Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge Amado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge Amado. Mostrar todas as mensagens

sábado, 25 de agosto de 2018

Jorge Amado Quando e o que servir em velório de defunto

* Jorge Amado

«QUANDO E O QUE SERVIR EM VELÓRIO DE DEFUNTO
(Resposta de Dona Flor a pergunta de uma aluna)

Nem por ser desordenado dia de lamentação, tristeza e choro, nem por isso se deve deixar o velório correr em brancas nuvens. Se a Dona da casa, em soluços e em desmaio, fora de si, envolta em dor, ou morta no caixão, se ela não puder, um parente ou pessoa amiga se encarrega então de atender à sentinela pois não se vai largar no alvéu, sem de comer nem de beber, os coitados noite adentro solidários; por vezes sendo inverno e frio.

Para que uma sentinela se anime e realmente honre o defunto a presidi-la e lhe faça leve a primeira e confusa noite de sua morte, é necessário atendê-la com solicitude, cuidando-lhe da moral e do apetite.

Quando e o quê oferecer?

Pois a noite inteira, do começo ao fim. Café é indispensável e o tempo todo, café pequeno, é claro. Café completo, com leite, pão, manteiga, queijo, uns biscoitinhos, alguns bolos de aipim ou carimã, fatias de cuscuz com ovos estrelados, isso, só de manhã e para quem atravessou ali a madrugada.

O melhor é manter a água na chaleira para não faltar café; sempre está chegando gente. Bolachas e biscoitos acompanham o cafezinho; uma vez por outra uma bandeja com salgados, podendo ser sanduíches de queijo, presunto, mortadela, coisas simples pois de consumição já basta e sobra com o defunto.

Se o velório, porém, for de categoria, dessas sentinelas de dinheiro a rodo, então se uma xícara de chocolate à meia noite, grosso e quente, ou uma canja gorda de galinha. E, para completar, bolinhos de bacalhau, frigideira, croquetes em geral, doces variados, frutas secas.

Para beber, em sendo casa rica, além do café, pode haver cerveja ou vinho, um copo e tão somente para acompanhar a canja e a frigideira. Jamais champanha, não se considera de bom-tom.Seja velório rico, seja pobre, exige-se, porém, constante e necessária, a boa cachacinha; tudo pode faltar, mesmo café, só ela é indispensável; sem seu conforto não há velório que se preze. Velório sem cachaça é desconsideração ao falecido, significa indiferença e desamor.»


~~~~~~~~~~~~~~~~
O romance Dona Flor e Seus Dois Maridos, publicado em 1966 por Jorge Amadoé um retrato rico da vida de Salvador da Bahia, do seu quotidiano, fé e sabores.

https://nabodegablog.wordpress.com/tag/dona-flor-e-seus-dois-maridos/

GRAVURA - Dona Flor e o cochilo de Teodoro, de Murilo Ribeiro para Leilão de Arte Contra a Fome (2017)
Obras de 13 artistas, como Justino Marinho, Chico Mazzoni, Menelaw Sete, Roney George, J. Cunha e Murilo Ribeiro, serão leiloadas, hoje, em evento para convidados, na Casa do Sol, estúdio de Verão da Rede Bahia. O Leilão de Arte contra a Fome terá renda revertida integralmente para a Campanha Carnaval Sem Fome.
http://www2.correio24horas.com.br/detalhe/coluna-vip/noticia/vip-13-artistas-participam-de-leilao-com-renda-revertida-para-campanha-carnaval-sem-fome/?cHash=1e9bde775462aaa66d59e757d1d14f7f

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A Morte e a morte de Quincas Berro D'água

14 de Dezembro de 2015 - 11h35

A Morte e a morte de Quincas Berro D'água
Jeosafá Fernandez *

Lançado em 1961 com amplo acolhimento de leitores e críticos, a novela A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água tornou-se uma das obras de Jorge Amado mais festejadas, editadas e adaptadas para o cinema e a televisão. Em artigo escrito para o jornal Última Hora, do Rio de Janeiro, em 1959, que passou acompanhar a título de prefácio as seguidas reedições, Vinicius de Moraes considera-a uma obra prima do autor: “Em dois tentos simples, Jorge Amado acaba de escrever o que para mim é o melhor romance e a melhor novela da literatura brasileira: Gabriela, cravo e canela e A morte e a morte de Quincas Berro D’água”.

 Nessa novela curta, o autor articula a natureza popular das personagens com um enredo à beira do fantástico e uma linguagem enxuta, porém ambígua, agradável e leve. Nela, o previsível funcionário público Joaquim Soares da Cunha, marido, pai e cidadão cumpridor de seu papel social de burocrata estabilizado na sociedade, aos cinquenta anos joga tudo para alto, se entrega à boêmia e passa à perambulação, ébrio e em andrajos, pelas ruas da Bahia. Numa das bebedeiras, ganha o apelido que o acompanhará além da morte: Quincas Berro D’água. A novela se inicia com seu cadáver em farrapos já estendido em um quarto insalubre de um beco baiano.

Na morte de Quincas, os parentes enxergam a oportunidade de resgatar no meio social o nome da família, maculado por suas orgias e por sua vida escandalosa. Para tanto, organizam um funeral à altura de um verdadeiro e honrado um ex-funcionário público.

No entanto, visitado em seu velório por antigos amigos de fuzarca (Curió, Negro Pastinha, Cabo Martim e Pé de Vento), que veem no ricto estampado no rosto do cadáver um sorriso folia, Quincas termina sequestrado por eles e arrastado pelas ruas da Bahia em uma espécie de despedida gloriosa, hilária e pândega do mundo dos vivos.

A confusão se instaura, pois enquanto uns o juram morto, outros o veem passeando de braços dados com os companheiros de boêmia, entre gargalhadas e cusparadas de cachaça. A esbórnia se encerra no barco de Mestre Manuel, onde os amigos cumprem a suposta vontade do morto, levando-o festa em pleno mar, ocasião em que um violento temporal se abate sobre o barco e encapela as águas, para onde o debochado Quincas resvala para sempre, enterrando no mar, consigo, a chance de a família ajustar contas com o falso verniz da sociedade.

Nesse destino de Quincas Berro D’água há uma certa metáfora do projeto literário do próprio Jorge Amado, que, à literatura enfatiotada e blasé, que sempre combateu, preferiu os personagens populares, os enredos apoiados na realidade dos trabalhadores e a crítica social – em que o humor se foi insinuando progressivamente ao longo da carreira do autor.


* Jeosafá é Doutor em Letras pela USP. Tem, entre seus mais de 50 títulos, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X e o ciclo de romances paulistanos Era uma vez no meu bairro (Zonas Norte, Sul, Leste e Oeste).

http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=7410&id_coluna=150

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Domingos Lobo - Os capitães da areia, de Jorge Amado

.

  • Domingos Lobo 


A grande literatura, aquela que expressa as mais lídimas aspirações dos povos, que pugna pela justiça e liberdade face aos opressores, foi sempre um entrave às intenções hegemónicas dos tiranos
A revolução é uma pátria e uma família – a crónica épica dos putos da Bahia, na escrita límpida e sagaz de um grande autor

Avante!



Avô, mesmo que a gente morra, é melhor morrer de repetição na mão, brigando com o coronel, que morrer em cima da terra, debaixo de relho, sem reagir. Mesmo que seja para morrer nós deve dividir essas terras, tomar elas para a gente. Mesmo que seja um dia só que a gente tenha elas, paga a pena de morrer.
In Subterrâneos da Liberdade

Jorge Amado pertence a uma geração de autores brasileiros que produziu, a partir dos anos 1930, uma literatura que começava – depois do fulgor realista de Machado de Assis – a pensar o Brasil fora da herança arcádica do colonialismo, fugindo aos apelos do modernismoe, até, da Renascença Portuguesa em cuja revista Águia poetas como Ronald de Carvalho e Guilherme de Almeida haviam colaborado.
Image 11016

Essa nova geração de poetas e prosadores, de Carlos Drumond de Andrade a Vinícius de Moraes, de Guimarães Rosa a João Cabral de Melo Neto, visava criar uma literatura autónoma face ao legado do romantismo e do realismo portugueses, que fosse, a um tempo, consciente e interventiva, centrada na realidade brasileira e sul-americana, exprimindo uma sintaxe nova mas fugindo ao folclorismo romântico de José de Alencar, e investindo a sua capacidade discursiva na denúncia das escandalosas desigualdades sociais, as misérias e sevícias sofridas pelo povo miúdo, que a crise de 1929 e o avanço, na Europa, do nazi-fascismo tornavam evidentes mesmo num país que tentava, através do discurso hiperbólico de Getúlio Vargas, proclamado pelos seus seguidores comopai dos pobres, manter o Brasil neutral face ao vasto conflito que abalava o mundo. A neutralidade não o impediu, no entanto, de manter clara simpatia pelos países do eixo, de perseguir, com o patrocínio do clero reaccionário, os comunistas e seus companheiros de jornada e de luta.

Já em Macunaíma, o Herói sem Nenhum Carácter, Mário de Andrade esboçava os caminhos de uma provável nova literatura do Brasil, penetrando o âmago, o carácter e psique de um povo que vivia ainda sobre a égide de um feudalismo rapace, das práticas coloniais e que, abolida a escravatura, foram adquirindo outros processos mais subtis mas, na realidade, não menos perversos de sujeição, repressão e miséria, que hoje, em algumas zonas desse Brasil imenso, e ressalvando os progressos sociais alcançados na última década, ainda persistem. Está por fazer, de forma justa, continuada e determinante, uma verdadeira reforma agrária, que sirva os povos mais pobres do Nordeste brasileiro, reforma que a usura demente pela posse da terra, os contínuos atropelos às leis, levados a cabo pelos grandes agrários e pelos interesses que lhe estão associados, transformou numa guerra absurda e sangrenta, feita de batalhas múltiplas mas, também, de amplas e afirmativas solidariedades, dentro e fora do Brasil, batalhas que, nos seus avanços e recuos, têm sido profundamente injustas para os trabalhadores sem terra, estando estes, face à falta de empenho corajoso dos poderes, em vias de perderem esta frente de luta por um país mais próspero, equilibrado e menos desigual.

Foi com esta ideia matricial, a de que a prioridade absoluta tem de ser o ser humano, como escreveu José Saramago, que Jorge Amado publicou, em 1937, o romance Capitães da Areiae transformou a saga desses jovens da Bahia, os mais excluídos entre os excluídos, num hino pungente e inconformado contra o cortejo de misérias e das desigualdades chocantes que o capitalismo, um pouco por todo o mundo, foi gerando. Jorge Amado reflecte a sociedade desse tempo, os finais dos anos 1930, com um olhar assertivo e cru, detecta e denuncia, com dialéctica clareza, fugindo aos chavões da retórica, os gérmenes do problema, definindo-os um a um com corajosa e perspicaz determinação: a ganância extrema, as sinistras teias de um poder corrupto, violento e gizado para defender os poderosos, o clero vergado ao dinheiro, à pompa e circunstância, a grande burguesia detentora de todos os privilégios e das rédeas do Estado (a crítica subliminar ao governo de Getúlio está, apesar de nunca citado, omnipresente, neste romance exemplar), e os fazendeiros broncos e violentos, os novos ricos desse Nordeste imenso, das terras ricas e sofridas do cacau, os coronéis com o seu exército de jagunçose prostitutas e, por fim, mas não menos violenta, a bexiga negraque o Omolu, na sua omnipotência de deus cego, mandou para a cidade sabendo que nela só os pobres morreriam, porque lá em cima, na cidade alta, os ricos se vacinaram. É que os deuses, mesmos os que viajaram até às praias de São Salvador nos porões dos navios negreiros, sabem, na sua irracional candura, que é mais fácil deixar morrer um pobre, mesmo que dele a alma, nos improváveis paraísos siderais, se transforme num pássaro feliz, do que enfrentar a fúria terreal dos ricos.

Estão longe, estes órfãos que passeiam pelas ruas da Bahia a fome e a miséria, o engenho e a arte de furtar para sobreviver, dos meninos de Esteiros de Soeiro, ou do rapaz que olhava deslumbrado os Bonecos de Luz, de Romeu Correia, ou ainda esses líricos e sonhadores João, do José Gomes Ferreira, que começava, neste mundo adverso, a aprender a não ter medo, e o Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, de Alves Redol. Filhos de uma outra realidade é certo, de outras geografias da fome, mas são todos eles, uns mais do que outros, vítimas inocentes e indefesas de um mesmo e perverso sistema.

*

Com Capitães da Areia, caminhamos pelas ruas da Bahia com um punhado de adolescentes aos quais, os tempos e a usura dos homens, não deixaram que fossem meninos: o Professor, que lê livros de aventuras para poder sonhar para além do horizonte de ratos do trapiche; o Volta Seca que renascia numa alegria de Primavera ao ouvir as histórias de Lampião, ao qual se juntará para vingar todas as afrontas do mundo; Sem-Pernas em busca de um naco de ternura que ele sabe existir algures, sonhando se jogar no mar porque no mar os sonhos são todos belos e se deixou morrer num voo sobre a cidade, como um trapezista de circo, para que o não prendessem; oJoão de Adão, que queria fazer a revolução para que todos fossem iguais e os meninos como ele pudessem ir à escola;Dora, irmã, mãe e noiva, que as febres e os maus tratos levaram cedo para os céus de Omolu e se transformou em mais uma estrela brilhando sobre o mar da Bahia; o Gato, no seu tirocínio para malandro ao jeito da ópera de Brecht/Weill na versão carioca de Chico Buarque; Boa-Vida nas margens de outros apelos; o ingénuo e generoso João Grande; Pirulito que se queria puro para merecer Deus, e Pedro Bala, o capitão,sábio e arguto, sonhando ser como o pai, como o Loiro, morto durante a greve dos estivadores, ser valente e danado como o pai que morreu para mudar o destino da gente.

Este Capitães da Areia é, nas palavras de Jorge Amado, um hino do povo da Bahia. A poesia dos pobres vem expressa nesse olhar cúmplice que o autor derrama, com sensível e comedido dramatismo, sobre a vida, as aventuras da sobrevivência, as amarguras da fome e das torturas, dos meninos abandonados nas ruas de São Salvador da Bahia e, ao descrever essa saga que ainda hoje, volvidos 75 anos sobre a sua publicação, a escrita poderosa e a sua actualidade formal, a simplicidade dos processos narrativos utilizados por Jorge Amado para no-la contar, nos arrebata, emociona e revolta. Esse modo novo de utilizar o léxico, que vinha já de País do Carnaval Jubiabá, mas que neste romance ganha uma outra desenvoltura sintáctica, uma coloquialidade que nos faz, leitores formatados por um formalismo sem nervo nem inventiva, integrantes dessa fala, a reconhecer nela um linguajar barroco, tocante e excessivo, que penetra e fecunda a matriz identitária e primeva de uma língua de muitos percursos, de muitos povos, de muitas e desvairadas viagens. Uma língua que, com Jorge Amado, traz o fulgor úbere, criativo e musical do crioulo, que vem das florestas angolanas, das roças de S. Tomé e atravessa a sintaxe dos nordestes ameríndios, dos sertões, do Brasil mais profundo. Para nos contar esta saga, e as outras que tiveram o cenário geográfico das terras do cacau e do candomblé como território privilegiado dos seus romances, precisava Jorge Amado de retirar da língua que nos é comum o surro engravatado, o empertigado laço que por vezes a tolhe e emudece, e manter-lhe o húmus, a água, o sal e o mel tornando-a, também, nossa, levando-a desse modo a percorrer o desmedido, festivo e infrene chão das palavras que o povo tece, como, sobre outras paragens, o fez Aquilino, criando essa girândola, essa monódia única, esse fascínio de muitas línguas misturadas, no dizer de Guimarães Rosa.

O lírico e o fantástico, esse telúrico amor das gentes, da paisagem e das cidades (que os romances posteriores de Jorge Amado tornariam ainda mais evidentes) cruzam-se neste naco de prosa rude e sedutora, a que o compromisso político e a lúcida postura social do autor empresta uma ampla e significativa intervenção de sentido humano e progressista. Esse olhar sobre os espantos, sobre os comportamentos dos filhos dos deserdados, a boca aberta de admiração, vamos encontrá-lo também presente num dos mais belos textos (infelizmente esquecido) de Romeu Correia, Bonecos de Luz e em alguns poemas recolhidos por Maria Rosa Colaço e incluídos no livro A Criança e a Vida.

Se o trágico que perpassa, numa suspensão de lágrima revolta, este texto, lembra, na sua atmosfera, da descrição da miséria que gera a revolta, o poema Domingo, de Manuel da Fonseca, – crónica de uma burguesia que vem para o sol lançar um tostão nas mãos dos pedintes –, e a exortação do poeta para que todos, se acaso o quiséssemos, podermos fazer coisas maravilhosas na vida: os meninos vestidos de trapos deixariam de viver no acaso das ruas; os pintores lúcidos não se suicidariam nos carris; as meninas não se entregariam por uma nota de cem. Se o mudar o destino da gente de Pedro Bala saísse da ficção e se volvesse realidade, certamente o carrossel do Nhozinho França voltaria a ter os seus cavalos pintados de azul e vermelho e as meninas dançariam com os rapazes, sem receio, uma velha valsa feliz tocada por uma velha pianola e tudo seria natural como uma tarde de domingo.

Ao contrário dos poderes e da burguesia baiana de finais dos anos trinta do século vinte, que via nessa centena de adolescentes sem chão o pesadelo maior para as suas noites de digestão suave e descansada, Jorge Amado vê, como nenhum autor antes dele, (nem mesmo Lins do Rego, com o seuMenino de Engenho1 vai tão longe na análise social e na clareza dialéctica da denúncia que o texto de Jorge Amado, corajosamente, expressa) o grupo social que a industrialização, a saída de uma sociedade pós-colonial, o ruralismo arcaico e quase feudal, a incipiente experiência do capitalismo brasileiro, gerado na ressaca da 1ª. Guerra Mundial e o advento do fascismo na Europa, com os fluxos migratórios da Alemanha, Itália e Portugal, começavam, com a perversidade que o sistema consolidaria no futuro próximo, a excluir. A essesdeserdados do progresso, Jorge Amado emprestaria as armas perenes da palavra solidária, atenta e impressiva. Recuperandoas margens, humanizando-as e colocando-as no tempo histórico e social de uma Bahia gerada pela usura, pela cupidez, pela corrupção e pela hipocrisia, Jorge Amado constrói um dos mais inovadores e sensíveis monumentosficcionais de toda a história da literatura.

*

João Luiz Lafetá afirma que a literatura brasileira dos anos 1930, nomeadamente os textos de José Lins do Rego e Jorge Amado, reflectiam a consciência pessimista do subdesenvolvimento, contrariando o discurso oficial que tentava propagandear para o exterior a visão mítica de um Brasil moderno, novo e progressivo, pátria das oportunidades, nos códigos lampeiros dos discursos de Getúlio Vargas, frase que o seu comparsa de aquém-Atlântico não desdenharia subscrever, tanto que ambos, em linha mimética de acção e pensamento criaram o seu Estado Novo. É o mesmo João Luiz Lafetá que refere que a consciência da luta de classes, embora de forma confusa, penetra em todos os lugares – na literatura inclusive, e com uma profundidade que vai causar transformações importantes. A este período da história do Brasil se refere Jorge Amado, lateral mas com crítico acinte, no final de Capitães da Areia.

É com medo das transformações importantes, e daquelas que a literatura pode gerar no imaginário dos povos, dessa subversão invisível que a arte produz, que o governo de Getúlio Vargas manda queimar em praça pública, em 1939, seguindo os ritos do nazismo alemão, mais de 800 exemplares deCapitães da Areia e o confisco dos restantes. Salazar, na sua sacra vigília sobre tudo que ressumasse cultura (consta que não puxava, como o outro, da pistola, que para tais tarefas tinha esbirros mais destros, mas lançaria, por certo, ao ar empestado de S. Bento, em eslavo beirão, impropérios previamente benzidos de assustar, no poleiro, as poedeiras galinhas e a serena dona Maria e seu chá prás lombrigas), também ordenou, através da seita invertebrada dos coronéis censórios, que se proibisse dois romances do herege Jorge Amado: Jubiabá e, claro, Capitães da Areia. Só não ordenou que prendessem o autor de tais aleivosias dado que, para tarefa tal, o comparsa Getúlio se havia já antecipado.

A grande literatura, aquela que expressa as mais lídimas aspirações dos povos, que pugna pela justiça e liberdade face aos opressores, foi sempre um entrave às intenções hegemónicas dos tiranos.

A estrutura narrativa de Capitães da Areia é, 75 anos após a sua publicação, um romance actual, pungente e incómodo. A sua estrutura narrativa afasta-se do modelo de contiguidade evolutiva, de sentido aristotélico, herdada do romantismo e do realismo – e de algum realismo social, sobretudo de Ferreira de Castro – preferindo Jorge Amado autonomizar cada capítulo e, nesse espaço narrativo (que pode funcionar como um corpo efabular separado do conjunto da obra) reflectir/denunciar, singularizando-o para melhor apreensão do leitor, um determinado e particular aspecto das teses mestras deste romance, a vários títulos, nomeadamente na argúcia dos processos oficinais ainda hoje raros, notável. Assim, temos, logo no início da narrativa, como introdução, as cartas enviadas à redacção do Jornal da Tarde. Ficamos a saber dos furtos, da posição, face aos desmandos dos jovens larápios, do Juiz de Menores e do Chefe da Polícia, de uma costureira e do padre José Pedro, ambos denunciando os métodos do reformatório público, e uma epístola final, enviada ao jornal pelo próprioReformador, desmentindo, no melhor estilo fascistóide, as denúncias anteriores. O primeiro capítulo é expositivo: são-nos apresentados os principais personagens, os seus métodos de sobrevivência, o meio de origem e o trapiche onde vivem. Um outro capítulo, o mais poético de quantos preenchem esta obra, leva-nos ao Grande Carrossel Japonês, local onde os capitãespodem ser, por entre a ilusão das luzes, o rodar dos cavalos de pau e o som de uma velha valsa, por instantes, os meninos que nunca os deixaram ser. No capítulo Docas, Pedro Bala fica a saber, pela boca de João de Adão quem foi seu pai, o pai que lutou na greve, que morreu para que os homens tivessem uma outra vida, melhor e mais digna. Depois veio a peste, a varíola, e com ela partiram milhares de pobres de São Salvador da Bahia. Ao contrário do conformismo fadista, o lazaredo, reduto último, de sentido bíblico, dos infectados, prova indubitável de que é, numa sociedade ferozmente dividida em classes, uma desgraça ser pobre.

E temos os deuses, as crenças, os saveiros, e as praias largas da Bahia, território de marítimos, de Mães de Santo, de Yemanjá, de Omolu e das negras que rebolam na areia a sedução mais gostosa dessa vida; os heróis do imaginário popular – e estes são transversais a todos os povos oprimidos:Lampião (morto em 1938) faz parte desse universo mítico, tal como o nosso José do Telhado, o Robin Hood medieval ou o Jesse James das pradarias ianques.

*

Neste universo do qual o amor se ausentou (andou nos olhos de Dora e de Pedro Bala, mas durou o tempo breve de um afago), a exuberante capacidade discursiva e coloquial de Jorge Amado, traça, com sageza, sem contemplações, o retrato da sociedade baiana de finais dos anos 1930. E nem os pobres – os remediados, que pensam terem atingido, face aos seus iguais, um estatuto superior – são poupados à aguda análise do autor de Gabriela, Cravo e Canela. Quando os pobres, pelo facto de terem mais um pão, se tornam igualmente predadores dos seus iguais. E, nessa denúncia, nesse contundente olhar sobre o real, vemos Jorge Amado no mesmo patamar de uma incontida indignação, que encontramos em algumas passagens da obra de Alves Redol. Quando a mãe de Dora morre de varíola, o dono do tabique apressa-se a expulsar os dois órfãos: desinfecta à pressa o sobrado e aluga o espaço a quem o possa pagar, indiferente ao rogo dos vizinhos e às lágrimas das crianças – não há, nesta criatura, o mínimo lampejo solidário: só a irracional ganância o molda.

Este Brasil telúrico, lírico, fantástico e cruel, embrenhado nas suas crenças ancestrais, com o coração doendo nas suas raízes africanas, livre do jugo colonial mas acorrentado pela fome e pela miséria, é o Brasil que Caymmi cantou, o Brasil dePedro Pedreiro, de Construção que Chico Buarque denunciou em cantigas que povoam o nosso imaginário, do Operário em Construção, de Vinícius, o Brasil de Alencar, de Drumond, daVida e Morte Severina, de Cabral Neto, o Brasil dos seringais de Ferreira de Castro mas, sobretudo, o Brasil de Jorge Amado e Lins do Rego – O País do Carnaval vivendo a absurda realidade de ter, dentro de si, convivendo no mesmo espaço, como máscaras de uma tragédia secular, as veredas da fartura mais obscena e sem limites e os largos sertões da pobreza e da exclusão.

O derradeiro capítulo de Capitães da Areia, é o da transformação de Pedro Bala: de menino ladrão, em revolucionário. É este, exactamente, o corolário lógico desta obra que lhe imprime um significado amplo e épico, enquanto objecto literário de rara asserção humanista no panorama da literatura universal. Não apenas porque Jorge Amado elabora uma lúcida e justa análise do tecido social que gera a iniquidade e a miséria extremas em que sobrevivem as margens do sistema capitalista, de que os Capitães da Areiaserão o rosto visível, mas os modos como o autor soube encontrar para cada um dos seus protagonistas, e no contexto definido, sem dogmáticas redundâncias, saídas que apontam ao futuro. A Pedro Bala cabe, naturalmente – seguindo a lógica narrativa – percorrer o caminho que o pai iniciou, e de outros exemplos revolucionários como o dos meninos de Lasso, em Itália. Pedro Bala, tal como A Mãe, na obra de Gorky, começa a compreender que só através da luta organizada, juntando a voz de todos os explorados, é possível transformar o mundo.

Agora que vivemos, numa Europa que se afunda atada à retórica da sua pesporrência, da pretensa superioridade moral e civilizacional, tempos de desencanto, de fome, de iniquidade e exploração generalizadas, é importante regressarmos a um romance2 que ainda, 75 anos depois, nos deixa presos às aventuras, à saga épica desse grupo de meninos abandonados – presos aos seus sonhos, às suas lutas, às suas tristezas e alegrias. Ao contrário dos burgueses da cidade alta de São Salvador da Bahia, que exigiam às polícias que prendessem e castigassem esse bando de marginais, nós iremos com eles para a rua gritar contra o medo e torcer o destino, porque esta canção da Bahia de Jorge Amado é uma canção de Liberdade,um hino de todos nós.

Somos hoje todos companheiros dos Capitães da Areia, sofrendo as mesmas exclusões, empurrados, pelos mesmos senhores de sempre, para as mesmas margens: Os pobres é tudo companheiro. Companheiro da gente.

(...) E, apesar de que lá fora era o terror, qualquer daqueles lares era um lar que se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia. Porque a revolução é uma pátria e uma família.

1 Meninos de Engenho, de José Lins do Rego, publicado em 1932

2 E também a Vinhas da Ira, de John Steinbeck, como propôs nas páginas do Ípsilon António Pinto Ribeiro, salientando que, tantas décadas depois, este romance voltou a deixar de ser «apenas ficção», para se colar à realidade dura deste nosso tempo: 800 mil desempregados em Portugal, 4 milhões em Espanha, um milhão e duzentos mil na Grécia. 

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Jubiabá, de Jorge Amado

Poemas del Alma

.
26
May
 
Publicado por Julián Pérez Porto
.
Si eligieron ingresar al universo literario de Jorge Amado a través de “Cacao” y esa lectura los motivó a confiar en una nueva novela del autor, no dejen de tener en cuenta a “Jubiabá”, una propuesta que apareció por primera vez en 1935.
.
JubiabáSi en sus hogares atesoran un ejemplar de esta obra o la descubren en alguna biblioteca o librería antigua, permítanse interesarse por el contenido de este material que, con el paso de los años, fue traducido a una gran cantidad de idiomas. 
.
El libro centra su trama en las vivencias de Antonio Balduino, un joven humilde de Salvador de Bahía que establece una relación de amistad con un mago conocido como Jubiabá. Según se desprende del relato, tras el fallecimiento de su tía el protagonista fue enviado con fines de trabajo a la casa de una familia rica, ámbito del cual decide escapar después de haber sido acusado, injustamente, de ejercer violencia sobre Lindinalva, la hija de sus patrones, a quien consideraba como un amor imposible por las diferencias raciales y sociales que había entre ambos.
.
En libertad y oprimido por la sociedad, Balduino intentó convertirse sin éxito en boxeador y hasta probó suerte como empleado en una plantación de tabaco, pero con ninguna de las actividades elegidas consiguió progresar. Ante esa realidad, el muchacho de raza negra que supo liderar una huelga de trabajadores portuarios decide regresar a Bahía junto a Lindinalva, su primer amor, quien había elegido la prostitución para ganarse la vida. 
.
A medida que la narración avanza y valiéndose de las aventuras y desventuras del personaje principal, Amado logra plasmar una ideología política y retratar tanto a la sociedad como a la historia del Brasil de los años 30. 

.Si los datos citados en este artículo les resultan atractivos, es probable que la novela consiga cautivarlos por completo. Tal vez, en este material antiguo descubran una opción literaria para entretenerse en la actualidad.


Biografía de Jorge Amado

Poemas del Alma



Jorge AmadoNació el 10 de agosto de 1912, en la ciudad de Itabuna, ubicada al sur del estado de Bahía. Era Hijo del coronel Joao Amado de Faría y de Eulalia Leal Amado.
.
Su infancia transcurrió en el litoral de Bahía, cursando sus estudios secundarios en la ciudad de Salvador. En este periodo, comenzó a trabajar en periódicos y a participar de la vida literaria, siendo uno de los fundadores de la llamada Academia de los Rebeldes.
.
En 1933, contrajo enlace con Matilde García Rosa, con quien tuvo una hija, Lila, que falleció en 1949, pero posteriormente se divorció, para casarse nuevamente en 1945 con la escritora Zélia Gattai, quien lo convertiría otra vez en padre, esta vez de un varón, João Jorge, más tarde nacería Paloma, en Checoslovaquia.
.
Obtuvo el título de Abogado en la Facultad Nacional de Derecho, en Rio de Janeiro en 1935. Ese año fue detenido por ser simpatizante de las ideas comunistas, por cuya causa debió exiliarse en Argentina y Uruguay entre los años 1941 y 1942.
.
Fue electo miembro de la Asamblea Nacional Constituyente, por el Partido Comunista Brasileño, en 1945, pero ante la declaración de ilegalidad de su partido, debió refugiarse en Francia hasta 1950, para dirigirse luego a Checoslovaquia.
.
En 1955, retorna a Brasil, apartándose de la actividad política, aunque sin desistir de sus ideas.
.
El 6 de abril de 1961 comenzó a integrar la Academia Brasileña de Letras. Recibió el titulo de Doctor Honoris Causa por diversas universidades y por su defensa de las religiones africanas, el título de Obá de Xangô en la religión Candomblé.
.
Su extensa obra, traducida a 49 idiomas es profundamente realista, de denuncia sobre injusticias sociales, destacándose en este sentido “Tierras del sinfín” (1943), donde denuncia los abusos cometidos contra los trabajadores de las plantaciones de cacao, aunque sin abandonar un tono irónico y jocoso, a veces obsceno. Ya había escrito en 1931 “El país del carnaval”, en 1933 “Cacao”, “Sudor”, en 1943, donde critica los abusos del capitalismo. En “Gabriela, clavo y canela” (1958), expone sobre la vida social de las ciudades, conjugando el amor entre recetas de cocina. “Doña Flor y sus dos maridos” (1966), es reconocida por su adaptación para cine. “Falda, faldón y camisón” (1980) trata sobre las clases altas de Río de Janeiro.
.
En otros casos sus destinatarios fueron los niños, como por ejemplo, “El Gato re- mendado y la golondrina Sinhá” (1976) y “La pelota y el arquero” (1986).
.
Fue galardonado con múltiples condecoraciones como el Premio Stalin de Paz, otorgado en 1951, por la Unión Soviética, el de Latinidad, en Francia, en 1971, el Nonino, obtenido en 1982, en Italia, el Pablo Neruda, en 1989, en Rusia, el Mediterráneo, en 1990, en Italia y el Ministério da Cultura en Brasil, 1997.
.
En 1987, en la ciudad de Salvador, Bahía, se creó la Fundación Casa de Jorge Amado, que reúne su obra y su mensaje.
.
Falleció en la ciudad de Salvador el 6 de agosto de 2001, dejando un legado literario que fue expuesto en cine, teatro y televisión. Sus cenizas yacen enterradas en el jardín de su casa.
.

 

Publicado por Julián Yanover el 1 de Noviembre de 2007
.
.

sábado, 15 de maio de 2010

Cacao - Jorge Amado

Poemas del Alma


14
May

 

Publicado por Julián Pérez Porto
.
Dos años después de haber lanzado “El país del carnaval”, el escritor brasileño Jorge Amado amplió su producción literaria a través de “Cacao”, una novela que ya consigue atraer desde su título.
.
CacaoEse material que fue publicado en 1933 (año de nacimiento de Lila, su primera hija) es capaz de conmover, aún en los tiempos que corren, a quienes se interesan por él. Al conocer su trama, poco importa la antigüedad de la obra ya que su contenido bien puede compararse con la realidad actual.
.
“Cacao” es, por sus características, un libro promotor de reflexiones que no pasa de moda porque, desde una bien narrada historia de ficción, aborda cuestiones como la solidaridad, la justicia, el despotismo, el poder y el sacrificio. En él, el protagonista es José Cordeiro, un hombre que, al igual que muchos de nosotros, sueña con una realidad más justa en medio de un panorama autoritario.
.
En esta propuesta del también creador de relatos como “Capitanes de la arena”, “Los pastores de la noche”, “Tienda de los milagros” y “La desaparición de la santa”, el foco argumental está puesto en la vida cotidiana de quienes se ganan la vida en la hacienda del coronel Mané Frajelo, el llamado “rey del cacao”. En ese escenario, la rigidez y la tiranía de los jefes harán que los trabajadores comiencen a dar muestras de solidaridad.
.
Si la temática abordada por Amado en “Cacao” les resulta intere.sante o sienten curiosidad por conocer el contenido de una de las primeras novelas elaboradas por el autor nacido en Bahía el 10 de agosto de 1912, no dejen de buscar en las librerías de su ciudad un ejemplar de este libro que, además de entretener, invita al lector a cuestionarse diferentes situaciones que, para bien o para mal, todavía pueden descubrirse en el plano real.
.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Jorge Amado universal

ENSAIOS

Segunda-feira, 11/2/2008
.
Jorge Amado universal
.
Milton Hatoum





.
Infelizmente não posso dizer que fui amigo de Jorge Amado. Nosso único encontro aconteceu em Paris, já não me lembro se em 1994 ou 93. Lembro que lançava na França a tradução do meu primeiro romance, e sabia que Jorge Amado estava por lá.


Ele costumava passar a primavera e o verão em Paris, e antes do outono europeu viajava para Salvador, de modo que vivia sempre entre o verão e a primavera, entre dois paraísos.

Prometi que um dia iria visitá-lo na Bahia, e por timidez fui adiando essa visita e nunca mais o encontrei. Leseira minha, porque Jorge Amado nada tinha de pomposo nem de formal.

Em 1989 ele me enviou uma carta muito amável, em que comentava meu romance de estréia. Aliás, escrevia cartas a vários autores jovens e desconhecidos. Fazia isso por amor à literatura e também por generosidade, algo que não anda na moda nesta época de competição acirrada.

Até mesmo António Lobo Antunes, com seu jeito áspero e sua prosa de inegável alcance estético, até o Lobo foi amigo de Amado e admirador de seus romances. Sem a obra de Jorge, disse certa vez Lobo Antunes, não haveria neo-realismo na prosa portuguesa.

A mesquinharia e a inveja passavam longe da alma desse baiano universal. Eu não via nele nenhuma gota de ressentimento, apesar das críticas que faziam à sua obra, algumas justas, outras cruéis e inconseqüentes. Inconseqüentes porque na ficção de Jorge as falhas não apagam, muito menos anulam a dimensão social e histórica: a densa dimensão humana de sua obra.

O espaço evocado nos romances de Amado ― a capital da Bahia, o coração de Salvador, de Ilhéus e outros lugares ― é tão vivo quanto os personagens que os habitam. O leitor pode quase tocar esses lugares e personagens.

Na extensa e variada obra amadiana há, por certo, uma excessiva recorrência de frases e situações, mensagens ideológicas explícitas, desajustes entre a voz dos narradores cultos e a dos personagens populares. Mas, e daí? Jorge Amado preferiu o prolífico e o monumental à exatidão de uma obra exígua.

Na história da literatura não são muito numerosos os romances perfeitos, cujo objetivo de seus autores é construir uma obra estética, sem frouxidão, sem deslizes, em que as peças se encaixam com precisão, tal uma máquina perfeita. Nenhuma palavra ou frase fora do lugar.

Essas obras perfeitas existem: A volta do parafuso, O coração das trevas, A morte de Ivan Ilitch, São Bernardo, Grande sertão: Veredas e não sei quantas mais. Vamos dizer, com otimismo, que há noventa e nove livros perfeitos nas estantes de uma biblioteca imensa. Uma parte da obra de Jorge encontra-se nessa biblioteca, e nem por isso ele pode ser considerado um escritor mediano.

Porque é muito raro uma obra mediana sobreviver meio século ou setenta anos. É o que aconteceu com Jubiabá e com Capitães da Areia ― livros que Albert Camus admirava ― e com tantos outros, desde Gabriela, cravo e canela até A descoberta da América pelos turcos.

Num consistente ensaio sobre a arte da ficção, o escritor inglês Edward Foster escreveu que o romance é uma narrativa "encharcada de humanidade". Não há melhor definição para os romances de Amado, cuja obra será relançada a partir de meados de março.

Espero que os leitores a leiam com interesse e olhar crítico, mas sem preconceito. Porque o preconceito, na literatura e na vida, é uma fonte de cegueira e de veneno para a alma.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no Terra Magazine, em janeiro de 2008.


Milton Hatoum
São Paulo, 11/2/2008