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sábado, 6 de junho de 2026

Luís Osório - O dia em que começámos a traficar escravos

                                     

* Luís Osório 


POSTAL DO DIA
1.
Orgulho-me da nossa História.
Dos nossos heróis, mas também dos cobardes, dos que morreram anónimos, dos loucos e maquiavélicos.
Uma História, das famílias e dos países, é sempre uma soma de interesses e sentimentos contraditórios.
Fomos o primeiro país a abolir a pena de morte e o último a abandonar a escravatura.
Fomos os precursores da diplomacia moderna e o resistimos mais do que ninguém a matar o colonialismo.
2.
De todas as personagens da nossa epopeia, talvez o Infante D. Henrique seja o mais difícil de compreender – mesmo sendo um homem do seu tempo e, por isso, impossível de comparar a partir dos nossos valores e padrões.
Por um lado, o estratega que criou os alicerces da expansão e do Império. O que com engenho desenvolveu as caravelas e a moderna cartografia, o que conquistou Ceuta e dobrou o Bojador.
Por outro lado, o que sacrificou o irmão mais novo em Tânger ou o que enriqueceu à custa do tráfico de escravos instituindo a escravatura como um negócio de Estado.
3.
Só há muito pouco tempo li a Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara, a sua descrição do primeiro grande desembarque em Lagos, no verão de 1444.
Dos negros a serem desempilhados da caravela.
Das grilhetas e correntes.
Dos chicotes a cortarem o corpo de mães que esperneavam para que os filhos delas não se separassem.
Dos gritos que Zurara descreve como impossíveis de esquecer.
E do Infante D. Henrique montado a cavalo a ver tudo e a ter o privilégio de ser o primeiro a escolher os pretos que levava para as suas terras e as mulheres que levava para as suas casas.
E depois a fazer as contas aos que restavam, aos que eram comprados – o Infante ganhava vinte por cento em cada venda, o seu quinto consagrado na lei.
Havia também os que não eram vendidos, os que não tinham valor, os que eram mortos e sangrados em valas comuns como animais inférteis.
4.
O Mercado de Escravos é um museu que vale a pena visitar em Lagos, a cidade portuária que foi o primeiro santuário de escravos da Europa moderna.
A face oculta dos Descobrimentos.
Passaram muitos anos, que são poucos.
Um sopro de tempo na escala humana.
Um sopro ainda menor na escala da vida no planeta.
Se experimentares ler a crónica de Zurara, e se fechares os olhos, conseguirás ouvir nitidamente os gritos daquelas mães e o Infante a trote num cavalo que não era alado.
LO

2026 06 06
https://www.facebook.com/luis.osorio.940/posts/postal-do-dia-o-dia-em-que-come%C3%A7%C3%A1mos-a-traficar-escravos1orgulho-me-da-nossa-his/27663786879891636/

domingo, 23 de junho de 2024

Carlos Coutinho - Cartas de alforria (الحرية, al-ḥurrííâ)



  Carlos Coutinho

AGORA que já temos o Ventura no Conselho de Estado e garantidos o holandês Mark Rutte e a alemã Ursula von der l´Leyen ao leme, respetivamente, da NATO e da Comissão Europeia, só posso dormir completamente atordoado e acordar, como esta manhã, comprometido com a missão de dobrar mais uma vez o Cabo das Tormentas neste mar de dias infaustos que é o mundo percetível no primeiro quarto do século XXI.

De facto, acordei hoje encostado a duas palavras antigas – alfobre e alforria –, sem qualquer motivação destrinçável e, obviamente, sem a mínima culpa dos calendários em uso ou dos vários gramáticos da nossa praça, ainda aflitos neste pós-Acordo Ortográfico 98.

Encostei-me, logo que pude, aos dicionários e às enciclopédias disponíveis, incluindo as digitais, porque se trata de substantivos herdados de idiomas ancestrais que petrificaram no árabe e se mantêm firmes, sólidos e inter-relacionados, como as ombreiras de uma porta para a alfurja dos armários mentais.

Desprezei a alfurja, porque é demasiado misteriosa neste momento, tal como fiz com o verbo encostar agora usado, porque sei – e sei-o bem – que as costas tanto podem ser as pendências das omoplatas de um simples cristão como as bordaduras de uma ilha ou até de um continente.

Mas não recuso, entretanto, que é quase impossível distinguir acostar de encostar, sendo que, neste último caso, o que está na mesa é arrimar, ou pôr de lado algo ou alguém contra um objeto que não cai nem deixa cair, ou pedir dinheiro a outrem, ou procurar a proteção de algum poderoso, ou tentar escapar a um trabalho ou tarefa, ou marcar um golo facilmente, empurrando a bola para dentro da baliza com o adversário sem condições para tal impedir, enfim, são muitas as questões contidas nestes conceitos, mas o que agora me move é o amplo leque de significados com que podemos abanar-nos nestas e noutras situações.

Começando pelo alfobre, apetece-me registar que, para uns, tanto pode ser o nome que se dá a um viveiro de plantas hortenses destinadas a transplantação, como a um simples canteiro por entre regos onde corre um rego de água, ou um lugar onde se cria, produz ou desenvolve grande quantidade de coisas ou seres de certo tipo.

Para outros, é sinónimo de respeito variável para pepineira, sementeira, seminário que até pode ser eclesiástico, viveiro, criadouro, tabuleiro de horta e, se formos à etimologia, ainda podemos ficar mais desarmados, porque estaremos perante o termo árabe al-hufar que significa buraco, fossa, e que, no plural, é hufra.

Já com alforria, a coisa fia mais fino. Trata-se de uma palavra que recebemos do árabe (الحرية, al-ḥurrííâ), ou manumissão, e que é o ato pelo qual um proprietário de escravos dá liberdade a algum, ação que assume diferentes formas consoante o tempo e o local da sociedade escravagista. Significando liberdade, veio do sumério Ama-gi, que corresponde, no Brasil e noutros locais americanos, à alforria da escravidão por dívida.

A carta de alforria era um documento pelo qual se atestava que o proprietário de um escravo rescindia dos seus direitos de propriedade sobre a vítima, sendo que no Brasil, escravo liberto por esse dispositivo era habitualmente chamado negro forro.

Exemplo:

"Digo eu Manoel de Souza Magalhães que entre os bens livres e desembargados de que sou legítimo senhor e possuidor, é uma escrava mestiça de nome Joanna filha de minha escrava Helena criola, que agoconta alias tem de idade treze annos, a qual escrava Joanna, deve acompanhar-me atte o dia em que eu a cazar ou fallecer, e sendo que a mesma descre [?] e tenha filhos, tanto ella como seus filhos gozarão da mesma liberdade, cuja liberdade é do dia de minha morte por diante como si de ventre livre nascesse; e não não poderão meus herdeiros prezentes e esta liberda de que a faço de minha livre vontade sem constrangimento algum, e sim pelo muito amor que lhe tenho pela ter creado como filha, e alem disso me ter servido completamente; e havendo duvida sobre o ponderado recebo a dita escra va em minha terça pela quantia de cento e vinte mil reis, e declaro que presentemente o posso fazer por possuir bens aundantes que bem chegão para esta liberdade: e para título mandei passar a presente que pedi ao Senhor Jose Thomaz de Aquino "[...]

O direito de propriedade do senhor em relação ao seu escravo passava para este - processo que culmina numa maior autonomia do cativo. Todavia, devido ao estatuto jurídico de reescravização, que perduraria até 1871, o escravo poderia ter sua liberdade revogada. O domínio do senhor, antes real, tornava-se virtual.

Essa cultura da manumissão demarca a inferioridade intrínseca do negro, até quando liberto. A liberdade concedida pela manumissão, devido seu caráter movediço - mesmo que raríssimas fossem as revogações das promessas de alforria -, estabelece novos mecanismos de produção de patronagem, reiterando, assim, o status quo esclavagista.

Vejamos o depoimento de Mahommah Gardo Baquaqua:

"Depois de algumas semanas, ele me despachou de navio para o Rio de Janeiro onde permaneci duas semanas até ser vendido novamente. Havia lá um homem de cor que queria me comprar mas, por uma ou outra razão, não fechou o negócio. Menciono esse fato apenas para ilustrar que a posse de escravos se origina no poder, e qualquer um que dispõe dos meios para comprar seu semelhante com o vil metal pode se tornar um senhor de escravos, não importa qual seja sua cor, seu credo, ou sua nacionalidade; e que o homem negro escravizaria seu semelhante tão prontamente quanto o homem branco, tivesse ele o poder."

Por estas e por outras, é que eu nunca levei muito a sério o nome de Almoçageme. Descarado nome de uma localidade no concelho de Sintra, onde nunca houve mesquita alguma e que nem por isso deixaram de a batizar com o topónimo resultante de al-masjid ou al-mesijide, que em árabe significa precisamente “a mesquita”.

 2024 06  22

Gravura - Book cover of Baquaqua's memoirs, published in 1854

terça-feira, 19 de março de 2024

Carlos Coutinho - Dá que pensar



* Carlos Coutinho

2024 03   PASSOU há dias pela Gulbenkian, em Lisboa, o corajoso historiador David Eltis que veio apresentar-nos o seu livro estarrecedor “Atlas do Comércio Transatlântico de Escravos”, o que prova que já há norte-americanos que não ignoram nem ocultam parte alguma do comportamento humano. 

   Escrito em coautoria com outro norte-americano, o historiador David Brion Davis, recentemente falecido, este livro revela números que dão para pôr um morto aos saltos na cova. 

   Nos 366 anos do tráfico legalmente admitido, ou seja, entre 1501 e 1867, atravessaram o Atlântico nada menos que 12 500 milhões de escravos, num dos “maiores crimes contra a Humanidade”. 

    Chegaram ao continente americano apenas uns 11 700 milhões, porque foram despejados para a água, por terem falecido durante a agrilhoada viagem, mais de 800 mil africanos, mercadoria maioritariamente transacionada no Golfo da Guiné por negreiros portugueses e espanhóis.

   Estive há anos num entreposto cabo-verdiano que foi assaltado algumas vezes por Sir Francis Drake e por outros corsários legalizados, franceses e holandeses. Trata-se de um espaço agora monumentalizado que fica na Cidade Velha, Ilha de Santiago. 

   Esse comércio hediondo, que também teve práticas generalizadas, embora muito menos lucrativas, em quase todo o resto do mundo,  rendeu tanto à coroa imperial ibérica que o rei Felipe II de Espanha e I de Portugal pôde importar da Itália cargas e cargas do branquíssimo mármore de Carrara para construir, ao lado do hipermercado de negríssimos escravos, uma basílica espaventosa que agora está em ruinas, mas ainda recebe sem qualquer relutância os turistas estrangeiros, mostrando-lhes até os muitos lagartos e relas que se refugiam na sombra escassa que há entre os arbustos. 

   Na presente versão portuguesa, este atlas macabro, com tradução de Helder Gregués e chancela da Universidade de Lisboa, estão 189 mapas criados a partir de mais de 30 mil viagens de navios negreiros onde Portugal surge como um dos grandes protagonistas do crime, ao lado da Espanha e, mais tarde, também da Grã-Bretanha, da Holanda e da França, etc., todos “ligados â geografia”, ou seja, “à mistura e colisão de povos, culturas e imperativos económicos pela ganância, império, correntes oceânicas e desejo de converter os corpos  dos humanos em culturas comerciais”.

   Convenhamos que esta é uma forma um pouco arrevesada de trazer à baila o assunto, mas salta à vista que não lhe falta a razão.

   É pena faltar o ponto que localizaria Cabo Verde neste mapa, o sítio em que está escrito 1560 - 1866

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

António Jorge - Como desapareceram os negros na Argentina

 

* António Jorge

Um conto cruel feito por uma mulher, médica argentina, sobre como desapareceram os negros na Argentina…

- E que tanto quanto sei… no essencial, bate certo com a história real!

Parte II do texto hoje publicado com o titulo:

- O Mundial do Catar, e o catar da história… o preconceito e o racismo

Á medida que eu, ia assistindo a um jogo de futebol pela TV, entre a Argentina e a Islândia, e que eu… ainda hoje, me pergunto, porque não havia jogadores negros na equipa da Argentina, quando as outras equipas sul-americanas todas tinham jogadores negros e outros mestiços de africano, lembrei-me de uma conversa que tive no ano passado.

- Foi enquanto eu estava num cruzeiro na Florida, às Ilhas Grand Cayman do Caribe, entre mim e uma médica argentina.

Conhecemo-nos durante um almoço no barco, um certo dia e ficamos na conversa. Ficamos amigos e muito ligados para sempre.

No convés do navio naquele dia, ela manteve comigo uma conversa sobre como ela gosta gente da etnia africana… e que gosta de viajar por esse motivo também.                          - Perguntei-lhe então. "Vocês não têm negros na Argentina?" Ela respondeu-me e disse sem reservas. "Não. Há muito tempo atrás, após a escravatura, matamos todos eles." Eu fiquei surpreso.

Ela sorriu… E continuou. É uma história muito ruim. Estou com vergonha do meu povo. Foi de facto muito sistemático o extermínio deles. Muito bem elaborado. Primeiro foi forçar a maioria dos homens para lutarem pela Argentina contra o Paraguai. Eles conscientemente enviaram-nos para as batalhas que eram mal planeadas e mal armados intencionalmente, para que o exército paraguaio fizesse deles o que eles não poderiam fazer por razões obvias:   - Matar os negros em massa. A maioria deles morreu lá na guerra. Os restantes deles foram forçados a viver numa província atingida por uma praga.

Uma doença que o governo se recusou a combater para que esta também pudesse fazer por eles… o que eles não poderiam fazer, Matar os negros.

A Argentina recusou-se a montar hospitais, clínicas e abrigos condignos, e mesmo dar os  alimentos.

Recriaram o melhor ambiente para a doença se propagar. Está doença matou o resto dos homens que sobreviveram à guerra. Quanto mais escuro você é, maior era a chance de ser enviado a esse lugar para morar ou para morrer na guerra. As mulheres de tez mais clara eram forçadas a dormir com o homens brancos, para que seus filhos fossem mestiços, e depois estes forçados, quando adultos, a dormirem com homens brancos, de modo a que os os traços da pele negra das crianças se tornassem cada vez mais branca, até que não fossem mais visíveis quaisquer sinais de origem de negritude. Foi tão ruim que os negros fugiram para o Chile, Peru, Bolívia e Brasil e até mesmo para o Paraguai onde eram melhor tratados… Pelo menos aqueles não os queriam matar e aceitavam-nos e davam-lhes proteção, trabalho e um meio de sustento.

Com efeito, no Chile, havia uma cidade chamada, Arica onde os negros eram aceites e respeitados, e que, no ano 1700 dois negros, homens livres, um feles chamado Anzuréz, foram eleitos prefeitos. Mas os colonos brancos vindos de Espanha, seis meses mais tarde… anularam as eleições. Eles temiam que outras cidades dessem aos negros os mesmos direitos. - Mas os negros que tinham encontrado protecção não reclamavam, mandavam mensagens para os outros fugirem da Argentina e virem juntar-se com eles… o que era ou representava o cancelar eleições em comparação com a morte certa?

"Em seguida… a senhora argentina e médica, ficou em silêncio, como se a tentar reproduzir novamente a magnitude dos crimes guardados em sua mente. De seguida, ela continuou num tom sombrio." os argentinos não só matavam através da guerra ou das doenças, pelo estupro e a violação…  forçavam os negros à fuga do país… e foi assim  que se livraram dos negros.

"Ouvi com atenção e tristeza. Ela continuou de forma académica" Embora a escravatura tenha sido abolida em 1815 na Argentina, continuou até 1853, depois do qual a principal preocupação dos líderes foi como se livrarem dos escravos negros e seus descendentes.

- “O nosso presidente que governou de 1868 a 1874, Domingos Faustino Sarmiento, escreveu em seu Diário em 1848, este foi muito antes de ele ter-se tornado presidente e quando a escravidão terminou, que nos Estados Unidos ... 4 milhões são pretos, e dentro de 20 anos serão 8 milhões .... O que deve ser feito com tais negros, odiados pela raça branca?" 

Isto mostra como ele já estava pensando, como eliminar os negros antes de se tornar presidente… e, quando ele se tornou presidente, ele conseguiu. "o mundo não disse alguma coisa? " Não… nada - Eles ignoraram.

Tenho a certeza que a maioria deles queria fazer a mesma coisa que foi feita na Argentina, mas falharam.

Naquele tempo, eles admiravam-nos. Lembro-me quando eu fui para o Brasil quando ainda criança, o amigo do meu pai a dizer com desgosto, como ele olhava para os pretos brasileiros - Nós deveria-mos ter a vossa coragem e extermina-los a todos eles.

Façam um Brasil branco como o fez a Argentina. "E os europeus? "Ela riu."

Isto é um segredo, assim como o Rei Leopoldo da Bélgica e seu genocídio de muitos milhões de africanos no denominado Congo Belga… atual Congo.

Ninguém fala sobre ele, e os seus crimes bárbaros, mas eles sabem sobre isso. Pelo menos os mais velhos sabem. Os mais jovens não tanto. Por que você acha que quase todos os nazis da Alemanha, correram para a Argentina após a 2ª. Guerra Mundial?

"Eu permaneci calado. Ela continuou." Porque este era o local perfeito para o mais atroz dos racistas viver. "Então ela olhou para o infinito do mar azul ao redor do navio e suspirou audivelmente.

Importante:

- Da mesma forma do Brasil, a Argentina passou pelo mesmo processo de escravidão. O país foi povoado por negros oriundos do continente africano,  tanto que, em meados de 1780, a sua participação chegou a ser de  50% da população e agora em 2012, passou em menos de 200 anos, para cerca de 3%.

Depois dos Estados Unidos, que foi a ex. colónia da Inglaterra, a que mais emigrantes europeus recebeu, foi a Argentina, então colónia espanhola, a segunda colónia a receber mais emigrantes europeus, nomeadamente espanhóis e argentinos.

2022 12 20 - António Jorge - editor

Porto e Luanda

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Conde de Ferreira: negreiro ou benemérito?, por José Manuel Amarante

* José Manuel Amarante

16 de Junho de 2020, 16:11

A morte de George Floyd em Mineápolis, desencadeou uma onda antirracista internacional, tendo nos Estados Unidos e no Reino Unido, entre outras consequências mediáticas, a decapitação ou destruição de estátuas de esclavagistas ou colonialistas. Em Bristol, no passado domingo, a estátua de Edward Colston, que no século XVII traficou mais de oitenta mil seres humanos, dos quais 15 mil eram crianças, foi derrubada e atirada às águas do porto. Em Londres, foi retirada do local a estátua de Roberte Milligan, comerciante de escravos no século XVIII, para evitar a sua destruição. E entre nós, esta semana, foi vandalizada uma estátua do Padre António Vieira.

Estas acontecimentos, recordaram-me um episódio decorrido há cerca de 20 anos, no Hospital da Ordem do Carmo, quando num sábado de manhã, estando eu a contemplar uma enorme pintura retratando o Conde Ferreira - coberto por um manto vermelho encimado por uma linda gola de pele branca -, enquanto aguardava por uma doente que, mal se aproximou, ao ver-me a olhar para o quadro, exclamou: Grande homem este Conde de Ferreira. De imediato, retorqui: terá mesmo sido um grande homem? Lembrei-lhe que além de benemérito e filantropo tinha sido também um dos últimos traficantes de escravos.

Mas quem foi afinal Joaquim Ferreira dos Santos mais conhecido por Conde de Ferreira? Nasceu em 1782 em Campanhã, no Porto, sendo o quinto filho de uma família de agricultores. Com futuro incerto - na época as terras eram herdadas pelo filho mais velho -, entrou no seminário, tal como um dos seus irmãos, mas cedo o abandonou, para se tornar caixeiro no Porto, aos 14 anos. Emigrou pouco tempo depois para o Rio de Janeiro, em 1800, com uma carta de recomendação de um familiar. Aí se dedicou ao comércio, por consignação, de produtos alimentares enviados de e para o Porto. Mais tarde expandiu os seus negócios a outras áreas, diversificando as ligações comerciais, nomeadamente para Lisboa, Angola e até mesmo para Londres.

Casado, por pouco tempo com a argentina Severa Lastro, adquiriu a nacionalidade brasileira aquando da independência do Brasil. Bem integrado social e economicamente na sociedade do Rio, recebeu de D. Pedro a comenda da Ordem de Cristo (em recompensa de uma beneficência).

Cedo descobriu o rentável negócio que na época prosperava no Brasil: o açúcar e a mão de obra barata, isto é, o comércio de escravos.

Estabelece, para tal, contactos com comerciantes em Luanda, viajando para Angola, aventurando-se no interior de Cabinda para contactar como o régulo local, com o qual viria a estabelecer feitorias nomeadamente em Molembo, tendo em vista o envio de escravos para o Brasil. Tratava-se de uma viagem arriscada que, no entanto, repetiria mais duas vezes até estabilizar o negócio, passando a controlar o tráfico a partir do Rio de Janeiro.

Esta, era uma atividade altamente lucrativa. O barco transportava do Brasil para Angola, entre outras bens, panos, pólvora, ferragens e álcool, regressando repleto de escravos. Calcula-se que tenha transportado de Angola para o Brasil cerca de 10.000 escravos, que vendia a fazendeiros, proprietários de engenhos, recebendo em troca açúcar que posteriormente comercializava com lucros altíssimos.

Após a abolição da escravatura no Brasil, em 1830, esta atividade acabou por lhe trazer grandes contrariedades. Devido ao tratado assinado entre o Brasil e a Inglaterra, aos cidadãos brasileiros estava vedado o tráfego de escravos. Joaquim Ferreira dos Santos viria então a ser acusado de tráfico, tendo passado por problemas judiciais e apodado de negreiro e esclavagista.

Foi sobretudo a humilhação social porque passou o que mais o incomodou, apesar de ter sempre reclamado o escrupuloso cumprimento da lei e inocência.

Por esse motivo acabou por regressou ao país, inicialmente com a intenção de um dia voltar ao Brasil, desembarcando em Lisboa em 1832, onde de novo viveu a experiência do naufrágio (já antes, aquando da sua primeira partida para o Brasil, o navio tinha naufragado na barra do rio Douro).

Instalado no Porto, continuou a fazer comércio com sucesso e a envolver-se progressivamente em atividades sociais, acabando por apoiar ativamente Costa Cabral. Foi nomeado pela Junta Provisória, Presidente da Comissão do Tesouro, empenhando-se a fundo na causa Cabralista. Torna-se Par do Reino em 1842, retomando a cidadania portuguesa. Entretanto foi nomeado Fidalgo, Cavaleiro da Casa Real, membro do Conselho da Rainha D. Maria II, Comendador da Ordem Militar de Cristo, e da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Recebeu a Grã-Cruz da Ordem de Isabel a Católica de Espanha e foi sucessivamente Barão, Visconde e em 1850, Conde.

Faleceu aos 84 anos de idade na freguesia do Bonfim, no Porto, em 1866, sem deixar descendência direta. Doou a sua enorme fortuna, perpetuando assim o seu nome em obras de grande significativo e impacto na sociedade portuguesa.

Entre os beneficiados contam-se muitos colaboradores, parentes, amigos, e várias instituições e fundações de beneficência e utilidade social, como as Santas Casas da Misericórdia do Porto e do Rio de Janeiro (com a obrigação de vestirem 24 e 12 pobres, respetivamente,  no aniversário do seu falecimento).

A outras instituições de beneficência do Porto, tais como as Ordens Terceiras do Terço, da Trindade, de São Francisco e do Carmo - razão da presença aí, da pintura do Conde -, legou avultadas quantias para os respetivos hospitais. Parte do seu legado destinou-se ainda a uma enfermaria no Hospital da Santa Casa da Misericórdia da Cidade do Porto, o Hospital de St.º António, para tratar pelo sistema homeopático vinte doentes pobres e a abertura de um consultório homeopático (há anos o diretor desse Hospital, o Dr. Fernando Sollari Allegro, contou-me ter aí encontrado, aquando da arrumação de um espaço pouco visitado, um livro com a contabilidade do tráfico de escravos).

Doou verbas para o recolhimento de meninos e meninas abandonadas, nomeadamente à Creche das Irmandades dos Clérigos e da Lapa. As Casas da Correção, de Detenção, de Recolhimento dos Velhos e de Recolhimento dos Órfãos e as Fábricas das Paróquias de Campanhã e do Bonfim, foram também contemplados, tendo também legado dotes a 50 meninas (honestas e virtuosas, e que tenham tratado os seus pais com respeito e amor filial). Deixou ainda 30 esmolas a viúvas honestas e 50 esmolas a famílias a quem tenha faltado o chefe ou a pessoa que as sustentava.

Destinou verbas substanciais para a construção de 120 Escolas de Instrução Primária, para ambos os sexos, colocando como condição que as escolas fossem construídas por todo o país, em vilas e sedes de concelho, todas com a mesma planta e com comodidades para os professores para aí residirem. Depois de terminadas, deveriam ser entregues às respetivas juntas de paróquia. As “Escolas Conde de Ferreira”, com um estilo arquitetónico próprio, inconfundível, foram um marco muito relevante na história da educação e do ensino público em Portugal.

Com o remanescente da sua grande herança foi construído e equipado o Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, no Porto, destinado a doentes de foro psiquiátrico, durante vários anos referência nacional na abordagem da saúde mental em Portugal.

Passada em revista a história da vida de Joaquim Ferreira dos Santos, mantém-se a questão que coloquei, nas escadas do Hospital da Ordem do Carmo, frente ao quadro de Conde de Ferreira: Terá o Conde sido um grande benemérito ou um dos últimos negreiros portugueses?

Que enriqueceu no Brasil como negreiro não há dúvidas. Se no final da sua vida emergiu a vertente filantrópica ou se pretendeu redimir-se e “negociar” a paz ou um lugar eterno, nunca o saberemos. De facto, em diferentes momentos, protagonizou ambas as personagens (esclavagista e benemérito).

Está sepultado no cemitério de Agremonte, no Porto, tendo um mausoléu com a sua figura esculpida em mármore de Carrara, por António de Soares dos Reis, o mesmo autor da estátua que se encontra à entrado do Hospital Conde de Ferreira. Seria um terrível contrassenso alguém pensar destruir ou vandalizar estas obras de arte, de um escultor nacional de referência, expostas em espaços reservados e erigidas pouco depois da sua morte.

Citando o historiador Miguel Bandeira Jerónimo: “podemos olhar criticamente com a nossa moral do presente para aquilo que aconteceu há 50 anos, mas não há 200 anos?” Qual o critério?

A meu ver, Conde de Ferreira deverá ser recordado de frente, com toda a verdade, tendo em conta os valores morais e éticos da época em que viveu.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

https://www.publico.pt/2020/06/16/opiniao/noticia/conde-ferreira-negreiro-benemerito-1920759


segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Oleg Yasinsky - La conquista de América en el espejo de estos tiempos


* Oleg Yasinsky

Esta semana pasó con múltiples discusiones, menciones y maldiciones en torno del aniversario de la conquista de América, una fecha en que se desencuentran diferentes miradas y lecturas de los que se sienten herederos de los vencedores, de los vencidos y de una pequeña minoría en vías de extinción que se considera en resistencia. 

Creo que más allá de la constatación del hecho irrefutable de un encuentro entre civilizaciones, agregando a los europeos y a los indios, los descendientes de África y de Asia, sin quienes el actual continente americano tampoco sería posible, un poco de respeto por la verdad histórica nos debería hacer recordar también el peor genocidio en la historia de la humanidad, que fue no solo el exterminio de los pueblos indígenas con sus mundos y sus culturas, incluyendo la bestial esclavización de los negros, sino también el inicio de la vieja tradición europea de cancelar a la civilizaciones enteras, cuando no se entienden, no encajan o no se someten.

Más allá del discurso romántico de los grandes descubrimientos y el reconocimiento de una gran valentía del puñado de hombres que a través de los mares, las montañas y las selvas se abrían paso hacia lo desconocido, sabemos que su principal motivación no dista de la de los conquistadores de hoy: el oro y el poder mundial. Cambiando las pesadas armaduras con cascos por los elegantes trajes con corbatas, estamos viendo que siglos tras siglos seguimos insertos en la misma lógica primitiva de la deshumanización, del saqueo, de la explotación y la destrucción del otro, que la mirada tecnócrata de los mosquetes disparadores de rayos mortales y de los teclados que derrumban o alzan los mercados financieros, no se ha cambiado en lo más mínimo, solo que el lugar del loro en el hombro del pirata de entonces hoy lo ocupa un intelectual de izquierda para repetirnos su mantra preferido sobre 'la economía social del mercado'.

La relación es directa.
No olvidemos que justamente el 'descubrimiento' (entre comillas) y el saqueo (sin comillas) del continente americano hicieron posible la industrialización de los imperios europeos y su rápido y seguro salto al capitalismo

Con el pasar de los siglos, los imperios no dejaron de ser tales, todo lo contrario. Pero aprendieron y siguen aprendiendo a imponer sus intereses con una mayor eficiencia; las invasiones de los conquistadores, los piratas o los marines a los países desobedientes son reemplazados por el financiamiento de la prensa opositora y la aplicación de las sanciones económicas. Las ejecuciones financieras no generan tanta indignación entre los defensores de los derechos humanos, aunque sus víctimas sean los pueblos enteros. Las redes sociales llegan a ser más eficientes que los tanques de guerra y las pantallas de televisión más destructivas que los misiles. Las masacres son cada vez más fotogénicas y la prensa es cada vez más dócil. Todo este cuadro, el más obvio, es el que describe el lado de los opresores.

Miremos hacia la parte más interesante y compleja: a los oprimidos, que se supone ya están cambiando sus arcos y flechas por otras armas que les (nos) permitan recuperar algo de esperanza para reconquistar las tierras y los cielos robados. Miremos hacia abajo.

Los pueblos indígenas de América no solo sufrieron la peor 'cancelación' cultural y exterminio, antes cazados como animales y hoy convertidos en extranjeros en sus propias tierras, sino que también, a pesar de todo, supieron salvar sus culturas y sus lenguas, el conocimiento prohibido junto con el sueño inconcluso se entregaba de generación en generación, junto con la sabiduría de vivir en armonía y equilibrio, dentro de los ciclos naturales de nuestros soles y nuestras lunas, sacando las fuerzas de los vientos y las lluvias y cuidando a la Madre Tierra. Pero el mejor aprendizaje de los pueblos indígenas ha sido su arte de resistencia.

Cuando los partidos políticos se envejecían y transaban con el poder, mientras sus líderes se vendían o se regalaban a sus enemigos históricos, lejos de las cámaras televisivas y en lugares remotos, de tan pocos votantes que nunca vale la pena invertir las limosnas y las promesas, las comunidades indígenas, sin ilusiones de ningún tipo, ya que desde hace siglos lo han perdido todo, se estaban organizando

Mucho antes que nosotros ellos entendieron que en esta guerra de exterminio, la que fue toda su historia dentro del 'mundo civilizado', su única manera de sobrevivir y resistir era organizándose. Aparte de las lenguas ellos conservaron otras cosas valiosas: los valores comunitarios y la costumbre de trabajar en colectivo, elementos peligrosos e incompatibles con el capitalismo. Por ejemplo, eso de no querer vender la tierra porque es madre, es sagrada, que allí están los huesos de los ancestros y esa subversiva idea de que la tierra no nos puede pertenecer porque somos nosotros los que pertenecemos a ella, porque la tierra es como el aire, como el agua como el fuego, como la memoria.

El siglo XXI se anticipó el 1 de enero de 1994 con la rebelión armada zapatista en el estado Chiapas, en el sur de México. Se cumplía la promesa maya del fin del mundo, que en realidad fue el fin de un mundo, para abrir la puerta a los nuevos mundos que nacen. Lo nuevo nacía contra 'la tradición' y contra 'el progreso', contra las biblias revolucionarias y contra las prédicas del fin de las luchas, contra el pelo de la historia, para construir un nuevo sueño de la sociedad humana con suficiente espacio para todos. Luego en Bolivia, Ecuador, Colombia y Chile, con una fuerza inusual e inesperada, surgieron otros movimientos indígenas, en su gran mayoría sin resentimientos ni victimizaciones, sino con una claridad de esta sabiduría ancestral integradora, planteando las posibilidades de la construcción de un futuro entre todos, indígenas y no indígenas, sin violencia, respetándonos en las enormes diferencias de nuestros modos y creencias y construyendo entre todos otra democracia, por fin, la verdadera, la comunitaria, participativa, donde el poder no puede ser fuente de riqueza y de ningún tipo de privilegios.

Los movimientos indígenas de las últimas décadas, independientemente de su masividad e influencia, en muchos casos bastante modestos respecto a la totalidad de la población de sus países, sin embargo suelen representar la fuerza política más madura y consecuente; mientras más los partidos y los 'gobiernos progresistas' se acomodan dentro de la lógica capitalista, los indígenas refuerzan una mirada totalmente distinta: la defensa de los valores colectivos, un rechazo total a la lógica depredadora del sistema dominante y la resistencia a las corporaciones transnacionales que invaden hasta los lugares más remotos, destruyendo todo a su paso. Todo esto los convierte igual que hace 500 años en el principal y el más peligroso enemigo de los conquistadores, que esta vez vienen no solo por el continente Americano, sino por todo el mundo.

En el espejo de la historia de América ahora vemos al planeta entero
Los que en estos días anulan y satanizan culturas completas están repitiendo lo mismo que sus antepasados hace solo unos cuantos siglos, los que negaban la posibilidad de que los indios tuvieran alma. Las guerras por el oro de entonces se disfrazaban de 'la necesidad de traer la fe y la civilización' a los ignorantes salvajes, exterminándolos y esclavizándolos. Hoy la lucha por el gas, el petróleo y el resto de recursos naturales se presenta como acciones 'en apoyo de la democracia y de los derechos humanos'. Los que cuestionan, resisten o por lo menos dicen abiertamente lo que piensan, igual que ayer, son declarados enemigos de la civilización y la democracia.
Por eso en las grandes oficinas del sistema desde hace un poco más de 500 años siguen colgadas intactos los mapas de la conquista.

Las declaraciones y opiniones expresadas en este artículo son de exclusiva responsabilidad de su autor y no representan necesariamente el punto de vista de RT.

 Russia Today 2022 10 17



Gravuras da responsabilidade de Victor Nogueira
https://actualidad.rt.com/opinion/oleg-yasinsky/445013-conquista-america-espejo-estos-tiempos

domingo, 6 de junho de 2021

João Pedro Marques - “Os escravos ainda têm de agradecer a alguns brancos”

 

DIA DE PORTUGAL

* João Pedro Marques 

João Pedro Marques, historiador, acredita que Portugal não é um país racista

TEXTO CHRISTIANA MARTINS E HENRIQUE MONTEIRO

Polémico, não receia confrontar os afrodescendentes ao dizer que foram os brancos que defenderam o fim generalizado da escravatura no mundo ocidental.

Que alternativa havia no século XVI ao modelo de colonização português?

A escravidão não desapareceu da Europa com a queda do Império Romano. Os escravos vinham trazidos pelos mongóis. Eram brancos. No século XIII, com as Cruzadas, os ocidentais conheceram a produção açucareira na Terra Santa e associaram-na à exploração intensiva da mão de obra. Esse modelo foi passando para o Ocidente: Chipre, Creta, Sicília, sul de Espanha e Portugal, que já tinha escravos mouros. E há uma coincidência infeliz para os africanos: o momento em que Portugal avança na costa africana e contacta com as populações subsarianas, é o mesmo em que se interrompe o fornecimento de escravos do Oriente e a necessidade de mão de obra é respondida pela disponibilidade que encontram em África, onde há muito havia escravatura interna.

A escravatura anterior à expansão normaliza o tráfico negreiro?

Sim, há jurisprudência e pensamento filosófico sobre a relação entre escravos e senhores, a posse da pessoa e da sua prole: escravo é alguém que não tem posse sobre si próprio.

Este pedido de desculpas é uma alavanca política

Porque Portugal beneficiou da ideia de um colonialismo “português suave”?

Em Angola, os portugueses estabeleceram-se com relações de proximidade, houve uma africanização. No século XV havia quem, para fugir à justiça real, saísse dos navios para a costa de África, eram os “lançados”, que viviam nas comunidades locais, casavam com mulheres poderosas e serviam de intermediários com os portugueses que iam comprar escravos. Depois, Gilberto Freyre desenvolve a ideia da propensão dos portugueses de se ligarem aos locais. É muito diferente da relação com os alemães ou os belgas, que chegam tardiamente, no final do século XIX, e trazem uma ideia de extermínio.

A abordagem distinta não ilude a presença de violência?

Claro que não. O racismo na segunda metade do século XIX é uma teoria e uma convicção em crescimento; as pessoas acreditam que o negro é um ser inferior, alguém que só a pancada será possível civilizar e fazer trabalhar. À época colocou-se um problema moral, filosófico e jurídico. Perguntava-se quem eram aquelas pessoas e supunha-se que eram condenados, pois os potentados negros vendiam-nos como adúlteros e ladrões, mas não havia meio de os brancos saberem.

A elite portuguesa preocupava-se em promover a libertação?

Pouco, porque Portugal começou tarde e foi perro no caminho abolicionista. Quando Sá da Bandeira consegue passar mais leis tendentes à libertação da escravidão, já havia um refluxo da maré. Nos meados do séc. XIX começou a fixar-se a convicção de que o negro era mandrião. Já não era possível manter a escravidão por razões morais, mas defendia-se uma tutela paternal que obrigasse os vadios, como eram chamados, a trabalhar. Quando Portugal aboliu a escravatura, parte da elite tinha a convicção de que teria de ser substituída pelo trabalho forçado, o que acontece em 1870.

O abolicionismo em Portugal vem acompanhado pelo racismo?

Não, o abolicionismo do fim do século XVIII não tem uma visão racista, mas no século XIX, com a desilusão e o desenvolvimento das teorias racistas, uma coisa engrena na outra.

Nas colónias portuguesas houve um sentimento abolicionista?

Não. Luanda, um grande porto exportador de escravos durante séculos, não teve nenhuma revolta escrava. Os escravos reagiam de várias formas à condição horrível em que viviam. Se pudessem, fugiam e formavam quilombos. Às vezes revoltavam-se, mas não eram contra a escravidão, apenas contra a sua própria escravidão. Muitas vezes negociavam escravos para obter armas e pólvora. Em África não há vestígios de líderes ou pensadores abolicionistas naquela época. É uma ideia ocidental.

Esta narrativa é rejeitada pelos afrodescendentes.

A história está a ser falsificada. Essa narrativa visa dar às comunidades negras elementos de identificação e orgulho. Mas não é história: é ideologia.

Criou-se uma situação em que o negro não pode ser criticado porque é racismo

A singularidade ocidental está em ter acabado com a escravatura e condenar o racismo como algo desumano?

Sim. O que é específico deste sistema foi ter colocado um fim à escravatura. Não é simpático dizer que os escravos ainda têm de agradecer a alguns brancos.

Então não coloca a questão do pedido de desculpas histórico?

Não faz sentido. Em primeiro lugar porque era aceite pelas duas partes, a que vendia e a que comprava. E porque só foi considerado um crime a partir do século XVIII. Temos de ir devagar. Por isso, só entidades sem responsabilidade direta o podem fazer, como o Papa.

A culpa não é uma herança?

Este pedido de desculpas é uma alavanca política para se pedir o ressarcimento material. É preciso dizer-lhes que não são vítimas nem herdeiros da escravatura: esses estão no Brasil. Os que estão cá descendem no máximo de quem vendeu os escravos. Criou-se uma situação em que o negro não pode ser criticado porque é racismo.


https://expresso.pt/sociedade/2021-06-06-10-de-junho.-Os-escravos-ainda-tem-de-agradecer-a-alguns-brancos-diz-Joao-Pedro-Marques-3ac5966d



terça-feira, 27 de abril de 2021

Fernanda Câncio - Marcelo e o Portugal mais que imperfeito

* Fernanda Câncio

Em 2017, oito alunos de história do 12.º ano do Liceu Camões aceitaram falar com o DN sobre a forma como viam o passado imperial e colonial português. Para estranheza da própria professora, a maioria reproduziu o mito de que Portugal foi pioneiro na abolição da escravatura, em 1761 (altura em que foi abolida a escravatura apenas no território de Portugal "metropolitano" e mesmo assim não completamente). Do mesmo modo, quando questionados sobre o que sucedera aos escravos depois de em 1869 se ter dado a oficial abolição da escravatura em todos os territórios nacionais, muitos ficaram interditos. Um afirmou: "Então, deram-lhes o estatuto igual aos das outras pessoas."

Não é espantoso. A maioria esmagadora dos portugueses, atrevo-me a dizer - eis uma sondagem que gostava de ver - continua a achar que "fomos os primeiros a abolir" e desconhece totalmente o facto de à escravatura dos negros se ter seguido o trabalho forçado, só formalmente abolido em 1962. Essa realidade do trabalho forçado, que em pouco se distinguia da escravatura, atravessou o final do século XIX, a Primeira República e praticamente todo o Estado Novo. Nas leis, os negros classificados como "indígenas", ou seja a maioria da população de Moçambique, Angola e Guiné, eram excluídos da cidadania e tratados como sub-humanos - constatação que o próprio regime salazarista fez através dos seus documentos internos, como demonstra o historiador José Pedro Monteiro em Portugal e a questão do trabalho forçado (Edições 70, 2018).

A esmagadora maioria dos portugueses, dizia, desconhece estes factos, e desconhece-os não porque eles não estejam amplamente estudados por gerações de historiadores e investigadores académicos, com vasta obra publicada sobre a matéria, mas porque disso pouco tem passado quer para a discussão pública quer, o que é fundamental, para aquilo que se aprende na escola e se lê nos manuais do ensino básico e secundário. E não passa porque haja uma determinação consciente e malévola de mentir, mas porque coletivamente nos apegámos à mistificação.

O problema não é, ao contrário do que se possa crer, exclusivo de pessoas "pouco cultas". Ainda há poucos meses um reputado constitucionalista português me asseverava que o "nosso" regime colonial não foi racista. Quando lhe retorqui com alguns factos básicos - nomeadamente a instituição do trabalho forçado e a lei do indigenato - respondeu-me "era assim também nos outros países". Só ficou sem argumentos quando lhe lembrei que data de 1930 a convenção da Organização Internacional do Trabalho - só ratificada por Portugal em 1956, com prazo de cinco anos para aplicação - obrigando os signatários a acabar com o trabalho forçado no mais curto prazo possível, e que os próprios relatórios dos funcionários coloniais portugueses comparavam, até ao final dos anos 1950, a realidade do trabalho forçado à da escravatura, descrevendo castigos corporais com chicote e grilhetas e chegando a dizer que o primeiro era pior que a segunda, já que nesta ao menos o dono não estava interessado em matar o escravo já que pagara por ele, enquanto no trabalho forçado tanto lhe fazia: se morria pedia outro.

A ideia de que "não se pode olhar para a realidade do passado com os olhos de hoje", tão usada a propósito da história imperial e colonial portuguesa, soçobra perante a evidência de que estamos também a falar de coisas que se passaram há menos de 100 anos, quando outros países ocidentais já tinham iniciado a descolonização e quando eram muitas as vozes, inclusive em Portugal e nas colónias, a criticar - e a lutar contra - o que se passava. Muitos dos olhos de então já olhavam aquela realidade como a olhamos hoje, como iníqua, ilegítima e brutal.

E sim, vem todo este grande introito a propósito do discurso de Marcelo neste 25 de abril - um discurso notável, talvez o melhor que já lhe ouvi, e no qual teve a inteligência de sublinhar a sua condição de filho do último ministro das Colónias e de um dos últimos governadores de Moçambique, testemunha privilegiada (em vários sentidos) do ocaso do império e da ditadura colonial.

Esta assunção da sua condição pessoal - que aliás repetiria a seguir num encontro com capitães de Abril e jovens, no qual também fez um discurso muitíssimo interessante - tem um propósito mais ou menos claro: o de demonstrar, e bem, que o 25 de Abril é simultaneamente rutura e continuidade. Como ele, filho de um alto dignitário da ditadura que faria parte da Assembleia Constituinte de 1975 e acabaria duas vezes eleito presidente da democracia, os militares que fizeram o golpe "não vieram de outras galáxias, nem surgiram num ápice daquela madrugada para fazerem história. Traziam já consigo a sua história." E a sua história eram "as suas comissões em África, uma, duas, três, até quatro, (...) tudo em situações em que a linha que separa o viver ou morrer é muito ténue."

Eram pois os soldados do regime colonial, algozes, ocupantes, matadores, até serem os heróis da libertação. Sabemo-lo, ou devemos sabê-lo - mas saberá Marcelo distinguir entre quem retirou dessa experiência a deliberação de acabar com ela e quem, como Marcelino da Mata, a cujo enterro foi há meses como presidente, ou seja em nome de todos nós, se gabava dos seus crimes nessa guerra e louvava a ditadura?

É que esse é o problema: distinguir. E Marcelo, como a maioria esmagadora dos políticos da democracia, sejam como ele filhos de homens da ditadura ou como António Costa de oposicionistas, têm mostrado dificuldade nessa distinção e nesse olhar para trás, na capacidade de traçar a linha entre o que é admissível e até celebrável e o que deve ser censurado - porque é preciso dizer que houve coisas censuráveis e criminosas, por mais que tenham feito parte de um contexto.

Daí que seja tão bem-vinda a exortação do presidente para "que se faça história, história da história, que se tirem lições de uma e de outra, sem temores sem complexos", o reconhecimento de que "é prioritário estudar o passado e nele dissecar tudo, o que houve de bom e o que houve de mau. (...) Que saibamos fazer dessa história lição de presente e de futuro. Sem álibis nem omissões (...)."

É isso mesmo. Ou seria, se a seguir não acrescentasse: "É prioritário assumir tudo, todo esse passado, sem autojustificações ou autocontemplações globais indevidas nem autoflagelações globais excessivas (...) nem apoucamentos injustificados." É de novo a preocupação com "a visão auto flageladora da nossa história" que vimos recentemente em António Costa, preocupação extraordinária num país que até hoje se encarniça em negar "o que houve de mau" ou chega mesmo a celebrá-lo; preocupação contraditória num discurso presidencial que nos diz que temos de olhar a história também "pelo olhar dos colonizados".

Olharmo-nos pelo olhar dos "descobertos", dos submetidos, dos colonizados e dos seus descendentes não é só dizer que "nunca houve um Portugal perfeito" - a melhor frase do discurso do presidente. É sobretudo reconhecer o que desse passado mais que imperfeito resta em nós como país, denunciá-lo e combatê-lo. Aquilo, suspeito, a que Marcelo chama "excesso".

Jornalista

NOTA:

Na semana passada, escrevi sobre o Primeiro Plano Nacional Contra o Racismo e o ensino de história no básico e secundário, sob o título Implodir o padrão dos descobrimentos. Cometi erros no que escrevi e fui para isso alertada pela Associação dos Professores de História, por via de um email do seu presidente, Miguel Monteiro de Barros, pelo que me apresso a corrigir, agradecendo a retificação, que foi também colocada no artigo em questão.

Nesse artigo, lê-se: O programa de história do básico e secundário não mexe desde 2002 - ou seja há praticamente 20 anos. A responsabilidade pelos programas, como pela aprovação dos manuais, é das associações de professores - neste caso os de história; os governos limitam-se a homologar. É pois importante saber como a Associação dos Professores de História tenciona pôr em prática o plano de combate ao racismo na sua disciplina; como pensam contribuir para desfazer estereótipos e complexificar a visão romantizada dos "descobrimentos" e daquilo que se lhes seguiu, exorcizando a ideia verdadeiramente insultuosa de que o colonialismo português "não foi racista".

A APH retifica: "O documento curricular de referência já não são os programas, mas as Aprendizagens Essenciais (AE), elaboradas pela Associação de Professores de História, após consulta pública, e homologadas pela DGE (Direção Geral da Educação). O processo de elaboração das AE iniciou-se em 2016, tendo estas sido homologadas em 2018. Esta foi a primeira vez que a Associação de Professores de História foi parceira no processo de elaboração de um documento curricular basilar, nunca antes participou na elaboração de qualquer programa disciplinar, apenas foi consultora."

Parte do erro deveu-se ao facto de me ter baseado na informação que tinha recolhido em 2017 para um artigo sobre os programas e manuais, não me tendo dado conta de que entretanto (em 2018) tinha havido alterações.

Mais uma vez baseando-me nessas informações recolhidas em 2017, afirmei também no referido artigo de opinião que os manuais escolares eram aprovados (querendo dizer certificados) pela APH. Esta nega: "A Associação de Professores de História, tal como acontece com os programas, não possui quaisquer competências para "aprovar manuais". As editoras editam os manuais, sendo estes certificados, atualmente, por centros de certificação existentes em diversas universidades e institutos politécnicos, designados pela tutela. A Associação de Professores de História não tem nada a dizer sobre o assunto."


https://www.dn.pt/opiniao/marcelo-e-o-pais-mais-que-imperfeito-13614976.html