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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Frei António das Chagas - A uma Moça Vendendo Camoezas

* Frei António das Chagas

Para a feira vai Luisa
co seu balaio à cabeça,
todo enramado de louro
e cheio de camoezas.

Leva saia de cilício,
também jubão branco leva,
que serve o jubão de branco
onde amor atira as flechas.

Sobre os dedos pendurados
levava os punhos da renda;
tão valentona caminha
que treme o bairro de vê-la.

Lá no meio do Rossio
levanta a voz mui serena
como se aprendera solfa:
- Eu já tenho camoezas!


Frei António das Chagas, in 'Antologia Poética'

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Frei António das Chagas - Deus pede estrita conta de meu tempo.

*  Frei António das Chagas

  Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta. 
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta 
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo? 

 Para dar minha conta feita a tempo, 
O tempo me foi dado, e não fiz conta, 
Não quis, sobrando tempo, fazer conta, 
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo. 

 Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta, 
Não gasteis vosso tempo em passatempo. 
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta! 

 Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo, 
Quando o tempo chegar, de prestar conta 
Chorarão, como eu, o não ter tempo… 

 

domingo, 10 de maio de 2015

Frei António das Chagas - Romance de uma Freira Indo às Caldas

Frei António das Chagas


Belisa, aquela beldade, 
Cujas perfeições são tais, 
Que a formosura e juízo 
Vivem nela muito em paz; 
Aquela Circe das almas, 
Cuja voz sempre será 
Encanto dos alvedrios 
E o pasmo de Portugal; 
Enferma, bem que sublime, 
De uns achaques mostras dá, 
Pois às deidades também 
Os males se atrevem já. 
Por se livrar das moléstias 
Que a costumam magoar, 
Se negou remédio às vidas, 
Por remédio às Caldas vai. 
Aquele sol escondido 
Entre as nuvens de um saial, 
Se ocaso faz de um convento, 
Do campo eclíptica faz. 


Mas, logo que os campos lustra, 
Alento e desmaios dá 
Ao dia para luzir, 
Ao Sol para se eclipsar. 
Aos prados, a quem o Estio 
Despe a gala natural, 
Quando os olhos podem ver, 
Flores tornam a enfeitar. 
Dando-lhe a música os bosques 
Com citara de cristal, 
Parece entre os ramos verdes 
Cada rouxinol um Brás. 
A viração que entre as folhas 
Sempre buliçosa está, 
Ou já murmure ou suspire, 
Faz de cada assopro um ai. 
Cuido que, por festejá-la 
Com contentamento igual, 
As fontes querem tanger 
E as plantas querem bailar. 

Frei António das Chagas, in 'Fénix Renascida' 

segunda-feira, 2 de março de 2015

Frei António das Chagas - À Vaidade do Mundo

* Frei António das Chagas


É a vaidade, Fábio, desta vida 
Rosa que na manhã lisonjeada 
Púrpuras mil com ambição coroada 
Airosa rompe, arrasta presumida; 

É planta que de Abril favorecida 
Por mares de soberba desatada, 
Florida galera empavezada, 
Surca ufana, navega destemida; 

É nau, enfim, que em breve ligeireza, 
Com presunção de fénix generosa, 
Galhardias apresta, alentos preza. 

Mas ser planta, rosa e nau vistosa 
De que importa, se aguarda sem defesa 
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa? 

Frei António das Chagas, in 'Antologia Poética' 

terça-feira, 15 de julho de 2014

Frei António das Chagas - Ao Cavalo do Conde de Sabugal que fazia Grandes Curvetas

* Frei António das Chagas
Galhardo bruto, teu bizarro alento
Música é nova, com que aos olhos cantas,
Pois na harmonia de cadências tantas
É clave o freio, é solfa o movimento.


Ao compasso da rédea, ao instrumento
Do chão, que tocas, quando a vista encantas,
Já baixas grave, e agudo já levantas,
Onde o pisar é som, e o andar concento.

Cantam teus pés, e o teu meneio pronto,
Nas fugas, não, nas cláusulas medido,
Mil consonâncias forma m cada ponto.

Pois em falsas airosas suspendido,
Ergues em cada quebro um contraponto,
Fazes em cada passo um sustenido.

(in Antologia de Poetas Alentejanos)