poema de Clarice Lispector

Uma boa noite por terras do Sado.
Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar. 
Pesa como pesa uma ausência
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.

Clarice Lispector

Art by Mstislav Pavlov 

  •  Foto: Minha alma tem o peso da luz. 
Tem o peso da música. 
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. 
Tem o peso de uma lembrança. 
Tem o peso de uma saudade. 
Tem o peso de um olhar. 
Pesa como pesa uma ausência
E a lágrima que não se chorou. 
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.

Clarice Lispector  

Art by Mstislav Pavlov

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Há momentos - Clarice Lispector

26/Fev 16:51
 

Bom Fim de 
Semana
(JP) (hi5)
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Há Momentos
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Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.
.
Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
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Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
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As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.
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O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
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A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.
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(Clarice Lispector)
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TEM UM BOM FIM DE SEMANA VICTOR. ABRAÇO.
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Clarice Lispector revelada para o público de Brasília


 

Cultura

Vermelho - 10 de Dezembro de 2009 - 15h33

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Um dia antes de completar 57 anos, Clarice Lispector morreu. Em 9 de dezembro de 1977, a escritora deixou os leitores órfãos de suas linhas herméticas. Porém, até 14 de março, a vida e a obra da autora poderão ser revisitados por meio de fotografias e manuscritos de seus livros na mostra "Clarice Lispector - A Hora da Estrela", em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil do Distrito Federal desde a última terça-feira (1).

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"Acho que loucura é perfeição. É como enxergar. Ver é a pura loucura do corpo". Logo na entrada da exposição, o espectador é fulminado por um daqueles relâmpagos poéticos reveladores da escritora. Mesmo os que conhecem muito bem a obra de Clarice ficam com a impressão de entrar em contato pela primeira vez com o seu universo, marcado pelo desejo de tocar no mistério, dizer o indizível, entrar em sintonia com o coração selvagem da vida.
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"…E descobri que não tem um dia a dia. É um vida a vida. E que a vida é sobrenatural". A exposição traduz Clarice em artes plásticas, cenografia, arte contemporânea e videoarte, jogando a sua obra em um espaço onírico, surreal, fantasmagórico. É para sonhar acordado, revisitando a cabeça, o cotidiano e a alma de Clarice.
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Clarice Lispector — a hora da estrela já passou por Rio de Janeiro e São Paulo, foi vista por mais de 50 mil pessoas e chega agora a Brasília para uma temporada no Centro Cultural Banco do Brasil. A exposição tem curadoria de Ferreira Gullar e Julia Peregrino, com cenografia de Daniella Thomas e Felipe Tassara.
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O projeto surgiu a partir de um convite do Museu da Língua Portuguesa de São Paulo no sentido de ampliar uma mostra que Júlia havia organizado em 1992, no Rio, na passagem dos 15 anos da morte de Clarice.

"Convidei o Gullar porque queríamos um olhar de poeta e a Daniela para conseguirmos uma cenografia inovadora. Não pretendemos esgotar o que a Clarice escreveu. A proposta é provocar o espectador para que ele vá atrás das obras para ler. E, para quem já conhecia, que queira saber mais."
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Ao longo de toda a exposição, Clarice nos mira com os seus olhos felinos, detrás de fotos e transparências, e nos atinge com suas frases fulminantes, que batem direto no coração. A sua figura ampliada em fotos e impressa em filó preto provoca a mesma inquietação que seus textos. Ela é uma estrela com luz própria, não depende da mídia ou do marketing para brilhar: "Oh, Deus, que faço desta felicidade ao meu redor que é eterna, eterna, eterna, e que passará daqui a um instante porque o corpo só nos ensina a ser mortal?"
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Uma das salas parece um pesadelo de Kafka, com 1.165 gavetas, sendo que só 55 se abrem de fato. Em algumas, o espectador poderá manusear documentos originais de Clarice. O acervo pertence ao filho da escritora, que zela pelo material com cuidado e discrição: "Ele é um exemplo de como cuidar da obra de um gênio", comenta Júlia.
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Ela conta que alguns visitantes abrem as gavetas com documentos e, literalmente, choram: "As novas gerações estão acostumadas a fazer navegações virtuais. Elas precisam aprender a preservar determinadas coisas. Por isso, fizemos questão de apresentar os documentos originais. Todos os documentos que estão ali têm vida, têm alma".
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Em um outro ambiente é possível assistir a uma entrevista de 21 minutos, a uma emissora de televisão, a última que concedeu, oito meses antes de morrer. As perguntas do entrevistador foram apagadas e Clarice fala solitariamente em um quarto escuro como se fosse uma voz de outro mundo. Parece que ela está viva: “Não sou triste, estou triste”, diz, a certa altura, Clarice.
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No Rio, um pai levou o filho cego, de 10 anos, para ver a exposição. Ele ia narrando as frases para que o filho acompanhasse. Júlia foi conversar com o menino. Ele contou que havia lido em braille todos os livros de Clarice para crianças. Júlia colocou uma cadeira para que ele pudesse ler as frases de Clarice em alto relevo numa das salas da exposição: "Quer dizer, mesmo sem visão você pode ler Clarice, pois como ela mesma diz: “Olhar é a pura loucura do corpo."
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Guimarães Rosa dizia que se interessava por alguns autores em razão do valor da literatura que produziam. Mas que lia Clarice por causa da vida: "Ave, Maria!", comenta Júlia. "Eu fico tocada ao entrar em contato com Clarice. Ela sempre mexe fundo com a gente. Ela consegue fazer um texto de multiuso. A gente não sabe onde está batendo mais. Ela é talvez a maior escritora que o Brasil pôde criar."
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Pernambucana da Ucrânia
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Clarice Lispector (1920-1977) nasceu na Ucrânia, na cidade de Tchetchelnik, mas mudou-se com a família para o Recife, quando tinha dois anos, e, apesar de escolher o Rio para morar, considerava-se pernambucana. Desde muito cedo, Clarice revelaria a singularidade do seu talento: os contos que ela enviou, aos 11 anos, para a seção infantil do Diario de Pernambuco foram recusados porque ela tratava menos de fatos e mais de sensações. O seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, recebeu críticas favoráveis de Antônio Cândido, Sergio Milliet e Lúcio Cardoso.
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Clarice escreveu contos, romances e crônicas à sua maneira, quer dizer, preocupada menos em contar uma história do que em realizar reflexões existenciais desconcertantes, rompendo com a lógica e tentando dizer o indizível.
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"A resposta de um mistério é sempre outro mistério", escreveu. No romance A paixão segundo G.H., ela extrai transcendência da relação de uma mulher com uma barata no quarto da empregada. A liberdade com que Clarice escreveu seus textos embaralha os gêneros literários e aproxima sua linguagem das iluminações da poesia. O impressionante é que a sua literatura de meditação radical sobre a existência, sem nenhuma concessão ou complacência, conquista a cada dia mais leitores.
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Fonte: Correio Braziliense

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sábado, 12 de dezembro de 2009

Precisa-se - Clareicer Lispector

Assunto: ACREDITAR...
Data: 12/Dez 15:52
GOSTO QUANDO O SOL ME AQUECE, FECHO OS OLHOS E VEJO UM ARCO-ÍRIS...AÍ ACREDITO EM TUDO O QUE SONHO E NÃO VEJO QUANDO ANDO PELA VIDA. É POSSÍVEL SER FELIZ- SIM!TODAS AS CRIANÇAS DO MUNDO SORRIEM DE FELICIDADE- É VERDADE!SAIU UM DECRETO QUE PROIBIU AS GUERRAS- VIVEMOS EM PAZ!OLHAMOS OS OUTROS COMO ESPELHO DE NÓS- SOMOS TODOS IGUAIS!O SORRISO É A BANDEIRA QUE TEMOS NA MÃO, QUE VIVA DESFRALDADA AO VENTO- ALEGRIA!UMA MÃO PROCURA SEMPRE OUTRA MÃO-QUE SEMPRE A ENCONTRE!O MAIS BANAL DA VIDA É SERMOS UNIDOS- SEJAMOS IRMÃOS!QUE O SOL SEMPRE PERMANEÇA E PASSE ATÉ A FAZER COMPANHIA Á LUA- VIVER É MAGIA!GUARDAMOS NO CORAÇÃO O VERBO 'ACREDITAR' PORQUE FOI POSSÍVEL- UM DIA SERÁ! EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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"PRECISA-SE"

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Sendo este um jornal por excelência,
e por excelência dos precisa-se e oferece-se,
vou pôr um anúncio em negrito:
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precisa-se de alguém homem ou mulher
que ajude uma pessoa a ficar contente
porque esta está tão contente que não
pode ficar sozinha com a alegria,
e precisa reparti-la.
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Paga-se extraordinariamente bem:
minuto por minuto paga-se
com a própria alegria.
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É urgente pois a alegria dessa pessoa
é fugaz como estrelas cadentes,
que até parece que só se as viu depois que tombaram;
precisa-se urgente antes da noite cair
porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possí­vel e fica tarde demais.
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Essa pessoa que atenda ao anúncio
só tem folga depois que passa
o horror do domingo que fere.
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Não faz mal que venha uma pessoa
triste porque a alegria que se dá
é tão grande que se tem que a repartir
antes que se transforme em drama.
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Implora-se também que venha,
implora-se com a humildade da
alegria-sem-motivo.
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Em troca oferece-se também uma
casa com todas as luzes acesas
como numa festa de bailarinos.
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Dá-se o direito de dispor da copa
e da cozinha, e da sala de estar.
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P.S. Não se precisa de prática.
E se pede desculpa por estar num
anúncio a dilarecerar os outros.
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Mas juro que há em meu rosto sério
uma alegria até mesmo divina para dar.
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CLARICE LISPECTOR
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sábado, 28 de novembro de 2009

Se tudo exoste é porque sou - Clarice Lispector

Assunto: TENHO A ALMA Á JANELA...
Data: 26/Nov 17:12
TENHO A ALMA Á JANELA, PARA VER SE PASSO NA RUA...TALVEZ, NA SUA LEVEZA, VEJA MELHOR DO QUE EU!DESCONHEÇO ESTE LUGAR ONDE PAREI POR ENGANO. NELE TUDO ME É ESTRANHO MAS NADA É NOVO PARA MIM.DE TUDO ME FALA A LEMBRANÇA. EU SEI QUE JÁ ESTIVE AQUI, E QUE NÃO QUIS, QUE FUGI!NÃO PERTENÇO A ESTA VIDA. É POR DEMAIS DIVIDIDA...E NÃO CONHEÇO OS MEUS PARES. NEGAM A LUZ E A VERDADE, BRINCAM COM OS SENTIMENTOS, ENGANAM PARA GANHAR, VIVEM SÓ PARA FERIR OS QUE PERTO DELES CHEGAM, SÓ POR GOSTO, POR VINGANÇA... E NÃO ME OLHAM NOS OLHOS. ESTOU PERDIDA. QUERO VOLTAR. QUANDO MINHA ALMA ME VIR, SORRINDO VAI-ME CHAMAR...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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SE TUDO EXISTE É PORQUE SOU.
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Se tudo existe é porque sou.
Mas por que esse mal estar?
e porque não estou vivendo do único
modo que existe para cada um
de se viver e nem sei qual é.
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Desconfortável.
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Não me sinto bem.
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Não sei o que é que há.
Mas alguma coisa está errada e dá mal estar.
No entanto estou sendo franca
e meu jogo é limpo.
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Abro o jogo.
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CLARICE LISPECTOR
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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Não entendo - Clarice Lispector

Assunto:
O DIA DE AMANHÃ...
Data:
25/Nov 16:10
É PERIGOSO SABER DEMAIS DA VIDA. NÃO SABER O FUTURO É UMA BENÇÃO DIVINA. PODE SER DOLOROSO O AQUI E AGORA, NAS RENASCE A ESPERANÇA DE QUE AMANHÃ SEJA MELHOR. TAMBÉM É PERIGOSO TER DE USAR DEMASIDAMENTE ESTE PENSAMENTO POSITIVO - ALGO VAI MAL DEMAIS NOS NOSSOS DIAS. O MELHOR SERIA PASSARMOS PELA VIDA COMO A ESPUMA BRANDA DE UMA ENORME ONDA. NÃO SABERMOS DE NADA,SERMOS FERIDOS EM VÁRIAS LUTAS, MAS TERMOS A CERTEZA DA PAZ FINAL...EM ANEXO UM BEIJO
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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NÃO ENTENDO

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Não entendo.
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
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Mas não entender pode não ter fronteiras.
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Sinto que sou muito mais
completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espí­rito.
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O bom é ser inteligente e não entender.
é uma benção estranha, como ter loucura
sem ser doida.
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é um desinteresse manso,
é uma doçura de burrice.
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Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco. Não demais:
mas pelo menos entender que não entendo.
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CLARICE LISPECTOR
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domingo, 23 de agosto de 2009

Precisão - Clarice Lispector

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Assunto: SABOR A INFINITO...
Data: 22/Ago 13:05
QUANDO OLHO PARA O CÉU TENHO A IMPRESSÃO QUE A MINHA ALMA SE VAI ESPALHANDO PELO INFINITO....SINTO-ME ÁGUIA VOANDO SOBRE O MUNDO E OBSERVANDO O QUE SE PASSA AQUI EM BAIXO....QUANDO OLHO O INFINITO SINTO O SABOR DA LIBERDADE E O SEM TAMANHO QUE PODE TER A FELICIDADE...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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PRECISÃO
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O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.
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CLARICE LISPECTOR
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domingo, 16 de agosto de 2009

Há momentos na vida - Clarice Lispector

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Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.
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Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.
.
O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.
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Clarice Lispector
(Ucrânia - 1925 / Brasil - 1977)
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quarta-feira, 8 de julho de 2009

Sonhe c om aquilo que você quiser - Clarice Lispector

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Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.
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Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.
.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.
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CLARICE LISPECTOR
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From Paula Moranguinho Pereira (hi5)
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segunda-feira, 20 de abril de 2009

REFLEXÕES - Clarice Lispector

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Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém…


que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraça-la…


Sonhe com aquilo que você quiser…


Seja o que você quer ser…


Porque você possui apenas uma vida


E nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.


Tenha felicidade bastante para faze-la doce,


dificuldades para faze-la forte,


tristeza para faze-la humana.


E esperança suficiente para faze-la feliz.


As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas,


elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.


A felicidade aparece para aqueles que choram…


Para aqueles que buscam e tentam sempre…


E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.


O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido.


Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado.


A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar…


…duram uma eternidade…

CLARICE LISPECTOR
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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domingo, 24 de fevereiro de 2008

Antônio Vieira «entrevistado por Deonísio da Silva


Entrevistas


Uma conversa sobre o Sermão do Bom Ladrão - Deonísio da Silva “entrevista” Antônio Vieira


O escritor Deonísio da Silva é doutor em Letras, pela Universidade de São Paulo (USP), e vice-reitor de pós-graduação e pesquisa da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Fez o mestrado em Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem 31 livros publicados, entre os quais citamos Nos bastidores da censura (São Paulo: Estação Liberdade, 1989), sua tese de doutoramento, e os romances A cidade dos padres (São Paulo: Manole, 1986); Orelhas de aluguel (Rio de Janeiro: Guanabara, 1988); e Avante soldados para trás (São Paulo: Siciliano, 1992) (Prêmio Internacional Casa de las Américas), publicados também em outros países. Seus livros mais recentes são Os segredos do baú (São Paulo: Peirópolis, 2007) e A língua nossa de cada dia (São Paulo: Novo Século, 2007). Assina duas colunas semanais: a de etimologia, na revista Caras, e a de crítica de mídia, no Observatório da Imprensa. Seu próximo romance é Goethe e Barrabás, a ser publicado em 2008. Nesta entrevista, Deonísio “conversa” com Antônio Vieira, tendo como pano de fundo O Sermão do Bom Ladrão e o da Sexagésima, ambos proferidos pelo jesuíta em 1655. A introdução à entrevista é do próprio escritor que se faz repórter.
Introdução
O Paiaçu, o Grande Padre, como o chamavam os índios, há muitos anos habita minha casa, como tantas outras que têm biblioteca, e hoje residimos na Barra da Tijuca, no Rio.
Faz vinte e um anos que não o entrevisto. Por muito apreciá-lo, entrevistei-o apenas uma vez, em 1986, nas páginas de um romance, A cidade dos padres, no qual fez, como de hábito, a defesa dos judeus e dos índios, propôs a criação da Companhia Ocidental, da Companhia Oriental, a fundação de um Banco como o de Amsterdam, além de condenar a Inquisição, que tanto o perseguiu.
Sei que nossos irmãos portugueses o consideram uma de suas maiores glórias literárias de todos os tempos, ao lado de Camões. Mas, embora nascido em Lisboa, em 6 de fevereiro de 1608, filho dos fidalgos Cristóvão Vieira Ravasco e Maria de Azevedo, em 1614, aos seis anos, emigrou com os pais para o Brasil, onde veio a morrer, na madrugada de 18 de julho de 1697, aos 89 anos. Portanto, se Vieira é escritor português, Clarice Lispector[1] é escritora ucraniana.
Vieira acreditava piamente na volta de Dom Sebastião, pois, para Deus, nada sendo impossível, sendo necessária a volta do rei português, por que o monarca deixaria de voltar? Só porque tinha morrido pelas mãos dos mouros, na Batalha de Alcácer Quibir, na África? A morte não é motivo para interromper nada, a não ser esta vida terrena, um breve intervalo, se comparado com o tempo que Vieira permanece entre nós e, mais ainda, com a eternidade.
De seus perseguidores, diz certa vez o defensor do Quinto Império: “não me temo de Castela, temo-me desta canalha”.
Na biografia que dele fez André de Barros[2], apresentou-o como de “pequena estatura”, “cor morena”, “olhos sobremaneira vivos, que parecia cintilavam”. Disse também ter sido um gênio humaníssimo, urbano e cortês, de memória prodigiosa e grande erudição e de uma conversa arrebatadora no convívio com os colegas.
Nunca mais o tinha entrevistado, para não chatear o, mais que gênio, oxigênio. Mas, se a primeira entrevista fiz de livre vontade, para esta fui convocado por professores universitários que, sendo amigos, a eles não se pode deixar de atender.
Foram duas sessões de perguntas e respostas. Uma, em minha casa; outra na Universidade Estácio de Sá, onde trabalho. Ali o Padre Antônio Vieira é bibliografia obrigatória, não apenas no curso de Letras, mas numa disciplina de Língua Portuguesa, que é ministrada em todos os cursos. O Padre Antônio Vieira é imortal, pois é a obra, mais nada, que dá imortalidade a um autor.
Confesso que vacilei entre dois sermões para escolher o tema solar desta entrevista: o da Sexagésima, pregado em 1655, mas na Capela Real, ao passo que o do Bom Ladrão, no mesmo ano, foi pregado na Igreja da Misericórdia de Lisboa.
Encanta-me no Sermão da Sexagésima a força da palavra. Absolutamente genial ao manipular no melhor estilo barroco as sutis complexidades e semelhanças que vê entre o ato de lançar sementes na terra e palavras nos homens, ele abre com a parábola do semeador e conclui: “Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum”.
Contudo, nesta entrevista, limitei as perguntas ao Sermão do Bom Ladrão, de leitura sempre indispensável, porém, no Brasil atual, mais pertinente do que em outros tempos.
As perguntas são minhas. As respostas são dele e foram todas extraídas do Sermão do Bom Ladrão. Vieira falou muito, como é de seu costume, e eu pouco, pois quanto mais silencioso fico, mais aprendo com ele. Entretanto, é sempre preciso interrogá-lo, pois é isso que fazemos quando lemos um autor: fazemos perguntas e obtemos respostas, que levam a novas perguntas, em vertiginosas espirais. Ler, para mim precede escrever, beber vinho e ouvir música, quatro prazeres que muito prezo, três deles podendo ser usufruídos simultaneamente. Por isso, mesmo para um escritor, é mais importante ler do que escrever.
Vamos à entrevista.
Repórter - Todos os que hoje lêem seus escritos, destacam entre os que mais apreciam o Sermão do Bom Ladrão. Qual é a primeira idéia que o senhor nele desenvolve e ilustra com o episódio bíblico ali narrado?
Padre Vieira - Pediu o Bom Ladrão a Cristo que se lembrasse dele no seu reino: “Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum”. E a lembrança que o Senhor teve dele foi que ambos se vissem juntos no Paraíso: “Hodie mecum eris in Paradiso”. Esta é a lembrança que devem ter todos os reis, e a que eu quisera lhes persuadissem os que são ouvidos de mais perto. Que se lembrem não só de levar os ladrões ao Paraíso, senão de os levar consigo: “Mecum”. Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isto é o que hei de pregar. Ave Maria.
Repórter - E a segunda?
Padre Vieira - Suposta esta primeira verdade certa e infalível, a segunda coisa que suponho com a mesma certeza é que a restituição do alheio, sob pena da salvação, não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas. Cuidam ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano. A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles. Esta verdade só tem contra si a prática e o uso.
Repórter - E em que filósofo o senhor se apóia para afirmar que é preciso restituir o que foi roubado e não apenas perdoar o ladrão?
Padre Vieira - Santo Tomás. O qual é hoje o meu doutor, e nestas matérias o de maior autoridade: “Terrarum principes multa a suis subditis violenter extorquent, quod videtur ad rationem rapinae pertinere; grave autem videtur dicere, quod in hoc peccent, quia sic fere omnes principes damnarentur. Ergo rapina in aliquo quo casu est licita”. Quer dizer: A rapina ou roubo é tomar o alheio violentamente contra a vontade de seu dono; os príncipes tomam muitas coisas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade: logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos, porque, se dissermos que os príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam: “Fere omnes principes damnarentur”. Diz Santo Tomás que se os príncipes tiram dos súditos o que segundo justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se os príncipes tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio. Donde se segue que estão obrigados à restituição, como os ladrões, e que pecam tanto mais gravemente que os mesmos ladrões, quanto é mais perigoso e mais comum o dano com que ofendem a justiça pública, de que eles estão postos por defensores.
Repórter - Mas Santo Agostinho também condenou o roubo...
Padre Vieira - O texto de Santo Agostinho fala geralmente de todos os reinos, em que são ordinárias semelhantes opressões e injustiças, e diz que entre os tais reinos e as covas dos ladrões - a que o santo chama latrocínios - só há uma diferença.
Repórter - E qual é a diferença?
Padre Vieira - E qual é? Que os reinos são latrocínios, ou ladroeiras grandes, e os latrocínios, ou ladroeiras, são reinos pequenos: “Sublata justitia, quid sunt regna, nisi magna latrocinia? Quia et latrocinia quid sunt, nisi parva regna?”.
Repórter - O senhor, neste mesmo Sermão do Bom Ladrão, como costumava fazer em tantos outros, conta um diálogo ocorrido entre um pirata e Alexandre Magno, o rei da Macedônia que foi educado por Aristóteles. Que episódio foi este?
Padre Vieira - Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e, como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. - Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? - Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.
Repórter - Mas não foram apenas autores cristãos que reprovaram o roubo e os ladrões. Sêneca disse que tanto faz ser o pirata como o rei; o resultado do roubo só muda em quantidade, causando muito mais repulsa os ladrões com poder.
Padre Vieira - Quando li isto em Sêneca[3], não me admirei tanto de que um filósofo estóico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos, em tempo de príncipes católicos e timoratos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina. Saibam estes eloqüentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam que com o que disserem, porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar.
Repórter - O senhor fala de muitos ladrões e de muitos tipos de roubos no Sermão do Bom Ladrão. Quais são os ladrões mais perigosos?
Padre Vieira - Os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: “Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: furatur enim ut esurientem impleat animam”. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno[4]: “Non est intelligendum fures esse solum bursarum incisores, vel latrocinantes in balneis; sed et qui duces legionum statuti, vel qui commisso sibi regimine civitatum, aut gentium, hoc quidem furtim tollunt, hoc vero vi et publice exigunt”: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. - Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.
Repórter - Qual foi o filósofo grego, citado no seu aludido sermão, que disse que, quando os pequenos ladrões são punidos, quem os está punindo são mais ladrões do que eles?
Padre Vieira - Diógenes[5], que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: - Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. - Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas!
Repórter - Na Grécia Antiga, então, tão democrática, puniam os pequenos ladrões e nem levavam a julgamento os grandes. E em Roma, como é que era?
Padre Vieira - Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: “Nou cessat simul furta, vel punire, vel facere”: Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. - Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.
Repórter - Já vimos que o Céu foi inaugurado por um ladrão, ainda que o Bom Ladrão, título e tema deste sermão, pois Jesus, que morre crucificado entre dois ladrões, Dimas e Gestas, diz ao primeiro, que lhe pediu perdão: “hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”. É verdade que a roubalheira já começou com Adão e Eva? Afinal, o fruto do furto não foi apenas uma fruta, foi roubo de biodiversidade, de tecnologia e de ciência, pois nossos primeiros pais furtaram o fruto do conhecimento, da árvore da ciência do Bem e do mal, não?
Padre Vieira - Pôs Deus a Adão no Paraíso, com jurisdição e poder sobre todos os viventes, e com senhorio absoluto de todas as coisas criadas, excepto somente uma árvore. Faltavam-lhe poucas letras a Adão para ladrão, e ao fruto para furto não lhe faltava nenhuma. Enfim, ele e sua mulher - que muitas vezes são as terceiras -, aquela só coisa que havia no mundo que não fosse sua, essa roubaram. Já temos a Adão eleito, já o temos com ofício, já o temos ladrão.
Repórter - Mas eles pagaram caro pelo furto. Ou alguém mais também foi indiciado?
Padre Vieira - E quem foi o que pagou o furto? Caso sobre todos admirável! Pagou o furto quem elegeu e quem deu o ofício ao ladrão. Quem elegeu e quem deu o ofício a Adão foi Deus: e Deus foi o que pagou o furto tanto à sua custa, como sabemos. O mesmo Deus o disse assim, referindo o muito que lhe custara a satisfação do furto e dos danos dele: “Quae non rapui, tunc exolvebam”. Vistes o corpo humano de que me vesti, sendo Deus; vistes o muito que padeci, vistes o sangue que derramei, vistes a morte a que fui condenado, entre ladrões. Pois, então, e com tudo isso, pagava o que não furtei. Adão foi o que furtou, e eu o que paguei: “Quae non rapui, tunc exolvebam”.
Repórter - O microfone está à sua disposição para um recado aos brasileiros. Que prece o senhor faz, além da prece da decifração do que o senhor escreveu?
Padre Vieira - Rei dos reis e Senhor dos senhores, que morrestes entre ladrões para pagar o furto do primeiro ladrão, e o primeiro a quem prometestes o Paraíso foi outro ladrão, para que os ladrões e os reis se salvem, ensinai com vosso exemplo, e inspirai com vossa graça a todos os reis, que, não elegendo, nem dissimulando, nem consentindo, nem aumentando ladrões, de tal maneira impeçam os furtos futuros, e façam restituir os passados, que em lugar de os ladrões os levarem consigo, como levam, ao inferno, levem eles consigo os ladrões ao Paraíso, como vós fizestes hoje: “Hodie mecum eris in Paradiso”.

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[1] Clarice Lispector (1920-1977): escritora nascida na Ucrânia. De família judaica, emigrou para o Brasil quando tinha apenas dois meses de idade. Começou a escrever logo que aprendeu a ler, na cidade de Recife. Em 1944, publicou seu primeiro romance, Perto do coração selvagem. A literatura brasileira era nesta altura dominada por uma tendência essencialmente regionalista, com personagens contando a difícil realidade social do país na época. Lispector surpreendeu a crítica com seu romance, quer pela problemática de caráter existencial, completamente inovadora, quer pelo estilo solto elíptico, e fragmentário, reminiscente de James Joyce e Virginia Woolf, ainda mais revolucionário. Seu romance mais famoso embora menos característico quer temática quer estilísticamente, é A hora da estrela, o último publicado antes de sua morte. Neste livro a vida de Macabéa, uma nordestina criada no estado Alagoas e vai morar no Rio de Janeiro, e vai morar em uma pensão, tendo sua vida descrita por um escritor fictício chamado Rodrigo S.M. Sobre Clarice Lispector, a IHU On-Line 228 realizou uma edição especial, intitulada Clarice Lispector. Uma pomba na busca eterna pelo ninho, de 16-7-2007. O material está disponível na nossa página eletrônica (www.unisinos.br/ihu) (Nota da IHU On-Line)
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[2] André de Barros: escreveu a primeira biografia de Antônio Vieira, em 1746, intitulada Vida do apostólico Padre Antônio Vieira da Companhia de Jesus. (Nota da IHU On-Line)
[3] Sêneca (4 a.C. – 65d.C.): estadista, escritor e filósofo estóico romano. De suas obras, restam 12 ensaios filosóficos, 124 cartas, um ensaio meteorológico, uma sátira e nove tragédias. Suas tragédias têm por tema assuntos explorados por dramaturgos gregos, mas são melodramas intensos e violentos, fixando-se na crença estóica de que a catástrofe é resultado da destruição da razão pela paixão. Essas peças influenciaram bastante a tragédia na Itália, na França e na Inglaterra elisabetana. Sua filosofia moral, inspirada na doutrina estóica, está expressa nos diálogos, tratados e cartas, Epístolas morais a Lucílio, que escreveu. As tragédias Medéia, As troianas, Agamenon e Fedra são, geralmente, atribuídas a Sêneca.(Nota do IHU On-Line)
[4] São Basílio Magno (330 – 379): fundador da Ordem dos Basilianos. Estudou filosofia, astronomia, geometria, medicina e atuou como professor. Tornou-se sacerdote e em 370 d.C. tornou-se bispo. (Nota da IHU On-Line)
[5] Diógenes (413-323): filósofo grego e um dos maiores representantes do cinismo. (Nota da IHU On-Line)
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Uma relação de sites com os Sermões do Pe. António Vieira, sj, pode encontrar-se aqui:
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