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sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Mia Couto - Venenos de Deus, remédios do Diabo




 Mia Couto

 Capítulo doze

 

- De onde tu és? - perguntou Deolinda.

- Sou da Guarda.

Ingénua malícia no olhar, ela sussurrou no ouvido de Sidónio Rosa:

- Tu és o meu anjo da guarda.

O riso dela ganhou espessura, inundando-lhe o corpo. Depois, o corpo já não lhe bastava e ela se encostou nele. O português viu as suas defesas desmoronarem. Os braços dele envolveram-na, a medo. Quando deram conta, estavam enleados, sem saber que parte pertencia a um e a outro. A Praça do Rossio, em Lisboa, ficou, de repente, despovoada. Um homem e uma mulher trocavam beijos e o seu amor desalojava a cidade inteira.

- Tens medo de fazer amor comigo?

- Tenho - respondeu ele.

- Por eu ser preta?

- Tu não és preta.

- Aqui, sou.

- Não, não é por seres preta que eu tenho medo.

- Tens medo que eu esteja doente ...

- Sei prevenir-me.

- É porquê, então?

- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti.

Deolinda franziu o sobrolho. Empurrou o português de encontro à parede, colando-se a ele. Sidónio não mais regressaria desse abraço.

- Que olhar é meu nos olhos teus?

Nessa noite se solveram, mãos de oleiro, salvando o outro de ter peso. Nessa noite o corpo de um foi lençol do outro. E ambos foram pássaros porque o tempo deles foi antes de haver terra. E quando ela gritou de prazer o mundo ficou cego: um moinho de braços se desfez ao vento. E mais nenhum destino havia.

- Amar - disse ele - é estar sempre chegando.

Um ano depois, sentado sobre um banco de pedra, o português sente estar ainda chegando a Vila Cacimba enquanto convoca as memórias do encontro com a mulata Deolinda. O que faltava, agora, para que ele se sentisse já chegado?

Lembrou os versos que ele próprio rabiscara na ausência de Deolinda: «Eu sou o viajante do deserto que, no regresso, diz: viajei apenas para procurar as minhas próprias pegadas. Sim, eu sou aquele que viaja apenas para se cobrir de saudades. Eis o deserto, e nele me sonho; eis o oásis, e nele não sei viver.»

Na poesia, haveria oásis e desertos. Mas, em Vila Cacimba, havia apenas uma praça onde um médico estrangeiro se banhava nas lembranças de sua amada. É no meio dessa praça que esse médico aspira o ar fresco e sorri de satisfação: no seu país é outono e, àquela hora, ele estaria submerso entre o frio cinzento.

Esses são os pensamentos de Sidónio Rosa enquanto se dirige a casa dos Sozinhos. Desta vez, porém, não entra. Está um dia demasiado luminoso para ele se adentrar naquele escuro. Ronda a casa, em bicos de pés, e bate na janela do quarto de Bartolomeu. Ensonado, o rosto do velho, inquisitivo, enfrenta a claridade.

- Deixe a janela aberta que é para respirar este arzinho da manhã - convida o médico.

- É uma coisa boa desta nossa Vila: o ar aqui é muito abundante. Isto não é atmosfera. Isto aqui, caro Doutor, é artmosfera.

Passa por eles um grupo de mulheres que saúdam apenas o médico, evitando olhar para o velho sem camisa que se debruça sobre o parapeito da janela.

- Donas mal comidas - resmunga Bartolomeu.

As mulheres da Vila não gostam das manhãs. É o tempo em que os maridos saem de casa. Para Dona Munda sempre fora o oposto. Durante toda a vida aquela tinha sido a melhor parte do dia. A ausência de Bartolomeu só lhe trazia alívio. Agora, tudo se invertera. O marido era uma presença obsidiante, uma espécie de corcunda que pesava sem descanso sobre o seu dorso.

- Gosto de sentir a Vila, assim cedinho – disse  o português. - Gosto de ver como se vai cobrindo de gente.

- Odeio gente - rosnou Bartolomeu.  

- Não tarda que os passeios se encham de vendedeiras.

- Estes não são gente da Vila. Os que o senhor vê por aqui são os que ainda não saíram.

-Hoje está um dia límpido numa vila que se chama Cacimba. Porquê estragar esta luz, meu caro paciente?

- Eles não saíram da Vila. Eu não saí da Vida.

O médico olha o céu e abre os braços como se quisesse abraçar a imensidão. A intenção do gesto é clara: nada alterará o seu bom humor.

- Não quer mesmo entrar, Doutor?

O português argumenta que está de passagem, sem função profissional. O seu afazer, naquele dia, era apenas ser feliz.

- Eu tenho uma curiosidade muito impessoal diz Bartolomeu, após uma pausa.

- O que quer saber?

- Você não veio para A/rica apenas por causa de Deolinda.

- Então, foi porquê?

- Ninguém sai da sua terra só por causa de uma mulher. Você saiu por outro motivo.

- E porquê?

- Por exemplo, porque não era feliz.

Saímos para o estrangeiro quando a nossa terra já saiu de nós. Ele, Bartolomeu Sozinho, sabia disso, calejado que estava de remotos paradeiros.

- Eu não saí de Portugal. Apenas vim buscar uma mulher.

É assim que responde mas, de si para si, reconhece: na sua terra não era feliz. Mais grave ainda: ele não mais sabia o que era o desejo de ser feliz. Em Lisboa estava entre família, no meio de tanta gente conhecida. Quando saiu para África receou que passaria a sofrer de solidão. Todavia, agora sabia: há muito que estava só. Solitário entre parentes e conhecidos. Ou como diz Bartolomeu, há muito que Sidónio Rosa deixara de ter quem o abençoasse.

 -Mundinha disse que o seu pai morreu aqui, em Africa. E verdade?

- É verdade - admitiu o português -, não me vai dizer que venho visitar o espírito dele.

- Os espíritos não se visitam. Nós é que somos visitados.

- De qualquer modo, o corpo do meu velho não mora aqui. Transladaram-no para a terra dele.

O pai de Sidónio tinha-se exilado pouco tempo depois de ele ter nascido. Acreditava estar a fugir do fascismo. Mas a ditadura era apenas a máscara daquilo que ele fugia. Escapava do vazio que está para além dos regimes políticos. Desse mesmo vazio estava fugindo, quarenta anos depois, Sidónio Rosa.

- Pois eu lhe digo: dói mais termos que fugir da democracia ...

- Isso não sei, eu fujo apenas da minha mulher, e  já me chega por motivo.

Por outro lado, o reformado não se importava nada de fugir das Suacelências todas que pululavam no país. Desses, como ele diz, a quem o cu cresce mais que a cadeira.

- Noutro dia, você zangou-se comigo porque eu não o chamava pelo seu nome inteiro. Mas eu conheço o seu segredo.

- Não tenho segredos. Quem tem segredos são as mulheres.

- O seu nome é Tsotsi. Bartolomeu Tsotsi.

- Quem lhe contou isso? De certeza que foi o cabrão do Administrador.

Acabrunhado, Bartolomeu aceitou. Primeiro, foram os outros que lhe mudaram o nome, no batismo. Depois, quando pôde voltar a ser ele mesmo, já tinha aprendido a ter vergonha do seu nome original. Ele se colonizara a si mesmo. E Tsotsi dera origem a Sozinho.

- Eu sonhava ser mecânico, para consertar o mundo. Mas aqui para nós que ninguém nos ouve: um mecânico pode chamar-se Tsotsi?

- Ini nkabe dziua (1).

-Ah, o Doutor já anda a aprender a língua deles?

- Deles? Afinal, já não é a sua língua?

- Não sei, eu já nem sei. ; .

O português confessa sentir inveja de não ter duas línguas. E poder usar uma delas para perder o passado. E outra para ludibriar o presente.

- A propósito de língua, sabe uma coisa, Doutor Sidonho? Eu já me estou a desmulatar.

E exibe a língua, olhos cerrados, boca escancarada. O médico franze o sobrolho, confrangido: a mucosa está coberta de fungos, formando uma placa esbranquiçada.

- Quais fungos? - reage Bartolomeu. - Eu estou é a ficar branco de língua, deve ser porque só falo português ...

O riso degenera em tosse e o português se afasta, cauteloso, daquele foco contaminoso. Quase colide com Suacelência que acaba de cruzar a estrada. O Administrador vem esbaforido e cumprimenta, de forma esquiva, os presentes. Detém-se sob a janela, aproveita a sombra para enxugar meticulosamente o afogueado rosto.

- Então, Excelência - inquire o velho Sozinho - tão cedo e já anda a chatear as moscas?

- Que se passa, Suacelência? - pergunta o português, emendando a indelicadeza do seu paciente.

- A rapaziada da banda eleitoral - suspira, contendo uma emergente onda de fúria -, a rapaziada fugiu com os instrumentos.

- Mas isso é um bambúrrio de azar. Então os bandos roubaram-lhe a banda?

Ignorando o tom irónico da pergunta, o Administrador acena com gravidade. Não se tratava, segundo ele, de um simples furto. Aquilo era uma cabala política, manobra dos inimigos da Pátria.

- Um feiticeiro conhece todos os feiticeiros ... ironiza o velho Sozinho.

- Por que não me respeita, Bartolomeu? A mim que fiz tanto pelo país?

- O país preferia que o senhor não tivesse feito nada.

- Por que não gosta de mim?

- Eu gosto da minha terra, da minha gente. E o senhor gosta de quem?

Contudo, o Administrador já desandou, estrada fora, coxeando levemente. Bartolomeu e Sidónio ficam olhando a figura do dirigente desvanecer-se como se assistissem ao seu ocaso político.

- Sinto pena dele - admite o português.

- Pois eu estou-me merdando para o gajo - remata Bartolomeu.

Ri-se para reafirmar o desprezo. E logo lhe sobrevém um ataque de tosse que o deixa sem respirar.

- Puta de vida - diz -, não vivemos se não nos rimos e depois morremos por nos termos rido - e conclui, após recuperar fôlego: - O Doutor acha que sou uma anormalidade?

O médico olha para o parapeito e estremece de ver tão frágil, tão transitório aquele que é o seu único amigo em Vila Cacimba. O aro da janela surge como uma moldura da derradeira fotografia desse teimoso mecânico reformado.

- Posso fazer-lhe uma pergunta íntima?

- Depende - responde o português.

- O senhor já alguma vez desmaiou, Doutor?

-Sim.

- Eu gostava muito de desmaiar. Não queria morrer sem desmaiar.

O desmaio é uma morte preguiçosa, um falecimento de duração temporária. O português, que era um guarda-fronteira da Vida, que facilitasse uma escapadela dessas, uma breve perda de sentidos.

- Me receite um remédio para eu desmaiar.

O português ri-se. Também a ele lhe apetecia uma intermitente lucidez, uma pausa na obrigação de existir.

- Uma marretada na cabeça é a única coisa que me ocorre.

Riem-se. Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso.

~~~~~~~~

[(') Ini nkabe dziua: expressão que significa «Eu não sei» (língua chisena]

 
~~~~~~~~~~
 
Se apreciaste Mia Couto, a seguir encontras - dele - "O Fio das Missangas"
 
http://srec.azores.gov.pt/dre/sd/115152010600/nova/biblioteca/contador/literatura/O%20Fio%20das%20Missangas.pdf
 
e "Terra Sonâmbula"
 
http://www.casadasafricas.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/09/Livro-Terra-sonambula.pdf

domingo, 29 de abril de 2018

Mia Couto - Primeira palavra

* Mia Couto


Aproxima o teu coração
e inclina o teu sangue
para que eu recolha
os teus inacessíveis frutos
para que prove da tua água
e repouse na tua fronte
Debruça o teu rosto
sobre a terra sem vestígio
prepara o teu ventre
para a anunciada visita
até que nos lábios humedeça
a primeira palavra do teu corpo

(1980)

MIA COUTO, in RAIZ DE ORVALHO E OUTROS POEMAS (Caminho, 2009)

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Mia Couro - Solidão

* Mia Couto


Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso
Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto - in "Raiz de orvalho e outros poemas"

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Mia Couto - Solidão

Mia Couto

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso
Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Sete obras essenciais para conhecer Mia Couto

16 de abril de 2017 - 13h28 

  

Mia Couto é um dos mais aclamados escritores africanos contemporâneos





Mia escreve em diversas formas, mas todas com algo em comum: a sensibilidade. Seus textos traduzem e explicam a alma humana, o que torna impossível para alguém permanecer indiferente após a leitura. É um dos autores africanos mais reconhecidos da atualidade, aclamado em todo o mundo.



Selecionamos sete obras essenciais para entender Mia Couto: 



Poemas escolhidos

Para esta antologia poética, Mia Couto selecionou poemas de seus livros Idades cidades divindades, Raiz de orvalho e outros poemas e Tradutor de chuvas.

Terra sonâmbula

Um ônibus incendiado em uma estrada poeirenta serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, em fuga da guerra civil devastadora que grassa por toda parte em Moçambique. Como se sabe, depois de dez anos de guerra anticolonial (1965-75), o país do sudeste africano viu-se às voltas com um longo e sangrento conflito interno que se estendeu de 1976 a 1992.

O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga os “cadernos de Kindzu”, o longo diário do morto em questão. Qual será a ligação entre estas duas histórias? Um romance escrito numa prosa poética que remete a Guimarães Rosa.

Mulheres de cinza

Apesar do tema duro – a luta, no século 19, de Portugal para “livrar” o sul de Moçambique do domínio do ditador africano Ngungunyane -, o lirismo de Mia Couto transforma a história em algo incrivelmente poético. Muito coerente da sua parte dividir a obra em dois narradores: uma nativa africana e um soldado português. No começo, o leitor fica surpreso com as lendas africanas e consternado com a ingenuidade dos nativos. Contudo, ao longo das páginas, ele percebe que esta ingenuidade está justamente no lado lusitano, que em momento algum entende, de verdade, as nuances do local que deseja tanto conquistar. E o melhor? É apenas o primeiro volume de uma trilogia.

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

O retorno de Marianinho a Luar-do-Chão não é exatamente uma volta às suas origens. Ao chegar à ilha natal, incumbido de comandar as cerimônias fúnebres do avô Mariano – de quem recebeu o mesmo nome e de quem era o neto favorito -, ele se descobre um estranho tanto entre os de sua família quanto entre os de sua raça, pois na cidade adquiriu hábitos de um branco. Aos poucos, Marianinho percebe que voltou à ilha para um renascimento.

O fio das missangas

Em histórias de desencontros, de incompreensões, de vidas incompletas e de sonhos não realizados, Mia Couto condensa as infinitas vidas que podem se abrigar em cada ser humano. São 29 contos unidos como missangas em redor de um fio.

Antes de nascer o mundo

Jesusalém, pequeno local encravado em Moçambique, abriga cinco almas apartadas das gentes e das cidades do mundo. Ali, ensaiam um arremedo de vida: Silvestre e seus dois filhos, Mwanito e Ntunzi, mais o Tio Aproximado e o serviçal Zacaria. O passado para eles é pura negação recortada em torno da figura da mãe morta em circunstâncias misteriosas. E o futuro se afigura inexistente. Mas um belo dia os donos do mundo voltarão para reivindicar a terra de Jesusalém. E não só isso: uma bela mulher também virá para agitar a inércia dos dias solitários daqueles homens.

Estórias abensonhadas

Depois de quase trinta anos de guerra, Moçambique vive agora um período de paz. Numa prosa poética e carregada das tradições orais africanas, o autor tece pequenas fábulas e registros que, sem irromper em grandes acontecimentos, capturam os movimentos íntimos dessa passagem. Fantasia e realidade se entrelaçam e se impõem uma à outra, como num reflexo do próprio continente africano.





Fonte: Estante
http://www.vermelho.org.br/noticia/295676-1

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Miguel Urbano Rodrigues - O mundo impenetrável de Mia Couto

* Miguel Urbano Rodrigues
27.Nov.15 ::

Em duas notas de leitura separadas por três anos, a admiração por um “gigante da literatura” e, ao mesmo tempo, a sensação de mal-estar resultante de não ter penetrado no universo criado pela sua escrita.


Ontem e hoje li A Confissão da Leoa, de Mia Couto.

A opinião sobre o livro surge ligada a uma sensação de mal-estar.

De Mia Couto somente tinha lido, há alguns anos, outro livro cujo título esqueci. Recordo que, admirando o seu talento, esse romance deixou memória de um mundo impenetrável, onde se moviam pessoas para mim incompreensíveis.

Agora reencontrei um grande escritor, mas repetiu-se o sentimento do não entendido.

Desconheço Moçambique. Estive três vezes em Angola, meia dúzia de vezes em Cabo Verde, duas na África do Sul e visitei a Guiné-Bissau, São Tomé, a Guine Conakry, a Libéria, o Mali e o Senegal.

Não consigo inserir as personagens de Mia Couto na África subsaariana que conheci. Todas, neste livro, desde Mariamar ao caçador Arcanjo Baleeiro, me aparecem como seres impenetráveis. A minha companheira entende-as; eu não.

O realismo mágico de Mia Couto - se assim lhe posso chamar - não tem pontes a ligá-lo ao dos latino-americanos.

No Peru e na Bolívia, viajando pelas altas planuras andinas, reencontrava nos comuneros de aldeias misérrimas gente com quem podia falar. Pensava compreender neles atitudes, aspirações, lutas. Subia pelo tempo em esforço de imaginação e sentia nos comuneros quechuas ou aymarás do século XX a continuidade dos seus antepassados do incário do século XVI. Conversando com eles, escutando o seu castelhano tosco, tinha a sensação de uma intimidade ilusória, imaginava falar com personagens de José Maria Arguedas e Manuel Scorza.

Com Mia Couto, na aldeia moçambicana de Kulumani, esbarro, no final do século XX, com um muro inultrapassável ao escutar o discurso dos moradores, sejam eles do mundo arcaico ou forasteiros vindos do Maputo.

O romance de Mia Couto fez-me viajar até à Ásia Central. Revi-me entre pachtuns da Fronteira afegã. Uma longa viagem que principiou numa guerra moderna da qual fui espectador e terminou na época de Dario, há dois mil e quinhentos anos, quando o rei dos reis persa atravessou a cordilheira do Hindu Kush rumo à Índia.

Conclui que me sentia próximo daqueles montanheses afegãos que lutaram pelas estradas do tempo contra invasores persas, heftalitas, gregos, árabes, mongóis, turcos, ingleses, russos e americanos, muito longe no espaço e no tempo dos aldeões de Kulumani.

Os pachtuns que conheci há 30 anos, os intelectuais e os montanheses analfabetos, transmitiam, de modo diferente, a herança de uma cadeia de muitas culturas, antagónicas algumas, que se haviam interpenetrado em fusões dolorosas.

Na Kulumani de Mia Couto tudo é diferente, o hoje e ontem não se interpenetram e fundem. Naquela aldeia de Cabo Delgado caminho na escuridão. O amor, os feitiços, o medo, a felicidade, o ódio, os mecanismos da memória, o real e o imaginário, o onírico, o mítico empurram- me para um universo cujas portas me aparecem como inultrapassáveis.

O mal-estar desemboca, paradoxalmente, num sentimento de admiração. Sinto que Mia Couto é um gigante da literatura.

Vila Nova de Gaia, 10 de Julho de 2012

Em dois dias li Cinzas, romance histórico que é o primeiro de uma trilogia moçambicana: As Areias do Imperador.

Transcorreram mais de três anos desde o dia em que escrevi o texto sobre A Confissão da Leoa.

Invadiu-me outra vez, agora mais intensa, a sensação de mal-estar.

Lerei, se vivo estiver quando forem publicados, os outros dois tomos da trilogia. Mas o primeiro contribuiu para o reforço da convicção de que Mia Couto é um grande, um enorme escritor. E também para a certeza de que as portas do seu universo são para mim inultrapassáveis.

Cinzas é uma obra mais ambiciosa do que A Confissão da Leoa. O leitor caminha com dor pela História de Moçambique e as lutas dos seus povos no final do seculo XIX, através do sentir e do viver de camponeses de Inhambane. A relação dessa gente com o mundo é mágica, com frequência onírica, mas o estilo do autor não lembra, repito, o de Arguedas, ou Scorza. É uma relação mágica fascinante que me comove; mas não entendo as personagens, o discurso, as suas reações e comportamento. Permaneço de fora.

Cinzas é simultaneamente um libelo contra o colonialismo, mas diferente das condenações habituais dos seus crimes.
O livro levou-me a outro grande escritor africano de língua portuguesa.

Pepetela e Mia Couto são filhos de portugueses; ambos se assumem como africanos, um como angolano, o outro como moçambicano.

Mas na obra de Pepetela as personagens, com raras exceções, independentemente da sua origem étnica, pensam e falam quase como ocidentais. Nos livros de Mia Couto o quotidiano dos africanos está enraizado na mundividência milenar, nos mitos dos povos de Moçambique. Daí a dificuldade que sinto em me mover no seu mundo fechado.

Parece uma contradição admirar muito um escritor cuja obra me fascina sem conseguir «entender» o mundo que descreve. Mas não sinto essa contradição.

Caty, minha companheira, acha que Mia Couto criou já uma obra merecedora do Nobel de Literatura. Admito que a Academia Sueca não tarde em lho atribuir.

Vila Nova de Gaia, 28 de Outubro de 2015


http://www.odiario.info/?p=3842

domingo, 4 de outubro de 2015

mia couto - raiz de orvalho e outros poemas



Poema da despedida



Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
 os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
 nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo




Pergunta-me



Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer




Raiz de Orvalho



Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram

Quem me dera acontecer
essa morte
de que não se morre
e para um outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio destino
soltei  ânsia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada

De quando em quando
me perco
na procura a raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco as mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens

Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância

Amam-me demasiado
as cosias de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno




Nocturnamente



Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces




Trajecto


Na vertigem do oceano
vagueio
sou ave que com o seu voo
se embriaga
Atravesso o reverso do céu
e num instante
eleva-se o meu coração sem peso
Como a desamparada pluma
subo ao reino da inconstância
para alojar a palavra inquieta
Na distância que percorro
eu mudo de ser
permuto de existência
surpreendo os homens
na sua secreta obscuridade
transito por quartos
de cortinados desbotados
e nas calcinadas mãos
que esculpiram o mundo
estremeço como quem desabotoa
a primeira nudez de uma mulher




Manhã


Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos




Palavra que desnudo


Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo




Despedida


Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos
quando anunciaste a despedida
e eu que habitara lugares secretos
e me embriagara com os teus gestos
recolhi as palavras vagabundas
como a tempestade que engole os barcos
porque ama os pescadores

Impossível separarmo-nos
agora que gravaste o teu sabor
sobre o súbito
e infinito parto do tempo

Por isso te toco
no grão e na erva
e na poeira da luz clara
a minha mão
reconhece a tua face de sal

E quando o mundo suspira
exausto
e desfila entre mercados e ruas
eu escuto sempre a voz que é tua
e que dos lábios
se desprende e se recolhe

Ali onde se embriagam
os corpos dos amantes
o te ventre aceitou a gota inicial
e um novo habitante
enroscou-se no segredo da tua carne

Nesse lugar
encostámos os nossos lábios
à funda circulação do sangue
porque me amavas
eu acreditava ser todos os homens
comandar o sentido das coisas
afogar poentes
despertar séculos à frente
e desenterrar o céu
para com ele cobrir
os teus seios de neve




Saudades


Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
 ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono




Ser, parecer


Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos




Para ti


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida




Fundo do mar


Quero ver
o fundo do mar
esse lugar
de onde se desprendem as ondas
e se arrancam
os olhos aos corais
e onde a morte beija
o lívido rosto dos afogados

Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço




Morte silenciosa


A noite cedeu-nos o instinto
para o fundo de nós
imigrou a ave a inquietação

Serve-nos a vida
mas não nos chega:
somos resina
de um tronco golpeado
para a luz nos abrimos
nos lábios
dessa incurável ferida

Na suprema felicidade
existe uma morte silenciada




Árvore


cego
de ser raiz

imóvel
de me ascender caule

múltiplo
de ser folha

aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo




Sotaque da terra


Estas pedras
sonham ser casa

sei
porque falo
a língua do chão

nascida
na véspera de mim
minha voz
ficou cativa do mundo,
pegada nas areias do Índico

agora,
ouço em mim
o sotaque da terra

e choro
com as pedras
a demora de subirem ao sol




Quissico


1. Deixei o sol
na praia de Quissico

De bruços
sobre o Verão
eu deixei o Sol
na extensão do tempo

Molhando, quase líquido,
o dia afundava
nas fundas águas do Índico

A terra
se via estar nua
lembrando, distante,
seu parto de carne e lua

2. Não o pássaro: era o céu
que voava

O ombro da terra
amparava o dia

A luz
tombava ferida
pingando
como um pulso suicida
um minhas ocultas asas




Pequeninura do morto e do vivo


O morto
abre a terra: encontra um ventre

O vivo
abre a terra: descobre um seio


* * *

http://lugardaspalavras.no.sapo.pt/prosa/mcouto/raiz_orvalho.htm