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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Manuel Loff - Cem anos a “justificar” o 28 de Maio

 * Manuel Loff

18 de Agosto de 2026

A Grande Guerra trouxera consigo, um pouco por toda a Europa mas sobretudo entre nós, a permanente irrupção dos militares e o sistemático uso da violência na vida política.

Há cem anos, o regime liberal português, que, com intermitências, havia durado mais de um século desde a Revolução de 1820, foi um dos primeiros na Europa a ceder perante a vaga autoritária fascizante do pós-I Guerra Mundial. A participação de Portugal na Grande Guerra acelerou, como ocorria por toda a Europa, o processo de crise do sistema liberal, de que a República do 5 de Outubro foi, no nosso país, a última etapa.

O rol de consequências que da guerra decorreram (cem mil jovens enviados para a guerra, racionamento, requisições forçadas, censura e supressão de liberdades, repressão da contestação social), coincidindo no seu ano final com a pandemia da gripe pneumónica, exasperara inevitavelmente a grande maioria da sociedade. Dela foram sintomas os levantamentos da fome e os assaltos aos armazéns e às lojas de víveres, as greves que os sindicatos convocaram contra Afonso Costa (1917) e Sidónio Pais (1918), ou a remobilização religiosa em torno das chamadas “aparições” de Fátima (maio-outubro de 1917).


quinta-feira, 28 de maio de 2026

Raquel Varela - 100º aniversário do 28 de Maio de 1926

 * Raquel Varela

Afinal, o que representou o golpe de 28 de maio de 1926? Como este dia, que deu início à mais longa ditadura da Europa, nos ensina a olhar o regime hoje?

Portugal teve desde 1890 um dos principais e mais bem organizados movimentos sindicalistas revolucionários do mundo (a par do norte-americano, italiano, francês e claro, espanhol – era um movimento ibérico). Depois da crise de 1929 e a ameaça revolucionária em Espanha nos anos 1930, o regime torna-se abertamente fascista.

A incapacidade de estabilizar o país para a acumulação de capital no quadro da fase imperialista – a criação de monopólios como condição de existência da burguesia portuguesa no mercado mundial, ou seja, como condição de existência da própria burguesia nacional – vai levar um sector importante desta classe a abdicar do poder político-institucional a partir de 1926, para manter o poder económico-social, ensaiando um clássico regime bonapartista, suprimindo o Parlamento – a Ditadura Militar.

Entre 1926 e 1933, houve uma compreensão clara por parte da maioria dos setores da burguesia portuguesa de que a modernização capitalista e a acumulação de capital, baseada, na metrópole, no “trabalho barato” (assente na proibição de sindicatos e partidos políticos livres) e, nas colónias, na primazia do trabalho forçado, não poderiam ocorrer sob regime democrático, porque, já no século XX, se dá a par da emergência de um novíssimo sujeito social: o moderno proletariado.

O pronunciamento militar deu-se durante um Congresso Mariano em Braga, cidade ultracatólica. Seguindo o figurino da Europa do Sul, veio de fora da capital.

Se a República teve como mote inicial uma unidade contra a monarquia, a ditadura que se instalou dispôs-se, sobretudo, a derrubar a República e seus aliados. Os protestos contra a “partidocracia”, a “balbúrdia” parlamentar, a “instabilidade” governativa, a crise das instituições e a “agitação social” operária, assumem a forma de putsch. Os golpistas são, à proa, Mendes Cabeçadas e Gomes da Costa.

O golpe de 28 de maio de 1926, que inicia a ditadura militar, não é inesperado. A República burguesa tinha sido brutal contra o movimento operário, que, mesmo assim, resistia. Além das prisões, das perseguições, dos batalhões antigreve ou do vagão-fantasma, o ambiente anticomunista, incentivado pelo culto mariano contra a URSS – as “aparições” de Fátima, em 1917, aos três pastorinhos –, abre a via para a ditadura que se segue.

Como lembra César Oliveira: “Todo o período que vai desde o fim da Primeira Guerra Mundial até 1927-1928 é, de facto, muito marcado por uma constante: o apelo sistemático à salvação do país, quer dos desmandos da “ordem republicana”, quer dos eventuais perigos da revolução social”. O “anticomunismo” é a argamassa da contrarrevolução.

Contexto internacional da Ditadura Militar

Não se pode compreender a vitória da contrarrevolução (militar ou fascista) sem compreender o destino da revolução russa, a derrota da revolução alemã e da revolução europeia no início da década de 1920, concomitantes com o boom económico desses anos, “os loucos anos 20”, e a vitória da contrarrevolução estalinista, depois de 1927.

Gramsci sintetizará o fascismo em três dimensões: i) como a ideologia que pretende eliminar o conflito social e unificar a nação como um todo, ii) como uma forma de dominação da transição histórica da sociedade camponesa-industrial para a sociedade industrial de massas e iii) como o produto de uma época histórica de crise orgânica do capitalismo.

Primo de Rivera liderará a Espanha com mão de ferro entre 1923 e 1930, e fundará o novo partido fascista espanhol, a Falange, em 1933. Entre 3 e 12 de maio de 1926, ergue-se com uma força inédita desde as lutas cartistas, em Inglaterra, o movimento social e operário inglês numa greve geral. As classes dominantes foram obrigadas a aceitar, a contragosto, uma aliança entre o Partido Trabalhista e a burguesia para esquivar os efeitos da greve geral de 1926, que começara pela exigência de aumentos salariais para os mineiros, mas tomara proporções insurrecionais, ao atingir 1,7 milhões de trabalhadores em todo o país e envolver estivadores, transportes, etc.

À semelhança de outros países, casos da Alemanha e da Itália, de tardia unificação, que irão constituir as forças do Eixo na Segunda Guerra Mundial, a tardia “democratização liberal” do país leva a que, quando é feita, o proletariado – organizado nas correntes anarcossindicalistas e comunistas, além das socialistas – já tenha expressão suficientemente importante para impedir a estabilização do capitalismo e garantir as taxas de lucro almejadas.

É bonapartista a forma do encerramento do Parlamento, a 31 de maio do mesmo ano; a formação de um novo governo dominado pelos militares (de “salvação nacional”); a forte coerção armada contra os opositores, condenados, sem julgamento, ao desterro para as colónias. As greves operárias e manifestações públicas são proibidas em todo o território. Toda a oposição é fortemente reprimida – a começar pelas revoltas do reviralhismo, republicanas e democráticas. A maçonaria será proibida em 1935.

Após o golpe de Estado, funda-se a Polícia de Segurança Pública (PSP), depois do reordenamento do corpo de polícia cívica de Lisboa e Porto. No mês seguinte é instituída a censura à imprensa. As sedes do PCP são encerradas no Porto e em Lisboa. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) é posta na ilegalidade. Dá-se então uma contrarreforma do sistema de educação pública, com a redução do ensino primário de seis para quatro anos.

Em 1928, promulga-se um novo “Código de Trabalho” para os autóctones das colónias portuguesas em África. O documento baseava-se no pressuposto “civilizatório” do trabalho indígena, obrigando ao trabalho, que deveria também prover interesses “públicos”. Fundar -se -á a Polícia de Informação do Ministério do Interior. A 27 de abril de 1928, Oliveira Salazar tomará posse como o novo ministro das Finanças, iniciando a austeridade, liderando o início da mais longa ditadura da Europa Ocidental no século XX. Após a crise de 1929, a burguesia acumula forças que levam à instituição do “Estado Novo”. Com as exportações, fonte central de receita, em queda, o ministro Oliveira Salazar começa um pacote de medidas restritivas, com severos cortes orçamentais, inaugurando uma verdadeira “política de austeridade” no país.

Qual regime?

Mas afinal o que é o regime republicano, entre a monarquia constitucional finda em 1910 e a Ditadura Militar de 1926? É, na síntese de César Oliveira, “um avanço limitado, de carácter não estrutural, no ciclo das transformações burguesas que desde 1820 tiveram lugar na sociedade portuguesa”.

Não houve resistência de vulto do movimento operário ao golpe de 28 de maio de 1926. Exaurido por anos e anos de repressão na Primeira República, logra tornar a República ingovernável, mas não consegue candidatar-se a governá-la ele.

A repressão durante a República, fundamentalmente dirigida contra o movimento operário, tem traços claramente bonapartistas, e que não se resumem às ditaduras de Pimenta de Castro (1915) ou Sidónio Pais (1917-1918). Os republicanos obtiveram o consentimento operário, mas pouco ofereceram aos trabalhadores além da coerção. Houve violência contra o clero, sobretudo os jesuítas, “nunca contra os detentores da propriedade, facto perfeitamente natural dado o Partido Republicano não ser, na sua composição social, muito diverso dos partidos monárquicos”.

A República decapitou as suas tropas, os artesãos da Carbonária, os operários de Alcântara, para finalmente parte das suas frações se reorganizarem em torno da Ditadura Militar e depois no Estado Novo e, aí sim, criarem uma coisa e o seu contrário – os monopólios e o proletariado, que saiu das Beiras para a Lisnave, da aldeia nativa para as plantações da Cotonang, como trabalhadores forçados, em Angola.

Raquel Varela e Roberto Della Santa trecho da nossa Breve História de Portugal (Bertrand). Todas as referências estão no livro

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

Rui Zink - MANUAL DO BOM FASCISTA

 

» Rui Zink

O BOM FASCISTA NÃO GOSTA DE SER CHAMADO FASCISTA

Acha que o retrato não lhe faz justiça. E a justiça é muito importante para o bom fascista. Ele não suporta injustiças. E, afinal de contas, o que significa "ser fascista"? Nada. Salazar, por exemplo. Passam a vida a chamar-lhe fascista, mas «não era fascista» [sic — estas coisas não se inventam]. Já muitos e bons doutores explicaram que Salazar não era fascista. Fascistas eram Hitler e Mussolini. E Salazar era muito diferente de Hitler e de Mussolini. Para começar, Hitler falava alemão e Mussolini italiano. Ora, Salazar não falava nem alemão nem italiano, falava português. Para terminar, Mussolini era gordo e careca e Hitler tinha bigode a Charlot. Já Salazar, embora tivesse cabelo, não usava bigode. Só não vê quem não quer ver! Haverá provas mais científicas de que nunca houve ditadura em Portugal? Ora bem.

Depois, há todo um ror de infinitas e subtis (mas significativas) diferenças. Salazar nao comia tagliatelle nem sauerkraut, ele era patrioticamente mais aderente a dieta lusitana: bacalhau a Gomes de Sá, arroz de cabidela, iscas com elas, chocos sem tinta.

Pimba.

E há mais:

«(...) Enquanto Mussolini, Hitler ou Franco discursavam e apareciam em púbico em trajes militares, Salazar nunca o fez.»

Inteira razão, doutor Campos e Cunha, só não vê quem não quer ver. Salazar era apenas, admitamos (sendo contemporizadores após este momento de retórico triunfo), talvez "um bocadinho autoritário".

Mas isso era para o bem do país. E não enriqueceu. A prova é que não deixou nada aos filhos nem pôs a empresa em nome da mulher.

*

O BOM FASCISTA NÃO SE ARMA EM ESQUISITO

O bom fascista alimenta-se de mentiras e distorções, é essa a sua dieta favorita, mas, se não houver mais nada para comer, também não desdenha a um facto. O bom fascista gosta de tasquinhar, e até acha graça à ocasional verdade, desde que esses exóticos produtos chamados factos cumpram o requisito fundamental: confirmarem aquilo que pensa.

Quando vê o noticiário, um bom fascista não se deixa dispersar nem enganar: só escuta aquilo que já sabe. Um telejornal pode mostrar golfinhos no Tejo, um incêndio em Los Angeles, uma entrevista um ministro estrangeiro, greves em França, o julgamento dos separatistas em Espanha, uma declaração do Papa sobre recentes escândalos, uma cimeira entre a Ucrânia e a Rússia. Tudo isso o bom fascista vê com o ar adormecido de um velho crocodilo a jogar bingo. Só quando sai o número certo — digamos, “cigano/muçulmano atacou alguém" — é que o crocodilo lá abre um olho, subitamente alerta. E comenta, satisfeito com a sua visão periférica:

«Eu sabia. Esta gente...»

*

O BOM FASCISTA NÃO SE METE EM POLÍTICA

Até porque a sua política é o trabalho.

E muito gosta o bom fascista do trabalho. Ao contrário dos outros, que «não querem é trabalhar», o bom fascista quer trabalhar. E não tem medo do trabalho. A sério, não tem. Consegue aproximar-se do trabalho sem medo — desde que tenha um chicote, uma cadeira e, bem entendido, o trabalho esteja devidamente açaimado e/ou acorrentado à parede.

Se o bom fascista tem um chicote e uma cadeira, e o trabalho estiver devidamente açaimado, o trabalho que se cuide. Com ele não faz farinha.

Quando interrompe o trânsito e os carros de trás começam a buzinar, o bom fascista ruge:

«Estou a trabalhar!»

E quando não o deixam passar, aí é o bom fascista que carrega na buzina, e grita:

«Tira daí essa merda que tenho de ir trabalhar!»

Todavia, por vezes, o bom fascista também gosta de dizer, rindo com gosto, que «o trabalho é bom é para o preto». Isto é, aliás, por definição, o que faz rir o bom fascista: imaginar alguém a ser pisado, maltratado, espezinhado. E a levar porrada no lombo, se refilar, para aprender a da próxima vez ficar quietinho.

O bom fascista, quando ri, ri de cima para baixo.

O que nem sempre é fácil, convenhamos. Sobretudo quando estamos cheios de trabalho.

O bom fascista gosta tanto de trabalhar que, quando não está a trabalhar, finge que está a trabalhar.

*

O BOM FASCISTA TOLERA PRETOS, DESDE QUE SAIBAM O SEU LUGAR

Esta não é a terra deles, diz o mesmo bom fascista que antes achava que a terra deles era "nossa". Esta terra é a nossa terra e se não gostam voltem para a terra deles. Quem não está bem, muda-se. E calem-se. Parem com a chinfrineira sobre o "colonialismo" e o “tráfico de escravos”. Quem não está bem emudece.

Eles são eles e nós somos nós e assim é que é bonito. O bom fascista desconfia do até do turismo: pode ser imigração encapotada. E tecnicamente até é, só que  imigração por pouco tempo — tal como a imigração pode ser também vista como turismo prolongado.

De igual modo, aquilo a que chamam "tráfico de escravos" pode ter sido apenas a invenção, ainda titubeante, do turismo moderno. Afinal, quando levaram pretos de África para o Brasil, não estariam os nossos gloriosos antepassados apenas a criar a primeira Agência Abreu da História? Certo, as condições no porão talvez não fossem as melhores, mas os lugares na Ryanair e na EasyJet também são apertados. E desde quando quem viaja quase à borla (ou mesmo à borla, no caso dos escravos) tem direito a queixar-se?

O bom fascista nada tem contra os pretos, atenção, só acha é que não têm a nossa cultura, não partilham os nossos valores e está mal se vêm para cá surrupiar os nossos empregos e, com os seus mastodônticos marsápios, ficar com as nossas mulheres.

O BOM FASCISTA NÃO TEM SAUDADES DE SALAZAR

Nem precisa. Por que raio precisaria se Salazar continua vivo em nossos corações, fígados, bocas e mentes?

Factos são factos. Mesmo passado meio século, o bom homem continua a polonizar-nos o imaginário, qual abelhinha redentora.

Qual santa da ladeira, continua a escutar e a reciclar os nossos pecados.

Qual el-rei D. Sebastião em modo de rancho-melhorado, não precisa de voltar numa noite de nevoeiro — pois ele mesmo é nevoeiro.

O bom fascista sabe que Salazar «sempre quis o melhor para o país». E concede que (está bem, melga) aqui e ali terá sido um bocadinho autoritário e que a PIDE terá feito coisas, das quais ele até nem não sabia, porque não lhe diziam tudo. Agora fascista, Salazar? Isso não.

Foi o quê. então? Foi, digamos, um bocadinho autoritário.

A verdade é que, vendendo volfrâmio aos alemães e emprestando a base das Lajes aos americanos, «Salazar salvou-nos da guerra». E fê-lo com a mesma camponesa manha com que acomodava espiões aliados no Hotel Vitória (hoje, ó ironia, sede do PCP) e espiões nazis no Tivoli (hoje, oh ironia, ainda um belo hotel).

E Salazar foi sempre humilde e discreto. Certo, viveu quarenta anos num palácio — mas acaso era seu? Ah, bom. Tava a ver. E, modesto e humilde, nunca foi agarrado ao poder. O poder é que se lhe agarrou às mãos como um irritante adesivo se cola aos dedos. Acaso uma pessoa é culpada por um adesivo se lhe colar aos dedos?

Ná, o bom fascista não tem saudades de Salazar. Acha apenas que Portugal precisa de um outro Salazar. Alguém que pusesse isto no eixo.

(“Manual do Bom Fascista”, Rui Zink. Ideias de Ler, 2019)

Caricaturas de João Abel Manta (​1928-​2026, Lisboa)


Postado por O BÁRBARO às 14:50  segunda-feira, 25 de maio de 2026

https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2026/05/manual-de-bom-fascista.html

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Fernando Serrano - O Sr. Ventura falou...falou...falou...

* Fernando Serrano

14 de abril  de 2026

O Sr. Ventura falou...falou...falou...

Mas negou a verdade, que talvez saiba, mas não quis dizer...

Primeiro escondeu que o Povo Português deu a Salazar, seu ídolo, 13 anos para que fizesse a descolonização bem feita, e Salazar não a fez. Salazar não soube, ou não quis fazer. Salazar falhou.

Mesmo depois do desastre da Índia, não aprendeu nada. Nem ele, nem os seus sequazes.

Salazar tratou os heróis da Índia como traidores, negando-se a trazê-los para Portugal. Salazar negou os seus soldados. Salazar desprezou os filhos das Mães de Portugal. Salazar não tinha filhos. Nunca ninguém lhe chamou pai. Não tivesse sido a ONU ainda hoje ali estariam...

Puniu, humilhou, severamente, o general Vassalo e Silva e o brigadeiro António Leitão porque se negaram a sacrificar os filhos das mães de Portugal numa luta impossível de vencer.

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O Sr. Ventura mentiu quando diz que o retornados foram abandonados.

O Sr. Ventura não conhece o célebre decreto de Mário Soares que dava prioridade absoluta na colocação aos retornados que fossem funcionários públicos, e aos outros se a estes lugares que concor ressem?!

Só depois de todos os retornados terem sido colocados, os portugueses de Portugal teriam direito a concorrer. V.Exª, senhor Ventura, não tem conhecimento disto?

Os portugueses de Portugal receberam os retornados muito bem.

Tivesse sido o contrário, os portugueses de Portugal a terem de procurar refúgio em Angola ou Moçambique e a música seria bem diferente.

Basta que se saiba a forma como éramos olhados, mesmo quando estávamos ali para lhes defender os interesses...Total desprezo...Eles eram uma raça superior e nós os animais domésticos...

Não fazíamos lá falta, e só lá íamos para encher os bolsos… Diziam

eles.

O Sr. Ventura não sabe isto...Não passou por lá. O Sr. Ventura fala do que não conheceu, nem conhece.

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Uma descolonização não se faz em dois anos, nem em três, nem em quatro...

Uma descolonização bem feita teria de levar, pelo menos, mais 10 anos a fazer.

Estaria o Povo Português disposto a suportar uma guerra por mais 10 anos?

Eu não estava... 80% dos que lá fomos não estávamos. A guerra tinha que acabar.

O tempo de ser negociada a descolonização tinha passado....Salazar falhou.

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Quanto aos presos políticos.

48 anos de repressão…a PIDE ...de prisões...de mortes…Aljube...Peniche...Caxias...Tarrafal...

Catarina Eufémia- Dias Coelho- Humberto Delgado e tantos outros…

«A morte saiu à rua num dia assim...»

Comparar este tempo- 48anos - com 1ano e 6 meses...é desonesto, Sr. Ventura...Muito desonesto.

O Sr. Ventura quer destruir o 25 de Abril e baralha tudo. O Sr. Ventura quer comparar os Homens de Abril com a canalha da extrema esquerda, igual à extrema direita, que durante 18 meses lançou a desordem nesta terra. A bandalheira acabou com o 25 de Novembro, que veio restaurar a pureza de Abril, conspurcado pelos referidos grupelhos de extrema direita e extrema esquerda.

E sabe, Sr.Ventura, os autores desta miséria eram rapazotes da extrema esquerda. Sem princípios nem valores…Tal como a extrema direita que o Sr representa, e basta ver como se comporta na AR.

Após o 25 de Novembro de 1975 as coisas entraram na ordem...

Não houve mais um preso político...Hoje, posso responder ou contrariar a opinião dos políticos que me governam sem ter medo de ser preso, se o fizer com elevação. Até quando, não sei. Sabê-lo-ei no dia em que o sr.Ventura tiver poder, se ainda for vivo, espero que não, pois uma vez chega.

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O Sr. André não viveu o antes de Abril, mas eu vivi. O Sr. André não foi à guerra, mas eu fui.

O Sr André não viu camaradas morrerem, mas vi morrer dois nos meus braços.

O Sr. André não chorou de dor e de revolta, mas eu chorei de dor, de revolta, de saudade e desespero.

O Sr.André Ventura foi desonesto e Pacheco Pereira não soube acabar-lhe com o «cacarejar...

Quanto aos massacres da UPA... Sr. André Ventura, tem razão...

E o rebola a bola que a bola é cabeça de preto em Angola?

E o Napalm na Guiné?!...

E Wiryamu em Moçambique?

E os guerrilheiros mortos no momento da rendição?

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Ó senhor Ventura, deixe de falar nos antigos combatentes...

Se estamos abandonados o seu querido Salazar é culpado. Mandava-nos para a guerra e nem sequer nos assegurava o regresso...Muito menos condições de adaptação ao fim de 30 meses de guerra, à nova situação...

Um combatente eu vi que entrar no Hospital Militar num sábado, acabado de regressar, doente com doença adquirida em serviço, mas porque já tinha passado à disponibilidade ser expulso, na segunda-feira, da Medicina 3 do HMP, pelo director do mesmo.

O médico que lhe deu entrada e o enfermeiro que o recebeu foram repreendidos, porque o aceitaram...

Hoje, 50 anos depois de Abril, esse homem seria tratado com respeito e carinho em qualquer hospital militar.

Salazar foi o tal que abandonou os seus soldados.

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56 anos depois de regressar da guerra- repare que eu digo 56 anos depois de regressar da guerra onde foi severamente ferido em combate, um ex-combatente, viu ser-lhe reconhecido o direito a uma indemnização por deficiência de 34%, e vai receber uma pensão que é devida desde 1970, porque Salazar não quis saber dos estilhaços que tem espalhados por todo o corpo...Os estilhaços estão lá, provocam dores, mas não o impediam de trabalhar... logo não tinha direito a nada... Antes de Abril, não teve direitos...Depois de Abril, sim. Abril não esqueceu os antigos combatentes... Salazar, sim.

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O senhor Ventura não sabe que a dita guerra do ultramar não começou em 1961...Em 1961 recomeçou...

Não esqueça as campanhas africanas que acabaram com a prisão do Gungunhana e sobre as quais Salazar mandou fazer o célebre filme« CHAIMITE»...Para propaganda do regime, onde os maus eram os negros, que perderam sempre… Marracuene… Coolela…Magul…Macontene…Mas não foi bem assim.

Entre 1910 e 1961 houve sempre uma paz aparente. Os negros sempre que podiam acertavam-nos o passo, como dizer sói…

Em 1961 a guerra recomeçava. Desta vez os negros tinham aprendido muito e já não avançavam para o quadrado a peito descoberto. Começava uma guerra de guerrilha…Eu estive nesta guerra.

E sabe por quê? Por amar a minha Pátria, por amar a minha família, por amar a minha noiva.

Se não fosse Salazar tirava-me o direito se ser Português, proibia-me de ver a minha família, proibia-me de amar uma portuguesa. Ou ia, ou Salazar prendia-me, ou exilava-me. Salazar fazia chantagem com os jovens de Portugal.

O senhor Ventura mentiu quando disse que Salazar nunca mandou prender ninguém. Mentiu por ignorância ou por maldade?!

Salazar ordenou a Silva Pais, o patrão da PIDE-DGS, que prendesse todos os que se negassem ir pra a guerra. Não me diga que não sabia isto?! Então fique a saber…

Eu sei como as coisas se passavam, porque estive lá. Eles jogavam às escondidas connosco.

Leia...informe-se e talvez compreenda que uma guerra contra um Povo que luta ela sua liberdade, só é ganha, se se exterminar esse Povo.

Recorde-1143-1385-1640…E Junot…Soult…Massena ( o filho querido da vitória), que o digam.

Salazar enganou os nossos colonos. Prometeu-lhes aquilo que não podia dar-lhe. Garantiu-lhes que Angola, Moçambique e Guiné eram terras de Portugal e, na verdade, não eram. Eram colónias e o tempo das colónias tinha os dias contados. Bastava saber ler os ventos da História…

Diz o Povo…«Se vires as barbas do teu vizinho a arder…põe as tuas de molho.»

Espanha descolonizou…Inglaterra descolonizou…França descolonizou…Bélgica descolonizou…Holanda descolonizou…

Salazar, « O Grande »…Levou-nos ao que levou. Orgulhosamente, sós! O país mais pobre da Europa Ocidental…

Uma taxa de analfabetismo de 45%. Acesso a uma Escola Superior só para elites com dinheiro.

Mas com uma moeda fortíssima, sim. Com muito ouro nos cofres, sim. Ouro roubado aos mineiros moçambicanos da África do Sul. Sabia, Sr. Ventura?!

Um Povo Explorado até ao tutano. Os servos da gleba e duas classes de altos privilégios- Clero e Nobreza.

O Sr. Ventura sabe que a guerra acabou em 1945, mas em 1951 ainda havia racionamento em Portugal?

Salazar obrigava o Povo Português a passar fome. Salazar obrigava os Povo Português a emigrar a salto, arriscando a vida, mas depois ficava-lhe com o dinheiro que para cá mandava e servia-se desse dinheiro, não para desenvolver as regiões de onde os emigrantes eram naturais, mas para investir nas colónias.

Salazar explorava o Povo Português em favor das colónias.

Claro que não sabe? O Sr. Já nasceu depois de Abril…

Esse Abril que nos ofertou a Liberdade. Prenda que eu duvido que o senhor mereça.

Respeitosamente,

Um Português de Portugal, Patriota.

Antigo combatente que ama o seu país e a liberdade.

25 de Abril sempre… 

2026 04  14
https://www.facebook.com/fernando.serrano.7399/

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Marta Pinho Alves - “Estado Velho”




* Marta Pinho Alves

O filme re­alça a de­cre­pi­tude e a de­for­mi­dade do fas­cismo por­tu­guês

Fa­lamos neste texto do mais re­cente filme de João Bo­telho, in­ti­tu­lado O Velho Sa­lazar. O ci­ne­asta tem mos­trado nos úl­timos anos uma abun­dante pro­dução ci­ne­ma­to­grá­fica. Quase em si­mul­tâneo a esta obra es­treou outra ainda não su­fi­ci­en­te­mente co­nhe­cida e di­fun­dida, As Me­ninas Exem­plares, uma adap­tação muito livre do livro ho­mó­nimo de Con­dessa de Ségur, com uma ima­gé­tica for­te­mente ins­pi­rada no tra­balho da ar­tista plás­tica Paula Rego. No mo­mento ac­tual, entre as es­treias dos dois antes men­ci­o­nados, filmou já outro filme (em fase de pós-pro­dução), O Rei Lear, de Wil­liam Sha­kes­peare, ba­seado na tra­dução para por­tu­guês de Álvaro Cu­nhal, e en­contra-se a pre­parar o do­cu­men­tário Dan­cing Pe­ople Are Never Wrong.

Neste afã cri­ador, surge então um filme que se de­dica, mais do que à fi­gura do di­tador por­tu­guês, a pensar o que foi o Es­tado fas­cista que vi­gorou du­rante 48 anos e qual o seu le­gado. Longe de poder ser en­ten­dido como um bi­opic, ati­tude ci­ne­má­tica que o re­a­li­zador de­clara des­prezar, O Velho Sa­lazar é um exer­cício de ca­ri­ca­tura e des­cons­trução de um con­junto de nar­ra­tivas que não só per­duram e pa­recem re­cru­descer no mo­mento pre­sente face a dis­cursos nos­tál­gicos e de de­tur­pação do real. Bo­telho es­cla­rece que há uma pre­pa­ração do­cu­mental para as in­for­ma­ções que nos apre­senta no filme, todas estas fac­tuais e de­mons­tradas, mas que não obe­dece à mesma pre­o­cu­pação quando in­tervêm as falas de Sa­lazar. Essa per­so­nagem, que é apenas vista através de al­gumas fo­to­gra­fias co­nhe­cidas, não é cor­po­ri­zada em ne­nhum actor, ex­pressa-se oral­mente através de mo­nó­logos cri­ados por fer­ra­mentas de in­te­li­gência ar­ti­fi­cial, pre­ten­dendo assim in­va­lidar a sua ex­pressão, não fazer eco da mesma, mas antes evi­den­ciar os pa­ra­doxos entre o que afir­mava e a sua acção, assim como o seu alhe­a­mento face à re­a­li­dade e a sua na­tu­reza ca­duca e amoral (apesar da cons­tante evo­cação de uma mo­ra­li­dade vi­gente, en­ten­dida como ori­en­ta­dora da con­duta do­mi­nante).

Não obs­tante o nome do di­tador que compõe o tí­tulo e as per­so­na­gens que surgem no filme lhe es­tarem as­so­ci­adas quer na es­fera ín­tima (a go­ver­nanta?, a jovem amante fran­cesa, o ca­lista, o en­fer­meiro), quer na es­fera po­lí­tica (a go­ver­nanta?, o car­deal, o mi­nistro da pro­pa­ganda), não é sobre a pessoa que se quer falar, mas sobre um re­gime per­so­ni­fi­cado na­quela fi­gura. A forma como se ad­jec­tiva o su­posto pro­ta­go­nista – velho – as­si­nala fun­da­men­tal­mente a de­cre­pi­tude e a de­for­mi­dade de um sis­tema po­lí­tico mar­cado pelo mal, pela pro­funda vi­o­lência e re­ti­rada de dig­ni­dade ao povo tra­ba­lhador, e pelo apro­fun­da­mento das de­si­gual­dades entre classes, no que diz res­peito aos di­reitos mais ele­men­tares e à li­ber­dade, im­postos não apenas aos por­tu­gueses, mas também a todas as na­ções co­lo­ni­zadas, em nome de uma moral pe­dante e im­pi­e­dosa e de uma au­to­ri­dade pe­na­li­zante e pa­ra­li­sa­dora. De “Novo”, o Es­tado por­tu­guês de então tinha apenas a sua de­sig­nação, com pro­pó­sitos pro­pa­gan­dís­ticos. “Velho”, como aqui se de­signa o di­tador, é a me­lhor forma de com­pre­ender este re­gime e de o res­sig­ni­ficar.

Tratar um tema como este com re­curso ao humor, ao exa­gero, à am­pli­fi­cação e à ca­ri­ca­tura, é talvez es­tra­tégia que possa deixar al­guns des­con­for­tá­veis. Con­tudo, ne­nhuma das per­so­na­gens te­ne­brosas que des­filam no ecrã são hu­ma­ni­zadas ou re­a­bi­li­tadas, antes são ex­postas ao ri­dí­culo, ob­ser­vadas à lupa nos seus des­vios, ex­cen­tri­ci­dades e ali­e­nação.

A sá­tira tem sido um bom ins­tru­mento de aná­lise de si­tu­a­ções que dei­xaram marcas pro­fundas nas suas ví­timas e com as quais é di­fícil lidar. Du­rante o breve pe­ríodo do Ci­nema de Abril de que fa­lámos em texto an­te­rior, a Cé­lula de Ci­nema do Par­tido Co­mu­nista Por­tu­guês pro­duziu, em 1977, uma curta-me­tragem as­si­na­lável in­ti­tu­lada As Des­ven­turas do Drá­cula Von Bar­reto nas Terras da Re­forma Agrária, que tra­tava de forma jo­cosa, em­bora com um claro po­si­ci­o­na­mento po­lí­tico, o tema re­fe­rido no tí­tulo.

João Bo­telho cita o di­tador no início do filme quando este afirma «Hão-de dizer muito mal de mim». O ci­ne­asta con­firma a in­tenção do seu filme, afir­mando «Assim será».

https://www.avante.pt/pt/2737/argumentos/183651/%E2%80%9CEstado-Velho%E2%80%9D.htm

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Carlos Esperança - O medo…


» Carlos Esperança - 
O medo…

Quando o medo nos tolhe, porque é incerto o futuro, precário o emprego e desmedida a insegurança, a primeira vítima é o carácter. Perdemos o amor-próprio e descremos do futuro, arruinamos a confiança e duvidamos da sobrevivência, deixamo-nos tomar pelo medo e acabamos em pânico.

Vão maus os tempos, parece que a vocação suicida vai tomando conta de nós. Os novos anseiam por um lugar e os velhos temem que os abandonem. A cultura é um luxo que a vida atual dispensa, a leitura um capricho que alguns teimosos ainda ousam e a arte uma atividade supérflua à espera de outros dias.

As guerras que outrora eram castigos de um Deus vingativo, sinal de que bruxas, judeus e hereges ofendiam o deus de Abraão, servem agora para nos distrair da governação, e o medo para nos remetermos ao silêncio.

O medo é a arma contra a dignidade. E o medo, um medo que não é irracional, tolhe-nos primeiro a coragem, corrompe-nos depois a dignidade e, finalmente, mata-nos. Com os sucessivos eclipses da ética, da honra e do patriotismo dos governantes, acabamos como vegetais, sem luz para a fotossíntese, e mortos. De medo e de vergonha.

No início de 1974 vivíamos ainda o medo, imposto pelo partido único. Hoje, ofendidos e conformados, vivemos entre os que defendem verdades únicas, os que buscam voltar ao passado e os que sonham utopias.

Refocilam na gamela do orçamento os filhos daqueles que nos reprimiam, denunciavam e prendiam, dos que iam em bandos agradecer a Salazar a defesa das colónias e a morte de jovens soldados, dos que conviviam com a ditadura e ovacionavam os seus próceres.

Há neste trágico retorno, nesta conformação malsã, na melancólica resignação, a abulia de quem desiste por descrença, falta de memória e medo da vindicta de que são capazes os restauracionistas.

É preciso acreditar no poeta: «Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não». (Manuel Alegre, in Praça da Canção).

É preciso resistir.

maio 06, 2026

https://ponteeuropa.blogspot.com/2026/05/o-medo.html

domingo, 26 de abril de 2026

Graça Castanheira - E o porco gosta

 * Graça Castanheira

 A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa.

A frase de Bernard Shaw que se associou ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura é mais interessante do que a sua leitura moral sugere. Quem a cita fica-se geralmente pelo primeiro movimento — não lutes com um porco, porque te sujas — e esquece o segundo, que é decisivo: e o porco gosta. Gostar, aqui, significa que o terreno da lama é o habitat do adversário, aquele em que ele se move com desenvoltura e onde qualquer gesto do antagonista, mesmo o mais justo, se dissolve no lamaçal.

O problema não é só a sujidade, é a impossibilidade de enquadramento. É aqui que a questão se torna cinematográfica. Há uma diferença de dispositivo entre o combate e o retrato. O combate é um campo-contracampo, exige duas presenças, uma alternância que produz equivalência mesmo quando as posições são assimétricas. Foi este o princípio que o cinema entendeu desde cedo: ao alternar dois planos, o espectador é levado a ler as duas figuras como termos comparáveis de uma mesma equação, independentemente daquilo que cada uma diz. O debate televisivo herda esta gramática, e por isso, antes de qualquer conteúdo, concede ao adversário metade do que ele precisa, que é o estatuto de interlocutor legítimo — e é exatamente esta concessão que se critica a Pacheco Pereira. A alternativa que o cinema conhece é o plano-sequência, e em particular o plano fixo, que obriga a figura a habitar sozinha o enquadramento até a retórica se desmontar pela duração. É a estratégia de muitos documentários observacionais, e a extrema-direita tende a receá-los porque precisa da contracena para a poder interromper e sabotar.

Acontece que o retrato exige condições que se foram perdendo: um espectador disponível para a duração, uma pedagogia do olhar, um espaço de escuta. Num sistema que premeia o fragmento contra a duração, o plano fixo do porco não compete pela atenção política em tempo real. Quem defende o plano sustentado contra o combate televisivo está a defender um recurso cultural que em escala pública já não existe. Entre dois dispositivos imperfeitos, o combate tem pelo menos a virtude de ocupar o terreno; o retrato, na atual paisagem política, corre o risco de não passar de uma forma elegante de desdém.

Foi a forma como André Ventura reagiu — as torções, as fugas, as falsas equivalências, a invenção de uma história sem PIDE, os bebés mortos como licença para a brutalidade colonial, a ridícula acusação de o seu interlocutor estar contra as Forças Armadas — que produziu o conteúdo que circulou a seguir. E é aqui que está o ganho real do debate: na revelação involuntária que o dirigente do Chega fez de si próprio, sob a pressão de ter de defender em tempo real o seu ponto de vista. A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — no campo-contracampo, na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa. À saída do debate, esses momentos tornaram-se cultura pop, contraditório partilhável, companhia argumentativa. Duas semanas passadas, abriram-se discussões laterais que de outro modo não teriam acontecido — a reflexão sobre a crueldade como linguagem política foi uma delas, e não a menor.

A frase de Shaw é uma observação de classe: pressupõe a possibilidade de nos mantermos limpos. E essa hipótese, hoje, em democracias sob pressão como as nossas, é precisamente o privilégio de que se deve duvidar. Pacheco Pereira ter-se-á enlameado, mas transformou a sujidade em prova pública — a lama como revelador fotográfico.

26 de Abril de 2026

domingo, 19 de abril de 2026

O pecado original de Pacheco Pereira

Pacheco Pereira não se arrepende do frente-a-frente com Ventura: “Se fosse hoje, repetiria”

Em declarações ao DN, José Pacheco Pereira defende sem hesitações a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeita as críticas de quem considera que saiu a perder. Para o historiador, discutir o populismo à distância é um erro: “Tem mesmo de se meter a mão na massa”, diz, depois de ter enfrentado o líder do Chega. E recusa uma “espécie de snobismo intelectual”.

Alexandra Tavares-Teles

16 Abr 2026,  

“Estou muito contente com o que fiz e se fosse hoje repetiria”. José Pacheco Pereira defende sem reservas a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeitou as críticas de quem entende que o historiador perdeu ao aceitar o frente-a-frente transmitido pela CNN Portugal na noite de 13 de abril, depois de Ventura ter insistido na tese de que houve mais “presos políticos” após o 25 de Abril do que em vésperas da revolução, afirmação que Pacheco Pereira classificou publicamente como uma “comparação absurda”.

Sim, tem mesmo de se meter a mão na massa”, afirmou, sublinhando que não aceita a ideia de que o combate político ao populismo se faça à distância. “Não alinho nessa posição. Se as pessoas têm pruridos em sujar as mãos, fazem mal. Em casos destes, é preciso sujar as mãos”, acrescentou.

O historiador respondeu assim à metáfora, repetida nos últimos dias em artigos de opinião e comentários nas redes sociais, de que “nunca se deve lutar com um porco”, fórmula usada por vários observadores para criticar o tom do confronto com o líder do Chega,  com comentadores a argumentarem que o frente-a-frente acabou por arrastar Pacheco Pereira para o terreno preferido de Ventura.

Mas o antigo dirigente do PSD recusa a conclusão. “A ideia de que não devemos rebaixar-nos tem a ver com medo. Há muito medo”, diz o historiador. E vai mais longe: “A história diz-nos que, nos anos 30 e, mais recentemente, em França, com a Frente Nacional, esse caminho, inicialmente seguido,  foi depois revertido por uma razão: não se pode deixar que digam certas coisas sem reação.”

Para Pacheco Pereira, o erro está precisamente em deixar o espaço público livre para esse tipo de discurso. “Há uma esquerda que assume uma espécie de snobismo intelectual - eles são maus, discutem à bruta e, portanto, não se fala com eles. Sabe qual é o efeito que isso tem? Encontro esse efeito na rua, nas pessoas que me abordam depois daquele debate”, relatou. “É um número muito significativo de pessoas que vem ter comigo, que saem da mesa do restaurante para me cumprimentar. Não são apenas pessoas da elite. São pessoas  que não se sentem representadas.”

Segundo o historiador, a reação popular ao debate mostrou que existe um sentimento de vazio no campo democrático perante a ascensão do discurso populista. “Vêm ter comigo com uma certa dose de emoção e essa emoção tem a ver com o facto de não se sentirem representadas nesses outros debates”, afirmou, defendendo que o confronto direto é uma forma de responder a esse mal-estar.

Pacheco Pereira considera ainda que o frente-a-frente teve uma utilidade concreta: "expor afirmações de Ventura sobre o 25 de Abril que nunca tinha dito. E só isso foi uma enorme vantagem”, concluiu Pacheco Pereira, sustentando que o debate permitiu tornar visível, de forma mais nítida, a leitura que o líder do Chega faz da democracia saída da Revolução dos Cravos. Ainda que lamente: “O mais grave é que as frases mais significativas que o Ventura disse, inclusivamente que o 25 de Abril era miserável, ninguém as reproduziu”.

https://www.dn.pt/pol%C3%ADtica/pacheco-pereira-no-se-arrepende-do-frente-a-frente-com-ventura-se-fosse-hoje-repetiria#google_vignette

 

Opinião DN

O pecado original de Pacheco Pereira

Paulo Guinote, Professor do Ensino Básico

16 Abr 2026

Não sou dos que acha que não vale a pena “debater com fascistas”, estando em causa André Ventura. Porque ele é, antes de mais, um político oportunista, demagogo mais do que populista (ele só promete tudo às “pessoas de bem”, o que reduz muito o universo…) e porque, em alguns contextos, é essencial desmascarar as mentiras e mistificações que algumas figuras apresentam como verdades irrevogáveis e, nesse particular, Ventura está longe de ser o único mistificador no activo.

André Ventura só é “fascista” nos momentos em que esse tipo de discurso ou atitude se revelam vantajosos para a angariação de votos. Ou de apoios de bastidores. Ou de financiamentos. Porque já o vimos ser um pouco de tudo: cristão devoto (mais ou menos católico), proto-sindicalista empedernido (do apoio a sindicatos de polícias, ao esquecido anúncio da criação de uma nova federação sindical), nacionalista dos quatro costados, a par de atlantista bissexto. Pactua com grupos neo-nazis, desde que isso não ganhe destaque público e é acérrimo inimigo dos corruptos, a menos que lhe facilitem ancoragem financeira. Ora, qualquer “fascista” digno desse apodo teria vergonha de colocar cartazes com mensagens que depois se tentam reinterpretar de forma manhosa.

O “verdadeiro fascista” não pratica o toca-e-foge ou o desdisse-o-que disse. Ventura é apenas um simulacro para os tempos que temos, marcados pela promoção de produtos para consumo mediático de massas, se possível com aroma a “sangue”, não interessando se é coerente no percurso, desde que pareça “assertivo” de cada vez que faz uma curva ou inversão de marcha. Se pode ser perigoso, chegando-se muito ao poder? Sim, se isso corresponder ao abrir de portas à peculiar confederação de interesses que congregou graças ao seu sucesso no mercado político-mediático.

Pacheco Pereira sabe isto, pois foi claro quando declarou que nunca qualificou Ventura como fascista. Mas equivocou-se ao considerar que um debate entre os dois serviria para algo mais do que produzir audiências ao canal anfitrião. Porque podem muitos bater no peito que nunca assistiriam a tal confronto que a curiosidade mórbida vence quase sempre essas proclamações. O único “vencedor” do debate foi, pois, a CNN Portugal.

Ao desafiar Ventura, Pacheco Pereira cometeu um duplo erro de cálculo: concedeu ao seu interlocutor um estatuto de equivalência intelectual que, gostemos mais ou menos do trajecto de JPP, muito poucos reconhecem e achou que seria possível uma espécie de “duelo de cavalheiros”. Achou que apresentando “regras”, isso impediria o atropelamento no discurso ou o escorregar para a luta na lama retórica. Acreditou que apelando à apresentação de “factos” isso teria o mesmo significado para o seu oponente. Considerou que levando livros e documentação variada conseguiria “provar” uma verdade, cuja validade a outra parte não reconhece. A Ventura chega um punhado de fotocópias para fazer o seu número e exibir indignação. Pacheco Pereira pensou que a racionalidade calma venceria a emoção encenada. Enganou-se.

Todos cometemos erros, por arrogância intelectual, por inconsciência das circunstâncias ou má avaliação das qualidades, próprias e alheias. Pacheco Pereira parece não ter percebido que nada tinha a ganhar com este debate e Ventura nada a perder. Foi esse o seu pecado original.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

https://www.blogger.com/blog/post/edit/7624295442706210520/3893848410623296261


Ventura sabe que mentiu?

Pedro Tadeu, Jornalista

17 Abr 2026,  

No debate, segunda-feira na CNN, com Pacheco Pereira, André Ventura disse que os políticos “do sistema” não admitem os crimes políticos do pós-25 de Abril e citou conclusões do Relatório da Comissão de Averiguação de violências sobre presos sujeitos às autoridades militares”, o chamado “Relatório das Sevícias” – mas ao fazê-lo desmentiu-se a si próprio.

Esse relatório, publicado em julho de 1976, foi elaborado por indicação do Conselho da Revolução no rescaldo do 25 de Novembro de 1975. Este facto foi omitido por Ventura.

O documento foi um instrumento político dos vitoriosos desse último golpe e muito do que lá se diz não está devidamente sustentado, nem inclui a defesa das pessoas e instituições acusadas de serem autoras das ditas sevícias. É parcial e duvidoso, mas, sem dúvida, também conterá verdades.

O ponto central para esta discussão não é esse. O ponto é que, ao contrário do argumento de Ventura, o regime democrático que o 25 de Abril criou em 1974 já discutia abertamente, a nível oficial e menos de dois anos depois, os abusos que o próprio regime teria cometido, coisa que durante 48 anos de fascismo português nunca aconteceu – de resto, o dito relatório está disponível, para toda a gente, no site da Presidência da República, não está escondido.

Portanto, quando André Ventura afirma que em 50 anos de democracia a classe política dominante não admitiu a existência de abusos de Direitos Humanos no pós-25 de Abril está a mentir e contradiz-se quando apresenta como prova um relatório que até foi elaborado por alguns atores do dia 25 de Abril de 1974, como, por exemplo, o jornalista Francisco Sousa Tavares.

Outra manipulação de André Ventura é a de dizer que nunca Salazar e Caetano assinaram ordens de prisão, o que só teria acontecido no pós-25 de Abril.

Nem Salazar, nem Caetano precisavam de escrever ordens de prisões políticas porque as davam verbalmente. Por exemplo, Silva Pais, que foi diretor da PIDE a partir de 1962, aparece mencionado 119 vezes nas agendas de audiências individuais de Salazar, que saiu do poder seis anos depois. Dá quase 20 vezes por ano.

Ventura queixou-se de que houve três mil presos políticos a seguir ao 25 de Abril e que 30 mil pessoas fugiram do país.

Em 1974, segundo a Comissão de Extinção da PIDE/DGS, havia 3000 agentes da polícia política e mais de 20 mil informadores (os chamados “bufos”). Se a isto somarmos vários militares, polícias, membros da Legião Portuguesa, muitas outras autoridades como governadores civis, ministros, secretários de Estado, altos funcionários públicos, quadros das comissões de censura, juízes dos tribunais plenários e alguns outros milhares de pessoas que participavam ativamente, mesmo de forma indireta, nas estruturas de repressão política do regime fascista, teremos de perguntar: “Poderia uma revolução que deita abaixo um regime repressor manter as pessoas que exerciam essa repressão em liberdade?”

Na verdade, até seria de esperar que houvesse mais prisões e mais fugas, mas, apenas 17 meses depois, tal como André Ventura acabou por dizer, quase todos estavam livres ou começavam a voltar. E isso demonstra a tolerância do 25 de Abril.

Mais de 30 mil resistentes e patriotas não tiveram essa sorte durante o fascismo. Álvaro Cunhal, por exemplo, amargou mais de 11 anos na cadeia e só se libertou porque fugiu do Forte de Peniche. Esteve 14 anos fora do seu país... até ao 25 de Abril.

Como é que se pode comparar uma coisa com a outra?!

https://www.dn.pt/opiniao-dn/ventura-sabe-que-mentiu

terça-feira, 14 de abril de 2026

Em tormo do 25 de Abril, entre Pacheco Pereira e André Ventura

 


Uma palmatória, comparações "absurdas" e "traições à pátria": o debate entre Pacheco Pereira e Ventura sobre presos políticos

Uma frase de Ventura que levou os deputados constituintes a abandonarem uma sessão no Parlamento levou a um debate tenso, longo, com relatórios pelo meio e até uma palmatória.

Mariana Lima Cunha. Texto

14 abr. 2026

A premissa era simples: contrariar a ideia, lançada por André Ventura na sessão solene pelos 50 anos da Constituição portuguesa, de que houve mais presos políticos a seguir ao 25 de Abril do que (imediatamente) antes. O repto foi lançado por Pacheco Pereira, Ventura aceitou, e o que se seguiu foi 1h20 de debate (e alguns gritos) em que os dois discutiram as prisões, a descolonização e a corrupção durante a ditadura portuguesa, com diferentes armas: muitos livros, um dossiê com relatórios e uma palmatória, levada por Pacheco Pereira para ilustrar as torturas levadas a cabo pelos portugueses nas antigas colónias.

O debate organizado pela CNN andou sempre à volta da mesma ideia: André Ventura queria defender que houve prisões políticas e tortura no período da transição para a democracia, o que significaria que nem tudo na democracia é bom e “nem tudo [na ditadura] foi mau”; Pacheco Pereira considerava a comparação “absurda”, uma vez que punha em confronto as prisões, torturas e outras restrições às liberdades que aconteceram durante 48 anos de ditadura e a “turbulência própria” dos meses seguintes, a que se pôs termo com a normalização do regime democrático.

O líder do Chega explicou inicialmente que o que “quis dizer” no dia da sessão da Constituição foi que especificamente no dia 24 de Abril de 1974 havia menos presos políticos em Portugal do que haveria uns meses depois, referindo-se também aos expatriados que foram “perseguidos pelos novos donos de sistema”. Falou da forma como cresceu em Mem Martins, sem “privilégio”: “Estou à vontade para dizer: o sistema anterior errou mas o que veio não trouxe naqueles meses tudo de bom. Eu gostava era de ter uma democracia plena, em que não houvesse presos políticos e torturados e expropriações”.

Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador

Além disso, Ventura arrancou o debate contestando a ideia de que todas as pessoas presas nas colónias fossem presos políticos, mostrando as imagens de bebés mortos pela UPA em 1961 e defendendo que alguns presos o foram por estarem a “atacar os nossos militares”.

“Você mete-se em cada sarilho…”, cometou Pacheco Pereira, lembrando o número de presos a 24 de Abril — 127 em Portugal continental, 4249 nas colónias — e lembrando também que o número de guerrilheiros presos era relativamente baixo, até porque muitos eram executados; grande parte dos presos seriam “enfermeiros, funcionários dos correios, pastores protestantes, professores, estudantes aliciados a regressarem a Portugal”. Além disso, argumentou, quem se defendia da “ocupação portuguesa” deveria ser considerado preso político. “Se Espanha invadisse Portugal o que fazia? É uma atitude política”, frisou. “Como bom nacionalista que é, admite que estavam a lutar pelo seu país”.

Por entre ataques vários — “hoje não tem aqui a Alexandra Leitão, é o André Ventura”; “Eu gosto muito do meu país, em muitos aspetos mais do que o André Ventura” — os debatentes foram comparando números e também os castigos corporais que existiram, em muito maior número durante o Estado Novo. “Trouxe uma palmatória que era usada nos castigos corporais”, mostrou Pacheco Pereira, lendo descrições de torturas da PIDE em Moçambique: “Violação anal com garrafas, mutilação do pénis com queimaduras, choques elétricos, suspensão do tecto de cabeça para baixo, Sabe qual é o problema? É que estes são pretos. Eram tratados como sub-homens. Vários deles desapareceram. Estas violências eram sistemáticas e aconteceram durante todo o período do império colonial”.

Já Ventura leu as descrições de torturas que aconteceram já depois do 25 de Abril, incluindo de “carpinteiros, comerciantes, advogados e reformados, pessoas que discordavam da extrema-esquerda”, e ironizou: se a ditadura era “tão feroz”, não poderiam existir apenas “cento e tal presos em Lisboa” (número que se referia apenas à véspera do 25 de Abril).

“Podemos concordar que tudo o que é tortura é mau, mas não me venham com a história de que a violência de direita é má e a de esquerda é boa”, foi repetindo o líder do Chega, enquanto o historiador defendia que há “comparações que são elas próprias mentira“, como a que Ventura faz entre 48 anos de ditadura e os dois anos posteriores. “É tão pontual que é incomparável”, disse, frisando que não nega que tenha havido violência e tortura já no período da liberdade, mas que a da ditadura foi “sistemática”. “Sabe o que são 48 anos de tortura sistemática, de humilhação das pessoas comuns, de violência, de censura? Isso cria uma situação em que a transição portuguesa, mesmo com esses casos, foi relativamente pacífica. Deixou uma enorme herança de vingança e ressentimento“.

Inevitavelmente, a discussão passou por nomes particularmente controversos — Pacheco Pereira descreveu Marcelino da Mata como um “assassino” que se “gabava” de matar homens, mulheres e crianças, Ventura respondeu que Otelo Saraiva de Carvalho é que era “um assassino e um bandido”. Ventura defendeu que PCP e UDP deviam pagar as “expropriações erradas” do pós-25 de Abril e que em toda a ditadura não se encontra uma ordem de Salazar ou Marcelo Caetano para mandar prender alguém — não precisavam, já que tinham uma polícia política ao dispor, contrapôs o historiador.

Houve ainda tempo, num debate com mais meia hora do que o anunciado, para falar da descolonização, que Ventura considerou “criminosa” (“Queriam tanto a independência e hoje estão a vir para cá viver”) e para Pacheco Pereira concluir que o interlocutor “justifica a ditadura”. “Com esse tipo de afirmação de extrema-direita, [o Chega] é um partido fascista“. “Eu nasci em 1983, não quero saber da ditadura para nada”, respondeu Ventura. “É a história da Humanidade, temos de estar do lado da nossa pátria”, exclamou, confrontado com o número de pessoas mortas na guerra colonial.

Com Pacheco Pereira a culpar Salazar pelos erros na descolonização, Ventura acusou-o de “trair a sua pátria”. “Devíamos ter tido uma transição democrática, não comunistas a assaltar o poder. Os senhores, incluo-o a si, estavam tão cheios de chama do espírito de comunista não olharam a meios. Por isso Portugal está na cauda da Europa”. “Essa ‘revolução miserável’ deu a liberdade a Portugal e para dizer o que diz. Quem lutou contra a ditadura lutou por Portugal. Eu amo o meu país”, respondeu Pacheco Pereira.

A discussão passou ainda pelos grupos terroristas de extrema-esquerda e extrema-direita após o 25 de Abril, tendo a ELP “beneficiado” da condescendência “gigantesca” das autoridades e sido, como as FP-25, “amnistiada com a ideia de que se ia pacificar a sociedade”. Os últimos, frisou Pacheco Pereira, chegaram a ser condenados porque “a democracia nessa altura estava a funcionar”.

Ainda houve tempo para uma breve incursão pelo tema da corrupção, com Ventura a dizer que na ditadura “havia corrupção como agora há” — “Então porque é que não pôs um cartaz a dizer 100 anos de corrupção?”, questionou Pacheco Pereira, referindo-se ao cartaz em que o Chega diz que já lá vão “50 anos de corrupção” — isto é, referindo-se apenas ao tempo de democracia. Ventura acabou por dizer que “Sócrates roubou muito mais do que Salazar” e que o “sistema está podre de corrupção”, acabando por prometer que se tivesse nascido mais cedo, no tempo da ditadura, lá estaria também a lutar contra o problema.

A troca de acusações final teve a ver com cristianismo — “eu sou ateu”, disse Pacheco Pereira; “faz mal”, respondeu Ventura”; “o seu partido é o mais anticristão. Não há uma declaração dos dois últimos Papas que não seja diretamente contra as posições do Chega na imigração”, atirou o historiador; “Não me dá lições de cristianismo porque fazemos (…) luta contra a islamização”, respondeu o líder partidário. Teriam continuado por ali fora, mas já não havia mais tempo.

 https://observador.pt/2026/04/14/uma-palmatoria-comparacoes-absurdas-e-traicoes-a-patria-o-debate-entre-pacheco-pereira-e-ventura-sobre-presos-politicos/

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

António Galopim de Carvalho - O Estado Novo de Salazar, na memória de quem o viveu



 
* António Galopim de Carvalho


«A todos os meus amigos com os votos de um bom Doningo.

Só os portugueses e as portuguesas com mais ou menos 15 anos no dia 25 de Abril de 1974, hoje a rondarem os 65, podem ter memória crítica de algumas particularidades dos últimos estertores do Estado Novo, que viram cair. Rapazes e raparigas com menos idade, ou seja, as crianças desse tempo, talvez se lembrem de um pormenor ou outro. Assim sendo, torna-se evidente que a grande maioria dos nossos adultos no activo pouco ou nada sabem de um regime que nos privou de todas as formas de liberdade, torturou muitos de nós, durante quase meio século e que caiu de podre no dia em que os cravos floresceram nas espingardas dos soldados.

Nos anos de 1930 e 1940, os das duas primeiras décadas de consolidação do Estado Novo, Portugal viveu em situação de ditadura, distinguindo apoiantes do novo regime e oposicionistas, de entre os quais se evidenciaram, por serem publicamente conhecidos, os que “se metiam na política”, localmente referidos como sendo “os do reviralho”. Eram os da chamada oposição democrática, consentida por Salazar, com destaque para os do Movimento de Unidade Democrática (MUD). Criado em 1945, foi extinto três anos depois, em virtude do grande apoio popular que registou, agrupando muitos opositores até então isolados, entre os quais muitos intelectuais e profissionais liberais.

Outros opositores, que quase ninguém conhecia, militando na clandestinidade pelo Partido Comunista, eram activamente perseguidos, primeiro pela PVDE (Política de Vigilância e Defesa do Estado), entre 1933 e 1945, e, depois, pela sua substituta PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). A estes opositores, os “pides” deitavam-lhes a mão, levavam-nos para Lisboa, onde os interrogavam, brutalizavam, guardando-os depois, pelo tempo que entendessem, e, em alguns casos, assassinavam. Para os localizarem e denunciarem havia os informadores, também referidos por “bufos”, uns conhecidos, outros, não, pelo que se dizia que as mesas dos Cafés, os bancos do jardim, as paredes de todo o lado e até as pedras da caçada tinham olhos e ouvidos.

Para além das restrições à liberdade e da censura, fez-se sentir, também aqui, o decreto 27 003, de 14 de Setembro de 1936, que determinava: «Para admissão a concurso nomeação efectiva ou interina, assalariamento, recondução, promoção ou acesso, comissão de serviço, concessão de diuturnidades e transferência voluntária, em relação aos lugares do estado e serviços autónomos, bem como dos corpos e corporações administrativos, é exigido o seguinte documento com assinatura reconhecida: Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas». E, mais adiante: «Os directores e chefes dos serviços serão demitidos, reformados ou aposentados compulsivamente sempre que algum dos respectivos funcionários ou empregados professe doutrinas subversivas, e se verifique que não usaram da sua autoridade ou não informaram superiormente».

Embora na letra da Constituição de 1933, figurasse o princípio da igualdade entre cidadãos perante a lei, o Estado Novo considerava a mulher como mãe, dona-de-casa e, em quase tudo, submissa ao marido. A lei portuguesa de então, designava o marido como chefe de família, sendo reservado à mulher o governo da casa, o que se traduzia pela imposição dos trabalhos domésticos como obrigação, não tendo os mesmos direitos na educação dos filhos. Não tinha direito de voto, não podia ascender a determinadas chefias nem exercer cargos na magistratura, na diplomacia e na política. Sendo casadas, as nossas mulheres perdiam o direito a intervir nas suas propriedades, não podiam viajar para fora do país sem autorização dos maridos e não podiam trabalhar sem autorização destes. O marido podia dirigir-se ao empregador declarar não autorizar a mulher a trabalhar, o que implicava o seu imediato despedimento.

Em muitos hospitais as enfermeiras podiam ser impedidas de casar. Se casassem, podiam ser obrigadas a abandonar a profissão. As professoras tinham de pedir autorização para casar, o que só era permitido se o noivo satisfizesse determinadas condições, autorização publicada e em Diário da República O divórcio era proibido, devido ao acordo estabelecido com a Concordata de 1940, numa submissão do Estado à Igreja Católica. Assim, todas as crianças nascidas de uma nova relação, posterior casamento, eram consideradas ilegítimas, não podendo ter o nome do pai, ou seja, o do companheiro.

Na orientação ideológica antiliberal e de cariz católica do ditador, a existência da mulher confundia-se com a da família, estando-lhe reservado o espaço doméstico. A Obra das Mães pela Educação Nacional, organização feminina do Estado Novo, criada em 1936, tinha por objetivo “estimular a acção educativa da família e assegurar a cooperação entre esta e a escola nos termos da Constituição” de 1933.

Nascida em 1912, como suplemento feminino do jornal “O Século” a revista semanal “Mulher – Modas & Bordados” dirigida nos primeiros tempos a uma pretensa elite feminina, fornecia-lhe conselhos nos domínios da moda, da culinária, das boas-maneiras e da beleza. Mostrou, porém, alguma preocupação de valorização da mulher, testemunhada pela publicação regular de sonetos da grande poetisa alentejana, Florbela Espanca (1894-1930), uma das primeiras mulheres a frequentar o Liceu Masculino André de Gouveia, onde permaneceu até 1912. Foi, porém, com Maria Lamas (1893-1983), opositora ao regime e feminista, na direcção desta revista que a luta contra a secundarização da mulher se fez sentir, não só em Évora, onde tinha ligações familiares, como no país.

Depois de duas décadas de confronto com o liberalismo e o republicanismo, a chamada pax salazarista proporcionou à Igreja (grandemente afectada durante a Primeira República) um terreno propício à sua reimplantação e reestruturação interna. Nestes propósitos, assumiu papel fundamental o então Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977), dirigindo a Igreja Católica Portuguesa durante o Estado Novo. Elevado ao cardinalato, em 1929, pelo Papa Pio XI, foi amigo íntimo e companheiro de Salazar (militante católico nos tempos da Primeira República), no Centro Académico da Democracia Cristã, em Coimbra.

Com a subida de Salazar ao poder, o cardeal Cerejeira pôde garantir, à Igreja, potecção, respeito e liberdade de acção. Estava na sua mente recuperar e salvaguardar os privilégios do catolicismo, como Igreja do Estado, afastados pela Primeira República, tendo tido papel fundamental na assinatura da Concordata com a Santa Sé, em 1940, na criação da Acção Católica Portuguesa, visando a “recristianização” da sociedade, na obrigatoriedade do ensino religioso, na abertura de novos seminários e casas religiosas, bem como no desenvolvimento da imprensa católica.

Em 1936, com Carneiro Pacheco no Ministério da Educação Nacional (anteriormente chamava-se da Instrução Pública), reforçara-se o papel da escola no controlo ideológico e orientação política dos alunos, na prevalência do livro único, no culto das virtudes nacionalistas e no elogio da vida modesta e rural. O fervor patriótico e o cunho religioso enquadrados na ideologia oficial do Estado Novo estavam diluídos nas matérias curriculares, nomeadamente, na Leitura, na História e na Geografia, no propósito de, a partir dos bancos da escola, então com início aos sete anos de idade, estimular estas virtudes nos homens e mulheres do futuro.

Nestes anos, o ensino obrigatório ainda terminava com o exame da 3ª classe (3º ano, como agora se diz), certificado pelo diploma do “Primeiro Grau”, exigível, por exemplo, para ingresso nos lugares mais humildes da função pública, no comércio, como caixeiro, nos correios, como carteiro ou boletineiro e, até, para ser eleitor. Ler, escrever e contar era tudo o que, o cidadão comum necessitava para fugir à vida do campo, ao aprendizado artesanal ou oficinal e a outros trabalhos que apenas fizessem uso da força braçal. Esta habilitação mínima vigorou até 1956. A partir de então, a escolaridade aumentou para 4 anos, apenas para os rapazes. Só quatro anos depois, esta obrigatoriedade foi decretada para as raparigas.

Na Escola Primária, a pedagogia estava na ponta da régua, versão escolar da tradicional palmatória ou menina de cinco olhos. Com algumas professoras, as reguadas estalavam nas mãos das crianças “por dá cá aquela palha”, quer por motivos de disciplina, quer por erros nos ditados, nas contas e em quaisquer outras matérias.

À margem da Escola Primária havia as chamadas “Escolas Incompletas”, criadas em 1930, mais tarde designadas “postos escolares”, com o propósito de combater o analfabetismo no seio de populações sem escola nem condições mínimas de fixar professores. Aqui o ensino era ministrado por “regentes escolares”. Na imensamente maioria mulheres, ganhavam metade do ordenado de um professor, bastava que possuíssem a 4ª, que demonstrarem ter bom comportamento moral e adesão ao regime e eram, de preferência, oriundas dos próprios locais.

A análise histórica da documentação permite verificar que, nesses anos, os professores, diplomados pelas Escolas Normais, foram sendo substituídos pelos regentes escolares, em especial nas aldeias e na periferia das cidades. A escolaridade obrigatória, como se disse, baixara para a 3.ª classe e as crianças estavam preparadas para trabalhar e ouvir o sermão do senhor padre aos Domingos.

No discurso de Salazar, proferido em 12 de maio de 1935, na sede da Liga 28 de Maio, em Lisboa, Salazar disse: Oiço muitas vezes dizer aos homens da minha aldeia, «Gostava que os pequenos soubessem ler para os tirar da enxada». E eu gostaria bem mais que eles dissessem: «Gostaria que os pequenos soubessem ler, para poderem tirar melhor rendimento da enxada»

7.12.25

António Galopim de Carvalho no Facebook

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sábado, 6 de dezembro de 2025

Jaime Nogueira Pinto - Outra História

Jaime Nogueira Pinto

Colunista do Observador

A História oficial, sobretudo quando não prima pela verdade, tende a ser efémera. E pode sempre rever-se e refazer-se.

06 dez. 2025,  

Não há quem não saiba que a História é feita pelos vencedores. Aqui e em todo o lado. Mas sabe-se também que a História oficial, sobretudo quando não prima pela verdade, tende a ser efémera. E pode sempre rever-se e refazer-se.

Sobre o 25 de Novembro, cuja celebração parece causar grande consternação à esquerda e na Esquerda e motivar jogos florais, já escrevi o que tinha a escrever – mais recentemente, num livro organizado por Jerónimo Fernandes, que reúne um tenebroso conjunto de 32 autores de “extrema-direita”, digamos que uma Hidra de 32 cabeças onde, entre “passistas” e outros perigosos fascistas e extremistas, até cabeças (!) do Chega serpenteiam.

Apesar de terem sido os Comandos de Jaime Neves – entre os quais os Convocados, ou seja, os que tinham servido no Ultramar e voltaram às fileiras para parar a Esquerda radical – a fazer o 25 de Novembro, o que resultou do dia foram 50 anos de Centrão, isto é, de poder repartido entre o PS (mais à esquerda e por mais tempo) e o PSD (menos à esquerda e por menos tempo). Ficaram também como eternos cronistas da República historiadores e intelectuais de esquerda, nas suas várias sensibilidades e modalidades, assistindo-se ainda à súbita conversão à democracia eleitoral e à respeitabilidade democrática do Partido Comunista Português.

Sem o 25 de Novembro, sem os Comandos, sem os Convocados e a Força Aérea que, no terreno, evitaram a vitória da Esquerda radical, não teríamos em Portugal democracia liberal. Teríamos um regime comunista com alguns esquerdistas festivos no poder, bons rapazes, simpatizantes de Trotsky e dos maoistas, como os que torturaram presos políticos no RALIS e na Polícia Militar e se dedicaram a fuzilamentos simulados em vários aquartelamentos. Tudo boa gente. De qualquer forma, com Ialta em vigor, com o “povo do Norte” em alvoroço e uma coligação negativa, da extrema-direita o Grupo dos Nove e ao PS, a festa nunca iria durar muito. Mas os estragos e o prejuízo seriam consideráveis.

Não digo que o Centrão e militares como Vasco Lourenço ou outros do Grupo dos Nove alinhassem nas veleidades, barbaridades e festividades da esquerda radical, mas se não fossem, no terreno, os Comandos de Neves, os oficiais da Força Aérea e os paraquedistas do brigadeiro Almendra chegados de Angola, não sei bem quem tiraria do poder os revolucionários. Costa Gomes e os “moderados”? Duvido.

O Dr. Soares, quando percebeu que o PREC e a Extrema-Esquerda não queriam fazer a festa só contra os “fascistas” e os “reaccionários”, também teve um papel na resistência. A política é assim: o Inimigo nem sempre faz o Amigo, mas faz muitas vezes o aliado útil e objectivo.

fEsquerdas e direitas radicais

Estou à vontade quanto ao Estado Novo, onde não tive cargos ou responsabilidades. Nem eu, nem os meus companheiros do Jovem Portugal e depois da Política, nem tão pouco os nossos amigos do Grupo de Coimbra fomos alguma vez salazaristas. O nosso empenho era a defesa do então Ultramar, talvez porque gostávamos de ser cidadãos de uma nação grande, independente, plurirracial, com uma identidade forte. Uma nação que, na Europa e em África, crescia economicamente, apesar da guerra. Havia polícia política e censura prévia, mas nós não gostávamos nem precisávamos delas. Porém, havia uma guerra, em África, e não tinham as democracias na 2ª Guerra Mundial censura? Não tinham também neutralizado os suspeitos de colaboração com o inimigo, e sem sequer lhes perguntarem de que lado estavam (fizeram-no os americanos com os nipo-americanos e os ingleses com os militantes da British Union of Fascists de Oswald Mosley)?

Depois, que autoridade moral têm os militantes da esquerda radical, que admiravam Mao Tsé-Tung ou até Pol Pot e os desviacionistas trotskistas, para criticar, os que, aos vinte anos, queríamos transformar o império português numa grande nação euro-africana, com igualdade, e integração racial, desenvolvida economicamente? Talvez tivéssemos então, nas referências históricas, os nossos excessos, mas não éramos nós que fazíamos das faculdades um Estado autoritário, censório e policiado, onde era obrigatório ser “alinhado”.

E convém também lembrar que o Estado Novo não foi só a PIDE, a Censura e a mortalidade infantil. Foi também um tempo em que, pela primeira vez em Portugal houve mais gente a saber ler e escrever que os que não sabiam; um tempo em que se executou o maior rol de obras públicas depois do fontismo e se fez a segunda revolução industrial. Foi ainda nos últimos anos do regime que Portugal se aproximou em números de capitação e renda dos países economicamente mais desenvolvidos da Europa. Pela primeira e última vez.

Ao longo de quase 50 anos de poder, entre a Ditadura Militar (1926-1933) e o Estado Novo (1933- 1974), houve abusos, saneamentos, prisões, gente a morrer nas cadeias? Houve casos de corrupção e de favoritismo? Com certeza que houve. Mas tinham acontecido piores abusos contra os católicos, os monárquicos e os sindicalistas na Primeira República, e repetiram-se contra a direita patriota e ultramarinista depois de Abril, no 28 de Setembro e no 11 de Março. Depois do 25 de Abril, quando andaram a investigar a corrupção na “longa noite fascista”, ainda conseguiram descortinar uns gastos fora da caixa de um ex-presidente da RTP, mas foi um Nuremberg bastante modesto, convenhamos.

Há muitos anos, quando discutia com o Dr. Cunhal estes desmandos numa entrevista na Rádio Renascença, e lhe disse que eles, comunistas, tinham feito como o Estado Novo e a PIDE quando puderam, perguntou-me se eu queria comparar umas centenas de fascistas e reaccionários uns meses na cadeia com os muitos anos dos comunistas nas prisões do fascismo. Respondi-lhe, com todo o respeito que me merecia um velho e coerente lutador como ele, que a única razão pela qual só tinham sido meses fora o 25 de Novembro. Senão, teriam sido muitos anos e muitos mortos, torturados ou liquidados, a avaliar pelo modus operandi dos comunistas quanto a reais ou supostos inimigos em todos os países onde o comunismo se tinha instalado. Com uma agravante: enquanto os regimes autoritários e até as ditaduras da direita permitiam igrejas, comunidades religiosas e propriedade privada, o comunismo perseguia e proibia as religiões e a propriedade privada, acabando com a sociedade civil.

O 25 de Novembro e a Liberdade

E se não fosse o 25 de Novembro, também não haveria liberdade em Portugal. Não era o slogan dos “abrilinos” mais ortodoxos “não há liberdade para os inimigos da liberdade” (sabendo nós – e eles – perfeitamente quem definiria os “inimigos da liberdade”)?

Na história do 25 de Novembro há um ponto importante e interessante que discuti há dias com a Irene Flunser Pimentel na Radio Comercial: a envolvente internacional. É uma envolvente que explica a neutralidade do PCP, que não pôs o seu peso militar e civil na balança no 25 de Novembro. A URSS não queria quebrar as regras de Ialta de partilha da Europa com os Estados Unidos (confirmados no Verão de 1975 em Helsínquia) e o Dr. Cunhal e a cúpula do PCP eram disciplinados.

Também estou convencido que se houvesse uma guerra civil, embora pudesse hipoteticamente constituir-se uma Comuna de Lisboa (talvez sem o fuzilamento de bispos e padres da Comuna de Paris), os comunistas e a esquerda radical acabavam vencidos. E em risco de serem outra vez proibidos.

Rectificações históricas

A acabar, duas explicações e rectificações: a história da bandeira a meia-haste, na morte de Hitler, ouvi-a contar e explicar por Franco Nogueira, um “patriota da Rotunda” convertido ao Estado Novo pelo lado do patriotismo ultramarino. Em 3 de Maio de 1945, no terceiro dia depois do suicídio de Hitler em Berlim, a bandeira nacional apareceu a meia-haste nos edifícios públicos: Portugal era neutral no conflito, por isso, e uma vez que morrera um chefe de Estado, o Secretário-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Luís Teixeira de Sampaio, dera instruções nesse sentido, de acordo com o Protocolo. Depois, perante algum barulho dos Aliados e das oposições, Teixeira de Sampaio quis demitir-se, arcando com as responsabilidades de um erro político, na consequência da observação cega do Protocolo. A meia-haste não tinha, assim, nada de ideológico – Salazar fora crítico do nazismo, bem antes da sua derrota. Teixeira de Sampaio estava contrito perante os clamores que causara e disposto a ser o bode expiatório. Mas Salazar, ministro dos Estrangeiros desde 1936, conteve-lhe o gesto, e mandou-lhe um dos seus habituais bilhetinhos – “De hora a hora, Deus melhora”…

Quanto à morte do general Humberto Delgado, assassinado em Espanha pelo agente da PIDE Casimiro Monteiro, no que apareceu como uma dupla armadilha – o general Delgado pensava que se ia encontrar com oposicionistas, os agentes da PIDE pensavam que Delgado se vinha entregar ou estavam ali para o deter – há várias teses. Mas não creio que Salazar tivesse alguma coisa que ver com o crime. Alberto Franco Nogueira, ministro dos Estrangeiros ao tempo, contava-me, anos depois, que nunca tinha visto ninguém tão aflito como o director da PIDE, major Silva Pais, quando lhe pediu conselho sobre como havia de comunicar a Salazar o assassinato. Salazar não mandava assassinar opositores.

De resto, o general Delgado, como demonstram os livros publicados sobre os emigrados em Argel, era um factor de divisão entre os oposicionistas residentes – republicanos do Reviralho, soaristas e comunistas; era, acima de tudo, um elemento de divisão das várias famílias da oposição. Só depois de morto se tornou um símbolo unitário.

A propósito, na nota biográfica de Humberto Delgado, no suplemento ao Dicionário de História de Portugal, coordenado por António Barreto e Maria Filomena Mónica, escreve David Lander Raby, sobre os últimos tempos de Humberto Delgado:

“De volta do Brasil, acabou por aceitar a colaboração que permitiu a formação em Dezembro de 1962 da Frente Patriótica de Libertação Portuguesa, e finalmente chegou a Argel (onde a Frente tinha o apoio do Presidente Ben Bella) em Junho de 1964. Mas em menos de dois meses estava praticamente de relações cortadas com a maioria dos membros da Junta e acabou por separar-se completamente da FPLN em Outubro, criando a sua própria “Frente Portuguesa de Libertação Nacional”, que nunca chegou a ter uma existência real. O rompimento com a FPLN foi o princípio do fim para HD; não era possível reconciliar a sua vontade de acção armada a curto prazo e a perspectiva cautelosa da maioria da oposição. Cada vez mais abandonado, HD caiu na armadilha montada pela PIDE, entrando em Espanha com a sua secretária brasileira, Arajaryr de Campos, acreditando que ia encontrar-se na fronteira com oficiais do exército português dispostos a levantarem-se contra o regime.”

A partir daqui, surgem narrativas fantasiosas ou, pelo menos, pouco verosímeis, que avançam com uma cumplicidade ou mesmo com um complot entre o “bando de Argel” e a PIDE para liquidar o “general sem medo”.

Do julgamento do caso em Portugal, e mesmo das narrativas hostis, infere-se sempre o desconhecimento de Salazar da “operação Outono”. A versão que sempre ouvi de quem sabia alguma coisa por ter conversado com elementos envolvidos no crime, foi que Delgado, convencido que se ia encontrar com militares oposicionistas, quis reagir, quando se deu conta que caíra na armadilha da PIDE. Ia armado e puxou da pistola ou do revólver, mas Casimiro Monteiro foi mais rápido e matou-o. Também no filme realizado por Bruno de Almeida e Frederico Delgado Rosa, Operação Outono, há uma implícita absolvição de Salazar quando, numa discussão de responsáveis da PIDE, surge a pergunta: “E como vamos dizer ao Doutor Salazar?” – “Dizemos-lhe que foram os comunistas!”

Não foram, embora talvez não tivessem ficado particularmente consternados. Mas isso é outra história.

https://observador.pt/opiniao/outra-historia/