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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Textos no Blog Ferreira de Castro


sábado, 12 de fevereiro de 2011

o jovem Ferreira de Castro - A JANELA DA IDEALIDADE (1925)



Saturday, February 12, 2011


o jovem Ferreira de Castro - A JANELA DA IDEALIDADE (1925)

     Aquela mulher que à hora do crepúsculo vinha sentar-se por detrás da sua janela descerrada, tinha para mim um encanto estranho -- um profundo e inefável mistério.
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     Meus olhos extenuados de procurarem um amor ideal que dir-se-á não existir, que dir-se-á proscrito de todos os corações, encontraram-na uma tarde meditando junto à janela: -- o busto envolto numa auréola romântica, as mãos pálidas, como duas rosas-chá esmaecidas, pousadas sobre um livro aberto.
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     Meditava talvez na conquista duma alma igual à minha -- uma alma igual àquelas de que lhe falavam os seus livros predilectos.
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     E desde então, eu que tenho detido meus passos ante as altas janelas que se recortam a vermelho na treva da noite, interrogando-as sobre os segredos femininos que ocultam a meus olhos sonhadores, ante as janelas que se descerram na quietude da tarde e para trás das quais julgo sempre existirem mulheres nascidas para me compreender e amar, -- principiei a interessar-me por aquela mulher que assim me surgia tão bela, durante um dos meus passeios crepusculares.

Ferreira de Castro, Sendas de Lirismo e de Amor, Lisboa, Edições Spartacus, 1925.
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Friday, February 04, 2011


uma capa de Roberto Nobre

Ferreira de Castro, Sendas de Lirismo e de Amor
Lisboa, Edições Spartacus, 1925 
 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

«A cruel indiferença do universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro


Monday, February 09, 2009

«A cruel indiferença do universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (1)

Publicado em Castriana, n.º 1, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2002
A imensa maioria das biografias humanas são
uma transição baça entre o espasmo familiar e o esquecimento.
George Steiner
Se, desfeita a ilusão de viver, o viver por viver
ou para outros destinos que morrerão também
não nos enche a alma, por que viver?
Miguel de Unamuno
Nada há de tão importante para o homem
como o seu estado, nada mais temível para ele
do que a eternidade.
Blaise Pascal
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1. O Mas..., que Ferreira de Castro publicou em 1921, numa edição de autor, é um livro invulgar na sua bibliografia. Adversativo, reticente, polémico, rebarbativo, híbrido nos géneros literários que encerra -- do ensaio ao panfleto e à ficção. (1)
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(1) Sobre o primeiro título «português» do futuro autor de Terra Fria, ver Jorge de SENA, «Ferreira de Castro, mas...» [1966] Estudos de Literatura Portuguesa - I, Lisboa, Edições 70, 1981, pp. 207-211; e Ricardo António ALVES, «Ferreira de Castro, entre Marinetti e Kropotkine», O Escritor, n.º 11/12, Lisboa, Associação Portuguesa de Escritores, 1998, pp. 175-180.
(continua)
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Thursday, October 29, 2009

«A cruel indiferença do Universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (2)

Um dos textos mais interessantes e importantes é consagrado a Raul Brandão. Largamente judicativo, baseia-se nos três títulos emblemáticos que até então tinham vindo a lume: A Farsa (1903), Os Pobres (1906) e o Húmus (1917):

«O "Húmus é um grande livro: -- a erguer-se no campo florido do pensamento latino: -- estercolando revolta, esvrumando miséria e desgraça por todas as junturas: -- como um escarro dum gigante solitário sobre os tapetes macios duma sala de anões.» (2)

(2) Ferreira de Castro, «Raul Brandão», Mas..., Lisboa, 1921, p. 34.

Castriana, n.º 1, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2002, pp. 112.



Wednesday, December 29, 2010

«A cruel indiferença do universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (3)

Referindo-se ao que de específico existe na sua obra, à Dor e ao Sonho, à Verdade e à Descrença (assim mesmo, com maiúsculas, ibidem, p. 38), o novíssimo escritor referenciava os espectros que a povoam:

«Raul Brandão não criou personagens. Pegou na Desgraça, na Dor, no Ódio, na Cobiça, na Perversidade e pregou-lhes uma pernas cambaias. E abriu-lhes um boca disforme. » (ibid., p. 36).

Declarando não conhecer Raul Brandão, desejando mesmo não o conhecer para não se desiludir com uma mais que previsível fragilidade humana pudesse «manchar a transcendência de Raul Brandão pensador» (ibid., pp. 37-38), o texto em apreço -- aliás, previamente publicado na efémera revista A Hora (1) -- estaria na origem de uma amizade só interrompida em 1930, com a morte do criador da Candidinha: «ficara Raul Brandão meu amigo», recordará Castro décadas mais tarde, evocando este primeiro escrito. (2). Após ter lido o artigo, Brandão escreveria ao seu autor:

«São raras efectivamente as pessoas que em Portugal estimam os meus livros, mas essas bastam-me quando compreendem não o que vale a minha obra necessariamente imperfeita, mas o esforço que faço, para arrancar alguns farrapos ao limbo...» (3)

(1) No número 3, em 26 de Março de 1922: «Os grandes peninsulares -- Raul Brandão». Muitos dos textos do Mas... saíram previamente n'A Hora. Por outro lado, apesar de o livro ostentar a data de 1921 no frontispício, viria apenas a publicar-se no ano seguinte, uma vez que Castro foi pagando a sua impressão à medida das disponibilidades financeiras.
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(2) Ferreira de Castro, «[Raul Brandão]», A Unidade Fragmentada. Dispersos de Ferreira de Castro, antologia e apresentação de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara Municipal, 1996, p. 235. Texto originalmente publicado em Raul Brandão -- Homenagem no Seu Centenário, Guimarães, Círculo de Arte e Recreio, 1967, pp. 52-54.
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(3) Nespereira, 28 de Março de 1922. In Ricardo António Alves (ed.), 100 cartas a Ferreira de Castro, Sintra, Câmara Municipal, / Museu Ferreira de Castro, 1992, p. 9. (Cota do documento: MFC/B-1/13904/Cx.297/Doc.1).
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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Cartas a Ferreira de Castro

  Ferreira de Castro



Thursday, October 15, 2009


Cinco centenários -- Cartas inéditas de José Bacelar, Fernanda de Castro, Castelo Branco Chaves, José Gomes Ferreira, José Osório de Oliveira e F (1)


Continuando o trabalho de divulgação do espólio de Ferreira de Castro, dá-se à estampa -- actualizando a ortografia, mas mantendo a pontuação -- correspondência inédita de José Bacelar, Fernanda de Castro, Castelo Branco Chaves, José Gomes Ferreira e José Osório de Oliveira, no ano em que se assinalam os respectivos centenários, além de duas cartas do autor de A Selva. Desta forma continuará a Vária Escrita a apresentar-se como uma publicação de indispensável consulta a todos quanto estudam, não só Ferreira de Castro, como inúmeros escritores, artistas e outros intelectuais que com ele se relacionaram.
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Vária Escrita, n.º 7, Sintra, Câmara Municipal, 2000, p. 131.
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Wednesday, November 17, 2010


Cinco Centenários (2). [excerto de carta de José Bacelar]

Lisboa, 24 de Julho de 1935
S/C, R. Latino Coelho, 45, 3.º

          Exmo. Snr. Ferreira de Castro

     Venho muito comovidamente agradecer-lhe as suas palavras tão bondosas e tão fraternais, as suas palavras tanto mais tocantes para mim quanto é certo que elas vêm do escritor que mais largo êxito tem tido no nosso país -- porque o teve também no resto do mundo.
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     É uma tendência -- demasiadamente humana -- de todo o escritor de sucesso o sobrelevar o espírito crítico da massa dos leitores, o considerar o «meio» onde ele produz menos mau do que na realidade ele é. Não é porém assim o romancista Ferreira de Castro, e isto dá bem a medida da categoria do seu espírito, porque uma das mais nobres qualidades do artista -- e talvez também do homem -- é, não é verdade? a insatisfação. O «meio» é triste, de facto. Assim, já de antemão eu estava preparado e resignado -- dados o fraco mérito e o género um pouco especial do meu pequeno livro à indiferença e ao silêncio da crítica oficial.

Vária Escrita #7, Sintra, Câmara Municipal, 2000.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A Tempestade - Ferreira de Castro


Monday, November 15, 2010

de passagem - A TEMPESTADE (1940)

do «Pórtico»
Nesse tempo, em contraste com o silêncio que nos cercava, ia, no Mundo, grande inquietação, fragor de aspirações a realizar, lutas por uma existência melhor, mais consoante o direito de cada qual a viver. As bestas de Apocalipse não tinham ainda largado, de novo, das suas estrebarias de antanho, o que iria acontecer em breve; mas uma outra ansiedade, rútila esperança que deve ter existido no coração dos deserdados desde que, sobre a terra, medrou a primeira injustiça, envolvia todo o Planeta. Os jornais do Cairo, lidos de manhã, não falavam de outra coisa.

Ferreira de Castro, A Tempestade, 10.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1980. 

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Alexandre Cabral: Camilo, mas também Ferreira de Castro

Monday, November 01, 2010


Os grandes escritores valem pela obra que legaram. Não precisam de apologetas exaltados e podem bem haver-se, de além-túmulo, com certa casta de detractores ou com um aparente esquecimento (o «injustamente esquecido» é um dos chavões recorrentes da imprensa cultural) que sobre eles se teria abatido. O nome e a obra de Camilo também foram vítimas desta pecha que atinge, póstuma mas temporariamente quando se trata de alguém de real valor, a quase totalidade dos nossos poetas e romancistas. Não obstante o proverbial desleixo luso, há sempre quem -- por vezes solitariamente -- não resista ao apelo duma escrita que continua a interpelar os leitores, surgindo homens como Alexandre Cabral, que porfiadamente estudam e iluminam obras que são acervos do nosso património cultural, consagradas pelo tempo, pelo público e pelos seus méritos intrínsecos.

Vária Escrita #6, Sintra, Câmara Municipal, 1999.
 
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terça-feira, 26 de outubro de 2010

PEQUENOS MUNDOS E VELHAS CIVILIZAÇÕES (1937-38) - Ferreira de Castro

 

Sunday, October 24, 2010

errância - Andorra (1929), PEQUENOS MUNDOS E VELHAS CIVILIZAÇÕES (1937-38)

O encanto desta viagem à aventura, das poucas, se não a única, que a indústria do turismo ainda não destruiu na Europa, rompeu-se, uma noite, na redacção de La Dépêche, em Toulouse. Um dos redactores, que já tinha peregrinado pelos confins do Ariège, disse-me que, como eu supunha, Hospitalet, aldeiazita francesa sepultada nos Pirenéus orientais, dava acesso a Andorra. Não havia, porém, estradas... E, quanto ao passaporte, nenhum visto se exigia...

Ferreira de Castro, Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, 5-ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª. 1955.