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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Pedro Tadeu - Qual é a história política de Carlos Brito?

* Pedro Tadeu

 
Carlos Brito foi militante do PCP durante quase 50 anos, mas deixou de o ser há mais de 25 anos. Com toda a enorme admiração que tenho pela pessoa que ele foi; com todo o respeito pela forma heróica com que ele lutou contra o fascismo (que me faz sentir pequenino); com todo o mérito que teve enquanto deputado constituinte e líder parlamentar; com toda a ótima relação pessoal, próxima, diária, amiga, que criámos entre 1992 e 1996 quando ele foi meu diretor no jornal “Avante!”; com todo o prazer que tive quando, depois disso, nos vimos algumas vezes; com tudo o que de bom há a dizer sobre este homem inteligente, sensível, talentoso e culto, não posso deixar de sublinhar isto: com ou sem razão, com ou sem motivo, Carlos Brito deixou o meu partido há muito tempo e um terço da sua vida política foi feita fora do PCP – e isso, politicamente, é relevante.

Sim, Carlos Brito está na história do PCP e essa história não pode nem deve ser apagada, deve ser sublinhada, sobretudo em tempos de tentativa de apagamento dos horrores do fascismo português ou de transformação da Revolução dos Cravos num processo de loucura coletiva. Mas na história política de Carlos Brito também não pode ser apagado o percurso que ele fez depois de abandonar o PCP.

Quando Brito saiu do partido, no ano 2000, não teve um comportamento democrático.

Brito lutou pelas suas ideias dentro do PCP, teve meios e oportunidades de as divulgar e de as defender a partir de uma posição interna privilegiada, uma posição de poder. Teve, ainda, a seu favor, o contexto político de recontextualização do ideal comunista e um enorme interesse do jornalismo pela luta interna do PCP, que favorecia as posições dos chamados “renovadores”, mas que esconjurava os outros militantes com o palavrão “ortodoxos”.

Carlos Brito, com toda a legitimidade, foi à luta pela modificação do que achava estar errado, mas perdeu essa luta. Não perdeu por poucos, perdeu por muitos: a esmagadora maioria dos militantes comunistas rejeitou claramente essas ideias. Carlos Brito não foi democrático ao não se conformar com a derrota, ao não aceitar a posição da maioria. Cheguei a dizer-lhe isso e a lembrar-lhe aqueles que, tendo tomado posições semelhantes à sua, decidiram que era mais útil para a democracia portuguesa continuarem a militância no PCP.

Quando saiu, provavelmente, Brito sentiu-se magoado, desrespeitado, sobretudo quando lhe aplicaram uma sanção disciplinar. É humano e compreensível, todos temos ego, e isso não o torna melhor ou pior pessoa, mas não lhe dá mais razão política – na verdade, as ideias que Brito defendeu foram aplicadas, depois do fim do bloco soviético, em inúmeros partidos comunistas e quase todos colapsaram rapidamente. O projeto de Carlos Brito e dos renovadores teria morto quase imediatamente o PCP – 26 anos depois, isso está comprovado na vida real – e as razões da atual decadência eleitoral dos comunistas só muito lateralmente terão a ver com o debate desse tempo.

Quando vejo chusmas de insultos ao PCP por causa de um curto comunicado onde, objetivamente, só se elogia Carlos Brito, vejo sobretudo um ataque político abusivo e hipócrita. Sim, acho que o comunicado poderia ter sido mais generoso, menos racional e mais emocional, mas, caramba, foi respeitoso para com este grande português e, o que é compreensivelmente mais importante para o PCP, respeitou os outros grandes portugueses que, ao contrário de Brito, decidiram continuar a militar no partido mesmo tendo, no passado, perdido as suas batalhas políticas.

15 Mai 2026

https://www.dn.pt/opiniao-dn/qual-a-histria-poltica-de-carlos-brito

domingo, 19 de abril de 2026

O pecado original de Pacheco Pereira

Pacheco Pereira não se arrepende do frente-a-frente com Ventura: “Se fosse hoje, repetiria”

Em declarações ao DN, José Pacheco Pereira defende sem hesitações a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeita as críticas de quem considera que saiu a perder. Para o historiador, discutir o populismo à distância é um erro: “Tem mesmo de se meter a mão na massa”, diz, depois de ter enfrentado o líder do Chega. E recusa uma “espécie de snobismo intelectual”.

Alexandra Tavares-Teles

16 Abr 2026,  

“Estou muito contente com o que fiz e se fosse hoje repetiria”. José Pacheco Pereira defende sem reservas a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeitou as críticas de quem entende que o historiador perdeu ao aceitar o frente-a-frente transmitido pela CNN Portugal na noite de 13 de abril, depois de Ventura ter insistido na tese de que houve mais “presos políticos” após o 25 de Abril do que em vésperas da revolução, afirmação que Pacheco Pereira classificou publicamente como uma “comparação absurda”.

Sim, tem mesmo de se meter a mão na massa”, afirmou, sublinhando que não aceita a ideia de que o combate político ao populismo se faça à distância. “Não alinho nessa posição. Se as pessoas têm pruridos em sujar as mãos, fazem mal. Em casos destes, é preciso sujar as mãos”, acrescentou.

O historiador respondeu assim à metáfora, repetida nos últimos dias em artigos de opinião e comentários nas redes sociais, de que “nunca se deve lutar com um porco”, fórmula usada por vários observadores para criticar o tom do confronto com o líder do Chega,  com comentadores a argumentarem que o frente-a-frente acabou por arrastar Pacheco Pereira para o terreno preferido de Ventura.

Mas o antigo dirigente do PSD recusa a conclusão. “A ideia de que não devemos rebaixar-nos tem a ver com medo. Há muito medo”, diz o historiador. E vai mais longe: “A história diz-nos que, nos anos 30 e, mais recentemente, em França, com a Frente Nacional, esse caminho, inicialmente seguido,  foi depois revertido por uma razão: não se pode deixar que digam certas coisas sem reação.”

Para Pacheco Pereira, o erro está precisamente em deixar o espaço público livre para esse tipo de discurso. “Há uma esquerda que assume uma espécie de snobismo intelectual - eles são maus, discutem à bruta e, portanto, não se fala com eles. Sabe qual é o efeito que isso tem? Encontro esse efeito na rua, nas pessoas que me abordam depois daquele debate”, relatou. “É um número muito significativo de pessoas que vem ter comigo, que saem da mesa do restaurante para me cumprimentar. Não são apenas pessoas da elite. São pessoas  que não se sentem representadas.”

Segundo o historiador, a reação popular ao debate mostrou que existe um sentimento de vazio no campo democrático perante a ascensão do discurso populista. “Vêm ter comigo com uma certa dose de emoção e essa emoção tem a ver com o facto de não se sentirem representadas nesses outros debates”, afirmou, defendendo que o confronto direto é uma forma de responder a esse mal-estar.

Pacheco Pereira considera ainda que o frente-a-frente teve uma utilidade concreta: "expor afirmações de Ventura sobre o 25 de Abril que nunca tinha dito. E só isso foi uma enorme vantagem”, concluiu Pacheco Pereira, sustentando que o debate permitiu tornar visível, de forma mais nítida, a leitura que o líder do Chega faz da democracia saída da Revolução dos Cravos. Ainda que lamente: “O mais grave é que as frases mais significativas que o Ventura disse, inclusivamente que o 25 de Abril era miserável, ninguém as reproduziu”.

https://www.dn.pt/pol%C3%ADtica/pacheco-pereira-no-se-arrepende-do-frente-a-frente-com-ventura-se-fosse-hoje-repetiria#google_vignette

 

Opinião DN

O pecado original de Pacheco Pereira

Paulo Guinote, Professor do Ensino Básico

16 Abr 2026

Não sou dos que acha que não vale a pena “debater com fascistas”, estando em causa André Ventura. Porque ele é, antes de mais, um político oportunista, demagogo mais do que populista (ele só promete tudo às “pessoas de bem”, o que reduz muito o universo…) e porque, em alguns contextos, é essencial desmascarar as mentiras e mistificações que algumas figuras apresentam como verdades irrevogáveis e, nesse particular, Ventura está longe de ser o único mistificador no activo.

André Ventura só é “fascista” nos momentos em que esse tipo de discurso ou atitude se revelam vantajosos para a angariação de votos. Ou de apoios de bastidores. Ou de financiamentos. Porque já o vimos ser um pouco de tudo: cristão devoto (mais ou menos católico), proto-sindicalista empedernido (do apoio a sindicatos de polícias, ao esquecido anúncio da criação de uma nova federação sindical), nacionalista dos quatro costados, a par de atlantista bissexto. Pactua com grupos neo-nazis, desde que isso não ganhe destaque público e é acérrimo inimigo dos corruptos, a menos que lhe facilitem ancoragem financeira. Ora, qualquer “fascista” digno desse apodo teria vergonha de colocar cartazes com mensagens que depois se tentam reinterpretar de forma manhosa.

O “verdadeiro fascista” não pratica o toca-e-foge ou o desdisse-o-que disse. Ventura é apenas um simulacro para os tempos que temos, marcados pela promoção de produtos para consumo mediático de massas, se possível com aroma a “sangue”, não interessando se é coerente no percurso, desde que pareça “assertivo” de cada vez que faz uma curva ou inversão de marcha. Se pode ser perigoso, chegando-se muito ao poder? Sim, se isso corresponder ao abrir de portas à peculiar confederação de interesses que congregou graças ao seu sucesso no mercado político-mediático.

Pacheco Pereira sabe isto, pois foi claro quando declarou que nunca qualificou Ventura como fascista. Mas equivocou-se ao considerar que um debate entre os dois serviria para algo mais do que produzir audiências ao canal anfitrião. Porque podem muitos bater no peito que nunca assistiriam a tal confronto que a curiosidade mórbida vence quase sempre essas proclamações. O único “vencedor” do debate foi, pois, a CNN Portugal.

Ao desafiar Ventura, Pacheco Pereira cometeu um duplo erro de cálculo: concedeu ao seu interlocutor um estatuto de equivalência intelectual que, gostemos mais ou menos do trajecto de JPP, muito poucos reconhecem e achou que seria possível uma espécie de “duelo de cavalheiros”. Achou que apresentando “regras”, isso impediria o atropelamento no discurso ou o escorregar para a luta na lama retórica. Acreditou que apelando à apresentação de “factos” isso teria o mesmo significado para o seu oponente. Considerou que levando livros e documentação variada conseguiria “provar” uma verdade, cuja validade a outra parte não reconhece. A Ventura chega um punhado de fotocópias para fazer o seu número e exibir indignação. Pacheco Pereira pensou que a racionalidade calma venceria a emoção encenada. Enganou-se.

Todos cometemos erros, por arrogância intelectual, por inconsciência das circunstâncias ou má avaliação das qualidades, próprias e alheias. Pacheco Pereira parece não ter percebido que nada tinha a ganhar com este debate e Ventura nada a perder. Foi esse o seu pecado original.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

https://www.blogger.com/blog/post/edit/7624295442706210520/3893848410623296261


Ventura sabe que mentiu?

Pedro Tadeu, Jornalista

17 Abr 2026,  

No debate, segunda-feira na CNN, com Pacheco Pereira, André Ventura disse que os políticos “do sistema” não admitem os crimes políticos do pós-25 de Abril e citou conclusões do Relatório da Comissão de Averiguação de violências sobre presos sujeitos às autoridades militares”, o chamado “Relatório das Sevícias” – mas ao fazê-lo desmentiu-se a si próprio.

Esse relatório, publicado em julho de 1976, foi elaborado por indicação do Conselho da Revolução no rescaldo do 25 de Novembro de 1975. Este facto foi omitido por Ventura.

O documento foi um instrumento político dos vitoriosos desse último golpe e muito do que lá se diz não está devidamente sustentado, nem inclui a defesa das pessoas e instituições acusadas de serem autoras das ditas sevícias. É parcial e duvidoso, mas, sem dúvida, também conterá verdades.

O ponto central para esta discussão não é esse. O ponto é que, ao contrário do argumento de Ventura, o regime democrático que o 25 de Abril criou em 1974 já discutia abertamente, a nível oficial e menos de dois anos depois, os abusos que o próprio regime teria cometido, coisa que durante 48 anos de fascismo português nunca aconteceu – de resto, o dito relatório está disponível, para toda a gente, no site da Presidência da República, não está escondido.

Portanto, quando André Ventura afirma que em 50 anos de democracia a classe política dominante não admitiu a existência de abusos de Direitos Humanos no pós-25 de Abril está a mentir e contradiz-se quando apresenta como prova um relatório que até foi elaborado por alguns atores do dia 25 de Abril de 1974, como, por exemplo, o jornalista Francisco Sousa Tavares.

Outra manipulação de André Ventura é a de dizer que nunca Salazar e Caetano assinaram ordens de prisão, o que só teria acontecido no pós-25 de Abril.

Nem Salazar, nem Caetano precisavam de escrever ordens de prisões políticas porque as davam verbalmente. Por exemplo, Silva Pais, que foi diretor da PIDE a partir de 1962, aparece mencionado 119 vezes nas agendas de audiências individuais de Salazar, que saiu do poder seis anos depois. Dá quase 20 vezes por ano.

Ventura queixou-se de que houve três mil presos políticos a seguir ao 25 de Abril e que 30 mil pessoas fugiram do país.

Em 1974, segundo a Comissão de Extinção da PIDE/DGS, havia 3000 agentes da polícia política e mais de 20 mil informadores (os chamados “bufos”). Se a isto somarmos vários militares, polícias, membros da Legião Portuguesa, muitas outras autoridades como governadores civis, ministros, secretários de Estado, altos funcionários públicos, quadros das comissões de censura, juízes dos tribunais plenários e alguns outros milhares de pessoas que participavam ativamente, mesmo de forma indireta, nas estruturas de repressão política do regime fascista, teremos de perguntar: “Poderia uma revolução que deita abaixo um regime repressor manter as pessoas que exerciam essa repressão em liberdade?”

Na verdade, até seria de esperar que houvesse mais prisões e mais fugas, mas, apenas 17 meses depois, tal como André Ventura acabou por dizer, quase todos estavam livres ou começavam a voltar. E isso demonstra a tolerância do 25 de Abril.

Mais de 30 mil resistentes e patriotas não tiveram essa sorte durante o fascismo. Álvaro Cunhal, por exemplo, amargou mais de 11 anos na cadeia e só se libertou porque fugiu do Forte de Peniche. Esteve 14 anos fora do seu país... até ao 25 de Abril.

Como é que se pode comparar uma coisa com a outra?!

https://www.dn.pt/opiniao-dn/ventura-sabe-que-mentiu

sexta-feira, 7 de março de 2025

Carlos Ferro - A LÍNGUA PORTUGUESA DE RASTOS - Preguiça linguística ou um “elefante na sala”?



Carlos Ferro* | Diário de Notícias, opinião

Há em Portugal uma nova moda entre as crianças: não usam o verbo principal quando falam. Os exemplo são vários e há diversas opiniões e alertas sobre a situação que pode vir a ter consequências mais tarde.

“Professora, posso água? Posso bolachas?”. Estes são dois exemplos que a jornalista Cynthia Valente apresentou no Diário de Notícias no trabalho onde ouviu pais, professores e um psicólogo sobre este fenómeno que se está a tornar num “elefante na sala”, não só nas casas das famílias como nas escolas.

Chegados aqui, qual a explicação para tal e quais as consequências futuras para estes alunos do 1.º ciclo - o fenómeno está a ser mais detetado neste período escolar?

Parece que há várias justificações. Uma são os vídeos curtos a que as crianças e adolescentes assistem diariamente e que acabam por transmitir a ideia que qualquer conversa pode ser tida com pequenas frases, mais ou menos completas. Talvez seja a versão 2.0 do ditado “para bom entendedor meia palavra basta”.

Outra explicação passará pelo facto de as famílias falarem pouco entre si, ou seja, os pais devem ter uma maior interação com os filhos - e voltamos ao muito falado uso excessivo do telemóvel - e corrigi-los sempre que não completem as frases.

Uma terceira razão para esta “evolução” é o “mundo acelerado” em que vivemos como frisou ao DN, no trabalho já referido, Alberto Veronesi, professor do 1.º ciclo e diretor do Agrupamento de Escolas de Santa Maria dos Olivais. Disse este responsável que “a comunicação é geralmente rápida e eficiente e, assim sendo, as crianças sentem que as frases completas são desnecessárias para se fazerem entender”.

No entanto, agora que já se detetou esta “preguiça linguística” talvez seja o momento de os estudiosos da Educação e os responsáveis do setor verem como se pode/deve lidar com esta supressão verbal para que mais tarde os jovens adultos e adultos não sintam dificuldades numa sociedade cada vez mais comunicacional. E, já agora, para tentarmos, como País, melhorar nos rankings que vão sendo conhecidos e nos quais Portugal não está a ter boa figura.

* Editor executivo do Diário de Notícias

Nota PG: Em nossa observação e opinião não é só nas escolas do ensino básico que se fala e escreve mal a língua portuguesa em Portugal. Um grande mau exemplo temo-lo em vários canais de televisão e de rádios. Eles 'comem' palavras e dizem profusamente TÁ em vez de está, TAMOS em vez de estamos BORA em vez de embora, etc., etc,. e assim consecutivamente. Além disso usam e abusam da língua anglófona misturada com frases em português. A comunicação social - principalmente - nos comentários e em notícias - é completamente assucatada via  'angloportufonês'. Uma vergonha, principalmente naquelas profissões rádio-televisivas faladas. Não são crianças do ensino básico mas sim jornalista 'dótores' que mais parecem estar a falar mau português em conversas de café ou numa chungaria muito rasca. Esses maus exemplos são imensos. E o assunto devia de ser aprofundado e dar-lhe combate. A língua portuguesa é linda e muito completa mas não, comprovadamente, para as atuais gerações 'modernas e estrangeiradas' que não se exprimem em língua de 'peixe nem de carne' mas sim em expressões bárbaras todas misturadas e chafurdadas. São esses o setor principal de aplicação do mau português que se fala em Portugal. Está por saber qual será a Pátria desses 'maduros e maduras' tão 'calinosos' a falar em português.

at março 07, 2025 
https://paginaglobal.blogspot.com/2025/03/a-lingua-portuguesa-de-rastos-preguica.html

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Pedro Tadeu - Um pacifista é um energúmeno?

 OPINIÃO

*  Pedro Tadeu
 
Se comentarmos que o Hamas cometeu um crime contra a Humanidade com os ataques de 7 de outubro passado, somos humanistas.

Se enunciarmos que o Governo de Israel não tem o direito de matar indiscriminadamente civis palestinianos na Faixa de Gaza, somos nazis.

Se nos indignarmos pelos 1400 mortos assassinados pelo Hamas, estamos do lado do bem.

Se nos revoltarmos com as 6500 pessoas mortas pelas Forças de Defesa de Israel, estamos do lado do mal.


Se afirmarmos que o povo judeu foi vítima do Holocausto, somos elogiados por não esquecermos a História.

Se dissermos que os palestinianos são vítimas de opressão e liquidação sistemática há 75 anos, estamos a justificar o terrorismo.


Se chorarmos a morte das crianças israelitas mortas, somos boas pessoas.

Se nos indignarmos com o muito maior número de crianças palestinianas liquidadas, somos uns selvagens.


Se referirmos que a Faixa de Gaza está sob bloqueio terrestre, aéreo e marítimo desde 2005, perguntam-nos qual a relevância disso.

Se aludirmos ao ataque suicida de 2001 à discoteca Dolphinarium em Telavive, que matou 21 pessoas, somos pertinentes.

Se condenarmos a invasão russa da Ucrânia por violar a Carta das Nações Unidas, somos uns democratas.

Se indicarmos as múltiplas violações da Carta das Nações Unidas cometidas por Israel, somos extremistas.

Se apoiarmos a acusação do Tribunal Internacional Penal a Vladimir Putin, somos pela Justiça.

Se sugerirmos uma investigação do mesmo tribunal a Benjamin Netanyahu, somos maluquinhos.

Se condenarmos o bombardeamento russo de um centro comercial numa cidade ucraniana, somos pela civilização.

Se apontarmos o dedo à morteirada mortal de um hospital na Faixa de Gaza, estamos a fazer o jogo do inimigo.

Se qualificarmos o corte de água, eletricidade e combustíveis a dois milhões de pessoas em Gaza como um crime de guerra, não compreendemos, burros, a complexidade da situação.

Se citarmos a lista de ataques armados e as centenas ou milhares de mortos que desde 2014 o Governo Ucraniano cometeu sobre as populações civis das regiões russófonas do seu país, estamos, na melhor das hipóteses, a complicar aquilo que é simples ou, alternativamente, a mentir descaradamente.

Se exigirmos a retirada imediata das tropas russas da Ucrânia, estamos do lado certo da História.

Se apelarmos a um cessar-fogo em Gaza para permitir a entrada de ajuda humanitária, levamos com a suspeita de cumplicidade com o fundamentalismo islâmico.

Se reivindicarmos a libertação imediata dos reféns capturados pelo Hamas, somos bestiais.

Se pedirmos a libertação do jornalista Pablo González, preso há 20 meses na Polónia sem acusação formal, somos umas bestas.

Se salientarmos o voto a favor de 120 países, contra de 14 e mais 41 abstenções de uma resolução da Assembleia-Geral da ONU a pedir um cessar-fogo em Gaza, temos a visão geopolítica errada.

Se sublinharmos que a mesma Assembleia-Geral da ONU aprovou, com 141 votos a favor, 7 contra e 32 abstenções a exigência de retirada russa da Ucrânia, temos a visão geopolítica certa.

Se aceitarmos acriticamente aquilo que o poder norte-americano entende dever ser a organização do mundo, somos inteligentes.

Se criticarmos toda esta esquizofrenia bipolar que nos está a levar para uma guerra mundial, somos estúpidos - aliás, quem hoje em dia defende a paz é mesmo crismado de coisas piores... mas podem pôr-me nessa lista de energúmenos.

Jornalista

https://www.dn.pt/opiniao/um-pacifista-e-um-energumeno-17263531.html

terça-feira, 15 de agosto de 2023

DN - Entrevista a João Soares, por Pedro Cruz

 

João Soares: "Sócrates fez uma asneira porque quem foi líder de um partido, não se demite dele"

Artigo originalmente publicado a 14 de abril de 2023. O DN, durante o mês de agosto, republica algumas entrevistas marcantes e mais lidas desde o verão de 2022..

João Pedro Henriques e Pedro Cruz

15 Agosto 2023 

Filho do principal fundador do PS, João Soares, ex-deputado, ex-presidente da Câmara de Lisboa e ex-ministro de Costa, diz que todos os ex-líderes devem ser convidados para a festa dos 50 anos, inclusivamente Sócrates, apesar da "asneira" de ter deixado o partido.

Onde é que estava no dia 19 de abril de 1973? Mário Soares e a mulher Maria Barroso estavam na Alemanha, na reunião da fundação do Partido Socialista. Maria Barroso é, aliás, a única mulher presente na fotografia que se tornou icónica e que marca o nascimento do partido. E os filhos, Isabel e João? João Soares tinha 23 anos. Hoje, com 73 anos, afastado da política depois de ter sido deputado, presidente da câmara de Lisboa e (muito esporadicamente) ministro (da Cultura), João Soares dá nesta entrevista DN/TSF a sua visão do que foi a fundação do PS.

Onde é que estava no dia 19 de abril de 1973?

Eu e a minha irmã estávamos em Paris, curiosamente, mas estávamos evidentemente a par do que se ia passar na Alemanha. E até recebemos indicações para, no final dos trabalhos, mandar um telegrama para o Porto, para os irmãos Cal Brandão ou para o António Macedo, com um texto perfeitamente anódino e pré combinado que sinalizaria que as coisas tinham corrido bem e que o desfecho tinha sido aquele que todos eles esperávamos.

Fernanda Câncio - Clericalismo e anticlericalismo, uma introdução

 OPINIÃO

* Fernanda Câncio 

15 Agosto 2023 

Mais de um século após a 1ª República e no ano em que finalmente se revelou a diabólica dimensão dos crimes de abuso na Igreja Católica portuguesa, descobrimos que um furor clerical tomou conta dos representantes do Estado e das autarquias, e que ser anticlerical é descrito como ódio e fobia. Há coisas do demónio.

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Achava que já tinha escrito que chegasse a propósito da Jornada Mundial da Juventude, mas a possessão beata dos representantes do Estado e autarquias portuguesas não permite mudar de assunto.

Não bastou, portanto, torrar dezenas de milhões de euros numa semana de propaganda religiosa de uma igreja, nem vermos o primeiro-ministro a determinar, definitivo e autocrático, como "absurdas essas polémicas" - as sobre os gastos - assegurando de seguida que o tal retorno incrível que ia haver de todo esse investimento é "imaterial" (em lugares no céu?). Não chegou termos a conversão televisiva do presidente da Câmara de Lisboa em porta-cruzes. Não chegou termos todos os canais de televisão trasladados em canção da boa-nova ou lá como se chama aquilo. Não chegou sermos setenta vezes sete vezes esbofeteados com a certificação de que como "80% do país é católico porque Censos" quem não for católico ou quem, sendo-o, defenda a laicidade tem mais é de ficar bem caladinho e perguntar se querem mais um café ou um copo de água ou umas dezenas de milhões de euros, por obséquio.

Não: tínhamos ainda de ver uma autarquia - a de Oeiras - mandar retirar, na véspera da chegada do papa, um cartaz que, custeado por um crowdfunding de 300 cidadãos, lembrava e honrava, à guisa do memorial prometido que não aconteceu, as 4800 vítimas estimadas de abuso sexual na Igreja Católica portuguesa desde 1950. Tínhamos de ver uma autarquia - a de Loures - "convidar para a missa" os seus munícipes, como se uma missa, católica ou de outro culto qualquer, fosse uma espécie de concerto do Tony Carreira ou dos Xutos oferecido pelo município para alegrar os cidadãos. Tínhamos de ver um autarca - Moedas, de novo - a anunciar que decidira nomear um equipamento público, a ponte sobre o rio Trancão, "Cardeal Dom Manuel Clemente", calcando as regras municipais para a toponímia que implicam não apenas votação camarária e apreciação pela comissão criada para esse efeito como, por regra, só atribuir o nome de quem tenha morrido há pelo menos cinco anos (isto para não falar da genuflexão daquele "Dom"). E tínhamos ainda de ver a conta Twitter oficial da Câmara de Lisboa a "ocultar" (censurar, portanto) respostas a esse anúncio que se limitavam a reproduzir o cartaz com o número de vítimas de abuso, chegando até a bloquear quem assim respondia. Uma conta oficial de uma autarquia a tratar como difamação, insulto ou calúnia os números da comissão nomeada pela própria Igreja Católica.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Pedro Tadeu - Quais foram os agentes provocadores da revolta no Brasil?

* Pedro Tadeu

11 Janeiro 2023 — 

Tratar os milhares de pessoas que invadiram e vandalizaram o complexo de edifícios dos Três Poderes em Brasília como "terroristas", como vi um grande número de comentadores fazerem, parece-me trair a suposta racionalidade democrática que esse epíteto pretende demonstrar - não distinguir massas populares manipuladas dos agentes provocadores dessa manipulação, que levam tantas pessoas a agirem como turba destruidora, parece-me mesmo um exercício antidemocrático.

Aquilo que estou a designar por "agentes provocadores" desta sublevação, desta recusa em aceitar um resultado eleitoral livre e justo, abrange um espetro largo de pessoas, ideias e instituições e existem, com nuances, tanto no Brasil, como nos Estados Unidos, como em Portugal. Estão mesmo por todo o lado.

Há "agentes provocadores" de primeira linha nesta ação no Brasil: os políticos bolsonaristas mais radicais que ajudaram à sua organização, os empresários que a financiaram ou os polícias e militares que deliberadamente a permitiram.

Há "agentes provocadores" de segunda linha, bastante mais difíceis de dissipar: o estado de espírito que gera esta mobilização para a pancadaria advém da capacidade de convencer estas pessoas de estarem a viver numa sociedade em que são enganadas pelo governo, onde as eleições são fraudulentas, onde os políticos do regime democrático são quase todos corruptos, onde há uma suposta campanha moral contra a família tradicional, onde se sugere que quem é patriota é perseguido, onde se apregoa que o "verdadeiro cristianismo" é acossado, onde se acusa o Sistema Educativo de "corromper" as mentes dos alunos, onde se convence que os subsídios para os pobres desempregados vêm de dinheiro "roubado" aos que trabalham, onde se assegura que quem tem mérito é prejudicado, onde se propagandeia que a liberdade está limitada.

Esta segunda linha de "agentes provocadores" da sublevação é alimentada por igrejas pentecostais, por propagandistas das redes sociais, por extremistas organizados, por fanáticos fascistas, por militares saudosistas da ditadura brasileira, por empresários gananciosos e por justiceiros iluminados.

E há, também, uma terceira linha de "agentes provocadores" para esta violência que é culturalmente secular e que as democracias, erradamente, não combatem e, até, promovem: a crença de que o êxito das sociedades depende de um líder esclarecido, de um privilegiado que tudo resolve, e não de um esforço coletivo e participado de toda gente; a convicção de que o direito à liberdade permite o abuso sobre o outro e a formação de "tribos" identitárias de combate supremacista sobre outras "tribos"; a aceitação da submissão geral a um poder superior, seja ele divino, politico ou económico, como sendo essa "a ordem natural das coisas".

A esta loucura toda associam-se, no entanto, gravosas contribuições geradas dentro do próprio regime democrático, uma quarta linha de "agentes provocadores": de facto, a corrupção existe; de facto as desigualdades sociais agravam-se; de facto a política é suja; de facto há uns que comem tudo e outros que não comem nada; de facto elegem-se cada vez mais indivíduos do que propostas políticas; de facto a sociedade globalizada tenta eliminar o patriotismo da equação socioeconómica, reduzindo-o ao estatuto de amor de uma equipa de futebol (ver estes agressores vestidos com a camisola amarela da seleção brasileira diz tudo...); de facto o Sistema Educativo não equipou as populações para resistirem por si mesmas à manipulação ideológica; de facto a única resposta contra a polarização do debate público tem sido uma sucessiva tentativa de o censurar e não de resolver os problemas que ele revela; de facto, a intolerância insuportável contra as minorias sexuais e étnicas gerou uma serie de soluções discriminatórias positivas que põem pobre contra pobre, em vez de unir todos os pobres contra quem os explora; de facto é a divisão violenta entre os mais desfavorecidos que serve os interesses de quem manipula estas pessoas para vir a dominar, em regime absoluto, a riqueza geral criada pelo povo.

A democracia, enquanto funcionar assim, terá sempre opositores violentos.

https://www.dn.pt/opiniao/quais-foram-os-agentes-provocadores-da-revolta-no-brasil-15635684.html 


Fernanda Câncio - Bem-vindos à fakedemocracia

Primeiro nos EUA e depois no Brasil, o assalto aos símbolos do poder democrático por quem recusa, em nome do "povo", o resultado de escrutínios eleitorais coloca-nos perante a evidência de que democracia, justiça e bem são noções que variam de acordo com quem ganha ou perde - como no futebol.

Fernanda Câncio

10 Janeiro 2023 

Neste domingo em Brasília, como a 6 de janeiro de 2021 no assalto ao Capitólio, pudemos ver em direto, ou quase em direto, as imagens dos assaltantes por si próprios, filmando tudo e filmando-se, através da partilha orgulhosa nas redes sociais - como quem não coloca sequer a hipótese de estar a cometer um crime e portanto a oferecer às autoridades as provas e identificação necessárias para os encontrarem e processarem.

Podemos, é claro, explicar isso com a excitação, aliada à falta de inteligência - ou ingenuidade, se quisermos ser caridosos. Mas sendo do conhecimento geral que muitos dos assaltantes do Capitólio foram identificados e acusados com base nas imagens partilhadas pelos próprios ou por companheiros de assalto, talvez seja avisado pensar noutras explicações.

Além de todos os motivos tontos, que também existem, como o da compulsão da selfie, aquelas pessoas querem mostrar-se naquele assalto porque consideram estar a fazer algo heroico, pelo bem, e ter com elas, por elas, muita gente, que pensam poder "levantar", contagiar, ganhar, com a partilha. Não é só o assalto que é uma ação política - a partilha faz parte da ação, como modo ostensivo de demonstrar que não só quem protagoniza não aceita a ideia de estar a cometer um crime como despreza quem assim o possa considerar. Porque, e o sequestro das cores do país e da sua bandeira como símbolos do movimento significam isso, para quem ali está, aquele é "o verdadeiro Brasil", o verdadeiro "povo".

Justamente, na entrada de um dos edifícios, ouve-se um dos assaltantes dizer: "Já está tomado, estamos na casa do povo." Se a casa é do povo, e se aquele é o povo, não há crime, pelo contrário; trata-se de retomar legitimamente o que foi roubado, segundo o princípio básico da democracia - um governo do povo, para o povo e pelo povo.

E nesse sentido não há nada mais simbólico que as filmagens da entrada no Supremo Tribunal e da sua destruição, como o empunhar ante a multidão, por um dos assaltantes, daquilo que sabemos agora ser uma cópia da Constituição de 1988 (a filmagem começou por ser partilhada referindo que se tratava do original).

Que vemos ali? Uma deslegitimação do regime através da dessacralização da sua lei fundamental e do tribunal que tem por função interpretá-la e aferir por ela quaisquer leis e práticas, ou uma pretensa recuperação, pelo "povo" que os assaltantes creem representar, dos princípios constitucionais que proclamam dar-lhes razão (um dos artigos da Constituição tem sido sistematicamente invocado pelos bolsonaristas como fundamento para um golpe militar)?

Na verdade, para aquelas pessoas, como para os assaltantes do Capitólio, a convicção de que estão perante um roubo não tem sequer de se fundar na ideia, alegada quer por Trump e trumpistas quer por Bolsonaro e bolsonaristas, de que houve uma fraude eleitoral. Há uma espécie de conclusão tautológica: se não foi ao seu lado, ao seu candidato, que foi reconhecida a vitória, então a eleição não foi justa. Como para os fanáticos futeboleiros, qualquer derrota só pode explicar-se por "roubo", qualquer resultado que não o desejado só pode ser ilegítimo.

Assim, as mesmas regras e instituições que serviram para dar a vitória a Trump e Bolsonaro deixam de ser credíveis quando são derrotados. A democracia só é democracia se ganharem; as leis e os tribunais só são para respeitar se prenderem Lula; quando o soltam passam a não valer nada.

Os mesmos que exigiam "lei e ordem" e uma "intervenção militar" para "repor a legalidade" podem então escavacar edifícios públicos, roubar artefactos valiosos, esfaquear quadros, defecar nos gabinetes, espancar polícias (os polícias que os enfrentaram; também os houve) e os seus cavalos, num festim de ódio e absurdo.

Queremos acreditar que este espectáculo indecente terá o efeito contrário do pretendido; que nos muitos milhões que votaram em Trump e Bolsonaro - lembremos que perderam por muito pouco - há uma maioria que não se revê nos assaltos de janeiro de 2021 e 2023. Que acontecimentos como estes contribuem para enfraquecer a respetiva base de apoio, alienando muita gente, e são por isso erros políticos - e Lula, depois de uma primeira reação destemperada no domingo, soube esta segunda-feira corrigir o tom e o discurso de modo a ir ao encontro de quem, não tendo votado nele, se queira demarcar do ocorrido.

Aliás, de tal modo o que aconteceu pode revelar-se danoso para o bolsonarismo que há quem esteja já a pôr a hipótese de que a aparatosa ausência de reação policial em Brasília foi fruto de um maquiavelismo - o de permitir que os vândalos agissem à vontade, de modo a que Bolsonaro e o seu movimento caíssem em desgraça, perdendo apoio nacional e internacional.

É verdade que internacionalmente Bolsonaro viu até líderes de extrema-direita como a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni demarcarem-se de modo inequívoco do sucedido (quiçá vêm daí as fortes dores de barriga que, dizem-nos, o acometeram na Florida), e que o próprio, isolado, amedrontado e sonso, acabou por fazer o mesmo. Mas aquilo a que assistimos nos EUA e agora no Brasil (e mais ainda porque se repetiu no Brasil depois de acontecer nos EUA, em óbvia remake do filme americano) não é apenas um sinal daquilo que já sabemos - que no seio das democracias estão a crescer exponencialmente movimentos cujo intuito, consciente ou inconsciente, é derrubá-las, chegando ao paradoxo de exigir, como o fazem os bolsonaristas, a implantação de ditaduras militares como "salvação" do país e do próprio regime democrático.

Estes acontecimentos medonhos demonstram que a ideia de democracia se transformou, para muita gente, num conceito plástico, vazio, que não corresponde a qualquer conjunto de princípios. Uma espécie de fakedemocracia, ou democracia alternativa - como as fake news e os factos alternativos, é o que der jeito no momento.

 

https://www.dn.pt/opiniao/bem-vindos-a-fakedemocracia-15629461.html

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Art Spiegelman desconstroi o livro "Maus" em "Metamaus"




Para não voltar a explicar porque desenhou ratos e gatos para falar da família e do Holocausto, o autor Art Spiegelman editará em outubro "Metamaus", um livro que recupera a novela gráfica "Maus".


Lusa - 20 Setembro 2011 — 10:28

"Metamaus: A look inside a modern classic, Maus" é já considerado pela revista Wired um dos livros da temporada, a editar em outubro pela Random House, no qual Art Spiegelman explica o que o levou a escrever aquela banda desenhada, as influências, as pesquisas, revela os esboços e os estudos, conta as histórias pessoais em torno do livro.

"Maus", livro biográfico sobre a família de Art Spiegelman, editado em dois volumes e que tem como pano de fundo o Holocausto, foi distinguido em 1992 com o Prémio Pulitzer, e é considerado uma das obras de referência da nona arte do século XX.

Vinte anos depois da sua publicação, o livro é revisitado e desconstruído pelo próprio autor e a edição integrará um DVD com entrevistas áudio de arquivo, incluindo declarações do pai, Vladek Spiegelman, protagonista do livro.

Em "Maus", editado em Portugal, Art Spiegelman recorre a animais para falar de judeus, nazis, polacos (ratos, gatos, porcos respetivamente) e sobre a família que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz.

Agora em "Metamaus", recorrendo novamente à banda desenhada, explica que "Maus" "teve um impacto no mundo muito maior do que esperava" e que ao longo destes anos todos os jornalistas continuavam a fazer-lhe sempre as mesmas perguntas: "Porquê [recorrer à] banda desenhada? Porquê ratos? Porquê o Holocausto?", lê-se na introdução no site da editora Random House.

"Maus" "é um livro sobre a relação de um filho e de um pai, que tentam compreender-se", diz o próprio autor num vídeo divulgado no Youtube, a propósito de "Metamaus".

https://www.dn.pt/artes/livros/art-spiegelman-desconstroi-o-livro-maus-em-metamaus--2006430.html

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Joel Neto - Poesia

* Joel Neto

Naturalmente, se me pedissem para corporizar um mote para estas crónicas, eu teria de referir Caeiro. Já percebi que, de há uns tempos a esta parte, a tribo intelectual de Lisboa se proibiu de citar Pessoa. Quem cita Pessoa são os bibliotecários, a malta do Facebook e os garotos do liceu.

Eu ainda cito Pessoa:

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,

Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Mas esse, como dizia Dumas, é sobretudo o prego onde penduro o meu quadro. Para falar daquilo sobre que estas crónicas verdadeiramente procuram ser, então tenho de lançar mão de Borges: {Os Justos}

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.

O que agradece que na terra haja música.

O que descobre com prazer uma etimologia.

Dois empregados que, num café do sul, jogam um silencioso xadrez.

O ceramista que premedita uma cor e uma forma.

O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez nem lhe agrade.

Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de um certo canto.

O que acarinha um animal adormecido.

O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.

O que agradece que na terra haja Stevenson.

O que prefere que os outros tenham razão.

Estas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

As minhas crónicas são sobre gente, mais do que sobre uma geografia. Mesmo se às vezes tenho de me forçar a lembrá-lo.


17 DE DEZEMBRO DE 2015
00:00http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/joel-neto/interior/poesia-4940315.html

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Ele enviou postais de Natal à rainha durante 50 anos. Ela escreveu a agradecer



Ele enviou postais de Natal à rainha durante 50 anos. Ela escreveu a agradecer

ANDREW SIMES

O avô de Andrew Simes enviou um postal de Natal à rainha Isabel II todos os anos durante meio século. A rainha agradeceu com uma carta

O avô de Andrew Simes enviou postais de Natal à rainha de Inglaterra durante 50 anos. Em 2012, já depois de o avô ter morrido, Simes recebeu uma carta de agradecimento da própria Isabel II.

O caso foi divulgado apenas na semana passada, através do Facebook, e teve eco nos meios de comunicação social por toda a Europa. Foi Andrew quem contou a história, numa longa publicação na rede social, realçando como a rainha lhe escreveu depois de ter conhecimento que o seu avô, correspondente de tantos Natais, tinha morrido, expressando as suas condolências e manifestando o seu agradecimento.

O ritual do avô de Simes começara há muitas décadas: anualmente, enviava um cartão a desejar boas festas ao rei e à rainha. A partir de 1952, quando Isabel II subiu ao trono, passou a ser ela a destinatária das missivas.

O envio de palavras cordiais continuou e em 1972, na Turquia, cruzaram-se os caminhos da rainha e do fiel remetente. Quando se cumprimentaram, Isabel II sorriu-lhe: "então é o senhor quem me envia aqueles postais de Natal adoráveis", disse a rainha. A própria chegou a desejar um feliz aniversário ao avô de Simes quando este completou 100 anos.

Em 2011, o avô de Simes morreu, com 102 anos. Nesse ano, o jovem decidiu dar continuidade ao ritual do ancião, como "neto leal e admirador" do seu trabalho, e escreveu à rainha no Natal. Um mês depois, recebeu uma carta do Palácio de Buckingham. "Quando recebi uma carta de um Simes diferente este Natal, mandei que procurassem o paradeiro do seu avô", escreveu Isabel II, "Com muita tristeza soube da sua morte e por isso endereço as minhas condolências, a si e à sua família", continuou a rainha.

"Não consegui conter as lágrimas naquela altura nem agora, de cada vez que me lembro desta história de duas pessoas que deixaram uma marca permanente na vida um do outro", escreveu Andrew Simes, que terminou o seu texto no Facebook a desejar "a todos um Natal tão mágico quanto esta história"

.http://www.dn.pt/mundo/interior/rainha-agradece-a-homem-que-enviou-postais-de-natal-durante-50-anosa-4928809.html

domingo, 13 de dezembro de 2015

Do pião que assobiava ao pónei azul. - Memórias de Natal


DN pediu a quase quatro dezenas de figuras públicas que revelassem qual a prenda que mais gostaram de receber no Natal e que estivesse associada a algum momento especial.

As memórias voaram quase sempre até à infância e à adolescência, onde deixaram marcas a caixa de lego, a bicicleta, o piano, o carrinho Fórmula 1, a casa de bonecas. Mas o 25 de dezembro também está emocionalmente ligado ao nascimento de um filho ou neto, ou simplesmente a uma carta recebida

Gisela João, fadista
"O melhor presente que já recebi foi um pónei azul-bebé e que cheirava muito bem! Eu era menininha e delirava com a bonecada (ainda deliro!) e aquele pónei era o que eu mais queria e nem sonhava que ia ter."

Dulce Félix, maratonista
"Todos os anos, o que mais quero é que possamos estar juntos com a família. Quando era miúda, o brinquedo que mais me marcou foi um piano que os meus pais me ofereceram. É uma relíquia que ainda tenho. Recordo o dia em que o recebi e a emoção de abrir as prendas na infância."

Ana Jorge, ex-ministra da Saúde
"Teria 4 ou 5 anos e lembro-me de ter recebido uma boneca numa caixa enorme e com rebuçados e chocolates. Na altura não havia muitas possibilidades, não tinha muitas bonecas. Lembro-me da alegria que senti a mostrá-la às outras crianças na rua."

José Manuel Anes, professor universitário
"Teria uns 6 ou 7 anos quando o meu pai me ofereceu uma miniatura de uma casa, feita por um seu colega e amigo, ao mesmo tempo hábil artesão - o senhor Procópio, se bem me lembro -, miniatura com cerca de meio metro por meio metro, cuja casa, em jeito de mansão de um filme, tinha dois andares com uma imponente entrada com degraus e muitas janelas das quais se podia enxergar o interior. A casa ficava no meio de um jardim com flores e muitas árvores frondosas que tinha candeeiros e bancos."

Maria do Céu Guerra, atriz e encenadora
"Em 1979, A Barraca foi a Moçambique e fez uma enorme digressão de dois meses. No fim estávamos muito cansados. Então, eu tive um convite para passar umas pequenas férias em Pemba, que tem uma praia de Wimbe que é a praia mais linda que já vi na minha vida. Passei ali oito dias, incluindo o Natal, com um calor extraordinário e um mar maravilhoso."

José Magalhães, ex-deputado do PS
"Ganhei a vida! Escapei por um triz de ser morto no Brasil e pude viver com gente honesta o Natal de 2012. Existe uma versão softcore desta história no meu livro Homem de Leis Perdido nos Trópicos Procura Senhora Honesta.

Marcelo Rebelo de Sousa, candidato presidencial
"O nascimento do meu primeiro neto. Tenho um fraquinho por ele, é o único rapaz, um analista político nato com 12 anos... Foi sobretudo porque se seguiu de muito perto ao grande desgosto da morte do meu pai e da minha mãe e serviu para atenuar [a dor]."

J. Tablada de la Torre, embaixadora de Cuba
"Os olhos belos e curiosos do nosso primeiro filho, Carlos Eugénio, recém-nascido no Natal de 2001. Desejava muito ser mãe mas não sabia quão grandiosa seria a sua chegada."

Bryan Ruiz, jogador do Sporting
"Quando era mais novo sempre gostei muito de carros, mas recebia sempre bolas de futebol. Uma vez, já não me lembro se foram os meus pais ou outros familiares, deram-me um carro de Fórmula 1, uma das prendas de que mais gostei quando era criança."

Graça Freitas, subdiretora-geral da Saúde
"Recebi um presente que me deixou muito satisfeita aos 6 anos. Tinha pedido um fogão e recebi uma cozinha completa. Tinha fogão, frigorífico, louça de plástico. E lembro-me de ter um franguinho assado, um bolo e mais alguns moldes. Sei que brinquei muito com ela até voltar a cozinhar, já muitos anos mais tarde, por necessidade.

Mário Cordeiro, pediatra
"Dar um presente é estar presente na vida do outro. Um dia, uma amiga ofereceu-me um cabaz de Natal - nada de mais. Só que, para lá do costume, estavam pequenos objetos personalizados - um livro, um CD, brinquedos para as crianças. Na altura não dei o devido valor, mas depois percebi o que era estar presente na vida do outro. Essa pessoa é agora a minha mulher..."

Duarte Nuno Vieira, diretor da Faculdade de medicina de Coimbra
"Houve uma "prenda" que me tocou e sensibilizou particularmente. Um singelo cartão que recebi no primeiro Natal após a então ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, ter cessado as minhas funções como presidente do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, em 2013, assinado por muitos dos médicos, especialistas superiores, administrativos, técnicos, que nele trabalhavam. Nele assinalavam o seu apoio incondicional, o seu profundo lamento pela opção ministerial e o seu agradecimento por tudo o que tinha feito pela medicina legal e pelas ciências forenses."

Rui Bragança, lutador de taekwondo
"Em pequeno, a preferida foi uma bicicleta. Mas a melhor, a que dei mais uso nos últimos anos, foi um iPod. Passo o tempo a ouvir música, nas competições ou nas viagens."

João Duque, economista
"A primeira caixa de Lego, do ponto de vista material. Preparou-me para muitas coisas que a vida me exigiu: imaginação, criatividade, planeamento, cálculo mental, superação das dificuldades com restrições, análise, experimentação e erro, repetição de exercício."

Sandra Correia, CEO da Pelcor
"Recebi há alguns anos um cão-d"água, na altura com 9 meses. A Corky é a minha melhor amiga e companheira no trabalho e foi-me oferecida por uma criadora. Obriga-me a levantar às sete da manhã. É muito dócil e já deu mesmo origem a uma marca, a Corky by Pelcor, que faz pulseiras e colares para cães."

Ribeiro e Castro, ex-líder do CDS
"Há anos começámos o "amigo secreto" pelo Natal. Família grande, cada um compra só um presente. Teto: 15 euros. Mais caro, não. A seguir ao almoço, cada um cria uma adivinha em rima, para se descobrir o seu amigo secreto. De avós a netos, e já bisnetos, de 30 a 40, a ronda dura hora e meia. Todos os anos, é o melhor presente de Natal."

Filipa Neto, fundadora da Chic by Choice
"Sem dúvida estar com a família. Não existe nada que me dê mais alegria, força e energia do que estar com quem para mim é mais especial."

Margarida Rebelo Pinto, escritora
"É sempre o mesmo todos os anos: a 24 de dezembro a minha mãe e os netos escrevem uma peça de Natal e representam-na após o jantar. Tudo improvisado e os temas têm que ver com o que se passou nesse ano. Quando uma personagem é muito boa, reaparece no ano seguinte, fora de contexto, tipo Monty Phyton. É um delírio. Não há melhor presente."

Ascenso Simões, deputado do PS
"A melhor prenda foi em 1980 um computador ZX80. Por ter sido um dos primeiros "catraios" vila-realenses a ter um pré-computador doméstico e por ter sido pago pelos meus pais com imenso sacrifício (custou 110 libras, cerca de 150 euros), o que impediu que nesse ano tivessem tido férias e obrigou a fazer muitas horas extraordinárias."

M. Ribeiro Ferreira, chairman do grupo Fonte Viva
"Ver o espetáculo de nós, sete irmãos, cada um com o seu sapatinho, a abrir os presentes na manhã do dia 25. Um autêntico mar de presentes, com cada um à procura do seu sapatinho."

Tanaka, futebolista Sporting
"A prenda mais original que recebi foram umas luvas de boxe. Foi algo fora do normal. Normal eram carros, bolas, livros, roupa, e nesse ano deram-me umas luvas de boxe. Uma prenda diferente, não digo se foi a de que mais gostei, mas foi uma das que ficaram na memória."

Duarte Marques, deputado do PSD
"As prendas que mais gostava de receber eram carros e aviões da Mecano e da Lego Technic para montar. Mas a melhor foi mesmo a primeira pista de carros elétricos."~

Fernando Pimenta, canoísta
"Uma das melhores prendas foi a camisola dos Jogos Olímpicos de 2012. Para mim é algo com muito significado. Em pequeno era diferente, recebia carrinhos e essas coisas: recordo a expectativa de querer saber o que ia sair dos embrulhos."

Nuno Melo, eurodeputado do CDS-PP
"Gostei muito de uma mesa de mistura [música] há seis ou sete anos..."

Graça Morais, pintora
"Nunca esquecerei a minha primeira caixinha de aguarelas que recebi quando tinha 9 anos. Também não esqueço a curiosidade que eu e os meus cinco irmãos sentíamos quando, ainda de madrugada, acordávamos e íamos a correr à lareira, no dia 25 de dezembro, para vermos o que o Menino Jesus nos deixava nas botinhas. "

Miguel Araújo, músico
"O presente de Natal da minha vida foi, sem dúvida, no Natal de 1990, quando tinha 12 anos, quando os meus pais me ofereceram uma guitarra, um violão acústico, que era uma Fender redonda, feita na Coreia, de imitação, mas foi a guitarra em que eu aprendi a tocar."

Maria de Belém, candidata presidencial
"Por proposta da minha filha, a decisão familiar vai este ano no sentido de não se gastar qualquer verba na compra de presentes e na troca, canalizando a totalidade dessa verba para donativos à Cáritas."

Eugénio Fonseca, presidente das Cáritas Portuguesa
"O melhor presente foi há nove anos ter recuperado de uma doença grave de que fui acometido e que poderia ter sido fatal. Graças à medicina e, porque sou um homem crente, à intervenção divina, superei essa dificuldade. Passei esse Natal no hospital. Em miúdo, a melhor prenda era ter roupa nova para vestir no Natal porque era de uma família modesta."

Almeida Rodrigues, diretor nacional da PJ
"Um boneco de corda, que rodopiava sobre si mesmo, curvava-se e levantava o chapéu. Tinha 6 anos, os tempos eram difíceis para as famílias e aquele foi o meu primeiro brinquedo a sério."

Sónia Morais Santos, blogue Cocó na Fralda
"O melhor foi a noite de Natal do ano passado, em que, além da família que há muitos anos se junta, consegui reunir o meu pai, a minha madrasta, a minha irmã, cunhado e sobrinho. Durante muitos anos eu e o meu pai estivemos de relações cortadas, de modo que ter todos à mesma mesa foi realmente emocionante e bonito. Éramos 25, nessa noite."

Ana Borges, jogadora do Chelsea
"Quando tinha uns 11 ou 12 anos recebi o equipamento do Sporting e fiquei doidinha, porque é o meu clube e, claro, sendo uma criança mais valor lhe dava. Nem o queria despir e muito menos pô-lo a lavar."

Michael Seufert, ex-deputado do CDS-PP
"A melhor prenda que recebi foi, provavelmente, em 1995, um canivete suíço. Não era um canivete qualquer, era um canivete igual ao do MacGyver. Não sei se o pedi ao Pai Natal ou se foi o pai Seufert que percebeu sozinho o meu fascínio."

Isabel Alçada, escritora
"O melhor presente foi a minha filha que nasceu a 26 de dezembro. Da minha infância lembro-me de que os meus pais mandaram fazer uma mobília de quarto para mim e para as minhas irmãs. Devia ter 7 ou 8 anos e nunca mais me esqueço de que chegámos à chaminé e estava lá a mobília com tudo e dentro das gavetinhas da cómoda e pendurado no roupeiro estava roupa igual às nossas para as bonecas. Foi inesquecível."

F. Carvalho Rodrigues, engenheiro e cientista
"Um pião que me deram quando eu era um garoto, tinha uns 6 ou 7 anos. Quando se atirava, ele ficava a rodar e assobiava uma música. A segunda melhor foi um Mecano, mais tarde, já tinha uns 10 anos."

Susana C. Gaspar, presidente da Amnistia Internacional Portugal
"O nosso melhor presente é quando as pessoas dedicam um minuto do seu dia a assinar uma carta ou petição para proteger os direitos de outros."

Rui Horta, coreógrafo e bailarino
"Lembro-me de num dos meus natais de criança ter recebido um maravilhoso avião de plástico, com uma hélice movida por um elástico, e que se elevava no ar durante longos voos. Tinha-o cobiçado durante meses e os meus pais guardaram a surpresa para a tão ansiada manhã do dia 25. Passei as férias a brincar com ele e acabei por destruí-lo antes do recomeço das aulas. Foi uma perda enorme que acentuou ainda mais a chatice do recomeço escolar. Mais tarde comprei vários assim, os quais lançava com os meus filhos e essa emoção repetia-se, talvez mais ainda a minha do que a deles... Passados uns anos fiz um solo de dança para um magnífico bailarino canadiano ao qual chamei The boy with the airplane.

Kirsty Hayes, Embaixadora Britânica
"O melhor presente de Natal deu-mo o meu marido nos primeiros anos de casados: Nínive e as Suas Ruínas, escrito por um antepassado meu. Perante a profanação de lugares únicos como Nínive e Nimrud (Iraque) ou Palmira (Síria) pelo Estado Islâmico, este precioso fragmento de história torna-se ainda mais valioso. Viverei este Natal com um sentimento de gratidão pelos feitos dos nossos antepassados e confiante de que a esperança e o espírito de humanidade se vão sobrepor às forças de má índole e destruidoras."

http://www.dn.pt/sociedade/interior/do-piao-que-assobiava-ao-ponei-azul-memorias-de-natal--4927380.html