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sábado, 23 de maio de 2009

A noção marxista de povo

ABRIL DE 2006 - 08h25

A noção marxista de povo


por Augusto Buonicore*

Há alguns meses atrás publicamos uma série de artigos sob o título geral de Descobrindo o povo brasileiro. Através deles procuramos apresentar, de maneira sumária, as diversas maneiras que 'a questão do povo brasileiro foi apreendida pelos principais expoentes da nossa inteligência no início do século XX'.




Há alguns meses atrás publicamos uma série de artigos sob o título geral de Descobrindo o povo brasileiro. Através deles procuramos apresentar, de maneira sumária, as diversas maneiras que a questão do povo brasileiro foi apreendida pelos principais expoentes da nossa inteligência no início do século XX. Na verdade o nosso esforço se reduziu a resenhar as obras que tiveram maior influência na construção de uma visão sobre o Brasil e seu povo. Entre elas estavam Os Sertões de Euclides da Cunha, Por que me ufano do meu país de Afonso Celso, Retrato do Brasil de Paulo Prado, Populações meridionais do Brasil de Oliveira Vianna, Casa-Grande e Senzala de Gilberto Freyre e Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda.




Estes autores, a partir das teorias em voga na época (o determinismo geográfico, racial, psicológico e cultural), procuraram descobrir a essência do povo brasileiro, o que o diferenciava dos demais povos do mundo. Para alguns ele era tido como, essencialmente, triste (Paulo Prado), para outros um povo de índole alegre (Gilberto Freyre). Uns o viam como cordial (Sérgio Buarque) e lhe outorgava uma índole pacífica e conciliadora (Afonso Celso) e, também, havia aqueles que, pelo contrário, viam nele (o povo brasileiro) apenas, ou fundamentalmente, brutalidade e intolerância.




Apesar das definições contraditórias e, na maioria das vezes, antagônicas, todos estes autores estavam aprisionados a uma mesma problemática (de fundo idealista). Eles partiam sempre de uma questão: o que é o homem brasileiro? Assim o pressuposto era sempre o mesmo: existiria uma essência em geral que faria do brasileiro aquilo que ele é: triste ou alegre, pacífico ou violento.




Mas, naqueles artigos, ficaram de fora as tentativas pioneiras de interpretações do Brasil realizadas pelos intelectuais marxistas. Na década de 1920 e início da década de 1930 as interpretações marxistas ainda davam seus primeiros passos, embora tenham sido produzidas obras significativas como Agrarismo e Industrialismo (Octávio Brandão - 1926), A caminho da revolução operária e camponesa (Leôncio Basbaum – 1934) e o clássico da historiografia marxista brasileira Evolução Política do Brasil (Caio Prado Jr. - 1933). Ainda na primeira metade do século XX, Caio Prado Jr publicaria Formação do Brasil Contemporâneo – colônia (1942), História Econômica do Brasil (1945). Estas obras representaram um salto de qualidade na tentativa de interpretação do Brasil ao introduzirem um vigoroso instrumento analítico: o materialismo-histórico.




Outro grande historiador, contemporâneo de Caio Prado, foi Nelson Werneck Sodré. Entre os marxistas brasileiros, Sodré é o autor da obra mais ampla e abrangente. Ele escreveu sobre as classes sociais, os militares, os comunistas, a imprensa, a geografia, a cultura brasileira etc.etc. Especificamente sobre a formação política, econômica e social brasileira escreveu, entre outros, Formação Histórica do Brasil (1962), Introdução à Revolução Brasileira (1958), A História da Burguesia Brasileira (1964) e Capitalismo e revolução burguesa no Brasil (1990). Outros autores marxistas também se destacariam a partir da década de 1950, como Clóvis Moura, Paula Beiguelman, Fernando Novaes, Ciro Flamarion Cardoso e Jacob Gorender.




Em relação ao debate sobre a definição de povo brasileiro, o que os difere dos demais é que eles não buscaram descobrir um caráter nacional dos brasileiros. Ou seja, não procuraram as supostas características genéticas, psicológicas ou culturais, através das quais pudessem construir uma definição de povo brasileiro.




Para os marxistas o povo brasileiro não seria uma determinação do clima, da raça ou mesmo da cultura trazidas pelas três raças formadoras (portuguesa, africana e indígena). Não existiria nele uma essência geral, a-histórica. A sociedade – e, por conseguinte, o povo brasileiro – seria o resultado do processo complexo e contraditório da nossa formação econômica, político e social. Como esses diversos fatores que compõem uma sociedade estão em constante desenvolvimento, o povo também não pode ser considerado uma realidade estanque.




As contribuições dos marxistas foram, em primeiro lugar, negar a existência de uma essência geral do povo brasileiro – e, por sinal, em qualquer outro povo no mundo; em segundo lugar, constatar que o povo não forma um todo homogêneo e está dividido em classes, frações de classe e categorias sociais em constante disputa. A existência das classes e da luta entre elas impõe dificuldades às teses idealistas sobre o caráter nacional de um povo. Estas tendem pensar o povo de maneira homogênea, sem contradições significativas. É justamente aqui que reside a diferença entre as interpretações burguesa e comunista.



Para os marxistas nenhum povo é, essencialmente, alegre ou triste, teórico ou prático, organizado ou desorganizado. E, principalmente, nenhum povo é melhor ou pior do que outro. Embora em determinadas fases históricas possa predominar esta ou aquela característica psicológica, nesta ou naquela classe, fração ou categoria social. Sabemos, por exemplo, que um sentimento de impotência – apatia e desânimo – pode atingir o conjunto das classes populares depois de uma derrota política de envergadura.



A noção de povo em Marx, Engels e Lênin




Veremos agora como os clássicos do marxismo – Marx, Engels e Lênin – definiram o povo. Em primeiro lugar é preciso notar que, de maneira geral, eles buscaram fugir da problemática do caráter nacional.




Digo de maneira geral, pois os dois primeiros autores chegaram, especialmente, durante a juventude a flertar com teses essencialistas e, mesmo na maturidade, em alguns textos, a fazer afirmações que demonstravam a permanência daquelas idéias. Mas acredito que quando se expressam ainda dessa maneira em plena maturidade, eles o fazem de maneira mais ou menos livre, sem qualquer preocupação conceitual, estritamente científica. Por sinal, essas são as passagens mais problemáticas da vasta produção intelectual de Marx e Engels.




O abandono – ou secundarização - da problemática do caráter nacional não se deu devido ao pouco conhecimento desses autores em relação à psicologia, antropologia e sociologia modernas, pois eles eram profundos conhecedores da ciência de seu tempo. A principal razão é que ela era destoante – e entravam em choque – com a nova problemática inaugurada com o materialismo-histórico. Os determinismos, predominantes no final do século XIX, assentados na supervalorização da raça, meio geográfico, dos aspectos culturais e psicológicos, são substituídos pela dinâmica instituída na relação entre forças produtivas e relações de produção, entre infra-estrutura e superestrutura e entre os diversos ramos da superestrutura: ideológico e jurídico-política.




Vejamos, então, como Marx e Engels definiam a noção de povo. No seu famoso Contribuição à Crítica da Economia Política, na passagem que trata especificamente do método, Marx afirma: A população é uma abstração se desprezarmos, por exemplo, as classes que se compõe (...) Assim, se começássemos pela população teríamos uma visão caótica do todo, e através de uma determinação mais precisa, através de uma análise, chegaríamos a conceitos cada vez mais simples; do concreto figurado passaríamos a conceitos mais simples. Partindo daqui, seria necessário caminhar em sentido contrário até chegar finalmente de novo à população, que não seria, desta vez, a representação caótica de um todo, mas uma rica totalidade de determinações e de relações numerosas. O mesmo método que permite construir um conceito mais preciso - e mais rico - de população, permitirá também aos marxistas construir um conceito mais preciso e rico de povo.




No entanto, foi nas chamadas obras históricas que Marx e Engels mais se preocuparam em apresentar uma noção do que seja o povo. Em As lutas de classe em França Marx escreveu: No dia 4 de maio reuniu-se a Assembléia Nacional saída das eleições diretas. O sufrágio universal não possuía o poder mágico que os republicanos da velha-guarda acreditavam que tinha. Em toda a França, pelo menos na maioria dos franceses, viam eles cidadãos com os mesmos interesses, o mesmo discernimento, etc. Era este o seu culto do povo. Em vez deste povo imaginário, as eleições francesas trouxeram à luz do dia o povo real; isto é, os representantes das diferentes classes em que ele se divide.




Poucos anos depois desta vez em O Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte, Marx escreveu: o democrata, por representar a pequena burguesia, ou seja, uma classe de transição na qual os interesses de duas classes perdem simultaneamente suas arestas, imagina estar acima dos antagonismos de classes em geral. Os democratas admitem que se defrontam com uma classe privilegiada mas eles, com todo o resto da nação, constituem o povo. O que eles representam é o direito do povo; o que interessa a eles é o interesse do povo. Por isso, quando um conflito está iminente, não precisam analisar os interesses e as posições das diferentes classes. (...) Tem apenas que dar o sinal e o povo, com todos os seus inexauríveis recursos, cairá sobre os opressores. Mas se na prática seus interesses mostram-se sem interesse e sua potência, impotência, então ou a culpa cabe aos sofistas perniciosos, que dividem o povo indivisível em diferentes campos hostis, ou o exército estava por demais embrutecido e cego para compreender que os puros objetivos da democracia são o que há de melhor para ele, ou tudo fracassou devido a um detalhe na execução, ou então um imprevisto estragou desta vez a partida.




Embora em algumas passagens a noção de povo se confunda com o conceito de população, no geral, são tratados como coisas distintas. População é o conjunto de habitantes de um país e, assim, congrega todas às classes sem exceção. Povo representa apenas parte da população – a maior parte – mas também se divide em classes.




Então, quais as classes que compunham o povo, segundo Marx e Engels? Esta pergunta não pode ser respondida de maneira abstrata, fora da história de luta de classes. A definição de povo, segundo eles, dependeria da época e do lugar. Engels, escrevendo na Nova Gazeta Renana e em meio da revolução alemã de 1848-1849, afirmaria: A grande burguesia, anti-revolucionária desde o começo, fez uma aliança defensiva com a reação por temer o povo, isto é, os operários e a burguesia democrática. Quando fala em burguesia democrática- em contraposição a grande burguesia - possivelmente esteja se referindo aos camponeses proprietários, a pequena e a média burguesia urbana. Este era o povo alemão em 1848.




Talvez, alguns meses antes, Marx e Engels não recusassem incluir parte da grande burguesia na sua noção de povo alemão. A burguesia prussiana, escreveu Marx em A burguesia e a contra-revolução, não era, como a burguesia francesa de 1789, a classe que (...) encarnava toda sociedade moderna. Ela havia decaído ao nível de uma espécie de casta, tanto hostil à Coroa como ao povo, querelando contra ambos (....) estava disposta desde o início a trair o povo e ao compromisso com o representante coroado da velha sociedade, pois ela mesma pertencia à velha sociedade; representando não os interesses de uma sociedade nova contra uma sociedade velha, mas interesses renovados no interior de uma sociedade envelhecida. A burguesia entrou na revolução ainda pertencendo ao povo alemão, mas em algum momento ela se separou dele e se transformou em não-povo e depois em anti-povo.




Mais de 50 anos depois um outro revolucionário marxista seguiria na mesma trilha aberta por Marx e Engels e se utilizaria da mesma noção. A social democracia lutou e luta, com todo o direito, contra o abuso democrático-burguês da palavra ‘povo’. Exige que com essa palavra não seja encoberta a incompreensão dos antagonismos de classe no seio do povo (...) Porém, divide o povo em classes não com o objetivo que a classe de vanguarda se encerre em si mesma, se limite com uma perspectiva estreita (...) divide o povo em classes para que a classe de vanguarda (...) lute com maior energia, com maior entusiasmo, pela causa de todo o povo, e à frente do mesmo, escreveu Lênin em As duas táticas da social-democracia na Revolução Democrática.




Continuou ele: Vejamos agora quais as classes que podiam e deviam, na opinião de Marx, realizar esta tarefa – aplicar na prática, consequentemente, o princípio da soberania do povo, e repelir os ataques da contra-revolução. Marx fala do povo. Porém nós sabemos que ele sempre lutou impiedosamente contra a ilusão pequeno-burguesa da unidade do povo, da ausência da luta de classes no seio do povo. Ao empregar a palavra povo, Marx não ocultava sob esta palavra a diferença de classes; o que ele fazia era unificar determinados elementos capazes de levar a revolução até o fim. Então a noção de povo estava ligada diretamente às forças sociais interessadas em realizar as tarefas da revolução democrático-burguesa num primeiro momento e socialista num segundo.




Por fim, fiquemos com uma definição do líder comunista chinês Mao Tse-Tung, exposta no seu clássico Justa solução das contradições no seio do povo. O conceito de povo, escreveu ele, toma sentidos diferentes conforme os países e períodos distintos da história de cada país. Tomemos o nosso próprio país como exemplo. Durante a Guerra de Resistência contra o Japão, todas as classes, todas as camadas e todos os grupos sociais que participaram na luta de resistência contra a agressão japonesa pertenciam ao povo, enquanto (...) os chineses traidores à sua própria pátria e os elementos pró-japoneses pertenciam a categoria de inimigos do povo (...) Na etapa atual, período de construção do socialismo, todas as classes, camadas e grupos sociais entram na categoria de povo, enquanto que todas as forças e grupos sociais que resistem à revolução socialista e hostilizam ou sabotam a edificação socialista são os inimigos do povo.




O dicionário de filosofia, organizado pelos soviéticos Rosental e Iudin, afirma que num sentido rigorosamente científico povo seria uma comunidade de pessoas, que se modifica historicamente, formada pela parte da população, camadas e classes, que pela sua situação objetiva estão em condições de participar conjuntamente na resolução dos problemas concernentes ao desenvolvimento revolucionário, progressista, de um dado país, num dado período. Continua: Constitui um critério fundamentalíssimo para se reconhecer se um determinado grupo da população faz parte do povo, ver o seu interesse e capacidade, objetivamente condicionado, para participar das tarefas do progresso. No decurso do desenvolvimento social (...) mudam as tarefas objetivas da revolução (...) pelo que também se modifica, inevitavelmente, a composição social das camadas que, em dada fase, representam o povo. A diferenciação entre povo e população apareceria com a divisão da sociedade em classes e desapareceria com ela. Só quando acaba a exploração do homem pelo homem, na sociedade socialista, de novo o conceito de povo abrange toda a população.




O historiador Nelson Werneck Sodré incorporaria esta noção em seus trabalhos e buscaria, através dela, entender mais e melhor a história de nosso país. O seu ensaio intitulado Quem é o povo no Brasil?, no qual expõe de maneira mais sistemática (e didática) sua posição, foi publicado pela primeira vez em 1962 na coleção Cadernos do Povo Brasileiro da Editora Civilização Brasileira.




No próximo artigo veremos como os marxistas brasileiros, especialmente Sodré e Caio Prado, buscaram as chaves para desvendar o problema da formação do povo brasileiro e as virtudes e vicissitudes dessas tentativas pioneiras.





Bibliografia



Lênin, V. I. - As Duas Tática da Social-democracia na Revolução Democrática, Editora Livramento, S.P,. s/d
Marx, Karl - Contribuição à Crítica da Economia Política. Ed. Martins Fontes, S.P., 1983

--------------- As lutas de classe em França, Edições Avante! Lisboa, 1984


--------------- O Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte, Edições Avante!, 1984


Rosental M. e Iudin, P. F. (org.) - Dicionário Filosófico – verbete Povo – Editorial Estampa, Lisboa, 1977


Sodré, Nelson Werneck – Quem é o povo no Brasil? in Introdução à Revolução Brasileira, Ed. Civilização Brasileira, 3ª edição, RJ., 1967


Tse-Tung, Mao - Justa solução das contradições no seio do povo














*Augusto Buonicore, Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.


quarta-feira, 9 de abril de 2008

Ciganos: os intocáveis

História do Tarô: Ciganos

O baralho chamado "cigano"] [Galeria de arte sobre ciganos]

Ciganos: os intocáveis
Compilado de Conhecer,
vol. IX, pág. 2064. Abril Cultural, SP
e Folha Enciclopédia, na web
Cigano quer dizer "intocável". Vem do grego athinganoi, que se transformou em atsigan e tsigane. E reflete a relativa incomunicabilidade que existiu entre esse povo e os demais. Na Espanha, seu nome é gitano, resquício da crença em sua origem egípcia (gitano vem de egiptano), o que também acontece com a denominação húngara de Faraonemtség, que quer dizer raça do faraó. A crença foi disseminada pelos próprios ciganos, que, ao chegarem à Europa, se apresentavam como nobres egípcios. Mas, na verdade, os ciganos têm ascendência hindu.

Semelhanças indicam a origem


Ruppa, em prakiti (dialeto hindu da casta Domba), significa prata. Rup, em romany (língua cigana), quer dizer a mesma coisa.
A coincidência ocorre entre muitas outras palavras das linguas prakiti e romany. Inclusive Roma, que os ciganos usam para nomear-se, é muito parecido com Domba, nome da casta hindu.
Não haveria parentesco entre os dois povos?
O costume das danças e do canto, a estatura média, a cor morena, os cabelos e olhos negros são comuns aos dois povos.
Todos esses indícios respondem de modo afirmativo à interrogação.



Die Zigeunerin
tela do pintor holandês Frans Hals (1626)



Migração

O ramo Domba (que se transformaria nos ciganos) deslocou-se do centro da Índia para noroeste, no século I a.C. Quatro séculos depois, migrava novamente, dessa vez para oeste, em direção a Pérsia. Lá permaneceu até a invasão mongol, verificada no século XIII.


Então, dividiu-se em dois grupos, dos quais um rumou para a Grécia, através da Armênia, e o outro para a Síria, a Palestina e o Egito. Os primeiros acabaram por atravessar o Danúbio, quando os turcos invadiram a Europa Oriental (século XIV). A partir de então, até por volta de 1460, difundiram-se pela Hungria, Áustria, Boêmia (parte da atual Checoslováquia), Hamburgo (atual Alemanha), França e Suíça

Apesar de se declararem nobres, eram escravizados assim que chegavam a esses países. Só a partir de 1496 puderam usufruir de alguma liberdade. O primeiro a favorecê-los foi Vladislau II, rei da Hungria, que lhes concedeu livre trânsito em território húngaro.



Grupo cigano na Transilvânia

http://www.depts.washington.edu/ - (c) University of Washington

Reações e perseguições

Da segunda metade do século XVI em diante, as coisas ficaram piores: começou a perseguição aos ciganos, primeiro movida pelos camponeses, depois pelos prefeitos das cidades e até pelos reis. No Ducado de Milão, em 1663, foi publicado um édito que proibia a entrada dos ciganos nos domínios milaneses, sob pena de sete anos de cárcere para os homens e de uma orelha cortada para as mulheres. Maria Teresa, da Áustria, em 1768 tornou ilegal a permanência de ciganos em seu país a menos que eles morassem em casas, trajassem à maneira dos camponeses e trabalhassem em ofícios definidos. Mas nem em Milão, nem na Áustria, nem no resto da Europa eles mudaram seu modo de vida.
A América e a Austrália só os receberam na segunda metade do século XX.
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Usos e costumes

Tradicionalmente, os ciganos levam vida nômade, deslocando-se em grupos de tamanhos diversos, compostos por um conjunto de núcleos familiares mais ou menos extensos, sob a liderança de um chefe vitalício escolhido.
A maioria dos ciganos, até poucas décadas atrás, ainda formavam caravanas puxadas por cavalos; abrigavam-se em tendas, pedreiras e minas. Em fogueira, ao ar livre, cozinhavam seus frangos, ovos e vegetais. Seus alimentos, afirmam os comentaristas mais críticos, eram "quase sempre roubados, já que eles não plantam, nem criam animais para o abate". "Sua profissão é a mentira", diz Cervantes. "Mas há uma lei cigana que proíbe roubar... alguém mais pobre."
Viviam principalmente da criação e comércio de cavalos, do artesanato em metal, vime e madeira, e das artes divinatórias, como cartomancia e quiromancia. A música dos ciganos, executada em público apenas pelos homens, permanece muito popular e é uma atividade rendosa na Europa Central.



Cigano de "ontem"
Primeira metade do sec. XX - França

www.casadei.fr





Violinista cigano
República Tcheca

www.slunceveskle.com


Não abandonam a quiromancia, embora professem a religião dominante no país em que se instalam. As adivinhações têm terminologia própria e algumas vezes utilizam as cartas como acessório. Através dos ciganos, o baralho (tarot) foi difundido pela Europa. Assimilam facilmente as artes do lugar onde habitam, em especial a música e as danças folclóricas. Interpretam-nas com um estilo próprio, que inclui o uso do violino, seu instrumento por excelência.
Cada grupo tem um chefe natural, escolhido, não-hereditário.
Na família, o membro central é a mãe, que exerce autoridade sobre os filhos e é dona do patrimônio.
O mesmo sistema se aplica à tribo, que tem uma mãe tribal, a puri dai, guardiã do código moral. Os infratores são julgados por um júri de "condes". E, nos casos mais graves, a pena é o banimento da tribo.
Alguns estudos dão nuances diferentes da organização social dos ciganos, possivelmente em razão da diversidade dos grupos estudados. Quanto à posição das mulheres dizem que "segundo os costumes ciganos, as mulheres devem subserviência aos homens, e as mulheres casadas sempre usam um lenço para cobrir a cabeça".
A questão política

Várias foram as tentativas de agrupar os ciganos sob o poder de um só governante. Uma delas foi o aparecimento da dinastia Kwick, inaugurada por Gregory Kwick, cigano polonês que, por volta de 1883, se declarou "rei dos ciganos". Durante seu reinado, realizou-se, em 1909, o único recenseamento cigano de que se tem notícia; o censo informou que havia então na Europa 600 mil ciganos. Gregory abdicou em 1930 em favor de seu filho Michael II, que, após sete anos de governo, foi sucedido por Janusz I. Este proclamou-se administrador dos ciganos da Hungria, Espanha, Alemanha, Bulgária, Iugoslávia e Polônia. Planejou ir a Genebra reivindicar um país para seu povo, mas o projeto foi vetado por uma assembléia cigana. Seu "reinado" durou apenas um ano. Sucedeu-o Mathew Kwick, do qual não se tem maiores notícias.


Wagon - carro que muitos ciganos adotam a partir de meados do séc. XIX

Do acervo da Universidades de Liverpool
http://sca.lib.liv.ac.uk/collections/gypsy/wagons.htm


Em 1933, foi cogitada, sem êxito, a possibilidade de agrupar todos os ciganos do mundo (aproximadamente 2 milhões) nas ilhas da Polinésia, com subvenção da Liga das Nações. A idéia não se concretizou. Pouco depois, eclodiu a II Guerra Mundial (1939) e cerca de 20 mil ciganos foram exterminados nos campos de concentração.
Os regimes comunistas da Europa Oriental do pós-guerra forçaram os ciganos a se fixarem em cidades industriais e residirem em grandes edifícios de apartamentos, desmembrando os grupos familiares extensos e obrigando-os a trabalhar em fábricas, fazendo-os abandonar o modo de vida tradicional.
Os governos pós-comunistas mais recentes permitiram aos ciganos que se organizassem politicamente para encontrar os meios de reivindicar seus direitos como minoria étnica.
Formaram-se associações e grupos de pressão, como é o caso dos phralip (em romani, "irmandade") da Hungria, para lutar por escolas especiais e adoção de livros pedagógicos na língua romani. A grande maioria do povo cigano, ainda enfrenta discriminação social, está sujeita a más condições habitacionais, desemprego e expectativa de vida mais baixa que a de seus compatriotas.



Cigana de Babadag - Romênia

Foto de R. V. Bulck
www.pbase.com


Hoje, eles estão espalhados em quase todo o mundo. E alguns relatos dão conta da inevitável mudança de costumes. "Cigano dos Estados Unidos não viaja mais de carroça: usa trailer motorizado; nem prepara mais sua refeição: come enlatados."
Na União Soviética e na Iugoslávia, são publicados jornais em língua cigana. A Sociedade Cigana Lore, na Inglaterra, preocupa-se em recolher todas as informações possíveis sobre esse povo. A biblioteca da Universidade de Liverpool, também na Inglaterra, tem em seu acervo um conjunto de livros sobre os ciganos. Assim, esse povo se torna cada vez menos estranho aos demais.

Compilação e editoração:
Constantino K. Riemma

À descoberta da Cultura e do Povo Ciganos

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Partida Ideias e Materiais


Ver@o 2003 Ciganos

Oitava Semana do NetPaper - 25 a 29 de Agosto

Participa preenchendo o seguinte formulário.

Não te esqueças que deverás fazê-lo diariamente, preenchendo e enviando o formulário para cada uma das etapas!

os participantes que já estão inscritos!

Vamos começar?

Então, Lachi Bar!!! Ou seja, Boa Sorte! (em romani - a língua cigana)

Ciganos ou gypsies ou zíngaros ou gitanos... será que os conhecemos?! Ou será que as nossas representações estão replectas de enganos? A verdade é que as comunidades ciganas não são todas iguais quer do ponto de vista linguístico quer dos pontos de vista económico, cultural e social, ainda que tenham bastantes semelhanças...

Etapa 1

25 de Agosto

1 - Os ciganos surgiram há mais de 3000 anos no Norte da Índia. A partir do século XII, este povo distribuiu-se por toda a Europa através do Vale do Danúbio, assimilando os costumes húngaros. Nos dias de hoje, existem aproximadamente 12 milhões de ciganos em todo o mundo, ainda que se concentrem, sobretudo, nos Balcãs, na Europa Central e em algumas repúblicas na ex-União Soviética.

A tua missão é: descobrir o nome dos clãs ciganos oriundos da Península Ibérica, da Turquia, da ex-Jugoslávia, da Rússia e da Roménia.

Pista: História do Povo Cigano

2 - A língua cigana (o romani) é uma língua da família indo-europeia. Trata-se de uma língua ágrafa, isto é, de uma língua sem forma escrita cuja transmissão se faz oralmente de pais para filhos. O hábito de a falar tem vindo a perder-se uma vez que os ciganos vão assimilando as línguas dos países por onde passam.

A tua missão é: descobrir o que querem dizer as palavras Calim, Calon, Gadjó, Ron e Runin.

Pista: http://www.geocities.com/k_guimaraes_br/ciganos6.html

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Etapa 2

26 de Agosto

1 - As influências da música e da dança cigana remontam às origens do povo cigano, ainda que as mais marcantes sejam as influências húngara e, sobretudo, espanhola (andaluz). Palmas, energéticos bater de pés, sentimentos, emoções e instintos eis o que acompanha a generalidade dos ritmos ciganos, levando-nos a crer que o povo cigano já nasceu com a música e com a dança na alma.

A tua missão é: descobrir o nome dos sete instrumentos musicais que, em regra, acompanham as danças ciganas.

Pista: Portal Jovem; os costumes.

2 – Para o povo cigano, a dança serve para transmitir as suas emoções: dançam quando celebram um casamento ou um nascimento; dançam quando estão tristes, enfim, dançam sempre que lhes apetece...Quando dançam, e consoante o seu país de origem, as mulheres ciganas costumam segurar leques ou pandeiros ornamentados ou encharpes.

A tua missão é: descobrir o que significam estes três objectos para o povo cigano.

Pista: http://www.ciganojohan.hpg.ig.com.br/danca.htm

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Etapa 3

27 de Agosto

1 - O casamento é um compromisso/ritual de honra para o povo cigano. Porém, há diferenças entre os homens e as mulheres. Um homem cigano pode casar com uma mulher não cigana, desde que ela se submeta às regras e tradições ciganas, mas uma mulher cigana já só pode casar com um homem da sua etnia...

A tua missão é: descobrir o que é que os convidados homens fazem durante a festa de casamento e onde é que são guardadas as ofertas, segundo a tradição.

Pista: : Portal Jovem ; as tradições – casamento

2 – A família é sagrada para o povo cigano: a ela compete manter os laços afectivos assim como assegurar que a tradição não se perca.

A tua missão é: descobrir o que é que uma cigana faz quando o marido morre e o que é que os familiares fazem por essa ocasião se viverem na casa do morto.

Pista: http://www.deb.min-edu.pt/revista/revista5/ciganos/fich8.htm

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Etapa 4

28 de Agosto

1 Santa Sara Kali é a santa padroeira do povo cigano cujo santuário se localiza na Igreja de Notre Dame de La Mer, na cidade de Saint-Marie-de-La-Mer, no sul da França. Todos os anos, nos dias 24 e 25 de Maio, ciganos de todo o mundo dirigem-se a este local e prestam-lhe homenagem em ambiente de peregrinação e festa. Entre outras coisas, atribui-se a esta santa o poder de proteger as ciganas que querem ser mães e os partos difíceis.

A tua missão é: descobrir o que é que na Slava (promessas ou comemorações em honra da Santa) é posto numa bandeja cheia de arroz cru para atrair a saúde e a prosperidade, bem como descobrir as palavras (em romani) que se costumam dizer por esta ocasião.

Pistas: http://www.magiacigana.hpg.ig.com.br/tenda.htm; tenda de Santa Sara Kali

2 – Quem disse que nas comunidades ciganas não existem poetas?

A tua missão é: descobrir o que é que basta ao povo cigano , segundo o poeta cigano Spatzo.

Pistas: http://www.dhnet.org.br/sos/ciganos/; coluna da direita; O Vurdon; poesia cigana

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Etapa 5 (última etapa)

29 de Agosto

1 - O Centro de Estudos Multiculturais (CEM), em Lisboa, dedica-se ao estudo e à valorização das culturas da imigração, nomeadamente da cultura cigana. Numa das páginas do seu site, ficamos a saber que foram lançados dois livros sobre a(s) comunidade(s) ciganas que nos ajudam a compreender melhor a sua cultura e modos de vida.

A tua missão é: descobrir o título do primeiro livro que aparece na página.

Pista: http://www.multiculturas.com/cultura_cigana.htm

2- O Projecto Nómada é uma iniciativa do Instituto das Comunidades Educativas (ICE) cujo objectivo é combater a exclusão escolar, social e cultural das comunidades ciganas em 12 concelhos do sul de Portugal.

A tua missão é: descobrir o provérbio cigano que se encontra na sua página principal e a mensagem que nos deixa o sociólogo Boaventura Sousa Santos.

Pista: http://www.ice.web.pt/nomada/index.html

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E, pronto, chegaste ao fim da Rota da Diversidade!

Esperamos que te tenhas divertido e que cumpras a tua grande missão: a (re)descoberta do Outro!!!

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