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domingo, 22 de março de 2026

Jaime Nogueira Pinto - O estreito de Ormuz: dos capitães da Índia aos capitães de Abril

Jaime Nogueira Pinto 

Nestes dias em que tanto se fala do estreito de Ormuz, talvez valha a pena lembrar esses obscuros princípios do século XVI em que Portugal se iniciava na conquista e na opressão além-fronteiras.

21 mar. 2026

Os portugueses de hoje, criados nas alegrias da democracia e do progresso que lhes trouxe Abril, são capazes de ter alguma dificuldade em conceber esse outro país que Portugal já foi. Mais, confrontados com a liberalidade e a democraticidade dos políticos, pode até parecer-lhes impensável, quando não impossível, a resistência a Castela no século XIV e a conquista do império do Oriente no século XVI, protagonizadas por homens tão iliberais e tão pouco inclusivos como Nun’Álvares ou Afonso de Albuquerque.

Por isso, nestes dias em que, a propósito da nova guerra do Irão, tanto se fala de Ormuz e do estreito de Ormuz, talvez valha a pena lembrar esses obscuros princípios do século XVI em que um Portugal oprimido pelo autoritarismo monárquico e católico, talvez para desviar as atenções de problemas internos (ou para os resolver), se iniciava na opressão além-fronteiras a que alguns saudosistas ousam chamar epopeia de navegação e conquista.

As chaves dos mares

D. Manuel I, o venturoso e feliz herdeiro do Príncipe Perfeito, coordenou uma política de expansão no Índico que tinha como linha de rumo a conquista das chaves daquele Oceano, por onde passava o precioso e estratégico tráfico das especiarias. E essas chaves eram Ormuz, Ádem, Goa e Malaca.

Em Abril de 1506, saiu de Lisboa para a Índia uma armada de dezasseis navios, onze sob o comando de Tristão da Cunha (que capitaneava toda a expedição) e cinco sob o comando de Afonso de Albuquerque. Albuquerque já passava dos cinquenta anos. Nascera em 1453, fora próximo de D. João II e combatera no Norte de África. Ao que parece, D. Manuel não o estimava muito e Albuquerque e Tristão da Cunha não primavam pelo entendimento. Mas a longa viagem foi correndo: passaram o Cabo da Boa Esperança e seguiram com combates, ataques e saques de cidades da costa oriental africana; depois, já no Índico, a sul da península arábica, tomaram a ilha de Socotra ou Socotorá.

A partir daí, Tristão da Cunha rumou para a Índia e Albuquerque, com seis navios e quatrocentos e cinquenta homens, decidiu conquistar Ormuz. A cidade de Ormuz dominava as ilhas do Golfo Pérsico e a costa de Omã. Albuquerque deixou Socotra a 10 de Agosto e, levando a bordo pilotos árabes, conhecedores dos mares e terras da região, foi tomando posições – Calayate, Curiate, Mascate – e avançou para Ormuz. Pelo meio, teve conselhos de guerra difíceis com os seus capitães, que exprimiam dúvidas e receios perante a sua audácia e preferiam esperar e pilhar os barcos dos peregrinos de Meca. A cena repetiu-se em Ormuz, quando Albuquerque exigiu ao regente, Khodja-Atar, que prestasse vassalagem ao rei de Portugal.

Começaram as negociações, mas o capitão português, entendendo que os de Ormuz esperavam reforços da costa e procuravam ganhar tempo, ordenou aos comandantes da frota portuguesa que abrissem fogo sobre os navios inimigos parados no porto. Ao mesmo tempo, ordenou o desembarque, enquanto, das naus portuguesas, a artilharia flagelava a cidade e os barcos adversários. Khodja-Atar não tardou em pedir uma trégua para negociar.

Nas negociações, pelo lado dos locais, falou o primeiro-ministro Seif-ed-Din, que aceitou, a troco da paz, pagar ao rei de Portugal, anualmente, “quinze mil xerafins de ouro”. Além disso, devia desembolsar imediatamente uma quantia de cinco mil xerafins para as despesas da esquadra portuguesa e, mais importante, permitir que os portugueses edificassem na ilha uma fortaleza. Prontamente, contra as objecções dos seus capitães e dos chefes muçulmanos, Albuquerque iniciou a construção da fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz, que levaria trinta anos a ser concluída (ficaríamos em Ormuz até a perdemos para os ingleses, em 1622).

Albuquerque abandonou então Ormuz, onde só voltaria em 1515, no seu último ano de vida. Seria, entretanto, nomeado governador da Índia por D. Manuel I em 1509; em 1510 conquistaria Goa e, em 1511, Malaca.

Com estas três praças, assegurara posições terrestres a partir das quais os portugueses dominariam o comércio do Índico até ao fim do século XVI.

Para fechar o controlo português, apenas lhe faltava Adem, uma cidade-Estado à entrada do Mar Vermelho, que, uma vez conquistada, acabaria com o comércio dos mamelucos com Veneza.

A frota portuguesa partiu de Goa em 18 de Fevereiro de 1513. Eram vinte navios, com 1700 marinheiros e soldados portugueses e 800 aliados malabares. Fizeram uma paragem em Socotra e, a 26 de Março, Domingo de Páscoa, atacaram Adem. Mas na escalada das muralhas, as escadas partiram-se sob o peso dos atacantes e o ataque foi repelido; um segundo ataque também falhou, e assim se gorou o ambicioso plano do “Leão dos Mares” de fechar, para a Coroa portuguesa, as portas e chaves do Índico.

Rezam as crónicas que as escadas  cederam à precipitação dos oficiais e soldados portugueses, todos querendo ser os primeiros no perigo e na glória.

Ocupando Goa e Diu, os portugueses dominavam parte importante da Índia; com Malaca, vigiavam a passagem do Índico para o Pacífico; controlando Ormuz, dominavam a circulação no Golfo Pérsico; com Adem, ficariam também senhores da entrada e circulação do Mar Vermelho e do caminho de Meca.

A narrativa destes sucessos ficou nas Décadas da Ásia, de João de Barros, e nos Comentários, de Braz de Albuquerque, filho de Afonso de Albuquerque.

Camões, o profeta

Além do comércio da pimenta e do controle dos recursos, D. Manuel e Albuquerque pensavam em termos de nova cruzada, de “mudança de regime”, dir-se-ia hoje. Roger Crowley voltou a lembrar-nos isso, recordando a importância das referências ao rei cristão perdido no Nordeste de África, o Preste João.

Camões, na estrofe 40 do Canto X de Os Lusíadas, celebra os feitos do governador, pela voz da ninfa Thétis:

«Esta luz é do fogo e das luzentes
Armas com que Albuquerque irá amansando
De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes
Que refusam o jugo honroso e brando
Ali verão as setas estridentes
Reciprocar-se, a ponta no ar virando
Contra quem as tirou; que Deus peleja
Por quem estende a fé da Madre Igreja.»

Nas estrofes seguintes, continuam os louvores a Albuquerque, mas, a partir da estrofe 45, Camões censura o grande capitão pela severidade com que pune com a morte um dos seus subordinados por um delito sexual menor. E segue com a narrativa de outros governadores e capitães da Índia.

A ninfa leva então o Gama ao cume de um monte na Ilha dos Amores e mostra-lhe a “máquina do mundo”, a terra com os seus reinos, os seus mares, os seus povos, correndo e percorrendo todos os continentes. No final, o poeta dirige-se a D. Sebastião, incitando-o a seguir o exemplo dos heróis portugueses, praticando grandes feitos:

«De sorte em que Alexandre em vós se veja
Sem à dita de Aquiles ter inveja!»

Alexandre conquistou o mundo, mas morreu novo, aos 33 anos. Aquiles também fez grandes coisas, mas teve azar com a flecha de Páris, o filho de Príamo, causador da desgraça de Troia, pelo rapto da bela Helena.

O poeta aqui foi também profeta: D. Sebastião ia perder-se no nevoeiro aos 24 anos.

…E Portugal, teria de esperar que raiasse Abril para ver raiar a Democracia e poder, enfim, realizar grandes feitos.

 https://observador.pt/opiniao/o-estreito-de-ormuz-dos-capitaes-da-india-aos-capitaes-de-abril/

domingo, 11 de dezembro de 2022

Carlos Coutinho - Gratos e ingratos

* Carlos Coutinho

   VERIFICO mais uma vez que estes exercícios de rememoração têm quase sempre um problema sério. Agora é o Afonso de Albuquerque a reclamar de mim mais um bocadinho de prosa. Vamos a isso, que também há quem goste.

   Segundo uma tradição que remonta ao século XVII, Afonso de Albuquerque, um fidalgote de segunda categoria, nasceu em Alhandra, à beira-Tejo, na Quinta do Paraíso. Mas uma historiadora incansável, Alexandra Pelúcia, apurou que essa quinta, na segunda metade do século XV, estava na posse dos condes de Penela, pelo que é mais provável que o Afonsito tenha nascido na sede do património de referência de seus ascendentes paternos ou maternos, que se situava, respetivamente, em Vila Verde dos Francos e em Atouguia da Baleia, perto de Peniche, onde a pirataria atacava com frequência, 

   Quanto à data de nascimento, segundo o próprio, deverá ter ocorrido cerca de 1461 ou 62, mas alguns historiadores acham que terá sido em dezembro de 1452 ou 53. Era o segundo dos quatro filhos de Gonçalo de Albuquerque, 3.º Senhor de Vila Verde dos Francos, de Leonor de Meneses, filha de Álvaro Gonçalves de Ataíde 1.º Conde de Atouguia, e de Guiomar de Castro. 

   Portanto Afonso, através de seu pai, que desempenhava um importante cargo na corte, descendia por via natural da família real portuguesa. Foi educado em Matemática e Latim clássico na corte de D. Afonso V, onde cresceu e travou amizade com príncipe D. João, futuro rei centralista muito dado a jogos de morte requintada. Por curiosidade sua, Afonso aprendeu táticas de guerra baseadas no terror e foi exímio a aplicá-las. Encarregado que fora de conquistar praças ribeirinhas e impor o domínio português no Índico.

   Abreviando, falhado o ataque a Calecute, Afonso de Albuquerque formou uma poderosa armada, reunindo 23 naus e 1 200 homens. Relatos contemporâneos afirmam que pretendia combater a frota mameluca egípcia no Mar Vermelho ou regressar a Ormuz. ~

   Contudo, informado por Timoja, um corsário hindu ao serviço do Reino de Bisnaga, de que seria mais fácil encontrá-la em Goa, onde se havia refugiado após a Batalha de Diu, dada a doença do sultão Hidalcão e a guerra entre os sultanatos desavindos do Decão, investiu de surpresa na captura de Goa, que pertencia ao sultanato de Bijapur e era o melhor porto comercial da região, além de entreposto de cavalos árabes. 

   Falhou, mas, no dia 25 de novembro, Albuquerque reapareceu em Goa com uma frota totalmente renovada e Diogo Mendes de Vasconcelos, a seu lado com os reforços de Malaca e 300 malabaris. Em menos de um dia tirou Goa a Ismail Adil Shah e seus aliados otomanos, que se renderam a 10 de dezembro.

   Estima-se que 6 000 dos 9 000 defensores muçulmanos da cidade morreram, quer na violenta batalha nas ruas ou afogados, quando tentavam escapar à ferocidade dos vencedores. Goa tornou-se o centro da presença portuguesa, com a conquista a desencadear o respeito dos reinos vizinhos: o sultão de Guzerate e o samorim de Calecute enviaram embaixadas, oferecendo alianças, concessões e locais para fortificar. 

   Afonso de Albuquerque servira dez anos no Norte de África, onde adquiriu experiência militar: em 1471 acompanhou D. Afonso V nas conquistas de Tânger, Anafé e Arzila, onde passou alguns anos como oficial na guarnição. Em 1476, acompanhou o príncipe D. João nas guerras com Castela, tendo participado na Batalha de Toro. Em 1481, quando o príncipe D. João subiu ao trono como D. João II, Albuquerque regressou a Portugal e foi nomeado seu estribeiro-mor. 

   Quando o novo rei,  D. Manuel I, ascendeu ao trono, mostrou desconfiança relativamente a Afonso de Albuquerque, que era íntimo do temido D. João II e 17 anos mais velho.

   Em 6 de Abril de 1503, já numa idade madura e com uma longa carreira militar, Afonso de Albuquerque foi enviado na sua primeira expedição à Índia, regressando em julho de 1504 «mais cheio de glórias que de despojos», mas foi bem recebido por D. Manuel. 

 A sua conduta, por vezes imprudente e tirânica, e a suspeita de que pretendia passar de vice-rei a rei levou D. Manuel a substituí-lo pelo seu arqui-inimigo, Lopo Soares de Albergaria. 

   Afonso de Albuquerque, desgostoso, meteu-se ao mar para regressar a Portugal, mas morreu durante a viagem, a 16 de dezembro de 1515. É-lhe atribuída a frase de "Mal com el-rei por amor dos homens, mal com os homens por amor de el-rei.", que terá exclamado ao saber da sua substituição.
 
   Pouco antes de morrer, em resposta a uma carta do rei admoestando-o pelos gastos e conquistas excessivas, e por não se ter dedicado ao objetivo inicial, escreveu uma carta ao rei em tom digno e afetuoso, assumindo a sua conduta e pedindo para o seu filho natural as honras e recompensas que eram justamente devidas a si próprio:

   "Senhor.  Eu nam escrevo a vos alteza per minha mão, porque, quando esta faço, tenho muito grande saluço, que he sinal de morrer: eu, senhor, deixo quá ese filho per minha memória, a que deixo toda minha fazemda, que he assaz de pouca, mas deixo lhe a obrigaçam de todos meus seruiços, que he mui grande: as cousas da india ellas falarám por mim e por elle: deixo a india com as principaes cabeças tomadas em voso poder, sem nela ficar outra pendença senam cerrar se e mui bem a porta do estreito; isto he o que me vosa alteza encomendou: eu, senhor, vos dey sempre por comselho, pera segurar de lá india, irdes vos tirando de despesas: peçoa vos alteza por mercee que se lembre de tudo isto, e que me faça meu filho grande, e lhe dè toda satisfaçam de meu seruiço: todas minhas confianças pus nas mãs de vos alteza e da senhora Rainha, a elles m emcomemdo, que façam minhas cousas grandes, pois acabo em cousas de voso seruiço, e por elles vollo tenho merecido; e as minhas tenças, as quaes comprey pela maior parte, como vossa alteza sabe, beijar lh ey as mãos pollas em meu filho: escrita no mar a 6 dias de dezembro de 1515. Afomso dalboquerque  carta de Afonso de Albuqerque ao rei D. Manuel.

   O rei Venturoso, reconhecendo demasiado tarde a sua fidelidade, procurou reparar a injustiça com que Afonso fora tratado, cumulando de honras o seu filho natural Brás de Albuquerque e cumprindo assim o último pedido do defunto.

2022 12 11