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domingo, 14 de setembro de 2025

José Goulão - GENOCÍDIO NA TERRA SANTA


 
* José Goulão

A editora Página a Página colocou à venda o meu mais recente livro, "Genocídio na Terra Santa", um testemunho pessoal, no terreno e assente em profunda investigação, de mais de 40 anos de reportagens no Médio Oriente.

Este é o livro de uma vida de jornalista e de cidadão, grande parte dela dedicada ao acompanhamento daquilo a que chamam "o conflito israelo-palestiniano" e mais não é do que o extermínio do povo palestiniano para que se cumpra a doutrina exotérica, fundamentalista e terrorista do sionismo. O livro é uma longa viagem por guerras, levantamentos, negociações (quase sempre falsas), massacres, colonização terrorista e pelo roteiro de um "muro de separação" que materializa o carácter racista e segregacionista do regime sionista de Israel.

Ao longo de 400 e algumas páginas percebe-se que os terríveis acontecimentos de hoje eram inevitáveis para que se cumpra o objectivo de extermínio e limpeza étnica almejado pelo sionismo, estratégia adoptada pelo Ocidente ao admitir que o regime de Israel é o representante da "nossa civilização" na região "bárbara" do Médio Oriente. O sionismo é parte da "ordem internacional baseada em regras" ocidental, que repudia o Direito Internacional e torna os governos da NATO e da União Europeia, incluindo todos os executivos portugueses depois da institucionalização da "democracia liberal" desde o golpe de 25 de Novembro de 1975, cúmplices das práticas e objectivos de Israel. Nas condições actuais, e permitindo a Israel fazer tudo o que quer, na mais completa impunidade, falar na instauração de "dois Estados" é uma hipocrisia cruel.

Através do livro deixo claro que o regime de Israel representa uma minoria dos crentes judeus do mundo, porque a grande maioria, por certo, não acompanha as atrocidades do sionismo e do regime político que o aplica. E fica também demonstrado que não há qualquer antissemitismo nas críticas a Israel e ao sionismo, uma vez que a maioria dos habitantes de Israel e dos crentes judeus em todo o mudo não têm qualquer vínculo étnico à Palestina. Essa ligação é apenas religiosa, tal como acontece com os cristãos e os muçulmanos. Falar em "povo judeu" é equivalente a falar em "povo cristão" ou "povo muçulmano" Na verdade, os chefes do regime de Israel não têm origem semita e estão em plena acção de extermínio de um povo semita, os palestinianos. O regime de Israel e a corrente oficial do sionismo são antissemitas.

No livro creio ficar plenamente demonstrado que o objectivo final sionista não é a coexistência com os palestinianos mas sim a substituição do povo da Palestina por vagas de imigrantes oriundas de muitas regiões sob a invocação de que a terra lhes foi "prometida por Deus há 5000 anos. E o mundo continua a aceitar que esta ficção primária e colonial seja uma "lei". Não é por acaso que existe a "indestrutível aliança" entre o sionismo e o imperialismo norte-americano. Israel replica, afinal, a própria origem dos Estados Unidos, assente no extermínio da população autóctone e respectiva substituição por imigrantes.

"Genocídio na Terra Santa está disponível em

https://www.paginaapagina.pt/catalogo.html?store-page=Genoc%25C3%25ADdio-na-Terra-Santa-Testemunho-de-mais-de-40-anos-de-reportagens-no-M%25C3%25A9dio-Oriente-p781290581& 

e muito em breve nas plataformas livreiras digitais e nas livrarias físicas.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Bruno Carvalho: «Há situações em que não podemos ser meros espectadores»



 * João Manso Pinheiro    

 08.May.24    

Em A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, publicado pela Caminho, o jornalista Bruno Carvalho furou a redoma que o Ocidente colocou sobre toda esta região. O livro é tanto sobre o autor como sobre estes outros apagados: tradutores, colegas de profissão, condutores e, acima de tudo, os que vivem e lutam pelo Donbass.

Em menos de um mês, A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, do jornalista Bruno Amaral de Carvalho, já está a preparar a terceira edição. O AbrilAbril conversou com o autor sobre a sua experiência numa guerra fora dos holofotes.

A um mundo de distância (e, para nós, o Donbass está mesmo num outro mundo), torna-se difícil acreditar que no meio daquela massa anónima existam mesmo pessoas. Que por ali andem criaturas dotadas com as suas próprias vontades, gostos, idiossincrasias engraçadas (para os outros). Que sejam, no fundo, como nós.

No Donbass estão os outros. Não lhes sabemos os nomes, não lhes é conhecida opinião ou vontade. Limitam-se a ser. Uns tantos mil que sobrevivem numa pequena cidade devastada por prolongadas batalhas, outros tantas centenas a combater em batalhões separatistas. Uma, duas, três, dez crianças que morrem na leva diária de bombardeamentos contra populações que vivem em terras com nomes que tão dificilmente sabemos pronunciar.

Este apagamento, de entre os vários motivos que levaram as redacções ocidentais a recusar-se a cobrir o que se passava no Donbass durante «o maior acontecimento geopolítico do pós-guerra fria», será talvez o mais flagrantemente antideontológico. Sem jornalismo e com a censura de órgãos de comunicação social «do outro lado», aquela gente é reduzida a coisa nenhuma. Não existem. Sem semblante de humanidade, é fácil odiarmos os nossos “inimigos” (ou pior: “os maus”).
Longe da vista, longe do coração.

Em A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, publicado pela Caminho, o jornalista Bruno Carvalho furou a redoma que o Ocidente colocou sobre toda esta região. O livro é tanto sobre o autor como sobre estes outros apagados: tradutores, colegas de profissão, condutores e, acima de tudo, os que vivem e lutam pelo Donbass.

Conhecemo-los agora pelo nome: Luís Castañeda, colombiano, que veio estudar para Donetsk nos anos 80 e nunca mais voltou. Ekaterina, de Odessa, que em 2014 presenciou o massacre na casa sindical da cidade. Alexander, de 59 anos, antigo mineiro que sabe, hoje, distinguir artilharia pelo som. A família de Dima, que com a mulher e os quatro filhos viveu mais de um mês numa cave em Mariupol ou o soldado benfiquista que, em terras lusas, trabalhou na construção civil e hoje vigia estradas.

O Donbass está condenado a ser um «lugar errado»?


O que define um «lugar errado» não é a sua geografia. É o seu enquadramento político no contexto mundial. Há não muito tempo, o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, dizia que a Europa é um jardim e, em contraposição, o resto do mundo uma selva. Imediatamente, veio-me à memória as imagens de seres humanos, africanos, expostos numa feira belga em 1958 como se fossem animais num jardim zoológico.

A herança colonial europeia está viva nas relações do Ocidente com os países do chamado Sul Global e não espanta que haja uma aproximação cada vez maior desses Estados com potências como a China, a Rússia, o Irão ou o Brasil. Quando alguém não nos trata como iguais, procuramos quem nos trate com dignidade e respeito. Nesse sentido, a imprensa hegemónica, alinhada com o poder, define quais são os lugares e quem são os líderes errados. Os talibans já foram os bons e agora são os maus. O Donbass continuará a ser um lugar «errado» enquanto não estiver debaixo do controlo de Kiev ou de qualquer outro aliado dos Estados Unidos e da União Europeia.

N’A Guerra a Leste, vários cidadãos das repúblicas de Donetsk e Lugansk (assim como a refugiados de diversas partes da Ucrânia) assumem uma posição separatista e, noutros casos, favorável à intervenção russa. É uma oportunidade de ver uma perspectiva praticamente inédita no panorama mediático europeu. Também havia, no Donbass, quem defendesse o outro lado? Seja a posição ucraniana ou simplesmente contra a adesão à Federação Russa?

Evidentemente, há gente que defende a manutenção do Donbass na Ucrânia ou a independência dessas repúblicas. Contudo, parecem-me opções minoritárias. Há também quem recorde com nostalgia a União Soviética. Antes da guerra, talvez houvesse espaço para um modelo confederal como tem a Suíça ou para um modelo de regiões com uma autonomia alargada. Os Acordos de Minsk previam essa possibilidade e eu acrescentava que podia ter sido adoptada uma solução como aquela encontrada no âmbito do Acordo de Dayton que criou duas entidades territoriais dentro da Bósnia, uma para a comunidade bósnia e outra para a comunidade sérvia.

Julgo que as opções eram muitas se houvesse vontade política dos actores em confronto, mas queria sublinhar a importância de se ouvir o que as populações têm a dizer. Não há nada mais democrático do que resolver este conflito auscultando-as e tomando decisões que respeitem essas escolhas.

O que aconteceu aos comunistas desta região? Apontas como, na última vez em que participaram em eleições (2013, foram banidos a seguir a 2014), tiveram cerca de 30% dos votos em algumas zonas do Donbass

Os comunistas eram uma força imprescindível desde o fim da União Soviética no Leste da Ucrânia. Sobretudo porque transportavam consigo essa herança histórica. Com a sublevação das regiões do Donbass em 2014, os comunistas foram importantes no processo de criação das autoproclamadas repúblicas.

Contudo, o contexto de guerra e a influência de Moscovo favoreceram a existência de governos quase de unidade nacional com um papel diminuído das forças comunistas. Mantêm a sua intervenção política num ambiente muito complexo, onde a maioria dos homens se encontra a combater. Lembro-me de estar em Donetsk no 1.º de Maio de 2022 e de haver uma manifestação, organizada pelo Partido Comunista, composta por mulheres e homens sem idade para participarem na guerra. Nas últimas eleições presidenciais, como aconteceu em praticamente toda a Rússia, os candidatos apoiados por Vladimir Putin arrasaram, incluindo no Donbass. Há muitas explicações para este facto. Uma delas é que ninguém quer mudar de presidente a meio de uma guerra e a outra é que há de facto muita gente que defende a intervenção russa no Donbass.

O apoio à intervenção da Rússia pode ser entendida como um apoio ao regime de Putin ou é um caso de interesses confluentes? Os separatistas garantem a independência e os grandes poderes económicos russos ganham acesso àquela que era a região mais industrializada da Ucrânia

Recordemos que os comunistas russos já tiveram diversos choques com as autoridades russas. Para além das questões económicas, houve militantes comunistas detidos em manifestações. A forma de regime também é questionada no sentido em que os comunistas russos, aos quais se juntaram os comunistas de Donetsk e Lugansk, defendem um regresso ao modelo soviético.

Há, certamente, contradições entre as forças que apoiam a intervenção militar e diferentes visões sobre como o conflito deve ser resolvido. Independentemente de estarmos de acordo ou não, a questão central apresentada pelos comunistas russos é a da necessidade de derrota do fascismo na Ucrânia e, naturalmente, a ilegalização dos comunistas ucranianos, e agora de praticamente toda a oposição, tem peso nessa análise.

Dos comunistas do Donbass com quem contactaste, qual era a posição deles em relação à Rússia de Putin (abstraindo-nos, um pouco, sobre toda a questão da invasão militar)

Vladimir Putin defende uma economia de mercado com alguma intervenção do Estado. Os comunistas defendem uma economia planificada. Há também visões distintas sobre como se deve organizar a sociedade.

Contudo, recordo que o presidente russo habilmente soube recuperar e valorizar a memória do passado soviético, sobretudo na preservação dos símbolos e dos monumentos, abdicando de confrontar uma história que é querida para uma parte substancial da população. Depois do desastre dos anos 90, com uma economia em colapso e com um presidente que abdicou da sua soberania, os russos parecem apostar na estabilidade económica e na preservação das suas fronteiras.

Dizes, a certo ponto, que não pertences a lado nenhum. É um contraste grande com a realidade no Donbass, onde tanto a população como alguns dos combatentes internacionais estão imersos numa luta de morte pelo direito a pertencer ao seu lugar

Mesmo que permaneça essa sensação de não pertencer a lado nenhum e ao mesmo tempo ser de todo o lado, ter um lugar donde se é também é um direito. Respeito muito a luta dos povos pela sua independência e autodeterminação e muitos desses combatentes estrangeiros acabaram por encontrar naquela luta e naquela terra o seu espaço. Foram recebidos de braços abertos por quem combatia e acabaram por obter a nacionalidade por parte das autoridades separatistas. Faz lembrar o título do enorme livro do jornalista Joseph North, Nenhum Homem é Estrangeiro [No Men Are Strangers, de 1958]

A luta que se trava no Donbass está muito longe de ser meramente uma disputa de territórios. Como mencionas n’A Guerra a Leste, há um confronto grande em termos de toponímia: Bakhmut mudou de nome para Artyomovsk em 1924, homenageando o revolucionário bolchevique Fyodor Sergeyev (Artyom). Voltou a mudar com a leis de descomunização de Poroshenko, em 2016. A recente conquista da cidade ditou a recuperação do nome soviético: Artyomovsk. No terreno, o confronto é muito ideológico?

Eu não diria que isso é sempre visível mas está presente. As tropas russas classificam o inimigo de fascista e essa é uma escolha que revela uma opção ideológica. Uma das consignas mais comuns no Donbass, mesmo que praticamente todos só saibam falar apenas russo, é «no pasarán», repetindo aquilo que aprenderam dos combatentes estrangeiros inspirados na guerra civil de Espanha.

Há bandeiras imperiais russas, bandeiras nacionalistas, bandeiras soviéticas, bandeiras religiosas. Do outro lado, nas minhas visitas às posições conquistadas às forças ucranianas encontrei simbologia neonazi em bandeiras, em murais, em autocolantes, também propaganda nacionalista. Há batalhões neonazis a combater pela Ucrânia que envergam todo o tipo de parafernália fascista. Aqui incluo estrangeiros, incluindo portugueses. Mas há ainda, sobretudo nas zonas mais mineiras e industriais, o culto do trabalho e do operariado, herança soviética.

Foi morto (poucos dias antes desta entrevista), o norte-americano «Texas», de Austin, nos EUA (que se juntou, após 2014, ao lado separatista) alegadamente por militares russos. Referes os encontros que tiveste com ele nesses oito meses. No final do livro destacas ainda a morte, em combate, do colombiano Alexis Castillo. O que estas pessoas procuraram no Donbass?

Tanto um como outro decidiram partir para o Donbass para combater o fascismo. As ondas do impacto do massacre de Odessa, na Casa dos Sindicatos, onde meia centena de manifestantes anti-Maidan morreu queimada, baleada e espancada, chegaram a todo o mundo.

O Alexis juntou-se às milícias separatistas inspirado pelas Brigadas Internacionais compostas por antifascistas de todo o mundo que combateram o franquismo nas trincheiras de Espanha em 1936. Foi contra a vontade do Partido Comunista dos Povos de Espanha, no qual militava na época. Aderiu posteriormente ao Partido Comunista de Donetsk.


O «Texas» tinha uma trajectória diferente. Talvez procurasse também a redenção pessoal. Esteve preso por posse de drogas, tinha servido no exército norte-americano. Depois contou-me que tinha encontrado o seu lugar. Era uma personagem muito peculiar. Houve outros tantos que caíram em combate. E na minha última viagem conheci um combatente brasileiro, que ascendeu a capitão do exército russo, de alcunha «MacGyver».

«Num jardim, em frente a uma escola, há várias sepulturas improvisadas. Numa das covas abertas, a espera de um cadáver, há uma placa: este lugar já está reservado». Há uma geração inteira de jovens e crianças que só conheceram a guerra, que dura já há 10 anos. Reparaste nalgum impacto desta realidade na juventude?

Quem tem agora 20 anos, tinha 10 quando a guerra começou. E se tem 20 anos, a não ser que esteja a estudar, está a combater na linha da frente. É uma absoluta falta de perspectiva de vida.

Conheço muitos que optaram por partir para a Rússia e começar a vida num lugar onde há alguma esperança. As aulas são à distância há cerca de dois anos, os órfãos foram transferidos para territórios seguros dentro da Rússia, as brincadeiras na rua são sempre limitadas.

Vi corpos de crianças em pedaços, famílias desfeitas. Da última vez, um só bombardeamento ucraniano atingiu uma casa no bairro de Petrovsky onde morreram três irmãos pequenos. A mãe já tinha perdido o marido na guerra e agora perdeu todos os filhos numa única noite. Ficou sem casa. É este o grau de barbárie.

Acompanhaste, primeiro, a destruição e, meses depois, o início do processo de reconstrução de Mariupol. Na tua primeira visita, quando chegaste perto de Azovstal, presenciaste o enterro de civis nos canteiros da cidade. Foi a tua experiência mais violenta nos oito meses no Donbass?

Foi a experiência mais intensa porque foram dias seguidos de combates comigo nas ruas a absorver tudo o que via. Nunca tinha estado num cenário deste tipo. Havia mortos enterrados em qualquer lado mas também havia mortos nas ruas, nas praias, dentro de edifícios. Depois acompanhei a trasladação de muitos desses cadáveres para cemitérios nos arredores. Mas diria que um dos dias mais duros foi em Donetsk quando um bombardeamento das forças ucranianas provocou a morte de mais de uma dezena de civis numa praça movimentada da cidade.

Ainda em Mariupol, relatas o momento em que mandaste uma mensagem a uma familiar de uma senhora na cidade, avisando-a de que a mesma estava viva. Estamos um pouco habituados, no Ocidente, a pensar nos jornalistas como fotógrafos da National Geographic, que não devem intervir com os sujeitos que observam.


«As minhas reportagens televisivas podiam não ser fartas em qualidade estética mas a vontade e o empenho em fazer o melhor jornalismo possível estavam lá.»

Naturalmente, a guerra não pode ser um jardim zoológico. Há situações em que não podemos ser meros espectadores. E esta era uma delas. Fiz bem mais do que isso. Com outro camarada jornalista, salvámos a perna de uma mulher vítima de uma mina anti-terrestre colocada pelas forças ucranianas fazendo-lhe um garrote. Trata-se do mais elementar dever de ajudar o próximo em situações de desastre. Com isso não estava a tomar partido de ninguém ou a ajudar alguma das forças militares. Estava tão somente a ajudar civis.

«Éramos um pouco piratas». A certa altura, acabas por imprimir uns papeis a dizer PRESS e colas no material em segunda-mão que encontras. Este jornalismo improvisado, sem meios e agarrando as oportunidades à medida que vão surgindo (como fazes várias vezes ao longo dos teus oito meses de trabalho) consegue ir mais longe do que o jornalismo tradicional, que estaciona os repórteres em hotéis longe da frente?

Trata-se mais de vontade do que de capacidade. De facto, um jornalista de uma grande estação televisiva de um país como os Estados Unidos pode viajar num carro blindado com seguranças privados e toda uma equipa que o assessora na produção das reportagens. Mas, ainda assim, não havia nenhum daquele lado.

Com os nossos parcos recursos, apesar de haver naturalmente dinheiro envolvido porque não é barato arranjar um condutor, e é justo que assim seja porque aquela gente está a arriscar-se como nós, procurávamos estar onde estavam os acontecimentos. Éramos muito atrevidos, digamos assim. As minhas reportagens televisivas podiam não ser fartas em qualidade estética mas a vontade e o empenho em fazer o melhor jornalismo possível estavam lá.

Foi essa qualidade do Donbass, de lugar pária, que atraiu este «jornalista outsider»? Habituado a estar no outro lado, nos bairros de Caracas, em áreas controladas pelas FARC, juntos dos independentistas bascos e agora nas regiões separatistas da Ucrânia

Sem dúvida. Eu gosto de dar voz a quem não tem voz.

Oito meses no Donbass depois, ainda acreditas que «o Jornalismo deve servir para fazer do mundo um lugar melhor»?

Independentemente do estado actual do jornalismo, continuo a acreditar que deve servir para fazer do mundo um lugar melhor. Para morder os pés dos poderosos e denunciar injustiças. Para dar aos cidadãos toda a informação que precisam para construir as suas opiniões e posições em absoluta liberdade.

Fonte: https://www.odiario.info/bruno-carvalho-ha-situacoes-em-que/

https://www.abrilabril.pt/cultura/bruno-carvalho-ha-situacoes-em-que-nao-podemos-ser-meros-espectadores

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Francesca Borri - A guerra de palavras entre colonos e israelitas no sul da Cisjordânia

 GUERRA ISRAEL-HAMAS

A guerra de palavras entre colonos e israelitas no sul da Cisjordânia: “De que lado estás tu?” “Sei de que lado é que não estou”

 

Muro erguido por Israel em Bethlehem, no território ocupado da Cisjordânia

CLODAGH KILCOYNE/REUTERS

Desde 7 de outubro, agravam-se os confrontos entre colonos e palestinianos - e também entre israelitas - na Cisjordânia, a parte do território ocupado que a guerra na Faixa de Gaza faz esquecer. Tomar partido é tudo menos fácil

Francesca Borri, na Cisjordânia

“Asinagoga contra a qual atiraram cocktails Molotov era a minha sinagoga. Eu vivi lá. As paredes onde pintaram estrelas de David, atingidas por pedras e garrafas, eram as paredes dos cafés, das ruas que eu frequentava. Acima de tudo, senti solidão. Nunca me perguntaram como estava. Se conhecia algum dos mortos, ou dos reféns. Ninguém. E se eu falasse do 7 de outubro, respondiam-me logo com Gaza. Como se o ataque do Hamas fosse não só uma reação à ocupação, como a reação certa. De repente, percebi que Berlim já não era a minha casa. Na verdade, nunca foi.” Há cinco anos, Ayala Odenheimer, de 31 anos, mudou-se para a Alemanha, país de origem da sua família. Após o aumento do antissemitismo a seguir ao ataque de 7 de outubro, decidiu regressar a Israel.

Não voltou a Jerusalém, sua cidade-natal. Foi diretamente para Masafer Yatta, a sul de Hebron, uma das zonas mais concorridas da Cisjordânia. Aqui os colonos são dos mais extremistas, e sempre houve confrontos, até hoje. Só que agora é diferente. Cada vez mais israelitas chegam de todo o país para proteger os palestinianos. Fazem turnos. Não são ativistas nem têm uma organização atrás deles. É tudo passa-palavra. Vai um, vem outro.

Masafer Yatta é um daqueles pedaços de mundo onde a vida parece um relatório da Amnistia Internacional. Em árabe, significa “nada”. Não é mais do que um encadeado de montes de terra e areia, polvilhada de sarças e cabanas de pastores, esparsas e isoladas. Não há melhor presa para os colonos.

Em 1983, Masafer Yatta tornou-se a Zona de Tiro 918, sob os militares. Hoje, pende sobre cada casa e cada um dos seus cerca de mil habitantes uma ordem de demolição. A partir de 7 de outubro, tudo se tornou mais difícil. Os colonos disparam à vista.

SE FALHA A SEGURANÇA, FALHA TUDO

“É tudo muito complicado. Sempre me opus à ocupação e nunca imaginei, um dia, estar grata ao exército, mas o certo é que em Gaza as Forças de Defesa de Israel [IDF] também arriscam o pescoço por mim. É que somos todos alvos, independentemente das nossas opiniões”, afirma Sharon Kasper, de 23 anos, rastas e capuz. “É um pouco como regressar a 1948, à casa de partida. Totalmente vulneráveis. Israel nasceu para evitar novo Holocausto. Para um judeu, a essência do Estado é a segurança. Se ela falha, falha tudo. O 7 de outubro minou a própria ideia de Israel.”

“Sei que é contraditório, mas a verdade nunca é a preto e branco”, prossegue Kasper. “A verdade é que temos de vencer nas duas frentes. Se não estivesse aqui, ia para Gaza.”

O objetivo não é só defender os palestinianos. Antes de mais, é confrontar os colonos com israelitas como eles, em vez dos muitos ativistas estrangeiros que regularmente passam por Masafer Yatta: falar com eles, e em hebraico.

“A questão dos colonatos vai definir o nosso futuro, mais do que qualquer outra. No fundo, isto é connosco”, afirma Yigal Bronner, de 54 anos, professor de sânscrito na Universidade Hebraica. “O mundo vai aplaudindo das bancadas, torce por um lado ou pelo outro e dispõe-se a justificar tudo, mais fundamentalista do que o maior dos fundamentalistas. E isso só faz mal. Aqui, ninguém apoia Netanyahu, mas ninguém está contra Israel. Pelo contrário, estamos contra Netanyahu precisamente por apoiarmos Israel.”

As IDF arrastam um francês algemado. E tudo por causa de uma publicação no Facebook, denuncia um espanhol que viu tudo. Chama-lhes “fascistas”. O francês não escreveu nada de especial, mas uma análise mais demorada mostra que ao escrever “colonos” está a referir-se a todos os israelitas e não apenas aos que moram nos colonatos. E no dia 7 de outubro elogiou e vitoriou o Hamas.

Estão dias gelados e nevoeirentos. Chove e a água entra pelas casas. Susiya é um de 13 bairros que sobram, mas os seus prédios, várias vezes demolidos e reconstruídos, já não são propriamente casas. Placas de betão e metal, montadas com contraplacado, poliestireno e juta, a partir de restos de habitações, sem eletricidade sequer. Dorme-se no chão, ao lado de um braseiro que é um barril cortado ao meio, enferrujado e cheio de lixo em vez de lenha.

Os colonos estão por toda a parte e fogem ao controlo. Atacam cada cabana, uma a uma, vezes sem conta. Os israelitas nunca deixam os palestinianos em paz. Passam o tempo sob luz ténue, falando uns com os outros em hebraico e árabe. A maior barreira não é a política nem a religião, antes a língua.

PARA OS COLONOS, TUDO

“Antes dos acordos de Oslo, era normal vir à Cisjordânia ou ir à praia em Gaza. Hoje é proibido. Há o muro”, afirma Hagai Livne, estudante de matemática de 23 anos. “Muitos israelitas também gostariam de ver Ramallah, tal como os palestinianos queriam ir a Telavive.”

“Sei que não basta vir aqui. Não me sinto absolvido. Já a guerra estava em curso quando foram atribuídos 43 milhões de dólares [39 milhões de euros] aos colonatos. O Estado gasta três vezes mais com um colono do que com qualquer outro cidadão, e com os meus impostos. Por vezes digo-me que trabalho cinco dias por semana para os colonos, e dois contra eles. E compreendo quem diz que quem é israelita é cúmplice”, explica Ze’ev Matar, arquiteto de 56 anos. “Nos Estados Unidos ou na Europa, apoia-se sempre a ocupação. É um conflito que nos implica a todos, cada um desempenha um papel.”

“Não é mesmo possível classificar ninguém, de ambos os lados”, defende Ariel Cohen. “Daí que isto seja tão complexo. Ninguém é 100% inocente nem 100% culpado.” Tem 35 anos, como Hayim Katsman, com quem vinha aqui frequentemente, e que foi assassinado no kibbutz Holit.

Admite ter muitas dúvidas. “O verdadeiro problema virá mais tarde, quando a guerra acabar. É claro que o Hamas é o inimigo, mas, e os outros? Os outros palestinianos, com quem vamos a manifestações, os que são daqui. Nenhum condenou o 7 de outubro, nem mesmo os que defendem um único Estado. Por isso pergunto-me: e se isto não passar de uma tática, de uma armadilha para se tornarem maioria e nos apagarem? Que querem eles, afinal?”. Lá fora, ladram cães, atentos a qualquer sombra, qualquer brisa. Aqui não há mais nada: cães e a voz difusa vinda de walkie-talkies, que toda a gente usa para fazer de sentinela, alertando para rusgas, pilhagens, ataques. Não há descanso, nem aqui nem no resto da Cisjordânia.

Jenin foi bombardeada há pouco. Três mortos em Nablus, um em Ramallah.

“DE QUE LADO ESTÁS TU?”

Por volta da meia-noite, calha de novo a Susiya. Sete colonos saltaram da escuridão, de M16 ao ombro, e partiram tudo quanto encontraram. Quando ouvem hebraico, ficam baralhados. “Quem são vocês, porra?”, pergunta um deles, chocalhando um israelita. Outro deixa-se estar no caminho. “Só tenho este país, e não vou deixar-vos fazerem outro 7 de outubro”, garante. “O 7 de outubro foi culpa vossa, e foi pior do que o 11 de setembro. Não vos basta?”, responde o colono, atacando-o. “E a guerra de Gaza, é o quê, à proporção? Hiroxima?”, replica o israelita.

“Quando acabarmos o trabalho em Gaza vimos ter convosco!”, promete o colono, enquanto um palestiniano se esconde atrás do israelita. “É com ele que estou a falar!”, grita o colono, apontando para o israelita, e agora é este que se esconde atrás do palestiniano, que apanha com cuspo na cara.

“Cabrão!”, grita-lhe o colono. “Amigo das crianças!”, berra, em referência a um vídeo que circula desde o dia 7 de outubro, e que mostra um jiadista a dar água a um rapazinho de um kibbutz, cujos pais acaba de matar, enquanto assegura que o Hamas respeita as crianças. Esse filme ainda é dos mais populares entre os palestinianos. “De que lado estás tu?”, pergunta o colono ao israelita, que entretanto liga para a polícia. Fica em silêncio um momento, hesita e diz: “Sei de que lado é que não estou”.


2024 01 04

https://expresso.pt/internacional/medio-oriente/guerra-israel-hamas/2024-01-04-A-guerra-de-palavras-entre-colonos-e-israelitas-no-sul-da-Cisjordania-De-que-lado-estas-tu--Sei-de-que-lado-e-que-nao-estou-8389d265

domingo, 14 de maio de 2023

Maria Lopes - A nova vida de Jerónimo no PCP é o regresso ao ponto de partida: a Constituição

* Maria Lopes 

14 de Maio de 2023

Ex-líder comunista tem evitado aparecer junto de Paulo Raimundo para não lhe tirar protagonismo. Queria abrandar o ritmo, mas seis meses depois percorre o país para falar dos valores de Abril


Jerónimo de Sousa esteve nos desfiles do 25 de Abril e do 1.º de Maio, mas foi sempre discreto. Nuno Ferreira Santos

Numa tarde de calor antecipado num Abril que devia ser de águas mil, sabe bem o fresco da pedra do átrio da Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense. Numa das colunas de mármore verde, alguém colou uma folha com Florbela Espanca: "Ser poeta é ser mais alto, é ser maior/ Do que os homens! Morder como quem beija!/ É ser mendigo e dar como quem seja/ Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!" À frente das várias filas de cadeiras, uma mesa com três cadeiras, uma bandeira do PCP - a única que se verá na sala – e a nacional.

Há muita gente reformada, todos conhecem alguém, vêm em casal como para um passeio de fim de tarde, há mães com crianças irrequietas, jovens em pequenos grupos. Cinco minutos depois da hora marcada, já estarão ali cerca de 150 pessoas quando entra pelas portas de alumínio e vidro Jerónimo de Sousa, seguido pelo ex-deputado João Oliveira, de mochila às costas. Há aplausos mas nem um "PCP!" se ouve. Os dois antigos deputados do PCP vêm a Almada falar sobre a Constituição da República Portuguesa e os valores de Abril.

Jerónimo de Sousa, eleito deputado à Constituinte, em 1975, conta episódios desse tempo em que ajudou a elaborar a lei fundamental que pôs por escrito o novo regime nascido da revolução dos cravos, lamenta as machadadas dos inimigos que o texto tem levado desde então (sem resistir a duras críticas aos socialistas, a quem o PCP deu apoio parlamentar durante quatro anos) e avisa para os “ataques antidemocráticos e reaccionários” que se estão a preparar com a actual (e desnecessária, vinca) revisão constitucional.

Depois, o microfone passa para a assistência: há quem lamente o aumento do custo de vida, quem queira ver a Constituição distribuída nas escolas, e quem aproveite para saudar "o operário que ajudou a fazê-la". "Lá porque se é operário podem fazer-se coisas muito mais importantes que os professores e doutores", aponta Rita Magalhães, que já trabalhou com os eurodeputados comunistas, elogiando Jerónimo, que foi secretário-geral do PCP durante 18 anos.

E ainda quem defenda ser importante tê-la em casa "para de vez em quando irmos lá ver os nosso direitos e deveres" - ideia que João Oliveira aproveita a seguir para defender que o principal papel de qualquer comunista ou democrata é exigir o cumprimento da Constituição.

No final, muitos camaradas o cumprimentam. "Hoje vou fazer uma coisa que ando há anos para fazer", anuncia-lhe Maria Eugénia Paulitos. Jerónimo de Sousa arregala os olhos e fica na expectativa. A antiga funcionária da Câmara de Almada pede-lhe "dois beijinhos". E ele dá uma gargalhada. "Álvaro Cunhal era único, mas Jerónimo é homem grande. Hoje vou feliz", haveria de dizer depois ao PÚBLICO já o ex-líder do PCP fora embora.

Quando nos vê, Jerónimo abre um sorriso, mas faz um movimento com o corpo como que a esquivar-se. Não quer falar, aponta para João Oliveira. "Ele que fale." Não, não, obrigada. Era mesmo saber de si que queria. Jerónimo ainda olha para o camarada do apoio que está mesmo ao seu lado… mas não, não quer mesmo falar. Dá-nos uma palmadinha do ombro e o habitual “saúde!” e esgueira-se.

Tem sido assim em praticamente todo o lado onde é abordado pelos jornalistas. Desde que saiu da liderança do partido, fez este sábado, dia 13, seis meses, só uma vez aceitou falar às televisões - na manifestação da CGTP contra o aumento do custo de vida, em meados de Março. Mas participou na da administração pública junto do Parlamento; esteve no desfile do 25 de Abril na avenida e no do primeiro de Maio.

São aparições discretas, normalmente longe do actual secretário-geral comunista Paulo Raimundo, como que evitando ao máximo retirar-lhe qualquer protagonismo. No partido não se admite que haja alguma intencionalidade, que é mesmo Jerónimo quem não pretende qualquer palco e prefere o recato.

Desde o início do ano, Jerónimo e Oliveira estiveram juntos no Porto (onde arrancou este périplo constitucional dos comunistas), em Évora, Coimbra e Faro. O antigo líder comunista esteve também, sozinho, em Braga, Portalegre e Lisboa. Na capital, acompanhou a Constituição e os valores de Abril com uma feijoada, num almoço de domingo com o sector dos seguros no centro de trabalho de Alcântara.

A dinâmica da agenda de Jerónimo de Sousa anda também um pouco ao sabor do ritmo das actividades dos muitos centros de trabalho, das concelhias ou direcções regionais que o querem ter por lá - de Norte a Sul. Participou em diversos almoços de aniversário do PCP (que se assinalou a 6 de Março) e é certo que a sua presença ajudar a mobilizar os camaradas.

Para quem queria (e devia) abrandar o ritmo, a vida não está assim tão diferente. Nem tão calma como deveria aos 76 anos e pouco mais de um ano depois de uma operação a uma estenose carotídea. Jerónimo está mais magro, mas com um ar menos fechado, mais leve.

É certo que agora não há a correria entre a sede do partido, o Parlamento (onde esteve 40 anos) e as muitas iniciativas que as organizações locais do PCP organizam todas as semanas, nem as reuniões da comissão política e do secretariado do Comité Central. Mas Jerónimo vai quase todos os dias à Soeiro Pereira Gomes, onde costuma também almoçar e até fumar um cigarro com Raimundo na varanda - não é fácil cortar, de repente, com a lufa-lufa de comunista.

Mas por vezes já tem que ser Jerónimo a pedir um travão aos camaradas em tanta solicitação. É que pelo menos os fins-de-semana continuam a ser quase todos com agenda. Ainda este sábado esteve numa sessão pública na Marinha Grande – o mesmo sítio onde fez o seu último discurso como secretário-geral, em Novembro, e evocou Álvaro Cunhal.


https://www.publico.pt/2023/05/14/politica/noticia/nova-vida-jeronimo-pcp-regresso-ponto-partida-constituicao-2049574


domingo, 4 de dezembro de 2022

Bruno Carvalho: «Nenhum jornalista é mais imparcial por esconder as suas convicções»

INTERNACIONAL|JORNALISMO


Bruno Carvalho: «Nenhum jornalista é mais imparcial por esconder as suas convicções»

AbrilAbril

POR JOÃO MANSO PINHEIRO 4 DE DEZEMBRO DE 2022

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De regresso do Donbass, onde trabalhou nos últimos meses, Bruno Carvalho falou ao AbrilAbril sobre o papel do jornalista em situação de guerra, os perigos a que se sujeitou e a ausência de pluralidade na comunicação social.


Numa cena do documentário Salvador, Itália (2018), Nanni Moretti entrevista um torturador chileno, preso pelos crimes cometidos durante a ditadura de Pinochet. Sendo confrontado pelo torcionário pela forma tendenciosa como estaria a conduzir a conversa, Moretti, embora dê todo o espaço para o torturador afirmar tudo o que lhe interessa, esclarece rapidamente: Ele, o realizador, o homem, não é imparcial.

 Nanni Morreti não renunciou à parcialidade.

Foi o ponto de partida para a conversa com Bruno Amaral de Carvalho, jornalista que passou seis dos últimos nove meses na região do Donbass, a cobrir os efeitos devastadores da guerra na Ucrânia nestas populações, martirizadas por oito longos anos de guerra civil, bombardeamentos e milhares de vítimas. 

Das fornalhas de Azovstal, em Mariupol, aos massacrados bairros de Donetsk, das movimentações relâmpago das tropas ucranianas e russas na região de Luhansk aos referendos promovidos pelas autoridades pró-russas nas quatro províncias anexadas, Bruno Carvalho não foi apenas o único jornalista português a acompanhar, de perto, a guerra no Donbass. Foi um de poucos jornalistas europeus que se recusou a ceder ao unanimismo prevalente nas redacções.

Um jornalista tem de abdicar das suas convicções para cumprir correctamente as suas funções? O código deontológico exige um trabalho independente, mas nunca imparcial ou que atente contra a consciência do jornalista...

Todas as pessoas têm convicções, incluindo os jornalistas. Eu prefiro o Joe Strummer ao Sid Vicious, gosto mais de García Márquez do que de Vargas Llosa, sou mais Maradona do que Pelé, prefiro Gillo Pontecorvo a Steven Spielberg. Cada um de nós traz um mundo dentro de si.


Resistência antifascista em Donbass

 

Nenhum jornalista é mais independente ou imparcial por esconder as suas convicções. Por isso é que há um conjunto de ferramentas jornalísticas para contornarmos o mais possível a influência das nossas escolhas no nosso trabalho. Até porque há outros factores no jornalismo que também têm influência nas nossas abordagens aos acontecimentos. Por exemplo, a linha editorial, que depende muito das convicções e dos interesses de quem financia os meios de informação.

Eu nunca escondi as minhas convicções porque sou um cidadão consciente dos seus direitos e disposto a exercê-los também como forma de os defender. Os jornalistas não têm menos direitos do que o resto da população.

Felizmente, tive um grande jornalista como professor que dizia aos seus alunos que o primeiro objectivo de quem trabalha na imprensa deve ser a ambição de mudar o mundo. Nesse sentido, o Oscar Mascarenhas valorizava os alunos que tinham uma vida cívica activa, fosse em teatros, associações desportivas, humanitárias ou políticas. Vivemos num mundo que nos quer impôr a não política. Ou seja, a ideia de que a política deve ser exclusiva dos que exercem cargos políticos e a democracia quer-se fechada nas instituições, com cidadãos cada vez menos activos e incómodos.

Faz-me confusão que haja quem ache que os jornalistas devem abdicar dessa intervenção enquanto cidadãos na vida colectiva. Sobretudo quando houve vários jornalistas que o fizeram. Recordo o caso do Mário Mesquita, do Alfredo Maia, da Carla Castelo e de tantos outros. A Comissão da Carteira estabelece algumas incompatibilidades, não apenas no exercício da actividade política, e apenas cargos a tempo inteiro são incompatíveis com o jornalismo.

Acabaste por te tornar mais notório do que muitas das tuas reportagens. Não é uma posição desconfortável para um jornalista, que supostamente não devia ser notícia?

Isso aconteceu, sobretudo, quando diferentes figuras me atacaram, como a ex-candidata presidencial Ana Gomes, a jornalista Fernanda Câncio, o secretário de Estado João Galamba, a escritora Inês Pedrosa, entre outros. O Correio da Manhã fez eco dessas acusações, assim como a revista Visão. Admito também que, para alguns jornalistas, o facto de eu ser um outsider os tenha deixado desconfortáveis. De repente, alguém que nunca esteve nos principais meios portugueses publicava reportagens no Público e na CNN.

Devido a esses ataques, o Público, com o qual tinha um compromisso verbal, apenas me comprou uma reportagem. Essas pessoas tentaram desacreditar-me e eu não podia ficar calado. Houve acusações, colando-me à ideia de eu que era putinista ou pró-russo, que num contexto de guerra são perigosas. Imagina que eu era capturado pelas forças ucranianas e que esses soldados compravam essas acusações contra mim.

Ainda assim, recebi muitas mensagens de solidariedade de muita gente, incluindo jornalistas, mas o Sindicato dos Jornalistas evitou defender-me. Houve vários jornalistas com muitos anos de experiência que me disseram que nunca viram nada assim.

Naturalmente, tive de assumir publicamente a minha própria defesa, assumindo um destaque que nunca me foi confortável, quando a única coisa que queria era dedicar-me, de forma plena, ao meu trabalho no Donbass.

Porque é que achas que, num estado de direito democrático, com uma imprensa livre e plural, as redacções tenham tomado a opção consciente de rejeitar qualquer investigação a um dos lados de uma guerra na zona do Donbass?

Repara, ao longo de todos estes meses foram vários os jornalistas portugueses e estrangeiros que me contactaram para os ajudar a entrar no Donbass. Eles queriam. Em vários desses casos, as direcções de informação não os deixaram ir. Portanto, há, desde logo, uma intencionalidade em cobrir apenas um lado da guerra, o que deixa a descoberto a excepcionalidade da CNN. Até agora, nas últimas décadas, estes meios sempre tiveram repórteres no lado do invasor. O problema é que agora o invasor não se chama Estados Unidos da América.

 

Agora, nunca me verão dizer que não deve haver jornalistas no lado controlado pela Ucrânia. Essa é a grande diferença. 

Hoje, jornalistas como Kapucinsky, Hemingway ou Robert Fisk são vistos como exemplos. O primeiro escreveu um grande livro sobre o trabalho que fez quando acompanhava a guerra civil em Angola, no lado controlado pelo MPLA, o segundo esteve no lado republicano da guerra civil espanhola e o terceiro fez uma entrevista ao Bin Laden. Entrámos num nível tal de controlo editorial e político, onde encaixo a proibição de canais russos na Europa, que são vários os meios que rasgaram de forma aberta e pública as antigas declarações de amor à objectividade e imparcialidade.

Sob a acusação de ser um espião russo, prenderam um jornalista basco na Polónia [Pablo González, colaborador frequente do Público espanhol e ao serviço do La Sexta TV, está preso há mais de 9 meses, sem julgamento] quando cobria a crise dos refugiados e ninguém parece demasiado preocupado com isso. Voltámos à guerra fria e ao maccarthismo.

Como analisas a cobertura da guerra feita pelos orgãos noticiosos portugueses? Notas algum contraste em relação a outros meios mainstream europeus?

Não. Em geral, seguem a mesma linha. Há excepções, contudo. Por exemplo, três canais italianos, incluindo a RAI, tiveram repórteres no lado controlado pelos russos. A Grécia também. De resto, há uma informação muito uniforme, o que não deixa de ser curioso.

Durante muitos anos justificava-se essa uniformidade porque a maioria dos meios não queria gastar dinheiro a enviar jornalistas para determinados cenários de guerra. Então, todos compravam as mesmas reportagens das principais agências. Agora, houve uma aposta muito grande em enviar repórteres mas a abordagem é praticamente igual em todo o lado. Algo que falta muito e, parece-me intencional, é a ausência de contexto.

O objectivo é claro: que não haja uma leitura histórica do conflito.

As populações de Donetsk, Mariupol, estranhavam a tua presença? Em certo momento eras dos únicos jornalistas a trabalhar na região. Com tão pouca presença mediática europeia, não estranhavam um português? Estavam satisfeitas por alguém as ouvir? 

Houve um momento em que era o único repórter a trabalhar para meios ocidentais em todo o lado controlado pelos russos. Não olho para isso como um feito mas como uma tragédia. É a morte do jornalismo.

Naturalmente, havia muita surpresa e também desconfiança. Afinal de contas, eu venho de um país cujos impostos são usados também para financiar as armas que matam civis em Donetsk. No Hospital de Traumatologia da cidade, houve vários pacientes que se recusaram a falar comigo por isso mesmo, por ser um jornalista de um país da NATO. Numa reportagem num mercado, houve uma idosa que gritou comigo e outro repórter acusando-nos de sermos responsáveis pelo que lhes estava a acontecer. Mas aconteceu em muitas ocasiões o contrário, entendendo o nosso trabalho, agradecendo e até encorajando.

Em Mariupol, a situação era tão desesperante que nos pediam ajuda para comunicarmos com familiares a viver no estrangeiro. Ali, até de enfermeiros fizemos para salvar a vida a uma idosa que apanhou com os fragmentos de uma mina anti-pessoal. Evitar quase sempre trabalhar em excursões organizadas pelas forças russas tornava o trabalho mais livre mas também mais perigoso. Foi um trabalho que exigiu muito tacto e sensibilidade com os civis, também com os militares, mas creio que a avaliação geral é positiva.

Já trabalhaste noutros cenários de guerra e conflito. Todos os conflitos são diferentes, mas há alguma características no Donbass que destaques?

Estive, em 2017, num acampamento das FARC, na Colômbia, num momento prévio à entrega de armas mas já durante o processo de paz. Havia uma tensão natural e prosseguiam os assassinatos de líderes sociais. Contudo, era um contexto totalmente diferente. No ano seguinte, visitei o Donbass e foi o meu primeiro contacto com a guerra civil que havia começado em 2014. Aí já ouvi alguns bombardeamentos, mas esporádicos. Apesar da violação constante dos Acordos de Minsk, havia já um conflito de baixa intensidade.

 

O que acontece hoje é de uma dimensão totalmente diferente. Caem cerca de cem projécteis todos os dias em Donetsk. Em média, há mais de um morto por dia na cidade. Mais de 2 100 feridos desde Fevereiro. E estamos a falar de uma cidade que não está em disputa, não tem combates terrestres, não tem homens a combater no seu interior. Mariupol, sim, estava em disputa e foi, de facto, um inferno. Havia mortos por todas as partes. 

Parece-me que é um erro dizer que esta guerra é apenas entre a Rússia e a Ucrânia. Há milhares de combatentes estrangeiros do lado ucraniano, armas ocidentais, estrategas militares ocidentais a assessorar operações, quando não a comandar, Kiev tem o apoio da inteligência dos satélites ocidentais, etc... Do outro lado, há combatentes das diversas realidades nacionais da Federação Russa, há os soldados do Donbass a combater desde 2014, assim como os cidadãos mobilizados desse mesmo território, há o grupo Wagner... Ou seja, há uma complexa teia diversa de afinidades e contradições.

Do ponto de vista mais geral, esta guerra representa um momento histórico de grande significado porque põe frente a frente duas realidades geopolíticas que se vinham confrontando de forma económica, política e também militar, mesmo que de forma indirecta, sobretudo no Médio Oriente, em que o Ocidente vê o seu poder questionado. É ingénuo acreditar que a guerra vai acabar sem que Washington ou Moscovo tenham uma palavra a dizer. A implicação do Ocidente é, hoje, tão óbvia que isso tem um preço nas nossas economias. 

Como vês a situação actual do Donbass? Depois da realização de referendos sem particular credibilidade, com enormes migrações internas, milhões de pessoas a abandonar a região, é expectável uma estabilização da situação?

A credibilidade dos processos eleitorais há muito que é algo secundário no contexto internacional. Há uma avaliação subjectiva em função dos interesses de cada país. O Kosovo tornou-se independente sem referendo, Juan Guaidó foi reconhecido presidente por muitos países sem qualquer eleição. Isso parece-me particularmente grave. À luz do que vi, de facto, não foram referendos que cumprissem aquilo que consideramos serem processos democráticos, embora não me pareça haver grandes dúvidas sobre a vontade daquela gente.

Basta ver o histórico eleitoral desde 1991 até 2014. Há um padrão praticamente inalterado de vitórias de forças pró-russas e comunistas. Toda a gente que entrevistei me disse que pouco lhe importava o não reconhecimento dos referendos por parte do Ocidente, uma vez que o Ocidente pouco se importou com a situação destas pessoas nos últimos oito anos. Parece-me que teria sido um passo para a paz se a Ucrânia e a Rússia aceitassem a realização de referendos com todas as garantias dando a palavra às populações com observadores dos dois lados. Não me parece que haja espaço para isso quando Kiev não cumpriu sequer os Acordos de Minsk em que estava previsto dar autonomia a estes territórios.

A Ucrânia não vai aceitar nunca a anexação do Donbass e das restantes regiões, incluindo a Crimeia, e, nesse sentido, a única perspectiva de estabilização virá com o fim da guerra que dependerá mais de Washington do que de Kiev. Sozinha, a Ucrânia não tem condições de manter esta dinâmica militar.

As populações do Donbass fazem ideia da dimensão do apoio à figura de Zelensky na União Europeia? Nos meios de comunicação, institucionais, nas redes sociais...

Sim, há essa noção. Para eles, o inimigo não é apenas Zelensky. São também os Estados Unidos e a União Europeia. E até a ONU é uma instituição questionada, sobretudo Guterres, acusando-o de declarações parciais. Há uma visão da Europa, não isenta de preconceitos, em que somos vistos como individualistas, demasiado apegados ao dinheiro e ao consumo, pouco dados aos valores da família e da comunidade, pouco solidários e, naturalmente, somos considerados fantoches dos norte-americanos. Mas também sabem que há gente que protesta, que não está de acordo com determinadas políticas e que se mobiliza contra a guerra.

O que me parece grave é que os líderes europeus fazem tudo para meter gasolina na fogueira como foi o caso de Josep Borrell, dizendo que a Europa era um jardim e o resto do mundo uma selva. Isto significa reforçar, no resto do mundo, o antagonismo ao eurocentrismo e a esta ideia de que a Europa é um oásis civilizacional no meio dos selvagens. 

https://www.abrilabril.pt/internacional/bruno-carvalho-nenhum-jornalista-e-mais-imparcial-por-esconder-suas-conviccoes


sábado, 2 de abril de 2022

Bruno Amaral de Carvalho - Os pássaros não cantam em Lugansk


REPORTAGEM -  Os pássaros não cantam em Lugansk, por Bruno Amaral de Carvalho
(texto e fotos) em Lugansk (Donbass)  31 de Março de 2022

Na Ucrânia, prosseguem os combates no Donbass pelo controlo territorial desta região mineira. Há oito anos debaixo de fogo, as forças separatistas apoiadas pela Rússia tentam avançar na autoproclamada República Popular de Lugansk ante a resistência ucraniana.

Uma antiga igreja ortodoxa aparece no caminho e o motorista benze-se. Depois, acelera. "Bistra, bistra", diz entredentes. "Fast, fast", repete em inglês. O ambientador, pendurado no espelho retrovisor, dança ao ritmo das crateras no asfalto. Em vez do típico pinho perfumado, há a fotografia de Vladimir Putin. No pára-brisas, um “Z” branco a fita adesiva.

O homem que tem o Presidente russo como ídolo chama-se Konstantin e explica que estamos demasiado perto da linha da frente. O “inimigo” está à espreita e pode haver snipers. A poucos quilómetros de Trehizbenka, na autoproclamada República Popular de Lugansk, o carro vai abrandando à medida que as lagartas de vários tanques com a marca “Z” se cruzam no caminho. Sente-se a proximidade das forças ucranianas enquanto se sucedem os postos de controlo. Uma ponte destruída e um autocarro carbonizado são postais de uma guerra que começou em 2014 e que nunca deixou de fazer vítimas. Segundo as Nações Unidas, cerca de três mil civis morreram no conflito que dura há oito anos.

Trehizbenka, sob controlo da Ucrânia desde 2014, passou para as mãos das autoridades separatistas de Lugansk. À entrada desta localidade de cerca de três mil habitantes, vários militares aceitam mostrar as trincheiras e as casas de civis usadas pelo exército ucraniano para proteger as suas posições.

Em frente à primeira casa, pé ante pé, pedem que não toquemos em nada porque há lugares que não foram devidamente verificados e pode haver minas por desactivar. São spetnaz, jovens soldados das forças especiais de Lugansk, e afirmam que este lugar estava ocupado por combatentes do movimento neonazi Pravii Sektor.

Há livros espalhados pelo chão, comida podre na cozinha ao lado de uma garrafa vazia de Jagermeister, cartazes nas paredes e um autocolante de uma emissora militar ucraniana. Numa divisão, junto ao corredor, uma caixa militar com explosivos. O episódio repete-se num pequeno barracão no exterior com centenas de granadas de morteiro, detonadores, um blusão do exército ucraniano e uma bandeira vermelha e preta do Exército Insurgente Ucraniano, liderado por Stepan Bandera, que colaborou com as forças nazis na Segunda Guerra Mundial.

Durante a visita, aparece uma idosa que prefere não responder a perguntas. Os soldados alegam que tem medo que regressem “os fascistas” e fica gorada a primeira entrevista a um civil na localidade.

De súbito, soam ao longe explosões de granadas de morteiro numa cadência que iria durar praticamente toda a visita enquanto um militar revela que foi descoberto ali perto o cadáver de um soldado ucraniano. Junto a uma trincheira, pouco resta de um corpo putrefacto com várias semanas dentro de um uniforme ucraniano desfeito. Vítima do esquecimento, é provável que tenha sido também vítima da matilha de cães esfaimados que povoam Trehizbenka. Quem seria este soldado? Ninguém sabe dizer.

É só na saída da aldeia que encontramos duas civis dispostas a falar sem terem sido escolhidas pelos soldados desta região separatista. Vera Alekseevna, uma das moradoras, acusa militares ucranianos de a terem sequestrado e ameaçado. “Foi o Batalhão Aidar. Diziam que me queriam cortar em pedaços e eu não sabia porquê. Ocuparam casas e terrenos da população. Há meses que não temos gás e electricidade. Imagine o que significa isso no Inverno”, denuncia. Por sua vez, Alexandra Fedorovna mostra alívio pela chegada das forças separatistas. Questionadas sobre as vítimas civis das bombas russas fora de Donbass, lamentam “a morte de qualquer civil”, mas aplaudem a intervenção de Moscovo.

Refugiado em Lugansk
Pela noite, o recolher obrigatório marca o compasso e são poucos os candeeiros acesos. É uma cidade fantasma. Quando amanhece, caem os primeiros mísseis Tochka-U nos arredores de Lugansk. Mesmo assim, as principais avenidas respiram vida e os comércios abrem na capital da autoproclamada República Popular de Lugansk. É uma cidade habituada à guerra desde 2014. Foi nesse ano que Alexei Albu abandonou Odessa rumo a esta região mineira.

Membro do partido da esquerda ucraniana Borotba, estava dentro da Casa dos Sindicatos em Odessa, em 2014, no dia em que centenas de apoiantes dos protestos que levaram à queda do governo de Viktor Yanukovich cercaram a improvisada sede dos que consideravam ser um golpe de Estado e pegaram fogo ao edifício com pelo menos uma centena de pessoas dentro. Alexei Albu escapou das chamas, mas não do ódio. Sentado num café de Lugansk, descreve como o espancaram e aponta para uma cicatriz na cabeça. Nesse dia, morreram 48 pessoas, muitas delas queimadas.

“Poucos dias depois, recebi a informação de uma fonte dentro dos corpos policiais de que o meu nome estava numa lista de pessoas a serem presas”, recorda. Deputado regional no Conselho Regional de Odessa como Alexei, Viacheslav Markin acabou assassinado pouco depois dos acontecimentos na cidade costeira no Mar Negro. Foi então que decidiu fugir para a zona controlada pelos rebeldes em Lugansk.

Hoje, com 36 anos, e apesar das divisões internas no Borotba, mantém-se no partido e apoia a intervenção russa. Quando vê a morte de civis, vítimas de ataques russos, afirma que sente dor, mas ele diz que sabe “quem é o culpado”. Acusa os batalhões de extrema-direita, como o Aidar ou Azov. Na óptica de Alexei, estes grupos “não querem combater em campo aberto” e “escondem-se entre a população em zonas residenciais”.

Oito anos de bombas
A poucos quilómetros da linha da frente, em Donbass, a presidente do município de Kirovsk, Viktoria Ivanovna Sergueeva, mostra uma das casas bombardeadas pelas forças ucranianas numa aldeia dos arredores na última semana. Depois de alguns quilómetros de tanques, carros blindados e camiões, um caminho de terra batida conduz a uma pequena povoação com habitações térreas. É diante desta casa destruída que denuncia o que diz ter sido um ataque das forças ucranianas.

“O bombardeamento aconteceu ao fim do dia quando a família que aqui vivia se preparava para dormir. Felizmente, não morreu ninguém”, afirma. Ao mesmo tempo que responde à pergunta com a ajuda de um intérprete, ouvem-se disparos de morteiros e rockets seguidos de rajadas de metralhadora. Imperturbável, não interrompe a resposta e prossegue o raciocínio como se a guerra fosse parte da sua vida desde sempre.

Numa aldeia com tanto campo à volta, o que mais nos perturba é a ausência de pássaros. Como se a sua falta na paisagem nos alertasse para a ameaça da guerra como os canários mostravam pela sua prostração o perigo das minas.

Serviço especial para o PÚBLICO

https://www.publico.pt/2022/03/31/mundo/reportagem/passaros-nao-cantam-lugansk-2000819

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Mariana Durães - Os brasileiros “têm meia língua portuguesa”?

LÍNGUA PORTUGUESA

Os brasileiros “têm meia língua portuguesa”? Quando as palavras são motivo de discriminação

O que o Atlântico separa a língua portuguesa une. Ou não? Matias foi alvo de chacota por causa do sotaque; Jullyana foi avisada para fazer um exame em português europeu e a Thalita disseram que os brasileiros só têm “meia língua portuguesa”. A todos pedem (ou exigem?) que falem “português correcto”. Mas, no Dia Mundial da Língua Portuguesa, perguntamos: o que é o português correcto?

Mariana Durães

5 de Maio de 2021, 8:08

“Por favor, façam o exame em português de Portugal, porque eu não entendo nada do que vocês escrevem”: a ordem foi dada antes de um exame do curso de História da Arte, mas não havia sido a primeira vez que Jullyana Rocha se tinha sentido confrangida por não falar português europeu.

Antes, quando foi mudar a morada a uma repartição de Finanças, teve o mesmo problema. “Fui com todos os documentos e expliquei à senhora que precisava de mudar a morada fiscal. Tentei-me explicar umas quatro vezes e ela simplesmente dizia que não entendia o que eu estava a falar. Ainda nem usávamos máscara, por isso não havia nenhum impedimento”, recorda a brasileira de 25 anos, a viver em Portugal desde 2017.

Não é caso único: os relatos de brasileiros a viver em Portugal que dizem ser discriminados por “não falarem português correcto” multiplicam-se nas redes sociais. Na página de Instagram Brasileiras não Se Calam, por exemplo, em que são partilhados relatos de xenofobia, é recorrente encontrar denúncias de discriminação por causa da língua: em situações do quotidiano, nos locais de trabalho, e, diversas vezes, nas faculdades.

Foi lá que Jullyana e os colegas brasileiros foram avisados para realizar o exame em português europeu, e foi esse momento, aliado a muitos outros de discriminação, que a fizeram sair do curso e optar por estudar Marketing remotamente, numa universidade brasileira: “Não quis voltar para o sistema de ensino de aqui.”

Também Matias Guimarães foi alvo de chacota quando chegou atrasado a uma aula. “Quando entrei na sala, o professor começou a fazer uma série de críticas e piadas sobre o meu sotaque, sobre eu ser burro pelo meu sotaque, por não falar direito”, relata. Pelo que tem ouvido, refere, “há pelo menos um professor em todas as faculdades que reclama que os brasileiros não falam da maneira mais correcta”. Mas o que é, afinal, o português correcto?

“A língua pode ter diversas cores”

“Desde que somos crianças, a escola diz-nos que certas formas são correctas e outras são incorrectas”, começa por enquadrar Ronan Pereira, doutorando em Linguística pela Universidade Nova de Lisboa. Há, no entanto, uma premissa que é importante não esquecer: “As línguas não são elementos estáticos. Elas variam territorialmente, ao longo do tempo, de acordo com as classes sociais, etárias... Mas, por algum motivo, temos na nossa cabeça que a língua é uma coisa só.”

Ora, quando uma criança vai para a escola, não é possível abordar todas as formas que uma língua pode ter. O ensino foca-se, então, no ensino da gramática normativa, aquela que nos diz as regras a seguir para escrever e falar correctamente. É essa gramática que estabelece o padrão, e é importante que seja ensinada, “porque, se todos começássemos a escrever como nos apetece, a coisa ficava confusa”, refere o linguista.

Quando falamos de português europeu e português brasileiro, estamos a falar de “duas variedades linguísticas” — o que mostra que “a língua é uma definição algo abstracta e, neste caso, vemos como a língua portuguesa pode ter diversas cores”. E nem é preciso atravessar um oceano para encontrar estas variedades: dentro do território continental encontramos muitas formas de falar português. A diferença é que “uma pessoa de Évora vai ter muito mais em comum na sua gramática mental com alguém de Coimbra do que com alguém de São Paulo”.

Os “entraves” linguísticos começaram a sentir-se no dia-a-dia de Mônica Santos logo desde que veio para Portugal, há três anos. “Uma atitude quotidiana como ir a uma padaria era muito difícil, porque o meu simples pedido de um pão era pouco percebido pelas pessoas, porque não queriam”, conta. “Existia uma certa necessidade de demonstrar que não estava a falar da melhor forma, era satirizada”, continua.

Foi também na faculdade que experienciou situações “mais fortes”. Ainda que seja necessário apresentar uma declaração de proficiência em língua portuguesa ao ingressar na faculdade, esta não especifica a necessidade de ser em português europeu. E, quando as aulas começam, “os professores são bastante críticos na forma como escrevemos relatórios, trabalhos, etc.”, lamenta. Chegam até a descontar pontos pela escrita, refere.

“Ouvir dizer todos os dias que falamos brasileiro em vez de português é o mesmo que dizer que nos Estados Unidos se fala ‘americano’ e que na Austrália se fala ‘australiano’, quando na verdade todos falam a língua inglesa.”

Alguns portugueses “olham com estranheza” quando Thalita Meros diz que dá aulas de Português. A viver em Portugal desde 2019, veio fazer mestrado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e, como já tinha experiência em dar aulas no Brasil, começou a dar aulas voluntariamente a estrangeiros em Portugal. Quando alguns alunos lhe dizem que “não querem aprender português brasileiro”, a professora de 38 anos explica que “não funciona assim”, que há materiais didácticos e que “a regra é comum para todos”.

“O português é uma língua multicultural. As pessoas que vão para a minha aula vão ouvir o sotaque do português de Portugal todos os dias na rua, vão acabar por pegar um pouco”, afiança. Mas pergunta: “Que estrangeiro fala realmente com o sotaque português de Portugal? Se ensinar português a um espanhol, ele vai falar com o sotaque espanhol.”

Também ela já viveu situações de preconceito por causa da língua. Numa ida ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, quando teve de indicar o número de telemóvel, disse “meia”, em vez de “seis”, como é comum no Brasil. Do outro lado ouviu: “Os brasileiros têm meia língua portuguesa.”

A globalização da língua portuguesa “traz muitos desafios”, começa por dizer Patrícia Ferraz de Matos, antropóloga e investigadora auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. “Em primeiro lugar, porque o português que se fala em vários continentes não é exactamente o mesmo e tem muitas variantes — nacionais, regionais e locais. Em segundo lugar, porque este movimento para criar um Dia da Língua Portuguesa não se centra apenas nesta e parece querer estender-se a outros fenómenos culturais, ou seja, parece ser mais ambicioso.”

E porque não olhar para essas variantes como um factor de enriquecimento? Afinal, como relembra a investigadora, “é devido ao Brasil e ao seu tamanho que o português é hoje uma das cinco línguas mais presentes no espaço digital”.

Também inserida no espaço académico, a antropóloga refere que, “embora o português do Brasil seja admirado na literatura” (veja-se “a riqueza do vocábulo dos livros de Jorge Amado, por exemplo”), o mesmo não acontece nas aulas ou avaliações. No doutoramento em Antropologia, onde é docente, aceita teses escritas em português do Brasil ou português africano, por exemplo. Mas nem sempre é assim, como a experiência de Jullyana mostra.

A variedade mantém a língua viva

Mas de onde vem, afinal, a ideia de que o português do Brasil não é correcto? “Durante o processo evolutivo do português brasileiro, surgiram formas coloquiais que são violações à gramática mental dos falantes de português europeu”, explica Ronan Pereira. Um exemplo: “Eu vi-o”, como diz um português, versus “eu vi ele”, dito por um brasileiro. “Para a gramática mental de um português, [a segunda formulação] soa mal, mas isso não quer dizer que o falante de português brasileiro fale mal. Ele fala a sua variedade, que tem essa estrutura.”

Na verdade, quanto mais portugueses e brasileiros se aproximarem da norma gramatical — ou, por outras palavras, quanto mais correctamente falarem —, mais próximos ficam. Se assim fosse, “teríamos sotaques diferentes, o que é completamente natural e acontece em todas as línguas, mas a questão estrutural seria basicamente a mesma”, explica o linguista. “A regra é comum para todos”, acrescenta Thalita.

“Alguns dos preconceitos actuais podem ainda ser resquícios do passado”, refere Patrícia Ferraz de Matos. Podem estar relacionados “com as várias influências que o português do Brasil recebeu”. “É como se o português do Brasil fosse menos puro do que o português europeu, ao qual se associa por vezes uma identidade própria, associada à antiguidade do país na Europa, à sua permanência como país independente ao longo de vários séculos, sem nunca se ter subjugado ao poder (e língua) espanhol”, contextualiza.

A herança cultural, marcada por séculos de colonialismo, é, para Matias Guimarães, a principal justificação para esta discriminação. “Sinto que existe uma parcela da população portuguesa que vê as ex-colónias como inferiores de diversas formas”, atira. E essa percepção é generalizada. “Os mais velhos têm um sentimento de nacionalismo muito forte, acham que estamos para reconquistar o que nos foi tirado na época dos descobrimentos, como já ouvi muitas vezes”, refere Jullyana.

Thalita chama-lhe “saudosismo da língua”. Acredita que o pensamento comum é, muitas vezes, este: “Eu levei a língua para esse país e eles estragaram-na, deviam mantê-la como é aqui.” Ou, em forma de pergunta, como já fizeram a Mônica: “Quem é que inventou a língua?”

Esse saudosismo, acredita Thalita, poderá estar prestes a acabar, com ajuda das gerações futuras. “Os alunos de hoje já têm questões sobre a variação linguística nos seus manuais”, afirma. “A variação agrega muito. Tem algumas palavras que são diferentes? Tem. E isso só vai acrescentar”, atira. Patrícia Ferraz de Matos vai mais longe: “É talvez essa riqueza que mantém a língua viva — a de um conjunto diversificado de pessoas que a utiliza há vários séculos, mas que a vai adaptando e fazendo evoluir.”

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