Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Miguel Sousa Tavares - Sinais de fogo
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Daniel Oliveira ~ Smart Glasses are watching you!
* Daniel Oliveira
Os óculos inteligentes da Meta, que gravam sem se notar, são o novo negócio assente na erosão de um luxo que a humanidade levou séculos a conquistar e está a morrer: a privacidade. Já não é o Estado quem nos vigia, mas quem lucra com os nossos dados.
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Dilara,
de 21 anos, estava na hora de almoço quando um homem puxou conversa e a filmou.
O vídeo foi parar ao TikTok, chegou a 1,3 milhões de visualizações e incluía o
número de telefone dela. Foi inundada de chamadas e mensagens, e chegou a ter
homens desconhecidos a aparecer no seu local de trabalho. Denunciou o vídeo ao
TikTok e a resposta foi que não tinha sido encontrada "nenhuma
violação". Kim,
de 56 anos, foi filmada numa praia, numa conversa em que partilhou pormenores
sobre a entidade patronal e a família que nunca teria revelado se soubesse que
a câmara estava ligada. O vídeo ultrapassou os 6,9 milhões de visualizações no
TikTok e recebeu mais de 100 mil gostos no Instagram, e Kim descreveu sentir-se
"como um pedaço de carne". Nenhuma das duas consentiu.
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Daniel Oliveira - Os Estados Unidos eram mesmo um modelo de democracia?
* Daniel Oliveira
"A shining city upon a
hill." Era assim que os Estados Unidos se viam e queriam que o mundo os
visse — um modelo, um farol, uma democracia exemplar. Durante décadas, o mundo
acreditou. Trump não criou as fragilidades que esta narrativa escondia. Mas
tornou impossível continuar a ignorá-las. Um exercício de memória e de factos
sobre o maior mito político do século XX
"City upon a hill." A
expressão vem de um sermão de 1630, antes ainda de existir nação. John Winthrop
usou-a para descrever uma comunidade cristã exemplar. Ronald Reagan
ressuscitou-a, acrescentou-lhe “shining” e transformou-a em marca geopolítica: os
Estados Unidos como farol do mundo livre, modelo que os outros deviam imitar.
Durante décadas, o mundo — e os próprios americanos — aceitou a narrativa com
uma deferência que raramente se concede a outros países. Havia razões para
isso.
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Miguel Sousa Tavares - A ‘selenação’: um fado lusitano
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Daniel Oliveira - Arrábida: a areia que sobra
* Daniel Oliveira
A polémica dos
chapéus de sol em frente às concessões foi só um episódio de uma guerra que mal
começou. A praia é um dos últimos redutos de propriedade pública disponível
para todos. Num país que fez do litoral um resort para não residentes, em que a
praia deve ser exclusiva, o domínio público marítimo é visto como um obstáculo
económico. Na Arrábida, a família Mirpuri foi a tribunal reclamar cinco praias.
Se não resistirmos, a areia que é nossa pode não sobrar por muito tempo
Durante anos,
milhares de portugueses chegaram à praia, olharam para a frente das concessões
privadas e pensaram: "Aqui não posso pôr o chapéu." A feliz surpresa
veio quando o presidente da APA classificou como "abuso" a proibição
de colocar chapéus de sol em frente às concessões. Este braço de ferro é o
mesmo que se trava um pouco por toda a costa: entre a
pressão privada para retirar à maioria o que é de todos e a resistência de uma
instituição pública que os portugueses parecem valorizar mais do que qualquer
outra.
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Daniel Oliveira - Imigração: foi a economia, estúpido!
* Daniel Oliveira
(Expresso 2026 06 29)
Foi a economia,
mais do que a lei, que determinou as oscilações migratórias. Mesmo assim,
envelhecemos e a população ativa só cresceu graças aos imigrantes. A questão
não é se 14% é demais. É o que seríamos sem eles. Pressionam serviços públicos
porque os preparámos para o deserto demográfico. Recebemos imigração pouco
qualificada e desintegrada porque é isso que o modelo económico extrativista e
com pouco valor acrescentado absorve. A questão não é quem entra. É mudar o que
o país oferece. A eles e a nós
A mudança de
metodologia usada pelo INE pôs fim ao apagão estatístico. Portugal terá
11,4 milhões de residentes, 1,6 milhões estrangeiros — 14% da população total.
Entre 2021 e 2025, a população estrangeira mais do que terá duplicado. E
atingimos um número de habitantes surpreendente. Como estes números obrigam a
rever indicadores como camas hospitalares por habitante, professores por aluno,
contribuintes por beneficiário da Segurança Social (sobre o impacto que isto
tem no PIB per capita e a metodologia usada, aconselho a leitura do texto de
Susana Peralta) e toda a política pública, devem ser escrutinados para alem do
mero debate político. Como o presidente do INE explicou, não é fácil
contabilizar as saídas para o espaço Schengen (que terão sido
significativas). Ainda assim, será o estudo mais robusto feito até agora.
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Daniel Oliveira- Trump perdeu a guerra
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Daniel Oliveira - O trilionário que promove pogroms
Opinião
As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional nas mãos de milionários, onde paramilícias encontram uma nova logística para os seus pogroms. Musk não é um nome lateral no que aconteceu em Belfast. É um dos seus maiores instigadores e promotores. E Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Ou os governos europeus regulam as redes ou podem organizar as exéquias das suas democracias.
Se há cidade europeia que sabe o
que é um motim, é Belfast. Cada bairro tem memória, cada
rua tem um lado, cada muro recorda uma ferida antiga. Por isso, as imagens
pareceram tão familiares. Casas queimadas, lojas vandalizadas, famílias
arrancadas dos seus prédios a meio da noite, um bebé de dois meses
retirado de casa pela polícia, agentes feridos, mais de duas dezenas de pessoas
sem teto. Belfast conhece de cor todas as declinações
da violência sectária. Só mudou o alvo.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Daniel Oliveira - A bebedeira suicida do PSD
* Daniel Oliveira
Montenegro está
a cavar uma crise de identidade no PSD. Sim, pode matá-lo. A Europa
é um cemitério de partidos estruturantes
da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo
para pouca política
11 junho 2026
Ométodo diz da
função. Em poucas semanas, o Governo multiplicou-se em chico-espertices que
sintetizam a carreira da inseparável parelha Montenegro-Soares. A votação da
lei laboral foi marcada para meio do Mundial, para facilitar a negociação com o
Chega, que está mortinho por aprová-la. Uma autorização legislativa sobre a
Prestação Social Única (PSU) retira ao Parlamento o essencial do debate,
impondo a chantagem do risco de perder €620 milhões do PRR por um prazo que o
Governo conhecia há anos. O Chega apresentou a sua proposta de revisão
constitucional, a lei dava um mês para outros o fazerem, mas Aguiar-Branco,
para permitir a negociação com o PSD, não a admitiu e criou o precedente de ser
ele a definir quando começam a contar os prazos. Votar pela calada, chantagear
com urgências fabricadas, dobrar regras que incomodam.
Quanto à
política, depois dos de baixo da imigração, chegou a vez dos de baixo da
pobreza. O padrão é excitar o ressentimento que rende. Na lei da imigração o
Governo recorreu à demagogia das “portas escancaradas” e as primeiras
consequências, segundo notícias, estão a ser a partida de imigrantes de que a
economia depende. Na PSU o alvo mudou, mas a lógica mantém-se. A ideia era,
unificando 13 prestações, simplificar o acesso, reduzir a estigmatização,
tornar o sistema mais legível. O Governo complexificou o acesso, introduziu
novas formas de exclusão e transformou a reforma num instrumento de controlo.
Num país desigual, que gasta em proteção social menos percentagem do PIB do que
a Europa, a pobreza é tratada como um vício de que se suspeita, se vigia e se
pune. Está prevista uma equipa para gerir denúncias de vizinhos sobre quem tem
carro, usa smartphone e pede apoio, nada para mais acompanhamento ou inserção.
E propõe-se trabalho social obrigatório sem qualquer estratégia de
empregabilidade. Só trabalho sem salário, sem direitos, sem contrato, sem
horizonte. Não quebra nenhuma espiral de dependência com formação e acesso a
oportunidades, apenas pune quem nela está.
A política do
ressentimento pode garantir aplausos, mas não constrói um perfil de governo
sustentável. O PSD parece acreditar que, pegando nas bandeiras mais populares
do Chega, disputa os seus eleitores. Só que as pessoas vão aprendendo a farejar
o oportunismo. Quem queria um Governo com a agenda do Chega votou no Chega. Do
PSD esperava resultados na habitação e no SNS, duas das três principais
preocupações dos portugueses, depois da corrupção, onde a imagem também não é a
melhor. A última sondagem para o Expresso exibe o equívoco de Montenegro. Os
eleitores do PSD avaliam o Chega com 2,8 em 10 — pior do que o BE e o PCP (2,9)
e muito pior do que o PS (4,5). E quando se lhes pede uma palavra para
descrever os apoiantes do Chega, 23% escolhem “ameaça extremista”, 41% usam
termos como “fascistas”, “extremistas”, “corruptos” ou “malucos”. Montenegro
está a fazer política para um eleitorado que os seus eleitores consideram uma
ameaça. Há, claro, a possibilidade de o taticismo ser ainda mais retorcido e,
depois do bruaá, recuar na PSU para ter o voto do PS, aprovar a lei laboral com
o Chega e, limitando-se a apresentar o modelo inicial da prestação, dar a ideia
de equidistância. À hora que escrevo não o sei. Sei que é sempre o mesmo:
tática, tática e mais tática.
Costa
desbaratou a maioria absoluta de 2022 porque o cálculo esteve sempre à frente
de qualquer desígnio. O resultado foi o desastre que se seguiu e uma
dificuldade do PS em recuperar os eleitores que perdeu. De tal forma que se pôs
a hipótese de o declínio ser irreversível. Montenegro está a cometer o mesmo
erro, com um taticismo ainda mais desalmado. Só que o contexto é mais instável,
o espaço político à sua direita está em rapidíssima mutação e as consequências
podem ser mais destrutivas. O problema não é apenas estar a governar mal, ao
ponto de, ao fim de dois anos, Carneiro o ter ultrapassado nas sondagens. É
estar a cavar uma crise de identidade no PSD. Conhecemos este filme noutros
países europeus: partidos de centro-direita (e até de centro-esquerda) que
tentaram competir com a extrema-direita no seu próprio terreno acabaram por
perder dos dois lados. E o esvaziamento do PSD é até mais fácil de consumar do
que o do PS: à direita há vários partidos prontos a absorver os fugitivos e o
PS pode facilmente ocupar o centro deixado vago. Ou então o cenário
alternativo, porventura mais perigoso: um Chega com eleitorado sólido e
fidelizado, enquanto PS e PSD se vão esburacando e alternando no poder. Sim,
Montenegro pode matar o PSD. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes
da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca
política.
domingo, 7 de junho de 2026
Daniel Oliveira - Pôr os de baixo na ordem
* Daniel Oliveira
Os debates
sobre imigração, apoios sociais e produtividade foram capturados por uma elite
rentista que naturaliza a desigualdade persistente, prometendo pôr na ordem os
de baixo — imigrantes, pobres e trabalhadores —, enquanto os mobiliza contra os
que estão no degrau inferior da escada classista
04 junho 2026
Aburguesia
nacional fez-se sobretudo pela captura de rendas e pela proximidade ao poder
político. À sombra do ouro do Brasil, dos monopólios coloniais, do
condicionalismo industrial, das privatizações que lhe ofereceram monopólios ou
oligopólios, de fundos europeus desbaratados, de concessões de serviços
públicos. Em cada momento histórico açambarcou valor em vez de o criar. Hoje,
assistimos ao bloqueio a qualquer regulação da transferência massiva de capital
de áreas produtivas para o imobiliário, que não arrisca ou compete. Mas o
rentismo não produziu apenas uma estrutura económica viciada e avessa à
inovação. Produziu uma cultura.
quarta-feira, 27 de maio de 2026
Manuel Cardoso - Passos Coelho não se aposenta, apresenta
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Henrique Raposo - Comunista do interior
Vasco Cardoso - A água suja do anti-comunismo
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Manuel Cardoso - Abril, mágoas mil
Manuel Cardoso - A inaudita guerra da Serra de Carnaxide
quinta-feira, 30 de abril de 2026
Rodrigo Tavares - Ao ler este artigo está a violar os direitos humanos
* Rodrigo Tavares
Professor
catedrático convidado na Nova SBE
A pergunta
decisiva não é se algo é verde ou ético, mas que danos esconde
Não há nenhuma
atividade económica, nenhum produto, nenhuma transação financeira que não gere
impactos negativos para a sociedade ou para o meio ambiente. Nenhuma.
Ao ler este
artigo o caro leitor está a usar um computador ou telemóvel que contem
alumínio, antimónio, arsénico, bário, berílio, bismuto, boro, cálcio, cério,
chumbo, cobalto, cobre, crómio, disprósio, estanho, estrôncio, európio, ferro,
flúor, fósforo, gadolínio, gálio, germânio, grafite, índio, ítrio, lantânio,
lítio, magnésio, manganês, molibdénio, neodímio, nióbio, níquel, ouro, paládio,
platina, potássio, prata, praseodímio, selénio, silício, sódio, tântalo,
telúrio, térbio, titânio, tungsténio, zinco e zircónio. São materiais
provenientes de cadeias mineiras e industriais ligadas a países como Myanmar,
Tajiquistão, China, Rússia, República Democrática do Congo, Gabão, Nigéria,
Bielorrússia ou Zimbabué.
Agora seria
chegado o momento em que eu citaria vários relatórios de ONGs que alertam para
a violação dos direitos humanos na exploração de minérios nestes países.
Bastava esticar o dedo para o Google ou um LLM. Prefiro destacar o livro Cobalt Red de
Siddharth Kara, finalista do prémio Pulitzer, sobre as condições animalescas em
que o cobalto é minerado na República Democrática do Congo. Se o comprar pela
Amazon, aproveite e leia também The Everything War: Amazon’s Ruthless
Quest to Own the World and Remake Corporate Power, escrito por Dana
Mattioli, jornalista veterana do Wall Street Journal e também finalista do
Pulitzer pelo seu trabalho sobre a Amazon.
Continuo? Na
montagem de computadores e telemóveis, a violação de direitos humanos resulta
da pressão contratual exercida pelas marcas sobre fornecedores, através de
preço-alvo, prazos de lançamento e penalizações por atraso. Essa pressão
converte-se em vínculos laborais precários, trabalho suplementar quase
obrigatório, metas horárias extenuantes, controlo punitivo da produtividade e
fraca liberdade sindical, afetando o direito ao trabalho digno, ao descanso e à
associação coletiva. A exposição a soldaduras, solventes, resinas, retardadores
de chama, poeiras metálicas e riscos de baterias de iões de lítio, quando não
acompanhada por ventilação, proteção e vigilância médica eficazes, como
acontece frequentemente, viola ainda o direito à saúde e à segurança no
trabalho.
Não faltam
precedentes. Nas fábricas da Foxconn e da Pegatron, auditorias e investigações
identificaram violações de normas laborais e da lei chinesa. A Samsung viu
tribunais sul-coreanos reconhecerem doenças profissionais associadas à produção
de semicondutores. A Apple tem sido criticada pela distância entre os seus
compromissos públicos de responsabilidade social e a precariedade laboral dos
seus fornecedores. Não há escassez de denúncias. Recomendo o artigo do
Financial Times, “Inside China’s mega iPhone factory: long hours,
discrimination and delayed pay”, disponível aqui.
Há ainda as
violações ambientais. A cadeia do computador consome água, energia e reagentes
químicos, gera rejeitados, emite poluentes e produz lixo eletrónico. No fim de
vida, placas, baterias, cabos e ecrãs podem entrar em circuitos informais de
reciclagem, onde a recuperação de cobre, ouro ou alumínio envolve queima de
cabos, banhos ácidos e desmontagem manual sem proteção. O resultado é
contaminação do ar, do solo e da água por metais pesados e compostos tóxicos. A
autora do livro High Tech Trash: Digital Devices, Hidden Toxics, and
Human Health fez uma investigação notável sobre o problema.
Se quiser
conhecer os impactos positivos e negativos de todas as empresas listadas em
bolsa, recomendo esta plataforma finlandesa. Pode começar pela Apple (aqui).
Entre o impulso
de corrigir o mundo e os meios disponíveis para o fazer há cadeias globais de
extração, transporte, fabrico, e consumo que comprometem a santidade de
qualquer gesto sustentável. Dito de outra forma, a transição de uma economia
fóssil para uma economia verde não elimina a dependência de recursos finitos;
apenas substitui o petróleo, o gás e o carvão pelo cobre, o lítio, o níquel, o
cobalto, a grafite, as terras raras e outros metais indispensáveis à
descarbonização.
E é exatamente
quando chegamos a este ponto, emaranhados em incoerências e contradições,
frustrados com os trade-offs e com a impossibilidade da
coerência absoluta, conscientes de que cada solução conserva dentro de si uma
forma de perda, que a sustentabilidade deixa de ser uma técnica de otimização e
passa a ser uma prática de mitigação de custos sociais e ambientais. Quando ser
sustentável se revela insustentável, a sustentabilidade é escolher o menos
insustentável. No fundo, tudo se reduz a uma contabilidade honesta dos danos.
A UE seguiu o
caminho contrário. Em 2020, criou a Taxonomia Europeia para classificar as
atividades económicas ambientalmente sustentáveis. Mas o sistema tornou-se um
labirinto técnico de critérios, atos delegados, salvaguardas, indicadores
financeiros e obrigações de reporte. Equipas de sustentabilidade, finanças,
auditoria e compliance precisam hoje de formação especializada para decifrar a
máquina Enigma regulatória. Criada para reduzir o greenwashing, a
taxonomia acabou também por oferecer às empresas uma linguagem técnica capaz de
ocultar, relativizar ou diluir aquilo que permanece insustentável.
Não precisamos
de atividades económicas, produtos ou transações financeiras “verdes”,
“sustentáveis”, “eco”, “bio”, “orgânicas”, “naturais”, “amigas do ambiente”,
“carbono neutro”, “sem plástico”, “recicláveis”, “reutilizáveis”,
“conscientes”, “responsáveis”, “éticos”, “limpos”, “circulares”, “de impacto
positivo” ou “alinhados com a transição” como se esses rótulos fossem bulas
papais. Precisamos de saber, com precisão, que danos reduzem, que danos
produzem, onde ocorrem, sobre quem recaem e quando se manifestam. A linguagem
da sustentabilidade tornou-se demasiado adjectival e pouco contabilística.
Se a maioria dos produtos já tem a sua versão “verde”, há que reconhecer que os fabricantes de computadores e telemóveis parecem admitir, ainda que por omissão, que os seus produtos não podem ser verdadeiramente sustentáveis e éticos, nem sequer no plano da retórica. Pelo menos isso.
2026 04 30
https://expresso.pt/opiniao/2026-04-30-
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Entrevista a Pedro Lauret: “Há uma intenção política clara de obliterar o 25 de Abril”
Aos 77 anos, em entrevista ao Expresso, o Capitão de Mar e Guerra na reforma lembra o que provocou a Revolução e o trabalho feito pelos militares de Abril para pôr de pé os alicerces do Estado democrático. Um trabalho “sem paralelo” na História que considera nunca ter sido devidamente reconhecido
* Joana Pereira Bastos, Jornalista
Pedro Lauret
tinha 25 anos quando se juntou à conspiração de militares que levou ao 25 de
Abril, integrando o primeiro grupo de ligação da Marinha ao Movimento dos
Capitães. E fez parte da pequena comissão que redigiu o Programa do Movimento
das Forças Armadas, no qual ficou escrito o rumo a seguir no país: liberdade e
democracia, paz e descolonização. Aos 77 anos, em entrevista ao Expresso, o
Capitão de Mar e Guerra na reforma lembra o que provocou a Revolução e o
trabalho feito pelos militares de Abril para pôr de pé os alicerces do Estado
democrático. Um trabalho “sem paralelo” na História que considera nunca ter
sido devidamente reconhecido. E que acusa de estar agora a ser intencionalmente
menorizado pelo Governo.
Como
interpreta o bloqueio do Governo ao Museu do 25 de Abril?
O 25 de Abril é
uma das datas mais importantes da História de Portugal, porque derruba uma
ditadura longuíssima, quebra o ciclo colonial e permite que, pela primeira vez,
se realizem eleições livres e se institua uma democracia. Era fundamental ter
um espaço museológico que preservasse esta memória, mas o Governo não quer que
isso aconteça. Há uma intenção política clara de obliterar o 25 de Abril e
branquear a ditadura, porque este Governo tem na extrema-direita o seu aliado
preferencial e, para isso, convém-lhe menorizar a Revolução. Tudo o que seja
feito para enaltecer o 25 de Abril não lhe interessa. Mas este apagar da
História é criminoso. E os capitães de Abril, então, estão a ser completamente
votados ao esquecimento. Mas isso já acontecia, mesmo antes desta conjuntura
Porque diz
isso?
Nunca houve um
grande reconhecimento do poder político, no geral, em relação aos capitães que
fizeram o 25 de Abril. E isso vê-se em várias coisas. Por exemplo, até ao final
do mandato de Jorge Sampaio tinham sido condecorados apenas os militares que
fizeram parte do Conselho da Revolução e da Comissão Coordenadora [do MFA] e,
mesmo no último dia do mandato, foram condecorados mais 15, que foram os
comandantes das unidades que saíram no dia 25 de Abril. O Mário Soares não
condecorou, individualmente, um único, mas apenas os estandartes das unidades.
E a maioria continua até hoje sem ter a Ordem da Liberdade. Por outro lado, se
olharmos para a toponímia de Lisboa, as ruas estão cheias de referências aos
heróis do Liberalismo e da República, mas não se veem ruas com nomes dos
militares de Abril. As nossas carreiras militares foram todas feitas em cacos.
E hoje em dia considera-se que os ‘pais da democracia’ são o Mário Soares, o
Freitas do Amaral, o Sá Carneiro... e os capitães são esquecidos. No discurso político
e mediático, é como se não existissem. E mesmo no âmbito das Comemorações dos
50 anos, houve muito pouco envolvimento dos capitães no programa. Tudo isto
entristece-nos e revolta-nos bastante. E não é por vaidade, mas por uma questão
de justiça e de verdade histórica.
A que acha
que se deve essa falta de reconhecimento por parte do poder político?
Acho que há
razões profundas. A oposição civil à ditadura sempre esteve muito dividida e
nunca teve uma estratégia consistente para derrubar o regime. E foram os
militares que, sozinhos, conseguiram fazê-lo. Um grupo de miúdos com 25, 30
anos que em nove meses fizeram uma conspiração e em 18 horas deitaram abaixo a
ditadura. Acho que os políticos da altura sempre tiveram algum ciúme em relação
a isso. E apesar de já terem passado uma ou duas gerações, isso permanece. Para
os políticos, os militares são um incómodo. Mas o que fizemos é notável e não
há, na história mundial, nenhum outro exemplo de militares que tenham feito um
golpe e não tenham querido ficar com o poder. Tal como prometemos, um ano
depois fizeram-se as primeiras eleições livres. E tivemos de fazer tudo para as
pôr de pé, montando uma operação extraordinária para fazer o recenseamento e os
cadernos eleitorais.
A
instauração da democracia era consensual entre todos os militares de Abril?
Os militares
eram pouco politizados, de um modo geral. Para ser sincero, muitos nem sabiam
bem o que era isso da democracia. A vida de um oficial do Exército era muito
difícil. Estava dois anos em comissão [na guerra], vinha para cá um ano e pouco
e voltava novamente. Uma vida destas não dava para fazer grandes reflexões
políticas. A preocupação era sobreviver. O que motivou os militares para o
golpe foi a necessidade de acabar com a guerra, a partir do momento em que se
tornou evidente que ela estava perdida.
“Os
militares eram pouco politizados, de um modo geral. Para ser sincero, muitos
nem sabiam bem o que era isso da democracia”
Em que
momento isso aconteceu?
Em março de
1973, na Guiné, quando o PAIGC [movimento independentista da Guiné] adquiriu à
União Soviética uma nova arma que mudou tudo: os mísseis antiaéreos. No mesmo
mês abateram dois Fiat, que eram os nossos aviões mais sofisticados, e logo em
maio abateram três no mesmo dia. A partir daí, a nossa Força Aérea deixou de
conseguir, com a mesma eficácia, contrariar os ataques e fazer a evacuação de
feridos. A guerra estava perdida e não estávamos dispostos a ser sacrificados.
Além disso, o regime foi incompetente e criou uns decretos que punham os
milicianos à frente dos outros, o que criou ainda mais descontentamento, mas a
questão central não foi essa. Foi acabar com a guerra. E, a dada altura,
percebemos que a única maneira de o fazer era derrubando o regime. Foi isso que
motivou a conspiração.
Participou
na conspiração desde o início?
Sim. Fiz parte
do primeiro grupo de ligação da Marinha ao movimento dos capitães. O
planeamento militar do golpe não teve dificuldade nenhuma e correu rapidamente.
Em janeiro de 1974, a estratégia estava delineada. Depois faltava a parte
política, que foi mais complicada. Só se começa a falar disso em fevereiro ou
março, já às portas do 25 de Abril. E enquanto que a ordem de operações foi
muito falada e discutida, o programa [político] foi muito restrito e feito por
um núcleo muito pequeno. O Melo Antunes, que era dos oficiais do Exército mais
politizados, e alguns oficiais da Marinha, nomeadamente o Martins Guerreiro, o
Almada Contreiras e eu próprio, trabalhámos no documento político quase
clandestinamente dentro do próprio movimento.
O programa
político foi facilmente aceite por todos?
A grande
maioria dos militares envolvidos no 25 de Abril não teve conhecimento do
programa político até ao golpe. Mas nunca houve nenhuma contestação. A partir
do momento em que se dá o 25 de Abril, o programa foi assumido por todos. Foi à
militar: “Este é o nosso programa, temos de o cumprir.” E cumprimos. No
programa do MFA estava escrito: no prazo máximo de um ano tem de ser eleita uma
assembleia constituinte para fazer uma nova Constituição; quando ela estiver
pronta, serão eleitos os órgãos de soberania que nela estiverem previstos.
Assim foi. No dia 25 de Abril de 1975 formou-se a Assembleia Constituinte por
sufrágio universal, no ano seguinte estava pronta a Constituição, que fez este
mês 50 anos, e foi eleita a primeira Assembleia da República, o primeiro
Presidente da República democraticamente eleito, os Governos Regionais dos
Açores e da Madeira e os órgãos das autarquias locais. E os militares saíram de
cena. Mas fomos nós que construímos os alicerces da democracia e isso nunca foi
devidamente reconhecido. E hoje menos ainda.
23 abril 2026
quinta-feira, 26 de março de 2026
Daniel Oliveira - Chega nas autarquias: Sorria, foi enganado outra vez e sabia
* Daniel Oliveira
Desvinculações
do partido para ganhar pelouros, casos, nomeações escandalosas, balbúrdia entre
vereadores. Nada disto é surpreendente no partido que queria acabar com os
tachos e a bandalheira, mas é a rampa de lançamento de quem não conseguiu
lugares noutros lados. Não é provável que os seus eleitores não o saibam. Mas
não é um voto de exigência, é um voto de desistência
Em várias
autarquias houve acordos com o Chega, sobretudo em câmaras do PSD. De uma forma
ou de outra, formal (Sintra) ou informalmente (Lisboa), os vereadores do Chega
ajudaram a construir maiorias em cinco dos seis maiores concelhos do país. Isto
seria uma estratégia de poder. Mas na maior parte das câmaras talvez seja
difícil falar de estratégia.
Em apenas cinco
meses fora oito os vereadores eleitos pelo Chega que abandonaram o partido
e passaram a independentes: em Lisboa, Ana Simões
Silva (eleita por um voto de diferença) desfiliou-se e integrou o
executivo de Carlos Moedas, assumindo os pelouros da Saúde e do Desperdício
Alimentar. Em Vila Nova de Gaia, António Barbosa seguiu o
mesmo caminho e entrou no executivo de Luís Filipe Menezes com
pelouros das Feiras, Mercados, Ambiente e Bem-Estar Animal. Em Coimbra,
Maria Lencastre Portugal desfiliou-se e foi nomeada para funções executivas
numa empresa municipal de Ana Abrunhosa, do PS. Em Mirandela,
Luís Saraiva conseguiu sair do partido ainda antes da tomada de
posse, deixando claro ao que vinha. No Funchal, Luís Filipe Santos
e Jorge Afonso Freitas saíram do partido, mas mantiveram-se sem pelouros. O
mesmo aconteceu na Marinha Grande, com Emanuel
Vindeirinho. E em Ourém, Rita Sousa renunciou ao mandato,
o que é um pouco diferente.
Em poucos
meses, o Chega já soma mais casos de demissões, desvinculações e
ruturas do que partidos com muito mais vereadores e presidências de
câmara. Mais do que divergências, é gente à procura de um lugar ao sol.
Em São
Vicente, na Madeira (outro dos três concelhos
conquistados pelo Chega), o presidente retirou os pelouros aos outros
vereadores do seu partido e governa sozinho. Em Portimão, 19 eleitos
do Chega a ameaçarem demitir-se em bloco porque dois dos três vereadores
do partido viabilizaram o orçamento do PS. Dizem que o fizeram porque o
orçamento é bom. Permitam-me duvidar.
Em Lisboa,
o vereador que não abandonou o partido queimou-se com
a nomeação da Mafalda Livermore para a administração dos
Serviços Sociais da Câmara. A sua namorada é alvo de investigação por
burla e exploração de imigrantes. Mas as nomeações de pessoas demasiado
próximas é um clássico no partido que ia lutar contra o nepotismo – Rui
Cristina, presidente da Câmara de Albufeira, levou a irmã para assessora.
Explicou-se: “Sei que todos os presidentes de câmara gostariam de ter uma
irmã qualificada como esta para trabalhar em prol dos munícipes”.
Onde não há
debandada há balbúrdia.
Tudo contrasta
com o partido que promete acabar com a bandalheira, o oportunismo e os
arranjinhos do sistema. Mal se aproximam dos únicos tachos a que
já têm acesso, ninguém lhes ensina nada. Porque o Chega não
passa de uma rampa de lançamento para quem foi rejeitado por outros
partidos. Cresceu muito e depressa, tem falta de quadros e recebeu o refugo
de carreiristas que, chegados ao poder, tratam da vidinha. Sejamos
justos: estando longe do poder nacional, ainda são carreiras de pouca ambição.
Nada
disto deveria surpreender os eleitores. Já no mandato
anterior o Chega acumulava episódios nas autarquias e na
Assembleia da República. O deputado Miguel Arruda foi só o mais
mediático, por ser risível. Num recorde absoluto de problemas com a justiça,
há dirigentes e deputados do partido da “lei e da
ordem” envolvidos em processos que vão da condução sob efeito de
álcool a abuso de menores – esta semana já vai no quinto suspeito de
pedofilia.
Não
é provável que a maioria dos eleitores do Chega desconheça
estes casos. Que não saiba que os vereadores que elegeu saltaram para
fora do partido para chegar ao pote. Que viva a leste do destino do seu voto.
Alguns estarão de tal forma fanatizados que
ou justificarão o injustificável ou
encontrarão consolo no burocrático distanciamento do líder cada
vez que algum caso chega aos jornais. O eleitorado do Chega é o sonho
de qualquer político: dá tudo sem exigir nada.
Mas a maioria
apenas confirma a tese que tenho há algum tempo: o voto no Chega não é dos
desiludidos da democracia, mas dos que desistiram dela. Não é um voto
de exigência, é um voto de desistência. Não querem abalar o sistema,
aceitam a caricatura do sistema, porque “eles são todos
iguais”. Estão-se nas tintas. Já não esperam nada. Sobretudo daqueles
em quem votam.
2026 03 26
sexta-feira, 20 de março de 2026
Eugénia Galvão Teles - Uma Maria Antonieta das Caldas em Belém
* Eugénia Galvão Teles
Trinta anos depois, faz sentido que passe do recorte da revista ao próprio Valentino. Da cópia ao original, vai toda uma história de emancipação feminina e mobilidade social
19 março 2026
Conforme o esperado, a polícia da
moda analisou minuciosamente o vestido que Margarida Maldonado Freitas usou na
posse do marido como Presidente da República. O jornalismo de investigação não
descansou enquanto não deu com a origem daquele bocado de tecido azul da
Valentino e apresentou a conta à população. Uma etiqueta com demasiados zeros
transformou a farmacêutica das Caldas numa nova Maria Antonieta, insensível à
pobreza dos seus súbditos. Como se não bastasse ser demasiado caro, apareceu
ainda o demasiado estrangeiro. Com tantos costureiros nacionais, a mulher foi
escolher um italiano e ainda lhe pregou uns corações de Viana, na esperança de
nacionalizar à pressa a farpela.
Para brincar aos polícias da moda
a sério, dava jeito saber alguma coisa sobre a história da roupa feminina —
além da cor do ano, das bainhas que sobem e descem, da meia dúzia de marcas que
aparecem nas revistas e do reflexo pavloviano quando um vestido é mais caro.
Já não peço que saibam que Chanel,
em 1955, criou uma carteira com alça a tiracolo para deixar as mulheres com as
mãos livres; que Yves Saint Laurent se ofereceu para vestir a mulher emancipada
dos anos 70, caso ela não desse com o príncipe encantado; que o luxo online
trocou a lady who lunches por uma compradora com vida profissional e pouco
tempo para correr lojas à procura do traje mais adequado à ocasião.
Mas há mínimos. Não dá para não
saberem que o mercado de luxo foi dos primeiros a apostarem numa cliente com
cartão de crédito próprio. Não que o mercado se tenha tornado feminista. Fez
apenas o que o capitalismo sabe fazer e reconheceu os frutos económicos da
emancipação feminina. Margarida Maldonado Freitas é um bom exemplo dessa
mudança. Já nasceu no mundo das que estudaram, trabalharam, ganharam o seu
dinheiro e não pedem licença para existir ao lado de um homem com poder.
É verdade que a mulher a subir a
calçada não é só a Margarida que pode comprar o que quer. Mesmo num país sem
primeira-dama, está ao lado do Presidente. À mulher de César não basta ser;
também tem de parecer.
Só que a António José Seguro
ninguém cobrou os fatos Canali, que não são propriamente baratos. Felicitou-se
a sua entrada bem-sucedida no clube dos homens políticos que se vestem como
deve ser e procuram uma boa relação qualidade-preço. Já a indumentária da sua
mulher, mesmo em saldo, só pode ser um brioche atirado ao povo pela calçada de
Belém. O luxo masculino continua a ser competência. No feminino, é falha moral.
Também convém manusear com cuidado
toda essa sensibilidade social. Da sobriedade republicana passa-se, amiúde
demasiado depressa, para o Portugal dos pobrezinhos e dos pequeninos. Na
investigação jornalística feita ao vestido, achou-se natural ir bater à porta
da costureira da mulher do Presidente. Sendo das Caldas, logo havia de se
vestir por lá, com a mediação social adequada ao código postal. O que incomoda
não é só o preço do vestido. É a quebra de uma certa geografia de classe.
Quando me casei, cheguei à modista
com uma página arrancada da “¡Hola!” e um modelo da Valentino para evitar
acabar igual à princesa Diana, que ainda era a referência obrigatória em
matéria de vestidos de noiva. É bem possível que a Margarida Maldonado tenha
feito o mesmo. Nenhuma de nós tinha dinheiro para comprar o figurino da
revista. Mas ambas sabíamos que ninguém reinterpretava a elegância clássica
tirando-lhe o mofo como o Valentino. Trinta anos depois, faz sentido que passe
do recorte da revista ao próprio Valentino. Da cópia ao original, vai toda uma
história de emancipação feminina e mobilidade social.
O que se quer de um Presidente de
todos os portugueses não é que ele e a mulher se vistam de pedagogia social
ambulante. É que façam tudo para que essa história não pare neles. Qualquer que
seja o vestido dela e o fato dele.
sábado, 14 de março de 2026
Daniel Oliveira - A Gestapo e a Stasi globais
* Daniel Oliveira
A Anthropic recusou permitir o uso
da sua IA para vigilância em massa e armas letais autónomas sem supervisão
humana. Trump reagiu e a OpenIA aproveitou o vazio. Esta disputa terá
consequências mais profundas do que a guerra do Irão. O derradeiro totalitarismo
será tecnológico
12 março 2026
Enquanto o mundo acompanha a
guerra no Irão, uma disputa menos ruidosa terá consequências ainda mais
profundas. A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial (IA),
criadora do modelo Claude, recusou retirar duas salvaguardas de uso nos sistemas
e serviços que vende ao Pentágono há anos: a proibição de vigilância em massa
dos cidadãos e a proibição de uso em armas letais autónomas sem supervisão
humana. Donald Trump respondeu no seu estilo, falando em “fanáticos de
esquerda” que tentam ditar ao “grande exército americano” como lutar e ganhar
guerras.
A resposta da Administração foi
declarar a Anthropic um “risco para a cadeia de abastecimento nacional”, uma
designação até aqui reservada a empresas estrangeiras suspeitas de espionagem,
como a chinesa Huawei. Pete Hegseth, o secretário da Guerra, anunciou que
nenhum fornecedor do Governo poderá ter qualquer relação comercial com a
Anthropic, ameaçando bloqueá-la nos EUA. A empresa de “fanáticos de esquerda” é
a que o exército americano usou para preparar a operação na Venezuela ou a
guerra com o Irão. O Claude foi, até fevereiro, o único modelo autorizado pelo
Pentágono e está integrado no Maven, software operado pela Palantir e usado
pelo Pentágono para identificar alvos. O “The Washington Post” indica que foi
com estes sistemas que foram escolhidos e selecionados centenas de alvos no
Irão. Até está a ser investigado se houve envolvimento de IA no bombardeamento
que matou quase 200 crianças numa escola de Teerão.
Ninguém compra um tanque e aceita
que o fabricante diga para onde pode disparar, disseram os acólitos de Trump.
Mas a IA não é só uma ferramenta. É um sistema capaz de tomar decisões com
consequências reais no mundo em que vivemos. As duas ressalvas da Antrophic,
que confessa não conseguir prever a evolução de sistemas com modelos que já são
na sua maioria desenhados e programados pela própria IA, não caíram do céu. A
Administração Trump já usa modelos de IA para encontrar, detetar e expulsar
imigrantes e é evidente que o mesmo Presidente que tenta há anos controlar a
contagem de votos usará esse poder para saber tudo o que puder sobre cada
norte-americano. Quanto à guerra, um estudo recente do King’s College demonstra
que os modelos de linguagem natural mais avançados, quando colocados a gerir
conflitos militares, acabam por escolher a solução nuclear em 95% dos casos.
Falta-lhes, por assim dizer, o instinto animal da sobrevivência.
Roberto Schmidt/Getty Images
As leis, os regulamentos e as
salvaguardas que temos não se aplicam a um mundo em que os humanos já não
controlam ou percebem a lógica de decisões tomadas por Estados e exércitos e
ainda menos as suas implicações. O edifício político e jurídico que fomos
construindo já não responde ao mundo onde a IA dita as escolhas que fazemos.
Mas a ausência de salvaguardas está a ser apresentada como o preço a pagar para
não ficar para trás na corrida tecnológica. Por isso a OpenAI assinou um
contrato com o Pentágono, aproveitando o vazio criado pelos pruridos éticos do
concorrente. O mesmo Trump que faz ameaças comerciais à União Europeia se esta
insistir em aplicar a legislação que aprovou para limitar o discurso de ódio
nas redes e regular a aplicação da IA exige a subjugação total das empresas
mais inovadoras dos EUA. E a Europa prepara-se para ceder. Nem a sexualização
de imagens de crianças parece ser uma linha vermelha. Quando o Reino Unido quis
acabar com ela, vieram falar-nos de liberdade de expressão.
Já sabemos que chegue para
perceber que a IA vai transformar as nossas sociedades a uma velocidade
impossível de acompanhar. Também sabemos que mudanças tecnológicas profundas
levam à concentração de poder, criando um rasto de ressentimento social. Temo
que nem a chegada da eletricidade ou da escrita tenham tido uma profundidade
existencial semelhante à desta alienação dos seres humanos do controlo sobre o
seu próprio destino. Se deixarmos estas tecnologias à solta, porque “se não
formos nós será outro”, entregaremos um poder nunca visto a estas empresas e
aos Governos que as controlam. Toda a privacidade, toda a liberdade, todas as
escolhas, a vida e a morte. Teremos uma mistura entre a Stasi e a Gestapo nas
mãos de um poder global. Por isso o debate não é técnico, é político. A
diferença entre um sistema que ajuda a tomar decisões (identificando um
suspeito ou alvos) e um sistema que toma decisões (quem deve ser detido,
deportado ou abatido) não está na tecnologia. Está no que sobra de uma
construção de séculos. O derradeiro e mais esmagador totalitarismo será
tecnológico. E ele aí está.



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