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terça-feira, 26 de maio de 2026

Helder Moura - (1000) “Tudo é vão. Porque tudo é em vão”

* hélder moura

 

Escrevi este artigo que aqui será o último a 2 de janeiro de 2019. Eis a sua reprodução, com os meus agradecimentos aos que me foram acompanhando neste percurso.

 Vacuidade de vacuidades: todas as coisas são vacuidade, Eclesiastes.

 O destino do tolo também a mim acontecerá. Então porque me tornei sábio?

 Embora o ser humano se esforce para procurar, não encontrará o que procura.

Não existe coisa boa para o ser humano debaixo do Sol a não ser comer e beber e sentir prazer.

 Com os conhecimentos científicos que atualmente temos, não parece apresentar grandes dificuldades a definição do que deve o ‘ser humano’ ser. Tudo parecemos já saber sobre a sua biologia, fisiologia, química, psicologia, etc., dando já quase como certo como deverá viver o seu futuro.

Ficamos no entanto, sempre um pouco desconfiados com tanta recém-certeza, dado os presentes quase sempre adiados para um futuro que nos foram dizendo estar aí sempre à porta, com as perspetivas assentes em algoritmos científicos controlados por enquanto às escondidas pelos que manhosamente se creem e autointitulam como sendo os merecidamente escolhidos novos donos disto tudo.

Há, contudo, uma outra forma para conhecermos, reconhecermos, quais são as características da vivência do ‘ser humano’, recorrendo antes a escritos milenares em que nos revemos revelados.

 Esses escritos baseiam-se na ideia de que a experiência, trazida pelos muitos anos vividos, pode servir de guia para as gerações seguintes. Partem da observação da vida e da necessidade de lidar com os seus diversos problemas e situações, muitas vezes com instruções práticas sobre a forma como a devíamos viver, outras vezes com críticas e reflexões interrogativas sobre o sentido da vida, morte, justiça, vida social, o mal, a natureza da sabedoria etc.

Esses escritos inscrevem-se naquilo que se costuma catalogar como “literatura de sabedoria”. Não faltam exemplos que se reportam aos muito antigos tempos da Suméria, Babilónia, Assíria, Egito e Grécia. São, por exemplo, os casos do mito da criação Enuma Elish (c. 1800 a.C.) e do épico de Gilgamesh (2800 a 2500 a.C.), onde a descrição do Dilúvio e das indicações para sobrevivência ao mesmo, são muito anteriores às descritas na Bíblia. Outros exemplos: o poema sumério Instruções de Suruppak (2500 a. C.),e os Trabalhos e Dias (700 a.C.) do poeta grego Hesíodo.

Também a enigmática e, talvez por isso igualmente inesgotável Bíblia, contém vários destes escritos de sabedoria, apresentados como Livros Sapienciais do Antigo Testamento: Salmos, Odes, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Job, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Salmos de Salomão.

Um desses escritos que nos dá essa sensação de ser um escrito de sempre e para sempre, é o Eclesiastes, incorretamente atribuído a Salomão (990 a 930 a.C.)  e que os especialistas atuais datam de 580 a 200 a. C., do qual reproduzo aqui alguns excertos, começando pela sua afirmação inicial:as de Eclesiates, filho de David, rei de Israel em Jerusalém.

Vacuidade de vacuidades: todas as coisas são vacuidade.

 /Que vantagem existe para o ser humano/ em todo o seu esforço com que se esforça debaixo do Sol? / Uma geração passa; e uma geração chega; / e a terra fica de pé para sempre.

[…] Aquilo que aconteceu, isso mesmo irá acontecer. / E aquilo que foi feito, isso mesmo será feito. / Nada de novo existe debaixo do Sol. / Quem dirá e afirmará: “Eis que isto é novo”? /Isso já aconteceu nas idades que existiram antes de nós. / Não existe memória de pessoas anteriores, / nem dos que nasceram depois.

[…] “O destino do tolo também a mim acontecerá. / Então porque me tornei sábio?

[…] Não há nada de bom no ser humano.

[…] Para todas as coisas há um tempo; / e há um tempo para todo o assunto debaixo do céu. / Tempo de dar à luz e tempo de morrer; / Tempo de plantar e tempo de arrancar o que foi plantado; / Tempo de matar e tempo de curar; / Tempo de deitar abaixo e tempo de construir; / Tempo de chorar e tempo de rir; / Tempo de estar de luto e tempo de dançar; /Tempo de atirar pedras e tempo de juntar pedras; /Tempo de abraçar e tempo de estar longe de um abraço; /Tempo de procurar e tempo de perder; / Tempo de guardar e tempo de atirar fora; / Tempo de rasgar e tempo de coser; / Tempo de calar e tempo de falar; / Tempo de amar e tempo de odiar; / Tempo de guerra e tempo de paz.

Que vantagem tem quem faz as coisas que faz?

[…] “Deus julgará o justo e o ímpio, / pois há um tempo para todo o assunto / e para toda a obra.”

[…] Acerca da fala de filhos do ser humano: / Pois Deus julgá-los-á / para mostrar que também eles são gado.” / Pois destino de filhos do ser humano / e destino do gado: / O destino de ambos é um. Assim como é a morte de um, do mesmo modo é morte do outro: / O espírito de todos é só um. / E o ser humano sobreleva em quê ao gado? / Nada. Porque todas as coisas são vacuidade. / Todas as coisas vão para um só lugar: / Todas as coisas vêm do pó; / e todas as coisas voltarão para o pó.

E eu voltei-me e vi a vacuidade debaixo do Sol. / Existe um solitário e não existe um segundo que lhe faça companhia: / pois não tem filho nem irmão. / Não há fim para todo o seu esforço; / e o olho dele não se satisfaz com riqueza. / “Para quem me esforço e privo a minha vida de felicidade?” / Pois, isto é vacuidade e uma preocupação negativa. / “Melhores são dois que um, / porque têm uma boa recompensa para o seu esforço. / Pois se caírem, um levantará o seu amigo. / E ai daquele que, quando cair, / não tenha outro para o levantar! / Pois se dois dormirem juntos, terão calor; / Um sozinho, como se aquecerá? / E se um for dominado, / dois estarão do lado dele; / E a corda tripla não será depressa quebrada. / Melhor é um rapaz pobre e sábio / do que um rei velho e tolo, / que já não soube dar atenção”.

Um bom nome é melhor do que azeite; / e o dia da morte de alguém é melhor do que o dia do seu nascimento. / É melhor entrar numa casa de luto / do que entrar numa casa de bebida, / porque esse luto é o fim de todo o ser humano / e o vivo dá-lo-á ao seu coração. / A ira é melhor do que o riso, / pois na má disposição do rosto o coração sentir-se-á bem. / O coração dos sábios reside em casa de sofrimento, / e o coração dos tolos, em casa de alegria. / É melhor ouvir a repreensão do sábio / do que um homem que ouve uma canção de tolos.

E louvei o prazer, / porque não existe coisa boa para o ser humano debaixo do Sol / a não ser comer e beber e sentir prazer.

[…] Foi então que vi todas as obras de Deus, / pois nenhum ser humano conseguirá / descobrir o feito que é feito debaixo do Sol. / Embora o ser humano se esforce para procurar, / não encontrará o que procura.

Vacuidade é algo que está em todas as coisas. / O mesmo destino existe para o justo e para o ímpio; / para o bom e para o mau; / para o puro e para o impuro, / para o que sacrifica e para o que não sacrifica. / O homem bom é como o pecador; / o que jura é como o que receia jurar. / Isto é um mal em tudo o que é feito debaixo do Sol: / o facto de ser só um o destino de todos.

[…] Pois os vivos saberão que vão morrer; / e os mortos não têm noção de nada. / Não há para eles recompensa, / porque foi olvidada a memória deles. / De facto, o amor deles e o ódio deles / e a inveja deles já pereceu; / E não lhes cabe nunca mais porção / em tudo o que é feito debaixo do Sol. / Vai, come o teu pão com prazer; / e bebe de bom ânimo o teu vinho, / porque Deus já aprovou as tuas obras. / […] Vê a vida com a mulher que tu amaste, / todos os dias da tua vida de vacuidade / que te são dados debaixo do Sol; / todos os dias da tua vacuidade, / porque isto é a tua porção na tua vida / e no teu esforço, com o qual te esforças debaixo do Sol.

[…] Que não é aos céleres que a corrida pertence; / nem aos fortes pertence a guerra; / nem aos sábios, o pão; / nem aos compreensivos, a riqueza; / nem aos inteligentes, a beleza; / porque tempo e destino acontecerão a todos eles.

[…] Vacuidade das vacuidades – disse o Eclesiastes -, tudo é vacuidade

Eclesiastes, como aquele que preside ou convoca uma assembleia, foi opção para o título escolhido pelo autor (desconhecido), apresentando-se como se fosse o próprio rei Salomão a escrevê-lo, um pseudo-Salomão. Percebe-se a escolha:

 “confere credibilidade ao discurso cético acerca do valor da riqueza e dos bens materiais. Quem melhor que Salomão, detentor e dono de tudo (sabedoria, poder, riqueza, mulheres), para nos dizer que tudo o que acontece é ilusão? Para se compreender a profunda semelhança entre ‘tudo’ e ‘nada’, é preciso ter tido a experiência desse tudo. É preciso ter experimentado tudo”.

Alguns dos temas tratados referem-se ao propósito desta vida, à vida após a morte, à realidade do mal e da morte, à justiça retributiva das recompensas ou castigos de acordo com a obediência ou desobediência do ser humano.

Apesar de nas traduções tradicionais iniciarem o escrito com: “Palavras de Eclesiastes, filho de David, rei de Israel em Jerusalém: vaidade de vaidades – disse o Eclesiastes -, vaidade de vaidades, todas as coisas são vaidade”, Frederico Lourenço explica-nos que o termo grego “vaidade” não remete para a aceção narcisista de uma pessoa vaidosa, mas para a qualidade daquilo que é “em vão”. Pelo que optou traduzi-lo por “vacuidade”, ficando mais clara a afirmação de Eclesiastes, segundo a qual tudo é vão, porque tudo é em vão.

Surpreende a solução apontada por Eclesiastes para minorar a insatisfação humana, preconizando a contribuição do comer, beber e gozar do bem-estar, embora reconhecendo ao mesmo tempo que o apetite do ser humano não possa ser suscetível de satisfação.

 Apontando para a impossibilidade da felicidade individual, também não acredita que ela possa ser alcançada coletivamente. E uma vez que bons e maus são tratados da mesma forma, tal significará que não existirá o bem comum, pelo que não vale a pena lutar por ele.

Interessante uma das justificações para a vivência a dois: a cama ficar mais quente.

 Outro ponto importante tem que ver com a consciência de que todos os seres vivos da terra têm um mesmo destino comum. Ou seja, homens e animais ao terem todos o mesmo destino, faz com que o ser humano não seja considerado superior ao animal.

Como é que tal escrito é repescado e sucessivamente integrado na Bíblia, é algo que só os teólogos poderão aclarar. Mas que se trata de um texto para todo o tempo, profundamente atual, ninguém poderá duvidar. Os algoritmos utilizados por Eclesiastes estavam corretos, e com a vantagem de não nos condicionarem

Nota: Frederico LourençoBíblia, Antigo Testamento, Os Livros Sapienciais.

 https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/

quarta-feira, 20 de maio de 2026

hélder moura - O Socialismo segundo Albert Einstein

.hélder moura 20.05.26

 

É sempre recompensador einteressante tentar apercebermo-nos como as inteligências mais reputadas articulam os seus pensamentos. Infelizmente, grande parte dos seus escritos são demasiado técnicos ou especializados, estampados num cânone de si limitativo, o que dificulta essa desejada leitura.

Mas nem sempre é esse o caso, como por exemplo neste artigo de Albert Einstein, por ele intitulado “Why Socialism?”, publicado em maio de 1949 na primeira edição da Monthly Review, que aqui deixo na sua tradução integral:

 

 

Será aconselhável que alguém sem conhecimentos em questões económicas e sociais expresse opiniões sobre o socialismo? Acredito que sim, por uma série de razões.

 

Consideremos em primeiro lugar a questão do ponto de vista do conhecimento científico. Pode parecer que não existem diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas de ambos os campos procuram descobrir leis de aceitabilidade geral para um grupo circunscrito de fenómenos, de modo a tornar a interligação destes fenómenos o mais compreensível possível. Mas, na realidade, tais diferenças metodológicas existem. A descoberta de leis gerais no domínio da economia é dificultada pelo facto de os fenómenos económicos observados serem frequentemente afetados por muitos fatores que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência acumulada desde o início do chamado período civilizado da história da humanidade foi — como é sabido — largamente influenciada e limitada por causas que não são, de modo algum, exclusivamente económicas. Por exemplo, a maioria dos grandes estados da história deve a sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Monopolizaram a propriedade da terra e nomearam um sacerdócio entre as suas próprias fileiras. Os sacerdotes, no controlo da educação, transformaram a divisão de classes da sociedade numa instituição permanente e criaram um sistema de valores pelo qual o povo passou a ser guiado, em grande parte inconscientemente, no seu comportamento social.

 

Mas a tradição histórica é, por assim dizer, de ontem; em momento algum superamos de facto aquilo a que Thorstein Veblen chamou a “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os factos económicos observáveis ​​pertencem a esta fase e mesmo as leis que deles podemos derivar não são aplicáveis ​​a outras fases. Como o verdadeiro propósito do socialismo é precisamente superar e avançar para além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência económica no seu estado atual pouco pode esclarecer sobre a sociedade socialista do futuro.

 

Em segundo lugar, o socialismo está direcionado para um fim socio ético. A ciência, no entanto, não pode criar fins e, muito menos, incuti-los nos seres humanos; A ciência, no máximo, pode fornecer os meios para atingir determinados fins. Mas os próprios fins são concebidos por personalidades com elevados ideais éticos e — se esses fins não nascerem mortos, mas antes vitais e vigorosos — são adotados e levados avante por muitos seres humanos que, quase inconscientemente, determinam a lenta evolução da sociedade.

Por estas razões, devemos ter cuidado para não sobrestimar a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos presumir que apenas os especialistas têm o direito de se exprimir sobre questões que afetam a organização da sociedade.

 

Inúmeras vozes têm vindo a afirmar desde há algum tempo que a sociedade humana atravessa uma crise, que a sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico de tal situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo hostis em relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o que quero dizer, permitam-me que registe aqui uma experiência pessoal. Recentemente, conversei com um homem inteligente e bem-intencionado sobre a ameaça de uma outra guerra, que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e observei que só uma organização supranacional ofereceria proteção contra este perigo. Perante isto, o meu visitante, com muita calma e frieza, disse-me: “Porque se opõe tão veementemente ao desaparecimento da raça humana?”

 

Estou certo de que, há pouco mais de um século, ninguém teria feito uma afirmação deste tipo com tanta leviandade. É a declaração de um homem que se esforçou em vão para alcançar o equilíbrio interior e que, em certa medida, perdeu a esperança de o obter. É a expressão de uma dolorosa solidão e isolamento que afligem tantas pessoas nos dias de hoje. Qual a causa? Existe uma saída?

 

É fácil levantar tais questões, mas difícil respondê-las com qualquer grau de certeza. Devo, contudo, tentar da melhor maneira possível, embora esteja bem ciente de que os nossos sentimentos e aspirações são frequentemente contraditórios e obscuros, e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.

 

O homem é, ao mesmo tempo, um ser solitário e um ser social. Como ser solitário, procura proteger a sua própria existência e a daqueles que lhe são mais próximos, satisfazer os seus desejos pessoais e desenvolver as suas capacidades inatas. Como ser social, procura obter o reconhecimento e o afeto dos seus semelhantes, partilhar os seus prazeres, confortá-los nas suas tristezas e melhorar as suas condições de vida. Só a existência destas aspirações variadas e frequentemente conflituantes explica o carácter especial de um homem, e a sua combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode alcançar um equilíbrio interior e contribuir para o bem-estar da sociedade. É bem possível que a força relativa destas duas aspirações seja, em grande parte, determinada pela hereditariedade. Mas a personalidade que finalmente emerge é amplamente formada pelo meio em que o homem se encontra durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela tradição dessa sociedade e pela sua avaliação de determinados tipos de comportamento. O conceito abstrato de “sociedade” significa, para o ser humano individual, a soma total das suas relações diretas e indiretas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas das gerações anteriores. O indivíduo é capaz de pensar, sentir, lutar e trabalhar por si próprio; mas depende tanto da sociedade — na sua existência física, intelectual e emocional — que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora da estrutura da sociedade. É a “sociedade” que fornece ao homem alimento, vestuário, habitação, instrumentos de trabalho, linguagem, formas de pensamento e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida torna-se possível graças ao trabalho e às realizações de milhões de pessoas, do passado e do presente, que estão todas escondidas por detrás da pequena palavra “sociedade”.

 

É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um facto da natureza que não pode ser abolido — tal como no caso das formigas e das abelhas. Contudo, enquanto todo o processo vital das formigas e das abelhas é determinado, até o menor detalhe, por instintos hereditários rígidos, o padrão social e as inter-relações dos seres humanos são muito variáveis ​​e suscetíveis a mudanças. A memória, a capacidade de fazer novas combinações e o dom da comunicação oral possibilitaram desenvolvimentos entre os seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Tais desenvolvimentos manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas conquistas científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica como, num certo sentido, o homem pode influenciar a sua vida através da sua própria conduta e como, neste processo, o pensamento e o desejo conscientes podem desempenhar um papel.

 

O homem adquire, à nascença, por hereditariedade, uma constituição biológica que devemos considerar fixa e inalterável, incluindo os impulsos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, ao longo da vida, o indivíduo adquire uma constituição cultural que adota da sociedade através da comunicação e de muitas outras influências. É esta constituição cultural que, com o passar do tempo, está sujeita a alterações e que determina, em grande medida, a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna ensinou-nos, através da investigação comparativa das culturas ditas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode variar muito, dependendo dos padrões culturais predominantes e dos tipos de organização que prevalecem na sociedade. É nisto que aqueles que se esforçam por melhorar a condição humana podem fundamentar as suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, por causa da sua constituição biológica, a aniquilarem-se mutuamente ou a estarem à mercê de um destino cruel e autoimposto.

 

Se nos interrogarmos sobre a forma como a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem devem ser alteradas para tornar a vida humana o mais satisfatória possível, devemos estar constantemente conscientes de que existem certas condições que não podemos modificar. Como já foi referido anteriormente, a natureza biológica do homem, para todos os efeitos práticos, não está sujeita a alterações. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações relativamente densamente povoadas, com os bens indispensáveis ​​à sua sobrevivência, é absolutamente necessária uma divisão extrema do trabalho e um aparelho produtivo altamente centralizado. O tempo — que, olhando para trás, parece tão idílico — passou para sempre, quando indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente autossuficientes. Não é exagero afirmar que a humanidade constitui, ainda hoje, uma comunidade planetária de produção e consumo.

 

Cheguei agora ao ponto em que posso indicar brevemente aquilo que, para mim, constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência da sociedade. Mas não vive esta dependência como um ativo positivo, como um laço orgânico, como uma força protetora, mas antes como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou mesmo à sua existência económica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egoístas da sua natureza são constantemente acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, qualquer que seja a sua posição na sociedade, sofrem com este processo de deterioração. Inconscientemente prisioneiros do seu próprio egoísmo, sentem-se inseguros, solitários e privados do prazer ingénuo, simples e descomplicado da vida. O homem só pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como é, dedicando-se à sociedade.

 

A anarquia económica da sociedade capitalista, tal como existe hoje, é, na minha opinião, a verdadeira fonte do mal. Vemos diante de nós uma vasta comunidade de produtores cujos membros se esforçam incessantemente por privar uns aos outros dos frutos do seu trabalho coletivo — não pela força, mas, em geral, em fiel conformidade com as normas legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante perceber que os meios de produção — isto é, toda a capacidade produtiva necessária para a produção de bens de consumo, bem como de bens de capital adicionais — podem ser, e na maioria das vezes são, propriedade privada de indivíduos.

 

Por uma questão de simplicidade, na discussão que se segue, chamarei “trabalhadores” a todos aqueles que não partilham a propriedade dos meios de produção — embora isso não corresponda exatamente ao uso habitual do termo. O proprietário dos meios de produção está em condições de comprar a força de trabalho do trabalhador. Ao utilizar os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que passam a ser propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que lhe é pago, sendo ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe não é determinado pelo valor real dos bens que produz, mas sim pelas suas necessidades mínimas e pelas exigências dos capitalistas em relação à força de trabalho, considerando o número de trabalhadores que competem por vagas. É importante compreender que, mesmo em teoria, a remuneração do trabalhador não é determinada pelo valor do seu produto.

 

O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte devido à competição entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho incentivam a formação de unidades de produção maiores em detrimento das mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado nem sequer por uma sociedade política organizada democraticamente. Isto acontece porque os membros dos órgãos legislativos são escolhidos por partidos políticos, amplamente financiados ou influenciados por capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado do legislativo. A consequência é que os representantes do povo não protegem, de facto, suficientemente os interesses das camadas menos favorecidas da população. Além disso, nas condições atuais, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). Assim, torna-se extremamente difícil, e na maioria dos casos praticamente impossível, para o cidadão comum chegar a conclusões objetivas e exercer os seus direitos políticos de forma inteligente.

 

A situação que prevalece numa economia baseada na propriedade privada do capital é, portanto, caracterizada por dois princípios principais: em primeiro lugar, os meios de produção (capital) são propriedade privada e os proprietários dispõem deles como bem entenderem; segundo, o contrato de trabalho é livre. É claro que não existe uma sociedade capitalista pura neste sentido. Em particular, é de notar que os trabalhadores, através de longas e árduas lutas políticas, conseguiram garantir uma forma um pouco melhorada do “contrato de trabalho livre” para certas categorias de trabalhadores. Mas, de um modo geral, a economia atual não difere muito do capitalismo “puro”.

 

A produção é realizada com o objetivo de lucro, não para uso. Não há garantia de que todos os capazes e dispostos a trabalhar encontrarão sempre emprego; um “exército de desempregados” existe quase sempre. O trabalhador vive constantemente com medo de perder o emprego. Como os trabalhadores desempregados e mal remunerados não constituem um mercado lucrativo, a produção de bens de consumo é limitada, resultando em grandes dificuldades. O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego do que numa redução da carga de trabalho para todos. A procura do lucro, em conjunto com a competição entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital, o que leva a depressões cada vez mais severas. A competição desenfreada leva a um enorme desperdício de mão-de-obra e ao enfraquecimento da consciência social dos indivíduos, como já referi anteriormente.

 

Considero este enfraquecimento dos indivíduos o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. Uma atitude competitiva exacerbada é inculcada no aluno, que é treinado para idolatrar o sucesso material como preparação para a sua futura carreira.

 

Estou convencido de que só existe uma forma de eliminar estes graves males: o estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada de um sistema educativo orientado para os objetivos sociais. Numa tal economia, os meios de produção pertencem à própria sociedade e são utilizados de forma planificada. Uma economia planificada, que ajusta a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho por todos os capazes de trabalhar e garantiria o sustento de todos os homens, mulheres e crianças. A educação do indivíduo, para além de promover as suas capacidades inatas, procuraria desenvolver nele um sentido de responsabilidade para com os seus semelhantes, em vez da glorificação do poder e do sucesso presentes na nossa sociedade atual.

 

Contudo, é necessário lembrar que uma economia planificada ainda não é socialismo. Uma economia planificada, por si só, pode ser acompanhada pela completa escravização do indivíduo. A conquista do socialismo exige a solução de alguns problemas sociopolíticos extremamente difíceis: como é possível, perante a ampla centralização do poder político e económico, impedir que a burocracia se torne omnipotente e prepotente? Como proteger os direitos do indivíduo e, assim, garantir um contrapeso democrático ao poder da burocracia?

 

A clareza sobre os objetivos e os problemas do socialismo é de primordial importância na nossa era de transição. Uma vez que, nas circunstâncias atuais, a discussão livre e desimpedida destes problemas se tornou um forte tabu, considero a fundação desta revista um importante serviço público.

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Helder Moura - (570) A arte de virar o bico ao prego

 * hélder moura

Sabíamos que essa história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa, Mark Carney, 1º Ministro do Canadá.

 Se não estão à mesa, estão no menu, Mark Carney.

Isto não é soberania. É a performance da soberania enquanto se aceita a subordinação.

  

No dia 20 de janeiro de 2026, Mark Carney, ex-banqueiro central e atual primeiro-ministro do Canadá, proferiu um notável discurso (vídeotranscrição) no Fórum Económico Mundial, em Davos.

Tratou-se aparentemente de um ataque à “ordem internacional baseada em regras”, o conceito que as nações ocidentais com impérios impuseram, promoveram e utilizaram para poderem justificar os seus inúmeros desvios e abusos ao direito internacional. Eis, o que entre outros, Carney disse:

 

“Esta noite falarei de uma rutura na ordem mundial, do fim de uma ficção agradável e do início de uma dura realidade onde a geopolítica – onde a grande potência dominante – não está sujeita a limites nem restrições. […]”

“[…] Parece que todos os dias somos recordados de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências. De que a ordem baseada em regras está a desaparecer. De que os fortes fazem o que podem e os fracos devem sofrer o que devem.”

“[…] Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob aquilo a que chamávamos uma ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Pudemos seguir políticas externas baseadas nesses valores sob a sua proteção.

Sabíamos que essa história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam quando lhes conviesse. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variável consoante a identidade do arguido ou da vítima.

Esta ficção era útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de litígios.

Assim, pendurámos a placa na janela. Participámos nos rituais. E, em grande parte, evitámos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade.

Este acordo já não funciona.

Deixem-me ser direto: estamos no meio de uma rutura, não de uma transição.

Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas áreas das finanças, da saúde, da energia e da geopolítica expuseram os riscos da integração global extrema.

Mais recentemente, as grandes potências começaram a utilizar a integração económica como arma. As tarifas como forma de pressão. Infraestrutura financeira como coerção. Cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a explorar.

Não se pode “viver na mentira” do benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da sua subordinação.”

“[…] E há outra verdade: se as grandes potências abandonarem até a pretensão de regras e valores em prol da busca irrestrita do seu poder e interesses, os ganhos do “transacionalismo” tornar-se-ão mais difíceis de replicar. As potências hegemónicas não podem monetizar continuamente os seus relacionamentos.

Os aliados diversificar-se-ão para se protegerem contra a incerteza. Contratarão seguros. Aumentarão as opções. Isto reconstrói a soberania – soberania que antes se baseava em regras, mas que estará cada vez mais ancorada na capacidade de resistir à pressão.

Como disse, esta gestão clássica do risco tem um preço, mas este custo da autonomia estratégica, da soberania, também pode ser partilhado. Os investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada um construir a sua própria fortaleza. Os padrões partilhados reduzem a fragmentação. As complementaridades são um resultado positivo.

A questão para as potências médias, como o Canadá, não é se se devem adaptar a esta nova realidade. Devemos. A questão é se nos adaptamos simplesmente construindo muros mais altos – ou se podemos fazer algo mais ambicioso.”

 

Mas, atenção: Carney não defende um regresso completo ao Estado de Direito. Não pede que o direito internacional seja aplicado de forma igual a todas as nações. Defende uma colaboração entre as "potências médias" para resistir à hegemonia e poderem continuar a explorar o resto do mundo:

 

“As potências médias devem agir em conjunto porque, se não estão à mesa, estão no menu.

As grandes potências podem dar-se ao luxo de agir sozinhas. Têm a dimensão do mercado, a capacidade militar, a influência para ditar as regras. As potências médias não. Mas quando negociamos apenas bilateralmente com uma potência hegemónica, negociamos a partir da fraqueza. Aceitamos o que nos é oferecido. Competimos entre nós para sermos os mais complacentes.

Isto não é soberania. É a performance da soberania enquanto se aceita a subordinação.

Num mundo de rivalidade entre grandes potências, os países intermédios têm uma escolha: competir entre si pela influência ou unir-se para criar um terceiro caminho com impacto.”

“[…] Não devemos permitir que a ascensão do poder coercivo nos impeça de ver que o poder da legitimidade, da integridade e das regras se manterá forte — se optarmos por exercê-lo em conjunto.”

 

Carney está a implorar aos vassalos da potência hegemónica que resistam coletivamente ao seu poder e, ao mesmo tempo, apelando às "médias potências" para que se juntem ao Canadá no novo clube.

Descartar a “ordem baseada em regras”, expô-la como a mentira que sempre foi, é um bom passo na direção certa. É uma mudança fundamental na forma de ver o mundo.

Mas também há que ter cuidado para não se cair na armadilha do significado que querem atribuir à ovação de pé que Carney escutou em Davos.

Recorde-se que os “liberais” como Carney, depois de patrocinarem o genocídio em Gaza, de saudarem o rapto de Nicolás Maduro, de celebrarem o bombardeamento do Irão, de apoiarem os ataques mortais contra Beirute e Iraque e aplaudirem o assassinato do governo do Iémen, de repente, quando Trump tenta tomar a Gronelândia, pregam a adesão ao direito internacional.

Recorde-se que estes mesmos líderes da França, Alemanha, Itália, Polónia, Reino Unido e outros, que numa declaração conjunta, afirmaram que o futuro da Gronelândia só poderia ser decidido “respeitando os princípios da Carta da ONU, incluindo a soberania, a integridade territorial e a inviolabilidade das fronteiras”, que pouco mais de duas semanas antes, tinham apoiado o ataque dos EUA à Venezuela e o rapto de Maduro.

A "ordem internacional baseada em regras" foi útil para alguns até deixar de o ser. Agora que foi declarada morta, fica a dúvida sobre que outro conceito fictício será inventado.

E quando os tidos como principais órgãos de comunicação social relatam que o discurso, escrito pelo próprio Carney, foi recebido com aplausos de pé, talvez queiram com isso dizer que os aplausos de pé possam ser tomados como prova de legitimidade, quando são meramente sinais de aprovação da elite.

É que talvez seja desta forma eficiente, educada e sob aplausos estrondosos que o modelo avança.  Provavelmente já nem está na fase de modelo ….

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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

hélder moura - (562) Quando as mentiras passam a ser verdades

  •  hélder moura
  •  17.12.25


A repetição, muitas vezes sobrevalorizada por se acreditar na capacidade inferior das massas para a perceber e recordar, é, contudo, importante porque as convence da consistência ao longo do tempo, H. Arendt.

 

O termo “lavagem de cérebro”, apesar de carecer de qualquer fundamentação científica validada, entrou para o imaginário da nossa sociedade como um conjunto de técnicas científicas.

 

O nosso problema é que as pessoas são obedientes quando as prisões estão cheias de pequenos ladrões enquanto os grandes ladrões comandam o país, H. Zinn.

 

 

 

Não é por acaso que nos EUA (não só) a chamada e assumida Direita Cristã tem vindo a impor que o criacionismo, ou o “desígnio inteligente” faça parte dos programas escolares, a ser ensinado em pé de igualdade científica com o evolucionismo. Ela sabe que o descrédito das disciplinas racionais, pilares do Iluminismo, é fundamental para destruir a indagação intelectual honesta e desapaixonada. A partir daí, os factos passam a poder ser intermutáveis com as opiniões.

O conhecimento da realidade não necessita já de ter por base a colheita elaborada de factos e evidências. Só por si, a ideologia é a verdade. Os factos que se interponham no caminho da ideologia podem ser mudados. As mentiras passam a ser verdades.

 

Mais abrangente, Hannah Arendt, explica-nos nas Origens do Totalitarismo, o comportamento de aceitação das massas:

 

Aquilo que convence as massas não são os factos, nem mesmo os inventados, mas apenas a consistência do sistema de que eles presumidamente fazem parte. A repetição, muitas vezes sobrevalorizada por se acreditar na capacidade inferior das massas para a perceber e recordar, é, contudo, importante porque as convence da consistência ao longo do tempo.”

 

 

É a 24 de setembro de 1950 que o Miami News publica um artigo do jornalista americano Edward Hunter em que pela primeira vez aparece o termo “lavagem de cérebro” (brain washing), que apesar de carecer de qualquer fundamentação científica validada, vai entrar para o imaginário da nossa sociedade como o conjunto de técnicas psicológicas que manipulam ações ou pensamentos contra a vontade, o desejo ou o conhecimento de uma pessoa, reduzindo-lhe a capacidade de pensar criticamente ou de forma independente, permitindo a introdução de novos pensamentos e ideias indesejáveis ​​na sua mente.

Segundo Hunter, combinando a teoria Pavloviana com a tecnologia moderna, os psicólogos chineses e russos conseguiram desenvolver técnicas poderosas de manipulação do cérebro das pessoas. Hunter cunhou o termo após entrevistar ex-prisioneiros chineses que foram submetidos a um processo de "reeducação”, bem como às técnicas de interrogatório que o KGB utilizava durante as purgas para extrair confissões de prisioneiros inocentes e, a partir daí, conseguiram variações - controlo da mente, alteração da mente, modificação do comportamento e outras.

Um ano depois, Hunter publica a sua obra base, Brain-Washing in Red China: The calculated Destruction of Men’s Minds, (Internet Archive, pdf), como alerta para o que entendia ser um vasto sistema maoísta de "reeducação" ideológica. A nova terminologia encontrou o seu caminho de aceitação maioritária na nossa sociedade como provam o mais vendido romance O Candidato da Manchúria e os filmes com o mesmo nome de 1962 (de John Franenheimer, com Frank Sinatra) e de 2004 (de Jonathan Demme, com Denzel Washington e Meryl Streep).

Talvez seja importante notar que Hunter fez parte de várias organizações de propaganda da CIA, e durante uma sua deposição perante o Comité de Atividades Antiamericanas da Câmara dos Representantes dos EUA, afirmou que os EUA e a NATO perderam a Guerra Fria devido à vantagem dos comunistas na propaganda e na manipulação psicológica, e que o Ocidente perdera a Guerra da Coreia por não estar disposto a usar a sua vantagem em bombas atómicas. Não via qualquer diferença entre os vários países comunistas e advertiu que tanto a Jugoslávia como a China estavam tão empenhadas na dominação mundial comunista quanto a União Soviética.

 

Estava criado o ambiente social e político para que a partir do início da década de 1950, a Agência Central de Inteligência (CIA) e o Departamento de Defesa dos EUA realizassem pesquisas secretas, incluindo o Projeto MKUltra, para o desenvolvimento de procedimentos e identificação de drogas que pudessem ser usadas para alterarem o comportamento humano. Estas experiências incluíram "desde a terapia de eletrochoques, hipnose, privação sensorial, isolamento, abuso verbal e sexual  a altas doses de LSD e outras formas de tortura, tendo como base experiências em humanos anteriormente efetuadas pelos nazis.

À frente do projeto (que incluía mais de 30 instituições e universidades envolvidas no programa de experimentação de drogas em cidadãos "de todos os níveis sociais, altos e baixos, nativos americanos e estrangeiros" sem o seu conhecimento, e em ainda mais de mil militares voluntários e empregados da CIA, e outros fora dos EUA nos black sites), Sidney Gottlieb e a sua equipa conseguiram "destruir a mente existente" de um ser humano utilizando técnicas de tortura; no entanto, o conseguir a reprogramação, em termos de encontrar "uma forma de inserir uma nova mente neste vazio resultante", não foi alcançada.

Em 1979, John D. Marks escrevia no seu livro "The Search for the Manchurian Candidate" que, até ao encerramento efetivo do programa MKUltra em 1963, os investigadores da agência não tinham encontrado uma forma fiável de fazer uma lavagem cerebral a outra pessoa, uma vez que todas as experiências terminaram sempre em amnésia ou catatonia, tornando impossível qualquer utilização operacional.

 

Mas algo se aproveitou: um relatório bipartidário do Comité de Serviços Armados do Senado, divulgado parcialmente em dezembro de 2008 e na íntegra em abril de 2009, relatou que os instrutores militares dos EUA que estiveram em Guantánamo em dezembro de 2002, basearam um curso de interrogatório num gráfico copiado de um estudo da Força Aérea de 1957 sobre técnicas de lavagem cerebral "comunistas chinesas" utilizadas para obter falsas confissões de prisioneiros de guerra americanos durante a Guerra da Coreia. O relatório mostrou ainda como a autorização do Secretário da Defesa, em 2002, para a utilização destas técnicas agressivas em Guantánamo, levou à sua utilização no Afeganistão e no Iraque, incluindo em Abu Ghraib.

 

 

E tão bem foram estas operações realizadas (servindo apenas para criar a tal “perceção da realidade”), que hoje acabamos a viver num mundo desejado estranhamente obediente. Eis o que Howard Zinn conclui:

 

Sempre que dizemos que o problema é a desobediência civil, estamos a dizer que o nosso problema é a desobediência civil. Esse não é o nosso problema… O nosso problema é a obediência civil. O nosso problema é o número de pessoas em todo o mundo que obedeceram às ordens dos líderes dos seus governos e foram para a guerra, e milhões foram mortos por causa dessa obediência. E o nosso problema é aquela cena em ‘Nada de Novo na Frente Ocidental’, onde os alunos marcham obedientemente em fila para a guerra. O nosso problema é que as pessoas são obedientes em todo o mundo, apesar da pobreza, da fome, da estupidez, da guerra e da crueldade. O nosso problema é que as pessoas são obedientes quando as prisões estão cheias de pequenos ladrões enquanto os grandes ladrões comandam o país. Esse é o nosso problema.”

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Helder Moura - (561) O desvelar das tendências militaristas atuais

 

 

O direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer, Tucídides.

 

Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão, não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo.

            

Diversos altos funcionários presos por crimes de guerraretomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês.

 

Na Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.

 

A revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz.

 

 

 

Quando apenas um mês depois de ter sido eleita como a 104ª primeira-ministra do Japão (21 de outubro de 2025), Sanae Takaichi, presidente do Partido Liberal Democrático (PLD), logo no seu primeiro discurso no parlamento ter afirmado que o Japão poderia envolver-se militarmente num conflito entre a China e Taiwan (“an attack on Taiwan could trigger the deployment of her country’s self-defence forces if the conflict posed an existential threat to Japan”), alterando radicalmente toda a política externa seguida até então pelo Japão, tal não fez mais que confirmar as tendências militaristas presentes não só no Japão mas que se têm vindo a apoderar das nossas sociedades.        

Uma das várias explicações para a emergência destas tendências, tem que ver com o que se passou na Segunda Guerra, particularmente com a forma como o pós-guerra que se lhe seguiu foi resolvido.

 

Quando em 1945 os Estados Unidos ocuparam o Japão, não se preocuparam especialmente em desenraizar a cultura do militarismo. Washington debateu se deveria destituir o imperador, figura central do projeto imperial, mas, seguindo o conselho da antropóloga Ruth Benedict, optou por manter o imperador e outros símbolos do militarismo. Isto incluía o Santuário Yasukuni, dedicado aos mortos de guerra, fundado em 1869 e que ainda hoje alberga os restos mortais de mais de mil criminosos de guerra condenados.

 

Diversos altos funcionários presos por crimes de guerra, mas nunca julgados, retomaram discretamente os seus cargos no Estado japonês. Entre eles estavam Yoshida Shigeru, diplomata de alto nível durante a guerra e primeiro-ministro do Japão durante a maior parte do período entre 1946 e 1954; Nobusuke Kishi, burocrata no nordeste da China durante a ocupação, ministro no gabinete de guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1957 a 1960; Shigemitsu Mamoru, ministro dos Negócios Estrangeiros no gabinete de guerra, julgado como criminoso de guerra de Classe A pelo seu papel na Coreia e preso, e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros na década de 1950; Okazaki Katsuo, diplomata durante os anos da guerra e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros de 1952 a 1954; Ikeda Hayato, funcionário do Ministério das Finanças durante os anos da guerra e, mais tarde, primeiro-ministro de 1960 a 1964; e Sato Eisaku, funcionário do Ministério dos Transportes durante os anos da guerra e mais tarde primeiro-ministro de 1964 a 1972. Neste caso, todos eles fizeram parte da chamada "máfia manchu" que liderou a ocupação na China, manteve-se no poder.

 

Para que conste, Nobusuke Kishi foi o avô de Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão de 2006 a 2007 e novamente de 2012 a 2020. Muitas vezes é omitido o facto de Kishi ter sido o arquiteto da ocupação japonesa do nordeste da China e responsável pelo regime de trabalho forçado na China e na Coreia. Após a guerra, Kishi foi brevemente preso em Sugamo como suspeito de ser um criminoso de guerra de Classe A, sendo libertado sem julgamento em 1948. Esperou alguns anos antes de regressar à política com um objetivo fundamental: rever a Constituição de 1947 para remover o Artigo 9, que impunha restrições à militarização no Japão.

 

Em 1952, os EUA reabilitaram formalmente muitos oficiais japoneses que serviram durante a guerra, abrindo caminho para que homens como Kishi entrassem na política ativa e pavimentando o terreno para a formação do Partido Liberal Democrático (PLD) em 1955. Este partido é atualmente liderado por Sanae Takaichi, que nasceu em 1961 e que é a atual primeira-ministra do Japão.

 

Desde que entrou na política, Takaichi tem sido uma figura de destaque na direita chauvinista do Japão, tendo emergido por intermédio do seu mentor, Shinzo Abe. Tal como o avô de Abe, Kishi, Takaichi deseja rever a Constituição japonesa para que o Japão possa reconstruir as suas forças armadas. Em diversas ocasiões, demonstrou reverência pelo período anterior a 1945: visitou o Santuário Yasukuni, defende a conduta do Japão durante a guerra, questiona a natureza coerciva do sistema das "mulheres de conforto" e apoia a ideia de "restauração do orgulho" no passado imperialista. Afirmou que deseja que os manuais japoneses deixem de ser "autodepreciativos" e questionou a veracidade dos crimes de guerra cometidos em Nanquim. As opiniões de Takaichi, que nasceu após a guerra, ilustram que a ocupação americana não só falhou em erradicar a essência do fascismo da sociedade japonesa, como também lhe permitiu florescer.

 

 

Segundo o extenso artigo sobre “Os crimes de guerra do Japão”, antes e durante a Segunda Guerra Mundial, Império do Japão cometeu inúmeros crimes de guerra e crimes contra a humanidade em diversas nações da Ásia-Pacífico, nomeadamente durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Guerra do Pacífico. Estes crimes ocorreram durante o reinado do Imperador Hirohito.

Exército Imperial Japonês (IJA) e a Marinha Imperial Japonesa (IJN) foram responsáveis ​​por crimes de guerra entre 1927 e 1945, que levaram a 19 milhões a 30 milhões de mortes, desde assassinatos em massa, terrorismo, limpeza étnica, genocídio, escravatura sexual, massacres, experimentação em humanos, tortura, fome e trabalho forçado.

 

A liderança política e militar japonesa tinha conhecimento dos crimes das suas forças armadas, mas continuou a permiti-los e até a apoiá-los, com a maioria das tropas japonesas estacionadas na Ásia a participar ou a apoiar os assassinatos.

Embora não seja claro se o Imperador Hirohito foi informado da extensão total desses crimes, o irmão mais novo do Imperador, o Príncipe Mikasa, serviu como oficial no Exército Imperial Japonês estacionado na China, escreveu nas suas memórias que os oficiais utilizavam prisioneiros de guerra chineses para o treino com baioneta, a fim de fortalecer a determinação dos soldados japoneses. Além disso, observou que os prisioneiros de guerra eram asfixiados e fuzilados em grande número.

Serviço Aéreo do Exército Imperial Japonês participou em ataques químicos e biológicos contra civis durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial, violando acordos internacionais que o Japão tinha assinado, incluindo as Convenções de Haia, que proibiam o uso de "veneno ou armas envenenadas" nas guerras.

 

Após a Guerra, foram emitidos inúmeros pedidos de desculpas pelos crimes de guerra por parte de altos funcionários do governo japonês. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão reconheceu o papel do país em causar "tremendos danos e sofrimento" antes e durante a Segunda Guerra Mundial, particularmente o massacre e violação de civis em Nanquim pelo Exército Imperial Japonês.

No entanto, a questão continua a estar pronta a ser reaberta, com alguns membros do governo japonês, incluindo os ex-primeiros-ministros Junichiro Koizumi e Shinzō Abe, a terem prestado homenagem no Santuário Yasukuni, que honra todos os mortos de guerra japoneses, incluindo criminosos de guerra de Classe A condenados.

Segundo Shinzö Abe, o Japão aceitou o Tribunal de Tóquio e os seus julgamentos como condição para acabar a guerra, mas as suas sentenças não têm qualquer relação com as leis do Japão: assim, os condenados em crimes de guerra não são criminosos segundo a lei japonesa.

Além disso, alguns manuais de história japoneses fornecem apenas breves referências aos crimes de guerra, e certos membros do Partido Liberal Democrático negaram algumas das atrocidades, como o envolvimento do governo no rapto de mulheres para servirem como "mulheres de conforto", um eufemismo para escravas sexuais.

 

Quanto a assassinatos em massa, o historiador britânico Mark Felton afirma que foram mortas até 30 milhões de pessoas, a maioria civis:

 

Os japoneses assassinaram 30 milhões de civis enquanto "libertavam" do domínio colonial aquilo a que chamavam a Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental. Cerca de 23 milhões destas pessoas eram de etnia chinesa. É um crime que, em números absolutos, é muito maior do que o Holocausto naziNa Alemanha, negar o Holocausto é crime. No Japão, é política de governo.”

 

Quanto a experimentação em humanos e guerra biológica, unidades militares especiais japonesas realizaram experiências em civis e prisioneiros de guerra na China. O objetivo da experimentação era desenvolver armas biológicas que pudessem ser utilizadas para a guerra. Agentes biológicos e gases desenvolvidos a partir destas experiências foram utilizados contra o Exército Chinês e a população civil. Isto incluiu a Unidade 731 sob o comando de Shirō Ishii. As vítimas foram submetidas a experiências que incluíram, entre outras, vivissecção, amputações sem anestesia, testes de armas biológicas, transfusões de sangue de cavalo e injeção de sangue animal nos seus cadáveres. A anestesia não era utilizada porque se acreditava que os anestésicos afetariam adversamente os resultados das experiências:

 

Para determinar o tratamento da hipotermia, os prisioneiros eram levados para o exterior com um tempo gelado e deixados com os braços expostos, sendo periodicamente encharcados com água até congelarem completamente. O braço era posteriormente amputado; o médico repetia o processo na parte superior do braço da vítima até ao ombro. Depois de ambos os braços serem amputados, os médicos passavam para as pernas até que restassem apenas a cabeça e o tronco. A vítima era então utilizada para experiências com peste e agentes patogénicos”.

 

Do artigo referido, consta uma listagem que pode ser consultada respeitante a definições dos crimes de guerra japoneses, a lei internacional e a japonesa, o militarismonacionalismo , imperialismo e racismo japonêsarmas de destruição massivatortura de prisioneiros de guerra, os julgamentos de Tóquio, lista dos maiores crimes e massacres, dos crimes de guerra, e outros.

 

 

É no blog de 27 de setembro de 2017, “Os ovos da serpente”, que podem ler:

“[…] Ainda antes do fim da II Guerra já centenas de milhar de prisioneiros dos exércitos nazis capturados e para os quais não havia campos de internamento em quantidade suficiente, foram colocados nos navios de carga que regressavam vazios aos EUA depois de terem descarregado todo o material na Europa. E por lá ficaram.

 É sempre bom recordar que em 1939 os nazis contavam com mais de duzentos mil seguidores e simpatizantes nos EUA, que a revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938”, entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz, e que entre os seus admiradores se encontravam o magnate automobilístico Henry Ford e o aviador Charles Lindbergh.

E que na Grã-Bretanha, a abdicação em 1936 do rei Eduardo VIII, Duque de Windsor, ficou certamente mais a dever-se às suas simpatias para com Hitler e o regime nazi do que com o facto de se pretender casar com uma divorciada americana. Eram notórias as simpatias da classe alta e dos aristocratas britânicos para com o regime nazi, o que talvez tenha levado Hitler a cometer o erro estratégico de acreditar que a implantação do seu regime na Grã-Bretanha seria relativamente fácil, não se preocupando muito em dificultar a retirada do exército britânico de Dunquerque.

 Na destruição e na confusão que se seguiu após o fim da II Guerra, a necessidade de se manter a funcionar um mínimo de administração pública nos países derrotados, e até na dificuldade de separar nazis de não nazis fez com que, intencionalmente ou não, muitos deles passassem despercebidos. Vamos acreditar que foram essas as razões e que não foi intencional.

Na realidade, os aliados que ocuparam a República Federal da Alemanha (Estados Unidos, Reino Unido e França) condenaram apenas 6650 ex-nazis, o que só por si era uma pequena parte do total dos membros do partido. E, as elites alemãs da época fizeram o resto.

Um recente estudo denominado “Projeto Rosemburg” apresentado publicamente por Heiko Maas, atual ministro da Justiça alemão, vem confirmar que em 1957, 77% dos funcionários com cargos de responsabilidade no Ministério da Justiça alemão (ou seja, três em cada quatro) eram antigos membros do partido nazi. O que não deixa de ser até curioso, porquanto essa percentagem em 1957 era mais alta do que durante o Terceiro Reich (http://www.dn.pt/mundo/interior/sistema-de-justica-alemao-do-pos-guerra-estava-dominado-por-ex-nazis-5434041.html) […]”.

E por lá estão.

 

E no blog de 1 de fevereiro de 2023, “Crimes de guerra e guerra sem crimes”,  poderão ler sobre o Tribunal de Nuremberga e o Tribunal de Tóquio::

 

“[..]A primeira sessão, sob a presidência do representante soviético, Gen. I.T. Nikitchenko, realizou-se a 18 de outubro de 1945, em Berlim. Foram acusados 24 ex-líderes nazis ​​por perpetuarem crimes de guerra, e ainda vários grupos (como a Gestapo, a polícia secreta nazi) acusados ​​por terem carácter criminoso. A partir de 20 de novembro de 1945, todas as sessões do tribunal passaram a ser realizadas no Palácio da Justiça em Nuremberga.

Após 216 sessões, a 1 de outubro de 1946, foi proferido o veredicto de 22 dos 24 réus originais (Robert Ley cometeu suicídio enquanto estava na prisão, e as condições físicas e mentais de Gustav Krupp von Bohlen und Halbach impediram que ele fosse julgado). Três dos réus foram absolvidos: Hjalmar Schacht, Franz von Papen e Hans Fritzsche. Quatro foram condenados a penas de prisão que variaram de 10 a 20 anosKarl DönitzBaldur von SchirachAlbert Speer e Konstantin von Neurath. Três foram condenados à prisão perpétuaRudolf HessWalther Funk e Erich Raeder. Doze dos réus foram condenados à morte por enforcamento. Dez deles - Hans FrankWilhelm FrickJulius StreicherAlfred RosenbergErnst KaltenbrunnerJoachim von RibbentropFritz SauckelAlfred JodlWilhelm Keitel e Arthur Seyss-Inquart - foram enforcados a 16 de outubro de 1946. Martin Bormann foi julgado e condenado à morte à revelia, e Hermann Göring suicidou-se antes de poder ser executado.

 

Para além deste tribunal, foram ainda constituídos logo de seguida, entre dezembro de 1946 e abril de 1949, outros 12 subsequentes tribunais militares para julgar crimes de guerra cometidos por chefias do partido nazi, médicosindustriaisjuízesministros e outros elementos de organizações nazis. Dos 3.887 casos, 3.400 foram abandonados, tendo sido presentes a tribunal 489, com 1.672 acusados, dos quais 1.416 foram condenados (200 foram executados, 279 condenados a prisão perpétua – embora em 1950 quase todos acabassem por serem soltos ao abrigo de uma amnistia).

 

Particular interesse tem também o caso do tribunal para julgar os crimes dos nazis japoneses (Tribunal de Tóquio) instaurado pelo General Douglas MacArthur, onde, devido ao encobrimento feito pelo próprio governo americano, os principais responsáveis pelos crimes horrendos da Unidade 731 (experiências com armas biológicas e químicas em humanos) não foram presentes à justiça, e onde devido aos então recentes bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui se invocou que os pilotos japoneses não podiam ser punidos por bombardearem cidades dado os pilotos americanos terem feito o mesmo […]”  

 

Na História da Guerra do Peloponeso, começada a escrever já lá vão 2.400 anos (431 a. C.), Tucídides pôs os poderosos Atenienses a explicar aos derrotados e impotentes melitanos, a razão para o genocídio que se lhe seguiu:

 

 “o direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer”, (capítulo XVII, Décimo sexto Ano da Guerra, A Conferência Melitana, O Destino de Melos).