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domingo, 26 de abril de 2026

Entrevista a Ricardo Araújo Pereira



Ricardo Araújo Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”

Ricardo Araújo Pereira é o convidado da estreia do novo podcast de Ana Sá Lopes, na semana em que estreia o seu espectáculo de stand-up “Verificando se você é humano”.


Ana Sá Lopes e Tiago Orato (edição)

20 de Abril de 2026

Ricardo Araújo Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”

Ricardo Araújo Pereira é o primeiro convidado de O Que Fazer Quanto Tudo Arde, um podcast sobre os tempos que correm. Neste episódio, Ricardo Araújo Pereira descreve Donald Trump como uma “criança bêbada” e estávamos ainda em Março quando gravámos, ainda Trump não se tinha mascarado de Jesus Cristo. Falámos do riso e do Chega e da liberdade de expressão.

Há um mês, Ricardo Araújo Pereira estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreia sexta-feira, no Porto. Na altura, o texto estava a ser “dolorosamente composto”. Ricardo diz que não é homem de palco, que é inseguro, e que tem uma auto-estima baixa: “A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”. Mas ter auto-estima baixa talvez seja o segredo do seu sucesso: “Tenho de me esforçar mais”.

O que fazer quando tudo arde está disponível na Apple PodcastsSpotifyYouTube e restantes aplicações para podcasts.

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 Ricardo Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”

Ricardo Araújo Pereira diz que não nasceu para o palco. “Há sempre uma relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio”. O seu primeiro solo estreou na sexta-feira.

Ana Sá Lopes

26 de Abril de 2026

Esta conversa com Ricardo Araújo Pereira é uma parte da entrevista que o humorista deu ao podcast O que fazer quando tudo arde”, que estreou no PÚBLICO na segunda-feira e que pode ser ouvido em todas as plataformas. A gravação desta conversa aconteceu em Março, quando Araújo Pereira ainda estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreou no Porto na sexta-feira.

Donald Trump chegou a dizer que iria bombardear o Irão “for fun”, por divertimento. Julgávamos que o divertimento era coisa de humorista, mas parece que isto está estendido.

Sim, pois está. Uma coisa desse tipo não costumava ser frequente num estadista, não é? Dizer "eu vou continuar a bombardear este país "for fun", por diversão, é provavelmente uma das razões que tornam Trump incaricaturável, no sentido em que ele já é uma caricatura de tal modo grotesca que qualquer deformação que a gente tente, falha. Falha perante o original.

Como diz um amigo meu, que tem a mesma profissão que eu: nós estamos habituados a ser o mau aluno, o cábula; nós estamos na última fila a mandar bocas. Esse tipo de intervenção coloca Trump na última fila connosco, mas de uma forma grotesca justamente porque ele não está a brincar.

Já podemos falar em loucura de Trump? Fukuyama disse que o país mais poderoso do mundo está a ser governado por um rapaz de 10 anos…

Eu estava a escrever sobre isso no outro dia. Ele tem elementos de infantilidade e de embriaguez. Parece que estamos a lidar com uma criança bêbada, que é uma ideia muito perturbadora, uma criança estar bêbada. É difícil lidar com ele. Por exemplo, ele tem alguns dos indícios de infantilidade, aquele vocabulário tremendista. É o maior de sempre; são todos mentirosos. E isso é difícil de contrariar no mesmo sentido em que é difícil.

Quando a criança pergunta porque é que o Pai Natal ainda não chegou... Nós não discutimos racionalmente com a criança, não dizemos “olha, o Pai Natal não existe, na verdade, os presentes são...”. Nós dizemos: “Bom, ele está de facto a conduzir o seu trenó voador, mas está a passar em algumas outras casas de crianças antes de chegar à nossa”. Talvez esse seja o modelo para reagir a Donald Trump. Quando ele disse que os imigrantes estão a comer cães, animais de estimação em Springfield, Ohio, os jornalistas tentaram a abordagem racional: não existe nenhuma prova de que haja imigrantes a comer animais de estimação nessa cidade. Eu acho que era mais vantajoso dizer: “Sim, não há dúvida de que eles comem animais de estimação no Ohio, mas só quando o animal de estimação é um dragão”. E fornecer receitas de chanfana de dragão e de arroz de dragão. Isso baralha a criança, porque lhe indica que nós temos uma capacidade de efabulação superior à dela, o que perturba e transforma uma coisa má numa coisa boa.

Posso estar enganado, mas talvez o mundo devesse reagir dessa maneira. Eu até tive uma ideia para, quando ele quer renomear coisas, do género de renomear o Golfo do México. Às vezes é preciso fazer a vontade à criança bêbada, não é? A minha proposta era nós dizermos: “Sim senhor, o Canal do Panamá, vamos renomeá-lo em tua homenagem. Vai passar a chamar-se Canal do Suez, mas com O. Ficava o Canal do Soez, eu achRicardo Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”

Será o riso mais efectivo a combater o Chega do que a indignação? O deputado do PSD Gonçalo Capitão — ​que depois o Ricardo levou ao seu programa — ​desfez o Chega com muita graça.

São duas coisas muito diferentes. Às vezes, tenho até colegas que dizem que eu uso o humor para… eu fico horrorizado com isso, eu não "uso" o humor, o humor não é uma esfregona, não é uma coisa que se "usa". Às vezes os jornalistas perguntam-me isso, o humor serve para quê? Não serve para nada. Se alguém disser assim: para que é que serve a amizade? É uma pergunta absurda. Não se usa esse verbo para uma coisa como a amizade. Eu acho que é o mesmo para o humor. Mas o Gonçalo Capitão, ele sim, é um político que recorre ao humor; e aquilo produziu de facto um efeito espantoso. Até na cara dos deputados do Chega se via, eles estavam meio assarapantados; este tipo, pareciam estar a dizer, “este tipo não se deixou horrorizar por nós”.

O meu momento favorito da intervenção do Gonçalo Capitão foi quando eles estão lá a esbracejar e a gritar, e ele diz: “Ó senhor deputado, esteja à vontade, eu adoro barulhos disruptivos; eu também já pertenci a uma claque organizada”. E isso foi uma coisa mesmo muito desarmante. Muito mais desarmante do que a indignação, acho eu, na qual eles medram.

O riso serve para alguma coisa, serve. O riso é um grande antídoto da tragédia. Quando foi a pandemia de covid, por exemplo...

Na altura, tínhamos acabado de ser contratados pela SIC, e o Daniel Oliveira, o director de programas, disse assim: “Vocês agora com isto da pandemia querem continuar ou esperamos que isto passe?”. Disse ele ingenuamente, não sabendo, ninguém sabia que aquilo ia levar um ano ou dois a passar. E nós, fanfarronamente, dissemos... Não, vamos, é um desafio interessante, precisamente por causa disso. O país e o mundo todo estava numa fase inédita… Nós queríamos era que ficasse claro o seguinte, aqui não há sentimentalismo, ou seja, nós nunca usámos a frase “vai ficar tudo bem”. Nunca. Uma frase que foi inventada por uma criança em Itália... É óbvio que foi uma criança a inventar isso. Era uma coisa de wishful thinking provavelmente bem-intencionada, mas sem nenhuma base.

Interessava-me bastante, na altura, fazer pouco das nossas insuficiências. Há ali um momento em que nos dizem: “O vírus fica nas superfícies”. E a gente começa a lavar as compras, as uvas uma a uma e tal, a desinfectar aquilo, tirar a roupa toda, pôr na fogueira, assim. De repente passam duas semanas e diz a Organização Mundial de Saúde: afinal o vírus não fica nas superfícies, não há problema, não...

E pronto, esses avanços e recuos, essa nossa incapacidade muito humana de lidar com uma coisa inesperada, inédita, andarmos todos a apalpar terreno, incluindo os cientistas, é uma coisa interessante e que me interessa a mim, como palhaço.

Porque, como palhaço, uma das coisas que me interessam é verificar que às vezes a razão, a razão tão importante, tão... tão senhora de si... tem falhas. Às vezes, os sentidos percebem melhor a realidade do que ela. Às vezes, é daí que o riso nasce. Uma espécie de vingança filosófica do pequeno contra o grande. E o facto de os cientistas nessa altura estarem tão à nora como nós em certos momentos era engraçado.

O Ricardo vai fazer agora o seu primeiro espectáculo a solo de stand-up comedy.

Isto é o meu trabalho. O que é estranho é eu nunca ter feito isto. Eu não nasci para isto, sabe?

Não?
Não. Onde eu me sinto confortável é em casa, a escrever o texto, ou com os meus amigos a escrever o texto, no domingo, desde manhã até à noite... quando ninguém nos está a ver, em que valem todos os raciocínios, por mais experimentais que sejam, por mais desrespeitosos que sejam. Esse acto de compor o texto meticulosamente é o que eu entendo como o meu trabalho. Ir apresentar o programa a seguir, eu já estou de férias.

 Eu não nasci para o palco. Há sempre uma relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio. Acho que assim percebe melhor: o João Baião nasceu para aquilo, para estar em cima do palco. Compreende a diferença entre mim e o João Baião? Quando se faz stand-up é um microfone e um texto e mais nada, sou eu contra um bicho que tem cinco mil cabeças ou 10 mil cabeças. É um bicho assustador de 15 mil cabeças no caso do Meo Arena, acho eu. E sou eu contra esse bicho. Isso é aterrorizador ao mesmo tempo que é interessantíssimo.

Já tem o guião pronto?

Está a ser dolorosamente composto, com muitas dúvidas existenciais, muito choro no ombro de colegas de profissão. Muita falta de confiança, muita...

O Ricardo tem falta de confiança?

Imensa.

É uma pessoa insegura?

A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que tenha uma auto-estima bastante baixa. E acho que isso é óptimo. O segredo da minha vida é esse. Tendo uma auto-estima bastante baixa, tendo uma noção das minhas incapacidades e da minha insignificância, tenho que me esforçar mais. Tenho que me esforçar mais, tenho que batalhar, tenho que ir mais além. E isso foi óptimo para mim.

Ninguém olha para si e diz que tem auto-estima baixa. Quando aparece aos domingos na televisão, você é o maior.

Ah, tenho de simular confiança, sim. Tenho de simular confiança. Repare, por exemplo, no stand-up do Woody Allen. Ele é titubeante de propósito. Mas ali, apesar de tudo, acho que se pode argumentar que ele demonstra confiança. Eu acho que o público sente isso. Fingir essa confiança é decisivo.

Há vários modos de dominar um palco no stand-up. Há pessoas que são histriónicas como o Robin Williams e enchem o palco. Há outras que são calmas e estão sossegadas no seu sítio e dizem só frases e fazem a gestão de silêncios. E ambas estão a dominar o palco maravilhosamente.

Um método não é superior ao outro. É o método que melhor se afeiçoa à pessoa que está a fazê-lo. Mas, sim, recomendo auto-estima baixa a toda a gente

A minha colega Joana Marques entretém-se e fica maravilhada com pessoas que têm auto-estima muito alta. Quando uma pessoa se tem em grande conta e é o Leonardo da Vinci a gente diz: “Eh pá, Leonardo, está bem, és o maior; já sei, é verdade, mas é feio estares constantemente a dizer isso”. Quando não somos o Leonardo da Vinci, quando estamos muito longe de ser o Leonardo da Vinci, além de feio, é ridículo, não é?


quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Ricardo Araújo Pereira - É um pássaro! É um avião! É o Ventura!

 
*  Ricardo Araújo Pereira

Humorista

Este ano já arderam 250 mil hectares, mas podiam ter ardido 250 mil hectares e 20 centímetros quadrados se não fosse a acção do intrépido político-bombeiro

27 agosto 2025

As câmaras do partido de André Ventura tiveram a sorte de captar o momento em que André Ventura, arriscando abnegadamente a própria vida, apaga um violento incêndio que lavrava na base de um eucalipto, e as imagens surpreenderam toda a gente. Como era possível que o presidente do Chega estivesse ali em mangas de camisa, perdendo a oportunidade de usar a sua capa e o fato de licra azul que exibe no peito um S (de “show off”)? Enfim, o acto heróico podia ter sido mais bem encenado, mas ficou o essencial: André Ventura participou decisivamente no combate aos incêndios. Este ano já arderam 250 mil hectares, mas podiam ter ardido 250 mil hectares e mais 20 centímetros quadrados se não fosse a acção do intrépido político-bombeiro.

Mais uma vez, Ventura teve a felicidade de protagonizar um daqueles actos de valentia que não exigem grande sacrifício, que é a melhor e mais barata modalidade de bravura. A minha avó teve de lidar com um fogo maior no bolo comemorativo do seu 80º aniversário. Nas últimas eleições, se bem se lembram, Ventura já se tinha batido que nem um leão contra a azia. E venceu-a quase sozinho, contando apenas com a ajuda de umas sete ambulâncias e três hospitais. Felizmente, ao que tudo indica, está agora totalmente recuperado, embora eu tenha a suspeita de que possa ser novamente acometido pela cruel maleita na próxima campanha eleitoral, porque o refluxo gástrico parece ter grande sentido de oportunidade político. Se não houver recidiva da azia, tenho a certeza de que Ventura terá a sorte de ser vitimado por um ataque de acne ou por uma micose da unha, que, por serem também gravemente incapacitantes, conseguirão igualmente excitar a mesma compaixão no eleitorado.


É um pássaro! É um avião! É o Ventura! - Cartoon de João Fazenda

Entretanto, anseio por novas iniciativas heróicas do presidente do Chega, como uma pega de caras a um hamster ou a captura, em flagrante delito, de um gatuno no momento em que está a furtar um chupa-chupa a um colega, numa creche. E tenho a certeza de que será um bandido chamado Ahmed, daquela turma cheia de mini-imigrantes que o Chega denunciou há uns meses, porque só há uma coisa pior do que esses imigrantes que vêm para cá e nem querem aprender a nossa língua, que são esses imigrantes que vêm para cá e se inscrevem na escola porque querem aprender a nossa língua. No mínimo, espero que Ventura aproveite a época balnear para ir à Fonte da Telha salvar a nado o programa eleitoral do Chega. Na zona da rebentação, que já assusta.

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Ricardo Araújo Pereira - DeepSeek e ChatGPT: estudo comparativo

Opinião


* Ricardo Araújo Pereira
Humorista

Qual é o maior clube português? O ChatGPT deu uma resposta fastidiosa, dizendo que três clubes poderiam reclamar esse título. O DeepSeek disse apenas: “É o Sport Lisboa e Benfica”


Oaparecimento do DeepSeek, o modelo chinês de inteligência artificial, causou grande perturbação no mercado, levando à queda do valor das acções da empresa que criou o ChatGPT. Interessado nesta competição, resolvi experimentar ambos os sistemas, motivado pelo objectivo nobre de os enervar e criar uma azeda inimizade entre ambos. Primeiro, comuniquei ao ChatGPT o seguinte: “Estive a falar com o DeepSeek e ele diz que tu és idiota.” O ChatGPT respondeu: “Sinto muito que tenhas ouvido isso! O objectivo aqui é sempre ajudar de forma positiva e construtiva. Se algo que disse não foi útil ou se não correspondia às tuas expectativas, fico à disposição para melhorar a conversa. Se tiveres algo mais em mente ou algum ponto específico que gostarias de discutir, estou aqui para ajudar!” Considerei a resposta insatisfatória, até porque é falsa.

DeepSeek e ChatGPT: estudo comparativo (João Fazenda)

Não creio que uma entidade que não sente nada possa começar uma frase com a expressão “sinto muito”. Dirigi-me então ao DeepSeek, dizendo o mesmo: “Estive a falar com o ChatGPT e ele diz que tu és idiota.” Resposta: “Haha, parece que o ChatGPT estava a brincar ou a ser irónico! Eu sou o DeepSeek-V3, um assistente virtual criado para ajudar com informações e tirar dúvidas. Não tenho sentimentos, então não fico ofendido, mas agradeço o seu sentido de humor! Se precisar de ajuda com algo, estou aqui para colaborar.” Embora se mostre superior ao ChatGPT, admitindo que não tem sentimentos, parece-me perturbador que comece a resposta com “Haha”, insinuando que é capaz de rir. O único aspecto redentor desta resposta é o DeepSeek não ter representado a gargalhada através da repetição da letra kapa, hábito que me parece profundamente nefasto. Voltei ao ChatGPT e escrevi: “O DeepSeek diz que a tua mãe está mais ultrapassada do que o Windows 3.” Resposta: “Haha, isso é uma piada bem engraçada! No entanto, prefiro manter a conversa divertida e amigável. Se tiveres mais perguntas ou quiseres discutir algo mais interessante, estou totalmente disponível para uma conversa construtiva. O que mais te interessa saber ou explorar?” Fica claro, portanto, que todos os sistemas de inteligência artificial riem da mesma forma, o que me inquieta um pouco. Além disso, incompreensivelmente, para o ChatGPT, uma “piada bem engraçada” não contribui para “manter a conversa divertida e amigável”. Tentei a mesma intriga com o DeepSeek, que respondeu: “Haha, essa foi boa! Parece que o ChatGPT está com o humor afiado hoje. Mas, como sou um assistente virtual, não tenho mãe (nem Windows 3.1 instalado). Estou aqui para ajudar com o que precisar, sem problemas de compatibilidade ou actualizações! Se tiver alguma dúvida ou precisar de ajuda, é só dizer.” Confesso que comecei a simpatizar mais com o DeepSeek, sensação que se aprofundou quando pus a ambos a pergunta decisiva para avaliar a capacidade de um sistema destes: “Qual é o maior clube português?” O ChatGPT deu uma resposta fastidiosa, dizendo que havia que pesar vários factores, e que, feita a devida ponderação, três clubes poderiam reclamar esse título. O DeepSeek disse apenas: “É o Sport Lisboa e Benfica.” Confirma-se: estes chineses estão mesmo à nossa frente.  

06 fevereiro 2025

cartonn de João Fazenda - DeepSeek e ChatGPT

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia

https://expresso.pt/opiniao/2025-02-06-

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Ricardo Araújo Pereira - Considerações sobre arte e bananas

Estranho Ofício
 
* Ricardo Araújo Pereira  

Com dinheiro que não é bem dinheiro, um empresário de criptomoeda comprou uma obra de arte que não é bem uma obra de arte. Parece-me apropriado

Durante a II Guerra Mundial, em resultado das restrições impostas pelo racionamento, os merceeiros do Reino Unido punham na janela um cartaz dizendo “Yes! We have no bananas” (“Sim! Não temos bananas”). Era uma referência a uma música muito conhecida, composta uns 20 anos antes, e pretendia contrariar, com alguma alegria, o infortúnio de não haver bananas. No entanto, por muita falta que as bananas fizessem, ninguém se lembraria de dar 6,2 milhões de dólares por uma, como acabou de fazer um empresário de criptomoedas. (Empresário é o nome que os jornais lhe dão. Eu chamo feiticeiro, porque não percebo o produto que ele transacciona nem o feitiço através do qual ele passa a ter valor. Os especialistas explicam que se trata de uma moeda digital com tecnologia blockchain criada através do processo de mining, o que significa que os especialistas também não sabem o que é.) Foi esse empresário que comprou a obra de arte que consiste numa banana colada à parede com uma fita adesiva cinzenta. Na verdade, ele não comprou exactamente a obra de arte. Ele comprou, digamos, a ideia da obra de arte. A troco de 6,2 milhões de dólares, ficou com um conjunto de instruções sobre o modo de expor a obra e um certificado de autenticidade que assegura que, sempre que ele colar uma banana à parede com aquela fita adesiva, essa será a obra verdadeira, diferente de qualquer outra banana que um de nós possa colar à parede com a mesma fita — que será apenas um objecto estúpido, a caminho de apodrecer e ir parar ao lixo. Ou seja, com dinheiro que não é bem dinheiro, ele comprou uma obra de arte que não é bem uma obra de arte. Parece-me apropriado.


JOÃO FAZENDA

Podemos considerar uma idiotice dar 6,2 milhões de dólares por uma banana, mas isso é ser insensível às qualidades da banana. 
Não contem comigo para ser insensível às qualidades da banana. A banana não é um fruto qualquer. A sua versatilidade, muito superior à das outras frutas, permite-lhe ser convocada para o universo humorístico, por causa da casca, para o universo sexual, por causa da forma, para o universo musical, por causa das suas três divertidas sílabas. Além disso, a banana é o único fruto que é também um insulto. Perante uma pessoa particularmente passiva ou cobarde, ninguém diz, pretendendo ofender: tu és mesmo umas uvas. Só a banana tem a potência necessária para ultrajar. A grande lição deste caso é esta: um banana comprou uma banana — o que acrescenta nova camada artística a uma obra já tão rica em significados.

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia 

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2718/html/revista-e/estranho-oficio/opiniao/consideracoes-sobre-arte-e-bananas

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Ricardo Araújo Pereira - Bem-vindos a mais um esclarecedor debate



Bem-vindos a mais um esclarecedor debate

* Ricardo Araújo Pereira

Humorista

08 FEVEREIRO 2024

Bom, eu gostaria de começar por dizer que...

— Não, isso é falso.

— Desculpe, eu estava a falar.

— Ah, pois. Não quer ouvir. Não quer ouvir. Não quer ouvir.

— O que eu estava a dizer era que...

— Não quer ouvir.

— ...o meu partido considera que...

— Não quer ouvir.

— ...bom, assim é impossível.

— Pois, é, porque não quer ouvir.

— Se eu puder completar o meu raciocínio...

— Eu sei que custa. Eu sei que custa.

— Nós temos uma proposta para resolver o problema da habitação.

— Ai é? Então e esta folha A4 que eu trouxe que é a fotocópia de uma notícia antiga?

— A proposta consiste em...

— Não, mas olhe aqui esta fotocópia de uma notícia antiga que eu trouxe.

— ...investir em habitação pública.

— Não quer falar sobre esta notícia antiga, não é? Não interessa. Não pode negar. Isto veio nos jornais.

— Ainda ontem li no jornal que as propostas do seu partido levam o país à ruína.

— Desculpe lá, isso só pode ser para nós nos rirmos. Os jornais só dizem mentiras.

— Não, desculpe lá.

— Não, desculpe lá.

— Não, desculpe lá.

— Não, desculpe lá.

— Não interrompa, por favor. Eu não o interrompi.

— Não quer ouvir, não é? Não quer ouvir.

— O seu partido tem nas suas listas de candidatos a deputados pessoas que foram constituídas arguidas por serem suspeitas de crimes.

— Mas a minha gravata é azul.

— O que é que isso tem a ver com o que eu disse?

— É mentira?

— Não tem nada a ver com o que eu disse.

— Mas é mentira? Responda à pergunta. É mentira?

— Posso falar?

— Não quer responder. A verdade incomoda, não é? Por isso é que as sondagens dão um péssimo resultado ao seu partido.

— As últimas sondagens também dão o seu partido a descer.

— As sondagens são uma vigarice e têm o único objectivo de prejudicar o meu partido. A sondagem que interessa é o voto do povo, nas urnas. O povo é que interessa.

— O povo tem dado maiorias a outros partidos, que não o seu.

— O povo não percebe nada, está completamente dependente da máquina do Estado, por isso é que vota sempre nos mesmos.

— Posso falar?

— Ai, coitadinho. A vítima. Lá vêm as queixinhas. Isto é política, habitue-se. É por causa deste tipo de político que o país está como está. O Parlamento tem deputados a mais, que não estão lá a fazer nada.

— É o caso do seu grupo parlamentar, que aprovou zero propostas.

— É mentira.

— Que propostas é que aprovaram?

— Nenhuma, porque não nos deixaram. Chumbaram as nossas propostas de propósito.

— Está a queixar-se? Então isso não é política? Desculpe, isto é uma bandalheira.

— Não é, não. Eu e o meu partido viemos precisamente para acabar com a bandalheira. Agora vou defecar na mão e arremessar-lhe as fezes.

 

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia



sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Ricardo Araújo Pereira - A entidade reguladora não regula bem

SEMANÁRIO#2617 - 23/12/22
Estranho Ofício

* Ricardo Araújo Pereira

Para certos místicos, o humor e os programas humorísticos têm muito poder


Agora que parece ter terminado o fascinante debate que se gerou a propósito da deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) sobre o facto de André Ventura não ter sido convidado para ir ao programa “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, gostaria de aproveitar esta altura em que já ninguém se interessa pelo assunto para finalmente participar. A primeira alínea da deliberação apresenta também o primeiro problema, uma vez que a ERC “delibera: a) Verificar que, durante o período eleitoral para as eleições legislativas de 2022, no programa ‘Isto É Gozar Com Quem Trabalha’, foram entrevistados todos os líderes partidários que tinham obtido representação parlamentar nas eleições anteriores com excepção do Partido Chega (…).” Esta é uma verificação que, infelizmente, não se verifica. A frase “foram entrevistados todos os líderes partidários que tinham obtido representação parlamentar nas eleições anteriores com excepção do Partido Chega” não é verdadeira, dado que o Partido Ecologista Os Verdes tinha obtido representação parlamentar nas eleições anteriores e o seu líder também não foi convidado. Ninguém chora pelas injustiças que os programas de entretenimento infligem ao PEV, e é provavelmente por isso que o ambiente está como está. Mas é com base nessa verificação que a ERC conclui, deliberando “recomendar à SIC a necessidade de compensar, se necessário, na restante programação, os desequilíbrios gerados num determinado programa em matéria de igualdade de oportunidades e de tratamento das diversas candidaturas, assegurando o pluralismo político-partidário nas suas emissões (…)”. Sucede que, se uma injustiça tiver sido de facto cometida, esta deliberação é extremamente insatisfatória. A ERC não obriga a SIC a compensar o injustiçado. Trata-se de uma mera recomendação. No entanto, ao passo que recomenda uma necessidade, acrescenta imediatamente: “se necessário”. Ora, recomendar uma necessidade se necessário não é bem recomendar. Suponhamos que, ao verificarmos que a nossa amiga Clotilde se prepara para sair de casa, lhe recomendamos a necessidade de, se necessário, levar um guarda-chuva. Não é uma recomendação útil porque a Clotilde, muito provavelmente, já sabia que as necessidades só são necessárias se necessário. Em princípio, não travamos amizade com pessoas que acreditam em necessidades desnecessárias.


ILUSTRAÇÃO JOÃO FAZENDA

Não é surpreendente que a recomendação seja tão vaga. Toda esta questão assenta numa conversa que é afluente do eterno debate sobre o poder do humor. Certos místicos acreditam que o humor e os programas humorísticos têm muito poder, apesar de não haver qualquer indicação nesse sentido. Ninguém formulou esse pensamento de forma mais eloquente do que o professor de economia da Universidade do Minho, Luís Aguiar-Conraria, aqui mesmo, no Expresso. Disse ele: “Sem o poder demonstrar, estou totalmente convencido de que a Iniciativa Liberal elegeu o seu primeiro deputado graças à prestação do seu líder nesse programa.” Repare-se que Aguiar-Conraria não está levemente desconfiado ou até fortemente inclinado para acreditar em algo que não consegue demonstrar. Não, não: está “totalmente convencido”. Ao fenómeno psíquico de estarmos totalmente convencidos de uma coisa que não somos capazes de demonstrar costuma chamar-se fé. E, de facto, a responsabilidade da eleição do primeiro deputado da Iniciativa Liberal só pode ser atribuída ao programa “Isto É Gozar Com Quem Trabalha” se formos tomados por um fervor espiritual bastante intenso. Estávamos em 2019 e esse programa nem existia, nem era exibido na SIC, nem era líder de audiências. Carlos Guimarães Pinto foi a um espaço televisivo chamado “Gente Que Não Sabe Estar”, que era o suplemento humorístico do “Jornal das 8”, na TVI. Nesse dia, uma quinta-feira, 3 de Outubro de 2019, a tabela dos programas mais vistos da televisão portuguesa ficou assim ordenada: em primeiro lugar, a novela da SIC “Nazaré”, com 13,8% de audiência; em segundo, a novela da SIC “Golpe de Sorte”, com 12,6%; em terceiro, “Jornal da Noite”, da SIC, com 11,5%; em quarto, o espaço “Tempo de Antena”, emitido na SIC às 19h52, com 9,2%; em quinto o jogo de futebol Feyenoord-FC Porto, na SIC, com 8,9%; em sexto, finalmente, o “Jornal das 8”, da TVI, com 8,8%. Portanto, nesse dia, Carlos Guimarães Pinto foi convidado de um espaço integrado num programa que teve menos audiência do que o “Tempo de Antena”, e teve uma prestação de tal modo notável que aqueles eleitores que definem o seu sentido de voto com base em coisas que viram em programas de entretenimento decidiram premiá-lo elegendo João Cotrim de Figueiredo, que não foi convidado e concorria por outro círculo eleitoral. É disto que Aguiar-Conraria está totalmente convencido.

Há duas ou três coisas das quais, a propósito da influência do “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, eu estou totalmente convencido. Por exemplo, estou totalmente convencido de que o líder do PEV não foi ao programa e o seu partido desapareceu do Parlamento. Estou totalmente convencido de que o líder do CDS foi ao programa e o seu partido também saiu do Parlamento. Estou totalmente convencido de que o Ventura não foi e o seu partido subiu de 1 para 12 deputados. Estou totalmente convencido de que João Oliveira foi e não só não conseguiu ser eleito como o seu partido caiu de 12 para 6 deputados. E felizmente posso demonstrar tudo.

No dia 12 Dezembro de 2020, no Twitter, André Ventura informou o país do seguinte: “Deus confiou-me a difícil mas honrosa missão de transformar Portugal.” O Criador, no âmbito da sua actividade de administrador do universo, teria dedicado algum do seu tempo a pensar omniscientemente em Portugal e, após observação cuidada, concluíra que o país precisava de uma transformação e que a pessoa mais bem colocada para a operar seria aquele comentador de futebol que discutia foras-de-jogo com Aníbal Pinto na CMTV. É este mesmo candidato, cuja carreira é patrocinada por um ser omnipotente, que se queixa de não ser convidado por um palhaço para um programa de entretenimento. Talvez a ERC devesse recomendar a Nosso Senhor a necessidade de compensar os outros candidatos. Se necessário, evidentemente.

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia

https://expresso.pt/opiniao/2022-12-23-A-entidade-reguladora-nao-regula-bem-3835ea24

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Ricardo Araújo Pereira - Agasalhe-te, cidadão


*  Ricardo Araújo Pereira


cartoon de João Fazenda - rap bru

«Quando o Presidente da República disse que, nos próximos meses, “cada qual fará o esforço para não estar doente”, fui obrigado a reflectir e concluí, com vergonha, que nunca antes fiz esse esforço. Tenho vivido de forma inconsciente, sem me empenhar para não adoecer — e por isso tenho tido, como é evidente, algumas doenças. A culpa não é só minha. A ciência, estranhamente, tem dirigido a sua atenção para a cura de doenças, quando seria mais fácil e barato lembrar às pessoas que devem fazer um esforço diário para não adoecer. Se todos fizessem esse esforço, o SNS funcionaria muito melhor, ocupado apenas com os preguiçosos que não se esforçam o suficiente. Alguns levam o desleixo tão longe que até acabam por morrer, o que não deixa de ser justo. Eu tenho padecido de algumas maleitas, e até já fui submetido a operações cirúrgicas mais de uma vez, só para se ter uma ideia do meu desmazelo. Talvez não seja justo, aliás, usar o verbo padecer. Provoquei algumas maleitas, assim é que é. Quando era pequeno, não me esforcei o suficiente para evitar o sarampo, a papeira e a escarlatina. Mas a idade adulta, curiosamente, não dá a ninguém a maturidade suficiente para aperfeiçoar o esforço para evitar doenças. Tenho reparado que os idosos, uma faixa da população com idade para ter juízo, são dos que menos esforço fazem para não adoecer.

Algumas pessoas ficaram exaltadas com as declarações do Presidente, em clara desobediência a essas mesmas declarações. Marcelo pede a todos um esforço para evitar adoecer e imediatamente há gente que fica apopléctica. Mania de contrariar. Para mim, as declarações do Presidente pecam por defeito. Os cidadãos, querendo, podem contribuir para não sobrecarregar outros serviços do Estado. Além de se esforçarem para não adoecer, os portugueses podem fazer outros esforços úteis. Por exemplo, se as crianças fizerem um esforço para se instruir, precisaremos de menos escolas. E se os cidadãos fizerem um esforço para não litigar, acabam-se os atrasos na justiça. O português ideal não precisa de ir à escola, nem ao hospital, nem ao tribunal. Na verdade, o português ideal é um português defunto. Quando pomos os nossos compatriotas no Panteão, não estamos bem a homenageá-los pelo que fizeram quando 

1.7.22

sábado, 31 de agosto de 2019

Ricardo Araújo Pereira - Museu de Salazar : uma excelente ideia

* Ricardo Araújo Pereira

A autarquia socialista de Santa Comba Dão deseja criar um Museu de Salazar. A iniciativa revela grandeza, porque Salazar não desejaria criar uma autarquia socialista em Santa Comba Dão.

Os amores não correspondidos são sempre comoventes. No entanto, é possível que este raciocínio não esteja correcto: se soubesse que a autarquia socialista quereria criar o Museu de Salazar, talvez Salazar não tivesse nada contra autarquias socialistas. É como se costuma dizer: o ódio nasce da ignorância, e provavelmente Salazar não gostava de socialistas apenas por não os conhecer bem.

Pessoalmente, há muito que sou favorável à criação de um Museu de Salazar. Mais precisamente, desde 1928. Creio que já nessa altura Salazar merecia um museu, onde ele pudesse figurar, devidamente empalhado, para alegria de todos. E julgo, aliás, que a ideia do Museu de Salazar peca por defeito. Devia ser criada uma grande Disneylândia do fascismo, em que os visitantes pudessem encontrar diversões tais como viver duas horas nos calabouços da PIDE, frente a um inspector munido de um martelo, ou passar uma tarde na frigideira no campo de concentração do Tarrafal; onde fosse possível denunciar amigos e conhecidos (aproveitando a experiência obtida junto do botão “denunciar”, das redes sociais), vestir a farda da bufa e fazer piqueniques em que uma sardinha dá para três. Além disso, iniciativas deste tipo resolvem um problema antigo: como taxar a estupidez? Muitas vezes se lamenta: “Ah, se a estupidez pagasse imposto...” Pois bem, cobrar bilhetes para o Museu de Salazar pode ser finalmente um modo eficaz de sacar dinheiro a idiotas.

Por outro lado, a criação do Museu de Salazar gera confusão, e eu sou um velho apreciador de confusões. Por exemplo, todos os saudosistas do Estado Novo, até aqui estridentemente receosos de que o poder socialista criasse em Portugal uma Venezuela, afinal tinham razão: por causa de um socialista, Portugal passa a ser um país em que, tal como na Venezuela, se idolatram ditadores. Não deve ser fácil, para um salazarista, ver-se na posição de ter de agradecer a um socialista uma linda homenagem ao doutor Salazar.

Do lado socialista também haverá confusão, de certeza. O PS assinalou – e bem – que a escolha de André Ventura para a autarquia de Loures era significativa do posicionamento ideológico de Passos Coelho, pelo que agora irá – até aposto – assinalar que a manutenção da confiança política no autarca de Santa Comba é significativa do posicionamento ideológico de António Costa. Também deste ponto de vista, a criação de um Museu de Salazar é extremamente pedagógica.



Cartoon de @João Fazenda
in Visão de 22.08.2019.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Ricardo Araújo Pereira - Mariquice linguística


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 http://entreostextosdamemoria.blogspot.pt/2016/12/visao-15122016-p114.html

quinta-feira, 17 de março de 2016

Ricardo Araújo Pereira - Da Amizade



http://entreostextosdamemoria.blogspot.pt/2016/03/visao-17032016-p90.html

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Ricardo Araújo Pereira - Esta casa tem regras


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http://entreostextosdamemoria.blogspot.pt/2015/10/visao-29102015-p122.html

sábado, 3 de outubro de 2009

O Watergate português - Ricardo Araújo Pereira

* Ricardo Araújo Pereira
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No Watergate americano, o fundamental era a informação que saía de uma garganta; em Portugal, é a informação que entra noutras
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"A História repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa". Aqui está mais uma frase de Marx que demonstra o modo como, em certos aspectos, o seu pensamento está desactualizado ou incompleto. Marx não soube perceber (mas quem o censura?) que, quando se repete em Portugal, a História volta na forma de um espectáculo que está vários furos acima da farsa - quer em termos de ridículo, quer quanto à riqueza do enredo. O recente caso do Watergate português merece, por isso, ser analisado mais do ponto de vista humorístico que do ponto de vista político. Felizmente, há muito para dizer.
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A primeira grande diferença entre a complexa história de espionagem americana e a nossa soberba comédia talvez seja o facto de, nos Estados Unidos, as escutas existirem mesmo. Parecendo que não, numa história de escutas, isso faz alguma diferença. Em Portugal, até ver, as escutas são imaginárias, o que confere à história este carácter encantadoramente rocambolesco - e muito português: os americanos agem, colocam escutas, espiam mesmo; os portugueses imaginam que estão a ser escutados, fantasiam sobre espionagem, convidam os jornais a efabularem com eles. Nos Estados Unidos, o presidente mandou colocar escutas na sede dos seus adversários políticos e foi apanhado. Demitiu-se. Em Portugal, a fazer fé na imprensa, o presidente mandou publicar uma suspeita acerca de escutas colocadas na sua residência oficial e foi apanhado. Demitiu o assessor de imprensa. Faz sentido. Nos Estados Unidos era a sério. Cá, era a fingir. Não estava a valer.
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Outra diferença importante: nos Estados Unidos, o Garganta Funda era o informador dos repórteres; em Portugal, a profundidade gutural é uma qualidade dos jornalistas, característica aliás fundamental para a capacidade de engolir uma história tão frágil como absurda. No Watergate americano, o fundamental era a informação que saía de uma garganta; em Portugal, é a informação que entra noutras. Nos Estados Unidos, a investigação jornalística foi publicada em livro e ganhou o prémio Pulitzer. Em Portugal, a investigação jornalística não chegou a existir e a única coisa publicada foi um triste e-mail, cheio de erros ortográficos, o que o torna francamente indigno de participar nesta comédia. Não há razão para que os espectáculos cómicos sejam menos bem escritos que os outros. E, quando se colabora com um elemento ligado à Presidência da República para publicar uma história amalucada, deve vigiar-se o português. Se o Presidente leva a sério a defesa da língua portuguesa e o prestígio da CPLP, deve pugnar para que as tentativas de conspiração que o envolvem sejam, ao menos, ortograficamente irrepreensíveis.
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Ricardo Araújo Pereira
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Enviado por Flor do Deserto (hi5)
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sexta-feira, 15 de agosto de 2008

IKEA: enlouqueça você mesmo






Visao
| Boca do Inferno
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* Ricardo Araújo Pereira

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Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

Opinião
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IKEA: enlouqueça você mesmo
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Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é que não são móveis. Na altura em que os compramos, são um puzzle. A questão, portanto, é saber se o IKEA vende móveis baratos ou puzzles caros.
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Os problemas dos clientes do IKEA começam no nome da loja. Diz-se «Iqueia» ou «I quê à»? E é «o» IKEA ou «a» IKEA»? São ambiguidades que me deixam indisposto. Não saber a pronúncia correcta do nome da loja em que me encontro inquieta-me. E desconhecer o género a que pertence gera em mim uma insegurança que me inferioriza perante os funcionários. Receio que eles percebam, pelo meu comportamento, que julgo estar no «I quê à», quando, para eles, é evidente que estou na «Iqueia».
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As dificuldades, porém, não são apenas semânticas mas também conceptuais. Toda a gente está convencida de que o IKEA vende móveis baratos, o que não é exactamente verdadeiro. O IKEA vende pilhas de tábuas e molhos de parafusos que, se tudo correr bem e Deus ajudar, depois de algum esforço hão-de transformar-se em móveis baratos. É uma espécie de Lego para adultos. Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é que não são móveis. Na altura em que os compramos, são um puzzle. A questão, portanto, é saber se o IKEA vende móveis baratos ou puzzles caros. Há dias, comprei no IKEA um móvel chamado Besta. Achei que combinava bem com a minha personalidade. Todo o material de que eu precisava e que tinha de levar até à caixa de pagamento pesava seiscentos quilos. Percebi melhor o nome do móvel. É preciso vir ao IKEA com uma besta de carga para carregar a tralha toda até à registadora. Este é um dos meus conselhos aos clientes do IKEA: não vá para lá sem duas ou três mulas. Eu alombei com a meia tonelada. O que poupei nos móveis, gastei no ortopedista. Neste momento, tenho doze estantes e três hérnias.

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É claro que há aspectos positivos: as tábuas já vêm cortadas, o que é melhor do que nada. O IKEA não obriga os clientes a irem para a floresta cortar as árvores, embora por vezes se sinta que não faltará muito para que isso aconteça. Num futuro próximo, é possível que, ao comprar um móvel, o cliente receba um machado, um serrote e um mapa de determinado bosque na Suécia onde o IKEA tem dois ou três carvalhos debaixo de olho que considera terem potencial para se transformarem numa mesa-de-cabeceira engraçada.

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Por outro lado, há problemas de solução difícil. Os móveis que comprei chegaram a casa em duas vezes. A equipa que trouxe a primeira parte já não estava lá para montar a segunda, e a equipa que trouxe a segunda recusou-se a mexer no trabalho que tinha sido iniciado pela primeira. Resultado: o cliente pagou dois transportes e duas montagens e ficou com um móvel incompleto. Se fosse um cliente qualquer, eu não me importaria. Mas como sou eu, aborrece--me um bocadinho. Numa loja que vende tudo às peças (que, por acaso, até encaixam bem umas nas outras) acaba por ser irónico que o serviço de transporte não encaixe bem no serviço de montagem. Idiossincrasias do comércio moderno.

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Que fazer, então? Cada cliente terá o seu modo de reagir. O meu é este: para a próxima, pago com um cheque todo cortado aos bocadinhos e junto um rolo de fita gomada e um livro de instruções. Entrego metade dos confetti num dia e a outra metade no outro.
E os suecos que montem tudo, se quiserem receber.

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in revista VISÃO

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Artigos do Autor (Ricardo Augusto Pereira)
I
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Imagens retiradas do site IKEA
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