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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Ary dos Santos - A Bandeira Comunista


A Bandeira Comunista

A folha manuscrita aqui reproduzida é a única existente do original de A Bandeira Comunista de José Carlos Ary dos Santos.

Um dos mais conhecidos poemas de Ary e seguramente dos mais queridos dos militantes do PCP, A Bandeira foi escrito em condições que merecem ser recordadas.

Na segunda-feira, 11 de Agosto de 1975 o Centro de Trabalho do PCP em Braga foi destruído e incendiado após um ataque comandado por um grupo operacional do ELP, como mais tarde veio a ser revelado por numerosas investigações e directamente reconhecido por alguns dos membros do comando directamente envolvidos.

O «Avante!» enviara no fim de semana anterior para Braga um seu colaborador fotógrafo, uma vez que corriam insistentes boatos de incidentes em Braga na segunda-feira por (como sucedeu em diversos outros actos terroristas) ser dia de feira. Tendo resolvido pernoitar no Porto, o repórter chegou a Braga a meio da manhã verificando então que os provocadores haviam já desencadeado as agressões e que o Centro de Trabalho (onde se encontravam numerosos militantes) estava já cercado.

Apedrejamentos e tentativas de fogo posto sucederam-se ao longo do dia, tendo – de forma equívoca nunca inteiramente esclarecida – os defensores do Centro acabado por ser retirados por uma força militar que deixou o edifício entregue aos fascistas que completamente o destruíram e incendiaram.

Tomado pelos provocadores como um repórter que lhes era favorável, o fotógrafo do «Avante!» pôde assim obter ao longo do dia as mais extraordinárias imagens da violência fascista à solta, muitas das quais foram publicadas na edição seguinte do «Avante!», a 14 de Agosto.

Para essa mesma quinta-feira, a Direcção da Organização Regional de Lisboa convocara para o hoje Pavilhão Carlos Lopes um comício de solidariedade com os camaradas das organizações atingidas pelo terrorismo e de exigência de medidas de salvaguarda da ordem democrática.

Na redacção do «Avante!» decidimos montar num dos átrios do Pavilhão uma exposição com ampliações das fotos de Braga, de que só uma pequena parte havia sido publicada no jornal. Feitas as ampliações, colocou-se o problema das legendas – que acabou a ser um duplo problema...

A questão era que as imagens tinham uma força tal que qualquer palavra, qualquer frase parecia estar ali a mais. Contudo...

Lembrámo-nos então, telefonou-se ao Zé Carlos para a Espiral, agência de publicidade onde trabalhava, e dissemos-lhe do problema: «Não serias capaz de fazer aí qualquer coisa, uns versos com força, isto não há legendas que resolvam isto...». «Esperem lá um bocado que eu já ligo.»

Meia hora depois o telefone tocava e ouvia-se o vozeirão do outro lado: «Então vejam lá se esta coisa serve.»

Era A Bandeira Comunista. Copiada ao telefone, dactilografada e ampliada, iniciou nessa noite de luta um caminho que não findou jamais.

A bandeira comunista

Foi como se não bastasse
tudo quanto nos fizeram
como se não lhes chegasse
todo o sangue que beberam
como se o ódio fartasse
apenas os que sofreram
como se a luta de classe
não fosse dos que a moveram.
Foi como se as mãos partidas
ou as unhas arrancadas
fossem outras tantas vidas
outra vez incendiadas.

À voz de anticomunista
o patrão surgiu de novo
e com a miséria à vista
tentou dividir o povo.
E falou à multidão
tal como estava previsto
usando sem ter razão
a falsa ideia de Cristo.

Pois quando o povo é cristão
também luta a nosso lado
nós repartimos o pão
não temos o pão guardado.
Por isso quando os burgueses
nos quiserem destruir
encontram os portugueses
que souberam resistir.

E a cada novo assalto
cada escalada fascista
subirá sempre mais alto
a bandeira comunista.

https://www.pcp.pt/actpol/temas/f-avante/festa2003/bandeira-comunista.htm

90 anos de Ary dos Santos «Poeta da Revolução



Ary dos Santos | "As Portas que Abril Abriu" (1975)


Nota do Gabinete de Imprensa do PCP

27 Maio 2026

O Partido Comunista Português evoca, sob o lema “Poeta da Revolução”, os 90 anos do nascimento de José Carlos Ary dos Santos, nascido a 7 de Dezembro de 1936 em Lisboa.

Poeta da Revolução, Ary dos Santos colocou o seu imenso talento ao serviço dos ideais de justiça, liberdade e progresso social que sempre nortearam a sua criação artística e a sua intervenção política. 

Os seus poemas, traduzindo uma notável criatividade e sensibilidade humanas, acompanharam o caminho e a história da resistência ao fascismo e da Revolução de Abril, de que ele é, incontestavelmente, poeta. 

Ary dos Santos começou a escrever poesia muito novo e em 1953, com apenas 14 anos, é publicado pela família, contra a sua vontade, o seu primeiro livro Asas.

Em 1954 é reconhecida a qualidade da sua escrita com a escolha de alguns dos seus poemas para a Antologia do Prémio Almeida Garret.

Da sua vasta obra publicada constam títulos como A Liturgia do Sangue (1963), Tempo da Lenda das Amendoeiras (1964), Adereços, Endereços (1965), Insofrimento in sofrimento (1969), Fotos-Grafias (1970), Resumo (1972), As Portas que Abril Abriu (1975), O Sangue das Palavras (1978), 20 Anos de Poesia (1983) e VIII Sonetos (1984). 

A par da criação literária, desde 1958 trabalhou na área da publicidade onde se destacou pela criatividade nos slogans publicitários. 

Foi um dos grandes declamadores do século XX da sua própria obra e da de outros autores portugueses, como Luís de Camões (com Eunice Muñoz), com uma discografia que inclui Ary por si próprio (1970), Cantigas de Amigos (com Natália Correia e Amália Rodrigues), Bandeira Comunista (1977), Ary por Ary (1979) e Ary 80 (1980).

Ary dos Santos contribuiu ainda decisivamente para a inovação da canção e da música ligeira com a escrita de mais de 600 poemas, de onde constam A Desfolhada, Tourada, Cavalo à Solta, Menina, entre tantas outras que ganharam vida na voz de nomes incontornáveis da música portuguesa como Carlos Mendes, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Simone de Oliveira ou Tonicha. 

Teve importante ligação ao Fado. Escreveu para grandes nomes da história do fado, nomeadamente, entre outros, Amália Rodrigues (Meu amor, meu amor; Alfama), Beatriz da Conceição (Meu Corpo), Carlos do Carmo (Um homem na Cidade; O homem das castanhas; Os putos), José Manuel Osório (Desespero; Fado do Miradouro) ou Maria Armanda (Mãe solteira; Fado mulher).

A vigorosa actividade e o rasgo criativo e a profundidade política do gesto criador em Ary são inseparáveis. Para a história ficou o episódio da criação de A Bandeira Comunista, esboçada e ditada ao telefone, em Agosto de 1975, para o comício de solidariedade com as organizações atacadas pelos movimentos contrarevolucionários. Este episódio, um dos muitos e que pontuaram a vida do poeta e militante do PCP desde 1969, ilustra o lugar que ocupou a unidade indissolúvel entre a criação e a luta política na sua obra.

Um imponente e intemporal património artístico que, sem abdicar da singularidade das circunstâncias da sua redacção, se tornou parte irrenunciável do nosso legado cultural e de luta. Os seus poemas são uma parte grande do património colectivo do povo e dos comunistas portugueses. Dizê-los e cantá-los, hoje, significa prosseguir esse combate pelos ideais e conquistas de Abril.

O Partido Comunista Português, o seu Partido, comemorará os 90 anos do nascimento de José Carlos Ary dos Santos com um programa de iniciativas a decorrer até Maio de 2027, que será apresentado no dia 2 de Julho, em Alfama, e do qual se destaca a presença na 50.ª edição da Festa do Avante, a realização de uma exposição, novas edições da sua obra, um concerto em Lisboa, abordagens temáticas da sua vida e obra.

O PCP vai comemorar os 90 anos de José Carlos Ary dos Santos, sublinhando o intelectual destacado, o militante de convicções inabaláveis, a qualidade e a actualidade da sua obra poética de grande sensibilidade humana, a superior apreensão da vivência do mundo envolvente, a intensidade política e identificação profunda com os anseios e as aspirações dos trabalhadores e do povo.

https://www.pcp.pt/90-anos-de-ary-dos-santos-poeta-da-revolucao

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Manuel Pires da Rocha - Cantar a liberdade


Manuel Pires da Rocha

Per­ma­nece o apelo po­de­roso da “terra da fra­ter­ni­dade”



Rei­vin­di­camos a ale­gria.
Rei­vin­di­camos as can­ções de li­ber­dade.
Rei­vin­di­camos a mú­sica or­de­na­dora do uni­verso.
Rei­vin­di­camos as mãos dadas dos amantes.
Rei­vin­di­camos o sabor des­co­berto de todas as coisas.
Rei­vin­di­camos as pontes tran­quilas.
Rei­vin­di­camos a in­venção das ci­dades ha­bi­tá­veis.
Rei­vin­di­camos a pa­lavra, o poema, o livro.
Rei­vin­di­camos a festa.
Rei­vin­di­camos esta arma.
(Mário Cas­trim)

Quando Adriano Cor­reia de Oli­veira, José Afonso, Ma­nuel Freire, Carlos Pa­redes e Fer­nando Alvim, José Ba­rata-Moura, Carlos Moniz e Maria do Am­paro, Ary dos Santos, entre ou­tros, su­biram ao palco do Co­liseu, na noite de 29 de Março de 1974, já as can­ções que ali le­varam ti­nham ecoado pelas co­lec­ti­vi­dades de cul­tura e re­creio, nos en­con­tros da opo­sição de­mo­crá­tica, nas reu­niões an­ti­fas­cistas que eram acam­pa­mento, pi­que­nique e ho­me­nagem.

Na­quela noite de quase-Abril, cinco mil an­ti­fas­cistas e uma dúzia de pides, uns can­tando e aplau­dindo, os ou­tros to­mando notas, as­sis­tiam à ante-es­treia de Grân­dola, Vila Mo­rena nos ca­mi­nhos da His­tória, no mesmo ta­buado em que Ary dos Santos de­cla­mava “aqui nin­guém me põe a pata em cima / porque é de baixo que me vem acima / a força do lugar que for o meu”.

Vozes mais an­tigas se­riam, porém, ini­ci­a­doras deste canto que quis ser arma li­ber­ta­dora. No Ou­tono de 1945, Fer­nando Lopes-Graça juntou na casa de al­deia de João José Co­chofel, perto de Coimbra, os também po­etas Carlos de Oli­veira e José Gomes Fer­reira, dando início à es­crita de um pro­jecto ins­pi­rado nos can­ci­o­neiros re­vo­lu­ci­o­ná­rios his­tó­ricos da Re­vo­lução Fran­cesa e da Re­vo­lução de Ou­tubro. Mar­chas, Danças e Can­ções seria o pri­meiro can­ci­o­neiro po­lí­tico da luta an­ti­fas­cista por­tu­guesa, a que se­gui­riam oito ca­dernos mais, que Lopes-Graça in­ti­tu­laria Can­ções He­róicas, Dra­má­ticas, Bu­có­licas e Ou­tras.

As He­róicas se­riam ini­ci­al­mente di­vul­gadas pelo Coro do Grupo Dra­má­tico Lis­bo­nense, cons­ti­tuído no seio do Mo­vi­mento de Uni­dade De­mo­crá­tica (MUD). Em 1946, após uma apre­sen­tação pú­blica na Bi­bli­o­teca da In­crível Al­ma­dense, a cen­sura proibiu o re­per­tório. Tarde de­mais, porém – as He­róicas vi­viam já nas vozes de grupos for­mais e in­for­mais, juntas e afi­nadas na luta contra o fas­cismo. Tanto, que não ha­verá me­mória de lugar cons­pi­ra­tivo, das salas do as­so­ci­a­ti­vismo po­pular às celas das pri­sões, onde não tenha ha­vido um cantar de “vozes ao alto, unidos como os dedos da mão”.

O sé­culo XX das lutas an­ti­co­lo­niais, an­ti­fas­cistas e anti-im­pe­ri­a­listas viria a ser o mo­mento da ex­pansão geral da mú­sica de com­bate pela li­ber­dade e pela cons­trução do so­ci­a­lismo. Em Woody Guthrie, Luigi Nono, Vi­o­leta Parra, Mikis The­o­do­rakis, Hanns Eisler, Victor Jara, Sil­vestre Re­vu­eltas, Chos­ta­ko­vitch e Carlos Pa­redes, entre tantos ou­tros, a mú­sica as­sumiu opção de classe à es­cala uni­versal, in­de­pen­den­te­mente da na­tu­reza dos palcos e do vo­ca­bu­lário pró­prio de cada gé­nero mu­sical.

Em Por­tugal, o sé­culo pas­sado é também o lugar da des­co­berta da mú­sica po­pular das co­mu­ni­dades ru­rais, con­du­tora de si­nais ci­vi­li­za­ci­o­nais que também são os da cons­ci­ência so­cial (“Ó minha mãe dos tra­ba­lhos / Para quem tra­balho eu / Tra­balho mato o meu corpo / Não tenho nada meu”). Por isso é que, em Lopes-Graça, a Jor­nada é com­pa­nheira da Canção da Vin­dima, em José Afonso o Cantar Alen­te­jano (em ho­me­nagem a Ca­ta­rina Eu­fémia) di­vide in­ten­ções com Milho Verde e, no canto de Adriano Cor­reia de Oli­veira, Tejo Que Levas As Águas om­breia com ‘Inda Eu Era Pe­que­nino.

Che­gados aqui, cons­tata-se que o cantar que (também) abriu ca­minho à Li­ber­dade que em cada Abril se ce­lebra, não perdeu ac­tu­a­li­dade. Nestes dias de ameaça à paz, ao pão, à ha­bi­tação, à saúde e à edu­cação, de­mo­cratas de todas as idades en­toam o velho re­frão de Li­ber­dade – pa­lavra de ordem in­tem­poral da exi­gência de um tempo de jus­tiça. E cantam Os Vam­piros de­nun­ci­ando o saque, o Acordai cha­mando para a luta, o Hino de Ca­xias cer­rando fi­leiras. E aco­lhem cantos emer­gentes, que são mornas e di­zeres de hip hop, so­mando-se ao cantar his­tó­rico nas lutas dos mo­vi­mentos Vida Justa e Casa Para Viver, nas ac­ções do mo­vi­mento sin­dical, nas ini­ci­a­tivas pela paz, nas ac­ções de so­li­da­ri­e­dade com a Pa­les­tina e com Cuba.

Juntam-se, no rumor do nosso tempo, tim­bres e so­ta­ques di­versos, mas o es­tri­bilho geral per­ma­nece o apelo po­de­roso da “terra da fra­ter­ni­dade" q”e, can­tando “junta a tua à nossa voz”, marca en­contro com o fu­turo.

https://www.avante.pt/pt/2734/argumentos/183422/Cantar-a-liberdade.htm

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Soneto presente, de Ary dos Santos

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso falar eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Ary dos Santos - Soneto a Catarina


xilogravura de José Dias Coelho

* Ary dos Santos

Vararam-te no corpo e não na força 
e não importa o nome de quem eras 
naquela tarde foste apenas corça 
indefesa morrendo às mãos das feras. 

Mas feras é demais. Apenas hienas 
tão pútridas tão fétidas tão cães 
que na sombra farejam as algemas 
do nome agora morto que tu tens. 

Morreste às mãos da tarde mas foi cedo. 
Morreste porque não às mãos do medo 
que a todos pôs calados e cativos. 

Por essa tarde havemos de vingar-te 
por essa morte havemos de cantar-te: 
Para nós não há mortos. Só há vivos. 

terça-feira, 2 de março de 2021

As férias, por Ary dos Santos

* Ary dos Santos 
.
Era uma rosa azul de água amarrada
um palácio de cheiros um terraço
e uma jarra de amigos derramada
da casa até ao mar como um abraço.
.
Era a intensa e clara madrogada
com cigarras dormindo no regaço
e a ampulheta do sono defraudada
no tempo cada dia mais escasso.
.
Era um país de urses e lilases
de tardes sonolentas espreguiçando
um aroma de nardos pele chão
.
e bandos de meninas e rapazes
correndo amando rindo e adiando
a minha inexorável solidão

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

A última conversa com Carlos do Carmo (1939-2021)

 

* Miguel Carvalho / Carlos do Carmo
Fadista faleceu aos 81 anos, no primeiro dia de 2021, no hospital de Santa Maria, em Lisboa, depois de aí ter entrado com um aneurisma na aorta. Na morte do cantor a quem o fado deve parte do seu renascimento pós-25 de Abril, a memória de um longa entrevista, em parte inédita, onde ele revisitou o seu percurso e fez as “pazes” com Amália

“Está a falar com um homem que, apesar de lhe terem feito muito mal aos sonhos, quer ir para debaixo da terra nem que seja com dois por cento dos sonhos que teve. Vi coisas muito boas e belas na minha vida. Coisas absolutamente superiores”.

Domingo, 3 de março de 2019.

Um amigo comum, Ribeiro Cardoso, estaciona o carro defronte do restaurante Cataplana da Gina, em Campo de Ourique. É noite, pouco passa das 21 horas. A porta do lado do copiloto abre-se, lenta, e Carlos do Carmo, então com 79 anos, levanta-se e sai devagar, amparando-se no automóvel e no meu braço, esforço que parece hercúleo. Está debilitado, mas bem-disposto. E pronto para uma noite de boa conversa, sem a ditadura do relógio.

Combinara-se jantar num local afetivo.

Durante semanas, eu insistira na importância de falarmos, pois sem o testemunho dele, o meu livro sobre as relações clandestinas de Amália Rodrigues com a oposição à ditadura e a forma como lidou com a revolução ficaria manco. Ao que sei, não precisou de ponderar muito: era mais a saúde que o preocupava e lhe retirava ânimo para conversas que se adivinhavam longas.

Durante quase duas horas falámos de tudo: do seu percurso artístico e pessoal, das amizades e inimizades dele, de ditadura e liberdade, de política e dos políticos que admira (citou alguns), do “irmão” José Carlos Ary dos Santos, de escritores e poesia. Eu crescera a ouvi-lo e disse-lhe que levaria para uma ilha deserta Um Homem na Cidade, um dos discos da minha vida. Comoveu-se.

Mas Amália Rodrigues era o tema principal. E a ele não lhe era fácil admitir a relação turbulenta, as ciumeiras mútuas, as invejas que se atravessaram na relação entre os dois. Não era o seu tema preferido, surpreenderia que o fosse. O mesmo diria Amália, certamente. Mas, admitiu, “não guardo memória de raivas”. Naquela noite, Carlos do Carmo fez contas a essa parte da vida. E as “pazes” com a mulher que, tal como ele, nunca deixou que o fado fosse atirado para o caixote do lixo da História. “Acho injusto dizer que ela foi a cantora do regime. O regime é que foi suficientemente esperto para aproveitar a voz do século. Essa justiça tem de ser feita porque ela era uma voz excecional. Também tenho uma dívida para com ela: quem foi que começou a divulgar o fado lá fora? Eu fui a seguir, depois apareceu esta geração. Quem é que abriu a porta? Essa dívida eu tenho”, reconheceu, concluindo. “A morte da Amália foi, em termos de reconhecimento, a coisa mais significativa que vi na vida. Nunca vi nada igual. Ela foi a maior voz do século XX. As circunstâncias e a inteligência dela resultaram nesse animal feroz e foi extraordinário esta mulher ter existido no fado”.

Resgatadas a essa noite, aqui ficam algumas das últimas memórias de Carlos do Carmo, em parte inéditas.

Era uma vez o fado

Eu fiz a escola primária, o liceu Passos Manuel e morava no Bairro da Bica. O pai, felizmente, mandou-me para um dos maiores colégios do mundo, na Suíça. Imagine o que acontece quando se encontra num local onde as pessoas dizem o que pensam e os jornais escrevem o que querem. Quando voltei, estava estupefacto. Mas não tive tempo de assimilar. O meu pai morreu em 1962, eu tinha 21 anos, a minha mãe não ia poder gerir O Faia, era a estrela da casa. Demos sequência à casa de fados, estive lá 20 anos, com muito sucesso. Quando foi o 25 de Abril, não fiz nenhuma censura, mas fui chamando artista por artista, e dizendo: “Isto é muito pobrezinho, não deves cantar”.

Fado perseguido I

A memória operária do fado era conhecida de muito poucas pessoas a seguir ao 25 de Abril. Eu tive sorte por causa do meu pai. Ele tinha sido livreiro e tinha livros sobre fado. Vouu agora gravar um fado, de um homem chamado João Black, fadista anarcossindicalista, que, em conjunto com o Avelino de Sousa, ia até ao Alentejo cantar o fado como quem vai organizar uma missa, isto nos anos 30.

Depois isto foi amolecendo. A censura fez uma parte e o medo fez a outra. Não se podia cantar um fado sem ser visto pela censura. Isso limitou muito as pessoas. Era quase um hino à pobreza. Mesmo nessa altura, nunca fui muito ligado a esse fado. E quando comecei a cantar fui-me socorrendo do reportório que havia na altura. Um dia tive uma surpresa magnífica. Canto um fado chamado Por morrer uma Andorinha e um dos velhos presos comunistas disse-me que era uma espécie de hino entre eles.

Fado perseguido II

Não é invenção dizer que o fado foi perseguido a seguir ao 25 de Abril, a vários níveis. Mas eu sou a última pessoa que deve falar disso, pois não fui perseguido. Tinha uma casa de fados [O Faia]. que era uma espécie de mostrador e as pessoas iam ali e eu não lhes perguntava se eram de esquerda ou se eram de direita. Procurei sempre manter um certo equilíbrio porque era uma casa comercial.

Cantar era sonhar

Se há alguém que não se deve queixar sou eu. Seria ingrato se o fizesse. Toda a minha vida artística é feita de coisas boas, de processos e desafios. Chamaram-me sempre maluco, cada disco era uma loucura, mas é assim que eu gosto. O meu reportório é o de um gajo maluco. O 25 de Abril teve muita importância na minha cabeça porque arejou muito, contribuiu muito para o ato de sonhar. E cantar era um ato de sonhar.


Um Homem na Cidade

É óbvio que, ao fazer Um Homem na Cidade, a coisa estalou. E fazíamos coisas interessantes com o Ary, com o Martinho da Assunção, coisas diferentes, que tinham a ver com a vida, a paixão real pelo fado, não uma paixão passageira, que só quem gosta muito de fado pode entender. O Ary tinha um grande respeito pelas pessoas mais velhas, uma certa ternura, e deixou “n” fados a “n” fadistas mais velhos nas casas de fado onde esteve. E as pessoas cantavam isso tranquilamente. Ele tinha esse culto. Nós conjugávamos muito bem essa maneira de sentir o fado. Sem elitismos. O que nós estávamos a respirar era liberdade.

Ary dos Santos I

O pai do [primeiro-ministro] António Costa detestava fado, mas o António disse-me que, graças ao Um Homem na Cidade, passou a gostar de fado. Aconteceu a muitas pessoas. Havia liberdade. Quando a gente pensa no que o Ary escreveu na Nova Feira da Ladra: “Na nossa feira da ladra já não há ladrões no escuro”. Isto é muito à frente. Ele está a falar de liberdade. Muitas vezes tinha de o travar, ele queria disparar para canções de intervenção. E eu dizia: “Zé Carlos, calma, eu sou um fadista. Não sou um cantor de intervenção. Há uma forma de intervir no fado, mas não assim”. E ele, que se intitulava “tia velha” e nos chamava “sobrinhas”, dizia: “Ah, a sobrinha está a ficar muito reacionária”. Lidar com o feitio dele, que não era fácil, mas foi maravilhoso.

Ary dos Santos II

O testamento dele foi feito a conversar com a minha mulher, todos os dias. E fazendo perguntas: “Judite, o que achas se eu fizer isto e aquilo?”. Ele deixou tudo o que era material, eletrodomésticos, tudo, à empregada açoriana. Deixou toda a roupa ao PCP. A gente chegava à Soeiro Pereira Gomes e havia gajos vestidos de alpaca…E no final, ele tinha quatro ou cinco pratas da avó e deixou cada uma destinada a cada amigo. Nós temos um açucareiro. Com o dinheiro que tinha, perguntou à Judite se achava bem comprar uma peça de ouro para um companheiro de quem ele gostou muito. Tudo feito com elevação e dignidade.

Fernando Lopes Graça

Para mim, não foi complicado defender o fado. Se eu cantava nas festas e nos comícios do PCP, estava completamente à vontade. Era muito claro para as pessoas que não pretendia nenhum cargo, nenhuma benesse. Portanto, sentia-me à vontade. O que me transtornava em relação ao fado era a ignorância das pessoas. E resolvi isso com o Fernando Lopes Graça. Ele era genial, mas era o “líder” de quem estava contra. Um dia estamos na embaixada da Bulgária, ele já estava bem bebido e queria ir para a Rua da Misericórdia para o coro de não sei quê… Fazia parte do seu trabalho. Ofereci-me para lhe dar boleia, ele entrou no meu carro e no caminho diz-me assim: “Você quem é?”. E eu: “Sou o Carlos do Carmo, o fadista”. E ele: “Oh, está do nosso lado, já não é mau”. Isso encetou uma relação e começamos a discutir. E tive a ajuda de um amigo precioso que foi o José Cardoso Pires. Que também era amigo dele e frequentador do fado, da boémia, do Faia, um gajo inesquecível. O Zé pegou no Lopes Graça e levou-o a uma sessão de fados da pesada – Fado Corrido, Fado Menor, Fado Mouraria – e o Lopes Graça saiu de lá fascinado. “Mas isto é que é o fado?”, perguntou ele. O Zé Cardoso Pires disse que sim. “Ah, mas isto é bom”. E pronto, arrumou-se isso. Sempre que estávamos juntos era uma coisa encantadora. “Então maestro, já está convertido?”. E ele: “Ó homem, às vezes a gente engana-se sem querer”.

Também silenciado

Antes do 25 de Abril cantava fado, mas não o choradinho, a lamechice, o estímulo da pobreza e da pequenez. Senti o peso do carimbo comunista depois, isso sim. Estive cinco anos sem cantar na RTP. Foi a altura em que comecei a cantar no estrangeiro. Se me perguntar se me lembro das pessoas que me fizeram isso, lembro-me. A algumas delas até lhes falo muito bem. Mas coitadas, fazem dó.

Foi o Daniel Proença de Carvalho que me resgatou para a RTP. Telefonou para minha casa e disse: “Ó Carlos, isto é uma vergonha, você não vem aqui cantar há não sei quantos anos”. Convidou-me, pôs-me a falar com a Maria Elisa e fizemos um programa.

Álvaro Cunhal I

Tenho os desenhos da prisão do Álvaro Cunhal dedicados por ele aos meus quatro netos. Quando assinou o primeiro, para o Sebastião, disse: “Você está a arranjar-me aqui um petisco… É que depois vêm os outros netos e eu não posso deixá-los para trás”. Então eu ia à sede do PCP perguntava se ele estava, se me podia receber, levava o desenho, e ele assinava.

Álvaro Cunhal II

Já não lhe sei dizer quantas vezes estive doente. E numa das vezes estive no Hospital Santa Maria, muito mal. O Álvaro Cunhal ligava todos os dias para a minha mulher, Judite. E uma das vezes disse: “Não é preciso dizer nada porque tenho lá gente amiga e sei como é que ele está”.

Amália e o PCP

A Amália dava dinheiro para as famílias dos presos políticos do PCP que estavam em dificuldades, pois os chefes de família estavam presos. Isto é um facto. Sei isso através do meu querido amigo Rogério Paulo, que era quem ia buscar o dinheiro a casa dela. O Rogério gostava de fado, dava-se muito bem com ela e ela sabia que ele era comunista. Ele contou-me isto com a maior naturalidade, não queria que eu soubesse das coisas por outros. Mas só soube depois do 25 de Abril.

PCP

Não se cospe na sopa. Não tenho razões para criticar alguém que tenha sido do PCP e hoje não seja. As pessoas fazem as suas opções, as suas escolhas. Assiste-me é o direito de intimamente ficar triste se a pessoa passa a falar a linguagem oposta. Eu sinto-me à vontade, fiz as campanhas, ia para Aveiro, Fafe, etc. Curiosamente, o tempo mostrou que os mais sectários foram aqueles que mais me dececionaram. Mas não faço qualquer julgamento. Se eu pertencesse ao PCP, diria algo mais, mas digo apenas que me entristece. Pessoas que eram de grande voluntarismo e, afinal…

Fado património

Sabe quanto tempo demorou a preparar a candidatura do fado? Seis anos e meio. Foi de tal ordem e de tal rigor que quando foi apresentada deram-na como exemplo de como se deve apresentar uma candidatura. Foi automaticamente aceite. E isto não parou, continua-se à procura. O Museu do Fado é uma máquina de busca, de interesse, de envolvimento. Ali trabalha-se a sério. Se quiser saber a cor das cuecas do Alfredo Marceneiro, em 1932, sabe.

Os sonhos e o Fim

Está a falar com um homem que, apesar de lhe terem feito muito mal aos sonhos, quer ir para debaixo da terra nem que seja com dois por cento dos sonhos que teve. Vi coisas muito boas e belas na minha vida. Coisas absolutamente superiores.

01.01.2021 às 13h20

https://visao.sapo.pt/atualidade/cultura/2021-01-01-a-ultima-conversa-com-carlos-do-carmo-1939-2021/

sábado, 26 de dezembro de 2020

Ary dos Santos . Meu Camarada e Amigo

* Ary dos Santos 

Revejo tudo e redigo 
 meu camarada e amigo. 
 Meu irmão suando pão 
 sem casa mas com razão. 
 Revejo e redigo 
 meu camarada e amigo 
 As canções que trago prenhas 
 de ternura pelos outros 
 saem das minhas entranhas 
 como um rebanho de potros. 
 Tudo vai roendo a erva 
 daninha que me entrelaça: 
 canção não pode ser serva 
 homem não pode ser caça 
 e a poesia tem de ser 
 como um cavalo que passa. 
 É por dentro desta selva 
 desta raiva   deste grito 
 desta toada que vem 
 dos pulmões do infinito 
 que em todos vejo ninguém 
 revejo tudo e redigo: 
 Meu camarada e amigo. 
 Sei bem as mós que moendo 
 pouco a pouco trituraram 
 os ossos que estão doendo 
 àqueles que não falaram. 
 Calculo até os moinhos 
 puxados a ódio e sal 
 que a par dos monstros marinhos 
 vão movendo Portugal 
 — mas um poeta só fala 
 por sofrimento total! 
 Por isso calo e sobejo 
 eu que só tenho o que fiz 
 dando tudo mas à toa: 
 Amigos no Alentejo 
 alguns que estão em Paris 
 muitos que são de Lisboa. 
 Aonde me não revejo 
 é que eu sofro o meu país. 

terça-feira, 19 de maio de 2020

Ary dos Santos - Retrato de Catarina

* Ary dos Santos

Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.

Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.

Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.

Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.

José Carlos Ary dos Santos

domingo, 8 de março de 2020

Ary dos Santos - Vararam-te no corpo e não na força

* José Carlos Ary dos Santos


Vararam-te no corpo e não na força
e não importa o nome de quem eras
naquela tarde foste apenas corça
indefesa morrendo às mãos das feras.


Mas feras é demais. Apenas hienas
tão pútridas tão fétidas tão cães
que na sombra farejam as algemas
do nome agora morto que tu tens.


Morreste às mãos da tarde mas foi cedo.
Morreste porque não às mãos do medo
que a todos pôs calados e cativos.


Por essa tarde havemos de vingar-te
por essa morte havemos de cantar-te:
Para nós não há mortos. Só há vivos.


JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

sábado, 18 de janeiro de 2020

Ary dos Santos - Retrato do Herói

* Ary dos Santos

Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.

Ary dos Santos, in 'Fotosgrafias'

domingo, 15 de setembro de 2019

Ary dos Santos - AO MEU FALECIDO IRMÃO MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE

* Ary  dos Santos


Meu sacana de versos! Meu vadio.
Fazes falta ao Rossio. Falta ao Nicola.
Lisboa é uma sarjeta. É um vazio.
E é raro o poeta que entre nós faz escola.

Mastigam ruminando o desafio.
São uns merdosos que nos pedem esmola.
Aos vinte anos cheiram a bafio
têm joanetes culturais na tola.

Que diria Camões nosso padrinho
ou o Primo Fernando que acarinho
como Pessoa viva à cabeceira?

O que me vale é que não estou sozinho
ainda se encontram alguns pés de linho
crescendo não sei como na estrumeira!


José Carlos Ary dos Santos. VIII Sonetos, 1984
http://nestahora.blogspot.com/2019/09/bocage-254-anos-hoje.html 

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Ary dos Santos - Tourada

TOURADA (Festival da Canção 1973)



  

TOURADA

Não importa sol ou sombra 
camarotes ou barreiras 
toureamos ombro a ombro 
as feras. 

Ninguém nos leva ao engano 
toureamos mano a mano 
só nos podem causar dano 
espera. 

Entram guizos chocas e capotes 
e mantilhas pretas 
entram espadas chifres e derrotes 
e alguns poetas 
entram bravos cravos e dichotes 
porque tudo o mais 
são tretas. 

Entram vacas depois dos forcados 
que não pegam nada. 
Soam brados e olés dos nabos 
que não pagam nada 
e só ficam os peões de brega 
cuja profissão 
não pega. 

Com bandarilhas de esperança 
afugentamos a fera 
estamos na praça 
da Primavera. 

Nós vamos pegar o mundo 
pelos cornos da desgraça 
e fazermos da tristeza 
graça. 

Entram velhas doidas e turistas 
entram excursões 
entram benefícios e cronistas 
entram aldrabões 
entram marialvas e coristas 
entram galifões 
de crista. 

Entram cavaleiros à garupa 
do seu heroísmo 
entra aquela música maluca 
do passodoblismo 
entra a aficionada e a caduca 
mais o snobismo 
e cismo... 

Entram empresários moralistas 
entram frustrações 
entram antiquários e fadistas 
e contradições 
e entra muito dólar muita gente 
que dá lucro as milhões. 
E diz o inteligente 
que acabaram as canções.
                   
José Carlos Ary dos Santos, As Palavras das Cantigas 
(organização, coordenação e notas de Ruben de Carvalho). 
Lisboa, Edições Avante, 1995.
                              
                 
Escrita no final de 1972, "Tourada" foi a canção escolhida para representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção 1973, interpretada em português por Fernando Tordo.
A canção tem uma letra que foi claramente entendida em Portugal como uma metáfora em que se comparava a tourada ao decrépito regime ditatorial do Estado Novo, a canção é uma crítica à sociedade portuguesa daquele tempo:
Entram velhas doidas e turistas 
entram excursões 
entram benefícios e cronistas 
entram aldrabões 
entram marialvas e coristas 
entram galifões 
de crista.
                 
Na letra faz-se uma crítica ao snobismo e hipocrisia da sociedade:
Entram cavaleiros à garupa 
do seu heroísmo 
entra aquela música maluca 
do passodoblismo 
entra a aficionada e a caduca 
mais o snobismo 
e cismo...
              
Critica-se as contradições existentes na sociedade e os lucros de alguns:
Entram empresários moralistas 
entram frustrações 
entram antiquários e fadistas 
e contradições 
e entra muito dólar muita gente 
que dá lucro as milhões.
            
Na letra faz-se uma alusão à chamada Primavera marcelista, uma pretensa mudança efetuada no governo de Marcelo Caetano (mudavam os nomes, por exemplo, censura passou a ter o nome de "exame prévio", mas na prática pouco mudava):
estamos na praça da Primavera.
Não se percebeu como é que a censura vigente na época, não conseguiu entender a mensagem transmitida pela letra que era uma crítica mordaz/sátira ao regime.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Tourada_(canção)
                  

          A contestação ao Estado Novo e o 25 de Abril foram os momentos mais marcantes no que diz respeito à música de intervenção. Temas como "Grândola Vila Morena", de Zeca Afonso ou a "Tourada" de Fernando Tordo, tornaram-se intemporais e fizeram história.
Canções de resistência ou canções de protesto, consideradas após a revolução de Abril de 1974 como canções de intervenção são constituídas por poemas e músicas de denúncia de um presente de repressão e surgem como luta por um mundo melhor. Sem finalidade comercial, recorrendo, com frequência, à balada , possuem uma mensagem universalista, livre de qualquer constrangimento social.
A canção de intervenção tem um valor pedagógico notável, na forma como alerta o povo para as prepotências existentes, que constrangem o  seu dia-a-dia. Não raro, a verdadeira mensagem era "camuflada" nos seus versos para poder passar pelo crivo da censura.
Carla Brito, “A canção enquanto arma - Música de intervenção” in Estórias da História, 23-03-2011
         
                     
Em 1973, mais uma vez ganhou o Festival RTP da Canção com “Tourada”, uma das letras mais polêmicas entre as que ganharam o grande prêmio em toda a história do Festival. Na verdade, entre as concorrentes deste ano contavam-se quatro canções de autoria de Ary dos Santos.
É preciso abrir aqui um parêntesis na trajetória de Ary dos Santos para comentar-se que embora ele tivesse encontrado vários intérpretes para seus poemas, nenhum deles – nem mesmo Amália Rodrigues – foi tão importante para sua obra como poeta como o foi Carlos do Carmo. Entre as inúmeras colaborações entre os dois destaca-se, sobretudo, “Estrela da Tarde”, uma das mais belas composições de toda a música portuguesa.
Carlos do Carmo define assim Ary dos Santos (Ary dos Santos: O Homem, o poeta, o publicitário: fotobiografia, Alberto Bemfeita, Lisboa, Caminho, 2003. p. 81) : “... insubstituível, não me refiro só ao aspeto afetivo, à amizade, refiro-me igualmente ao lado profissional. Tenho a convicção de que, num momento muito particular da nossa história (Abril de 74) – sendo um momento de libertação, tem cicatrizes ainda hoje difíceis de avaliar dada a sua proximidade, e que envolvem inúmeras contradições de sentimentos, ódios, paixões, encantos e desencantos – Zé Carlos fez com que a canção portuguesa simples, a canção do quotidiano, que poderão chamar de ligeira, nunca mais fosse a mesma desde que resolveu escrever para ela. ... Tenho vindo a constatar que algumas das pessoas que escrevem para canções, têm talento, mas estão muito aquém do que ele escrevia.
… Dizia que era poeta e nada percebia de música, mas de facto ele era um músico excelente, pela capacidade que tinha de entender a harmonia das palavras nas canções.” E ainda: “O Zé Carlos e o Fernando Tordo formavam uma dupla perfeita. … Esses casamentos são raros, só acontecem a espaços. Por exemplo, no Brasil houve duplas assim: a do Vinícius de Morais com o Tom Jobim ... O Zé Carlos tinha um outro dom importante. Na Lisboa dele, para além do figurino arquitetónico da cidade, estava sempre associado o elemento humano.
As figuras de Lisboa, que ele sabia descrever espetacularmente, devia-se à sua grande capacidade de observação. Ele era o que nós vulgarmente chamamos de umaesponja. Absorvia tudo o que o cercava.
... Outra das suas facetas por que sempre tive enorme apreço era o lado frontal. A frontalidade com que assumia a sua homossexualidade: sem tabus nem esquemas. Assumida numa época muito difícil, de grandes transformações sociais na vida portuguesa. Foi uma atitude de coragem que o dignifica e que não é para qualquer homem.”
                   
in Bulletin of the Faculty of Foreign Studies, Sophia University, nº 40, 2005.

http://folhadepoesia.blogspot.com/2013/08/tourada-festival-da-cancao-1973.html