Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
domingo, 14 de setembro de 2025
José Goulão - GENOCÍDIO NA TERRA SANTA
sexta-feira, 10 de maio de 2024
Bruno Carvalho: «Há situações em que não podemos ser meros espectadores»
Em A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, publicado pela Caminho, o jornalista Bruno Carvalho furou a redoma que o Ocidente colocou sobre toda esta região. O livro é tanto sobre o autor como sobre estes outros apagados: tradutores, colegas de profissão, condutores e, acima de tudo, os que vivem e lutam pelo Donbass.
Em menos de um mês, A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, do jornalista Bruno Amaral de Carvalho, já está a preparar a terceira edição. O AbrilAbril conversou com o autor sobre a sua experiência numa guerra fora dos holofotes.
A um mundo de distância (e, para nós,
o Donbass está mesmo num outro mundo), torna-se difícil acreditar que no meio
daquela massa anónima existam mesmo pessoas. Que por ali andem criaturas
dotadas com as suas próprias vontades, gostos, idiossincrasias engraçadas (para
os outros). Que sejam, no fundo, como nós.
No Donbass estão os outros. Não lhes
sabemos os nomes, não lhes é conhecida opinião ou vontade. Limitam-se a ser.
Uns tantos mil que sobrevivem numa pequena cidade devastada por prolongadas
batalhas, outros tantas centenas a combater em batalhões separatistas. Uma,
duas, três, dez crianças que morrem na leva diária de bombardeamentos contra
populações que vivem em terras com nomes que tão dificilmente sabemos
pronunciar.
Este apagamento, de entre os vários
motivos que levaram as redacções ocidentais a recusar-se a cobrir o que se
passava no Donbass durante «o maior acontecimento geopolítico do pós-guerra
fria», será talvez o mais flagrantemente antideontológico. Sem jornalismo e com
a censura de órgãos de comunicação social «do outro lado», aquela gente é
reduzida a coisa nenhuma. Não existem. Sem semblante de humanidade, é fácil
odiarmos os nossos “inimigos” (ou pior: “os maus”).
Longe da vista, longe do coração.
Em A Guerra a Leste: 8 Meses no
Donbass, publicado pela Caminho, o jornalista Bruno Carvalho furou a redoma que
o Ocidente colocou sobre toda esta região. O livro é tanto sobre o autor como
sobre estes outros apagados: tradutores, colegas de profissão, condutores e,
acima de tudo, os que vivem e lutam pelo Donbass.
Conhecemo-los agora pelo nome: Luís
Castañeda, colombiano, que veio estudar para Donetsk nos anos 80 e nunca mais
voltou. Ekaterina, de Odessa, que em 2014 presenciou o massacre na casa
sindical da cidade. Alexander, de 59 anos, antigo mineiro que sabe, hoje,
distinguir artilharia pelo som. A família de Dima, que com a mulher e os quatro
filhos viveu mais de um mês numa cave em Mariupol ou o soldado benfiquista que,
em terras lusas, trabalhou na construção civil e hoje vigia estradas.
O Donbass está condenado a ser um
«lugar errado»?
O que define um «lugar errado» não é a sua geografia. É o seu enquadramento
político no contexto mundial. Há não muito tempo, o chefe da diplomacia
europeia, Josep Borrell, dizia que a Europa é um jardim e, em contraposição, o
resto do mundo uma selva. Imediatamente, veio-me à memória as imagens de seres
humanos, africanos, expostos numa feira belga em 1958 como se fossem animais
num jardim zoológico.
A herança colonial europeia está viva
nas relações do Ocidente com os países do chamado Sul Global e não espanta que
haja uma aproximação cada vez maior desses Estados com potências como a China,
a Rússia, o Irão ou o Brasil. Quando alguém não nos trata como iguais,
procuramos quem nos trate com dignidade e respeito. Nesse sentido, a imprensa
hegemónica, alinhada com o poder, define quais são os lugares e quem são os
líderes errados. Os talibans já foram os bons e agora são os maus. O Donbass
continuará a ser um lugar «errado» enquanto não estiver debaixo do controlo de
Kiev ou de qualquer outro aliado dos Estados Unidos e da União Europeia.
N’A Guerra a Leste, vários cidadãos das repúblicas de Donetsk e Lugansk (assim
como a refugiados de diversas partes da Ucrânia) assumem uma posição
separatista e, noutros casos, favorável à intervenção russa. É uma oportunidade
de ver uma perspectiva praticamente inédita no panorama mediático europeu.
Também havia, no Donbass, quem defendesse o outro lado? Seja a posição
ucraniana ou simplesmente contra a adesão à Federação Russa?
Evidentemente, há gente que defende a
manutenção do Donbass na Ucrânia ou a independência dessas repúblicas. Contudo,
parecem-me opções minoritárias. Há também quem recorde com nostalgia a União
Soviética. Antes da guerra, talvez houvesse espaço para um modelo confederal
como tem a Suíça ou para um modelo de regiões com uma autonomia alargada. Os
Acordos de Minsk previam essa possibilidade e eu acrescentava que podia ter
sido adoptada uma solução como aquela encontrada no âmbito do Acordo de Dayton
que criou duas entidades territoriais dentro da Bósnia, uma para a comunidade
bósnia e outra para a comunidade sérvia.
Julgo que as opções eram muitas se
houvesse vontade política dos actores em confronto, mas queria sublinhar a
importância de se ouvir o que as populações têm a dizer. Não há nada mais
democrático do que resolver este conflito auscultando-as e tomando decisões que
respeitem essas escolhas.
O que aconteceu aos comunistas desta
região? Apontas como, na última vez em que participaram em eleições (2013,
foram banidos a seguir a 2014), tiveram cerca de 30% dos votos em algumas zonas
do Donbass
Os comunistas eram uma força
imprescindível desde o fim da União Soviética no Leste da Ucrânia. Sobretudo
porque transportavam consigo essa herança histórica. Com a sublevação das
regiões do Donbass em 2014, os comunistas foram importantes no processo de
criação das autoproclamadas repúblicas.
Contudo, o contexto de guerra e a
influência de Moscovo favoreceram a existência de governos quase de unidade
nacional com um papel diminuído das forças comunistas. Mantêm a sua intervenção
política num ambiente muito complexo, onde a maioria dos homens se encontra a
combater. Lembro-me de estar em Donetsk no 1.º de Maio de 2022 e de haver uma
manifestação, organizada pelo Partido Comunista, composta por mulheres e homens
sem idade para participarem na guerra. Nas últimas eleições presidenciais, como
aconteceu em praticamente toda a Rússia, os candidatos apoiados por Vladimir
Putin arrasaram, incluindo no Donbass. Há muitas explicações para este facto.
Uma delas é que ninguém quer mudar de presidente a meio de uma guerra e a outra
é que há de facto muita gente que defende a intervenção russa no Donbass.
O apoio à intervenção da Rússia pode
ser entendida como um apoio ao regime de Putin ou é um caso de interesses
confluentes? Os separatistas garantem a independência e os grandes poderes
económicos russos ganham acesso àquela que era a região mais industrializada da
Ucrânia
Recordemos que os comunistas russos
já tiveram diversos choques com as autoridades russas. Para além das questões
económicas, houve militantes comunistas detidos em manifestações. A forma de
regime também é questionada no sentido em que os comunistas russos, aos quais
se juntaram os comunistas de Donetsk e Lugansk, defendem um regresso ao modelo
soviético.
Há, certamente, contradições entre as
forças que apoiam a intervenção militar e diferentes visões sobre como o
conflito deve ser resolvido. Independentemente de estarmos de acordo ou não, a
questão central apresentada pelos comunistas russos é a da necessidade de
derrota do fascismo na Ucrânia e, naturalmente, a ilegalização dos comunistas
ucranianos, e agora de praticamente toda a oposição, tem peso nessa análise.
Dos comunistas do Donbass com quem
contactaste, qual era a posição deles em relação à Rússia de Putin
(abstraindo-nos, um pouco, sobre toda a questão da invasão militar)
Vladimir Putin defende uma economia
de mercado com alguma intervenção do Estado. Os comunistas defendem uma
economia planificada. Há também visões distintas sobre como se deve organizar a
sociedade.
Contudo, recordo que o presidente
russo habilmente soube recuperar e valorizar a memória do passado soviético,
sobretudo na preservação dos símbolos e dos monumentos, abdicando de confrontar
uma história que é querida para uma parte substancial da população. Depois do
desastre dos anos 90, com uma economia em colapso e com um presidente que
abdicou da sua soberania, os russos parecem apostar na estabilidade económica e
na preservação das suas fronteiras.
Dizes, a certo ponto, que não
pertences a lado nenhum. É um contraste grande com a realidade no Donbass, onde
tanto a população como alguns dos combatentes internacionais estão imersos numa
luta de morte pelo direito a pertencer ao seu lugar
Mesmo que permaneça essa sensação de
não pertencer a lado nenhum e ao mesmo tempo ser de todo o lado, ter um lugar
donde se é também é um direito. Respeito muito a luta dos povos pela sua
independência e autodeterminação e muitos desses combatentes estrangeiros
acabaram por encontrar naquela luta e naquela terra o seu espaço. Foram
recebidos de braços abertos por quem combatia e acabaram por obter a
nacionalidade por parte das autoridades separatistas. Faz lembrar o título do
enorme livro do jornalista Joseph North, Nenhum Homem é Estrangeiro [No Men Are
Strangers, de 1958]
A luta que se trava no Donbass está
muito longe de ser meramente uma disputa de territórios. Como mencionas n’A
Guerra a Leste, há um confronto grande em termos de toponímia: Bakhmut mudou de
nome para Artyomovsk em 1924, homenageando o revolucionário bolchevique Fyodor
Sergeyev (Artyom). Voltou a mudar com a leis de descomunização de Poroshenko,
em 2016. A recente conquista da cidade ditou a recuperação do nome soviético:
Artyomovsk. No terreno, o confronto é muito ideológico?
Eu não diria que isso é sempre
visível mas está presente. As tropas russas classificam o inimigo de fascista e
essa é uma escolha que revela uma opção ideológica. Uma das consignas mais
comuns no Donbass, mesmo que praticamente todos só saibam falar apenas russo, é
«no pasarán», repetindo aquilo que aprenderam dos combatentes estrangeiros
inspirados na guerra civil de Espanha.
Há bandeiras imperiais russas,
bandeiras nacionalistas, bandeiras soviéticas, bandeiras religiosas. Do outro
lado, nas minhas visitas às posições conquistadas às forças ucranianas
encontrei simbologia neonazi em bandeiras, em murais, em autocolantes, também
propaganda nacionalista. Há batalhões neonazis a combater pela Ucrânia que
envergam todo o tipo de parafernália fascista. Aqui incluo estrangeiros,
incluindo portugueses. Mas há ainda, sobretudo nas zonas mais mineiras e
industriais, o culto do trabalho e do operariado, herança soviética.
Foi morto (poucos dias antes desta
entrevista), o norte-americano «Texas», de Austin, nos EUA (que se juntou, após
2014, ao lado separatista) alegadamente por militares russos. Referes os
encontros que tiveste com ele nesses oito meses. No final do livro destacas
ainda a morte, em combate, do colombiano Alexis Castillo. O que estas pessoas
procuraram no Donbass?
Tanto um como outro decidiram partir
para o Donbass para combater o fascismo. As ondas do impacto do massacre de
Odessa, na Casa dos Sindicatos, onde meia centena de manifestantes anti-Maidan
morreu queimada, baleada e espancada, chegaram a todo o mundo.
O Alexis juntou-se às milícias separatistas inspirado pelas Brigadas Internacionais compostas por antifascistas de todo o mundo que combateram o franquismo nas trincheiras de Espanha em 1936. Foi contra a vontade do Partido Comunista dos Povos de Espanha, no qual militava na época. Aderiu posteriormente ao Partido Comunista de Donetsk.
O «Texas» tinha uma trajectória diferente. Talvez procurasse também a redenção
pessoal. Esteve preso por posse de drogas, tinha servido no exército
norte-americano. Depois contou-me que tinha encontrado o seu lugar. Era uma
personagem muito peculiar. Houve outros tantos que caíram em combate. E na
minha última viagem conheci um combatente brasileiro, que ascendeu a capitão do
exército russo, de alcunha «MacGyver».
«Num jardim, em frente a uma escola,
há várias sepulturas improvisadas. Numa das covas abertas, a espera de um
cadáver, há uma placa: este lugar já está reservado». Há uma geração inteira de
jovens e crianças que só conheceram a guerra, que dura já há 10 anos. Reparaste
nalgum impacto desta realidade na juventude?
Quem tem agora 20 anos, tinha 10
quando a guerra começou. E se tem 20 anos, a não ser que esteja a estudar, está
a combater na linha da frente. É uma absoluta falta de perspectiva de vida.
Conheço muitos que optaram por partir
para a Rússia e começar a vida num lugar onde há alguma esperança. As aulas são
à distância há cerca de dois anos, os órfãos foram transferidos para
territórios seguros dentro da Rússia, as brincadeiras na rua são sempre
limitadas.
Vi corpos de crianças em pedaços,
famílias desfeitas. Da última vez, um só bombardeamento ucraniano atingiu uma
casa no bairro de Petrovsky onde morreram três irmãos pequenos. A mãe já tinha
perdido o marido na guerra e agora perdeu todos os filhos numa única noite.
Ficou sem casa. É este o grau de barbárie.
Acompanhaste, primeiro, a destruição
e, meses depois, o início do processo de reconstrução de Mariupol. Na tua
primeira visita, quando chegaste perto de Azovstal, presenciaste o enterro de
civis nos canteiros da cidade. Foi a tua experiência mais violenta nos oito
meses no Donbass?
Foi a experiência mais intensa porque
foram dias seguidos de combates comigo nas ruas a absorver tudo o que via.
Nunca tinha estado num cenário deste tipo. Havia mortos enterrados em qualquer
lado mas também havia mortos nas ruas, nas praias, dentro de edifícios. Depois
acompanhei a trasladação de muitos desses cadáveres para cemitérios nos
arredores. Mas diria que um dos dias mais duros foi em Donetsk quando um
bombardeamento das forças ucranianas provocou a morte de mais de uma dezena de
civis numa praça movimentada da cidade.
Ainda em Mariupol, relatas o momento em que mandaste uma mensagem a uma familiar de uma senhora na cidade, avisando-a de que a mesma estava viva. Estamos um pouco habituados, no Ocidente, a pensar nos jornalistas como fotógrafos da National Geographic, que não devem intervir com os sujeitos que observam.
«As minhas reportagens televisivas podiam não ser fartas em qualidade estética
mas a vontade e o empenho em fazer o melhor jornalismo possível estavam lá.»
Naturalmente, a guerra não pode ser
um jardim zoológico. Há situações em que não podemos ser meros espectadores. E
esta era uma delas. Fiz bem mais do que isso. Com outro camarada jornalista,
salvámos a perna de uma mulher vítima de uma mina anti-terrestre colocada pelas
forças ucranianas fazendo-lhe um garrote. Trata-se do mais elementar dever de
ajudar o próximo em situações de desastre. Com isso não estava a tomar partido
de ninguém ou a ajudar alguma das forças militares. Estava tão somente a ajudar
civis.
«Éramos um pouco piratas». A certa
altura, acabas por imprimir uns papeis a dizer PRESS e colas no material em
segunda-mão que encontras. Este jornalismo improvisado, sem meios e agarrando
as oportunidades à medida que vão surgindo (como fazes várias vezes ao longo
dos teus oito meses de trabalho) consegue ir mais longe do que o jornalismo
tradicional, que estaciona os repórteres em hotéis longe da frente?
Trata-se mais de vontade do que de
capacidade. De facto, um jornalista de uma grande estação televisiva de um país
como os Estados Unidos pode viajar num carro blindado com seguranças privados e
toda uma equipa que o assessora na produção das reportagens. Mas, ainda assim,
não havia nenhum daquele lado.
Com os nossos parcos recursos, apesar
de haver naturalmente dinheiro envolvido porque não é barato arranjar um
condutor, e é justo que assim seja porque aquela gente está a arriscar-se como
nós, procurávamos estar onde estavam os acontecimentos. Éramos muito atrevidos,
digamos assim. As minhas reportagens televisivas podiam não ser fartas em
qualidade estética mas a vontade e o empenho em fazer o melhor jornalismo
possível estavam lá.
Foi essa qualidade do Donbass, de
lugar pária, que atraiu este «jornalista outsider»? Habituado a estar no outro
lado, nos bairros de Caracas, em áreas controladas pelas FARC, juntos dos
independentistas bascos e agora nas regiões separatistas da Ucrânia
Sem dúvida. Eu gosto de dar voz a
quem não tem voz.
Oito meses no Donbass depois, ainda
acreditas que «o Jornalismo deve servir para fazer do mundo um lugar melhor»?
Independentemente do estado actual do
jornalismo, continuo a acreditar que deve servir para fazer do mundo um lugar
melhor. Para morder os pés dos poderosos e denunciar injustiças. Para dar aos
cidadãos toda a informação que precisam para construir as suas opiniões e
posições em absoluta liberdade.
Fonte: https://www.odiario.info/bruno-carvalho-ha-situacoes-em-que/
quinta-feira, 4 de janeiro de 2024
Francesca Borri - A guerra de palavras entre colonos e israelitas no sul da Cisjordânia
A guerra de
palavras entre colonos e israelitas no sul da Cisjordânia: “De que lado estás
tu?” “Sei de que lado é que não estou”
CLODAGH
KILCOYNE/REUTERS
Desde 7 de
outubro, agravam-se os confrontos entre colonos e palestinianos - e também
entre israelitas - na Cisjordânia, a parte do território ocupado que a guerra
na Faixa de Gaza faz esquecer. Tomar partido é tudo menos fácil
Francesca
Borri, na Cisjordânia
“Asinagoga
contra a qual atiraram cocktails Molotov era a minha sinagoga. Eu vivi lá. As
paredes onde pintaram estrelas de David, atingidas por pedras e garrafas, eram
as paredes dos cafés, das ruas que eu frequentava. Acima de tudo, senti
solidão. Nunca me perguntaram como estava. Se conhecia algum dos mortos, ou dos
reféns. Ninguém. E se eu falasse do 7 de outubro, respondiam-me logo com Gaza.
Como se o ataque do Hamas fosse não só uma reação à ocupação, como a reação
certa. De repente, percebi que Berlim já não era a minha casa. Na verdade,
nunca foi.” Há cinco anos, Ayala Odenheimer, de 31 anos, mudou-se para a
Alemanha, país de origem da sua família. Após o aumento do antissemitismo a
seguir ao ataque de 7 de outubro, decidiu regressar a Israel.
Não voltou a
Jerusalém, sua cidade-natal. Foi diretamente para Masafer Yatta, a sul de
Hebron, uma das zonas mais concorridas da Cisjordânia. Aqui os colonos são dos
mais extremistas, e sempre houve confrontos, até hoje. Só que agora é
diferente. Cada vez mais israelitas chegam de todo o país para proteger os
palestinianos. Fazem turnos. Não são ativistas nem têm uma organização atrás
deles. É tudo passa-palavra. Vai um, vem outro.
Masafer Yatta é
um daqueles pedaços de mundo onde a vida parece um relatório da Amnistia
Internacional. Em árabe, significa “nada”. Não é mais do que um encadeado de
montes de terra e areia, polvilhada de sarças e cabanas de pastores, esparsas e
isoladas. Não há melhor presa para os colonos.
Em 1983,
Masafer Yatta tornou-se a Zona de Tiro 918, sob os militares. Hoje, pende sobre
cada casa e cada um dos seus cerca de mil habitantes uma ordem de demolição. A
partir de 7 de outubro, tudo se tornou mais difícil. Os colonos disparam à
vista.
SE FALHA A
SEGURANÇA, FALHA TUDO
“É tudo muito
complicado. Sempre me opus à ocupação e nunca imaginei, um dia, estar grata ao
exército, mas o certo é que em Gaza as Forças de Defesa de Israel [IDF] também
arriscam o pescoço por mim. É que somos todos alvos, independentemente das
nossas opiniões”, afirma Sharon Kasper, de 23 anos, rastas e capuz. “É um pouco
como regressar a 1948, à casa de partida. Totalmente vulneráveis. Israel nasceu
para evitar novo Holocausto. Para um judeu, a essência do Estado é a segurança.
Se ela falha, falha tudo. O 7 de outubro minou a própria ideia de Israel.”
“Sei que é
contraditório, mas a verdade nunca é a preto e branco”, prossegue Kasper. “A
verdade é que temos de vencer nas duas frentes. Se não estivesse aqui, ia para
Gaza.”
O objetivo não
é só defender os palestinianos. Antes de mais, é confrontar os colonos com
israelitas como eles, em vez dos muitos ativistas estrangeiros que regularmente
passam por Masafer Yatta: falar com eles, e em hebraico.
“A questão dos
colonatos vai definir o nosso futuro, mais do que qualquer outra. No fundo,
isto é connosco”, afirma Yigal Bronner, de 54 anos, professor de sânscrito na
Universidade Hebraica. “O mundo vai aplaudindo das bancadas, torce por um lado
ou pelo outro e dispõe-se a justificar tudo, mais fundamentalista do que o
maior dos fundamentalistas. E isso só faz mal. Aqui, ninguém apoia Netanyahu,
mas ninguém está contra Israel. Pelo contrário, estamos contra Netanyahu
precisamente por apoiarmos Israel.”
As IDF arrastam
um francês algemado. E tudo por causa de uma publicação no Facebook, denuncia
um espanhol que viu tudo. Chama-lhes “fascistas”. O francês não escreveu nada
de especial, mas uma análise mais demorada mostra que ao escrever “colonos”
está a referir-se a todos os israelitas e não apenas aos que moram nos
colonatos. E no dia 7 de outubro elogiou e vitoriou o Hamas.
Estão dias
gelados e nevoeirentos. Chove e a água entra pelas casas. Susiya é um de 13
bairros que sobram, mas os seus prédios, várias vezes demolidos e
reconstruídos, já não são propriamente casas. Placas de betão e metal, montadas
com contraplacado, poliestireno e juta, a partir de restos de habitações, sem
eletricidade sequer. Dorme-se no chão, ao lado de um braseiro que é um barril
cortado ao meio, enferrujado e cheio de lixo em vez de lenha.
Os colonos
estão por toda a parte e fogem ao controlo. Atacam cada cabana, uma a uma,
vezes sem conta. Os israelitas nunca deixam os palestinianos em paz. Passam o
tempo sob luz ténue, falando uns com os outros em hebraico e árabe. A maior
barreira não é a política nem a religião, antes a língua.
PARA OS
COLONOS, TUDO
“Antes dos
acordos de Oslo, era normal vir à Cisjordânia ou ir à praia em Gaza. Hoje é
proibido. Há o muro”, afirma Hagai Livne, estudante de matemática de 23 anos.
“Muitos israelitas também gostariam de ver Ramallah, tal como os palestinianos
queriam ir a Telavive.”
“Sei que não
basta vir aqui. Não me sinto absolvido. Já a guerra estava em curso quando
foram atribuídos 43 milhões de dólares [39 milhões de euros] aos colonatos. O
Estado gasta três vezes mais com um colono do que com qualquer outro cidadão, e
com os meus impostos. Por vezes digo-me que trabalho cinco dias por semana para
os colonos, e dois contra eles. E compreendo quem diz que quem é israelita é
cúmplice”, explica Ze’ev Matar, arquiteto de 56 anos. “Nos Estados Unidos ou na
Europa, apoia-se sempre a ocupação. É um conflito que nos implica a todos, cada
um desempenha um papel.”
“Não é mesmo
possível classificar ninguém, de ambos os lados”, defende Ariel Cohen. “Daí que
isto seja tão complexo. Ninguém é 100% inocente nem 100% culpado.” Tem 35 anos,
como Hayim Katsman, com quem vinha aqui frequentemente, e que foi assassinado
no kibbutz Holit.
Admite ter
muitas dúvidas. “O verdadeiro problema virá mais tarde, quando a guerra acabar.
É claro que o Hamas é o inimigo, mas, e os outros? Os outros palestinianos, com
quem vamos a manifestações, os que são daqui. Nenhum condenou o 7 de outubro,
nem mesmo os que defendem um único Estado. Por isso pergunto-me: e se isto não
passar de uma tática, de uma armadilha para se tornarem maioria e nos apagarem?
Que querem eles, afinal?”. Lá fora, ladram cães, atentos a qualquer sombra,
qualquer brisa. Aqui não há mais nada: cães e a voz difusa vinda de walkie-talkies,
que toda a gente usa para fazer de sentinela, alertando para rusgas, pilhagens,
ataques. Não há descanso, nem aqui nem no resto da Cisjordânia.
Jenin foi
bombardeada há pouco. Três mortos em Nablus, um em Ramallah.
“DE QUE LADO
ESTÁS TU?”
Por volta da
meia-noite, calha de novo a Susiya. Sete colonos saltaram da escuridão, de M16
ao ombro, e partiram tudo quanto encontraram. Quando ouvem hebraico, ficam
baralhados. “Quem são vocês, porra?”, pergunta um deles, chocalhando um
israelita. Outro deixa-se estar no caminho. “Só tenho este país, e não vou
deixar-vos fazerem outro 7 de outubro”, garante. “O 7 de outubro foi culpa
vossa, e foi pior do que o 11 de setembro. Não vos basta?”, responde o colono,
atacando-o. “E a guerra de Gaza, é o quê, à proporção? Hiroxima?”, replica o
israelita.
“Quando
acabarmos o trabalho em Gaza vimos ter convosco!”, promete o colono, enquanto
um palestiniano se esconde atrás do israelita. “É com ele que estou a falar!”,
grita o colono, apontando para o israelita, e agora é este que se esconde atrás
do palestiniano, que apanha com cuspo na cara.
“Cabrão!”,
grita-lhe o colono. “Amigo das crianças!”, berra, em referência a um vídeo que
circula desde o dia 7 de outubro, e que mostra um jiadista a dar água a um
rapazinho de um kibbutz, cujos pais acaba de matar, enquanto assegura que o
Hamas respeita as crianças. Esse filme ainda é dos mais populares entre os
palestinianos. “De que lado estás tu?”, pergunta o colono ao israelita, que
entretanto liga para a polícia. Fica em silêncio um momento, hesita e diz: “Sei
de que lado é que não estou”.
2024 01 04
domingo, 14 de maio de 2023
Maria Lopes - A nova vida de Jerónimo no PCP é o regresso ao ponto de partida: a Constituição
* Maria Lopes
14
de Maio de 2023
Ex-líder
comunista tem evitado aparecer junto de Paulo Raimundo para não lhe tirar
protagonismo. Queria abrandar o ritmo, mas seis meses depois percorre o país
para falar dos valores de Abril
Jerónimo de
Sousa esteve nos desfiles do 25 de Abril e do 1.º de Maio, mas foi sempre
discreto. Nuno Ferreira Santos
Numa tarde de calor antecipado num Abril que devia ser de águas mil,
sabe bem o fresco da pedra do átrio da Academia de Instrução e Recreio Familiar
Almadense. Numa das colunas de mármore verde, alguém colou uma folha com
Florbela Espanca: "Ser poeta é ser mais alto, é ser maior/ Do que os
homens! Morder como quem beija!/ É ser mendigo e dar como quem seja/ Rei do
Reino de Aquém e de Além Dor!" À frente das várias filas de cadeiras, uma
mesa com três cadeiras, uma bandeira
do PCP - a única que se verá na sala – e a nacional.
Há muita gente
reformada, todos conhecem alguém, vêm em casal como para um passeio de fim de
tarde, há mães com crianças irrequietas, jovens em pequenos grupos. Cinco
minutos depois da hora marcada, já estarão ali cerca de 150 pessoas quando
entra pelas portas de alumínio e vidro Jerónimo de Sousa, seguido
pelo ex-deputado João Oliveira, de mochila às costas. Há aplausos mas nem um
"PCP!" se ouve. Os dois antigos
deputados do PCP vêm a Almada falar sobre a Constituição da República
Portuguesa e os valores de Abril.
Jerónimo de
Sousa, eleito deputado à Constituinte, em 1975, conta episódios desse tempo em
que ajudou a elaborar a lei fundamental que pôs por escrito o novo regime
nascido da revolução dos cravos, lamenta as machadadas dos inimigos que o texto
tem levado desde então (sem resistir a duras críticas aos socialistas, a quem o
PCP deu apoio parlamentar durante quatro anos) e avisa para os “ataques antidemocráticos
e reaccionários” que se estão a preparar com a actual (e desnecessária, vinca) revisão constitucional.
Depois, o
microfone passa para a assistência: há quem lamente o aumento do custo de vida,
quem queira ver a Constituição
distribuída nas escolas, e quem aproveite para saudar "o operário que
ajudou a fazê-la". "Lá porque se é operário podem fazer-se coisas
muito mais importantes que os professores e doutores", aponta Rita
Magalhães, que já trabalhou com os eurodeputados comunistas, elogiando
Jerónimo, que foi secretário-geral
do PCP durante 18 anos.
E ainda quem
defenda ser importante tê-la em casa "para de vez em quando irmos lá ver
os nosso direitos e deveres" - ideia que João Oliveira aproveita a seguir
para defender que o principal papel de qualquer comunista ou democrata é exigir
o cumprimento da Constituição.
No final,
muitos camaradas o cumprimentam. "Hoje vou fazer uma coisa que ando há
anos para fazer", anuncia-lhe Maria Eugénia Paulitos. Jerónimo de Sousa
arregala os olhos e fica na expectativa. A antiga funcionária da Câmara de
Almada pede-lhe "dois beijinhos". E ele dá uma gargalhada.
"Álvaro Cunhal era único, mas Jerónimo é homem grande. Hoje vou
feliz", haveria de dizer depois ao PÚBLICO já o ex-líder do PCP fora
embora.
Quando nos vê,
Jerónimo abre um sorriso, mas faz um movimento com o corpo como que a
esquivar-se. Não quer falar, aponta para João Oliveira. "Ele que
fale." Não, não, obrigada. Era mesmo saber de si que queria. Jerónimo
ainda olha para o camarada do apoio que está mesmo ao seu lado… mas não, não quer
mesmo falar. Dá-nos uma palmadinha do ombro e o habitual “saúde!” e
esgueira-se.
Tem sido assim
em praticamente todo o lado onde é abordado pelos jornalistas. Desde que saiu
da liderança do partido, fez este sábado, dia 13, seis meses, só uma vez
aceitou falar às televisões - na manifestação da CGTP contra o aumento do custo
de vida, em meados de Março. Mas participou na da administração pública junto
do Parlamento; esteve no desfile do 25 de Abril na avenida e no do primeiro de
Maio.
São aparições
discretas, normalmente longe do actual secretário-geral
comunista Paulo Raimundo, como que evitando ao máximo retirar-lhe qualquer
protagonismo. No partido não se admite que haja alguma intencionalidade, que é
mesmo Jerónimo quem não pretende qualquer palco e prefere o recato.
Desde o início
do ano, Jerónimo e Oliveira estiveram juntos no Porto (onde arrancou este
périplo constitucional dos comunistas), em Évora, Coimbra e Faro. O antigo
líder comunista esteve também, sozinho, em Braga, Portalegre e Lisboa. Na
capital, acompanhou a Constituição e os valores de Abril com uma feijoada, num
almoço de domingo com o sector dos seguros no centro de trabalho de Alcântara.
A dinâmica da
agenda de Jerónimo de Sousa anda também um pouco ao sabor do ritmo das
actividades dos muitos centros de trabalho, das concelhias ou direcções
regionais que o querem ter por lá - de Norte a Sul. Participou em diversos
almoços de aniversário
do PCP (que se assinalou a 6 de Março) e é certo que a sua presença ajudar
a mobilizar os camaradas.
Para quem
queria (e devia) abrandar o ritmo, a vida não está assim tão diferente. Nem tão
calma como deveria aos 76 anos e pouco mais de um ano depois de uma operação a
uma estenose carotídea. Jerónimo está mais magro, mas com um ar menos fechado,
mais leve.
É certo que agora
não há a correria entre a sede do partido, o Parlamento (onde
esteve 40 anos) e as muitas iniciativas que as organizações locais do PCP
organizam todas as semanas, nem as reuniões da comissão política e do
secretariado do Comité Central. Mas Jerónimo vai quase todos os dias à Soeiro
Pereira Gomes, onde costuma também almoçar e até fumar um cigarro com Raimundo
na varanda - não é fácil cortar, de repente, com a lufa-lufa de comunista.
Mas por vezes
já tem que ser Jerónimo a pedir um travão aos camaradas em tanta solicitação. É
que pelo menos os fins-de-semana continuam a ser quase todos com agenda. Ainda
este sábado esteve numa sessão pública na Marinha Grande – o mesmo sítio onde
fez o seu último discurso como secretário-geral, em Novembro, e evocou
Álvaro Cunhal.
domingo, 4 de dezembro de 2022
Bruno Carvalho: «Nenhum jornalista é mais imparcial por esconder as suas convicções»
Bruno Carvalho: «Nenhum jornalista é mais imparcial por
esconder as suas convicções»
AbrilAbril
POR JOÃO MANSO PINHEIRO 4 DE DEZEMBRO DE 2022
De regresso do Donbass, onde trabalhou nos últimos
meses, Bruno Carvalho falou ao AbrilAbril sobre
o papel do jornalista em situação de guerra, os perigos a que se
sujeitou e a ausência de pluralidade na comunicação social.
Numa cena do documentário Salvador, Itália (2018),
Nanni Moretti entrevista um torturador chileno, preso pelos crimes cometidos
durante a ditadura de Pinochet. Sendo confrontado pelo torcionário pela forma
tendenciosa como estaria a conduzir a conversa, Moretti, embora dê todo o
espaço para o torturador afirmar tudo o que lhe interessa, esclarece
rapidamente: Ele, o realizador, o homem, não é imparcial.
Nanni Morreti não renunciou à parcialidade.
Foi o ponto de partida para a conversa com Bruno Amaral de
Carvalho, jornalista que passou seis dos últimos nove meses na região do
Donbass, a cobrir os efeitos devastadores da guerra na Ucrânia nestas
populações, martirizadas por oito longos anos de guerra civil, bombardeamentos
e milhares de vítimas.
Das fornalhas de Azovstal, em Mariupol, aos massacrados
bairros de Donetsk, das movimentações relâmpago das tropas ucranianas e russas
na região de Luhansk aos referendos promovidos pelas autoridades pró-russas nas
quatro províncias anexadas, Bruno Carvalho não foi apenas o único jornalista
português a acompanhar, de perto, a guerra no Donbass. Foi um de poucos
jornalistas europeus que se recusou a ceder ao unanimismo prevalente nas
redacções.
Um jornalista tem de abdicar das suas convicções para cumprir
correctamente as suas funções? O código deontológico exige um trabalho
independente, mas nunca imparcial ou que atente contra a consciência do
jornalista...
Todas as pessoas têm convicções, incluindo os jornalistas. Eu
prefiro o Joe Strummer ao Sid Vicious, gosto mais de García Márquez do que de
Vargas Llosa, sou mais Maradona do que Pelé, prefiro Gillo Pontecorvo a Steven
Spielberg. Cada um de nós traz um mundo dentro de si.
Resistência
antifascista em Donbass
Nenhum jornalista é mais independente ou imparcial por
esconder as suas convicções. Por isso é que há um conjunto de ferramentas
jornalísticas para contornarmos o mais possível a influência das nossas
escolhas no nosso trabalho. Até porque há outros factores no jornalismo que
também têm influência nas nossas abordagens aos acontecimentos. Por exemplo, a
linha editorial, que depende muito das convicções e dos interesses de quem
financia os meios de informação.
Eu nunca escondi as minhas convicções porque sou um cidadão
consciente dos seus direitos e disposto a exercê-los também como forma de os
defender. Os jornalistas não têm menos direitos do que o resto da população.
Felizmente, tive um grande jornalista como professor que
dizia aos seus alunos que o primeiro objectivo de quem trabalha na imprensa
deve ser a ambição de mudar o mundo. Nesse sentido, o Oscar Mascarenhas
valorizava os alunos que tinham uma vida cívica activa, fosse em teatros,
associações desportivas, humanitárias ou políticas. Vivemos num mundo que nos
quer impôr a não política. Ou seja, a ideia de que a política deve ser
exclusiva dos que exercem cargos políticos e a democracia quer-se fechada nas
instituições, com cidadãos cada vez menos activos e incómodos.
Faz-me confusão que haja quem ache que os jornalistas devem
abdicar dessa intervenção enquanto cidadãos na vida colectiva. Sobretudo quando
houve vários jornalistas que o fizeram. Recordo o caso do Mário Mesquita, do
Alfredo Maia, da Carla Castelo e de tantos outros. A Comissão da Carteira
estabelece algumas incompatibilidades, não apenas no exercício da actividade
política, e apenas cargos a tempo inteiro são incompatíveis com o jornalismo.
Acabaste por te tornar mais notório do que muitas
das tuas reportagens. Não é uma posição desconfortável para um jornalista,
que supostamente não devia ser notícia?
Isso aconteceu, sobretudo, quando diferentes figuras me
atacaram, como a ex-candidata presidencial Ana Gomes, a jornalista Fernanda
Câncio, o secretário de Estado João Galamba, a escritora Inês Pedrosa, entre
outros. O Correio da Manhã fez eco dessas acusações, assim
como a revista Visão. Admito também que, para alguns
jornalistas, o facto de eu ser um outsider os tenha deixado
desconfortáveis. De repente, alguém que nunca esteve nos principais meios
portugueses publicava reportagens no Público e na CNN.
Devido a esses ataques, o Público, com o qual
tinha um compromisso verbal, apenas me comprou uma reportagem. Essas pessoas
tentaram desacreditar-me e eu não podia ficar calado. Houve acusações,
colando-me à ideia de eu que era putinista ou pró-russo, que num contexto de
guerra são perigosas. Imagina que eu era capturado pelas forças ucranianas e
que esses soldados compravam essas acusações contra mim.
Ainda assim, recebi muitas mensagens de solidariedade de
muita gente, incluindo jornalistas, mas o Sindicato dos Jornalistas evitou
defender-me. Houve vários jornalistas com muitos anos de experiência que me
disseram que nunca viram nada assim.
Naturalmente, tive de assumir publicamente a minha própria
defesa, assumindo um destaque que nunca me foi confortável, quando a única
coisa que queria era dedicar-me, de forma plena, ao meu trabalho no
Donbass.
Porque é que achas que, num estado de
direito democrático, com uma imprensa livre e plural, as
redacções tenham tomado a opção consciente de rejeitar qualquer
investigação a um dos lados de uma guerra na zona do Donbass?
Repara, ao longo de todos estes meses foram vários os
jornalistas portugueses e estrangeiros que me contactaram para os ajudar a
entrar no Donbass. Eles queriam. Em vários desses casos, as direcções de
informação não os deixaram ir. Portanto, há, desde logo, uma intencionalidade
em cobrir apenas um lado da guerra, o que deixa a descoberto a excepcionalidade
da CNN. Até agora, nas últimas décadas, estes meios sempre tiveram
repórteres no lado do invasor. O problema é que agora o invasor não se chama
Estados Unidos da América.
Agora, nunca me verão dizer que não deve haver jornalistas no
lado controlado pela Ucrânia. Essa é a grande diferença.
Hoje, jornalistas como Kapucinsky, Hemingway ou Robert Fisk
são vistos como exemplos. O primeiro escreveu um grande livro sobre o trabalho
que fez quando acompanhava a guerra civil em Angola, no lado controlado pelo
MPLA, o segundo esteve no lado republicano da guerra civil espanhola e o
terceiro fez uma entrevista ao Bin Laden. Entrámos num nível tal de controlo
editorial e político, onde encaixo a proibição de canais russos na Europa, que
são vários os meios que rasgaram de forma aberta e pública as antigas
declarações de amor à objectividade e imparcialidade.
Sob a acusação de ser um espião russo, prenderam um
jornalista basco na Polónia [Pablo González, colaborador frequente do Público espanhol
e ao serviço do La Sexta TV, está preso há mais de 9 meses,
sem julgamento] quando cobria a crise dos refugiados e ninguém parece
demasiado preocupado com isso. Voltámos à guerra fria e ao maccarthismo.
Como analisas a cobertura da guerra feita pelos orgãos
noticiosos portugueses? Notas algum contraste em relação a outros meios mainstream europeus?
Não. Em geral, seguem a mesma linha. Há excepções, contudo.
Por exemplo, três canais italianos, incluindo a RAI, tiveram
repórteres no lado controlado pelos russos. A Grécia também. De resto, há uma
informação muito uniforme, o que não deixa de ser curioso.
Durante muitos anos justificava-se essa uniformidade porque a
maioria dos meios não queria gastar dinheiro a enviar jornalistas para
determinados cenários de guerra. Então, todos compravam as mesmas reportagens
das principais agências. Agora, houve uma aposta muito grande em enviar
repórteres mas a abordagem é praticamente igual em todo o lado. Algo que falta
muito e, parece-me intencional, é a ausência de contexto.
O objectivo é claro: que não haja uma leitura histórica do
conflito.
As populações de Donetsk, Mariupol, estranhavam a tua
presença? Em certo momento eras dos únicos jornalistas a trabalhar na
região. Com tão pouca presença mediática europeia, não estranhavam um
português? Estavam satisfeitas por alguém as ouvir?
Houve um momento em que era o único repórter a trabalhar para
meios ocidentais em todo o lado controlado pelos russos. Não olho para isso
como um feito mas como uma tragédia. É a morte do jornalismo.
Naturalmente, havia muita surpresa e também desconfiança. Afinal
de contas, eu venho de um país cujos impostos são usados também para financiar
as armas que matam civis em Donetsk. No Hospital de Traumatologia da cidade,
houve vários pacientes que se recusaram a falar comigo por isso mesmo, por ser
um jornalista de um país da NATO. Numa reportagem num mercado, houve uma idosa
que gritou comigo e outro repórter acusando-nos de sermos responsáveis pelo que
lhes estava a acontecer. Mas aconteceu em muitas ocasiões o contrário,
entendendo o nosso trabalho, agradecendo e até encorajando.
Em Mariupol, a situação era tão desesperante que nos pediam
ajuda para comunicarmos com familiares a viver no estrangeiro. Ali, até de
enfermeiros fizemos para salvar a vida a uma idosa que apanhou com os
fragmentos de uma mina anti-pessoal. Evitar quase sempre trabalhar em excursões
organizadas pelas forças russas tornava o trabalho mais livre mas também mais
perigoso. Foi um trabalho que exigiu muito tacto e sensibilidade com os civis,
também com os militares, mas creio que a avaliação geral é positiva.
Já trabalhaste noutros cenários de guerra e conflito. Todos
os conflitos são diferentes, mas há alguma características no Donbass que
destaques?
Estive, em 2017, num acampamento das FARC, na Colômbia, num
momento prévio à entrega de armas mas já durante o processo de paz. Havia uma
tensão natural e prosseguiam os assassinatos de líderes sociais. Contudo, era
um contexto totalmente diferente. No ano seguinte, visitei o Donbass e foi o
meu primeiro contacto com a guerra civil que havia começado em 2014. Aí já ouvi
alguns bombardeamentos, mas esporádicos. Apesar da violação constante dos
Acordos de Minsk, havia já um conflito de baixa intensidade.
O que acontece hoje é de uma dimensão totalmente diferente.
Caem cerca de cem projécteis todos os dias em Donetsk. Em média, há mais de um
morto por dia na cidade. Mais de 2 100 feridos desde Fevereiro. E estamos
a falar de uma cidade que não está em disputa, não tem combates terrestres, não
tem homens a combater no seu interior. Mariupol, sim, estava em disputa e foi,
de facto, um inferno. Havia mortos por todas as partes.
Parece-me que é um erro dizer que esta guerra é apenas entre
a Rússia e a Ucrânia. Há milhares de combatentes estrangeiros do lado
ucraniano, armas ocidentais, estrategas militares ocidentais a assessorar
operações, quando não a comandar, Kiev tem o apoio da inteligência dos
satélites ocidentais, etc... Do outro lado, há combatentes das diversas
realidades nacionais da Federação Russa, há os soldados do Donbass a combater
desde 2014, assim como os cidadãos mobilizados desse mesmo território, há o
grupo Wagner... Ou seja, há uma complexa teia diversa de afinidades e
contradições.
Do ponto de vista mais geral, esta guerra representa um
momento histórico de grande significado porque põe frente a frente duas
realidades geopolíticas que se vinham confrontando de forma económica, política
e também militar, mesmo que de forma indirecta, sobretudo no Médio Oriente, em
que o Ocidente vê o seu poder questionado. É ingénuo acreditar que a guerra vai
acabar sem que Washington ou Moscovo tenham uma palavra a dizer. A implicação
do Ocidente é, hoje, tão óbvia que isso tem um preço nas nossas economias.
Como vês a situação actual do Donbass? Depois da realização
de referendos sem particular credibilidade, com enormes migrações internas,
milhões de pessoas a abandonar a região, é expectável uma estabilização da
situação?
A credibilidade dos processos eleitorais há muito que é algo
secundário no contexto internacional. Há uma avaliação subjectiva em função dos
interesses de cada país. O Kosovo tornou-se independente sem referendo, Juan
Guaidó foi reconhecido presidente por muitos países sem qualquer eleição. Isso
parece-me particularmente grave. À luz do que vi, de facto, não foram
referendos que cumprissem aquilo que consideramos serem processos democráticos,
embora não me pareça haver grandes dúvidas sobre a vontade daquela gente.
Basta ver o histórico eleitoral desde 1991 até 2014. Há um
padrão praticamente inalterado de vitórias de forças pró-russas e comunistas.
Toda a gente que entrevistei me disse que pouco lhe importava o não
reconhecimento dos referendos por parte do Ocidente, uma vez que o Ocidente pouco
se importou com a situação destas pessoas nos últimos oito anos. Parece-me que
teria sido um passo para a paz se a Ucrânia e a Rússia aceitassem a realização
de referendos com todas as garantias dando a palavra às populações com
observadores dos dois lados. Não me parece que haja espaço para isso quando
Kiev não cumpriu sequer os Acordos de Minsk em que estava previsto dar
autonomia a estes territórios.
A Ucrânia não vai aceitar nunca a anexação do Donbass e das
restantes regiões, incluindo a Crimeia, e, nesse sentido, a única perspectiva
de estabilização virá com o fim da guerra que dependerá mais de Washington do
que de Kiev. Sozinha, a Ucrânia não tem condições de manter esta dinâmica
militar.
As populações do Donbass fazem ideia da dimensão do apoio à
figura de Zelensky na União Europeia? Nos meios de comunicação, institucionais,
nas redes sociais...
Sim, há essa noção. Para eles, o inimigo não é apenas
Zelensky. São também os Estados Unidos e a União Europeia. E até a ONU é uma
instituição questionada, sobretudo Guterres, acusando-o de declarações
parciais. Há uma visão da Europa, não isenta de preconceitos, em que somos
vistos como individualistas, demasiado apegados ao dinheiro e ao consumo, pouco
dados aos valores da família e da comunidade, pouco solidários e, naturalmente,
somos considerados fantoches dos norte-americanos. Mas também sabem que há
gente que protesta, que não está de acordo com determinadas políticas e que se
mobiliza contra a guerra.
O que me parece grave é que os líderes europeus fazem tudo
para meter gasolina na fogueira como foi o caso de Josep Borrell,
dizendo que a Europa era um jardim e o resto do mundo uma selva.
Isto significa reforçar, no resto do mundo, o antagonismo ao
eurocentrismo e a esta ideia de que a Europa é um oásis civilizacional no
meio dos selvagens.
sábado, 2 de abril de 2022
Bruno Amaral de Carvalho - Os pássaros não cantam em Lugansk
quarta-feira, 5 de maio de 2021
Mariana Durães - Os brasileiros “têm meia língua portuguesa”?
Os brasileiros “têm meia
língua portuguesa”? Quando as palavras são motivo de discriminação
O que o Atlântico separa a língua
portuguesa une. Ou não? Matias foi alvo de chacota por causa do sotaque;
Jullyana foi avisada para fazer um exame em português europeu e a Thalita
disseram que os brasileiros só têm “meia língua portuguesa”. A todos pedem (ou
exigem?) que falem “português correcto”. Mas, no Dia Mundial da Língua
Portuguesa, perguntamos: o que é o português correcto?
5 de Maio de 2021, 8:08
“Por favor, façam o exame em
português de Portugal, porque eu não entendo nada do que vocês escrevem”: a
ordem foi dada antes de um exame do curso de História da Arte, mas não havia
sido a primeira vez que Jullyana Rocha se tinha sentido confrangida por não
falar português europeu.
Antes, quando foi mudar a morada
a uma repartição de Finanças, teve o mesmo problema. “Fui com todos os
documentos e expliquei à senhora que precisava de mudar a morada fiscal.
Tentei-me explicar umas quatro vezes e ela simplesmente dizia que não entendia
o que eu estava a falar. Ainda nem usávamos máscara, por isso não havia nenhum
impedimento”, recorda a brasileira de 25 anos, a viver em Portugal desde 2017.
Não é caso único: os relatos de
brasileiros a viver em Portugal que dizem ser discriminados por “não falarem
português correcto” multiplicam-se nas redes sociais. Na página
de Instagram Brasileiras não Se Calam, por exemplo, em que são
partilhados relatos de xenofobia, é recorrente encontrar denúncias de
discriminação por causa da língua: em situações do quotidiano, nos locais de
trabalho, e, diversas vezes, nas faculdades.
Foi lá que Jullyana e os colegas
brasileiros foram avisados para realizar o exame em português europeu, e foi
esse momento, aliado a muitos
outros de discriminação, que a fizeram sair do curso e optar por estudar
Marketing remotamente, numa universidade brasileira: “Não quis voltar para o
sistema de ensino de aqui.”
Também Matias Guimarães foi alvo
de chacota quando chegou atrasado a uma aula. “Quando entrei na sala, o
professor começou a fazer uma série de críticas e piadas sobre o meu sotaque,
sobre eu ser burro pelo meu sotaque, por não falar direito”, relata. Pelo que
tem ouvido, refere, “há pelo menos um professor em todas as faculdades que
reclama que os brasileiros não falam da maneira mais correcta”. Mas o que é,
afinal, o português correcto?
“A língua pode ter diversas
cores”
“Desde que somos crianças, a
escola diz-nos que certas formas são correctas e outras são incorrectas”,
começa por enquadrar Ronan Pereira, doutorando em Linguística pela Universidade
Nova de Lisboa. Há, no entanto, uma premissa que é importante não esquecer: “As
línguas não são elementos estáticos. Elas variam territorialmente, ao longo do
tempo, de acordo com as classes sociais, etárias... Mas, por algum motivo,
temos na nossa cabeça que a língua é uma coisa só.”
Ora, quando uma criança vai para
a escola, não é possível abordar todas as formas que uma língua pode ter. O
ensino foca-se, então, no ensino da gramática normativa, aquela que nos diz as
regras a seguir para escrever e falar correctamente. É essa gramática que
estabelece o padrão, e é importante que seja ensinada, “porque, se todos
começássemos a escrever como nos apetece, a coisa ficava confusa”, refere o
linguista.
Quando falamos de português
europeu e português brasileiro, estamos a falar de “duas variedades
linguísticas” — o que mostra que “a língua é uma definição algo abstracta e,
neste caso, vemos como a língua portuguesa pode ter diversas cores”. E nem é
preciso atravessar um oceano para encontrar estas variedades: dentro do
território continental encontramos muitas formas de falar português. A
diferença é que “uma pessoa de Évora vai ter muito mais em comum na sua
gramática mental com alguém de Coimbra do que com alguém de São Paulo”.
Os “entraves” linguísticos
começaram a sentir-se no dia-a-dia de Mônica Santos logo desde
que veio para Portugal, há três anos. “Uma atitude quotidiana como ir a uma
padaria era muito difícil, porque o meu simples pedido de um pão era pouco
percebido pelas pessoas, porque não queriam”, conta. “Existia uma certa
necessidade de demonstrar que não estava a falar da melhor forma, era
satirizada”, continua.
Foi também na faculdade que
experienciou situações “mais fortes”. Ainda que seja necessário apresentar uma
declaração de proficiência em língua portuguesa ao ingressar na faculdade, esta
não especifica a necessidade de ser em português europeu. E, quando as aulas
começam, “os professores são bastante críticos na forma como escrevemos
relatórios, trabalhos, etc.”, lamenta. Chegam até a descontar pontos pela
escrita, refere.
“Ouvir dizer todos os dias que
falamos brasileiro em vez de português é o mesmo que dizer que nos Estados
Unidos se fala ‘americano’ e que na Austrália se fala ‘australiano’, quando na
verdade todos falam a língua inglesa.”
Alguns portugueses “olham com estranheza”
quando Thalita Meros diz que dá aulas de Português. A viver em Portugal desde
2019, veio fazer mestrado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e,
como já tinha experiência em dar aulas no Brasil, começou a dar aulas
voluntariamente a estrangeiros em Portugal. Quando alguns alunos lhe dizem que
“não querem aprender português brasileiro”, a professora de 38 anos explica que
“não funciona assim”, que há materiais didácticos e que “a regra é comum para
todos”.
“O português é uma língua
multicultural. As pessoas que vão para a minha aula vão ouvir o sotaque do
português de Portugal todos os dias na rua, vão acabar por pegar um pouco”,
afiança. Mas pergunta: “Que estrangeiro fala realmente com o sotaque português de
Portugal? Se ensinar português a um espanhol, ele vai falar com o sotaque
espanhol.”
Também ela já viveu situações de
preconceito por causa da língua. Numa ida ao Serviço de Estrangeiros e
Fronteiras, quando teve de indicar o número de telemóvel, disse “meia”, em vez
de “seis”, como é comum no Brasil. Do outro lado ouviu: “Os brasileiros têm
meia língua portuguesa.”
A globalização da língua
portuguesa “traz muitos desafios”, começa por dizer Patrícia Ferraz de Matos, antropóloga e investigadora auxiliar
no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. “Em primeiro lugar,
porque o português que se fala em vários continentes não é exactamente o mesmo
e tem muitas variantes — nacionais, regionais e locais. Em segundo lugar,
porque este movimento para criar um Dia da Língua Portuguesa não se centra apenas
nesta e parece querer estender-se a outros fenómenos culturais, ou seja, parece
ser mais ambicioso.”
E porque não olhar para essas
variantes como um factor de enriquecimento? Afinal, como relembra a
investigadora, “é devido ao Brasil e ao seu tamanho que o português é hoje uma
das cinco línguas mais presentes no espaço digital”.
Também inserida no espaço
académico, a antropóloga refere que, “embora o português do Brasil seja
admirado na literatura” (veja-se “a riqueza do vocábulo dos livros de Jorge
Amado, por exemplo”), o mesmo não acontece nas aulas ou avaliações. No
doutoramento em Antropologia, onde é docente, aceita teses escritas em
português do Brasil ou português africano, por exemplo. Mas nem sempre é assim,
como a experiência de Jullyana mostra.
A variedade mantém a língua
viva
Mas de onde vem, afinal, a ideia
de que o português do Brasil não é correcto? “Durante o processo evolutivo do
português brasileiro, surgiram formas coloquiais que são violações à gramática
mental dos falantes de português europeu”, explica Ronan Pereira. Um exemplo:
“Eu vi-o”, como diz um português, versus “eu
vi ele”, dito por um brasileiro. “Para a gramática mental de um português, [a
segunda formulação] soa mal, mas isso não quer dizer que o falante de português
brasileiro fale mal. Ele fala a sua variedade, que tem essa estrutura.”
Na verdade, quanto mais
portugueses e brasileiros se aproximarem da norma gramatical — ou, por outras
palavras, quanto mais correctamente falarem —, mais próximos ficam. Se assim
fosse, “teríamos sotaques diferentes, o que é completamente natural e acontece
em todas as línguas, mas a questão estrutural seria basicamente a mesma”,
explica o linguista. “A regra é comum para todos”, acrescenta Thalita.
“Alguns dos preconceitos actuais
podem ainda ser resquícios do passado”, refere Patrícia Ferraz de Matos. Podem
estar relacionados “com as várias influências que o português do Brasil
recebeu”. “É como se o português do Brasil fosse menos puro do que o português
europeu, ao qual se associa por vezes uma identidade própria, associada à
antiguidade do país na Europa, à sua permanência como país independente ao
longo de vários séculos, sem nunca se ter subjugado ao poder (e língua)
espanhol”, contextualiza.
A herança cultural, marcada por
séculos de colonialismo, é, para Matias Guimarães, a principal justificação
para esta discriminação. “Sinto que existe uma parcela da população portuguesa
que vê as ex-colónias como inferiores de diversas formas”, atira. E essa
percepção é generalizada. “Os mais velhos têm um sentimento de nacionalismo
muito forte, acham que estamos para reconquistar o que nos foi tirado na época
dos descobrimentos, como já ouvi muitas vezes”, refere Jullyana.
Thalita chama-lhe “saudosismo da
língua”. Acredita que o pensamento comum é, muitas vezes, este: “Eu levei a
língua para esse país e eles estragaram-na, deviam mantê-la como é aqui.” Ou,
em forma de pergunta, como já fizeram a Mônica: “Quem é que inventou a língua?”
Esse saudosismo, acredita
Thalita, poderá estar prestes a acabar, com ajuda das gerações futuras. “Os
alunos de hoje já têm questões sobre a variação linguística nos seus manuais”,
afirma. “A variação agrega muito. Tem algumas palavras que são diferentes? Tem.
E isso só vai acrescentar”, atira. Patrícia Ferraz de Matos vai mais longe: “É
talvez essa riqueza que mantém a língua viva — a de um conjunto diversificado
de pessoas que a utiliza há vários séculos, mas que a vai adaptando e fazendo
evoluir.”



