Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Pedro Tadeu - Qual é a história política de Carlos Brito?
domingo, 19 de abril de 2026
O pecado original de Pacheco Pereira
Pacheco
Pereira não se arrepende do frente-a-frente com Ventura: “Se fosse hoje,
repetiria”
Em
declarações ao DN, José Pacheco Pereira defende sem hesitações a decisão de
desafiar André Ventura para um debate e rejeita as críticas de quem considera
que saiu a perder. Para o historiador, discutir o populismo à distância é um
erro: “Tem mesmo de se meter a mão na massa”, diz, depois de ter enfrentado o
líder do Chega. E recusa uma “espécie de snobismo intelectual”.
16 Abr 2026,
“Estou muito
contente com o que fiz e se fosse hoje repetiria”. José Pacheco Pereira defende
sem reservas a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeitou as
críticas de quem entende que o historiador perdeu ao aceitar o frente-a-frente
transmitido pela CNN Portugal na noite de 13 de abril, depois de Ventura ter
insistido na tese de que houve mais “presos políticos” após o 25 de Abril do
que em vésperas da revolução, afirmação que Pacheco Pereira classificou
publicamente como uma “comparação absurda”.
“Sim, tem
mesmo de se meter a mão na massa”, afirmou, sublinhando que não aceita a ideia
de que o combate político ao populismo se faça à distância. “Não alinho nessa
posição. Se as pessoas têm pruridos em sujar as mãos, fazem mal. Em casos
destes, é preciso sujar as mãos”, acrescentou.
O historiador
respondeu assim à metáfora, repetida nos últimos dias em artigos de opinião e
comentários nas redes sociais, de que “nunca se deve lutar com um porco”,
fórmula usada por vários observadores para criticar o tom do confronto com o
líder do Chega, com comentadores a argumentarem que o frente-a-frente
acabou por arrastar Pacheco Pereira para o terreno preferido de Ventura.
Mas o antigo
dirigente do PSD recusa a conclusão. “A ideia de que não devemos rebaixar-nos
tem a ver com medo. Há muito medo”, diz o historiador. E vai mais longe: “A
história diz-nos que, nos anos 30 e, mais recentemente, em França, com a Frente
Nacional, esse caminho, inicialmente seguido, foi depois revertido por
uma razão: não se pode deixar que digam certas coisas sem reação.”
Para Pacheco
Pereira, o erro está precisamente em deixar o espaço público livre para esse
tipo de discurso. “Há uma esquerda que assume uma espécie de snobismo
intelectual - eles são maus, discutem à bruta e, portanto, não se fala com
eles. Sabe qual é o efeito que isso tem? Encontro esse efeito na rua, nas
pessoas que me abordam depois daquele debate”, relatou. “É um número muito
significativo de pessoas que vem ter comigo, que saem da mesa do restaurante
para me cumprimentar. Não são apenas pessoas da elite. São pessoas que
não se sentem representadas.”
Segundo o
historiador, a reação popular ao debate mostrou que existe um sentimento de
vazio no campo democrático perante a ascensão do discurso populista. “Vêm ter
comigo com uma certa dose de emoção e essa emoção tem a ver com o facto de não
se sentirem representadas nesses outros debates”, afirmou, defendendo que o
confronto direto é uma forma de responder a esse mal-estar.
Pacheco
Pereira considera ainda que o frente-a-frente teve uma utilidade concreta:
"expor afirmações de Ventura sobre o 25 de Abril que nunca tinha dito. E
só isso foi uma enorme vantagem”, concluiu Pacheco Pereira, sustentando que o
debate permitiu tornar visível, de forma mais nítida, a leitura que o líder do
Chega faz da democracia saída da Revolução dos Cravos. Ainda que lamente: “O
mais grave é que as frases mais significativas que o Ventura disse,
inclusivamente que o 25 de Abril era miserável, ninguém as reproduziu”.
O pecado
original de Pacheco Pereira
Paulo Guinote, Professor do
Ensino Básico
16 Abr 2026
Não sou dos que
acha que não vale a pena “debater com fascistas”, estando em causa André
Ventura. Porque ele é, antes de mais, um político oportunista, demagogo mais do
que populista (ele só promete tudo às “pessoas de bem”, o que reduz muito o
universo…) e porque, em alguns contextos, é essencial desmascarar as mentiras e
mistificações que algumas figuras apresentam como verdades irrevogáveis e,
nesse particular, Ventura está longe de ser o único mistificador no activo.
André Ventura
só é “fascista” nos momentos em que esse tipo de discurso ou atitude se revelam
vantajosos para a angariação de votos. Ou de apoios de bastidores. Ou de
financiamentos. Porque já o vimos ser um pouco de tudo: cristão devoto (mais ou
menos católico), proto-sindicalista empedernido (do apoio a sindicatos de
polícias, ao esquecido anúncio da criação de uma nova federação sindical),
nacionalista dos quatro costados, a par de atlantista bissexto. Pactua com
grupos neo-nazis, desde que isso não ganhe destaque público e é acérrimo
inimigo dos corruptos, a menos que lhe facilitem ancoragem financeira. Ora,
qualquer “fascista” digno desse apodo teria vergonha de colocar cartazes com
mensagens que depois se tentam reinterpretar de forma manhosa.
O “verdadeiro
fascista” não pratica o toca-e-foge ou o desdisse-o-que disse. Ventura é apenas
um simulacro para os tempos que temos, marcados pela promoção de produtos para
consumo mediático de massas, se possível com aroma a “sangue”, não interessando
se é coerente no percurso, desde que pareça “assertivo” de cada vez que faz uma
curva ou inversão de marcha. Se pode ser perigoso, chegando-se muito ao poder?
Sim, se isso corresponder ao abrir de portas à peculiar confederação de
interesses que congregou graças ao seu sucesso no mercado político-mediático.
Pacheco Pereira
sabe isto, pois foi claro quando declarou que nunca qualificou Ventura como
fascista. Mas equivocou-se ao considerar que um debate entre os dois serviria
para algo mais do que produzir audiências ao canal anfitrião. Porque podem
muitos bater no peito que nunca assistiriam a tal confronto que a curiosidade
mórbida vence quase sempre essas proclamações. O único “vencedor” do debate
foi, pois, a CNN Portugal.
Ao desafiar
Ventura, Pacheco Pereira cometeu um duplo erro de cálculo: concedeu ao seu
interlocutor um estatuto de equivalência intelectual que, gostemos mais ou
menos do trajecto de JPP, muito poucos reconhecem e achou que seria possível
uma espécie de “duelo de cavalheiros”. Achou que apresentando “regras”, isso
impediria o atropelamento no discurso ou o escorregar para a luta na lama
retórica. Acreditou que apelando à apresentação de “factos” isso teria o mesmo
significado para o seu oponente. Considerou que levando livros e documentação
variada conseguiria “provar” uma verdade, cuja validade a outra parte não
reconhece. A Ventura chega um punhado de fotocópias para fazer o seu número e
exibir indignação. Pacheco Pereira pensou que a racionalidade calma venceria a
emoção encenada. Enganou-se.
Todos cometemos
erros, por arrogância intelectual, por inconsciência das circunstâncias ou má
avaliação das qualidades, próprias e alheias. Pacheco Pereira parece não ter
percebido que nada tinha a ganhar com este debate e Ventura nada a perder. Foi
esse o seu pecado original.
Escreve sem
aplicação do novo Acordo Ortográfico
https://www.blogger.com/blog/post/edit/7624295442706210520/3893848410623296261
Ventura sabe que mentiu?
Pedro Tadeu, Jornalista
17 Abr 2026,
No debate,
segunda-feira na CNN, com Pacheco Pereira, André Ventura disse que os políticos
“do sistema” não admitem os crimes políticos do pós-25 de Abril e citou
conclusões do Relatório da Comissão de Averiguação de
violências sobre presos sujeitos às autoridades militares”, o chamado
“Relatório das Sevícias” – mas ao fazê-lo desmentiu-se a si próprio.
Esse relatório,
publicado em julho de 1976, foi elaborado por indicação do Conselho da
Revolução no rescaldo do 25 de Novembro de 1975. Este facto foi omitido por
Ventura.
O documento foi
um instrumento político dos vitoriosos desse último golpe e muito do que lá se
diz não está devidamente sustentado, nem inclui a defesa das pessoas e
instituições acusadas de serem autoras das ditas sevícias. É parcial e
duvidoso, mas, sem dúvida, também conterá verdades.
O ponto central
para esta discussão não é esse. O ponto é que, ao contrário do argumento de
Ventura, o regime democrático que o 25 de Abril criou em 1974 já discutia
abertamente, a nível oficial e menos de dois anos depois, os abusos que o
próprio regime teria cometido, coisa que durante 48 anos de fascismo português
nunca aconteceu – de resto, o dito relatório está disponível, para toda a
gente, no site da Presidência da República, não está escondido.
Portanto,
quando André Ventura afirma que em 50 anos de democracia a classe política
dominante não admitiu a existência de abusos de Direitos Humanos no pós-25 de
Abril está a mentir e contradiz-se quando apresenta como prova um relatório que
até foi elaborado por alguns atores do dia 25 de Abril de 1974, como, por
exemplo, o jornalista Francisco Sousa Tavares.
Outra
manipulação de André Ventura é a de dizer que nunca Salazar e Caetano assinaram
ordens de prisão, o que só teria acontecido no pós-25 de Abril.
Nem Salazar,
nem Caetano precisavam de escrever ordens de prisões políticas porque as davam
verbalmente. Por exemplo, Silva Pais, que foi diretor da PIDE a partir de 1962,
aparece mencionado 119 vezes nas agendas de audiências individuais de Salazar,
que saiu do poder seis anos depois. Dá quase 20 vezes por ano.
Ventura
queixou-se de que houve três mil presos políticos a seguir ao 25 de Abril e que
30 mil pessoas fugiram do país.
Em 1974,
segundo a Comissão de Extinção da PIDE/DGS, havia 3000 agentes da polícia
política e mais de 20 mil informadores (os chamados “bufos”). Se a isto
somarmos vários militares, polícias, membros da Legião Portuguesa, muitas
outras autoridades como governadores civis, ministros, secretários de Estado,
altos funcionários públicos, quadros das comissões de censura, juízes dos
tribunais plenários e alguns outros milhares de pessoas que participavam
ativamente, mesmo de forma indireta, nas estruturas de repressão política do
regime fascista, teremos de perguntar: “Poderia uma revolução que deita abaixo
um regime repressor manter as pessoas que exerciam essa repressão em
liberdade?”
Na verdade, até
seria de esperar que houvesse mais prisões e mais fugas, mas, apenas 17 meses
depois, tal como André Ventura acabou por dizer, quase todos estavam livres ou
começavam a voltar. E isso demonstra a tolerância do 25 de Abril.
Mais de 30 mil
resistentes e patriotas não tiveram essa sorte durante o fascismo. Álvaro
Cunhal, por exemplo, amargou mais de 11 anos na cadeia e só se libertou porque
fugiu do Forte de Peniche. Esteve 14 anos fora do seu país... até ao 25 de
Abril.
Como é que se
pode comparar uma coisa com a outra?!
sexta-feira, 7 de março de 2025
Carlos Ferro - A LÍNGUA PORTUGUESA DE RASTOS - Preguiça linguística ou um “elefante na sala”?
quarta-feira, 1 de novembro de 2023
Pedro Tadeu - Um pacifista é um energúmeno?
terça-feira, 15 de agosto de 2023
DN - Entrevista a João Soares, por Pedro Cruz
João Soares:
"Sócrates fez uma asneira porque quem foi líder de um partido, não se
demite dele"
Artigo originalmente publicado a 14 de abril de 2023. O DN, durante o mês de agosto, republica algumas entrevistas marcantes e mais lidas desde o verão de 2022..
João Pedro
Henriques e Pedro Cruz
15 Agosto 2023
Filho do
principal fundador do PS, João Soares, ex-deputado, ex-presidente da Câmara de
Lisboa e ex-ministro de Costa, diz que todos os ex-líderes devem ser convidados
para a festa dos 50 anos, inclusivamente Sócrates, apesar da
"asneira" de ter deixado o partido.
Onde é que
estava no dia 19 de abril de 1973? Mário Soares e a mulher Maria Barroso
estavam na Alemanha, na reunião da fundação do Partido Socialista. Maria
Barroso é, aliás, a única mulher presente na fotografia que se tornou icónica e
que marca o nascimento do partido. E os filhos, Isabel e João? João Soares
tinha 23 anos. Hoje, com 73 anos, afastado da política depois de ter sido
deputado, presidente da câmara de Lisboa e (muito esporadicamente) ministro (da
Cultura), João Soares dá nesta entrevista DN/TSF a sua visão do que foi a
fundação do PS.
Onde é que
estava no dia 19 de abril de 1973?
Eu e a minha
irmã estávamos em Paris, curiosamente, mas estávamos evidentemente a par do que
se ia passar na Alemanha. E até recebemos indicações para, no final dos
trabalhos, mandar um telegrama para o Porto, para os irmãos Cal Brandão ou para
o António Macedo, com um texto perfeitamente anódino e pré combinado que
sinalizaria que as coisas tinham corrido bem e que o desfecho tinha sido aquele
que todos eles esperávamos.
Fernanda Câncio - Clericalismo e anticlericalismo, uma introdução
* Fernanda Câncio
15 Agosto 2023
Mais de um
século após a 1ª República e no ano em que finalmente se revelou a diabólica
dimensão dos crimes de abuso na Igreja Católica portuguesa, descobrimos que um
furor clerical tomou conta dos representantes do Estado e das autarquias, e que
ser anticlerical é descrito como ódio e fobia. Há coisas do demónio.
Achava que já
tinha escrito que chegasse a
propósito da Jornada Mundial da Juventude, mas a possessão beata dos
representantes do Estado e autarquias portuguesas não permite mudar de assunto.
Não bastou,
portanto, torrar dezenas de milhões de euros numa semana de propaganda religiosa
de uma igreja, nem vermos o primeiro-ministro a determinar, definitivo e
autocrático, como "absurdas essas polémicas" - as sobre os gastos -
assegurando de seguida que o tal retorno incrível que ia haver de todo esse
investimento é "imaterial" (em lugares no céu?). Não chegou termos a
conversão televisiva do presidente da Câmara de Lisboa em porta-cruzes. Não
chegou termos todos os canais de televisão trasladados em canção da boa-nova ou
lá como se chama aquilo. Não chegou sermos setenta vezes sete vezes
esbofeteados com a certificação de que como "80% do país é católico porque Censos" quem
não for católico ou quem, sendo-o, defenda a laicidade tem mais é de ficar bem
caladinho e perguntar se querem mais um café ou um copo de água ou umas dezenas
de milhões de euros, por obséquio.
Não: tínhamos
ainda de ver uma autarquia - a de Oeiras - mandar retirar, na véspera da chegada do papa, um cartaz
que, custeado por um crowdfunding de 300 cidadãos, lembrava e
honrava, à guisa do memorial prometido que não aconteceu, as 4800 vítimas
estimadas de abuso sexual na Igreja Católica portuguesa desde 1950. Tínhamos de
ver uma autarquia - a de Loures - "convidar
para a missa" os seus munícipes, como se uma missa, católica ou de
outro culto qualquer, fosse uma espécie de concerto do Tony Carreira ou dos
Xutos oferecido pelo município para alegrar os cidadãos. Tínhamos de ver um
autarca - Moedas, de novo - a anunciar que decidira nomear um equipamento
público, a ponte sobre o rio Trancão, "Cardeal Dom Manuel Clemente", calcando as regras
municipais para a toponímia que implicam não apenas votação camarária e
apreciação pela comissão criada para esse efeito como, por regra, só atribuir o
nome de quem tenha morrido há pelo menos cinco anos (isto para não falar
da genuflexão daquele "Dom"). E tínhamos ainda de ver a
conta Twitter oficial da Câmara de Lisboa a "ocultar" (censurar,
portanto) respostas a esse anúncio que se limitavam a reproduzir o cartaz com o
número de vítimas de abuso, chegando até a bloquear quem assim respondia. Uma
conta oficial de uma autarquia a tratar como difamação, insulto ou calúnia os
números da comissão nomeada pela própria Igreja Católica.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2023
Pedro Tadeu - Quais foram os agentes provocadores da revolta no Brasil?
11 Janeiro 2023 —
Tratar os milhares de pessoas que
invadiram e vandalizaram o complexo de edifícios dos Três Poderes em Brasília
como "terroristas", como vi um grande número de comentadores fazerem,
parece-me trair a suposta racionalidade democrática que esse epíteto pretende
demonstrar - não distinguir massas populares manipuladas dos agentes
provocadores dessa manipulação, que levam tantas pessoas a agirem como turba
destruidora, parece-me mesmo um exercício antidemocrático.
Aquilo que estou a designar por
"agentes provocadores" desta sublevação, desta recusa em aceitar um
resultado eleitoral livre e justo, abrange um espetro largo de pessoas, ideias
e instituições e existem, com nuances, tanto no Brasil, como nos Estados
Unidos, como em Portugal. Estão mesmo por todo o lado.
Há "agentes
provocadores" de primeira linha nesta ação no Brasil: os políticos
bolsonaristas mais radicais que ajudaram à sua organização, os empresários que
a financiaram ou os polícias e militares que deliberadamente a permitiram.
Há "agentes
provocadores" de segunda linha, bastante mais difíceis de dissipar: o
estado de espírito que gera esta mobilização para a pancadaria advém da
capacidade de convencer estas pessoas de estarem a viver numa sociedade em que
são enganadas pelo governo, onde as eleições são fraudulentas, onde os
políticos do regime democrático são quase todos corruptos, onde há uma suposta
campanha moral contra a família tradicional, onde se sugere que quem é patriota
é perseguido, onde se apregoa que o "verdadeiro cristianismo" é
acossado, onde se acusa o Sistema Educativo de "corromper" as mentes
dos alunos, onde se convence que os subsídios para os pobres desempregados vêm
de dinheiro "roubado" aos que trabalham, onde se assegura que quem
tem mérito é prejudicado, onde se propagandeia que a liberdade está limitada.
Esta segunda linha de
"agentes provocadores" da sublevação é alimentada por igrejas
pentecostais, por propagandistas das redes sociais, por extremistas
organizados, por fanáticos fascistas, por militares saudosistas da ditadura
brasileira, por empresários gananciosos e por justiceiros iluminados.
E há, também, uma terceira linha
de "agentes provocadores" para esta violência que é culturalmente
secular e que as democracias, erradamente, não combatem e, até, promovem: a
crença de que o êxito das sociedades depende de um líder esclarecido, de um
privilegiado que tudo resolve, e não de um esforço coletivo e participado de toda
gente; a convicção de que o direito à liberdade permite o abuso sobre o outro e
a formação de "tribos" identitárias de combate supremacista sobre
outras "tribos"; a aceitação da submissão geral a um poder superior,
seja ele divino, politico ou económico, como sendo essa "a ordem natural
das coisas".
A esta loucura toda associam-se,
no entanto, gravosas contribuições geradas dentro do próprio regime
democrático, uma quarta linha de "agentes provocadores": de facto, a
corrupção existe; de facto as desigualdades sociais agravam-se; de facto a
política é suja; de facto há uns que comem tudo e outros que não comem nada; de
facto elegem-se cada vez mais indivíduos do que propostas políticas; de facto a
sociedade globalizada tenta eliminar o patriotismo da equação socioeconómica,
reduzindo-o ao estatuto de amor de uma equipa de futebol (ver estes agressores
vestidos com a camisola amarela da seleção brasileira diz tudo...); de facto o
Sistema Educativo não equipou as populações para resistirem por si mesmas à manipulação
ideológica; de facto a única resposta contra a polarização do debate público
tem sido uma sucessiva tentativa de o censurar e não de resolver os problemas
que ele revela; de facto, a intolerância insuportável contra as minorias
sexuais e étnicas gerou uma serie de soluções discriminatórias positivas que
põem pobre contra pobre, em vez de unir todos os pobres contra quem os explora;
de facto é a divisão violenta entre os mais desfavorecidos que serve os
interesses de quem manipula estas pessoas para vir a dominar, em regime
absoluto, a riqueza geral criada pelo povo.
A democracia, enquanto funcionar
assim, terá sempre opositores violentos.
https://www.dn.pt/opiniao/quais-foram-os-agentes-provocadores-da-revolta-no-brasil-15635684.html
Fernanda Câncio - Bem-vindos à fakedemocracia
Primeiro nos EUA e depois no Brasil, o assalto aos símbolos do poder democrático por quem recusa, em nome do "povo", o resultado de escrutínios eleitorais coloca-nos perante a evidência de que democracia, justiça e bem são noções que variam de acordo com quem ganha ou perde - como no futebol.
Fernanda Câncio
10 Janeiro 2023
Neste domingo em Brasília, como a 6 de janeiro de 2021 no
assalto ao Capitólio, pudemos ver em direto, ou quase em direto, as imagens dos
assaltantes por si próprios, filmando tudo e filmando-se, através da partilha
orgulhosa nas redes sociais - como quem não coloca sequer a hipótese de estar a
cometer um crime e portanto a oferecer às autoridades as provas e identificação
necessárias para os encontrarem e processarem.
Podemos, é claro, explicar isso com a excitação, aliada à
falta de inteligência - ou ingenuidade, se quisermos ser caridosos. Mas sendo
do conhecimento geral que muitos dos assaltantes do Capitólio foram
identificados e acusados com base nas imagens partilhadas pelos próprios ou por
companheiros de assalto, talvez seja avisado pensar noutras explicações.
Além de todos os motivos tontos, que também existem, como o
da compulsão da selfie, aquelas pessoas querem mostrar-se naquele assalto
porque consideram estar a fazer algo heroico, pelo bem, e ter com elas, por
elas, muita gente, que pensam poder "levantar", contagiar, ganhar,
com a partilha. Não é só o assalto que é uma ação política - a partilha faz
parte da ação, como modo ostensivo de demonstrar que não só quem protagoniza
não aceita a ideia de estar a cometer um crime como despreza quem assim o possa
considerar. Porque, e o sequestro das cores do país e da sua bandeira como
símbolos do movimento significam isso, para quem ali está, aquele é "o
verdadeiro Brasil", o verdadeiro "povo".
Justamente, na entrada de um dos edifícios, ouve-se um dos assaltantes
dizer: "Já está tomado, estamos na casa do povo." Se
a casa é do povo, e se aquele é o povo, não há crime, pelo contrário; trata-se
de retomar legitimamente o que foi roubado, segundo o princípio básico da
democracia - um governo do povo, para o povo e pelo povo.
E nesse sentido não há nada mais simbólico que as filmagens
da entrada no Supremo Tribunal e da sua destruição, como o empunhar ante a
multidão, por um dos assaltantes, daquilo que sabemos agora ser uma cópia da
Constituição de 1988 (a filmagem começou por ser partilhada referindo que se
tratava do original).
Que vemos ali? Uma deslegitimação do regime através
da dessacralização da sua lei fundamental e do tribunal que tem por função
interpretá-la e aferir por ela quaisquer leis e práticas, ou uma pretensa
recuperação, pelo "povo" que os assaltantes creem representar, dos
princípios constitucionais que proclamam dar-lhes razão (um dos
artigos da Constituição tem sido sistematicamente invocado pelos bolsonaristas
como fundamento para um golpe militar)?
Na verdade, para aquelas pessoas, como para os assaltantes
do Capitólio, a convicção de que estão perante um roubo não tem sequer de se
fundar na ideia, alegada quer por Trump e trumpistas quer por Bolsonaro e
bolsonaristas, de que houve uma fraude eleitoral. Há uma espécie de conclusão
tautológica: se não foi ao seu lado, ao seu candidato, que foi
reconhecida a vitória, então a eleição não foi justa. Como para os fanáticos
futeboleiros, qualquer derrota só pode explicar-se por "roubo",
qualquer resultado que não o desejado só pode ser ilegítimo.
Assim, as mesmas regras e instituições que serviram para dar
a vitória a Trump e Bolsonaro deixam de ser credíveis quando são
derrotados. A democracia só é democracia se ganharem; as leis e os
tribunais só são para respeitar se prenderem Lula; quando o soltam passam a não
valer nada.
Os mesmos que exigiam "lei e ordem" e uma
"intervenção militar" para "repor a legalidade" podem então
escavacar edifícios públicos, roubar artefactos valiosos, esfaquear quadros,
defecar nos gabinetes, espancar polícias (os polícias que os enfrentaram;
também os houve) e os seus cavalos, num festim de ódio e absurdo.
Queremos acreditar que este espectáculo indecente terá o
efeito contrário do pretendido; que nos muitos milhões que votaram em Trump e
Bolsonaro - lembremos que perderam por muito pouco - há uma maioria que não se
revê nos assaltos de janeiro de 2021 e 2023. Que acontecimentos como estes
contribuem para enfraquecer a respetiva base de apoio, alienando muita gente, e
são por isso erros políticos - e Lula, depois de uma primeira reação
destemperada no domingo, soube esta segunda-feira corrigir o tom e o discurso
de modo a ir ao encontro de quem, não tendo votado nele, se queira demarcar do
ocorrido.
Aliás, de tal modo o que aconteceu pode revelar-se danoso
para o bolsonarismo que há quem esteja já a pôr a hipótese de que a aparatosa
ausência de reação policial em Brasília foi fruto de um maquiavelismo - o de
permitir que os vândalos agissem à vontade, de modo a que Bolsonaro e o seu
movimento caíssem em desgraça, perdendo apoio nacional e internacional.
É verdade que internacionalmente Bolsonaro viu até líderes
de extrema-direita como a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni
demarcarem-se de modo inequívoco do sucedido (quiçá vêm daí as fortes dores de
barriga que, dizem-nos, o acometeram na Florida), e que o próprio, isolado,
amedrontado e sonso, acabou por fazer o mesmo. Mas aquilo a que assistimos nos
EUA e agora no Brasil (e mais ainda porque se repetiu no Brasil depois de
acontecer nos EUA, em óbvia remake do filme americano) não é
apenas um sinal daquilo que já sabemos - que no seio das democracias estão a
crescer exponencialmente movimentos cujo intuito, consciente ou inconsciente, é
derrubá-las, chegando ao paradoxo de exigir, como o fazem os
bolsonaristas, a implantação de ditaduras militares como "salvação"
do país e do próprio regime democrático.
Estes acontecimentos medonhos demonstram que a ideia de
democracia se transformou, para muita gente, num conceito plástico, vazio, que
não corresponde a qualquer conjunto de princípios. Uma espécie de fakedemocracia,
ou democracia alternativa - como as fake news e os factos
alternativos, é o que der jeito no momento.
https://www.dn.pt/opiniao/bem-vindos-a-fakedemocracia-15629461.html



