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terça-feira, 8 de abril de 2008

Como a Opus Dei deixa o 'sigilo' e retoca sua imagem



Aproveitando-se da guinada conservadora da Igreja Católica, a instituição retratada no Código Da Vinci abandona a estratégia do sigilo e promove um esforço global de comunicação para disfarçar seus laços com a extrema-direita e valorizar o que a identifica com a ''modernidade'' capitalista. Leia abaixo artigo de Jérôme Anciberro para o Le Monde Diplomatique.


Camino 999… Não há o que discutir, o título é eficiente. Jean-Jacques Reboux, fundador e diretor da editora Après la Lune, não esconde sua satisfação, quase um ano após o lançamento do livro [1]. “Estávamos tentando imaginar um título para o romance e este surgiu de repente”, diz. “Camino 999 faz referência direta ao mais conhecido livro de José-Maria Escrivá de Balaguer, o fundador da Opus Dei. Tal obra, de instrução religiosa, contém 999 sentenças. Se você virar os algarismos de cabeça para baixo, obterá 666, o número da Besta, tal como ele aparece no Apocalipse. Para um romance policial, é uma solução bastante divertida”.

Talvez seja isso que, na primavera de 2007, chamou a atenção da Opus Dei para o romance de Catherine Fradier, uma autora conhecida no meio da literatura policial de língua francesa. De outra forma, sua notoriedade não alcançaria os escritórios dessa organização da Igreja Católica, que conta com 80 mil integrantes em todo o mundo e em nada se assemelha a um clube literário. Camino 999 apresenta uma imagem particularmente pouco lisonjeira da Opus Dei. Nele, a confraria aparece como uma organização mafiosa que não hesita em recorrer ao assassinato para proteger seus negócios. Citados em juízo pela Prelazia da Opus Dei na França -– que criticava o romance por ele misturar elementos reais (nomes de dirigentes, por exemplo) com ficção e por ser, supostamente, difamatório —, Catherine Fradier e Jean-Jacques Reboux não foram condenados. A citação foi declarada nula pelos magistrados do Tribunal de Grande Instância de Paris.

“O caso não foi julgado em sua substância”, lamenta Arnaud Gency, um numerário [2] da Opus Dei, responsável pela comunicação da Prelazia na França. “De uma forma ou de outra, as pessoas precisam compreender que não dá mais para continuar dizendo qualquer coisa a nosso respeito”. Para bom entendedor…

Excetuada a Companhia de Jesus, nenhuma organização católica jamais suscitou tantas publicações de livros, panfletos, artigos ou reportagens acusadoras quanto a Opus Dei [3]. A lista das queixas tradicionalmente formuladas a seu respeito coincide mais ou menos com a de todas as torpezas imagináveis: manipulação mental; crueldade psicológica para com os integrantes [4]; rigidez intelectual; sadomasoquismo; atividades de lobby, de inspiração fascista, fundamentalista ou ultraliberal, conforme o caso; infiltração nos núcleos do poder eclesiástico, político ou econômicos, com objetivos escusos; e por aí vai.

A própria discrição da organização contribuiu para alimentar esse fascínio. Até 1982, ano no qual o papa João Paulo II elevou a Opus Dei à classe de “prelazia pessoal”, os seus membros eram convidados a não revelar o culto ao qual pertenciam. Contudo, segundo os estatutos, a Opus Dei só visa ajudar seus fiéis a se santificarem “na vida ordinária” por meio do “exercício das virtudes cristãs”. É no meio do mundo, em particular no âmbito do trabalho, considerado uma verdadeira prece, que os fiéis devem supostamente viver a “espiritualidade laica”, que faz a especificidade da Obra.

Nesse contexto de segredo, a denúncia do suposto pertencimento de personalidades públicas à Opus Dei é freqüente. Além disso, na França, os participantes de discussões públicas realizadas em locais administrados pela Obra podem seguir carimbados durante anos com a etiqueta “Opus Dei” ou “ligado à Opus Dei”. Desta maneira, foram “opucizados” os grandes empresários Claude Bébéar, Didier Pineau-Valencienne e Louis Schweitzer (um protestante!).

Na verdade, embora existam exemplos famosos de ministros, altos-funcionários ou empresários membros da Obra [5], o fato de ocupar um cargo de poder e de professar ao mesmo tempo um catolicismo intransigente não constitui em si uma evidência de pertencimento à Opus Dei.

Por muito tempo, a Obra permitiu que sua “lenda negra” ganhasse corpo, dando a impressão de não se preocupar em demasia com isso. Inscrevendo-se em uma cultura católica marcada pela desconfiança em relação à mídia e pela ojeriza à propaganda (salvo a recente e notável exceção de João Paulo II, que foi um mestre na matéria), a Prelazia mantinha um serviço mínimo em matéria de comunicação. No entanto, no intervalo de uma dezena de anos, a organização operou uma verdadeira revolução nesse campo. “É um princípio básico da comunicação institucional: se você mesmo não disser quem é, outros falarão em seu lugar e dirão quem você não é. Nós talvez não estivéssemos suficientemente conscientes disso no passado”, explica Arnaud Gency.

Tudo começou em 1992, quando a beatificação do fundador da Obra, Escrivá de Balaguer, revelou-se bastante difícil, ao menos no plano da mídia [6]. As reações hostis se multiplicaram. No interior da Igreja, era muito difícil encontrar bispos que apoiassem ativamente a iniciativa. Enquanto a polêmica ganhava força, os serviços de comunicação da Obra limitavam-se a contatar alguns jornalistas para lhes oferecer informações sobre a vida e a obra de Escrivá — com efeito quase nulo. O grande público seguia informado por meio de artigos e reportagens em geral muito críticos. “Nós permanecíamos na defensiva. Avaliando os fatos, concluímos que precisávamos dar mostras de muito mais profissionalismo”, admite Juan Manuel Mora, diretor de comunicação da Obra de 1991 a 2006.

A Opus Dei dispunha, então, de amplas reservas de competências, as quais incluíam comunicadores, jornalistas e professores, além de pesquisadores da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra, fundada pela organização em 1952. Uma nova estratégia passou a ser implementada, baseada no conceito de “pró-atividade”: comunicar antes que as polêmicas fossem deflagradas.

Essa técnica foi utilizada na campanha de imprensa em torno da canonização do fundador, anunciada para 2002. A Opus Dei contatava os jornalistas com grande antecedência, oferecendo-lhes informações detalhadas, desdobrando-se em amabilidades nas relações pessoais e tentando algumas “operações portas abertas”, nas quais franqueava para o público seus centros e residências. A estratégia mostrou-se altamente eficaz. A polêmica a respeito do fundador continuou, mas sua intensidade nada tinha a ver com aquela de 1992 e dos anos seguintes.

Além disso, no âmbito da Igreja, a Opus Dei também contava com uma conjuntura favorável. No curso de dez anos, o catolicismo progressista perdeu uma ampla fatia de sua audiência. No período anterior, eram os católicos progressistas que, na maioria dos casos, alimentavam a imprensa com informações. Com o seu silenciamento, pela cúpula do Vaticano, o campo ficou livre para os conservadores [7]. Por fim, a canonização do fundador, que equivale a uma espécie de certificado de garantia, tornou mais difíceis as críticas à instituição no seio do catolicismo. Elas existem até hoje, mas emanam das margens da Igreja ou são proferidas de maneira discreta.

Portanto, a “opinião pública” já estava bastante “amaciada” quando desabou o temporal representado pelo Código Da Vinci, o romance de Dan Brown, publicado em 2003 pela editora Doubleday. Num primeiro momento, a Prelazia limitou-se a atender a todos os pedidos de informação, esforçando-se por evitar polêmicas. Porém, a adaptação do romance para o cinema, realizada pela Sony Pictures, obrigou a Obra a adotar uma estratégia de crise. As decisões foram tomadas em 10 de janeiro de 2006, por ocasião de uma reunião, em Roma, dos responsáveis pelos centros de informação da Opus Dei em Nova York, Londres, Paris, Madri, Colônia, Montreal e Lagos. Nela, os participantes falaram em transformar “os limões em limonada” [8].

No mundo inteiro, os serviços de comunicação passaram a dar mostras de um empenho redobrado, respondendo a praticamente todas as solicitações da mídia. E afinaram o seu elenco de argumentos para fazer frente a perguntas que, de modo quase sistemático, giravam em torno da “lenda negra”, retomada pelo best-seller de Dan Brown . A Opus Dei não demorou a disponibilizar seu novo site na Internet, com conteúdo traduzido em 22 línguas, e que o escritor Umberto Eco chegou até mesmo a recomendar, quando se cansou das constantes indagações que eram feitas a respeito da veracidade do Código Da Vinci [9]. Os principais veículos da imprensa dedicaram dossiês à organização e, em certos casos, até reportagens de capa (Time, Le Figaro Magazine etc). As televisões entraram nas “residências” que organizavam jornadas de “portas abertas para o público”.

A imagem que Dan Brown oferece da Opus Dei é certamente grotesca. Mas, como a organização estava muito bem preparada para a tempestade, esta lhe permitiu virar o jogo a seu favor. “O Código Da Vinci acabou sendo um ótimo negócio para a Opus Dei”, avalia Christian Terras, diretor da revista católica progressista Golias. “O livro lhe permitiu reabilitar sua imagem, comunicando detalhes saborosos para os meios de comunicação, embora estes, em sua maioria, fossem perfeitamente secundários”.

Um único exemplo basta para provar a afirmação: um dos protagonistas mais sinistros do romance tem por nome Silas. Trata-se de um albino psicopata, apresentado como “monge da Opus Dei”, a serviço dos chefes da organização. Primeiro, us Dei, o verdadeiro, explicou que não existiam monges na organização — o que é correto. Depois, apresentou para o público um extra-numerário cujo nome era exatamente Silas, igual ao do assassino do romance. Tratava-se de um pacífico pai de família, corretor na Bolsa de Nova York, e de origem nigeriana, portanto negro. Evidentemente, os meios de comunicação se deliciaram com essa brincadeira visual, tornando a imagem da Opus Dei muito mais simpática.

''Não sei sesomos bons'', diz, sorrindo modestamente, Manuel Sanchez, numerário responsável pelas relações com a imprensa internacional, no birô de informação da Opus Dei. ''Mas parece claro que acumulamos uma certa experiência''. Esta tem sido colocada a serviço de toda a Igreja Católica. Em Roma, a Pontifícia Universidade da Santa Cruz, que depende diretamente da Opus Dei, abriga quatro faculdades: teologia, filosofia, direito canônico e comunicação institucional. Esta última é a única do gênero no mundo universitário católico. Forma especialistas para as conferências episcopais nacionais, dioceses e de outras instituições da Igreja. Os estudantes, que em sua maioria não são membros da organização, afluem do mundo inteiro para ter acesso às técnicas mais avançadas na área. Além de preparar quadros altamente competentes, a instituição funciona como uma vistosa vitrine da Obra, emprestando-lhe um ar moderno de absoluta normalidade.

De fato, a Opus Dei combina um corpo doutrinário conservador com elementos decididamente modernos. E isso pode desorientar os observadores. Ao contrário de vários expoentes do catolicismo fundamentalista, Escrivá levou a sério – para melhor dominá-lo – o movimento geral de secularização e de autonomização da sociedade. Ao preconizar, por exemplo, a santificação por meio do trabalho na vida cotidiana, ele rompeu com a idéia, enraizada no imaginário católico, de que os padres e freiras, em função de sua total disponibilidade para as coisas da religião, ocupavam uma posição melhor do que os outros na corrida rumo ao Reino de Deus [10]. Mas essa “democratização da santidade” jamais ameaça a supremacia clerical na organização. São mesmo os padres que ocupam os postos de comando, enquanto os numerários cuidam principalmente da formação dos seguidores. Ao mesmo tempo, o enquadramento espiritual rigoroso ao qual se submetem os seus membros (missa cotidiana, recitação do rosário, exame de consciência, confissão semanal, retiro mensal etc.) limita drasticamente os riscos de desvios libertários.

A Opus Dei é acusada de ter como objetivo fundamental o controle das esferas de poder. Mas sua real influência na sociedade é muito difícil de dimensionar, uma vez que os responsáveis afirmam não dispor de estatísticas sobre a condição sócio-profissional dos integrantes. No entanto, é notório o seu interesse por certos meios intelectuais e o seu empenho na formação dos membros. Quem quer se tornar numerário deve ter diploma universitário e os padres da organização são incentivados a obter o doutorado. Além disso, a Obra administra um grande número de residências estudantis – locais evidentemente propícios para o recrutamento.

Nos anos do pontificado de João Paulo II, multiplicaram-se as nomeações de membros da Opus Dei para a Cúria Romana e os episcopados, especialmente os da América Latina. A esse respeito, a entrega do serviço de imprensa do Vaticano ao numerário Joaquin Navarro-Vals foi emblemática. Nomeado em 1984, ele permaneceu por 22 anos no cargo. Tal posição não deve ser encarada como um trunfo pessoal, pois, como afirma Giovanni Avena, diretor da agência de informação religiosa Adista, a coerência doutrinal dos membros da Opus Dei é muito grande: “Encontramos entre os jesuítas, entre os franciscanos e entre os integrantes de outras ordens, um amplo leque de opiniões ou de opções teológicas, que abrange desde o progressismo mais irrequieto até o tradicionalismo. Não é o caso da Opus Dei, que formata teologicamente seus membros”.

As relações entre a Opus Dei e o regime franquista espanhol (1939-1975) foram profundas e duradouras [11]. E tal experiência funcionou como uma espécie de incubadora ideológica da organização. No âmbito desse sistema ditatorial, os membros mais influentes da Obra, vários deles ministros de primeiro plano, atuaram como tecnocratas, impulsionando uma modernização econômica de tipo liberal, na qual a Obra se encontra perfeitamente à vontade, e não uma teocracia totalitária, tal como a fantasiava a Falange. Esse perfil se mantém atualmente nos Estados Unidos, onde, em média, os membros da organização se mostram mais inclinados aos projetos da direita clássica do que aos da extrema-direita.

A verdade é que o enquadramento ideológico que vem ocorrendo na Igreja desde os primeiros anos do pontificado de João Paulo II (1978-2005) contribui para a relativa normalização da imagem da Opus Dei entre os católicos e, por extensão, junto ao restante do grande público. No momento em que, de acordo com Bento XVI, a prioridade da instituição diz respeito à afirmação identitária frente aos “perigos do relativismo”, as teses da Obra parecem estar cada vez mais em conformidade com a vertente dominante no catolicismo.

NOTAS


[1] Catherine Fradier, Camino 999, Paris, Après la Lune, 2007

[2] A Opus Dei reúne tipos diversos de membros. Os “extra-numerários” (cerca de 70%) são, em sua maioria, casados e levam uma vida familiar que, embora muito marcada pela prática religiosa intensa, não deixa de ser similar àquela da população conservadora dos países em que vivem. Os “numerários” e os “agregados” (designações que depeno Opdem do fato de a pessoa viver ou não nos centros da Obra) comprometem-se ao celibato, mas não pronunciam votos como os religiosos. Finalmente, há também os padres (2%). Alguns padres diocesanos não são diretamente integrantes da Opus Dei, mas filiados à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, que dele depende.

[3] François Normand, “La troublante ascension de l’Opus Dei”, Le Monde Diplomatique, edição francesa setembro de 1995.

[4] Sobre este assunto, ler, por exemplo, Véronique Duborgel, Dans l’enfer de l’Opus Dei (Paris, Albin Michel, 2007), o testemunho de uma antiga integrante da Obra.

[5] Isso ocorre especialmente na Espanha e na América do Sul. No Reino Unido, Ruth Kelly, a atual ministra dos Transportes do governo trabalhista de Gordon Brown, não faz mistério do fato de ser uma integrante extra-numerária da Opus Dei.

[6] Beatificado em 1992, Escrivá foi canonizado por João Paulo II em 2002. Os processos de beatificação e canonização, que em geral se arrastam por um tempo extremamente longo, transcorreram com surpreendente rapidez, no caso do fundador da Opus Dei, suscitando desconfianças e protestos. Falou-se, na época, que a organização salvara as finanças do Vaticano depois da falência fraudulenta do Banco Ambrosiano e que, como retribuição, o papa atendera a várias de suas demandas. A afirmação é contestada por simpatizantes da Obra [nota da edição brasileira impressa].

[7] Vale lembrar o cerceamento imposto ao teólogo brasileiro Leonardo Boff pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, então dirigida pelo cardeal Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI. Em 1985, Boff, um dos nomes mais respeitados da Teologia da Libertação, foi condenado a um ano de “silêncio obsequioso”, perdendo sua cátedra e suas posições editoriais em instituições católicas. Em 1986, recuperou algumas funções, mas novas pressões levaram-no a abrir mão do sacerdócio, em 1992. Livre das amarras, continua escrevendo e ensinando. É autor de mais de setenta livros e integrante do Conselho Editorial de Le Monde Diplomatique Brasil, edição impressa. Publicou o artigo “Teologia da Libertação: viva e atuante”, no segundo número deste períodico (setembro de 2007) [nota da edição brasileira].

[8] Todos os detalhes dessa estratégia, explicados por alguns de seus idealizadores, podem ser encontrados em Marc Carrogio, Brian Finnerty e Juan Manuel Mora, “Three years with the Da Vinci Code”, em Direzione strategica della communicazione nella Chiesa: nuove sfide, nuove proposte, Roma, EDUSC, 2007.

[9] L’Espresso, 30 de julho de 2005.

[10] Até hoje, as beatificações e canonizações da Igreja católica dizem respeito, quase que exclusivamente, a religiosos e religiosas.

[11] Os primeiros opucianos incorporados à cúpula do regime franquista (Mario Navarro Rubio, ministro das Finanças e Alberto Ullastres, ministro do Comércio) passaram a exercer suas funções em 1957. Segundo diferentes estimativas, até a queda da ditadura, em 1975, de oito a doze ministros espanhóis foram membros da Opus Dei.

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in vermelho - 5 DE ABRIL DE 2008 - 16h44



sábado, 23 de fevereiro de 2008

Sindicalismo e globalização: novos desafios


O Le Monde diplomatique - edição portuguesa convida-o(a) a participar no debate
em torno do dossiê «Sindicalismo e globalização: novos desafios» publicado no número de Fevereiro do jornal.
Este dossiê inclui uma entrevista ao Secretário-Geral da CGTP Carvalho da Silva
e dois artigos da autoria de André Freire e Elísio Estanque, respectivamente,
«Sindicalismo e democracia na era da globalização»
e «O sindicalismo na encruzilhada».

O debate conta com a participações de:
André Freire
Elísio Estanque
José Nuno Matos
António Avelãs

O debate realiza-se na quarta-feira 27 de Fevereiro, a partir das 21h30, no espaço
da livraria Ler Devagar (Fábrica de Braço de Prata – Rua da Fábrica de Material
de Guerra, Lisboa: frente aos CTT do Poço do Bispo).

Clique aqui para ver a localização do novo espaço da livraria Ler Devagar.

Organização: Le Monde diplomatique – edição portuguesa.


A entrada é livre. Participe!

Entrevista a Manuel Carvalho da Silva

«O país arrasta-se neste pantanal de falta de ética»

(excerto)

por Manuel Carvalho da Silva

No mês em que se realiza o Congresso da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGTP), propomos uma reflexão sobre o sindicalismo, o trabalho e a democracia em tempos de globalização neoliberal. Que problemas, desafios e oportunidades se colocam hoje aos sindicatos e às sociedades? Trabalho, desemprego e precariedade, solidariedade nacional e global, relação com o Estado, partidos políticos e movimentos sociais, autonomia sindical e pluralidade, modelo social e privatizações, reformas e rupturas, ética e democracia – estes e muitos outros temas são aqui abordados por André Freire, Elísio Estanque e Manuel Carvalho da Silva.

Sobre o Livro Branco das Relações Laborais

«Quando o governo tomou posse, o actual ministro do Trabalho dizia que era preciso mexer no código do trabalho porque os trabalhadores e os sindicatos estavam vulneráveis. Lendo-se este Livro Branco, constata-se que o diagnóstico é interessante, pois revela uma enorme objectividade quanto ao estado do mercado do trabalho. Contudo, as medidas depois propostas vão num sentido oposto. Sustentam a matriz de baixos salários e baixas qualificações em que o país se encontra, secundarizando o produtivo e mantendo a precariedade. O documento tem uma estruturação muito ardilosa e não vai ser fácil desmontar as suas propostas. Mas há consequências fáceis de identificar, como a facilitação do despedimento e desvalorização da contratação colectiva, estabelecendo-se patamares de compromisso que pouco ou nada importam para a vida das pessoas. São propostos mecanismos que levam a que a negociação salarial dependa cada vez mais da iniciativa do patrão. O argumentário economicista sobrepõe- se às dimensões sociais e políticas do contrato de trabalho, colocando mais poder nas mãos do patrão. Ora, a negociação colectiva é ainda a forma de harmonização dos direitos sociais.»

Sobre desempregados, precários e sindicalismo

«Temos cada vez mais esta rotação emprego-desemprego, desemprego-emprego. E, para mim, há dois conjuntos de não-activos: os trabalhadores na condição de desempregados e os pós-activos, que são extraordinariamente importantes para a mobilização da sociedade, já que estamos numa sociedade com aumento da esperança de vida. Teremos no futuro um mercado de trabalho profundamente marcado pela condição dos pós-activos, aquelas pessoas que estão fora do mercado de trabalho, com 55 anos ou 60 anos, com pré-reformas e reformas, e cuja condição influencia as condições concretas do mercado de trabalho. Assim como as condições deles, em termos de futuro, vão resultar do mercado de trabalho. Estamos numa fase de fortes manipulações, em que isto não é facilmente entendido. Mas eu vou um pouco mais atrás. Chamo a atenção para o seguinte: vivemos debaixo de um individualismo institucionalizado – a formulação não é minha, é do Ulrich Beck –, que é uma construção que, isolando os indivíduos, os responsabiliza. Aumenta a sua responsabilização mas diminui a capacidade de resposta devido ao isolamento que a precede. Eu referi o Beck, mas o Richard Sennett, em A Corrosão do Carácter, explora muito bem todo este quadro. Uma das características das posturas neoliberais no exercício da governação é isto: compartimenta, compartimenta e depois coloca uns contra os outros. Isto é um problema muito complexo. Por exemplo, a nível da precariedade do trabalho, é preciso um combate que entenda que a precariedade no trabalho não é uma questão específica do trabalho. Insere-se numa das características da sociedade actual, a insegurança. A precariedade é a expressão dessa insegurança transportada para a organização do mercado de trabalho.»

Entrevista a MANUEL CARVALHO DA SILVA

Por José Neves, Nuno Teles e Sandra Monteiro

(Continue a ler esta entrevista nas pp. 2-3 da edição de Fevereiro do Le Monde diplomatique.)

quinta-feira 21 de Fevereiro de 2008

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Sindicalismo e globalização: novos desafios

Sindicalismo e democracia na era da globalização

(excerto)

por André Freire

Analiso aqui as principais teses anti—sindicais das correntes neoliberais no contexto da globalização. Argumentarei que, tendo em conta as tendências pesadas da globalização a que temos assistido nas últimas décadas, precisamos de um sindicalismo forte, renovado e mais abrangente, capaz de contrariar os cada vez maiores desequilíbrios entre capital e trabalho, favoráveis ao primeiro.

De acordo com a doutrina neoliberal, quer o peso do Estado quer as organizações sindicais constituem entraves ao livre funcionamento do mercado, logo reduzem a performance da economia(4). Vejamos dois exemplos recentes deste tipo de discurso.

Primeiro exemplo, da autoria de Alberto Alesina e Francesco Giavazzi:

«Ainda que as regulamentações do mercado de trabalho tenham muito a ver com a criação do elevado e persistente desemprego europeu, é quase politicamente impossível e economicamente incorrecto eliminar todos os tipos de protecção laboral. […] Não há dúvida de que os sindicatos têm um papel a desempenhar numa sociedade democrática. O problema é que, muitas vezes, exorbitam o seu dever de representar os trabalhadores junto dos patrões e abusam do sistema. Em muitos países, os sindicatos desempenham um papel político. Sentam-se à mesa dos governos e negociam directamente a política económica. […] Os governos europeus têm de ter a coragem de fazer frente aos sindicatos que se comportam como lóbis e que defendem grupos relativamente privilegiados de trabalhadores.»(5)

Segundo exemplo, da autoria de Kenneth Rogoff:

«Irá o ressurgimento político dos sindicatos desviar o curso da globalização? Ou será que a sua crescente força vai servir para tornar a globalização mais sustentável? […] A influência cada vez maior dos sindicatos é evidente em muitos acontecimentos: […]. Juntamente com a sua influência política, está também a ressurgir a respeitabilidade intelectual dos sindicatos. Após décadas de menosprezo por parte dos economistas, […], o movimento sindical recebe neste momento apoio de líderes respeitados como Paul Krugman, que defende que é necessário que haja sindicatos mais fortes para impedir os piores excessos da globalização. […] Para os países ricos, a redistribuição de rendimentos é muito mais bem conseguida pelo sistema fiscal e de benefícios, do que pelos decretos governamentais para fortalecer os sindicatos. […] Para os países com rendimento médio a questão é mais complicada. Mas, também aí, aumentar os direitos legais e estatutários dos trabalhadores, e, ao mesmo tempo, permitir que a maior parte dos sindicatos se extinguisse, parece ser a abordagem certa.(6)»

Esta argumentação tem vários problemas. (…)

(Continue a ler este artigo na p. 4 da edição de Fevereiro do Le Monde diplomatique.)

Por ANDRÉ FREIRE *

* Professor de Ciência Política, ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa), Lisboa.

sexta-feira 22 de Fevereiro de 2008


Sindicalismo e globalização: novos desafios

O sindicalismo na encruzilhada

(excerto)

Perante as convulsões que o mundo do trabalho tem vindo a sofrer e face ao crescente ataque ao sindicalismo por parte de governos e patrões do mundo inteiro, importa realçar o significado histórico e social do movimento sindical, e reflectir criticamente – com objectividade, mas assumindo uma perspectiva de esquerda e politicamente empenhada – sobre os problemas e desafios da acção sindical hoje, tendo presente o papel fundamental dos sindicatos no conjunto da sociedade, designadamente no contexto europeu e português. É esse o objectivo deste texto(1).

O movimento operário emergiu, como se sabe, na sequência de um conjunto de convulsões que marcaram a Europa da era moderna. Foram as duras condições impostas pelo capitalismo selvagem do século XIX que fizeram emergir o operariado como classe. A classe operária (a inglesa, que serviu de modelo) não surgiu, como por vezes se pensa, animada fundamentalmente por objectivos progressistas, revolucionários ou emancipatórios mas, em boa medida, a partir de lutas desencadeadas em nome da defesa da comunidade e muitas vezes contra a inovação técnica, como foi o caso do movimento ludista.

Porém, nem a resistência dos trabalhadores à inovação e ao progresso técnico nem a acção reivindicativa são suficientes para que estejamos perante um movimento social. Este requer a combinação dos princípios de identidade (um sentimento de pertença ao colectivo ou à classe), oposição (a identificação de um adversário) e totalidade (uma perspectiva que conjugue os interesses dos filiados com os objectivos mais gerais de luta contra a opressão). Convém no entanto não esquecer que a acção sindical foi desde sempre (e continua a ser) pautada pela diversidade. Embora a actividade sindical tenha raízes fortes no movimento operário, isso não significa que todo o sindicalismo seja de movimento. Alguns teóricos clássicos do movimento sindical, como o casal Sidney e Beatrice Webb, sublinharam acima de tudo a vertente economicista, reivindicativa e funcional dos sindicatos – o chamado «sindicalismo de mercado» –, que efectivamente deu lugar às modalidades mais corporativas e institucionais do sindicalismo moderno. (…)

(Continue a ler este artigo na p. 5 da edição de Fevereiro do Le Monde diplomatique)

Por ELÍSIO ESTANQUE *

* Professor do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Redactor do blogue http://boasociedade.blogspot.com

terça-feira 19 de Fevereiro de 2008


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Foi lançada uma nova Campanha de Assinaturas, que inclui a oferta do livro Atlas do Ambiente do Le Monde diplomatique,

que tem saída prevista para o próximo mês de Março, a quem assinar ou renovar a assinatura do jornal (excepto assinaturas de estudante).
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Mais informações em

http://pt.mondediplo.com

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sábado, 26 de janeiro de 2008

Classe Média na Alemanha esmagada


Le Monde: Alemanha reduz salários e esmaga classe média


Onze por cento! Isso nunca tinha acontecido desde a inflação de dois dígitos dos "trinta gloriosos", como é chamado o período de forte crescimento econômico na maioria dos países desenvolvidos entre 1945 e 1973. Aliás, 11% foi o aumento das remunerações, que incluiu todas as modalidades, conquistado pelos maquinistas de trens alemães em 13 de janeiro, após vários meses de um conflito social que teve o seu auge com uma paralisia total do tráfego por dois dias, em novembro de 2007. "Nós temos a consciência de estar escrevendo a história", afirma sem hesitação Thomas Huppeld, um dos dirigentes do sindicato GDL em Frankfurt.


Por Daniel Vernet, do Le Monde



Escrever a história? A expressão pode parecer excessiva. Entretanto, ela define adequadamente um movimento social diferente dos outros. Os maquinistas de trens apresentaram uma imagem fora do comum do sindicalismo alemão, distante daqueles "apparatchiks" de terno e gravata que freqüentam os conselhos de administração em nome da co-gestão e negociam de igual para igual com o patronato. Considerada até hoje como o último recurso, a greve também precisa ser tão organizada quanto os relacionamentos sociais. Lênin já havia constatado, não sem ironia, nos anos 1910, que os ferroviários alemães, antes de ocuparem as vias durante um movimento grevista, compravam um tíquete que dava acesso às plataformas.


Nada disso aconteceu desta vez. O que se viu foram estações vazias e milhares de usuários obrigados a ficarem em casa ou a recorrerem a outros meios de transporte. Tudo levava a crer que esses viajantes barrados se mostrariam furiosos diante da falta de respeito pelas convenções sociais, que eles teriam denunciado, da mesma forma que na França onde os ferroviários estavam em greve mais ou menos na mesma época, e tiveram o seu movimento criticado como sendo uma insuportável "transformação do cidadão num refém".


Mas não foi o que aconteceu. A opinião pública alemã deu mostras de uma grande compreensão pelos grevistas. Em todo caso, bem maior do que aquela mostrada pelo Partido Social-Democrata (SPD) e pela grande central sindical DGB. A esquerda moderada enxergou nesta greve um perigo de "corporativismo", um risco de esmigalhamento das reivindicações, além de um questionamento das grandes negociações, categoria por categoria, que fizeram a força do sindicalismo alemão. "Eu não posso aceitar que um grupo de assalariados busque vantagens exclusivamente para si mesmo", explica Jürgen Bothner, um dirigente regional do sindicato dos serviços públicos, o Ver.di. "Isso é muito perigoso, porque alguns desses grupos têm um poder mais importante de causar prejuízos e podem obter resultados mais facilmente do que os outros, em detrimento da solidariedade".


No mundo político, as únicas entidades que apoiaram os grevistas foram o Partido Liberal e a esquerda radical, ambas da oposição à grande coalizão dirigida por Angela Merkel. Nesse sentido, Willi von Ooyen, que encabeçou a lista do Linkspartei (a esquerda radical) nas eleições regionais de Hesse, em 27 de janeiro, afirma não desconhecer os riscos de haver uma greve corporativista, mas sublinha também que o movimento dos maquinistas afirmou a sua "identificação com uma profissão", orgulho da classe operária que tem sido maltratada nos últimos anos pelas diversas formas de trabalho precário.


Este conteúdo simbólico embutido na greve do setor ferroviário explica o amplo apoio que lhe foi dado pela opinião pública. Para muitos alemães, o limite do suportável foi alcançado na soma de todos os sacrifícios que têm sido exigidos ao longo dos últimos quinze anos. No momento em que a chanceler proclama que "o reaquecimento já chegou", poucos chegaram a sentir os seus efeitos. O slogan que foi popularizado por Gerhard Schröder, chanceler de 1998 a 2005 - "quando a indústria alemã vai bem, o operário alemão vai bem", uma versão germânica da expressão francesa "quando a construção civil vai bem, tudo vai bem" - não se verifica mais na atualidade. A idéia tradicional de que um operário especializado da indústria deveria ser bem remunerado foi minada pela globalização, as deslocalizações industriais e o desenvolvimento dos empregos precários. Aliás, segundo um sindicalista, as diversas formas de flexibilidade do trabalho mataram o próprio conceito de profissão.


As estatísticas mostram que a Alemanha se tornou um país de baixos salários, se comparado com outros países europeus. Esta constatação, que contradiz um grande número de clichês, pode ser explicada pela conjunção de diversos fatores, pelas medidas que foram tomadas pelo governo, entre outras a Agenda 2010, que havia sido preparada pela coalizão "Vermelha e Verde" liderada por Gerhard Schröder, e que foi mantida pela grande coalizão dos democrata-cristãos e dos social-democratas.


Ela também pode ser explicada pelo crescimento do desemprego no decorrer dos anos 1990, pelo recurso ao emprego de meio-período, cujas vagas foram multiplicadas por dois em dez anos, os contratos de duração determinada e pela terceirização de certas tarefas. Assalariados que foram demitidos são incentivados a fundarem a sua própria empresa e a fornecerem os seus serviços para o seu antigo empregador, por uma quantia inferior àquela da sua remuneração anterior. Ou ainda, companhias demitem os seus empregados e os recontratam para trabalharem numa filial criada para esta finalidade, com salários mais baixos, horários mais extensos e em condições mais severas.


Esta situação tem como outra conseqüência o enfraquecimento dos sindicatos. Desde os dias que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, o modelo alemão (criado então pela Alemanha Ocidental) estava baseado no equilíbrio entre as associações de empregadores e os sindicatos de assalariados. O próprio vocabulário utilizado refletia esta suposta paridade. O tradicional confronto entre os patrões e os trabalhadores colocados frente a frente deixara de existir, sendo substituído por negociações entre os "Arbeitgeber" e os "Arbeitnehmer", os fornecedores de trabalho e os prestadores de trabalho. Esta nova situação foi chamada de "a autonomia dos parceiros sociais". Atualmente, muitas empresas passaram a dispensar este sistema que implicava em convenções coletivas setoriais e regionais, e até mesmo nacionais. O mesmo movimento está incentivando o aparecimento de sindicatos de categorias, tais como o GDL dos maquinistas de trens, que podem chegar a conquistar sucessos pontuais como resultados de conflitos duros, mas que parecem incongruentes no país da greve controlada e do compromisso social.


Dessa forma, vai se concretizando uma ruptura do tecido social consensual que, em conseqüência do milagre econômico do pós-guerra, havia transformado a República Federal numa vasta classe média. Naquela época, não só as diferenças entre os níveis de renda estavam entre as mais reduzidas da Europa Ocidental, como a grande maioria da população também levava um modo de vida homogêneo, que poderia ser qualificado de "pequeno burguês". Havia evidentemente pobres e ricos, mas ninguém era muito pobre ou muito rico, e, em todo caso, os muito ricos não exibiam um modo de vida que ostentava a sua condição. Os sociólogos falavam num "nivelamento social em volta do centro". Hoje, 60% dos alemães continuam se identificando com a classe média, mas o temor do empobrecimento tomou conta desta última. E não é por menos.


"A classe média está derretendo pelas duas pontas", constata o dirigente sindical Jürgen Bothner. "Pelo lado de cima, em que um número reduzido de pessoas vem ganhando cada vez mais, e pelo lado de baixo, no qual um grande número de pessoas vem empobrecendo". Até 2000, os salários nas duas extremidades da escala evoluíam como se fossem duas linhas paralelas. Desde então, as curvas vêm divergindo. Tomando por base o ano de 1992, a renda dos 10% mais ricos da população alemã havia aumentado em 12% em 2000, e em 31% em 2006. Enquanto neste mesmo período, a renda dos 10% mais pobres havia aumentado em 6% em 2000, mas acabou recuando 13% em 2006.


Também em 2000, que foi um ano de forte crescimento econômico (3,2%), o sentimento de equidade estava aumentando. Já, em 2007, apesar de um crescimento de 2,6% e de uma espetacular redução do desemprego, ele está diminuindo. Isso porque os frutos do crescimento estão sendo mal distribuídos, e isso de uma forma que está se tornando cada vez mais aguda. A reforma das alocações de desemprego, associada ao nome do antigo diretor dos recursos humanos da Volkswagen, Peter Hartz, e principalmente a reforma conhecida como Hartz 4, que combina as indenizações de desemprego com formas de ajuda social, acelerou o processo de empobrecimento. O número de crianças pobres, isto é, aquelas cujos pais são obrigados a viver com menos da metade da renda média, alcançou 2,5 milhões. Com a reforma Hartz 4, as famílias recebem a quantia irrisória de 2,39 euros (R$ 6,29) por dia, como ajuda para a alimentação, e de 1,79 euro (R$ 4,71) por mês para a compra de material escolar!


Assim, não surpreende que os salários elevados dos dirigentes de empresa, as stock-options, as indenizações por demissão, e, sobretudo, a atribuição dessas vantagens àqueles que fracassaram em sua missão, choquem o grande público, os homens políticos e as Igrejas, que permanecem até hoje uma força moral e exercem uma missão caritativa oficial. "Aquele que exige sacrifícios dos seus colaboradores deve se perguntar se é judicioso conceder a si mesmo generosos aumentos de salário", declarou o presidente da República, o democrata-cristão Horst Köhler.


Em determinado momento, a chanceler Angela Merkel estudou até mesmo estabelecer um teto para as remunerações dos chefes de empresa. Só que ela não demorou a dar marcha-ré. Mas ela não conseguiu impedir que se desenvolvesse um debate em torno da instauração de um salário mínimo. Alvos de zombaria por parte da oposição liberal, que acreditou detectar na sua iniciativa resquícios do socialismo à moda da Alemanha Oriental, os democrata-cristãos decretaram a implantação de um salário mínimo nos Correios. O SPD recuperou por conta própria a reivindicação sindical de um salário mínimo generalizado a 7,50 euros (R$ 19,75) a hora de trabalho, ou seja, pouco mais de 1.200 euros (R$ 3.160) por mês. O ministro (social-democrata) do trabalho, Olaf Scholz, está preparando uma lei nesse sentido, apesar da oposição do patronato. Este último está agitando a ameaça de uma nova disparada do desemprego e exige que a instauração de salários mínimos por categoria seja decidida por meio da negociação social. Trata-se de uma maneira de recusar o próprio princípio do salário mínimo, uma vez que o número dos assalariados que deixaram de estar cobertos pelas convenções coletivas está crescendo cada vez mais.


Mas isso não impede que o SPD tenha encontrado nesta questão um tema popular - 75% dos alemães se dizem favoráveis a um salário mínimo, segundo informou a revista semanal "Der Spiegel". Nesse sentido, ele se vale desta proposta para marcar a sua diferença em relação ao seu parceiro na grande coalizão e para trazer de volta à atualidade a questão da justiça social, um antigo cavalo de batalha da social-democracia.

Le Monde Diplomatique e Vermelho - 25 DE JANEIRO DE 2008 - 13h41

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A expansão da imprensa alternativa irreverente


COMUNICAÇÃO
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Diante da extinção do pluralismo1 , publicações modestas tentam voltar a dar ao jornalismo algum colorido e alguns valores. Sob as mais variadas formas, os pequenos jornais independentes defendem a ambição de sempre preferir a sátira à reverência.
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Philippe Descamps
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São dezenas de jornalistas, amadores e profissionais, que tentam a aventura da independência, como no jornal de bairro, L’Ami du 20e, que circula desde 1946
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“A imprensa mente muito, isso é sabido. É grave. Menos grave, no entanto, do que esse flagelo que atinge milhões de pessoas sem que isso mexa com uma palha no microcosmo parisiense2 .” Semanalmente, em Villeneuve-sur-Lot, Anne Carpentier e seus colegas atormentam, nas páginas de La Feuille, oficiais de justiça, banqueiros, políticos corruptos ou patrões salafrários que impõem essa “taxa sobre a miséria agregada” atingindo operários demitidos, agricultores arruinados e microempresas abandonadas. Desde 1976, esse jornal, com uma circulação de 5 mil exemplares, coloca suas colunas a serviço dos leitores “à beira de um ataque de nervos” numa região tão minada pelas desigualdades quanto tantas outras.
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São dezenas de jornalistas, amadores e profissionais, que tentam a aventura da independência3 . Desde um jornal de bairro, como L’Ami du 20e, que circula desde 1946, aos de pequenas comunas ou cantões, como L’Oursaint ou Le CANeTON déchaîné, e aos regionais ou mesmo nacionais, como i<> ou Liquidation totale, todos eles se entregam a um movimento de espontânea gozação para, afinal, ser possível ler coisas sérias. Muitos deles exploram temas abandonados: La Vache qui lit/i<>Brisons nos chaînes propõe um olhar “dissidente” sobre a televisão, os gozadores de PLPL apuram as tramóias de um partido da imprensa e do dinheiro (Parti de la Presse et de l’Argent), La Décroissance defende uma atitude solidária contra a “propaganda publicitária”. Todos eles deixam de lado matérias sobre esporte ou polícia, exceto quando estas envolvem aspectos sociais.
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“Dar a palavra a quem não tem”
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As equipes podem ser muito reduzidas, como os dois colaboradores do Mouton fiévreux, de Laval, que publica, seis vezes por ano, um panfleto progressista de trinta e duas páginas numa das regiões mais conservadoras da França. Na região do Auvergne, La Galipote reúne cerca de sessenta colaboradores. E quando propõem um dossiê sobre transgênicos (organismos geneticamente modificados), o leitor dispõe de cerca de trinta textos em quinze páginas, com abordagens e esclarecimentos tanto locais, quanto internacionais.
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Os jornalistas dessas publicações têm opiniões variadas, mas não querem fazer uma imprensa editorializada, de comentários. Se concentram nos fatos
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“Dar a palavra a indivíduos, ou grupos, que não a têm” é o refrão de La Mée socialiste, de Chateaubriand (departamento de Loire-Atlantique). A equipe pretende dar o direito de expressão às pessoas que têm dificuldade para escrever ou não o podem fazer sem correr o risco de represálias na empresa em que trabalham. Le Ravi é um jornal que nasceu em Marselha, a partir da necessidade de um grupo de sociólogos e de sua frustração diante da pobreza de informações que circulam nas regiões de Provence e Côte d’Azur. “Existe uma incapacidade de explicar por completo algumas questões”, explica Étienne Ballan, mencionando, por exemplo, “os impasses da imprensa local diante do clientelismo”.
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Estes leitores insatisfeitos consideram a imprensa muito indulgente para com as instituições e muito indiferente em relação à condição humana. Os jornais independentes nascem devido a uma necessidade de expressão, mas também de informação. Em Montreuil, quando o programa “Enviado Especial”, realizado pela emissora France 2 em junho de 2004, investigava “a escalada do anti-semitismo”, o jornal Le Poivron reuniu depoimentos para demonstrar a “manipulação” e a injusta difamação de um colégio. Em Nantes, a publicação La lettre à Lulu divulgou a coluna “Top 44”, atribuindo uma pontuação aos caciques da região em função do número e do destaque de suas fotos na imprensa local.
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Só fatos sociais e locais

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Os jornalistas dessas publicações têm opiniões variadas, mas não querem fazer uma imprensa editorializada, de comentários. Sua motivação decorre da capacidade de veicular informações que não podem ser lidas em qualquer outro lugar. “Fatos, só fatos, sociais e locais”, martela François Ruffin. Ao publicar uma reportagem sobre o hospital psiquiátrico de Amiens, o jornal Fakir espera também refletir o estado da psiquiatria na França.
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“Fazia falta, e talvez continue fazendo, um jornal polêmico, com informação”, explica Olivier Cyran. A equipe de CQFD considera que discute o movimento social com liberdade total, inclusive mexendo com certos ícones do movimento de contestação da globalização liberal. A publicação, mensal, também teve origem, segundo François Maliet, numa leitura crítica da imprensa militante: “A denúncia da indignação pode se tornar maçante. O mundo já não tem nada de engraçado. Pode se falar do assunto, mas com um certo distanciamento, sem procurar a auto-comiseração.”

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A seriedade do humor

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“Fazia falta, e talvez continue fazendo, um jornal polêmico, com informação”, explica Olivier Cyran.



Quanto mais significativo o assunto, mais dá lugar à ironia. As charges, raras e com pouco espaço nos jornais diários, reencontram sua liberdade na imprensa independente. “Elas sintetizam, numa imagem desconcertante de sentimentos confusos, aquilo que uma torrente de palavras não conseguiria circunscrever. Transformam um simples berro num espetáculo de fogos de artifício”, dizia La Galipote por ocasião de seu 25º aniversário, comemorado com uma edição exclusivamente de desenhos.
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“O humor, as charges e a sátira são indissociáveis da seriedade da informação. A passagem à informação deve ser feita graças ao humor”, explica Michel Gairaud, do jornal Ravi. Já Nicolas de la Casinière, de Lettre à Lulu, afirma: “Não existe um comentário subentendido ou um delírio infantil sem uma informação que o sustente. Por outro lado”, acrescenta, “um pouquinho de má fé não prejudica ninguém. Lulu é um jornal mal-comportado, uma espécie de pivete abusado que diz em voz alta coisas que nem sempre são agradáveis de serem ouvidas.”
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Prova de fé no jornalismo
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Embora todos eles sejam críticos, quando comparados com os profissionais dos jornais comuns, os redatores dessa imprensa diferente e satírica fazem, de maneira geral, uma verdadeira prova de fé no jornalismo. Acreditam, com sinceridade, que a publicação de determinado tipo de informações sólidas representa um progresso para a democracia.
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Apesar do crescimento das vendas de Satiricon (5.500 exemplares), Pierre Samson receia não ter energia suficiente para manter o moral de sua equipe por muito tempo. Muitos jornais independentes desaparecem devido ao cansaço, ou por desentendimentos entre o pequeno grupo que o dirige. No entanto, muitas de suas aventuras persistem. O tempo de existência de todas essas publicações é, muitas vezes, maior do que o de muitos jornais ortodoxos que superestimam seu potencial de venda e de anúncios.
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“O humor, as charges e a sátira são indissociáveis da seriedade da informação. A passagem à informação deve ser feita graças ao humor”, explica Michel Gairaud

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“O trabalho voluntário é uma dificuldade. Mas também é a fonte de nossa força. A força de nossas convicções”, afirma a equipe de La Mée. Trabalhando desde 1972, a redação desse jornal consegue a façanha de editar um semanário de doze a dezesseis páginas, bem informado, sem qualquer remuneração. Todas as noites de sexta-feira, os principais artigos são relidos por seis pessoas. A diagramação e a impressão são feitas nos finais de semana.

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Coletivo de voluntários

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A imprensa independente baseia-se, fundamentalmente, num coletivo de voluntários. Pesquisando entre cerca de trinta títulos (com uma circulação que varia de 80 a 40 mil exemplares), constata-se que apenas dois são editados por empresas formalmente registradas e menos da metade têm condições de remunerar parte da equipe. Além do mais, a maioria é contratada mediante contratos incentivados pelo governo4 . La Feuille, de Villeneuve-sur-Lot, é o único jornal que dispõe de uma equipe de seis pessoas totalmente assalariadas.

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Entretanto, é cada vez maior o número de jornalistas profissionais que se interessa por esse tipo de imprensa. Egresso do prestigioso Centro de Formação de Jornalistas (CFJ), sobre o qual escreveu um livro revelando os bastidores5 , François Ruffin voltou para Amiens, retomando seu trabalho no jornal Fakir. Michel Gairaud acaba de ser contratado pelo jornal Le Ravi após ter estudado no Centro Universitário de Ensino de Jornalismo de Strasbourg e ter vivido uma longa experiência na imprensa nacional (La Croix e Témoignage Chrétien). Após sua formatura, Olivier Cyran trabalhou dez anos no semanário Charlie Hebdo antes de participar do CQFD, onde trabalha atualmente. Lettre à Lulu conta com a participação de correspondentes nacionais. Vários jornalistas da imprensa regional colaboram, abertamente ou de maneira discreta, com os jornais Satiricon, Le Ravi e La Galipote, muitas vezes para divulgarem matérias censuradas ou que suas próprias redações consideram irrelevantes. Outros, como Guy Nanteuil, vindo do Sud-Ouest, gostariam de participar de La Feuille.

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Na redação do CQFD, pretendem lutar contra a hierarquia. Não existe editor. Três jornalistas participam, em tempo quase integral (apenas um é remunerado), da Comissão de Redação e têm um mandato de “releitura”. “De qualquer maneira, teríamos que enfrentar o trabalho precário”, explica François Maliet. “Pretendemos, eventualmente, mudar essa situação. Mas somos bastante críticos em relação a salários; uma ajuda de custos seria o suficiente.”


A falta das grandes reportagens

A denúncia da indignação pode se tornar maçante. O mundo já não tem nada de engraçado. Pode-se falar do assunto, sem procurar a auto-comiseração
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Michel Gairaud, único jornalista remunerado da redação de Le Ravi, vê alguns limites no modelo associativo: “Nossa liberdade real, do ponto de vista editorial, é freada por nossos compromissos diários, que restringem nosso trabalho de investigação” Etienne Ballan tem a esperança de reunir jornalistas que tenham condições de investir vários meses para levantar uma reportagem, oferecendo-lhes espaço para publicar as matérias mediante remuneração. Bruno Jalabert, um veterano do jornal La Cuvette, de Grenoble, acredita numa “exceção da informação”. Sonha com um estatuto específico para o jornalismo, com o qual fosse permitido aos free lancers lançarem-se a reportagens de fôlego.
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As assinaturas (que variam de 5% a 80% das vendas, conforme o jornal) permitem garantir um mínimo de dinheiro em caixa para organizar a redação e a gráfica. Mas, acima de 500 ou mil exemplares, a circulação é feita em bancas de jornal. Para os novatos, a venda em banca, embora indispensável, muitas vezes tem que ser acompanhada pela venda avulsa, em mesas de bar ou durante eventos, que têm que ser acompanhados. Para garantir a maior presença possível, deve se contar com um encalhe alto e saber ganhar no papo os donos das bancas. Também é importante ter visibilidade nas livrarias maiores, que vendem jornais e revistas. O jornal CQFD, por exemplo, que tem circulação nacional, mobilizou seus leitores para verificarem se as pilhas de jornais não ficavam esquecidas em algum canto.
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Um jornal também se deve impor um mínimo de disciplina para atender às expectativas de seus leitores. Estar inscrito na Comissão Paritária, que permite tarifas postais preferenciais e diminuição dos encargos fiscais (TVA de 2,1%), assim como recompensar quem publique pelo menos um número por trimestre6 .

Os riscos com a Justiça

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O recurso à publicidade continua raro. Os anunciantes, de maneira geral, preferem as publicações insossas. Embora La Feuille tenha conseguido atingir 60% de seu faturamento graças à publicidade, os primeiros resultados verificados com a distribuição demonstraram que perdera seus principais clientes: “Quanto menos publicidade temos, maior é o número de leitores”, garante Anne Carpentier.
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Muitos jornais independentes desaparecem devido ao cansaço, ou por desentendimentos entre o pequeno grupo que o dirige, mas suas aventuras persistem

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No dia 2 de julho de 2004, despencou a lâmina da guilhotina sobre o jornal Pumpernickel. O tribunal condenou seu redator Antoine Michon por difamação contra o prefeito de Wissembourg, Pierre Bertrand. Em primeira instância, ele fora punido com uma multa de 600 euros (cerca de 2.300 reais) com direito a sursis. Desta vez, entretanto, a multa, os custos por perdas e danos e as despesas judiciais chegaram a 5.350 euros (mais de 20 mil reais), o que equivale às despesas acumuladas do jornal desde sua fundação, há nove anos7 .

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Mesmo com uma tiragem tão limitada quanto os 750 exemplares do jornal de Wissembourg, a imprensa alternativa tem que defender freqüentemente sua independência na justiça. O nanico Dauphin libre, com algumas dezenas de leitores, foi condenado por concorrência injustificável pelo gigante Dauphiné libere, com suas centenas de milhares de exemplares. Teve que abrir mão do título, tornando-se Cétacé libre.

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Avalanche de processos

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Muitos jornais foram, ou estão sendo, processados por difamação (Fakir, Tonic, Le Ravi, La Lettre à Lulu, La Mée, CQFD etc.). Os primeiros processos podem desestabilizar redações pouco acostumadas com ações judiciais. Com apenas um ano de existência, Le Ravi teve que explicar a um juiz, no mês de setembro, por que havia comparado o prefeito de Menton com o ex-prefeito de Cannes8 . Antes das eleições municipais de 1995, o desenhista Pierre Samson quis publicar um jornal para romper com o consenso que prevalecia na cidade de Toulouse. Satiricon deu o azar de criticar o prefeito, Dominique Baudis, que exigiu uma multa de 50 mil francos por um texto que gozava do serviço social da cidade. O jornal foi forçado a continuar existindo para pagar a multa. Existe até hoje e continua tendo que publicar as informações e os trâmites judiciais envolvendo, justamente, aquele serviço social...

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Às vezes, as exigências de indenizações e juros são tão grandes que podem levar um jornal ao fechamento. Marc Gentilini, por exemplo, presidente da Cruz Vermelha, reivindica uma indenização de 35 mil euros (mais de 130 mil reais) por parte do “jornal de desempregados” CQFD, embora já tenha manifestado seu direito de resposta9 . “Num processo, quando a gente perde, perde tudo e quando ganha, não ganha nada”, diz François Ruffin, preocupado. O jornalista do Fakir ganhou, em primeira instância, o processo que lhe moveu o chefe da agência local do Courrier Picard, que não gostou de ter sido caricaturado como bajulador e exigia uma indenização de 30 mil euros (115 mil reais) 10 .


A avalanche de processos contra a imprensa independente revela sua capacidade de acertar o alvo e incomodar


A avalanche de processos contra a imprensa independente chama mais a atenção porque as ações judiciais são raras na imprensa regional – e excepcionais, no caso do rádio e televisão. Isso é menos revelador da inexperiência, por parte dos jornais independentes, do que de sua capacidade de acertar o alvo e incomodar. Pois muitos desses processos são ganhos. Os jornalistas que não fazem concessões aprendem mais rapidamente que os outros a verificar e confirmar suas informações. De 1976 até hoje, La Feuille foi processado vinte vezes e seu advogado, Michel Zaoui, ganhou dezoito dessas ações. Leitores do jornal compareceram várias vezes perante o tribunal, em sua defesa. Atualmente, as ações judiciais são mais raras. La Feuille conseguiu se fazer respeitar e impôs seu tipo de jornalismo. “Ao adotar um tom mordaz e pouco respeitos para com as autoridades, devemos estar preparados para todo tipo de ameaças”, conclui Nicolas de la Casinière, de Lettre à Lulu. Seu jornal já ganhou quatro processos.

Isolamento da dissidência


O isolamento da dissidência também se manifesta pelo silêncio dos colegas. As informações da imprensa independente raramente são analisadas pela imprensa regional. “Ninguém discute nossas matérias no âmbito local, o que é uma prova de qualidade”, ironiza Pierre Samson. Com um olhar mais distante, a imprensa nacional mostra-se, às vezes, mais amigável. Os jornalistas da imprensa tradicional, ou empregados do serviço público, ou dos grandes jornais regionais, queixam-se de não terem tempo, nem recursos, para fazer reportagens como aquelas... que produzem os voluntários. Nem sequer procuram verificar informações de interesse geral, quando estas são reveladas por seus colegas “amadores”.
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Para romper esse isolamento, vários jornais realizaram um encontro no dia 1º de abril de 2004, em Wissembourg, para dar seu apoio ao Pumpernickel e fazer algumas reivindicações em matéria de direitos de imprensa. Essa primeira reunião, batizada de “Sathiriton”, deverá ter continuidade no ano que vem, em Bayonne. Todos querem demonstrar à sua maneira que é possível fazer um jornal sem capital, sem subvenções, sem “marketing de redação”; exclusivamente por meio da energia de procurar e publicar informações que interessam aos leitores e cidadãos.

“Vida de verdade”

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Num momento em que o desencanto se abate com tanta freqüência entre os jornalistas, a independência lhes dá asas: “Curiosamente, não me sinto, de forma alguma, desanimada. Minha cidade não é Paris, minhas reuniões profissionais nunca ocorrem durante as chamadas conferências ‘de imprensa’ – das quais fujo, como da peste, assim como evito qualquer tipo de artigo que envolva a discussão das chamadas questões ‘de imprensa’, que jogo rapidamente no lixo, sem mesmo ler para não sujar os olhos. Coquetéis, inaugurações, lançamentos e discursos não me interessam. O que me interessa? Os bípedes à minha volta. As pessoas de verdade da vida de verdade11 .”

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Com 55 anos de idade, Anne Carpentier ainda sabe divertir-se diariamente, em sua pequena cidade da região sudoeste, com seus colegas da Feuille ou com seus leitores. Seu discurso e as inúmeras matérias que apurou e publicou representam uma contribuição mais fértil para novas vocações do que os remorsos do New York Times, as viagens de correspondentes de guerra sem informações ou as matérias fotocopiadas de grandes repórteres a reboque de processos judiciais.

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(Trad.: Jô Amado)

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1 - No dia 8 de julho de 2004, Serge Dassault tornou-se o novo presidente da Socpresse. Político de direita, ele é dono do grupo Dassault (conhecido também por seus aviões), que já controla Le Figaro e inúmeros jornais regionais, o semanário L’Express, a revista L’Expansion e mais 14 títulos, tornando-se, por meio de sua empresa Socpress, o principal grupo de imprensa diária da França.
2 - Ler, de Anne Carpentier, Petit précis de revolte élémentaire, contre la “taxe sur la misère ajoutée” , ed. Albin Michel, Paris, 2004.
3 - Você poderá encontrar cerca de 30 publicações citadas no site do Monde diplomatique: www.monde-diplomatique.fr A revista Silence atualiza, a cada dois anos, um “anuário da imprensa diferente”, com amplo destaque para os assuntos de cunho ecológico: http://www.revuesilence.net/
4 - Para combater o desemprego, o governo francês incentiva financeiramente empresas e assalariados (algo do tipo do "primeiro emprego" no Brasil), com isenções fiscais.
5 - Ler, de François Ruffin, Les petits soldats du journalisme, ed. Les Arsènes, Paris, 2003.
6 - O site da Direction du Développement des Médias, vinculado ao gabinete do primeiro-ministro, divulga as condições determinadas pela Comissão Paritária das publicações e agências noticiosas (CPPAP): www.ddm.gouv.fr
7 - Leia, na íntegra, as informações sobre o caso no site: pumper.nickel@laposte.net
8 - Leia a edição nº 5 no site: www.leravi.org
9 - A audiência está marcada para o próximo dia 16 de novembro perante a câmara correcional do tribunal de Paris. Os artigos em questão e a resposta de Gentilini poderão ser lidos no site: www.cequilfautdetruire.org
10 - Após a audiência de 9 de junho de 2004, o tribunal de Paris irá julgar o recurso no próximo dia 15 de setembro. Para uma informação detalhada, veja o site: www.fakirpresse.info
11 - Petit précis de révolte élémentaire, op. cit.

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in Le Monde Diplomatique - BR 2004

imagem retirada de a palavra latina

jornal associado de Portal Resumen Latinoamericano

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

A expansão da imprensa alternativa irreverente

COMUNICAÇÃO

A expansão da imprensa alternativa irreverente

Diante da extinção do pluralismo1 , publicações modestas tentam voltar a dar ao jornalismo algum colorido e alguns valores. Sob as mais variadas formas, os pequenos jornais independentes defendem a ambição de sempre preferir a sátira à reverência

Philippe Descamps

São dezenas de jornalistas, amadores e profissionais, que tentam a aventura da independência, como no jornal de bairro, L’Ami du 20e, que circula desde 1946

“A imprensa mente muito, isso é sabido. É grave. Menos grave, no entanto, do que esse flagelo que atinge milhões de pessoas sem que isso mexa com uma palha no microcosmo parisiense2 .” Semanalmente, em Villeneuve-sur-Lot, Anne Carpentier e seus colegas atormentam, nas páginas de La Feuille, oficiais de justiça, banqueiros, políticos corruptos ou patrões salafrários que impõem essa “taxa sobre a miséria agregada” atingindo operários demitidos, agricultores arruinados e microempresas abandonadas. Desde 1976, esse jornal, com uma circulação de 5 mil exemplares, coloca suas colunas a serviço dos leitores “à beira de um ataque de nervos” numa região tão minada pelas desigualdades quanto tantas outras.

São dezenas de jornalistas, amadores e profissionais, que tentam a aventura da independência3 . Desde um jornal de bairro, como L’Ami du 20e, que circula desde 1946, aos de pequenas comunas ou cantões, como L’Oursaint ou Le CANeTON déchaîné, e aos regionais ou mesmo nacionais, como i<> ou Liquidation totale, todos eles se entregam a um movimento de espontânea gozação para, afinal, ser possível ler coisas sérias. Muitos deles exploram temas abandonados: La Vache qui lit/i<>Brisons nos chaînes propõe um olhar “dissidente” sobre a televisão, os gozadores de PLPL apuram as tramóias de um partido da imprensa e do dinheiro (Parti de la Presse et de l’Argent), La Décroissance defende uma atitude solidária contra a “propaganda publicitária”. Todos eles deixam de lado matérias sobre esporte ou polícia, exceto quando estas envolvem aspectos sociais.

“Dar a palavra a quem não tem”

As equipes podem ser muito reduzidas, como os dois colaboradores do Mouton fiévreux, de Laval, que publica, seis vezes por ano, um panfleto progressista de trinta e duas páginas numa das regiões mais conservadoras da França. Na região do Auvergne, La Galipote reúne cerca de sessenta colaboradores. E quando propõem um dossiê sobre transgênicos (organismos geneticamente modificados), o leitor dispõe de cerca de trinta textos em quinze páginas, com abordagens e esclarecimentos tanto locais, quanto internacionais.

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Os jornalistas dessas publicações têm opiniões variadas, mas não querem fazer uma imprensa editorializada, de comentários. Se concentram nos fatos

“Dar a palavra a indivíduos, ou grupos, que não a têm” é o refrão de La Mée socialiste, de Chateaubriand (departamento de Loire-Atlantique). A equipe pretende dar o direito de expressão às pessoas que têm dificuldade para escrever ou não o podem fazer sem correr o risco de represálias na empresa em que trabalham. Le Ravi é um jornal que nasceu em Marselha, a partir da necessidade de um grupo de sociólogos e de sua frustração diante da pobreza de informações que circulam nas regiões de Provence e Côte d’Azur. “Existe uma incapacidade de explicar por completo algumas questões”, explica Étienne Ballan, mencionando, por exemplo, “os impasses da imprensa local diante do clientelismo”.

Estes leitores insatisfeitos consideram a imprensa muito indulgente para com as instituições e muito indiferente em relação à condição humana. Os jornais independentes nascem devido a uma necessidade de expressão, mas também de informação. Em Montreuil, quando o programa “Enviado Especial”, realizado pela emissora France 2 em junho de 2004, investigava “a escalada do anti-semitismo”, o jornal Le Poivron reuniu depoimentos para demonstrar a “manipulação” e a injusta difamação de um colégio. Em Nantes, a publicação La lettre à Lulu divulgou a coluna “Top 44”, atribuindo uma pontuação aos caciques da região em função do número e do destaque de suas fotos na imprensa local.

Só fatos sociais e locais

Os jornalistas dessas publicações têm opiniões variadas, mas não querem fazer uma imprensa editorializada, de comentários. Sua motivação decorre da capacidade de veicular informações que não podem ser lidas em qualquer outro lugar. “Fatos, só fatos, sociais e locais”, martela François Ruffin. Ao publicar uma reportagem sobre o hospital psiquiátrico de Amiens, o jornal Fakir espera também refletir o estado da psiquiatria na França.

“Fazia falta, e talvez continue fazendo, um jornal polêmico, com informação”, explica Olivier Cyran. A equipe de CQFD considera que discute o movimento social com liberdade total, inclusive mexendo com certos ícones do movimento de contestação da globalização liberal. A publicação, mensal, também teve origem, segundo François Maliet, numa leitura crítica da imprensa militante: “A denúncia da indignação pode se tornar maçante. O mundo já não tem nada de engraçado. Pode se falar do assunto, mas com um certo distanciamento, sem procurar a auto-comiseração.”

A seriedade do humor

“Fazia falta, e talvez continue fazendo, um jornal polêmico, com informação”, explica Olivier Cyran

Quanto mais significativo o assunto, mais dá lugar à ironia. As charges, raras e com pouco espaço nos jornais diários, reencontram sua liberdade na imprensa independente. “Elas sintetizam, numa imagem desconcertante de sentimentos confusos, aquilo que uma torrente de palavras não conseguiria circunscrever. Transformam um simples berro num espetáculo de fogos de artifício”, dizia La Galipote por ocasião de seu 25º aniversário, comemorado com uma edição exclusivamente de desenhos.

“O humor, as charges e a sátira são indissociáveis da seriedade da informação. A passagem à informação deve ser feita graças ao humor”, explica Michel Gairaud, do jornal Ravi. Já Nicolas de la Casinière, de Lettre à Lulu, afirma: “Não existe um comentário subentendido ou um delírio infantil sem uma informação que o sustente. Por outro lado”, acrescenta, “um pouquinho de má fé não prejudica ninguém. Lulu é um jornal mal-comportado, uma espécie de pivete abusado que diz em voz alta coisas que nem sempre são agradáveis de serem ouvidas.”

Prova de fé no jornalismo

Embora todos eles sejam críticos, quando comparados com os profissionais dos jornais comuns, os redatores dessa imprensa diferente e satírica fazem, de maneira geral, uma verdadeira prova de fé no jornalismo. Acreditam, com sinceridade, que a publicação de determinado tipo de informações sólidas representa um progresso para a democracia.

Apesar do crescimento das vendas de Satiricon (5.500 exemplares), Pierre Samson receia não ter energia suficiente para manter o moral de sua equipe por muito tempo. Muitos jornais independentes desaparecem devido ao cansaço, ou por desentendimentos entre o pequeno grupo que o dirige. No entanto, muitas de suas aventuras persistem. O tempo de existência de todas essas publicações é, muitas vezes, maior do que o de muitos jornais ortodoxos que superestimam seu potencial de venda e de anúncios.

“O humor, as charges e a sátira são indissociáveis da seriedade da informação. A passagem à informação deve ser feita graças ao humor”, explica Michel Gairaud

“O trabalho voluntário é uma dificuldade. Mas também é a fonte de nossa força. A força de nossas convicções”, afirma a equipe de La Mée. Trabalhando desde 1972, a redação desse jornal consegue a façanha de editar um semanário de doze a dezesseis páginas, bem informado, sem qualquer remuneração. Todas as noites de sexta-feira, os principais artigos são relidos por seis pessoas. A diagramação e a impressão são feitas nos finais de semana.

Coletivo de voluntários

A imprensa independente baseia-se, fundamentalmente, num coletivo de voluntários. Pesquisando entre cerca de trinta títulos (com uma circulação que varia de 80 a 40 mil exemplares), constata-se que apenas dois são editados por empresas formalmente registradas e menos da metade têm condições de remunerar parte da equipe. Além do mais, a maioria é contratada mediante contratos incentivados pelo governo4 . La Feuille, de Villeneuve-sur-Lot, é o único jornal que dispõe de uma equipe de seis pessoas totalmente assalariadas.

Entretanto, é cada vez maior o número de jornalistas profissionais que se interessa por esse tipo de imprensa. Egresso do prestigioso Centro de Formação de Jornalistas (CFJ), sobre o qual escreveu um livro revelando os bastidores5 , François Ruffin voltou para Amiens, retomando seu trabalho no jornal Fakir. Michel Gairaud acaba de ser contratado pelo jornal Le Ravi após ter estudado no Centro Universitário de Ensino de Jornalismo de Strasbourg e ter vivido uma longa experiência na imprensa nacional (La Croix e Témoignage Chrétien). Após sua formatura, Olivier Cyran trabalhou dez anos no semanário Charlie Hebdo antes de participar do CQFD, onde trabalha atualmente. Lettre à Lulu conta com a participação de correspondentes nacionais. Vários jornalistas da imprensa regional colaboram, abertamente ou de maneira discreta, com os jornais Satiricon, Le Ravi e La Galipote, muitas vezes para divulgarem matérias censuradas ou que suas próprias redações consideram irrelevantes. Outros, como Guy Nanteuil, vindo do Sud-Ouest, gostariam de participar de La Feuille.

Na redação do CQFD, pretendem lutar contra a hierarquia. Não existe editor. Três jornalistas participam, em tempo quase integral (apenas um é remunerado), da Comissão de Redação e têm um mandato de “releitura”. “De qualquer maneira, teríamos que enfrentar o trabalho precário”, explica François Maliet. “Pretendemos, eventualmente, mudar essa situação. Mas somos bastante críticos em relação a salários; uma ajuda de custos seria o suficiente.”

A falta das grandes reportagens

A denúncia da indignação pode se tornar maçante. O mundo já não tem nada de engraçado. Pode-se falar do assunto, sem procurar a auto-comiseração

Michel Gairaud, único jornalista remunerado da redação de Le Ravi, vê alguns limites no modelo associativo: “Nossa liberdade real, do ponto de vista editorial, é freada por nossos compromissos diários, que restringem nosso trabalho de investigação” Etienne Ballan tem a esperança de reunir jornalistas que tenham condições de investir vários meses para levantar uma reportagem, oferecendo-lhes espaço para publicar as matérias mediante remuneração. Bruno Jalabert, um veterano do jornal La Cuvette, de Grenoble, acredita numa “exceção da informação”. Sonha com um estatuto específico para o jornalismo, com o qual fosse permitido aos free lancers lançarem-se a reportagens de fôlego.

As assinaturas (que variam de 5% a 80% das vendas, conforme o jornal) permitem garantir um mínimo de dinheiro em caixa para organizar a redação e a gráfica. Mas, acima de 500 ou mil exemplares, a circulação é feita em bancas de jornal. Para os novatos, a venda em banca, embora indispensável, muitas vezes tem que ser acompanhada pela venda avulsa, em mesas de bar ou durante eventos, que têm que ser acompanhados. Para garantir a maior presença possível, deve se contar com um encalhe alto e saber ganhar no papo os donos das bancas. Também é importante ter visibilidade nas livrarias maiores, que vendem jornais e revistas. O jornal CQFD, por exemplo, que tem circulação nacional, mobilizou seus leitores para verificarem se as pilhas de jornais não ficavam esquecidas em algum canto.

Um jornal também se deve impor um mínimo de disciplina para atender às expectativas de seus leitores. Estar inscrito na Comissão Paritária, que permite tarifas postais preferenciais e diminuição dos encargos fiscais (TVA de 2,1%), assim como recompensar quem publique pelo menos um número por trimestre6 .

Os riscos com a Justiça

O recurso à publicidade continua raro. Os anunciantes, de maneira geral, preferem as publicações insossas. Embora La Feuille tenha conseguido atingir 60% de seu faturamento graças à publicidade, os primeiros resultados verificados com a distribuição demonstraram que perdera seus principais clientes: “Quanto menos publicidade temos, maior é o número de leitores”, garante Anne Carpentier.

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Muitos jornais independentes desaparecem devido ao cansaço, ou por desentendimentos entre o pequeno grupo que o dirige, mas suas aventuras persistem

No dia 2 de julho de 2004, despencou a lâmina da guilhotina sobre o jornal Pumpernickel. O tribunal condenou seu redator Antoine Michon por difamação contra o prefeito de Wissembourg, Pierre Bertrand. Em primeira instância, ele fora punido com uma multa de 600 euros (cerca de 2.300 reais) com direito a sursis. Desta vez, entretanto, a multa, os custos por perdas e danos e as despesas judiciais chegaram a 5.350 euros (mais de 20 mil reais), o que equivale às despesas acumuladas do jornal desde sua fundação, há nove anos7 .

Mesmo com uma tiragem tão limitada quanto os 750 exemplares do jornal de Wissembourg, a imprensa alternativa tem que defender freqüentemente sua independência na justiça. O nanico Dauphin libre, com algumas dezenas de leitores, foi condenado por concorrência injustificável pelo gigante Dauphiné libere, com suas centenas de milhares de exemplares. Teve que abrir mão do título, tornando-se Cétacé libre.

Avalanche de processos

Muitos jornais foram, ou estão sendo, processados por difamação (Fakir, Tonic, Le Ravi, La Lettre à Lulu, La Mée, CQFD etc.). Os primeiros processos podem desestabilizar redações pouco acostumadas com ações judiciais. Com apenas um ano de existência, Le Ravi teve que explicar a um juiz, no mês de setembro, por que havia comparado o prefeito de Menton com o ex-prefeito de Cannes8 . Antes das eleições municipais de 1995, o desenhista Pierre Samson quis publicar um jornal para romper com o consenso que prevalecia na cidade de Toulouse. Satiricon deu o azar de criticar o prefeito, Dominique Baudis, que exigiu uma multa de 50 mil francos por um texto que gozava do serviço social da cidade. O jornal foi forçado a continuar existindo para pagar a multa. Existe até hoje e continua tendo que publicar as informações e os trâmites judiciais envolvendo, justamente, aquele serviço social...

Às vezes, as exigências de indenizações e juros são tão grandes que podem levar um jornal ao fechamento. Marc Gentilini, por exemplo, presidente da Cruz Vermelha, reivindica uma indenização de 35 mil euros (mais de 130 mil reais) por parte do “jornal de desempregados” CQFD, embora já tenha manifestado seu direito de resposta9 . “Num processo, quando a gente perde, perde tudo e quando ganha, não ganha nada”, diz François Ruffin, preocupado. O jornalista do Fakir ganhou, em primeira instância, o processo que lhe moveu o chefe da agência local do Courrier Picard, que não gostou de ter sido caricaturado como bajulador e exigia uma indenização de 30 mil euros (115 mil reais) 10 .

A avalanche de processos contra a imprensa independente revela sua capacidade de acertar o alvo e incomodar

A avalanche de processos contra a imprensa independente chama mais a atenção porque as ações judiciais são raras na imprensa regional – e excepcionais, no caso do rádio e televisão. Isso é menos revelador da inexperiência, por parte dos jornais independentes, do que de sua capacidade de acertar o alvo e incomodar. Pois muitos desses processos são ganhos. Os jornalistas que não fazem concessões aprendem mais rapidamente que os outros a verificar e confirmar suas informações. De 1976 até hoje, La Feuille foi processado vinte vezes e seu advogado, Michel Zaoui, ganhou dezoito dessas ações. Leitores do jornal compareceram várias vezes perante o tribunal, em sua defesa. Atualmente, as ações judiciais são mais raras. La Feuille conseguiu se fazer respeitar e impôs seu tipo de jornalismo. “Ao adotar um tom mordaz e pouco respeitos para com as autoridades, devemos estar preparados para todo tipo de ameaças”, conclui Nicolas de la Casinière, de Lettre à Lulu. Seu jornal já ganhou quatro processos.

Isolamento da dissidência

O isolamento da dissidência também se manifesta pelo silêncio dos colegas. As informações da imprensa independente raramente são analisadas pela imprensa regional. “Ninguém discute nossas matérias no âmbito local, o que é uma prova de qualidade”, ironiza Pierre Samson. Com um olhar mais distante, a imprensa nacional mostra-se, às vezes, mais amigável. Os jornalistas da imprensa tradicional, ou empregados do serviço público, ou dos grandes jornais regionais, queixam-se de não terem tempo, nem recursos, para fazer reportagens como aquelas... que produzem os voluntários. Nem sequer procuram verificar informações de interesse geral, quando estas são reveladas por seus colegas “amadores”.

Para romper esse isolamento, vários jornais realizaram um encontro no dia 1º de abril de 2004, em Wissembourg, para dar seu apoio ao Pumpernickel e fazer algumas reivindicações em matéria de direitos de imprensa. Essa primeira reunião, batizada de “Sathiriton”, deverá ter continuidade no ano que vem, em Bayonne. Todos querem demonstrar à sua maneira que é possível fazer um jornal sem capital, sem subvenções, sem “marketing de redação”; exclusivamente por meio da energia de procurar e publicar informações que interessam aos leitores e cidadãos.

“Vida de verdade”

Num momento em que o desencanto se abate com tanta freqüência entre os jornalistas, a independência lhes dá asas: “Curiosamente, não me sinto, de forma alguma, desanimada. Minha cidade não é Paris, minhas reuniões profissionais nunca ocorrem durante as chamadas conferências ‘de imprensa’ – das quais fujo, como da peste, assim como evito qualquer tipo de artigo que envolva a discussão das chamadas questões ‘de imprensa’, que jogo rapidamente no lixo, sem mesmo ler para não sujar os olhos. Coquetéis, inaugurações, lançamentos e discursos não me interessam. O que me interessa? Os bípedes à minha volta. As pessoas de verdade da vida de verdade11 .”

Com 55 anos de idade, Anne Carpentier ainda sabe divertir-se diariamente, em sua pequena cidade da região sudoeste, com seus colegas da Feuille ou com seus leitores. Seu discurso e as inúmeras matérias que apurou e publicou representam uma contribuição mais fértil para novas vocações do que os remorsos do New York Times, as viagens de correspondentes de guerra sem informações ou as matérias fotocopiadas de grandes repórteres a reboque de processos judiciais.

(Trad.: Jô Amado)

1 - No dia 8 de julho de 2004, Serge Dassault tornou-se o novo presidente da Socpresse. Político de direita, ele é dono do grupo Dassault (conhecido também por seus aviões), que já controla Le Figaro e inúmeros jornais regionais, o semanário L’Express, a revista L’Expansion e mais 14 títulos, tornando-se, por meio de sua empresa Socpress, o principal grupo de imprensa diária da França.
2 - Ler, de Anne Carpentier, Petit précis de revolte élémentaire, contre la “taxe sur la misère ajoutée” , ed. Albin Michel, Paris, 2004.
3 - Você poderá encontrar cerca de 30 publicações citadas no site do Monde diplomatique: www.monde-diplomatique.fr A revista Silence atualiza, a cada dois anos, um “anuário da imprensa diferente”, com amplo destaque para os assuntos de cunho ecológico: http://www.revuesilence.net/
4 - Para combater o desemprego, o governo francês incentiva financeiramente empresas e assalariados (algo do tipo do "primeiro emprego" no Brasil), com isenções fiscais.
5 - Ler, de François Ruffin, Les petits soldats du journalisme, ed. Les Arsènes, Paris, 2003.
6 - O site da Direction du Développement des Médias, vinculado ao gabinete do primeiro-ministro, divulga as condições determinadas pela Comissão Paritária das publicações e agências noticiosas (CPPAP): www.ddm.gouv.fr
7 - Leia, na íntegra, as informações sobre o caso no site: pumper.nickel@laposte.net
8 - Leia a edição nº 5 no site: www.leravi.org
9 - A audiência está marcada para o próximo dia 16 de novembro perante a câmara correcional do tribunal de Paris. Os artigos em questão e a resposta de Gentilini poderão ser lidos no site: www.cequilfautdetruire.org
10 - Após a audiência de 9 de junho de 2004, o tribunal de Paris irá julgar o recurso no próximo dia 15 de setembro. Para uma informação detalhada, veja o site: www.fakirpresse.info
11 - Petit précis de révolte élémentaire, op. cit.

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in Le Monde Diplomatique - BR 2004

gravura retirada de a palavra latina

jornal associado de resumen latino-americano