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segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Filipe Chinita - ser ou não ser.eis a questão...

*  Filipe Chinita
 09/10/2022, 13:46

ser 
ou não ser.eis a questão...
.
as pessoas que 'deixam' de ser comunistas
é porque nunca em verdade o foram
nem chegaram a (bem) perceber
o que é ser... comunista
.
ou 
da 
ideologia
não dominada
pois que colada à pressa
com... cuspo
.
ou 
da total ausência
de pensamento dialéctico 
na sua cabeça
palavras 
gestos 
actos
.
ou 
de uma amálgama de tudo
sem sentido 
e sem visão
alguma
de 
futuro
ou 
do ridículo...
de quando um par de ténis
faz alguém 'mudar' de ideologia
.
ou 
das pessoas 
que não chegam a saber 
quem são... nem o que fazem aqui
.
ou 
da tal cultura mínima do indivíduo
não adquirida... em que toda 
a pseudo informação...
se torna num apenas 
alienado mascar 
de pastilha...
elástica
tudo 
misturando... com tudo
.
fj
05.37
09.10.2022

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Biblioteca-museu preservará acervo de Thiago de Mello

 

 

Cultura

Vermelho - 29 de Julho de 2010 - 16h01

O Ministério da Cultura publicou nesta terça-feira (27), edital de licitação para o projeto de restauração, conservação e readequação do antigo Prédio do Tesouro, em Manaus (AM), para a criação da Casa de Leitura Thiago de Mello. A entrega das propostas para obra será dia 27 de agosto.

O espaço, uma biblioteca-museu, será a primeira biblioteca temática do Brasil. O espaço reunirá 8 mil itens, dentre eles estão acervo literário, documentos, correspondências, recortes icnográficos, obras de artes e acervo de multimídia (CDs e DVDs).

A Casa de Leitura Thiago de Mello terá como ponto de partida os acervos pessoais, iconográfico e bibliográfico do poeta, estruturando-se em torno de três grandes temas centrais de sua obra: O homem (a condição humana); A floresta (meio ambiente) e a América Latina (política, cultura e integração).

A previsão de custos do projeto é de R$ 5,99 milhões, com entrega da obra em 150 dias após a assinatura do contrato com a empresa escolhida. No julgamento das propostas, a Comissão levará em conta o menor preço global, desde que atendidas todas as especificações constantes do edital e seus anexos.

O antigo Prédio do Tesouro, Armazém 15, Trapiche do Armazém 15 e Áreas Externas fazem parte do Conjunto Arquitetônico e Paisagístico do Porto de Manaus, tombado pela União em 1987. Os imóveis estão intimamente identificados com a história do surgimento da cidade, na área de ocupação mais antiga do Centro Histórico e também são representativos do Ciclo Áureo da Borracha.

Thiago de Mello

Natural do Estado do Amazonas, Thiago de Mello é um dos poetas mais influentes e respeitados no pais, reconhecido como um ícone da literatura regional. Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas.

Preso durante a ditadura (1964-1985), exilou-se no Chile, encontrando em Pablo Neruda um amigo e colaborador. Um traduziu a obra do outro, e Neruda escreveu ensaios sobre o amigo. No exílio, morou na Argentina, Chile, Portugal, França, Alemanha. Com o fim do regime militar, voltou a sua grande cidade natal, Barreirinha, onde vive até hoje.

Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem, onde o poeta chama a atenção do leitor para os valores simples da natureza humana. Seu livro Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida rendeu-lhe, em 1975, ainda durante o regime militar, prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e tornou-o conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.

Com agências
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Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony


Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Santiago do Chile, abril de 1964 
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http://www.revista.agulha.nom.br/tmello.html#estat.
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quarta-feira, 28 de julho de 2010

Fernando Echevarría recebe Grande Prémio de Poesia da APE


"Lugar de Estudo"

Fernando Echevarría recebe Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores

27.07.2010 - 17:55 Por PÚBLICO


"Lugar de Estudo", de Fernando Echevarría, é o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores(APE)/CTT, anunciou hoje a associação em comunicado. O autor recebe assim pela segunda vez o prémio da APE.
Fernando Echevarría recebeu também o Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen 
Fernando Echevarría recebeu também o Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen 
(Paulo Pimenta)


O júri, constituído por Armando Silva Carvalho, Maria João Reynaud e Sérgio Sousa, decidiu, por unanimidade atribuir este prémio ao autor editado pela Afrontamento.

No mesmo comunicado, o júri indica que a obra "representa um momento singularmente alto de Poesia Portuguesa Contemporânea. Os cerca 270 poemas inéditos que o compõem são a expressão vigorosa de uma arte poética que o título resume. A poesia é, para este autor, um lugar de Estudo e de, aperfeiçoamento do trabalho poético, o qual é também o lugar da língua.”

Fernando Echevarría recebeu também o Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen pelo conjunto da sua obra.

O prémio, que consiste em 5000 euros, será entregue em data a anunciar. 
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O "Lugar de Estudo" de Fernando Echevarria
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Começa na velhice a erguer-se um halo
de acolhimento. Promete,
não só indulgência, mas também um sábio
silêncio, de onde se difunde e deve
a auscultação desenvolver o pálio
de outro silêncio mais profundo. Que ergue
a escuta a um ponto, cada vez mais alto,
que, com maior intensidade, tende.
Terá esse exercício força de hausto?
Ou será padecê-lo que protege?
O certo é que a velhice encontra os anos.
E os anos sabem a fecunda messe
de estudos que, mesmo inacabados,
a outros estudantes se oferecem.


A escuta cresce por dentro
de estar atenta a escutar.
Traz um agudo silêncio
a estender cada vez mais
o seu domínio. Que a escuta,
arraigada, polariza
de forma a serem só uma
operação. Mais ainda,
uma unidade profunda
onde sofrê-la se activa.
Ou há um silêncio de escuta
onde só a escuta domina.
E aquilo a escutar
punge o grande sofrimento
da alegria, que se vai
na escuta recrudescendo.


A penúria da língua é a sua força.
Reconhecendo nela a indigência
mais o apuro se empolga
e a submissão empolga a subtileza
do espírito, dado à obra
e a mais nada que não seja ela.
De aí que se desenvolva
uma abertura hiante de surpresa
que pede língua cada vez mais nova
e de mais adequada obediência.
Ou, se quiserem, língua peremptória.
Porque, vinda do fundo da pobreza,
entrega apenas quanto falta. E torna
a sua falta uma abertura imensa,
indigitando o extremamente fora,
cuja ausência feliz se nos entrega.


Por trás do céu há o céu inteligível.
E, por trás deste, um céu aberto
a abrir-se ainda, sem qualquer limite,
mas puxando após si o pensamento.
Ou, se quiserem, o feliz requinte
de alargarem a paz a um céu inédito
onde o reino profundo do invisível
funda o visível no fecundo aspecto
de ímpeto. Lume imperioso. Riste
abrindo a um novo assunto de silêncio.
E através do silêncio silencia-se
o assunto. Apenas o incremento
do ímpeto se abstrai ao eco do que disse
para o luto do dito abrir assento
a um penúltimo cume. A um trampolim de
invisível a ir pelo invisível dentro.


Não cabe em nome algum. O que lhe demos
apenas dele nos diz quanto nos falta.
Que nomear é reduzir a objecto
de submissão quem alicerça a dádiva.
E a dádiva o que dá é um dar aberto.
Partindo de um recuo de distância
irradia, a nome algum sujeito
ou, se algum se lhe der, é o que o afasta
da precisão estrita de conceito.
Então só resta que uma escuta de alma
se intensifique para abrir-nos dentro essa profundidade inominada
a dar somente para o sempre imenso.
E desse imenso se divulga a flama,
não só invisível, mas também efeito
da pungência feliz da sua falta.


Estamos graves a ir
por esse longe que vem
ao nosso encontro. E assim
ir e vir resumem ver
como vai sendo feliz
o tempo que o tempo tem.
Mas o tempo tem-se a si
somente quando refém
da palavra que o diz.
Dizê-lo deixa-o, porém,
exposto a um vento sem fim,
que venta sem fim. Amen.


Promontório de Deus. De onde Ele se ausenta.
Só nos deixando a grande nostalgia
na sua massa espessa.
Que abre distância de recuo assídua
e alarga a inteligência
por uma busca quase que festiva.
Ou mais, talvez, por uma via tensa
de júbilo e sentido. E, até, sofrida
na sua panda activação de vela.
Que vai sofrendo e activando a vinda
da invisibilidade, da surpresa
inominada, que procura ainda
seu nome peremptório. Mas nomeia
essa distância a distanciar-se implícita.
Ou promontório de onde Deus se ausenta
para auscultarmos sua face viva.


Com Deus. E vivos. E andando sempre
ao sol. À chuva. E ainda ao vento.
Vivos, escutam. Nem sente
a aura oculta do seu corpo aceso
que à volta difundem e dispendem
como dispendem o conhecimento.
Que conhecer é reunir a febre,
o frio e o silêncio
num todo indivisível que só serve
a intimidade de sofrer o peso
do mundo, da intempérie.
E aquilo que eles trazem desde dentro.
E, desde dentro, emerge
de modo à tez iluminar o vento,
quando passarem quase a si se esquece,
embora punja em os estarmos vendo.


Estão com Deus. E, do fundo
de estarem ali, vem vindo
a grande escuta. Aí tudo
especifica o seu vínculo.
O mar instrui no marulho
sua imagem. Como o rio
a sua traça no fluxo
figurado do sentido.
Na grande escuta abre o mundo 
o silêncio. E abre um sítio
onde só reina o estudo
aberto ao reino do espírito.
E com Deus aberto, ao fundo
de estarem ali ouvindo.

Fernando Echevarría
In Lugar de Estudo, ed. Afrontamento
04.01.10

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http://www.snpcultura.org/id_lugar_de_estudo_fernando_echevarria.html
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Lugar de Estudo

Lugar de Estudo
Edição/reimpressão: 2009
Páginas: 284
Editor: Edições Afrontamento
ISBN: 9789723610185
Colecção: Poesia
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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi


30 de maio de 2010

Portinari

Candido-Portinari-Casamento-na-Roca-Oleo-Sobre-Tela.jpg
casamento

Os Pés do Ovo

No frigir dos ovos
apaga o fogo
e coloca a frigideira
sob a água
concorrente: ovos estalam
frígido em ovos nevados
sucede o corpo ao pecado
antecipado por estar quente
antes da hora. O vento ressoa
portas e janelas: ovos
colocados em pé.
(os pés do ovo)
.
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Pedro Du Bois
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29 de maio de 2010

flor de cinza

Estou de pé na profusão das horas murchas
e poupo uma resina para um pássaro tardio:
ele traz o floco de neve nas penas vermelho-vivo;
com o grão de gelo no bico, atravessa o verão.
.
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Paul Celan
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Gertrude Kaiserbier

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Rose Cecil O' Neill, retratada em 1907

28 de maio de 2010

Le port d'Amsterdam

(gentileza de F.L.)
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Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui chantent
Les rêves qui les hantent
Au large d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dorment
Comme des oriflammes
Le long des berges mornes
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui meurent
Pleins de bière et de drames
Aux premières lueurs
Mais dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui naissent
Dans la chaleur épaisse
Des langueurs océanes
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui mangent
Sur des nappes trop blanches
Des poissons ruisselants
Ils vous montrent des dents
A croquer la fortune
A décroisser la lune
A bouffer des haubans
Et ça sent la morue
Jusque dans le cœur des frites
Que leurs grosses mains invitent
A revenir en plus
Puis se lèvent en riant
Dans un bruit de tempête
Referment leur braguette
Et sortent en rotant
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dansent
En se frottant la panse
Sur la panse des femmes
Et ils tournent et ils dansent
Comme des soleils crachés
Dans le son déchiré
D'un accordéon rance
Ils se tordent le cou
Pour mieux s'entendre rire
Jusqu'à ce que tout à coup
L'accordéon expire
Alors le geste grave
Alors le regard fier
Ils ramènent leur batave
Jusqu'en pleine lumière
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d'Amsterdam
De Hambourg ou d'ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles
Dans le port d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam.
.
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Jacques Brel
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Robert Henri

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Isolina Maldonado, bailarina espanhola, retratada nos anos 20 do século passado

Cristal

Cristal
Não busques nos meus lábios a tua boca,
nem diante do portão o forasteiro,
nem no olho a lágrima.
Sete noites mais alto muda o vermelho para vermelho,
sete corações mais fundo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.

Paul Celan
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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi



27 de maio de 2010

Robert Henri

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Mata Moana, retrato pintado em 1920

Entre os teus lábios

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
.
Eugénio de Andrade.

26 de maio de 2010

Julia Margaret Cameron

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um rosto fixado no tempo, algures no ano de 1871

Rostos

(gentileza de Amélia Pais)
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Baralho a contragosto
Como cartas os rostos,
E todos me são caros.
Às vezes algum tomba,
Inútil procurá-lo.
Desaparece a carta.
Nada sei a respeito.
Entretanto era um rosto
Que eu amava, e tão belo.
Baralho as outras cartas.
O inquieto do meu quarto,
Ou seja, o coração,
A arder continua,
Não já por essa carta,
Por outra em seu lugar.
É um novo semblante.
E o baralho, completo,
Mas sempre desfalcado.
Eis tudo quanto sei,
E ninguém sabe mais.
.
,
Jules Supervielle, trad. Carlos Drummond de Andrade
.

25 de maio de 2010

Degas

degas_blue_dancers.jpg
um pouco mais de azul

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Ary dos Santos - Obra e alguns poemas

Bibliografia
.
1953 - Asas
1963 - A Liturgia do Sangue
1964 - Tempo da Lenda das Amendoeiras
1965 - Adereços, Endereços
1968 - Insofrimento In Sofrimento
1970 - Fotos-grafias
1970 - Ary por Si Próprio
1973 - Resumo
1974 - Poesia Política
1975 - Lllanto para Alfonso Sastre y Todos
1975 - As Portas que Abril Abriu
1977 - Bandeira Comunista
1979 - Ary por Ary
1979 - O Sangue das Palavras
1980 - Ary 80
1983 - Vinte Anos de Poesia
1984 - As Palavras das Cantigas
1984 - Estrada da Luz
1984 - Rua da Saudade

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Não posso deixar de aqui deixar algumas, de entre muitas, poesias que me marcaram desde sempre.

Os putos
. Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando na mão
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que não
Se a porrada vier não deixo

Um berlinde abafado na escola
Um pião na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.

A cidade é um chão de palavras pisadas
.
A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

Poeta Castrado, Não!
.
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
--- é tão vulgar que nos cansa ---
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
--- a morte é branda e letal ---
mas que dizer da memória
de uma bomba de napal?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
--- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
--- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Meu amor, meu amor
.
Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

Cavalo à solta
.
Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.
.



terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Poesia de Bertold Brecht - Análise

A PROCURA DA POESIA
21 outubro, 2007
(ANÁLISE): O testemunho dos poetas em tempos sombrios (breve leitura da poética de Brecht)
.


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POEMAS DE BERTOLT BRECHT
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(Tradução de Paulo César de Souza)

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SOBRE A ESTERILIDADE
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A árvore que não dá frutos
É xingada de estéril. Quem
Examina o solo?
O galho que quebra
É xingado de podre, mas
Não havia neve sobre ele?
 

__________
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AOS QUE VÃO NASCER
[1]
É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.
Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranqüilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?
Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.)
As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d'água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.
Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.

 __________
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"O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera./ O tempo pobre, o poeta pobre/ fundem-se no mesmo impasse." — a angústia de Carlos Drummond (exposta aqui nos versos de "A flor e a náusea", do livro A rosa do povo) está em viver os tempos sombrios do século XX. Não há como o poeta deixar de ser político, e não elucidar, em sua poética, a pobreza das leis de convivência entre os homens. Abre ele, portanto, mão da beleza que emana da organização das puras palavras para testemunhar a História.
.
Bertolt Brecht e o tempo pobre também se fundem no mesmo impasse. O poema "Sobre a esterilidade" revela, em linguagem alegórica (alegoria: dizer uma coisa referindo-se a outra), os tempos sombrios por ele vivenciados. Assim, o talento do poeta parece não sobreviver à opressão; a neve e o solo infértil (imagens da opressão) não criam condições de a árvore (cujas partes ecoam a imagem da poesia) ser frutífera (imagem da beleza). Há, porém, muitos ignorantes de toda essa realidade (no ato de xingar), que não compreendem o movimento histórico por eles vivido.

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O poema "Aos que vão nascer [1]", por sua vez, já usa de uma linguagem direta; ecoa o sentido do poema anterior. O eu-lírico fala da consciência de ser quase um crime cantar um mundo belo ("Falar de árvores é quase um crime/ Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?"). Não pode ele distanciar-se dos grandes problemas, ainda que deseje estar afastado de tudo que não inspira sabedoria.

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Mas há momentos que exigem participação daqueles que tem o poder de conscientizar; momentos que obrigam o poeta a não se calar em tempos sombrios, denunciados em linguagem de não transcendência — embora linguagem desenhando, em testemunho poético-testamental para as gerações futuras, alguma esperança de união e compreensão entre os homens ("Mas vocês, quando chegar o momento/ Do homem ser parceiro do homem/ Pensem em nós/ Com simpatia." — versos de "Aos que vão nascer" [3]).

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A seção "(ANÁLISE)", como câmera fotográfica, tenta flagrar algumas nuanças mágicas do poema. Esperam-se aqui comentários que possam ajudar a interpretar a beleza da poesia. Críticas pertinentes e sugestões de leitura serão muito bem recebidas.
Exercite sua capacidade de ler e pensar — fique à vontade para comentar…