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sábado, 29 de dezembro de 2012

Gomes Leal - A Canalha (excerto)



 * Gomes Leal  (1848.1921)

Eu vejo-a vir ao longe perseguida,
Como dum vento lívido varrida,
Cheia de febre, rota, muito além ...
- Pelos caminhos ásperos da História - 
Enquanto os Reis e os Deuses entre a glória
Não ouvem a ninguém.

Ela vem triste, só, silenciosa
Tinta de sangue, pálida, orgulhosa
Em farrapos, na fria escuridão ...
Buscando o grande dia da batalha.
- É ela, é ela, a lívida Canalha !
Caim é vosso irmão !

Eles lá vêm famintos e sombrios
Rotos, selvagens, abanando aos frios,
Sem leito e pão, descalços, semi-nús ...
Nada, jamais, sua carreira abranda.
- Fizeram Roma, a Inglaterra e a Holanda,
E andaram com Jesus.

São os tristes, os vis, os oprimidos.
- Em Roma são marcados e batidos,
Passam cheios de vastas aflições.
Nem das mesas llhes deitam as migalhas.
Morrem sem nome, às vezes, nas batalhas,
E andaram nas sedições.

Vêm varridos do lívido destino.
Em Roma, a velha Grécia, erram. sem tino,
Nos tumultos, enterros, bacanais ...
Nas praças e nos pórticos profundos,
E disputam. famintos e imundos,
O lixo aos animais.

São os párias, os servos, os ilotas.
Vivem nas covas húmidas, ignotas,
Sem luz e ar; arrancam-lhes as mães.
- Passam curvados, nas mãos geladas.
E, depois de já mortos, nas calçadas,
Devoram-nos os cães.


(...)

Vão há muito, na sombra foragidos,
Pelas neves, curvados e transidos,
Enquanto Deus se aquece nos seus Céus.
Vem do Sul uma lúgubre toada,
E escuta-se Rousseau, na água-furtada,
- Gritar - Que me quer Deus ?

Erguem-se ébrios de mortes, de vinganças
Assoma lá ao longe um mar de lanças,
Ressoam sobre os troncos os machados.
E a Europa vê passar, cheia de assombros,
Ferozes, em triunfos, aos seus ombros,
- Seus reis esguedelhados.

À voz das legiões rotas, sombrias,
Desabam pelo mundo as monarquias.
Tremem os graves bispos. - E depois ...
Que mais farão ? perguntam desolados.
- Vão ser, inda depois, crucificados
Os deuses e os heróis.

... ... ... ... ... ... ... ... 
... ... ... ... ... ... ... ... 

Vai prolongada a dissonante orgia.
No silêncio da noite intensa e fria,
Vem uns ecos perdidos de batalha,
Como uns ventos do norte impetuosos.
- São os passos, nas trevas, vagarosos,
Os passos da canalha

Eles vêm de mui longe, mui distantes
Como sonoros batalhões gigantes,
Como ondas negras dum sinistro mar,
Numa viagem trágica e sem glória.
- Há muito, pela noite da História,
Que os oiço caminhar.

Quem sabe se virão ? ... É longa a estrada
Desta comprida e áspera jornada.
Quem sabe quando, enfim, descansarão ?
As pedras atapetem-lhes com flores.
Lá vêm queimados, rotos, vencedores,
Altivos e sem pão ! ...

Não raiou ainda o dia da justiça.
Mas, breve, talvez se oiça a nova missa,
E a Liberdade enfim junte os seus filhos.
Vão talvez vir os tempos desejados!
- E, então, por vossa vez, ó reis sagrados,
Saúde aos maltrapilhos !


Leal, Gomes - Antologia Poética, Guimarães Editores, Lisboa, 1999
Foto Victor Nogueira
1789 - a queda da bastilha

1871 - Comuna de Paris
1917 - assalto ao palácio de inverno

volpedo - o quarto estado

segunda-feira, 21 de março de 2011

Louise Michel: Os cravos rubros

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Vermelho - 19 de Março de 2011 - 0h00
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Louise Michel escreveu este poema (em francês Les Œillets rouges) em homenagem a seu companheiro e namorado Théophile Ferré, executado juntamente com muitos de seus amigos, entre eles Louis Rossel, que foi ministro da guerra da Comuna, em 28 de novembro de 1871. 
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Naqueles dias, Louise se dispôs a executar, pessoalmente, o presidente Adolphe Thiers pelo papel decisivo que ele desempenhou na repressão da Comuna e no massacre da população operária de Paris nas semanas seguintes à derrota dos communards.
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Os cravos rubros
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Quando ao negro cemitério eu for,
Irmão, coloque sobre sua irmã,
Como uma última esperança,
Alguns 'cravos' rubros em flor.
Do Império nos últimos dias
Quando as pessoas acordavam,
Seus sorrisos eram rubros cravos
Nos dizendo que tudo renasceria.
florescerão nas sombras
de negras e tristes prisões.
Vão e desabrochem junto ao preso sombrio
E lhe diga o quanto sinceramente o amamos.
Digam que, pelo tempo que é rápido,
Tudo pertence ao que está por vir
Que o dominador vil e pálido
Também pode morrer como o dominado.
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La bibliothèque libre.
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[[Auteur:|]]Louise Michel

Les Œillets rouges


Si j’allais au noir cimetière,
Frère, jetez sur votre soeur,
Comme une espérance dernière,
De rouges œillets tout en fleurs.

Dans les derniers temps de l’Empire,
Lorsque le peuple s’éveillait,
Rouge œillet, ce fut ton sourire
Qui nous dit que tout renaissait.

Aujourd’hui, va fleurir dans l’ombre
Des noires et tristes prisons.
Va fleurir près du captif sombre,
Et dis-lui bien que nous l’aimons.

Dis-lui que par le temps rapide
Tout appartient à l’avenir
Que le vainqueur au front livide
Plus que le vaincu peut mourir.
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http://fr.wikisource.org/wiki/Les_%C5%92illets_rouges
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domingo, 20 de março de 2011

Os dias da Comuna: a poesia na luta pelo futuro

Cultura

Vermelho - 19 de Março de 2011 - 0h01
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.O poeta e dramaturgo comunista Bertolt Brecht (10 de fevereiro de 1898 – 14 de agosto de 1956) renovou o teatro e a poesia exprimindo sentimentos revolucionários sob uma forma igualmente revolucionária, adequada a seu tempo e às suas contradições.
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Militante comunista, foi combatente antinazista da linha de frente, engajando sua arte na luta pela democracia, pelo socialismo, contra o fascismo e o nazismo. Ligou a crítica ao nazismo ao combate contra a repressão característica do tempo de reação burguesa, da qual o bestial massacre da Comuna de Paris foi um marco.
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A arte, propunha ele, precisa estar a serviço da luta operária, do progresso social e dos mais altos sentimentos de humanidade e solidariedade. É um instrumento, nesse sentido, de combate à alienação e ferramenta para despertar e consolidar a consciência de classe. Os dias da Comuna é um dos melhores exemplos da clareza e determinação que ilumina os escritos de Brecht.


Os dias da Comuna (*)


Bertold Brecht


1.
Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram
Suas leis para nos escravizarem.
As leis não mais serão respeitadas
Considerando que não queremos mais ser escravos.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e com canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.

2.
Consideramos que ficaremos famintos
Se suportarmos que continuem nos roubando
Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças
Que nos separam deste bom pão que nos falta.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos, de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.

3.
Considerando que existem grandes mansões
Enquanto os senhores nos deixam sem teto
Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos
Porque em nossos buracos não temos mais condições de ficar.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos, de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.

4.
Considerando que está sobrando carvão
Enquanto nós gelamos de frio por falta de carvão
Nós decidimos que vamos toma-lo
Considerando que ele nos aquecerá
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos, de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.

5.
Considerando que para os senhores não é possível
Nos pagarem um salário justo
Tomaremos nós mesmos as fábricas
Considerando que sem os senhores, tudo será melhor para nós.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.

6.
Considerando que o que o governo nos promete
Está muito longe de nos inspirar confiança
Nós decidimos tomar o poder
Para podermos levar uma vida melhor.
Considerando: vocês escutam os canhões
Outra linguagem não conseguem compreender
Deveremos então, sim, isso valerá a pena
Apontar os canhões contra os senhores!



(*) Com o título “Resolução”, este poema encerra a seção 3 da peça Os dias da Comuna que Brecht escreveu em 1948-1949, traduzida para o português por Fernando Peixoto.

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sábado, 19 de março de 2011

Louise Michel, o anjo vermelho da revolução - As Mulheres de Paris

Cultura

Vermelho - 19 de Março de 2011 - 0h00
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A professora, enfermeira, poetisa e escritora Louise Michel (29 de Maio de 1830 — Marselha, 9 de Janeiro de 1905), foi uma das principais lideranças da Comuna de Paris. Ela participou da luta nas barricadas, da organização das mulheres e exerceu funções de apoio (foi, por exemplo, uma das responsáveis pela organização da educação infantil durante o governo da Comuna).
Presa, foi exilada na Nova Caledônia, de onde só retornou em 1880, reconhecida como uma das principais militantes e dirigentes da luta operária na França. Ela foi o anjo vermelho da revolução.
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No texto transcrito abaixo, ela descreve a situação das mulheres em Paris às vésperas da Comuna.
.o - As Mulheres de Paris
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As mulheres de Paris

Louise Michel
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Entre os mais implacáveis combatentes que lutaram contra a invasão e defenderam a República como aurora da liberdade, as mulheres destacam-se em grande número.
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Quiseram fazer das mulheres uma casta e sob a força que as esmagada através dos acontecimentos a seleção é feita. Não nos consultaram a este respeito e não que consultar ninguém. O mundo novo nos reunirá à humanidade livre na qual todos terão um lugar.
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O direito das mulheres marchava corajosamente com Maria Deresme, mas exclusivamente por um só lado da humanidade, as escolas profissionais das Senhoras Jules Simon, Paulin, Julie Toussaint. A educação dos pequenos da Senhora Pape Carpentier ao encontrar-se à rua Hautefeuille com a sociedade de instrução elementar confraternizaram-se sob o Império, em uma acepção tão ampla que as mais ativas faziam parte de todos os agrupamentos ao mesmo tempo. Tínhamos, para isso, como cúmplice o Sr. Francolin, da instrução elementar, que, devido à sua semelhança com os sábios do tempo da alquimia e também por amizade, chamávamos de Dr. Francolinus.
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Ele havai fundado, quase sozinho, uma escola profissional gratuita à rua Thévenot.
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Os cursos aí tinham lugar à noite. Aquelas que, dentre nós, o cursavam podiam, deste modo, estar à rua Thévenot após a sua aula, erámos todas professoras. Havia Maria La Cecillia, então uma moça, a diretora era Maria Andreux e muitas outras mulheres ministravam cursos ali. Eu fazia três, literatura, onde era fácil encontrar citações de autores do passado adaptando-os ao tempo presente; a geografia antiga, onde os nomes e as pesquisas do passado levavam aos nomes e às buscas do presente, onde era tão bom evocar o futuro sobre a ruínas que eu me apaixonei por este curso.
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Eu tinha também, às quintas-feiras, o curso de desenho no qual a polícia imperial deu-me a honra de vir ver um Vitor Noir, sobre o seu leito de morte, desenhado em giz branco e espalhado com o dedo sobre o quadro negro o que dava um alívio de uma doçura de sonho.
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Quando os acontecimentos multiplicaram-se, Charles de Sivry assumiu o curso de literatura e a Senhorita Potin, minha colega e amiga, assumiu o curso de desenho.
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Todas as sociedades de mulheres não pensavam senão na hora terrível em que estávamos, agrupando-se na sociedade de socorro das vítimas da guerra, onde as burguesas, as mulheres destes membros da defesa nacional, que defenderam tão pouco, foram heróicas.
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Digo sem espírito de seita, pois eu estava mais freqüentemente à pátria em perigo e no comitê de vigilância que no comitê de socorro para as vítimas da guerra, espírito tão generoso e amplo; os socorros foram dados, mesmo esfarelados para aliviar um pouco todas as dores e também para estimular ainda e sempre a jamais renderem-se.
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Se alguém no comitê de socorro às vítimas falasse de rendição, era colocado da porta para fora, tão energicamente como nos clubes de Belleville ou de Montmartre. As mulheres de Paris eram como as dos subúrbios. Como me lembro da sociedade de instrução elementar onde à direita da escrivaninha no pequeno escritório eu tinha um lugar em cima da caixa do esqueleto, na sociedade de socorros, eu tinha um lugar sobre um banquinho aos pés da Sra. Goodchaux, que se assemelhava, com seus cabelos brancos a uma marquesa de antigamente, lançava às vezes sorrindo, alguma pequena gota de água sobre os meus sonhos.

Por que eu era uma privilegiada? Não sei, é verdade, se talvez as mulheres amem as revoltas. Não valemos mais que os homens mas o poder não nos corrompeu ainda.
E o fato é que elas me amavam e eu também as amava.

Quando, depois do 31 de outubro, fui feita prisioneira do Sr. Cresson, não por ter tomado parte em nenhuma manifestação, mas por ter dito: estou lá apenas para partilhar o perigo das mulheres, não reconheço o governo! a Sra. Meurice, em nome da sociedade para as vítimas da guerra, venho reivindicar a minha libertação, ao mesmo tempo que os clubes, Ferré, Avronsart e Christ vieram.

Quantas coisas as mulheres tentaram e em todos os lugares! Estabelecemos em primeiro lugar ambulâncias nos fortes e como, contra o costume, encontramos a defesa nacional disposta a nos acolher, começamos a crer os governantes dispostos a lutar, enquanto que eles enviavam para os fortes uma multidão de jovens inúteis, ignorantes e com pequenos ferimentos que choravam suas mágoas enquanto que os fortes lutavam para viver; umas e outras, nós entregamos a nossa demissão procurando nos empregar de modo mais útil. Encontrei no ano passado, uma destas corajosas mulheres das ambulâncias, Sra. Gaspard.

As ambulâncias, os comitês de vigilância, os escritórios da prefeituras onde, sobretudo a Montmartre, as Sras. Poirier, Escoffon, Blin, Jarry encontravam meios para que todas tivessem um salário pago igualmente.

A marmita revolucionária onde durante todo o cerco, a Sra. Lemel, da câmara sindical do encadernadores, impede nem sei quantas pessoas de morrer de fome, foi uma verdadeira proeza de devoção e inteligência.

As mulheres não se perguntavam se algo era possível, mas se era útil, então conseguia-se realizá-la.

Um dia decidiram que Montmartre não tinha ambulâncias suficientes e então com uma amiga mais jovem da sociedade de instrução elementar decidimos criá-la. Chamava-se Jeanne A., mais tarde Sra. B.

Não havia um centavo, mas tínhamos uma idéia para fazer fundos.

Trouxemos conosco um guarda nacional, de boa estatura, com a fisionomia de uma gravura de 93, andando com a baioneta à frente do fuzil, com uma larga cinta vermelha, tendo às mãos bolsas feitas pelas circunstâncias, partimos os três, entre os ricos, com rostos sombrios. Começamos pela igrejas, o guarda nacional andava pelas alamedas batendo o seu fuzil nas pedras; chamávamos alguém ao lado da nave, pedíamos a começar pelo padres no altar.

Por sua vez, os devotos, pálidos de espanto, derramavam trêmulos a sua moeda nas nossas bolsas - alguns com bastante boa-vontade, mas todos os padres doavam - depois foi a vez de alguns financistas judeus ou cristãos, depois de pessoas corajosas, um farmacêutico da Butte ofereceu o material. A ambulância foi criada.

Ria-se muito, na prefeitura de Montmartre desta expedição que ninguém encorajava, de que tínhamos confiança antes do resultado.

No dia em que as Sras. Poirier, Blin, Excoffons vieram encontrar-se comigo na minha aula para iniciar o comitê de vigilância das mulheres me ficou na memória.

Era de noite, depois da aula, e elas estavam sentadas contra o muro, Excoffons com seus cabelos loiros despenteados, a mãe Blin já velha com uma touca de tricô; a Sra. Poirier com um capuz e capa de índia vermelho; sem cumprimentos, sem hesitação, elas simplesmente me disseram: é preciso que você venha conosco e eu respondi, vou.
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Havia neste momento na minha sala de aula cerca de 200 alunos, meninas de seis a doze anos que ensinávamos eu e minha auxiliar e de todas a crianças de três a seis anos, meninos e meninas dos quais se encarregava minha mãe e aos quais mimava muito. Os mais velhos da sala a ajudavam, ora uns ora outros.
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Os menores, cujos pais eram camponeses refugiados em Paris, tinham sido enviados por Clemenceau; a prefeitura estava encarregada da sua alimentação, tinham leite, cavalo, legumes e com frequência algumas guloseimas.
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Um dia que o leite atrasou, os mais jovens pouco habituados a esperar olhavam-se chorando, minha mãe os consolava e chorava com eles. Nem sei como me ocorreu, para fazê-los esperar, de ameaçá-los, se não se calassem de enviá-los par Trochu.
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Logo gritavam de medo: senhorita, seremos ajuizados, não nos mande para Trochu!
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Este grito e a paciência com a qual esperaram deram-me a ideia de que era corrente entre eles ter em baixa conta o governo de Paris.
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Frequentemente falou-se dos ciúmes entre as professoras, nunca os testemunhei. Antes da guerra todas fazíamos troca no trabalho com as nossas vizinhas de sala, com a Sra. Potin dando lições de desenho nas minhas e eu lições de música nas dela, levando, tanto uma como a outra nos alunos à rua Hautefeuille. Durante o cerco, ela deu minhas aulas enquanto estive na prisão.
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Extraído do livro A Comuna, de Louise Michel
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domingo, 11 de novembro de 2007

Lénine e a Revolução


Entrevista com Jean Salem

feita por Carlos Nabais
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Fotos Inês Seixas

Filósofo francês, professor na Universidade de Sorbonne, em Paris, Jean Salem questiona a «história feita pelos vencedores», recusa a criminalização da militância comunista e da história do comunismo, realçando que ao longo de todo o século XX gerações de revolucionários dedicaram as suas vidas aos ideais do progresso da humanidade. No seu mais recente livro, Lénine e a Revolução, que será lançado no próximo dia 26, em Lisboa, pelas edições Avante!, o autor expõe seis teses que sintetizam e demonstram com clareza a actualidade do pensamento do grande revolucionário russo. Com este trabalho em pano de fundo, Jean Salem fala-nos da convicção de que «um dia tudo voltará a acontecer, as explosões sociais, a revolução».

No final do seu livro afirma que «uma reabilitação muito mais do que parcial dos 70 anos de socialismo real acompanhará como condição necessária o ascenso do próximo movimento revolucionário». Peço-lhe que explique esta afirmação.

Quando me refiro à necessidade de «uma reabilitação muito mais do que parcial» não pretendo dizer que a revolução não será retomada enquanto não fizermos novas estátuas a Stáline, pois para isso seria preciso esperar muito tempo.
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Mas, como num sistema de vasos comunicantes, se considerarmos que o stalinismo é algo de quase tão horrível, tão horrível ou muito mais horrível que o nazismo é obvio que isto constitui um extraordinário obstáculo, intransponível para o movimento revolucionário que desejaria apoiar-se na história moderna.
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Se Robespierre é o diabo, se a revolução é uma violência insuportável por definição (estou a falar, sem o mencionar, de um romance que acaba de sair em França, que fala da desgraça de Louis XVII, herdeiro do trono, morto durante a insurreição revolucionária), se Belzebu é Stáline, se toda a história soviética é feita de crimes, se enfim acumulamos números totalmente grotescos que oscilam entre 60 e 140 milhões de vítimas do stalinismo – são números que têm circulado massivamente...

Dir-se-ia que os soviéticos estiveram à beira da extinção!...

Mas, no entanto, Soljenitsin afirma-o no seu livro Arquipélago de Gulag, de cujo primeiro volume foram vendidos em França mais de 900 mil exemplares.
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Isto mostra que estamos confrontados com uma intensa propaganda mundial que, se não for sujeita a uma crítica, à nossa crítica, julgo que o desenvolvimento do pensamento revolucionário, não a sua retomada, seria contrariado, obliterado pela ausência de reacção, designadamente da nossa parte, perante tais mentiras.
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Apesar de tudo, a retomada do pensamento revolucionário está aí e tenho consciência de que para os jovens, rapazes e raparigas de hoje, a questão crucial não é a que se coloca aos da minha geração: será que fomos demasiado complacentes com Stáline, com Khruchov, com Brejnev, com a União Soviética?
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De um certo modo são pontos da história extremamente importantes de esclarecer; de outro, isso não interessará aos jovens ou interessar-lhes-á tão pouco como as querelas em torno da revolução francesa: pertencem ao passado.
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Por isso não transformo numa condição absoluta do movimento progressista ou revolucionário a clarificação da história do século XX, mas penso que, se não travarmos a vaga ridícula e escandalosa de criminalização da militância comunista e da história do comunismo, o movimento social irá perder muito tempo.

Mesmo derrotada «a revolução continuaria invencível». Esta citação de Lénine pode aplicar-se aos 70 anos de socialismo real? É uma experiência que irá permanecer como referência inspiradora para a luta dos povos?

De facto Lénine dizia que uma Revolução mesmo vencida conserva uma espécie de invencibilidade porque permanece na memória dos povos, como um assalto heróico, comparável ao «assalto dos céus», que é a expressão que Marx utiliza a propósito dos comunards da Comuna de Paris que foi derrotada ao fim de três meses.
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Marx utiliza esta expressão porque era um grande conhecedor da filosofia epicurista. A sua tese de licenciatura foi sobre Demócrito e Epicuro. É Lucrécio, discípulo latino de Epicuro, que nos diz que este saiu em imaginação para além dos limites do nosso mundo, percorreu o universo imenso através do seu pensamento e trouxe-nos a verdade dessa viagem, explicando-nos que há um Deus que não se interessa absolutamente nada pelos nossos assuntos, que não intervém na nossa vida, e nessa passagem do poema Da Natureza das Coisas afirma-se que a vitória de Epicuro sobre a religião «nos elevou aos céus». Marx evoca recordações dos seus estudos de juventude quando diz que os communards se elevaram ao «assalto dos céus».
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É óbvio que as épocas heróicas, as épocas de revoluções sociais, deixam na memória colectiva recordações galvanizadoras, mais capazes de nos tornar optimistas em relação à natureza humana do que épocas como a que atravessamos presentemente – ou aquela em que igualmente viveu Epicuro, a época de decadência da Grécia – em que tudo se compra, tudo se vende. As pessoas descrêem nos políticos, vêem-nos como demagogos, impostores e gente corrupta…
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As épocas de crise, de decadência não são particularmente entusiasmantes e tendem a deprimir os que nelas vivem. Por isso a nostalgia de um país que derrotou o nazismo, que mostrou que a planificação permite evitar a anarquia da produção capitalista (que apenas visa a obtenção de ganhos para certas camadas privilegiadas e não a satisfação propriamente das necessidades da população) é um sentimento que não pode ir muito longe mas tem o seu papel político.
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Os jornais falam de um sentimento massivo de nostalgia pela ordem antiga na antiga República Democrática Alemã que parece aumentar cada vez mais. Ninguém duvida de que, se se realizasse um referendo na Rússia, as pessoas responderiam que estavam melhor antes do que agora.

Pelo menos assim o dizem algumas sondagens…

Mas até em recentes eleições podemos ver esse reflexo da época soviética, que tem permitido alguns sucessos eleitorais incontestáveis, talvez indesejáveis para os ocidentais, talvez até indesejáveis em si mesmo, já que têm catapultado figuras que não são militantes comunistas convictos, isentos de qualquer suspeita de corrupção.
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Aquilo que até agora mais marcas deixou na minha vida foi o facto de ter convivido durante a época soviética e comunista com massas de gente maravilhosa, e de ver, neste período de amargura, que muitos daqueles que eram de esquerda em Maio de 68 (les soixante-huitards), em Paris ou em noutros lados do mundo, se tornaram criados ou ideólogos da direita.

Pessoas como Cohn-Bendit?...

Sim, como Cohn-Bendit ou Bernard-Henry Lévy, gente que não me deixa grandes recordações. É preciso rir, tal como de certas personagens da época de Epicuro, rir…
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A nostalgia não nos fará avançar, mas há uma verdade política neste sentimento, que resulta, pelo menos no Ocidente, da ausência de ideais. As pessoas acreditam que deve ser possível ter uma classe política não corrompida, menos ridícula, menos show bisness. A prova é que os jovens adoptaram o Che como um produto de marketing; todos eles admiram Mandela - sabem que ele é de uma estatura diferente dos chefes ocidentais.

A revolução continuará invencível

Este livro Lénine e a Revolução, para além de reafirmar de forma contundente a actualidade do pensamento do grande revolucionário russo é também uma contribuição para a reabilitação da história do socialismo. Por que decidiu começar com Lénine?

Na Universidade de Sorbonne, onde lecciono, o meu predecessor, Olivier Bloch, um filósofo, que é um homem muito activo apesar de estar reformado, quis organizar um colóquio intitulado «A Ideia de Revolução: Qual o seu Futuro no Século XXI?».
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Como ninguém pensou em falar de Lénine, disse-lhe que seria importante que alguém se ocupasse desse tema. Foi aí que tive a ideia de fazer este livro. Como a intervenção que preparei para esse colóquio acabou por ter uma dimensão considerável, decidi viver seis meses com as Obras Completas de Lénine em francês a meus pés, que frequentemente alternava com a consulta da edição russa na Biblioteca Nacional de França, em Paris.
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Ocorreu-me instantaneamente que se há um «cão morto» na história das ideias – para utilizar a expressão de Marx que dizia que Engels era tratado na sua época como um cão morto –, ele é sem dúvida Lénine.
Fala-se de um regresso a Marx, o Che é utilizado como produto de marketing como já disse, mas muito poucas pessoas falam de Lénine. Considera-se, hipocritamente ou não, que não tem qualquer interesse, que se trata de ideologia, ou que é o Belzebu, o anticristo, o irmão mais velho de Stáline, por um fio apenas mais recomendável que este.
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Decidi-me dar amplidão a este estudo sobre a ideia de revolução em Lénine, pensando que seria útil para corrigir alguns hábitos que adquirimos nos partidos comunistas ocidentais, entre os anos 65 a 80, quando ainda estavam de plena saúde.
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Por exemplo, começou-se a falar da possibilidade de passagem pacífica para o socialismo e, pouco a pouco, a ilusão de que a revolução consistia em obter 51 por cento dos votos para a esquerda tornou-se num hábito de pensamento quase religioso face aos resultados eleitorais, que gerou a incapacidade de compreender que o famoso sufrágio universal nos países ocidentais há muito se tornara numa concha vazia.

No entanto, no seu livro, não se limita a fazer a síntese do pensamento de Lenine, debruça-se igualmente sobre o socialismo na URSS e critica severamente a historiografia mais divulgada.

Sim. O livro é composto por três partes. A terceira parte que é uma espécie de panfleto sintético «Dez minutos para acabar com o capitalismo», resultou de uma conferência «muito digna» do Partido Comunista Francês dos nossos dias, em que pediram a vários especialistas em marxismo, incluindo-me a mim que sou só meio especialistas nesta área, para falar sobre a actualidade do marxismo em dez minutos. Isto é a fotografia de uma época. Fiz então um pequeno panfleto para cumprir aquela norma um pouco rígida.
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A segunda parte responde ao título do livro. Trata as teses de Lénine sobre a revolução. Na primeira parte tomei de facto a liberdade de dizer algumas verdades a meu gosto e explico como Lénine entrou na minha vida.
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Aí recordo que os meus pais «escolheram a liberdade», depois de terem sido alvos da repressão na Argélia e mais tarde em França, sobretudo o meu pai que «escolheu a liberdade» evadindo-se das prisões francesas onde foi torturado pelos pára-quedistas franceses.
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Atravessaram a «cortina de ferro» na direcção de que nunca se fala e eu encontrei-me em criança em escolas soviéticas, primeiro na Checoslováquia, na escola da Embaixada da URSS, e depois, já na Rússia, na Casa Internacional da Infância, em Ivánovo.
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Éramos centenas de crianças, filhos de gregos, de iranianos, martirizados pelos defensores do «mundo livre», torturados, assassinados em prisões do Xá ou durante a liquidação da resistência grega pelos britânicos.
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Esta experiência algo particular deu-me o conhecimento da língua russa e despertou-me o interesse pelo marxismo e por Lénine.
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Depois visei quatro pontos essenciais: As asneiras que se dizem sobre 70 anos de sovietismo, como se tivéssemos o direito de stalinizar todo o período; as asneiras a propósito do totalitarismo, conceito que é utilizado para os mais variados fins (quando se pretende atacar um regime, norte-coreano ou iraniano, fala-se de totalitarismo); as asneiras em relação ao fim da União Soviética e, finalmente, as que se dizem sobre a política soviética nas vésperas e após a II Guerra Mundial.
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O cineasta norte-americano Kens Burns explicou a um jornal que se decidiu a fazer o documentário «A Guerra» (The War), porque 40 por cento dos jovens americanos entre os 15 e os 18 anos pensam que a II Guerra Mundial opôs os Estados Unidos e a União Soviética. Outra sondagem em França indica que a maioria dos jovens franceses pensa que a União Soviética foi aliada da Alemanha nazi.

Na primeira parte desta obra denuncia com alguma insistência a tentativa por parte da historiografia burguesa de stalinizar inteiramente o período soviético. E contrapõe defendendo que se deveria falar «não de um regime mas antes de regimes soviéticos», tendo em vista as «diferentes fases» da sua história. Que fases são estas?

Fiz estudos em história de arte, mas não sou um historiador profissional, sou um estudante. Sou profissinal de filosofia, escrevo livros de filosofia, hoje há quem se diga filósofo por muito menos, mas a minha disciplina é de facto a filosofia.
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Todavia, acho impensável que depois de se ler a história da URSS, mesmo que superficialmente, de se ouvir falar de destalinização, do famoso relatório de Khruchov ao XX Congresso do PCUS, se insista em enfiar no mesmo pacote os 70 anos de socialismo soviético.
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Não podemos afirmar que Khruchov e Stáline são idênticos, que o são Andropov e Stáline ou Brejnev e Stáline.
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As discussões sobre o exercício despótico do poder, iniciadas durante o período soviético na própria União Soviética, são um sinal evidente de que não se tratou de um cancro associado à essência do sistema mas de um problema que merece ser debatido e estudado e que terá sido condicionado também por determinadas circunstâncias históricas.
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De resto é um problema localizável. Até Hannah Arendt [autora alemã que tenta assemelhar o nazismo e o comunismo como ideologias totalitárias] situa esses períodos nos anos 32, 36, 37 e 38.
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Temos de estudar a história seriamente, não como muitos sovietólogos que se dedicam a criar slogans. Um deles até já ousou escrever (cito Alain Besançon, membro da Academia das Ciências Morais e Políticas de Paris), que em matéria de soviétologia «nem sequer vale a pena mantermo-nos actualizados. O que é preciso é aprender a crer no inacreditável». Eis pois uma afirmação extraordinária de alguém que passa por um sábio.
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Uma das questões que temos de abordar com seriedade é a aritmética macabra que nos foi imposta. Eu peço que nos expliquem esta história digna de um conto de fadas, que recorre a categorias do tipo Branca de Neve e os Sete Anões.
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Em 1956 tinha apenas quatro anos de idade. Só mais tarde, naturalmente, ouvi falar do XX Congresso do PCUS. Nos anos 70, era eu membro das juventudes comunistas em França, começou-se a falar cada vez com mais frequência de um milhão, dois milhões, de três ou quatro milhões de vítimas da repressão stalinista, pressupondo-se evidentemente que numa revolução nem todos os mortos são vítimas inocentes executadas por erro.
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Entre os anos 70 a 85, ou seja 30 anos depois do XX Congresso, assistiu-se ao inflacionamento demencial dos números (40 milhões, 60 milhões, etc.), a uma assimilação grotesca do stalinismo ao nazismo, e logo do sovietismo e do socialismo em geral ao nazismo.
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O que penso é que esta aritmética macabra tem de ser verificada e, evidentemente, desmentida já que é demasiado extraordinária para poder ser verdade.

É sabido que o XX Congresso do PCUS pouco mais guardou de Stáline que o seu papel na derrota do nazi-fascismo. No entanto, não haverá que reconhecer a Stáline um papel proeminente em todo o período da construção do socialismo?
Refiro-me designadamente aos enormes avanços da revolução nos anos 30 que se revelaram decisivos para o desfecho da guerra e permitiram a afirmação vitoriosa do socialismo como sistema mundial
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No meu livro refiro a cidade de Volgogrado, antes chamada Stalinegrado, onde se produziu a viragem da guerra. É uma espécie de Hiroxima onde as pessoas andam sobre dois milhões de mortos.
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Pierre Roederer [político francês que participou no golpe bonapartista de 1798] dizia que não recusava nenhum período da história de França, incluindo o período da revolução.
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Se não quisermos limitar-nos a fazer discursos de moral – como os «filósofos» mediáticos, os think faster que vemos nas televisões sempre do lado do bem e contra o mal – então temos de tomar a revolução como um todo.
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Numa revolução não se pára ao primeiro morto que se encontra, sobretudo, como dizia Robespierre, se esse morto é um general que massacrou dois mil patriotas: «Queríeis uma revolução sem revolução?», perguntou ele.
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Lénine e muitos outros contavam com a revolução mundial. Desde Marx que se pensava que a revolução começaria nos países mais industrializados, onde o proletariado era mais forte e onde as tradições democráticas burguesas já estavam bem enraizados nas massas, tais como a Inglaterra, a Alemanha, a França.
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Durante três ou quatro anos após a revolução de Outubro, Lenine pensou que o enorme clarão revolucionário na Rússia e nas colónias do império czarista iria rapidamente alastrar a países verdadeiramente «amadurecidos» para a revolução proletária.
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No entanto, com o fracasso do Exército Vermelho na Polónia [1920], para o qual contribuiu a ajuda militar dos franceses; com a derrota da revolução dos sovietes na Hungria [1919] e sobretudo após o massacre dos espartaquistas na Alemanha [1919] a história tomou um rumo diferente, levando Lénine a concluir que seria necessário construir o socialismo num só país.
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Uma revolução, como Marx e Engels não se cansaram de dizer, é sobretudo uma confrontação de forças, ou seja, ela não se faz se não pela força. Isso não significa que seja necessário provocar torrentes de sangue.
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De qualquer modo, Marx observa que a teoria só se torna uma força material quando está amparada nas massas. Ou seja, se milhões de pessoas se manifestarem nas ruas por uma ideia, por uma vontade, se fizerem greve durante um certo tempo podem, em determinadas circunstâncias, provocar a queda do poder. Isto é, pode não ser necessário pegar em armas.
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Tal não significa que os marxistas façam uma religião do pacifismo ou recusem toda a violência, uma vez que se trata de pôr fim a uma violência permanente que é exercida pelo sistema sobre os oprimidos.
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A propaganda dos privilegiados escolhe sempre os seus alvos de forma selectiva. Há quilómetros de páginas impressas sobre determinados acontecimentos enquanto outros, com consequências semelhantes ou muito piores, são silenciados.
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Por exemplo, os famosos horrores cometidos pelo regime de Saddam Hussein nas aldeias curdas são pouco significativos quando comparados com os crimes de guerra perpetrados pelos norte-americanos no Vietname. Não peço que canonizem Saddam Hussein, mas será que os norte-americanos alguma vez foram julgados ou apresentaram desculpas pelo que fizeram? Pelo contrário, alegam que os vietnamitas exageram o que se passou… o «agente laranja», a utilização generalizada de armas químicas, etc.
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Aliás, antes da revolução de 1917, Lénine escreveu que os dez milhões de mortos e vinte milhões de estropiados da I Guerra Mundial, que apenas favoreceu os interesses dos negociantes de canhões, serão vistos pela burguesia como algo de perfeitamente normal e como um sacrifício inteiramente legítimo, mas se se registarem algumas centenas de mortos durante uma revolução, dir-se-á que foi um massacre bárbaro provocado por bárbaros.
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Para responder à sua pergunta, é óbvio que a inacreditável resistência oferecida pelos povos da URSS, que fez virar o rumo da guerra, é uma fotografia, um referendo perfeito sobre o que pensavam dessa época soviética os que nela viviam.
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O povo de que falamos não se sentia apenas como uma vítima aterrorizada – era parte envolvida numa dinâmica revolucionária, com os seus desvios, os seus erros, os seus crimes.
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Alguns historiados não comunistas britânicos e americanos, quer logo a seguir à guerra, quando o prestígio da URSS era enorme, quer hoje, como um certo Michael Coney, que cito no meu livro, consideram como um facto evidente que o anticomunismo foi, a cada passo, um dos elementos, se não mesmo o principal elemento, que permitiu a corrida à guerra.
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As potências ocidentais fizeram tudo para deixar as mãos livres a Hitler na sua cruzada a Leste. E o facto de a maioria dos jovens em França acreditar que a URSS era aliada da Alemanha na Guerra é o resultado da intensa propaganda em torno do pacto germano-soviético.
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Quantos sabem que o pacto germano-soviético [Agosto 1939] teve lugar um ano depois do acordo de Munique [Setembro 1938], que foi uma espécie de conselho de guerra de Hitler, no qual a Inglaterra e a França, entregando-lhe a Checoslováquia e abandonando os seus aliados, o convidaram a voltar-se para Leste?
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Quem sabe que após o discurso contra a guerra pronunciado por Maurice Thorez, então secretário-geral do PCF, em Estrasburgo, o governo francês apresentou à Alemanha um pedido formal de desculpas por «esta provocação dos comunistas»?
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Não digo que tudo tenha sido bem feito, mas é preciso lembrar que a URSS, que tinha sofrido a intervenção de 20 potências coligadas para derrotar a revolução em apoio dos brancos na guerra civil, tinha de utilizar todas as possibilidades para evitar uma nova guerra. Não vejo que pudesse ter agido de forma diferente.

No seu livro recusa o termo «queda da União Soviética» notando que «ela não caiu sozinha». Que causas, em sua opinião, terão levado ao desaparecimento da URSS?

De facto toda a gente utiliza termos como queda, desmoronamento, desintegração implosão e outros no mesmo sentido para caracterizar os acontecimentos na URSS entre 1989 e 1991.
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Mas sabemos que não houve nenhuma deflagração termonuclear, nem temos notícia de que a União Soviética se tenha «desintegrado» na sequência de um conflito militar.
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Os manuais de história também falam de «queda» da monarquia, mas Albert Soboul [historiador francês] dizia sempre que «ela não caiu sozinha», por isso deve dizer-se derrubamento da monarquia.
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Eu digo o mesmo em relação ao fim da União Soviética. Aqui partilho a análise do meu colega italiano Domenico Losurdo, quando observa que a multiplicidade de factores internos, vivida num «contexto de autofobia» dos antigos comunistas, que parecem falar de uma história da qual se deveria ter vergonha, faz com que nos esqueçamos de alguns «detalhes».
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Por exemplo, que todo o período desde 1945 até ao fim da União Soviética foi enquadrado por avisos extraordinariamente precisos do ponto de vista militar dados por parte do imperialismo norte-americano.
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Embora tentem reduzir o século XX ao gulag e aos campos nazis, a verdade é que, em apenas alguns dias, as bombas termonucleares de Nagasaki e Hiroxima mataram cerca de 300 mil pessoas. Mais grave do que o chamado totalitalismo, assistimos no século XX ao surgimento de um novo conceito que designo por «exterminismo». Os campos de extermínio nazis e o lançamento das bombas nucleares são os dois fenómenos do século passado que permitiram massacrar num tempo mínimo um máximo de pessoas. Mas isto é esquecido…
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Praticamente ninguém contesta que o lançamento das bombas sobre as duas cidades japonesas constituiu sobretudo um aviso à União Soviética. Não creio também enganar-me se disser que o governo de Ronald Reagan esteve na origem de um agravamento generalizado do clima internacional com o programa de defesa estratégica, conhecido como «guerra das estrelas», que foi lançado apenas alguns anos antes do fim da União Soviética.
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Segundo disse o próprio Reagan, o objectivo da «Iniciativa de Defesa Estratégica» era colocar de joelhos a União Soviética.
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Ouvi milhões de vezes que a União Soviética gostaria de se desenvolver para fornecer mais produtos e de melhor qualidade ao seu povo, mas que infelizmente tinha de canalizar enormes recursos para as despesas militares devido à corrida aos armamentos imposta pelo Ocidente.
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Ora, é extraordinário que praticamente não se fale desta questão. Não posso determinar o seu peso, mas parece-me óbvio que teve alguma influência nessa «queda».

Apesar da inegável influência dos factores externos, fortíssima desde o início e condicionadora de todo o percurso da URSS, que importância atribui aos factores internos que, em especial no período de 1985-1991, determinaram a dissolução do país e a instauração do capitalismo?

Ninguém pode afirmar que uma equipa de pessoas tenha, por si só, sido capaz de provocar o desaparecimento de um Estado. Contudo, sem dúvida que o período da «perestróika» foi marcado por uma política de capitulação e acomodação ao Ocidente que ajudou e acelerou o trabalho intenso com vista a destruir militarmente e por outros meios a existência do campo socialista.
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Não deixa de ser curioso observar que o facto de um grupo de pessoas, que conseguiu içar-se à cabeça do Estado, ter podido criticar o stalinismo e todos aqueles que lá tinham estado antes, fazendo crer que tudo o que havia naquele país estava errado, prova que afinal o «terror» nesse país não era assim tão grande como se diz.
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Ao contrário de muitos comunistas que conheci – autênticos heróis que passaram pelas prisões, resistiram à tortura e que quando chegaram ao fim das suas vidas a única coisa que tinham ganho para si era a estima dos seus vizinhos, comunistas e não comunistas - Mikhail Gorbatchov terminou a sua carreira a fazer publicidade de pizas e malas de marca.
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De resto, as confissões da sra. Thatcher e dos seus ministros são bem reveladoras a propósito da figura de Gorbatchov. Foi ela que disse que encontrar um soviético assim era «um sonho que jamais tinha ousado sonhar».
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Mas até comunistas convictos se interrogaram porque não mais democracia? Mais comunicação e transparência? Porque não um líder moderno, diferente daqueles que tínhamos visto, demasiado velhos e antiquados?
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Estávamos ainda no começo quando Gorbatchov fazia os seus primeiros sorrisos ao Ocidente. Tinha então começado a dizer que havia valores bem mais importantes que o socialismo, que havia valores universais como o da paz.
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Toda a gente é a favor da paz, sobretudo os comunistas. Mas trata-se de saber se é a paz que permite ao socialismo sobreviver ou se é o socialismo, com a sua força, que impõe a paz ao campo capitalista que é sempre agressivo?
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Basta olharmos para a história do imperialismo ocidental para vermos que praticamente ela se resume a guerras de conquista e de rapina... O mundo continua a ser hoje devastado pelas guerras do imperialismo americano.
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A minha interrogação não é sobre a possibilidade de tudo voltar a acontecer. Estou certo de que um dia tudo voltará a acontecer, as explosões sociais, a revolução. A minha única angústia é recear que voltemos a cair na burocracia, na corrupção, noutra Catastróica, para citar o livro de Alexandr Zinoviev, o único deste autor que não teve êxito no Ocidente, não só porque é pró-soviético mas sobretudo porque é uma denúncia muito forte da corrupção que cobriu todo o período da «perestróika».

A social-democracia foi a bóia de salvação do capitalismo

- Depois da II Guerra Mundial, gerações de revolucionários, como a de seu pai Henry Alleg, acreditaram firmemente que a vitória do socialismo a nível mundial estaria próxima. Pensa que se tratou de um sonho ou de uma convicção fundada em razões sólidas?

Para muitas pessoas que viveram nos anos 30 e assistiram ao enfraquecimento das forças de esquerda – período que infelizmente nos faz pensar nos tempos actuais –, as alterações verificadas no pós-guerra foram muito mais do que simples sinais de que o mundo está à beira de uma mudança.
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Na Europa uma dezena de países tinha passado para o campo do socialismo; o movimento de libertação nacional em rápida ascensão transformava as ex-colónias em estados e os seus dirigentes falavam quase todos em socialismo; somava-se ainda um sólido movimento operário nos países ocidentais, com grandes partidos comunistas.
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Embora na década de 70 já se falasse muito da crise do marxismo e do comunismo, a verdade é que, todos os anos, um ou mais países passava para o campo anti-imperialista.
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Lembremo-nos da Nicarágua, do Afeganistão (país onde houve uma revolução antes da chegada da ajuda militar soviética), de Moçambique e Angola, da revolução do 25 de Abril em Portugal ou mesmo do processo de democratização em Espanha.
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Era uma evidência que o movimento progressista continuamente se reforçava. O capitalismo estava em franco recuo. De tal forma que um editorialista do Le Fígaro, um jornal francês de direita, chegou a escrever que, até 1983, ele próprio pensava que a vitória do comunismo era irreversível.
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E se isto era assim neste período, quando eu já era uma espécie de «último dos moicanos» em Paris, no pós-guerra a perspectiva de que o mundo seguiria nessa direcção era segura e parecia inevitável.
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Neste quadro, a social-democracia constituiu para o capitalismo uma extraordinária bóia de salvação. Mais uma vez no século XX, a partir de 1981, políticos pró-capitalistas tomaram a dianteira não só de partidos de direita mas também de partidos que tinham raízes operárias e eram reputados como de esquerda.
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Dançou-se nas ruas de Paris quando Miterrand foi eleito em 1981, dançou-se nas ruas na Grécia quando os socialistas ganharam… Sabemos que tudo isto terminou num desespero generalizado perante duros planos de austeridade e medidas neoliberais.

A sexta tese que formula do pensamento de Lenine assinala o «deslocamento tendencial dos focos da revolução para os países dominados». Considera que os processos actualmente em curso, designadamente na América Latina, confirmam esta tese leninista?

Penso que essa tese foi plenamente confirmada no II Encontro de Serpa, «Civilização ou Barbárie», onde passei três dias extraordinários com camaradas, universitários ou não, vindos de muitos países do mundo.
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Todos os que se interessam pelo marxismo e são fiéis ao ideal comunista concentram-se largamente nos processos que decorrem na América Latina, o que não exclui o resto do mundo dominado e o mundo em geral.
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Não serei eu a fazer prognósticos sobre o que se irá passar, mas temos assistido a transformações importantes nestes últimos anos na Argentina, Brasil, e sobretudo na Venezuela e na Bolívia. Penso que nada disto se teria passado sem a presença de Cuba, país que o imperialismo não conseguiu anular apesar de todos os esforços.
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Na Universidade francesa tornou-se uma moda manter contactos com países da América Latina. Muitos professores seguem com atenção os acontecimentos que lhes recordam a sua própria juventude, o que é algo de novo. Deixou de haver entre os intelectuais de Paris apenas um clima de histeria e hostilidade em relação a tudo o que evoca a juventude da minha geração.
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Lénine recorda-nos que em países capitalistas desenvolvidos é muito possível que haja todas as aparências da democracia do ponto de vista da liberdade de imprensa, da liberdade de expressão, e evidentemente do ponto de vista económico. É muito possível que nestes países a classe operária possa recolher algumas migalhas da pilhagem das nações colonizadas e que a atmosfera social seja inteiramente agradável.
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Isto é com muita frequência esquecido pelos comunistas de antigos países coloniais, designadamente em França. Mas foi o que se passou durante a «gloriosa trintena», o período de crescimento que se seguiu à II Guerra Mundial.
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Os bens de consumo tornaram-se acessíveis a imensas camadas da população, em particular às camadas médias mas também ao proletariado até um certo nível. As pessoas estavam então seguras de que os seus filhos viveriam ainda melhor do que elas.
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A partir dos anos 1910-1915 Lénine assinala que será provavelmente nos países pilhados, nos países dominados (Marx e Engels já se tinham interessado pela luta dos irlandeses, pelos acontecimentos na Índia, na Argélia), que os grandes cataclismos deste século poderão acontecer.
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Isto não nos impede de continuarmos a lutar nos nossos países, como de resto tem acontecido e continuará a acontecer à medida do agravamento dos problemas sociais. Hoje há pessoas que vivem em Paris em condições idênticas ou piores às dos países do terceiro mundo… há 30 mil sem abrigo nas ruas de Paris!
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Poderemos contar com novas obras suas de estudo e reflexão sobre a experiência socialista que marcou o século XX e toda a história da humanidade?
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Nos últimos doze anos trabalhei essencialmente sobre assuntos mais técnicos do que políticos, o que aliás terá correspondido à própria época, talvez tenha sido um recuo táctico, uma vez que quando pronunciávamos o nome de Marx os estudantes em Paris largavam a caneta da mão. Isso e outras razões levaram a que me consagrasse ao estudo de Demócrito, Epicuro e Lucrécio, materialistas da antiguidade grego-latina.
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Depois de pequenas «guerras» indignas na Universidade (que não tiveram grande importância, mas mostram que também em França, país onde o marxismo teve grande importância, houve, como por todo o lado no mundo, uma verdadeira caça às pessoas suspeitas de serem marxistas) tornei-me finalmente professor de História da Filosofia.
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Tive a sorte de suceder a colegas que se reformaram, antigos comunistas, que conduziam seminários de história do materialismo com uma vertente de investigação consagrada à história das ideias dos séculos XVII-XX.
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Embora tenha continuado a fazer trabalhos sobre história da filosofia, pude então dedicar-me a outros temas, como à obra de Guy de Maupassant, romancista francês de que gosto muito, ou de Feuerbach [filósofo alemão]. Fiz até um livro de carácter mais pessoal sobre o prazer específico que provém da luta, onde cito autores como Amado, Neruda e outros.
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Actualmente, na universidade de Sorbonne organizamos um seminário designado «Marx no XXI século», que reúne quinzenalmente cerca de uma centena de pessoas e este ano esperamos duzentas pessoas. Convidamos normalmente oradores conhecidos, como Domenico Losurdo, Slavoj Žižek, George Labica.
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Não é o jornal Iskra, mas quase. É um local de reunião de todos os solitários que não suportam mais o manto de chumbo de censura que cobre os estudos marxistas.
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Mas, para responder à pergunta, há muito que tenho a intenção de escrever qualquer coisa sobre a robotização das massas, a manipulação dos espíritos, numa palavra sobre os media. É uma ideia que já tenho há 25 anos.
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Desde então muito se escreveu sobre o assunto, mas não está tudo dito, sobretudo no que diz respeito ao delírio da propaganda anticomunista, assunto que cheguei a abordar num pequeno trabalho publicado em 1985 som o título, «Cortina de Ferro no Bulevard Saint Michel, notas sobre a representação dos países ditos de Leste na elite cultivada do povo mais espiritual do mundo».
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Penso seriamente num novo trabalho sobre a uniformização das consciências e, em primeiro lugar, do inconsciente humano, do embrutecimento das massas, retomando a obra dos fundadores do marxismo-leninismo nos aspectos que podem ser utilizados na luta de hoje. Não posso ser mais preciso.
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in Avante 2007.11.08

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Comuna de Paris

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* Bertold Brecht


"Resolução
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Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram
Suas leis, para nos escravizarem.
As leis não mais serão respeitadas
Considerando que não queremos mais ser escravos.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e com canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.
Considerando que ficaremos famintos
Se suportarmos que continuem nos roubando
Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças
Que nos separam deste bom pão que nos falta.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.
Considerando que existem grandes mansões
Enquanto os senhores nos deixam sem teto
Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos
Porque em nossos buracos não temos mais condições de ficar.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.
Considerando que está sobrando carvão
Enquanto nós gelamos de frio por falta de carvão
Nós decidimos que vamos tomá-lo
Considerando que ele nos aquecerá
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.
Considerando que para os senhores não é possível
Nos pagarem um salário justo
Tomaremos nós mesmos as fábricas
Considerando que sem os senhores, tudo será melhor para nós.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.
Considerando que o que o governo nos promete sempre
Está muito longe de nos inspirar confiança
Nós decidimos tomar o poder
Para podermos levar uma vida melhor.
Considerando: vocês escutam os canhões
Outra linguagem não conseguem compreender
Deveremos então, sim, isso valerá a pena
Apontar os canhões contra os senhores!
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Do texto "Os Dias da Comuna", de Bertold Brecht, tradução de Fernando Peixoto
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