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sexta-feira, 26 de julho de 2024

Carlos Matos Gomes - OTELO | o fantasma da Revolução




* Carlos Matos Gomes 

25 Abril 2024
 

A ação que celebramos, o 25 de Abril de 1974, foi planeada e comandada por um fantasma. Um fantasma com o nome dissolvido num ácido de conveniências.

Os fantasmas são por definição aparições de inconvenientes. Terei lido num texto de Miguel de Unamuno, o filósofo espanhol, que Dom Quixote, a personagem de Cervantes prenunciou o destino final, solitário e triste, de todos os cavaleiros andantes, fantasmas, digo eu, que citaria também uma declaração de Simón Bolívar, em que o revolucionário das Américas, admitia que Jesus Cristo, Dom Quixote e ele próprio eram (tinham sido) os maiores ingénuos da História.

Otelo pode com propriedade ser incluído nesta lista.

E quanto à forma como tem sido esquecido também pode ser comparado a uma outra figura marginal da historiografia oficial, neste caso do Brasil, porque o fenómeno dos fantasmas da História é universal, o do negro João Cândido, que no início do século XX liderou uma revolta de marinheiros contra a violência na Marinha, a «Revolta da Chibata». A ação foi meticulosamente planeada e executada, mas esquecida, por inconveniente, porque contrariara a doutrina da superioridade racial branca. João Cândido viveu o resto da sua vida esquecido, por inconveniente.

Otelo foi e continua a ser inconveniente a vários títulos. Como militar, era um major recente, regressado de uma comissão na Guiné, professor de artilharia na Academia Militar, sem cursos nem pergaminhos de estado-maior, também não o aureolava o estatuto de herói da guerra colonial, apenas cumprira com competência as suas funções de comandante de companhia, no entanto foi ele quem planeou com o brilhantismo confirmado pelo êxito a operação nacional das forças armadas de Norte a Sul do país e quem comandou a execução das ações a partir da sala de operações montada no quartel da Pontinha, acompanhado por outros oficiais, alguns deles mais antigos e teoricamente mais bem preparados do que ele. Foi ele o comandante! Um facto revelador da sua personalidade, da sua energia e determinação.

Como alguém escreveu, ser herói é ter coragem de fazer o que é certo num determinado momento. Otelo teve essa coragem: É ele que apoia a ação de contenção de Salgueiro Maia, de correr os riscos de não precipitar a ação no Largo do Carmo, com um ataque imediato. De contemporizar. É ele que autoriza que o povo envolva as tropas e os blindados de Salgueiro Maia: o povo pode entrar, porque a ação militar é para o povo. Ele e Maia têm desde o início a consciência do destinatário da ação militar: «O povo, pá!» Ora o povo é sempre inconveniente para os poderes de facto. Otelo e Maia serão fantasmas que têm o povo atrás deles. Mais Otelo do que Maia.

Desde a primeira hora Otelo e Maia estão do lado da (in)conveniência popular. É Otelo que dá ordem a Salgueiro Maia de disparar contra o quartel da GNR, para forçar a definição da situação, e é ele que decide que a rendição de Marcelo Caetano seja feita ao general Spínola, com vantagens e inconvenientes, mas foi ele quem decidiu!

As inconveniências de Otelo que o transformaram no fantasma em que ele hoje é tido atingiram o cume com o que fez no COPCON, ou do COPCON. O poder assenta sempre na força. Na ponta das espingardas, na frase de Mao Tse Tung, ou na que o rei Luís XIV de França mandou inscrever na boca dos canhões ultima ratio regum, “a força é o último argumento dos reis”.

Otelo fez do Comando Operacional do Continente, das forças armadas portuguesas, a força do povo, e aqui é de recordar dois outros fantasmas: Carlos Fabião e Eurico Corvacho que estiveram desse lado, e também Pezarat Correia, que embora subscritor do Documento dos Nove, o manifesto que agregou as “forças da normalidade”, mas que por ter desenvolvido um papel de grande relevo na descolonização de Angola e de, em Portugal, ter comandado a Região Militar de Évora, empregando as forças militares com apurado sentido político durante o dificílimo período da Reforma Agrária, pagou a compreensão pela atitude dos camponeses alentejanos com a não promoção a tenente-general. Não me esqueço do esquecimento de outro fantasma, Ernesto Melo Antunes, com quem nunca privei, de quem discordei, mas de quem conheço e reconheço o papel relevante que desempenhou no 25 de Abril. Recordo a forma como foi tratado até no seu último ato: no seu funeral, no cemitério do Alto de São João, onde estive, não apareceu nem um membro do governo, nem nenhum político de primeira linha. A verdadeira Liberdade paga-se com esquecimento.

Colocar as forças armadas como suporte das forças populares era e foi uma heresia inadmissível pelas classes reinantes. As que a 25 de Novembro de 1975, tendo contratado tropas para o seu serviço, impuseram o regresso aos quartéis dos conscritos, isto é, à função tradicional de defesa dos grupos dominantes, os velhos devoristas que saíram das tocas onde se haviam escondido, das sacristias, os que regressaram de exílios e os novos devoristas que se haviam aproveitado dos vazios abertos pela retirada dos velhos senhores — os novos oportunistas que hoje são os que pretendem sacralizar o 25 de Novembro, como o dia em que lhes saiu a lotaria e se fizeram democratas, como os poltrões sucessores dos que no vintismo do século XIX se fizeram viscondes e barões.

A revolução portuguesa, como todas as revoluções, ou se definiria por uma alteração de campo da força que exercia o poder, ou não seria uma revolução, nada mais seria do que uma atualização de figurino para o exercício do poder. Otelo é a personagem que configura a revolução, porque transfere o poder das armas da defesa de uma minoria, a oligarquia nacional representante dos poderes e dos interesses instalados no espaço civilizacional da Europa e dos Estados Unidos, para defesa das classes sociais historicamente dominadas a todos os títulos, social, económica e politicamente. Otelo, através do COPCON, não só deu voz aos emudecidos, como lhes proporcionou o acesso ao discurso e à decisão.

Foi a existência do COPCON sob o comando de Otelo que possibilitou a suprema heresia da nacionalização da banca, o que corresponde à profanação do sacrário do sistema que desde 1825 a família Rothschild criou em Londres, tecendo através do Banco de Inglaterra o sistema de “dívidas soberanas”, que replicou nos Estados Unidos ao conseguir que, em 1913, o Congresso dos EUA autorizasse a criação do Federal Reserve Bank, o Banco Central dos Estados Unidos popularmente conhecido por “Fed”, de que a família Rothschild também tomou o controlo, garantido o direito de emissão de moeda nos EUA através do Tesouro Americano e sem juros. A nacionalização da banca portuguesa foi uma ofensa ao dólar! Imperdoável! Não seria possível sem o suporte da força armada, do COPCON!

Na história de oito séculos de Portugal apenas no episódio do que ainda hoje o discurso oficial hesita em considerar como crise de 1385 ou revolução de 1385, o povo teve a força armada a seu lado. Mas foi sol de pouca dura. Leiam-se as «Crónicas» de Fernão Lopes. Após a incensada batalha de Aljubarrota toda a narrativa se concentra na normalização do complexo processo de transformações políticas e sociais que recriaram a antiga hierarquia de poder das ordens, clero, nobreza e povo, e que conduziram Portugal à dependência da Inglaterra, na condição de estado vassalo, em que se manteve até ao final da Segunda Guerra, quando passou a depender dos Estados Unidos. No século XIV rapidamente os revolucionários, segundos filhos e bastardos, reunidos à volta das figuras de linhagens secundárias de João de Avis, um bastardo, e Nuno Álvares Pereira, filho natural do prior da Ordem do Hospital, reconstituíram naturalmente a velha ordem dos privilégios e recolocaram o povo no seu lugar, a remar nas naus e a cavar nas terras senhoriais. A experiência de dar armas ao povo apenas ocorrerá numa outra única oportunidade com a tentativa de legitimação como rei de Portugal de António, prior do Crato, derrotado na batalha da ribeira de Alcântara.

Otelo representa ainda hoje o perigo de expor a podridão em que assentam os pilares da ordem que nos rege. Em 1975 esse conhecimento podia gerar (ou degenerar) um movimento de contestação popular que alastrasse pelo continente europeu. Havia que apresentar Otelo como um tresloucado. Para as aves de gaiola, voar é uma doença. Para os predadores, voar é uma fuga dos seres que lhes servem de alimento.

Em 1974 e 1975 já eram visíveis as nuvens negras sobre o sistema político e económico que se impusera (ou fora imposto) na Europa Ocidental após a Segunda Guerra. Os alemães crismaram como “anos de chumbo” esse período que antecipava o mal-estar do modelo civilizacional de compromisso entre capital e trabalho, entre público e privado, entre liberdade e servidão voluntária. Uma decadência que hoje parece evidente num modelo que apresenta claros sintomas de rutura por esgotamento, de que os movimentos populistas são uma face visível, acompanhados pela corrupção dos valores de equidade nas relações entre os povos promovida pelos dirigentes europeus e americanos do “Ocidente alargado” nas suas decisões sobre juros, dívidas, imposição de despesas com material de guerra, redução de serviços públicos, promoção de guerras como as da Sérvia, Iraque, Líbia, Ucrânia, ou o genocídio de Gaza.

O esquecimento de Otelo, o seu aviltamento quer durante o período revolucionário, quer no que se lhe seguiu e chegou até ao presente são fruto da ideologia dominante e dos interesses dos seus beneficiários. Otelo não quis ser o “condestável” do novo regime e a sua condução para fora do sistema, para a marginalidade em todos os sentidos, foi meticulosamente planeada e executada. A sua personalidade, a sua generosidade e ingenuidade foram estudadas para servirem de arma contra as causas que defendia e para defesa de uma dada ordem que não pode ser questionada.

Para os que apagaram Otelo é reconfortante falar da revolução simpática que, podendo ter tido a energia de um mar, desaguou num vulgar lago de jardim europeu. Mas um mar é uma coisa que gera energia e vida e um lago é uma coisa já domesticada, adormecida, em decadência.

Acontece, no entanto, que o deliberado esquecimento de Otelo e a desvalorização do movimento popular que ele apoiou e incentivou enquanto comandante do COPCON não teve a consequência que parecia lógica por parte de quem o derrotou e prendeu, mesmo com a legítima intenção de impedir uma revolução, de reclassificar o resultado da ação militar que ele planeou e comandou como o “golpe da Calçada da Ajuda”, ou da Amadora. É evidente ser muito mais agradável ao ego e ficar melhor na fotografia da História utilizar a fórmula de “Revolução dos Cravos” do 25 de Abril que da restauração de estado de ordem do 25 de Novembro de 1975. É um facto. Não é uma crítica. Otelo prosseguiu o seu voo. Outros poisaram.

Os títulos e os símbolos são importantes para hierarquizarmos e classificarmos os fenómenos, mas resta a realidade e quanto a esta, é significativo que na celebração do meio século do 25 de Abril, Spínola seja mais recordado do que Otelo, que entre tantas obras e trabalhos de investigação o COPCON e o seu papel no movimento popular não tenha merecido o interesse dos académicos, ou que esta singular e fugaz instituição militar tenha despertado tão pouca curiosidade intelectual e política.

É evidente que ainda vivemos num regime em que podemos falar e escrever sobre Otelo, mas como de alguém fora da História, do “sistema democrático” como um excêntrico, quando ele foi o autêntico revolucionário do que não chegou a ser uma Revolução. É certo e sem margem para dúvida que os 3 D do 25 de Abril são matéria de alegria e celebração, mas não são uma revolução. Revelam apenas a tacanhez do salazarismo, a mediocridade do seu padroeiro e dos seus acólitos. A Democracia, a Descolonização e o Desenvolvimento chegaram a Portugal com 30 anos de atraso relativamente aos regimes de democracia representativa e do estado social implantados na Europa após a Segunda Guerra.

Embora com trinta anos de atraso celebremos contudo essa coisa magnífica e essencial que é a Liberdade de expressão, mas fique a lembrança dos que como Otelo a queriam enquanto condição para conquistar a Justiça em todos os seus componentes, desde logo o da Igualdade.

Antes de se acomodar, engravatada, formatada, mais ou menos vociferante no modernizado convento de São Bento, Otelo queria a Liberdade na casa de cada um dos portugueses.

https://dasculturas.com/2024/04/25/otelo-o-fantasma-da-revolucao-por-carlos-matos-gomes-25-abril-2024/? 
 

domingo, 21 de julho de 2024

Jorge Sarabando - Nascença, vida e queda da 5ª Divisão do EMGFA


Nascença, vida e queda da 5ª Divisão do EMGFA – Estado-Maior General das Forças Armadas, por Jorge Sarabando - Lisboa, Voz do Operário, 18 de Julho de 2024


A 5ª Divisão foi criada em Junho de 1974, manteve uma intensa actividade até 27 de Agosto de 1975, data em que as suas instalações foram assaltadas por uma força do COPCON, e subsistiu, com sérias limitações, até à sua extinção formal na sequência do Golpe de 25 de Novembro.

Inicialmente, num período marcado por forte hostilidade do General Spínola ao MFA, foram nela colocados os 7 oficiais que constituíam a sua Comissão Coordenadora, sendo o mais graduado o então Coronel de Engenharia Vasco Gonçalves, nomeado Chefe da Divisão. Com a sua designação para Primeiro-ministro do 2º Governo Provisório, em Julho de 74, foi substituído pelo outro oficial mais graduado, o então Tenente-coronel Franco Charais, mais tarde nomeado para comandar a Região Militar Centro. Outros membros da Comissão Coordenadora nomeados para pastas ministeriais sairiam também, como foi o caso dos majores Melo Antunes e Vítor Alves, e do capitão Costa Martins. Entre os oficiais entretanto colocados, contava-se o Coronel João Varela Gomes, que logo se distinguiu pela iniciativa e dinamismo, e viria a chefiar o Centro de Sociologia Militar.

As missões atribuídas situavam-se, como era norma, no âmbito das Relações Públicas e Acção Psicológica. Em Outubro de 74, seria nomeado Chefe da 5ª Divisão o Coronel Robin de Andrade, e em Junho de 75, foi nomeado o 1º Tenente médico naval Ramiro Correia, para o efeito graduado em Capitão de Mar e Guerra.

Apesar das limitações de meios materiais e de atrasos na colocação do pessoal necessário, foi possível, a partir de Setembro de 74, definir um novo quadro organizativo, passando as actividades principais a repartir-se por quatro áreas:

- CODICE – Comissão Dinamizadora Central;

- CEIP – Centro de Esclarecimento e Informação Pública;

- Centro de Sociologia Militar;

- Centro de Relações Públicas.

A actividade da 5ª Divisão teve dois momentos altos, com reconhecimento geral e institucional, no enfrentamento enérgico, audacioso, decisivo, dos golpes contra-revolucionários de 28 de Setembro de 74 e de 11 de Março de 75. A 5ª Divisão foi essencial na prontidão de resposta, na mobilização popular e sequente derrota dos golpistas. Recorde-se que Spínola pretendia a demissão do Primeiro-ministro Vasco Gonçalves, na decorrência da manifestação da chamada “maioria silenciosa”, prosseguir os seus projectos neo-coloniais, antecipar, numa pulsão caudilhista, a eleição presidencial, em que seria o candidato natural, e adiar a eleição da Assembleia Constituinte, firme compromisso do MFA. A partir da Espanha franquista, para onde fugiu, Spínola, com a sua corte militar, viria a criar o MDLP que, juntamente com o ELP, rede Maria da Fonte, e outros grupos reais ou fictícios, formaram a rede terrorista da extrema-direita, responsável pela onda de violência que abalou o País durante o processo revolucionário.

A fronteira que separava o grupo spinolista do MFA era então clara e bem visível. Para se avaliar a intensidade do confronto, recorde-se que Spínola, ainda Presidente, encomendou a Alpoim Calvão, nas palavras deste, a eliminação física de Melo Antunes e Vasco Gonçalves, acusados de traição. Mas a seguir mandou suspender a operação e ordenou a neutralização de Costa Gomes, que acusava de ser o maior “traidor” e quem “manejava a Comissão Coordenadora”. A crer em Alpoim Calvão, que viria a ser mais tarde o chefe operacional do MDLP, terá tentado mas não conseguiu cumprir a missão.

Em Junho de 75, o poder político-militar parecia estável e coeso, fora criado o Conselho da Revolução e assinado o 1ºPacto MFA- Partidos. Mas surgiam as primeiras tensões entre os maiores partidos políticos e revelavam-se, ainda incipientes, traços de fractura entre os principais responsáveis do MFA. A Assembleia Constituinte tomou posse a 2 de Junho, e o peso político das forças representadas permitia explorar uma linha de conflitualidade entre, como então se designavam, a dinâmica revolucionária e a dinâmica eleitoral. O Prof. Freitas do Amaral chegou a afirmar, na ocasião, haver uma maioria democrática na Assembleia, somando ele os votos do PS, do PPD e do CDS. Mas, na elaboração da Constituição, a maioria que funcionou não foi essa, foi outra. A Constituição viria a ser aprovada com os votos do PS, PPD, PCP, MDP, UDP e o deputado de Macau, e os votos contra do CDS.

O processo revolucionário vivia então um dos momentos mais férteis e criativos, sempre com uma enorme participação popular. Assegurado o controlo público da Banca, que permitiu estancar a fuga de capitais, e dos sectores estratégicos, desenvolvia-se a economia, foram salvas, pelo Governo e os trabalhadores, centenas de empresas ameaçadas de encerramento, avançavam a Reforma Agrária e novas leis no mundo rural, aumentou a produção e foi criado emprego, valorizava-se o trabalho e os trabalhadores, tomavam-se medidas concretas e positivas no âmbito da Educação, da Saúde, da Habitação, da Segurança Social, no acesso à cultura, na independência da Justiça, prosseguia a descolonização nas terríveis condições herdadas do fascismo. Foram acolhidos e integrados, em pouco mais de um ano, mais de meio milhão de portugueses vindos de África. Nem por isso os índices de desemprego aumentaram. O ano de 1975 terminou com uma taxa de desemprego de 4%.

Os Governos provisórios produziam legislação com forte impacto social, tendo muitas leis recebido consagração constitucional, como foi o caso do Salário Mínimo Nacional. A democracia em construção não era apenas política, ao Estado eram cometidas funções sociais. Era o caminho apontado pelas forças que combateram a Ditadura, presentes no Congresso de Aveiro, em 73, e coerente com o Programa do MFA. A conquista da liberdade era inseparável de profundas transformações sociais, da melhoria das condições de vida, da valorização do trabalho e da defesa da paz. O rumo do socialismo era claramente assumido pelas instituições militares e pelos principais partidos e movimentos políticos. Apesar de todas as regressões, por estranho que pareça, subsiste ainda hoje no Preâmbulo da Constituição em vigor.

A aliança Povo-MFA era bem o motor da Revolução e significava a expressão política duma vasta frente social anti-monopolista. Para o grande capital desapossado dos seus privilégios e as suas conexões externas impunha-se, por isso, quebrar tal aliança, dividir o movimento popular e dividir o Movimento das Forças Armadas e foi essa a direcção tomada. Todos os meios foram empregues e recursos financeiros mobilizados com tal finalidade. Bastará ler os diálogos entre o Secretário de Estado Kissinger e o Embaixador Carlucci, hoje disponíveis, apesar das rasuras omissórias, em que a situação do nosso País era acompanhada dia a dia, as mensagens trocadas com responsáveis políticos portugueses, para comprovar como os entendimentos funcionaram. Ficaram claros dois objectivos do Governo de Washington, dos aliados europeus da NATO e da ditadura de Franco: demitir o Primeiro-ministro Vasco Gonçalves e afastar os comunistas da esfera do poder.

Com eficácia, pois o MFA cindiu-se em três correntes, simplificando: a esquerda militar, ou “gonçalvistas”, o grupo do COPCON, ou “otelistas”, e o grupo dos Nove, ou “moderados”. Não eram componentes homogéneas nem funcionavam em compartimentos estanques. As três correntes publicaram os seus manifestos, desenhava-se um confronto. O apelo ao lançamento de pontes entre sectores democráticos vinha, com certa carga de dramatismo, do lado do PCP. Mas enquanto a comunicação entre os grupos dos Nove e do COPCON parecia funcionar, as tentativas de diálogo entre a esquerda militar e os Nove foram, na prática, curtocircuitadas.

A partir de Julho, as manifestações multitudinárias de sinal contrário sucediam-se. De um lado, afirmando a defesa da Revolução, o PCP, o MES, a FSP, o MDP e outros partidos de esquerda e as organizações mais representativas dos trabalhadores, do outro lado, em contraponto, o PS, acobertando toda a direita até à mais extrema, reclamava a demissão do Primeiro-ministro Vasco Gonçalves e prevenia sobre a iminência da imposição de uma “ditadura comunista”. Os partidos maoístas, como a AOC, o MRPP e outros, sempre ao lado do PS, falavam do PCP e de uma ditadura “social-fascista”.

Em pano de fundo, entre Julho e Setembro de 74, a onda de assaltos e incêndios, pela rede terrorista, a sedes sindicais e centros de trabalho de partidos de esquerda causava destruições e mortes. Em articulação com caciques locais e párocos ultramontanos, a participação de pides e legionários, de ex-colonos inconformados, de um certo lúmpen que sempre desponta nestas ocasiões, o grupo Maria de Fonte e suas conexões no terreno simulavam um levantamento popular. Não era, mas fazia por parecer, tal a sua pujança, e era o que interessava no momento.

Atente-se que a rede bombista esteve operacional entre Maio de 75 e Abril de 77, tendo alguns dos principais autores morais e materiais dos atentados sido presos em Agosto de 76 pela Directoria do Porto da Polícia Judiciária. Apesar dos esforços da PJ, poucos foram os presos e menos os condenados.

Estava encontrado o alvo para onde convergiam os ataques caluniosos, por vezes infamantes, do PS de Soares e seus aliados. A popularidade de Vasco Gonçalves era inegável entre os trabalhadores, chegava longe nas camadas intermédias, e era esse para a direita o maior perigo. Do seu discurso transparecia coerência, determinação, honestidade, patriotismo. Era vital, por isso, afastá-lo quanto antes de qualquer responsabilidade de governo.

Por outro lado, em comícios, discursos, em panfletos assinados ou anónimos, agitava-se em tom alarmista a iminência duma ditadura comunista. Pouco interessava a falta de verosimilhança, a ausência de quaisquer indícios de tal cometimento. O “olhe que não, olhe que não” de Cunhal no debate televisivo com Soares, ficou célebre. O que interessava era fazer e repetir a acusação, incessantemente, levantar a suspeição, para obter um efeito.

Ao mesmo tempo, começavam as alusões a uma suposta “comuna de Lisboa”, efabulação muito útil para os urdidores do golpe de 25 de Novembro.

Antes de prosseguir, uma observação:

Uma das constantes no discurso da direita civil e militar era o imperativo de restaurar a ordem e a disciplina nas Forças Armadas. Referiam a presença de militares fardados em manifestações, a erupção dos SUV, ou diversos actos da 5ªDivisão, para citar alguns exemplos. Mas indisciplina foi também a decisão dos Comandantes de algumas Unidades da Região Militar Norte de recusar o Comando do Brigadeiro Corvacho e se terem ido colocar sob as ordens do Comandante da Região Militar Centro; indisciplina foi o modo como o Documento dos Nove foi posto a circular e colocado a sufrágio directo dos militares em serviço nas Unidades da Região Militar Norte; indisciplina foi a recusa dos oficiais designados para cumprir as ordens que teriam evitado o assalto à Embaixada de Espanha. Parece que, no discurso hegemónico que a direita impôs, nuns casos a indisciplina era ilegítima, noutros casos era legítima.

Ao tomar posição em defesa de Vasco Gonçalves, Primeiro-ministro e, a partir de 25 de Julho, membro do Directório, criado pela Assembleia do MFA, a 5ª Divisão ligou o seu futuro ao resultado da luta em curso no campo militar. Mais que as queixas avulsas sobre as Campanhas de Dinamização, ou as declarações de apoio ao Documento-Guia da Aliança Povo-MFA, ou ao “Poder Popular”, ou ao documento intitulado “Auto-crítica do COPCON”, ou a crítica ao discurso de Soares no comício da Fonte Luminosa, que geraram hostilidade e polémica, o que concitou as iras da direita, de seus aliados de ocasião, ditos “moderados” e de Otelo e seus próximos, foi a campanha de apoio a Vasco Gonçalves, largamente difundida e com grande impacto público, de que foram expressão o conhecido cartaz de João Abel Manta e a canção “Força, força, Companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço”.

Uma primeira tentativa para calar a 5ª Divisão surgiu, mas não passou, na Assembleia do Exército, a 24 de Julho.

Mas a 25 de Agosto o CR decidiu suspender as actividades da 5ªDivisão. Foi de imediato impedida uma reunião no Centro de Sociologia Militar, presidida pelo Chefe da Divisão, Capitão de Mar e Guerra Ramiro Correia, e ordenada, apenas 12 horas depois, uma operação militar pelo Comandante do COPCON, Otelo Saraiva de Carvalho, de ocupação das instalações, executada pelo Regimento de Comandos. Esperava-se, naturalmente, o cumprimento da ordem mas não como foi feito, com brutalidade e destruição de precioso património.

Depois do golpe de mão, foi nomeado para reestruturar a 5ª Divisão o Coronel Abreu Riscado, tendo como assessores o Tenente-coronel Ramalho Eanes e os Majores Pimentel e Loureiro dos Santos. A CODICE manteve-se em funções até à sua extinção, em 26 de Novembro. Uma última campanha ficou ainda a operar no Distrito de Viseu até Maio de 76.O mesmo Coronel Riscado ficou a chefiar a Comissão Liquidatária.

Assim chegou ao fim a 5ª Divisão. Não fosse a publicação do “Livro Branco” e da obra do Comandante Manuel Begonha “5ª Divisão – revolução e cultura”, e de outros raros testemunhos, apagada ficaria a memória da sua rica, diversificada e meritória actividade, a não ser nas palavras de quem mais a hostilizou. Não que não tenha cometido erros e excessos, mas nada justifica que tenha sido encerrada de forma agressiva e traiçoeira, mandada queimar vasta e preciosa documentação, como se tivesse voltado o tempo dos autos de fé.

O período de mais intensa actividade foi de Setembro de 74 até Agosto de 75. Oito Campanhas de Dinamização Cultural, cobrindo quase todo o País, com mais de 10 mil iniciativas, como assinalou o Coronel Aranda da Silva, 25 edições do Boletim do MFA, intervenção permanente nos meios de comunicação social, rádio, televisão, imprensa escrita. De salientar a dinamização cultural no âmbito do apoio artístico, nas artes plásticas e gráficas, teatro e fantoches, música, dança, canto, cinema, circo, apoio literário. Memorável a criação do Movimento Democrático dos Artistas Plásticos, e a produção de cartazes e pinturas murais, como a pintura colectiva, por 48 artistas, de um painel, logo em 10 de Junho de 74. Um lema ficou, do pintor Vespeira: “Revolução aberta, arte liberta”.


Há um texto notável do Chefe da Divisão, Comandante Ramiro Correia, que ajuda a compreender o espírito da missão:

“A tragédia do nosso tempo não é a de todos os tempos. Logo é preciso nomear o tempo. E é o corpo que nomeia o tempo. É o povo que nomeia o tempo. Portugal.1975.Revolução.

A arte não deve estar ao serviço da Revolução.

A arte é, em si própria, Revolução.

E se a arte é, em si própria, Revolução, que lugar existe para dirigismos em Arte?

Onde está o escritor, o escultor, o pintor, o cineasta, que se viu, neste País, impedido de trabalhar a sua obra devido a monolitismos culturais do MFA ou dos organismos governamentais?

Os revolucionários têm medo da Arte?

Mas não é o fenómeno artístico uma contínua procura, uma incessante transformação do mundo?

Não contribui a Arte, essencialmente, para uma nova ordem de valores na sociedade?

Nós, os militares, ao longo do tempo trágico da guerra colonial, encontrámos, nos nossos músicos, escritores, pintores, actores, operários e camponeses, a força e a esperança de uma Pátria de suor e de justiça.

Esse tempo é passado.

É preciso nomear o tempo.

Estamos em Portugal. Em 1975.

Empenhados numa Revolução que pretende construir uma sociedade livre, socialista.

Ultrapassaremos as dificuldades. Corrigiremos os nossos erros. Participaremos na nomeação do tempo. Seremos o corpo da Revolução.

A Revolução viverá!”

As Campanhas de Dinamização transcenderam em muito o âmbito cultural. Ouçamos o Comandante Manuel Begonha, um dos militares que ficaram depois de Agosto até Novembro de 75, e nesse período tentaram ainda prosseguir a sua actividade:

Recuperando espaços sem utilidade…”criaram-se creches, parques infantis, demonstrando-se que são inúmeros os caminhos que se abrem à força de vontade colectiva. Deste facto são exemplo acções como as das comissões de moradores, comissões de aldeia, de bairro, autarquias locais, associações recreativas, dinamizando a abertura de estradas, caminhos, o saneamento básico, o lançamento de pontes, a electrificação rural, a criação de carreiras de camionetas, a abertura de escolas, o levantamento de centros culturais, postos de assistência médica e vacinação, criando centros regionais de emprego e colaborando com os vários organismos estatais”.

Podemos hoje dizer, 50 anos depois, que foram estes os tempos heróicos da Revolução, que o discurso hegemónico da direita e seus aliados de ocasião procurou apagar ou desvalorizar. O tempo do Serviço Cívico Estudantil, do Serviço Médico à Periferia, do SAAL e do CRUARB na habitação, o tempo em que os direitos cívicos e sociais foram conquistados pela luta e inscritos na Constituição, naquele escasso tempo, dois anos apenas, entre Abril de 74 e Abril de 76, em que o povo foi sujeito da História.

Podemos dizer, a terminar, que certamente num tempo disruptivo houve erros e incompreensões, num tempo de necessária e natural radicalidade houve radicalismos nocivos, mas o que é essencial sublinhar é que nunca as Forças Armadas estiveram tão próximas do povo a que pertenciam. Nos meios urbanos ou nos lugares mais distantes, o corpo militar não vinha para ordenar mas para dialogar, não vinha para reprimir mas para ajudar, não vinha armado de violência mas com palavras de paz. Construía-se a democracia, cumpria-se a Revolução.

Jorge Sarabando

Bibliografia principal:

“Varela Gomes”, de António Louçã, Parsifal, Lx 2016

“Revolução e Contra-Revolução em Portugal (1974-1975)”, de Armando Cerqueira, Parsifal, Lx 2015

“O Novembro que Abril não merecia”, de António Avelãs Nunes, ACR, Lx 2022

“5ª Divisão MFA – revolução e cultura”, de Manuel Begonha, Colibri, Lx 2015

“Crónicas de um insubmisso”, de Duran Clemente, Modocromia, 2024

“Vasco Gonçalves – um General na Revolução”, de Manuela Cruzeiro, Notícias, Lx 2002

“Costa Gomes – o último Marechal”, de Manuela Cruzeiro, Notícias, Lx 1998

“A verdade e a mentira na Revolução de Abril”, de Álvaro Cunhal, Avante, Lx 1999

“Alpoim Calvão honra e dever”, de vários, Caminhos Romanos, Porto 2012

“Dossier terrorismo”, Avante, Lx 1977

“A resistência”, de José Gomes Mota, Expresso, Lx 1976

https://www.facebook.com/rui.vazpinto.1


domingo, 1 de agosto de 2021

João Miguel Tavares - Otelo e o princípio de Peter


OPINIÃO

Muitos disseram que Otelo Saraiva de Carvalho foi uma personagem complexa, contraditória, instável. Todos somos, quando não temos a menor ideia do que estamos a fazer.

*  João Miguel Tavares
27 de Julho de 2021, 0:00

Eram todos muito jovens. Às vezes esquecemo-nos disso. Salgueiro Maia tinha 29 anos. Vasco Lourenço tinha 31. Otelo era um pouco mais velho, tinha 37. Jaime Neves tinha 38. Ernesto Melo Antunes, que tantas vezes apareceu como a voz da experiência e da razão dentro do MFA, tinha 40 anos. Ramalho Eanes, 39.

As melhores tropas estavam em África. Os soldados revoltosos tinham pouco mais do que a instrução militar. O 25 de Abril de 1974 foi feito por miúdos, e por jovens oficiais que tinham passado várias vezes pela guerra, mas nunca por uma revolução. Não sabiam como se fazia. Ou melhor: sabiam como se derrubava uma ditadura, e derrubaram-na com grande coragem, brilhantismo e contenção – Abril foi, nessa medida, um empreendimento impressionante e digno da nossa maior gratidão –, mas não faziam a menor ideia de como se erguia uma democracia. O talento para destruir nada tem a ver com o talento para construir. É a diferença entre uma marreta e um estirador, e Otelo nunca teve talento para a arquitectura.

Muitos disseram que Otelo Saraiva de Carvalho foi uma personagem complexa, contraditória, instável. Todos somos, quando não temos a menor ideia do que estamos a fazer. O princípio de Peter explica isso: numa estrutura hierárquica, todos os funcionários tendem a subir até ao seu nível de incompetência, e a competência de Otelo terminou no dia 25 de Abril. A 26 de Abril, ele já era incompetente para a sua função. Infelizmente, demorou demasiado tempo a percebê-lo, e desse equívoco nasceu muito sofrimento e muitas mortes.

Otelo cometeu demasiados erros na época do COPCON, e errou de forma catastrófica na época das FP-25. Podia ter sido apenas um herói, mas os deuses amaldiçoaram-no com a pior das cegueiras: a inconsciência das suas próprias limitações

Vasco Lourenço escreveu um texto bonito sobre o seu amigo no PÚBLICO, onde disse: “Hoje, não teremos o Portugal com que cada um de nós sonhou, mas temos o Portugal que os portugueses têm sido capazes de construir. Em Liberdade e em Democracia.” Está muito bem dito. Por um lado, ninguém podia impedir os capitães de Abril de sonhar, muito menos em 1974 e 1975. Por outro, era inevitável que os sonhos de uns se tornassem nos pesadelos de outros, porque todas as grandes utopias estão pejadas de cadáveres. Salgueiro Maia, mais por temperamento do que por experiência, sabia-o bem, regressou a casa, e é hoje a única e verdadeira face apolínea de Abril: o capitão que após fazer o seu trabalho voltou para o quartel, onde morreu modestamente, ainda novo, consciente dos perigos das aventuras políticas extremadas e das tentações de engenharia social.

Vasco Pulido Valente disse o essencial sobre Otelo em 1979, e só precisou de quatro palavras: “Viva Otelo! Na reserva.” Sempre muito cheio de si e convencido das suas qualidades, Otelo não seguiu o conselho. A probabilidade de ele ter alguma competência para liderar o país seria semelhante à de Mário Soares ser um mestre a conduzir colunas de chaimites. A megalomania de Otelo impediu-o de perceber isso.

Em pleno Verão de 1975 – era ele, então, o “general Otelo Saraiva de Carvalho” –, andou entretido a fazer viagens de Estado e de estudo pela Suécia e por Cuba. Estranhamente, preferiu o modelo cubano para Portugal, e à chegada a Lisboa declarou: “Parece que se vai tornando impossível fazer uma revolução socialista na totalidade pela via pacífica.” Foi o tempo em que ameaçou colocar “os contra-revolucionários no Campo Pequeno”. Otelo cometeu demasiados erros na época do COPCON, e errou de forma catastrófica na época das FP-25. Podia ter sido apenas um herói, mas os deuses amaldiçoaram-no com a pior das cegueiras: a inconsciência das suas próprias limitações.

https://www.publico.pt/2021/07/27/opiniao/opiniao/otelo-principio-peter-1971905
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João Garcia - Contas ainda por ajustar com o 25 de Abril

* João Garcia 

Conta a História pouco divulgada que houve um ministro inglês que deu ordens aos seus militares para lançar gás sobre os insurrectos inimigos. Acreditava que apenas o homem branco tinha condições para governar e que a guerra química contra os “selvagens” era necessária. Elogiou os seus militares por terem realizado um enorme lançamento de bombas de gás, pois assim “os árabes e os curdos” ficaram a saber “o que significa um verdadeiro bombardea­mento”. Para ele, Gandhi era “um faquir sedicioso”; empolgado, aconselhou os seus generais a “deitarem fogo à Europa” quando o seu país entrou na Segunda Guerra Mundial.

Também houve um general francês que conduziu uma guerra em que morreram 300 mil argelinos defensores da independência e que tudo tentou para esmagar o hoje endeusado Maio de 68.

Ambos, Churchill e De Gaulle, ficaram na História, não por estes atos raramente recordados, mas pelos enormes feitos de terem derrotado Hitler e libertado a França. Ficaram pelos feitos maiores. Como deve ser.

Spínola, o fundador do MDLP — movimento que tinha o ELP como braço armado e foi causador de muitas mortes e variadíssimos casos de violência —, desertou de Portugal com mate­rial militar. Nunca foi julgado (apenas interrogado durante umas horas em Caxias). Fala-se dele por ter defendido uma solução política para a Guerra Colonial e pelo papel que teve nos primeiros tempos de democracia — não pelo demais.

E ainda bem que assim é. Fica-se na História pelos grandes contributos. Devem omitir-se ou minorar os erros? Nada disso, primeiro para não falsear a História; depois para, por mera pedagogia, se perceber que até grandes homens dizem e fazem enormes asneiras. Quando se elogia o pensamento de Adriano Moreira, ex-ministro de Salazar, ou a estreita ligação de Marcelo Rebelo de Sousa a Caetano, devem sempre recordar-se estes aspetos? Não me parece.

Mas há um homem que muitos sentem necessidade de associar ao pior que fez. Otelo, obviamente. Mesmo entre os mais comedidos, são frequentes as referências aos excessos, esquecendo que, na época, certamente também os cometeram. Muitos dos que então se envolviam na política fizeram e disseram coisas que hoje os fariam corar. Foram menores os seus crimes? Talvez, mas também foram muito menores os seus feitos.

Portugal vive mal, muita da esquerda incluída, com os homens do 25 de Abril. Só dois foram conselheiros de Estado por nomeação presidencial. Contam-se pelos dedos os que tiveram cargos de destaque no Estado. Que eu conheça, há apenas um memorial, em Grândola, com nomes de homens de Abril e, no país, julgo que só foi erigido um “monumento aos capitães de Abril” em Castro Verde. Porquê? Porque, na esmagadora maioria, eles não pertenciam, e poucos entraram, aos aparelhos partidários e derrubaram a ditadura sem o beneplácito das organizações políticas. Os partidos tendem a esquecer quem teima em ficar de fora.

Os capitães de Abril toleram-se, mas não se homenageiam. Não caíram na boa graça das elites pensadoras nem dos partidos. Não lhes pertenciam

Há um homem, José Alves Costa, que o jornalista Adelino Gomes tirou da ignorância nacional. Quem é? Um heroico cabo apontador que, apesar de ter ouvido o seu brigadeiro dizer-lhe “ou dá fogo ou meto-lhe um tiro na cabeça”, se recusou a disparar contra as tropas de Salgueiro Maia, estacionadas à sua frente, a cortar a Rua do Arsenal. Um ato que levou o capitão de Abril a afirmar: “Aqui é que se ganhou o 25 de Abril.” Não deve haver, sequer, uma rua cabo apontador José Alves Costa. Na internet, as referências começam e acabam em 2014, ano de lançamento de “Os Rapazes dos Tanques”, de Alfredo Cunha e Adelino Gomes.

Temos um Aeroporto Cristiano Ronaldo mas nem um memorial à altura daqueles a quem devemos a liberdade, que a conquistaram e devolveram, que vão desaparecendo e sendo esquecidos. Não há um mural que os liste e imortalize. E luto nacional não haverá por qualquer deles, a manter-se a abstrusa explicação de Marcelo Rebelo de Sousa de que a falta de antecedentes impede homenagens futuras. Como se esta decisão não coubesse ao Governo e Presidente do momento e exigisse especial coerência. Por Sá Carneiro, o Governo da Aliança Democrática decretou cinco dias.

Os que nunca sentiram a falta da liberdade não percebem o que receberam; os que a sentiram parecem mal-agradecidos. Sentem-se melhor com a ingratidão do que com os capitães de Abril.

Jornalista, antigo membro da direção do Expresso e ex-diretor da “Visão”

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2544/html/primeiro-caderno/opiniao/contas-ainda-por-ajustar-com-o-25-de-abril


Paulo Moura - Se isto não é um herói OTELO SARAIVA DE CARVALHO


Ele não escolheu o protagonismo. A revolução era urgente, mas ninguém a fazia. Quando era preciso agir, mas, por medo, inépcia ou calculismo, ninguém agia, ele foi herói. Depois continuou a desempenhar o seu papel, sem perceber que o pano já tinha caído. Eis os factos, segundo uma longa entrevista com Otelo Saraiva de Carvalho.

* Paulo Moura
24 de Abril de 2009, 9:09


Otelo: "Comecei a tomar decisões. Podem ter sido as piores, mas alguém tinha de tomar decisões" ADRIANO MIRANDA

Nevoeiro cerrado, Lisboa, rotunda da Encarnação, 6h30 da manhã de 16 de Março de 1974. Otelo está no meio da praça a ver se a Revolução acontece sozinha. Vai a uma cabine fazer um telefonema, sai e dá alguns passos perscrutadores no terreiro vazio. Tem uma camisola de lã castanha por cima do uniforme e uma pistola 6.65 no coldre, carregada. Olha em redor. Estacionado na berma está um Ford Capri cor bordeaux, de capota negra. Um tipo de gabardina e chapéu fuma um cigarro, de pé, junto à porta aberta do carro.

Quem era?

“Pide, claro”, diz Otelo, identificando um agente da polícia política.

O inimigo já sabia de tudo. Mais do que o próprio Movimento. Fora alertado e ia reagir. Mas contra quê? Uma coluna militar vinda das Caldas da Rainha devia estar a chegar à rotunda, mas todas as outras iniciativas tinham falhado. Que iria acontecer?

“O pide estava ali parado em posição estratégica”, conta hoje Otelo Saraiva de Carvalho, 73 anos, no seu apartamento de Carnaxide. “E eu vi logo que se preparava um grande granel.”

Otelo, 37 anos, um homem bonito, atlético, determinado e corajoso, um líder nato, no auge da sua vitalidade, não é mais do que um fantasma no meio da praça. Ainda não experimentou a sua força. Está à espera que as coisas aconteçam. Perdeu o controlo da situação. Está à espera que o regime caia com um sopro. Está a espera de um banho de sangue. Está à espera de ser preso. De que está ele à espera?

Moçambique, anos 40. Cumprindo ordens da mãe, Otelo leva o empregado doméstico da família à administração do concelho. Ao lavar a loiça, o rapaz partiu um copo, e portanto tem de ir ao sipaio levar umas palmatoadas nas mãos.

“Não vais nada. Eu não te levo lá”, diz, pelo caminho, Otelo ao criado, que é mais velho do que ele.

“Mas eu tenho de aparecer com as mãos inchadas.”


Foto ADRIANO MIRANDA  “Ó pá, sei lá, esfrega-as com urtigas.”

Otelo é amigo do criado, bem como dos outros miúdos negros do bairro onde vive, em Lourenço Marques, e com quem costuma jogar futebol. Mas se o criado se desleixa no trabalho, ou bebe uns copos a mais, é submetido a formidáveis sessões de pancada do pai de Otelo.

“De repente, aquela fraternidade que existia num jogo de futebol de rua transformava-se num distanciamento, quando o preto tinha de levar uns tabefes, ou um arraial de batatada”, recorda Otelo. E quando punha em causa o racismo vigente, respondiam-lhe que na África do Sul ainda era pior. Para o confirmar, meteu-se num comboio e viajou, durante 18 horas, até Joanesburgo. Tinha 17 anos. “Era chocante. Havia filas para europeus e para não-europeus. Em Moçambique o racismo era semelhante, embora mais encapotado.”

Otelo tornou-se rebelde. Só pensava em fugir, em libertar-se. No liceu, admirava um grupo de colegas mais velhos, de que faziam parte os irmãos Fernando e José Gil, Eugénio Lisboa, Hélder Macedo, Rui Knopfli, Rui Guerra. Eram brilhantes, gostavam de classificar o liceu Salazar como “o maior centro intelectual comunista da África Austral”, e costumavam reunir-se em casa do Fernando Gil, para discutir política. Por essa razão, começaram a ser presos e interrogados pela PIDE, que rondava o liceu. Otelo não se conformava. Adolescente, tentou visitar os amigos na prisão. Mas não o deixaram entrar.

“Eu só pensava em conhecer o mundo, abrir horizontes. Queria ser actor, para poder desempenhar uma multiplicidade de papéis. Estudar em Nova Iorque, no Actor's Studio, onde estavam o Marlon Brando, o Montgomery Cliff, o Paul Newman.”

O avô Otelo
O avô paterno de Otelo foi actor. Era um homem baixinho e gordo, e por isso nunca conseguiu representar outros papéis que não fossem os de mordomo. E no entanto formou-se com 20 valores no conservatório de arte dramática. Otelo Augusto Fernandes de Carvalho tornou-se empresário de teatro. Criou a sua própria companhia, e actuou no Salão Foz, em Lisboa. Mas em 1930 foi em tournée para Angola, onde, aos 44 anos, morreu subitamente de um AVC. Deixou em situação económica precária a mulher e três filhos. O mais velho, que sonhava vir a ser oficial da Marinha, foi obrigado, aos 17 anos, a trabalhar para sustentar a mãe e os irmãos. Escreveu a um tio que era inspector superior dos Correios, Telégrafos e Telefones de Lourenço Marques, e ele conseguiu-lhe um emprego como aspirante dos correios.

Nunca recuperou da frustração e foi talvez por isso que quando o filho Otelo quis seguir a carreira dos palcos, como o avô Otelo, se recusou a ajudá-lo ("de mim, não levas um centavo!"), o que levou o jovem actor em potência a optar pela carreira militar, a conselho do avô materno.

Este fora um homem bem-sucedido. Assentou praça como soldado e ofereceu-se como voluntário para a Índia. Foi lá que casou e teve duas filhas. Fez a sua carreira no chamado Exército Ultramarino, foi colocado em Moçambique. Com 16 anos, a filha mais velha conheceu o pai de Otelo, de 21, funcionário dos Correios, casou com ele, em Julho de 1934, e deixou de estudar. Otelo nasceu em Lourenço Marques em 1936, “fruto das andanças do Império”.

Quando, em 1955, terminou o liceu, candidatou-se à Escola do Exército, porque o avô materno o entusiasmou com os valores da vida militar: a coragem, a frontalidade, a camaradagem, a lealdade.

“Filho, escolhe a vida militar, porque vais sentir-te bem. É uma vida disciplinada, mas tu vais adaptar-te. Porque, cá fora, a vida civil é uma selva de competição, de invejas, com cada um a querer passar à frente do outro”, explicou o avô.

Otelo acreditou, e ingressou na vida militar, apesar de, um ano antes, ter chumbado na milícia da Mocidade Portuguesa. “Não possui a mínima vocação militar”, fora a apreciação final.

“Há em mim uma série de contradições imensas”, confessa Otelo. Em alternativa ao teatro, escolheu as Forças Armadas, como meio de libertação. “Eu tive na altura a noção de que só ali poderia fazer alguma coisa para combater o poder. Porque era ali que estavam as armas. E só com armas seria possível fazer alguma coisa.”

O professor preso
Na Escola do Exército, organizou um núcleo de teatro, como já tinha feito no Liceu Salazar, em Lourenço Marques. Foi aluno excelente nas áreas de comando, regular nas disciplinas teóricas.

Numa prova oral de Matemática, o mestre-examinador major Alcides Oliveira chama o aluno Otelo ao estrado. Este, que desde que começou a namorar colocou os livros completamente de lado e já reprovou um ano, faz uma prova miserável.

“Bem, Saraiva de Carvalho, vamos considerar a coisa assim: eu sei que você faz para aí umas imitações, entre as quais a minha. Pois vou conceder-lhe uma última oportunidade. Você vai imitar-me. Se eu gostar da imitação, dou-lhe 10. Se não gostar, você chumba.”

Quando Otelo termina, Alcides Oliveira aplaude. “Está perfeito. Tem 10. Passou.”

Foi com outro professor, o major Augusto Pastor Fernandes, que percebeu que as tentativas dos militares para derrubar o regime já tinham começado.

11 de Março de 1959. Vai realizar-se o jogo de basquete da equipa da Academia Militar (a que Otelo pertence) contra a do Instituto Superior Técnico, a contar para o Campeonato Universitário. Para a manhã seguinte está marcado um teste da disciplina de Tiro de Artilharia e não vai haver tempo para estudar. O jogo, obviamente, é mais importante e Otelo pede ao chefe de curso que telefone ao professor, implorando pelo adiamento do ponto.

Pastor Fernandes atende o telefone.

“Adiar? Com certeza. O ponto fica adiado, obrigatoriamente, sine die. Isto porque, neste momento, estão aqui em minha casa dois agentes da PIDE que me vão levar preso para Caxias, ou para a Trafaria, ainda não sei bem.” Pastor Fernandes, que participou na chamada Intentona da Sé, será “deportado” para Timor, e depois passará à reserva.

“Nós gostávamos muito dele. Era um homem de grande envergadura moral e intelectual. Foi um choque para mim.” No ano anterior, Humberto Delgado fizera a sua campanha e Otelo, aproveitando a boleia, num Citroën 2 cv, de duas francesas amigas da namorada, viajou até Paris. A viagem demorou uma semana, apesar da pressa que Solange e Michelle tinham em chegar, para votarem a favor da autodeterminação da Argélia no referendo organizado por De Gaulle. As conversas versaram quase sempre sobre isso, sobre a democracia dos países europeus e sobre o regime ditatorial português. Otelo sentiu-se humilhado por ser estudante militar num país de regime fascizante.

“Os militares são a principal base de apoio do regime”, diz uma.

“Isso não é bem assim. Nós, os militares, não estamos assim tão submissos ao regime”, responde Otelo.

“Mas como, se vocês são o derradeiro bastião da ditadura?”, argumenta a outra. E Otelo contra-ataca:

“É dentro da instituição militar que eu tenho a possibilidade de derrubar a ditadura.”

“Isso nunca vai acontecer, porque vocês são a última defesa que o regime tem, face a uma insurreição que possa surgir.”

“Não”, insiste Otelo, tentando convencer, ao mesmo tempo, as raparigas e a si próprio. “Eu vou ser militar para derrubar a ditadura.” Três anos depois será enviado para Angola, para defender a pátria dos terroristas.

E é lá que, pela primeira vez, toma contacto com o Portugal autêntico. “As condições terríveis em que vivíamos levavam a criar laços de estreita proximidade com os soldados, que eram gente do povo. Camponeses, operários. Comandando o meu pelotão, tinha, por vezes, de acampar a céu aberto, com uma parelha de combate, um soldado. Estávamos ali a olhar para as estrelas e falávamos da vida.

‘Eu sou trabalhador numa fábrica’

‘Sim? E como é? Quanto ganhas?’

‘Eh pá, a gente ganha muito mal. Mal dá para a família. A minha mulher trabalha nas limpezas e lá vamos conseguindo...’

Uns trabalhavam no campo, de sol a sol, outros tinham de sustentar os pais, eram um mundo de gente miserável, com que eu nunca tinha contactado. Tive pela primeira vez uma perspectiva do que era o povo e da animosidade surda em que ele vivia, em relação ao regime. Os soldados contavam-me que se na fábrica onde trabalhavam faziam um ligeiro protesto contra os salários miseráveis, o patrão telefonava à GNR local, que ia lá obrigá-los a trabalhar à cacetada.

‘Ó meu alferes, vocês é que podiam fazer qualquer coisa em nosso favor... Vocês é que têm as armas’, diziam-me eles. E eu pensava: sim, é verdade, nós temos essa obrigação para com este povo.”

A consciência de que a vida no país era injusta precedeu em vários anos a da própria injustiça da guerra colonial. “Quando fomos enviados para ‘Angola rapidamente e em força’, como disse o Salazar, estávamos convencidos de ir proteger as populações portuguesas indefesas, e restabelecer a paz. Só com o tempo começámos a tomar consciência do que se passava.”

Admiração pelo Velho
Foi um processo lento. Nas reuniões do Movimento dos Oficiais das Forças Armadas, já em 1973, muitos militares ainda recusavam terminantemente a ideia de pôr fim à guerra. Mas foi ganhando terreno a noção de que era preciso resolver o conflito de outra forma. Até entre alguns oficiais superiores que se notabilizaram pela fidelidade ao regime, como era o caso de António de Spínola.

Como começasse a ver a carreira a fugir-lhe, aos 52 anos, o ambicioso e então ainda tenente-coronel Spínola ofereceu-se como voluntário para comandar um batalhão em Angola. Já não era um jovem, usava monóculo, luvas brancas de pelica, camuflado e pingalim, mas ia para o mato com a sua tropa, dormindo em tendas, atravessando rios a pé, o que lhe valeu um imenso prestígio nas Forças Armadas. Foi nomeado para o conselho de administração da indústria de siderurgia de Champalimaud, o que lhe permitia encomendar, para o seu batalhão, jipes e camiões blindados com chapa de ferro, helicópteros e toda uma panóplia de equipamento com que as outras unidades em África apenas sonhavam.

“Fez uma guerra de luxo, era um grande combatente, foi idolatrado e subiu rapidamente na carreira”, conta Otelo, sem esconder a admiração pelo “Velho”, como era conhecido. Em 1968 já é oficial general na Guiné, e pouco depois governador da província, onde se rodeia de um escol notável de oficiais, como Rafael Durão, Almeida Bruno ou Manuel Monge.

É nessa altura, e por influência desses oficiais, que a sua perspectiva em relação à guerra se altera, até chegar à conclusão de que a solução teria de ser, não militar, mas política. Ele, de quem circulavam lendas de façanhas sanguinárias contra as populações autóctones, toma agora a iniciativa de organizar os congressos da Guiné, uma experiência de democracia directa que Otelo nunca mais esquecerá.

Durante três dias, representantes das tabancas da Guiné (das zonas controladas pelas forças portuguesas, obviamente) vinham a Bissau e reuniam-se numa sala de espectáculos para discutir os problemas das suas regiões. Os oficiais tiravam notas das intervenções dos representantes do povo e depois tomavam as providências necessárias. Alguns dos líderes indígenas, nas suas vestes de cerimónia, imaculadas, louvavam as obras dos militares colonizadores. Mas outros criticavam duramente os abusos e maus-tratos por parte dos administradores locais, sem qualquer receio.

Spínola queria conquistar a confiança das populações, e Otelo ajudou-o, nas funções que desempenhou nas subsecções de Imprensa e Acção Psicológica, e depois como verdadeiro Relações Públicas do general. Produzia e coreografava festas e cerimónias, recebia jornalistas nacionais e estrangeiros. E ainda conseguiu reunir um grupo de teatro e uma banda, com o Fernando Girão, que fez uma tournée à volta da Guiné. Mas foi nessa altura que o Chefe de Estado, Américo Tomás, promulgou o decreto-lei 353/73, o início do rastilho que levaria à revolução.

Segundo o diploma, os oficiais oriundos de milicianos poderiam entrar para o Quadro Permanente, através da frequência de cursos intensivos na Academia Militar. A medida destinava-se a incentivar a entrada para os quadros das Forças Armadas de jovens que provinham de cursos civis, para prover às necessidades da guerra. Mas desagradava aos oficiais do Quadro Permanente, principalmente os capitães, que precisaram de vários anos de estudo na Academia Militar para chegar à sua patente.

Os protestos começaram logo. Na Guiné e no Continente, houve reuniões, abaixo-assinados, manifestos. Mais tarde Marcelo Caetano revogaria o decreto, aumentaria os salários dos capitães, mas o Movimento já estava em marcha e era imparável. 

O regresso à metrópole
A comissão de Otelo na Guiné termina e ele regressa à metrópole, onde é colocado como professor adjunto de Táctica de Artilharia na Academia Militar. Mas mete uma licença, porque tem outros afazeres.

Após uma reunião, em Outubro de 1973, no apartamento do capitão Diniz de Almeida, no Bairro do Rego, o capitão Vasco Lourenço dá boleia a Otelo, cujo carro ainda não chegou da Guiné. Têm um furo, na Avenida de Berna.

“Eu não sei o que é que tu pensas, Vasco, mas ultrapassada esta parte da luta do Movimento dos Capitães, que praticamente já ganhámos, acho que podemos ir muito mais longe, e criarmos condições para derrubarmos o Governo. Que é que tu achas?”, diz Otelo, enquanto mudam o pneu.

“Eu penso exactamente como tu”, responde Vasco Lourenço.

“Então vamos para a frente. Mas com calma, para não chocar os camaradas.”

Numa das últimas reuniões ainda na Guiné, a 25 de Agosto, na sala do Agrupamento de Transmissões, para aprovar um documento de protesto contra o decreto, um capitão engenheiro, Jorge Golias, toma a palavra e declara, exaltado:

“Estamos a perder demasiado tempo a pensar e discutir sobre o conteúdo do documento, quando devíamos era preparar-nos para a revolução armada, pois o que interessa é abater o regime, e isso só se consegue à porrada.”

É o pânico na sala, e a maior parte dos participantes quer abandonar a reunião.

“Não, nisso eu não alinho”, dizem. E o Golias, isolado, acaba por calar-se.

Sábado, 24 de Novembro de 1973. A reunião realiza-se num armazém nas traseiras da Colónia Balnear Infantil de O Século, em São Pedro do Estoril. Estão presentes os elementos das comissões coordenadora e consultiva e oficiais de patente mais elevada. Ao todo, 80 camaradas. O objectivo é a eleição de uma Comissão Coordenadora efectiva, que represente o Movimento. Quando ninguém espera, o tenente-coronel Luís Banazol faz um discurso, com voz rouca: “A única via possível para a reconquista do prestígio há muito perdido pelas Forças Armadas é o derrube pela força do Governo marcelista através de um golpe militar e o fim da ignominiosa guerra colonial...”

Burburinho na sala.

“Meus senhores, sejamos realistas!”, grita o major Vítor Alves. E acaba por se aprovar a continuidade da guerra, exigindo embora melhor armamento.

“Naquele momento, o nosso objectivo já era o derrube do Governo”, explica Otelo. “Mas precisávamos de generais, para constituirmos um directório militar que assumisse o poder depois da queda do Governo, credibilizando a revolução. Não vamos aparecer, nós os capitães, e dizer: o poder é nosso.”

Em Janeiro, Spínola, regressado da Guiné, é nomeado vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Otelo e Vasco Lourenço vão falar com ele. Informam-no de que o Movimento o elegeu, juntamente com Costa Gomes (os dois generais mais prestigiados do país), para constituírem o directório militar pós-revolução.

“Ok, tomo conhecimento e fico à espera”, diz Spínola. “Mas tomem cuidado.”

Em Fevereiro, Spínola tem pronto o livro que anda há meses a escrever, Portugal e o Futuro, em que advoga uma solução política para o problema das colónias. Otelo vai a descer a Rua do Telhal e um Mercedes pára no semáforo vermelho. Uma buzinadela fá-lo voltar-se. Vê o vidro traseiro abrir-se e uma luva de pelica a chamá-lo.

“Olá Otelo, está bom?”, diz Spínola. “Quer saber de uma coisa? O Marcelo Caetano não me deixa publicar o meu livro.”

“Ó meu general, mas o livro que está a escrever não é sobre a política colonial?”, pergunta Otelo.

“É esse mesmo. O Marcelo não mo deixa publicar. Entreguei-lhe um exemplar e ele diz que não posso publicar, porque advoga uma política completamente oposta à do Governo.”

“E qual é a posição do general Costa Gomes?”

“O Chico está comigo. Já deu luz verde para a publicação. O Marcelo é que diz que se demite se eu publicar.”

“Ó meu general, mas é isso mesmo que nós queremos. Se o livro provocar a demissão do Governo, óptimo. Meu general, publique o livro, mesmo contrariando o Marcelo Caetano. Nós apoiamos”, diz Otelo, assumindo já, individualmente, as decisões fundamentais do Movimento.

“Vocês estão comigo? Apoiam?”

“É evidente meu general.”

Dias depois, Portugal e o Futuro está nas livrarias. Vende 100 mil exemplares numa semana. Marcelo cumpre o prometido e apresenta a demissão a Américo Tomás, mas este não a aceita. Antes ordena a Marcelo que exonere Spínola e Costa Gomes. Para haver um pretexto para o fazer, organiza-se a chamada Brigada do Reumático. Chefes militares, comandantes das forças militarizadas, da Legião Portuguesa e da PIDE, em conjunto com os ministros, vão ao Palácio de S. Bento, a 14 de Março, manifestar a sua lealdade a Marcelo.

Três dias antes, Otelo recebe um telefonema do ajudante de campo de Spínola, António Ramos, que, muito nervoso, o convida para almoçar.

“O nosso general está numa posição tramada”, começa ele. “Já viste, está anunciada esta manifestação de generais...”

“Pois está, mas eles não representam nada”, diz Otelo.

“Pois, mas eles vão apresentar a sua fidelidade ao Marcelo e pedir a continuidade da guerra, e o nosso general e o general Costa Gomes vão ser exonerados.”

“Pois, isto não deu o resultado que esperávamos. Mas qual é a alternativa? O nosso general propõe alguma coisa?”

“O nosso general propõe que os oficiais do Movimento se fardem com o uniforme número 1, com faixa, espada, luvas brancas e condecorações, e vão para a frente do Ministério do Exército exigir que não se realize a manifestação dos generais e que o ministro se demita.”

Otelo não concorda. “Diz ao general que nós não vamos fazer nada disso. Não estás a ver os oficiais do Movimento, que têm estado em semiclandestinidade, a aparecerem em frente ao ministério numa manifestação. A PIDE iria tirar fotografias de todo o pessoal, e o Movimento morre.”

Dia 16
Entretanto regressam da Guiné o Manuel Monge e o Casanova Ferreira, que tinha sido instrutor da maior parte dos actuais capitães do Movimento.

Otelo põe-os a par da proposta de Spínola. Casanova responde logo:

“Nem pensar nisso. O nosso general está louco. Não é ele que nos vai dizer o que fazer. Consegues marcar uma reunião com os militares das escolas práticas, que são as unidades mais fortes? Eu tenho uma vivenda em Algueirão, marca a reunião para lá.”

Otelo convocou tenentes e capitães das escolas práticas e a comissão executiva do Movimento.

“Eh pá, vamos fazer uma acção, rapidamente, para evitar a Brigada do Reumático”, diz Casanova na reunião. E todos aplaudem. À tarde, numa outra reunião mais restrita, Casanova apresenta uma Ordem de Operações, que traz esboçada num papelinho: “A acção começa com o lançamento, por via aérea, de uma bomba de 250 quilos na Assembleia Nacional”, diz ele.

“Eh pá, ó Casanova, aí é que estamos tramados”, responde Otelo. “A Força Aérea não está connosco, e nem sei se há em paiol bombas de 250 quilos.”

“Eh pá, mas isso é que era giro, rebentar com aquilo tudo. Mas não faz mal. Aqui está a ordem de operações.” E começa a distribuir papelinhos com as várias funções. A Escola Prática de Cavalaria manda uma coluna para Lisboa e fica na rotunda da Encarnação à espera de ordens. Vem uma bateria de Cavalaria da Escola Prática de Vendas Novas. Uma coluna motorizada com morteiros de Mafra.

Otelo tenta objectar: “Eh pá, ó Casanova, mas isso não é uma operação militar com pés e cabeça...”

“Isto cai logo pá. Isto está podre.”

“Olha que é capaz de não ser bem assim. Mas está bem. O que determinas que eu faça?”

“Vais amanhã de manhã à Escola Prática de Cavalaria, que é a mais renitente, e convences a malta a sair para a rua, na noite de 13 para 14.”

Dia 13 de manhã, Otelo parte para Santarém. Mal acaba de ler a descrição da missão, levanta-se um capitão, homem respeitador da hierarquia: “Meu major, desculpe, essa ordem de operações vem assinada pelo nosso general Spínola?”

“Não. Ele nem sonha que estamos a fazer isto.”

“Então nós não alinhamos nessa aventura.”

“Ok, mas posso falar com os pára-quedistas?”

“Sim, vou chamar um representante deles a Tancos.”

Otelo reúne-se com três pára-quedistas no seu carro. Convoca-os para uma reunião no Dafundo, às 6 da tarde. Aí, o representante dos pára-quedistas recusa-se a colaborar na operação, mas promete elaborar um plano no prazo de dez dias (o que nunca fará).

“Vocês são quantos?”, pergunta o Casanova.

“Uma força de 800 homens, perfeitamente disciplinada.”

“Óptimo. Com isso já se faz uma revolução. Esperamos então pela vossa Ordem de Operações”, diz o Casanova aos oficiais presentes, entre os quais alguns da Escola Prática das Caldas da Rainha. “Ficam portanto canceladas todas as acções para amanhã.”

Nesse mesmo dia, todos assistem pela televisão ao espectáculo da Brigada do Reumático. No dia seguinte, é anunciada a exoneração de Spínola e Costa Gomes. Otelo e Casanova decidem passar em Miraflores, por casa do Manuel Monge, spinolista convicto, para o consolar. Quando estão lá, tocam à campainha. É um capitão, Marques Ramos, que diz estar em contacto com as Caldas da Rainha.

“Tenho notícia de que aquilo nas Caldas está em polvorosa. A malta parece disposta a pegar em armas e a vir por aí abaixo.”

“Eh pá, não vamos cometer nenhuma loucura”, diz Otelo. “As acções estão canceladas.”

Toca o telefone. É o capitão Manuel Ferreira da Silva, colocado no Centro de Instrução de Operações Especiais de Lamego.

“Lamego está em pé de guerra. Está a organizar uma coluna e vai marchar sobre Lisboa”, diz o Ferreira da Silva. E acrescenta que já contactaram Viseu para fazerem o mesmo. O Monge fica fora de si:

“Eh pá, Ferreira da Silva, ganda Manel, pá, tu nunca me enganaste! É assim mesmo, vamos embora! Tá a andar!” Pousa o telefone e diz: “Lamego vai sair!”

Agora é o Casanova que fica eufórico. “Ainda tens aí o papelinho das operações?”, vira-se para Otelo. “Dá cá isso. Telefona já para Vendas Novas. Manda vir de lá uma bateria de artilharia. Vais a Mafra e trazes de lá uma coluna de infantaria, com morteiros e essa coisa toda. Eu vou a Santarém e trago uma coluna de blindados. Monge, tu ficas aqui agarrado ao telefone, para receberes as comunicações. Marques Ramos, vai já para as Caldas, diz ao pessoal para se preparar para avançar para Lisboa.”

“Isto vai dar um buraco desgraçado”, ainda resmunga Otelo.

“Não vai nada. Quatro ou cinco colunas nas estradas e o Governo cai já.”

Otelo telefona para Vendas Novas e atende o cantor Duarte Mendes.

“Meu major, anteontem disse que estava tudo cancelado, a malta foi toda de fim-de-semana. Só aqui estou eu e os sentinelas. É impossível mandar uma bateria para Lisboa.”

Segunda missão: Mafra. Otelo chega lá às 3 da manhã, sob um nevoeiro cerrado. A resposta é a mesma: está tudo de fim-de-semana.

Regressa a Miraflores. O Monge deve saber o que se passa. Quando chega, às 5h30 da manhã, um carro estaciona 50 metros à sua frente. As portas abrem-se e saem cinco homens de gabardina e chapéu, apontando para o andar do Monge. É a PIDE. Otelo acelera o Morris 1100. Ruma à rotunda da Encarnação, para onde, segundo a Ordem de Operações, a coluna das Caldas se deveria dirigir, para esperar instruções. Telefona para casa do Monge e atende a mulher a chorar. A PIDE esteve lá. Revistaram tudo. Mas o Monge já tinha saído, não sabe para onde.

São 6h30 da manhã. Otelo caminha pela rotunda da Encarnação, que está vazia, sob o nevoeiro. O silêncio só é cortado pelo walkie-talkie de um pide, de pé junto à porta aberta de um Ford Capri bordeaux com capota negra.

Otelo não sabe que o Monge, quando o Casanova chega de Santarém também sem a missão cumprida, vai com ele a casa de Spínola, tentando convencê-lo a assumir a liderança da revolução. Sem êxito. O general, respeitador da hierarquia, diz que nunca poderá pegar em armas contra o seu Governo. A seguir, Casanova e Monge correm na direcção das Caldas. Encontram a coluna às 4 da manhã, já perto de Lisboa, e fazem-na dar meia volta. Assumem a sua liderança e entrincheiram-se no RI5 das Caldas da Rainha, até serem cercados e presos.

Otelo não sabe nada disto. Ignora se a coluna revoltosa das Caldas vai entrar na rotunda.

Mas as forças do regime, essas, chegam em força, de repente e com apavorado espalhafato. De boina e uniforme negro, armados até aos dentes, surge o corpo de intervenção da Legião Portuguesa. A seguir, a GNR, Regimento de Cavalaria 7, com autometralhadoras Panhard, Batalhão de Caçadores 5, blindados M 47, jipes e Berliets. Uma multidão de soldados, polícias, pides, alguns dos quais muito jovens, de cabelo comprido, hippies que Otelo nunca imaginou que a polícia política pudesse ter ao seu serviço. Ouvem-se os walkie-talkies, os apitos da PSP tentando controlar os veículos que parecem cruzar a praça de forma completamente descoordenada.

“Então é isto!”, pensa Otelo.

“Então era aquilo a força de reacção do regime! Eles têm conhecimento de que uma coluna militar vem pela estrada fora a caminho de Lisboa, desde as Caldas da Rainha, e aquele dispositivo todo era por causa disso.”

“Se os gajos ficam todos em palpos de aranha por uma coluna que vem aí, se forem cinco colunas, em vários pontos do país, não terão capacidade de reagir.”

E nessa madrugada de 16 de Março, estoirado, cheio de sono, mas de súbito iluminado por uma compulsiva evidência, Otelo planeou o 25 de Abril. 

Otelo sozinho
A seguir à tentativa de golpe, 23 camaradas foram presos, o que, a acrescer ao facto de Vasco Lourenço ter sido colocado nos Açores, deixava Otelo sozinho na direcção do Movimento. Além disso, não se sabia o que poderia acontecer aos detidos. “Talvez fossem parar a um Tarrafal qualquer.” E nessa altura, sentindo-se sacrificados e abandonados pelo movimento, era provável que começassem a denunciar os companheiros.

“Eu tenho enormes responsabilidades, agora. Fundamentalmente, chegámos a um ponto crítico, em que é preciso actuar”, disse Otelo numa reunião em Oeiras. E começou a planear tudo, sozinho. Era como se a revolução estivesse à espera de ser feita, mas precisasse, ainda assim, de alguém que a fizesse.

“Sem a tentativa das Caldas, o golpe poderia ter ficado adiado eternamente. Mas agora era preciso agir rapidamente.” Dia 18, encontrou-se com Melo Antunes num café da Praça de Londres. Dissuadiu-o de abandonar o Movimento, como ele queria, e encomendou-lhe um programa político para o Movimento das Forças Armadas.

“Eu vou fazer uma operação militar, elaborar uma Ordem de Operações, à minha responsabilidade”, disse Otelo. “O Vítor Alves vai constituir o grupo político e tu o programa.”

O golpe teria de ser feito na última semana do mês, para aproveitar o facto de a PIDE estar ocupada a prender os agitadores políticos do PCP e do MRPP que enchiam as paredes de graffiti no 1.º de Maio.

Em três semanas, Otelo preparou tudo. Sozinho? “Sim, foi um trabalho solitário. Elaborei uma ordem de operações, sem ajuda de ninguém. Eu sabia quais eram as unidades com que podia contar. E essas eram suficientes. Só não conhecia as forças inimigas. A GNR, a PIDE, a Legião. Esse era o grande problema. Foi o maior risco que tive de correr.”

Como obter as informações? Lembrou-se de que tinha um primo que era comandante da GNR, no quartel do Carmo. E que um antigo colega, o Rosa Garoupa, estava colocado no Estado-Maior do Exército. Nenhum deles era simpatizante do Movimento. Mas tinha de arriscar.

“Eh, Fernando. Aqui é o Otelo. Gostava imenso de te ver, pá”, cumprimentou, pelo telefone, o primo, que não via há anos. Foi a sua casa em Alfragide e disse-lhe: “Fernando, é o seguinte: eu vou fazer uma operação militar, uma revolução, e preciso da tua ajuda.”

“Eh pá, estás a brincar comigo.”

“Não, é a sério, pá. E vou confiar totalmente em ti. Eu preciso de saber informações sobre a GNR. Efectivos, armamento, viaturas, patrulhas, que postos de observação têm, que objectivos têm em Lisboa para defender, etc. Tens de me dar isso tudo, pá, e não me vais denunciar.”

“Eu não posso fazer isso...”

“Podes, e vais fazer, a bem da nação. Rapidamente.”

Alguns dias depois, o primo telefonou.

“Já tenho tudo.”

A mesma coisa com o Rosa Garoupa. “Eh pá, há quantos anos a gente não se vê...”

“Eh pá, estás bom? Dá cá um abraço. Senta aí, queres tomar alguma coisa? Então que contas?”

“Eh pá, vou fazer uma revolução e preciso da tua ajuda.”

“Estás a gozar, pá.”

“Eu explico: preciso de elementos sobre a Legião, a PIDE, a polícia. É isso que eu te peço.”

E, tal como o primo da GNR, não demorou a reunir toda a informação. Por que o fizeram? “Por camaradagem, lealdade militar. Não por afinidade ideológica.”

Faltava a prisão de Caxias. “Fui lá fazer um reconhecimento com o meu carrito, mas não podia demorar, para não levantar suspeitas. Havia um grande portão verde, e eu pensei: como uma bazucada, deito isto abaixo. A tropa entra por aqui, tomamos isto de surpresa. Mas o que está para lá do portão? Pode haver uma fogachada, a GNR dá para aqui uns tiros, pode morrer alguém, é uma chatice. Então lembrei-me de telefonar ao Silva Graça, que esteve preso.”

O militante do PCP estivera preso, embora não em Caxias. Mas contactou um companheiro que, desgraçadamente, conhecia bem o forte por dentro e que, dias depois, enviou um croquis. Só depois do 25 de Abril Otelo soube que se tratava de Jorge Sampaio.

No dia 15 de Abril, a Ordem de Operações estava pronta. O anexo de transmissões, encomendado a Amadeu Garcia dos Santos, ficou concluído pouco depois. Uma linha telefónica directa foi montada da Escola Prática de Transmissões até ao Posto de Comando, instalado no regimento de Engenharia da Pontinha. Otelo combinou com jornalistas do Rádio Clube Português e da Renascença as canções-senha que dariam o sinal para o início das operações. Entre 16 e 19 de Abril, distribuiu as missões aos líderes das várias unidades.

Oeiras, na casa de Otelo. “Vou fazer-te a leitura da Ordem de Operações. Tu vais ouvir com atenção, sem tirar notas. No fim, fazes as perguntas que quiseres”, diz Otelo ao capitão Salgueiro Maia, que comandará a força da Escola Prática de Santarém.

“Ok. Estou a ouvir-te.”

Otelo explica a manobra, a situação, as forças amigas e inimigas, a logística, as transmissões, as rações de combate, tudo. “Então, Salgueiro? Tens perguntas?”

“Duas. Primeira: temos base de sustentação política, para o caso de sermos bem-sucedidos na operação militar?”

“Temos, sim senhor. O Vítor Alves formou o grupo político e o Melo Antunes deu-nos as bases programáticas.”

“Segunda pergunta: temos generais no posto de comando?” Otelo pensou rapidamente: se lhe digo que não, ele, respeitador da hierarquia como é, recusa-se a entrar na operação. Mentiu:

“Temos, sim senhor. É evidente. Generais não faltam.”

E Salgueiro Maia só vem a saber que Spínola e Costa Gomes não estão no posto de comando pela boca do próprio Marcelo Caetano, momentos antes de se render.


Foto ADRIANO MIRANDA

Quartel do Carmo, 25 de Abril. Cumprindo ordens de “Óscar”, o nome de código de Otelo no posto de comando, as forças de Salgueiro Maia, vindas do Terreiro do Paço, cercam o edifício, onde se refugiou o presidente do Conselho. Salgueiro é levado até ele.

“Entre, sr. Capitão”, diz Marcelo. Salgueiro Maia faz continência e fica parado no meio da sala. Marcelo continua:

“Pode informar-me do que pretende?”

“Recebi ordens do posto de comando do Movimento para formular um ultimato. Ou V. Excia. se entrega, ou terei de mandar arrasar o quartel a tiros de armas pesadas.”

“E quem comanda o Movimento?”

“O general Spínola!”

“O quê? É o general Spínola que está no posto de comando? Olhe que não é. Acabo de falar ao telefone com o general Spínola. Ele está em casa e diz que não chefia a revolução. Mas pedi-lhe para vir cá, para eu lhe entregar o poder.”

Salgueiro Maia fica estarrecido. Depois de garantir a Marcelo que nunca pegaria em armas contra o seu Governo, Spínola telefonou para o posto de comando.

“Acaba de me ligar o presidente do Conselho, pedindo que eu vá ao Carmo receber o poder. Eu disse-lhe que não tinha nada a ver com o Movimento, mas poderia contactá-lo. Qual é a sua ideia, Otelo? Vai lá você, ou aceita que vá eu?”

“Meu general, considere-se mandatado pelo Movimento das Forças Armadas para ir ao Quartel do Carmo receber o poder das mãos do presidente do Conselho.”

Spínola partiu. Marcelo rendeu-se-lhe e foi entregue a Salgueiro Maia, que o levou numa chaimite até ao posto de comando. Daí, seria transportado num DC-6 para o Funchal, e depois para o Brasil. Quando chegou à Pontinha, Spínola abriu um sorriso que nunca ninguém lhe vira. “Olha o Otelo!”, disse o “Velho”. “Dê cá um abraço, homem! Isto foi uma coisa extraordinária!” Logo a seguir, assumia a presidência da Junta de Salvação Nacional, e depois a Presidência da República. Otelo voltou para casa.

“No dia 28 apresentei-me na Academia Militar, como se nada tivesse acontecido.” Pensou que a sua missão estava concluída. Mas mal tinha começado.

O chefe da revolução
A Junta anunciou o Programa do Movimento das Forças Armadas (MFA), formaram-se os primeiros governos provisórios, libertaram-se os presos políticos, regressaram os exilados, surgiram os partidos. O golpe transformou-se em Revolução, o poder caiu realmente na rua, e três meses depois de Abril foi criado o Comando Operacional do Continente (Copcon). Tinha sob o seu mando nada menos que todas as forças regulares do país e também todas as forças especiais. Foi criado para reagir a uma eventual reacção dos fascistas, mas, na prática, o Copcon tinha poder absoluto. Para o liderar, o chefe da revolução: Otelo.

“Confinado à missão puramente militar que lhe foi atribuída, o Copcon teria levado uma vida tranquilíssima”, admite ele. Mas não foi o caso. “Começaram a aparecer no Copcon os problemas mais diversos e mais disparatados, trazidos por gente que não tinha nada a ver com militares, gente pobre, trabalhadores, camponeses, que não sabiam a quem se dirigir”, conta Otelo.

As estruturas existentes foram destruídas, era preciso reinventar tudo, e as pessoas colocadas nas várias funções de poder não tomavam decisões, por incompetência, ou puro medo de um reviralho. Esta é a explicação de Otelo. Desorientados, mandavam todos para o Copcon. “O Otelo que resolva”, diziam. “Ele é que fez a revolução.”

Quando, por exemplo, a administração de uma empresa desaparecia, os trabalhadores iam ao Copcon perguntar o que fazer. Quem não tinha casa ia ao Copcon, quem não tinha trabalho ia ao Copcon.

“Fiquei numa situação difícil. Das duas uma: ou corria com toda aquela gente, mandando o sentinela dar uns tiros para o ar, para os afugentar, ou tinha de resolver os problemas”, explica Otelo. E eram cada vez mais pessoas. E queriam ser recebidas pelo Otelo, pessoalmente. Prometeram-lhes a revolução, e o Otelo era a revolução. Ninguém previra que isto ia acontecer. “Fizemos o 25 de Abril para termos uma democracia burguesa, não isto”, diz Otelo. Mas agora uma força colossal, incontrolável, tinha-se soltado no país. Desconhecida e imprevisível. Ninguém a queria ou conseguia segurar. Otelo ficou sozinho com a revolução nas mãos.

“Comecei a tomar decisões. Podem ter sido as piores, mas alguém tinha de tomar decisões.” Passou a receber as pessoas numa sala.

“Vamos lá a ver isso. Os patrões fugiram? Muito bem. Vocês têm matéria-prima?”

“Sim, está lá no armazém. Mas agora quem é que nos diz o que temos de fazer?”

“Eh pá, quem é o mais antigo na fábrica? Ficas chefe da comissão de trabalhadores. Continuem a trabalhar. Vamos depois tentar vender os produtos que fabricarem.”

Para acompanhar as situações, Otelo nomeava um capitão, que supervisionava cada caso. Mas começaram a surgir outros problemas. O programa do MFA dizia que todos têm direito a uma casa.

“Sim, senhor, vamos resolver isso.” Otelo chama um capitão da Força Aérea. “Tu ficas encarregado desta questão da ocupação de casas. O princípio é este: estes camaradas vêm dizer que há uma batelada de andares vagos ali perto do Casal Ventoso. Vamos ocupá-los, mas com disciplina. Nomeias uma comissão, para coordenar as ocupações. É preciso fazer um levantamento dos andares e ver quais são as famílias mais necessitadas.”

Depois, a partir de Fevereiro de 1975, vieram as ocupações de terras, no Alentejo. Um grupo de trabalhadores vai dizer a Otelo que ouviu falar de uma reforma agrária. Não sabem bem o que isso é, mas sabem que, em consequência dos rumores e dos graffiti a dizer “a terra a quem a trabalha”, os latifundiários já começaram a fugir para o estrangeiro, e a levar com eles o gado, as máquinas e as alfaias agrícolas.

“Quando as terras chegarem a ser distribuídas, não teremos nada para as podermos trabalhar”, explicam os camponeses.

“Bem, para já, ocupem as terras”, diz Otelo. “E não deixem sair nem mais uma cabeça de gado.”

“Já podíamos ter feito isso. Mas não temos armas.”

“Vocês não têm caçadeiras?”

“Temos, mas a GNR vai lá expulsar-nos, com metralhadoras G3.”

“Bom, amanhã às 9 da manhã tenho um briefing com o capitão que comanda a GNR, e vou-lhe dar ordem para, a partir de amanhã, não actuar contra as ocupações de terras no Alentejo. Portanto vocês vão para lá, com as caçadeiras, defendam a terra e não deixem sair mais nada.”

Em pouco mais de um mês, um milhão e 200 mil hectares de terras foram ocupados no Alentejo, por vezes com a ajuda de soldados armados do Copcon. O Partido Comunista, que estava bem implantado na região, assumiu depois a organização da Reforma Agrária, criando unidades colectivas de produção. Mas quem possibilitou as ocupações de terras foi Otelo.

“Cá está mais um caso em que alguém tinha de tomar uma atitude. O ministro da Agricultura dizia: calma, está em preparação uma reforma agrária. Mas era preciso agir rapidamente.

Assumindo um verdadeiro poder paralelo, o Copcon dirigiu de facto uma revolução socialista. De forma tão precipitada e unilateral, que acabou por dividir rapidamente o país em dois.

“Eu agi em benefício de gente que nunca tinha tido nada, e que, entusiasmada com as promessas do MFA, começava a exigir condições de vida básicas. Mas isso criou contra mim ódios terríveis”, admite Otelo. “E contribuiu largamente para a bipolarização do país. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. Hoje reconheço que não havia condições para dar esse salto enorme. Precisávamos da ajuda dos países ocidentais, e a solução socialista não era possível. Se me tivessem explicado essa realidade, eu teria agido de forma diferente. Mas na altura, com toda a minha inexperiência política, não vi outra alternativa. E também ninguém me apresentou nenhuma.” 

As prisões
A 25 de Novembro de 1975, o país estava à beira da guerra civil. Uma tentativa de golpe dos esquerdistas, cuja ponta visível foi a ocupação das bases aéreas por parte das forças pára-quedistas, foi o pretexto para o golpe dos moderados, chefiados por Ramalho Eanes. Mas, dizem os historiadores, quem deu a ordem fatal aos “páras” foi o próprio Otelo, ou alguém por ele. O comandante do Copcon diz que não, embora tenha confessado que sim a Vasco Lourenço, alegadamente para ilibar os seus subordinados, que tinham sido presos. Por causa dessa confissão, foi ele próprio preso, por 44 dias. “Eh pá, a minha candura e ingenuidade têm-me feito enfiar cada barrete, pá.”

Pouco depois de ser libertado participou num comício na Aula Magna, em Lisboa. À saída, um grupo de apoiantes abordou-o pedindo-lhe que se candidatasse à Presidência da República. Apesar de não ser apoiado por nenhum grande partido, obteria 18 por cento dos votos nas eleições de 1976.

Essa força, que representava um projecto de poder popular, de democracia directa, sem partidos, que Otelo defendia desde 1975, acabou por implodir. Mas, segundo Otelo, foi o pretexto para a criação, entre 1978 e 1979, de um movimento designado por Projecto Global, que incluía uma face legal e duas clandestinas, armadas. O objectivo era ambíguo: defender o país de um eventual regresso do fascismo, ou usurpar o poder burguês por via violenta. Essa ambiguidade levaria Otelo de novo à prisão, condenado por chefiar as FP-25, um grupo extremista que cometeu vários crimes nos anos 80 e que, segundo o tribunal de Monsanto, não era mais do que uma das secções do Projecto Global.

Otelo cumpriu cinco anos. O país não conseguia manter preso o homem que lhe ofereceu a liberdade, e que, afinal, diz que “foi o 25 de Novembro que restituiu ao país a pureza dos ideais do 25 de Abril”.

https://www.publico.pt/2009/04/24/sociedade/noticia/se-isto-nao-e-um-heroi-1376370