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domingo, 4 de agosto de 2024

Onofre Varela - O abalar ou o espevitar da consciência



A LIBERDADE QUE ABRIL NOS DEU - A ovelha Dolly e o mito da Eva


* Onofre Varela

No dia 1 Abril de 1997 publiquei no Jornal de Notícias (JN) um texto interrogativo e bem humorado sobre a clonagem da Ovelha Dolly. (Não era uma “mentira de Abril”… a data da publicação foi um acaso!).

Recordando: a ovelha Dolly ficou mundialmente conhecida em Fevereiro de 1997 quando se divulgou a sua existência conseguida por experiência científica bem sucedida, de clonar o primeiro mamífero a partir de células da glândula mamária de uma ovelha adulta. Os seus autores foram os biólogos Keith Campbell e Ian Wilmut, do Instituto Roslin, na Escócia.

Aproveitando o facto científico que demonstrava a possibilidade de se conceber um mamífero dispensando o espermatozoide do pai (os homens que se cuidem… as mulheres não precisam de nós para coisa nenhuma… nem para conceberem filhos!), escrevi no JN uma crónica onde dizia que, muito provavelmente, o primeiro clonador teria sido Deus ao fazer Eva a partir de uma costela de Adão. Entendi que a palavra “costela” podia ser um modo de dizer “célula”.

O meu entendimento era lícito naquela linha de a Bíblia ser um poço a transbordar de possíveis entendimentos. Na Bíblia há textos cujas interpretações servem para alimentar todos os gostos e paladares que enformam as variadíssimas religiões e seitas bíblicas… mas também servem os seus críticos que a lêem divorciados de qualquer formato de fé deífica.

Quando o texto foi publicado… lá tornou a cair o Carmo e a Trindade!…

Naquela altura discutia-se na Assembleia da República a Lei da Liberdade Religiosa e o JN dedicava uma página diária ao assunto, entrevistando personalidades ligadas aos vários cultos da panóplia das igrejas estabelecidas em Portugal. O meu texto saiu ao lado do depoimento de um bispo da “Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica”; logo, todos os interessados em Religião o leram.

O director do JN recebeu recados mal dispostos por permitir “a publicação de tamanha enormidade”! (Para melhor informação digo que o texto não lhe passou pelas mãos antes de ser publicado. Entreguei-o ao sub-director, que o aceitou e enviou directamente para a secretaria da Redacção… a partir daí estava implícita a autorização de o publicar).

Aquele lacaio da seita vaticana Opus Dei, que visitava directores de jornais a horas tardias, estava atento e não desarmava… tinha de estuporar o juízo ao director por deixar passar textos que a Igreja não aprova. A mentira bíblica (ou poema) da criação era intocável e não podia ser aflorada fora do entendimento religioso. A Igreja permite-se imaginar ser dona dos textos arqueológicos que fazem a Bíblia, não aceitando – condenando, até – interpretações diversas das suas.

Para além da possível clonagem de que teria resultado a Eva, permiti-me comentar alguns versículos bíblicos, de entre os quais refiro estes: “Quem violar uma virgem obriga-se a desposá-la”, “Os estrangeiros, as viúvas e os orfãos devem ser respeitados” (Êxodo: 22, 16-20). Isto são conselhos de um deus, ou de um sociólogo?;

“Todos os que toquem as roupas daqueles que têm ferimentos que libertem fluxos, devem lavar-se”. “Homem e mulher, depois de copularem, devem lavar-se. Lavar-se-á também a roupa suja com sémen”, “A mulher menstruada guardará sete dias sem relações sexuais” (Levítico: 15, 2-19). Isto são conselhos de um deus ou de um técnico de saúde?;

“Não oprimirás o teu próximo nem o roubarás. Do mesmo modo não reterás o pagamento devido ao teu empregado” (Levítico: 19-13). Isto é conselho de um deus ou de um legislador? Quantos empregadores nós conhecemos que papam missas e não pagam devidamente, nem no dia certo, aos seus empregados?!

Neste caso de “censura à posteriori”, a minha opinião foi publicada e lida, permitindo a cada leitor fazer a sua própria interpretação do meu texto… e os desmiolados censores que apenas provam a nulidade das suas existências, não puderam retirar as prosas do jornal, onde permanecerão para a posteridade no arquivo das bibliotecas. 

1 Abril de 1997  / agosto 04, 2024

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico)


https://ponteeuropa.blogspot.com/2024/08/a-liberdade-que-abril-nos-deu-o-velha.html

sábado, 22 de maio de 2021

António Sousa Homem - Começar pelo fim

* António Sousa Homem 

SÁBADO, JANEIRO 14, 2006

Dobrei já aquilo que se chama a idade do século. O mundo não tem para mim, hoje, passados oitenta e quatro anos, menos segredos do que quando o senhor general Craveiro Lopes foi apeado da Presidência. Há quem pense que a idade é uma vantagem. Seguramente não é. Com o tempo vamos ficando maduros e tranquilos; mas com a idade vamos apenas reparando nos defeitos dos outros e quase nunca nos nossos. Reparo que os meus sobrinhos espremem a pasta dentífrica pelo meio e não pela base. Dou-me conta das mudanças de estação quando os pinhais de Moledo mudam de cor. A velocidade das coisas não me interessa, há muito que me conformei com a sua passagem e a ideia, vulgar e triste, de que há coisas novas para experimentar.

Sou um conservador, um botânico e um velho. Até como botânico sou conservador, reservando sempre o mesmo espaço para as begónias – que me lembram Júlio Diniz e “Uma Família Inglesa” – e o mesmo enlevo para os hibiscos. A velha casa de Moledo, onde a família passa os domingos e, episodicamente, os finais de semana, não acolhe memórias de um século; alberga apenas a poeira de oitenta e quatro anos assinalados, religiosamente, em Dezembro de cada ano e anunciados à família como um avanço na conservação da espécie. Tenho uma biblioteca razoável, mantida sem esforço e sem ordem. Aprendi com o velho doutor Homem (meu pai), que a abundância de livros não deve fazer-nos pensar na sabedoria mas apenas na vaidade e no prazer. Não na alegria (que raramente se retira deles); antes, no prazer que se retira do silêncio, da contemplação e da pequena vaidade.

Aos oitenta e quatro anos devia interessar-me pelas doenças do meu corpo, já que pouco me interessei pelas do meu país. Aliás, com o tempo e com a idade, simultaneamente, o meu país ficou reduzido ao Minho e ao velho Porto de que recordo amigos desaparecidos, ruas antigas, perfumes de antanho. Gosto de palavras antigas. A minha sobrinha Luísa, alimenta a minha imoderada vaidade literária, feita de clássicos, de romances baratos e de repetições. Também gosto de repetições. Gosto de lugares onde me sento sempre da mesma maneira, de urzes que mantêm a mesma cor, de livros que não mudaram de estante e de bandas de música que tocam marchas incompreensíveis e desafinadas. Hoje, sou um rural. As pessoas razoáveis do meu país, em vez de viverem e envelhecerem tranquilamente no campo, ficaram nas cidades, rodeados de médicos e de novidades como a televisão, a internet e as eleições.

O meu avô e o velho doutor Homem, meu pai, legaram-me uma ideia de felicidade doméstica que já não existe e que eu, o mais velho de seis irmãos e irmãs, devia saber explicar. Mas não sei, essa é a verdade. Era uma felicidade feita de repetições, de moderação e de pouco engenho, contentando-se com o facto de haver Inverno e de, mais tarde, poder haver Verão. A minha família atravessou os séculos e as convulsões adaptando-se ligeiramente aos factos consumados e tratando a História como um incómodo que era preciso suportar. Fomos miguelistas e mudámos de campo. Fomos indiferentes à República e achámos insuportável o doutor Salazar. A última das revoluções, em 1974, já não nos surpreendeu porque na altura tínhamos aprendido a falar no “curso da História” e no fim dos tempos. Houve uma altura em que me senti vagamente contrariado com o país. Não hoje. Sou apenas um velho homem do Minho, um pouco reaccionário, habituado ao mar de Moledo, à superfície das coisas, às memórias que não se podem mudar, como ter começado estas crónicas pelo fim. Pelos meus oitenta e quatro anos.

in Revista Notícias Sábado - 14 Janeiro 2006
POSTED BY ANTÓNIO SOUSA HOMEM AT 14.1.06

http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2006/01/comear-pelo-fim.html

domingo, 13 de julho de 2014

Maria Adelaide Coelho da Cunha

O escândalo por amor no séc. XX

"Doida não e não!" é o modo de Manuela Gonzaga fazer justiça a uma mulher que trocou o luxo pela paixão

Publicado em 2009-03-03

LILIANA CARVALHO LOPES

Está nas livrarias desde 20 de Fevereiro o sétimo livro de Manuela Gonzaga. "Doida não e não!" é a segunda biografia da escritora e será apresentado no dia 10, no Palácio de São Vicente de Fora, em Lisboa.

Maria Adelaide Coelho da Cunha, herdeira do fundador e co-proprietário do "Diário de Notícias", foi declarada louca e presa num manicómio pela sua ousadia. A 13 de Novembro de 1918, uma mulher rica, de 48 anos, troca a família e toda uma vida de riqueza e bem-estar pelo motorista, de 26, para viver o verdadeiro amor.

Desta vez, não foi a escritora que partiu em busca da história, porque ela caiu-lhe no colo, se assim se pode dizer. "Um dia fui fazer um artigo sobre o palácio de São Vicente e os actuais donos tinham feito pesquisa sobre os anteriores inquilinos e recolhido uma data de documentação. A senhora já tinha lido livros meus e como estava muito interessada na Maria Adelaide e achava que não lhe tinha sido feita justiça, disse que me facultava a documentação que tinha, se eu quisesse. Eu, que não estava nada interessada em fazer uma biografia, porque estou com saudades de romances, mas conhecia um pouco da história (já tinha lido dois livros da Maria Adelaide), não consegui recusar", contou a escritora, ao JN.

No entanto, o que muita gente não sabe é que, a novidade deste livro, é a revelação do que aconteceu depois da libertação do motorista, Manuel Claro. Depois de obter ajuda de Carlos Poiares, um amigo advogado "apaixonado por Maria Adelaide", e de ser contactada por leitores do artigo sobre o palácio, a escritora embarcou definitivamente na investigação. "Fui contactada por Elisa Seara Cardoso Peres, filha dos donos do extinto "Comércio do Porto", que me disse que gostou do artigo, mas que havia um hiato. Disse-me saber o resto da história e que tinha conhecido a Maria Adelaide. Aí, eu já estava completamente apanhada e fui encontrar-me com ela no Porto, onde fui apresentada a uma lenda da arqueologia, Manuela Delgado, que também conheceu a Maria Adelaide e a um sobrinho-bisneto do Manuel Claro", explicou.

A estas pessoas, juntaram-se ainda personalidades de renome do século XX (ver caixa).
O livro é a continuação da apaixonada e cuidada incursão pela História que a romancista, jornalista e investigadora tem vindo a desenvolver. Não sendo uma biografia pura e dura (inicia aos 48 anos), "há no desenrolar do livro alguma referência ao que foi a infância, porque esta mulher não chega aos 48 anos com esta liberdade se não tivesse uma educação privilegiada, os pais, a ligação aos jornais, as viagens que fez, a cultura que tinha", esclareceu.

Quanto a expectativas, a escritora não arrisca. "Não gosto de pensar nesses termos. Neste momento as minhas expectativas foram atingidas: consegui completar este livro e estou tranquila", rematou.

http://www.jn.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=1158498&page=-1

domingo, 24 de março de 2013

Vasco da Gama era "violento e irascível"

 
Livro de historiadora espanhola

Diário de Notícias

por Lusa14 junho 2011134 comentários
Vasco da Gama era "violento e irascível"
O navegador português era "violento, irascível e com muito mau carácter", afirmou à agência Efe a historiadora espanhola Isabel Soler, a propósito do livro "La derrota de Vasco da Gama".

De acordo com o jornal espanhol Publico, o livro é uma tradução para espanhol do documento "Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama", escrito por um tripulante da frota que em 1487 partiu de Lisboa e que empreendeu a expedição à Índia.
A historiadora Isabel Soler, especialista em literatura de viagens do Renascimento, que traduziu o documento e assina o prefácio de "La derrota de Vasco da Gama", traça um retrato pouco simpático do navegador português, mas sublinha que "a viagem portuguesa", os Descobrimentos, foi ao longo de mais de 200 anos "um diálogo e não um monólogo com as culturas" encontradas.
Segundo a historiadora, a expedição de Vasco da Gama supôs "uma ruptura do monopólio" do comércio com o Oriente, dominado pelos italianos, mas o império português foi mais marítimo do que territorial, com excepção do Brasil, onde teve uma presença semelhante à de Espanha no Peru e no México.
Isabel Soler explicou que ao contrário de Cristóvão Colombo, de quem se conhecem os diários de bordo, sobre Vasco da Gama "apenas existe um texto de um biógrafo anónimo, que poderia ser Álvaro Velho", e crónicas de João de Barros ou Damião de Goes. Há ainda "Os Lusíadas", epopeia de Camões sobre "a grande mitificação do navegador português". No entanto, "tanto Vasco [da Gama] como Camões são personagens obscuras que foram manipuladas pela História".
Isabel Soler está actualmente a preparar um livro que "explicará o lado mais ideológico e simbólico da viagem portuguesa'".

http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1877676&seccao=Livros



Biblioteca guarda diário único de Vasco da Gama

Exposição abre hoje com mostra de manuscritos medievais entre outras raridades

Publicado em 2008-10-20

MANUEL VITORINO, LISA SOARES
 
A única cópia quatrocentista do "Diário da Viagem de Vasco da Gama à Índia" é uma das preciosidades expostas na Biblioteca Municipal do Porto. Por lá estão, ainda, manuscritos medievais e o livro "Só" de António Nobre.
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É uma viagem de grande significado histórico e feita de raridades bibliográficas aquela que, a partir de hoje, terá lugar na Biblioteca Pública Municipal do Porto, em S. Lázaro, em cujo edifício trabalhou o bibliotecário e historiador Alexandre Herculano.
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Por entre raridades, códices e manuscritos da Idade Média da "livraria de mão" do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, considerada uma das principais livrarias medievais portuguesas, o visitante é levado a descobrir preciosidades únicas e de incalculável valor patrimonial. Numa das vitrinas estão duas bíblias do século XVIII, mais à frente, um saltério do século XIV (livro de salmos utilizado no culto divino), logo a seguir, manuscritos musicais com coreografias para dança e bailado. "Todas as peças têm um enorme valor artístico", lembra Isabel Santos, directora da biblioteca.
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Em cada passo do percurso a curiosidade aumenta. Na mesma sala iluminada pela história, o olhar fixa-se em mais raridades como, por exemplo, no manuscrito do livro "Só", de António Nobre e, ao lado, na lista de endereços dos amigos do poeta (Gomes Leal, Raul Brandão, Eça de Queirós, Júlio de Matose Oliveira Monteiro) a par de alguns objectos pessoais. No mesmo corredor, uma pausa longa para admirar um dos muitos desenhos da fabulosa colecção de edifícios do Porto de 1833, do arquitecto Joaquim Villanova.
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A meio da viagem lá está o "Diário da Viagem de Vasco da Gama à Índia", 80 páginas, espécie de roteiro do caminho marítimo para o Oriente. "É uma raridade. O livro já esteve em Berlim, por ocasião da exposição Novos Mundos e só saiu de Portugal a título excepcional. Só o valor do seguro rondou oito milhões de euros. É documento único", diz, com orgulho,Isabel Santos.
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Existem outros motivos de interesse nesta exposição singular, como por exemplo, "A Peregrinação", de Fernão Mendes Pinto (1614), o Foral da Cidade do Porto (1517), cujo exemplar pertenceu ao antigo bispo do Porto, D. José Magalhães Avelar, mais livros impressos no Porto, em 1497, pelo impressor Rodrigo Álvares, sem esquecer "A Gazeta", considerado o primeiro periódico português produzido entre 1641 e 1647.
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Antes de ultrapassar a porta de saída, a luz direccionada da vitrina exibe duas preciosas edições de "Os Lusíadas", de Camões, uma das quais, profusamente ilustrada por Emílio Biel e ainda, uma série de desenhos oitocentistas com referências à Foz do Douro. "A exposição divulga, apenas, uma parte dos fundos bibliográficos. O mais difícil não foi expor, antes, seleccionar as preciosidades" conclui.
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A exposição intitula-se "Tesouros da Biblioteca" e insere-se nas comemorações dos 175 anos da instituição. Entretanto, nos claustros, o visitante terá oportunidade de admirar diversas reproduções de iluminuras e códices medievais das várias colecções, bem como imagens de gente ilustre das letras portuenses, como Herculano, António Cruz e Sampaio Bruno.
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Para proporcionar o conhecimento e estudo dos tesouros expostos, os responsáveis da Biblioteca Pública Municipal do Portoorganizaram um calendários de visitas para vários públicos. A mostra poderá ser visitada de segunda a sexta-feira, entre as 14 e as 19,.30 horas até 12 de Dezembro.

http://www.jn.pt/paginainicial/interior.aspx?content_id=1031410&page=-1

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Catherine Clément ~ “Dez mil guitarras”

Viajando nos Livros



Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011

Dez Mil Guitarras, de Catherine Clément

Há livros que nos conquistam, de forma fulminante e até talvez um pouco irracional, por aparências que, como todos sabemos, podem ser enganadoras (quantas vezes estas seduções imediatas não escondem decepções...).
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O meu "caso" com este livro começou pelo título, Dez Mil Guitarras. Quando o li soou-me a poesia, a música, a pintura. Com todas estas artes misturadas, construí logo uma história fabulosa. Claro que não me ia deixar conquistar "ao primeiro título", precisava de provas. Abri na página 13 e li as últimas duas linhas... Fiquei rendida: "Quando o sol se ergueu sobre o campo de batalha, ficaram dez mil guitarras na areia, abandonadas em Alcácer-Quibir."

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Recomendo a quem gosta de histórias fabulosas, cheias de descobertas, viagens, magias e encantamentos.
S.N.
http://leitura-esvn.blogspot.com/2011/02/dez-mil-guitarras-de-catherine-clement.html

JN

D. Sebastião inspira obra de Catherine Clément



Publicado em 2010-10-05

ANA VITÓRIA
 
  
Quando, em 1964, a escritora francesa Catherine Clément visitou, pela primeira vez, Portugal, ficou fascinada pela história do rei D. Sebastião. De tal forma que, de imediato, pensou que um dia haveria de escrever sobre ele. E esse dia chegou, com o romance “Dez mil guitarras”, recentemente lançado em território nacional.
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Autora de uma vasta obra de ensaio e ficção, Catherine Clément confessou, ao JN, que a figura de D. Sebastião desde há muito que a obcecava. “Tudo começou na minha primeira viagem a Lisboa. Tive uma espécie de visão quando visitei o Castelo de São Jorge. Os escritores, como sabe, são, por vezes, pessoas estranhas. Depois, visitei o Palácio da Pena, em Sintra, onde a presença de D.Sebastião é muito forte. Nesse momento, soube que um dia faria um livro com ele. Mas demorou todos estes anos. Guardei D. Sebastião na palma da minha mão até ter oportunidade de escrever sobre ele”.
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Pela primeira vez, em “Dez mil guitarras”, o seu vigésimo romance, a autora serve-se da “ajuda” de um narrador muito especial, um rinoceronte. É através dos curiosos monólogos em que o bicho resgata a memória das suas vivências que se vai desenrolando toda a trama. “É a primeira vez que uso um animal como narrador. Nunca me tinha interessado fazê-lo, mas as pesquisas que fiz levaram-me a isso”.
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Em “Dez mil guitarras” - uma alusão poética aos despojos deixados pelos portugueses em Alcácer Quibir  -, perpassa um leque de curiosas personagens, entre as quais o imperador alquimista  Rodolfo de Habsburgo e a rainha Cristina da Suécia.
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O romance é atravessado por outras figuras, como Filipe II de Espanha, Luís de Camões, a princesa de Éboli e o palafreneiro Pedro da Silva (tratador do rinoceronte), personagem inteiramente saída da imaginação da autora.
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“Pedro é uma personagem inventada. É difícil encontrarem-se nos arquivos documentos sobre o povo. Portanto, tive necessidade de inventar alguém do povo”.
 






Dez Mil Guitarras de Chaterine Clément convida a uma viagem ao tempo de D. Sebastião

11 de Outubro de 2010
A Porto Editora lançou entre nós, o mais recente título da francesa Catherine Clément. Dez Mil Guitarras é a mais recente obra da autora, que nos leva numa viagem à época de D. Sebastião – O Desejado.

Na tradição do romance históricoDez Mil Guitarras, traz-nos a história de D. Sebastião e da batalha de Alcáçer-Quibir, contada na primeira “pessoa” por um bada, que tinha sido trazido da Índia como presente para o rei.
No campo de batalha de Alcáçer-Quibir jazem dez mil guitarras, no decorrer do ano de 1578. D. Sebastião é dado como desaparecido. Estará vivo ou morto? – este é o ponto de partida para a narrativa, que nos leva numa viagem à Europa do fim do século XVI.
A situação portuguesa, os segredos e intrigas das cortes portuguesas e espanholas, o peso da casa de Habsburgo, a violência das guerras religiosas, a demência do Imperador da Áustria e a rebelião da jovem rainha Cristina da Suécia e da sua paixão por Descartes completam o enredo, que nos é desvendado capítulo a capítulo, no estilo cativante e envolvente a que a autora já nos habituou.
Destaque ainda para a capa do livro, que reproduz o desenho da época do famoso rinoceronte, trazido da Índia para as cortes europeias, para diversão dos soberanos e povos ocidentais.
Catherine Clément nasceu em 1939, em Paris, é formada em Filosofia e Antroplogia e autora de obras como A Senhora, Por Amor da ÍndiaA Valsa InacabadaA Rameira do DiaboAs Novas BacantesA Viagem de Théo e o Último Encontro, já editadas entre nós.
O livro tem um preço de venda ao público de 17,50 euros.
Por Clara Inácio

http://canelaehortela.com/dez-mil-guitarras-de-chaterine-clement-convida-a-uma-viagem-ao-tempo-de-d-sebastiao

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Enviado por  em 11/10/2010
Catherine Clément, autora de DEZ MIL GUITARRAS, fala-nos do seu novo romance numa entrevista para o Diário Câmara Clara.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O casaco fofinho - Oscar Mascarenhas



 

O casaco fofinho

2011-01-17

A velhota declina nome completo: «Maria de Fátima da Conceição Pereira.» O candidato, de passagem por Ponte de Lima, experimenta a textura do casaco da idosa: «É... é fofinho», elogia. «Pois é, é fofinho», concorda Maria de Fátima, para logo lhe dizer ao que vinha: «A ver se o Senhor Cavaco me arranjava qualquer coisinha, eu precisava de um bocadinho de reforma...» Alguns riem-se. A mulher olha descoroçoada para o candidato: «Não percebe...»
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Cavaco Silva puxa a mulher por um braço: «Esta é a minha senhora. Esta senhora trabalhou praticamente a vida toda.» Maria de Fátima contrapõe, com voz sumida: «Também eu...» O candidato nem a ouve. Tem uma arenga para despachar, não pode perder a oportunidade: «Sabe qual é a reforma dela? Não chega a 800 euros por mês. Foi professora em Moçambique, em Portugal, mas ainda ninguém descobriu, em Portugal, a reforma da minha mulher. Portanto depende de mim, tenho de trabalhar para ela. Mas como ela está sempre ao meu lado e não atrás, merece a minha ajuda.»
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Maria de Fátima vê assim «indeferido» o seu pedido de ajuda. Pudera! Quem a manda ir 'atrás' - e não 'ao lado' do candidato?...
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É visível que as muitas dúvidas que têm sido levantadas acerca dos negócios de Cavaco Silva o deixaram de asa ferida e este choro sobre a reforma da mulher é o contra-ataque aos que lhe movem a «campanha suja». Mas contra-ataque vesgo e bisonho que não o deixa mais limpo, pelo contrário.
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É pequena a reforma da senhora professora? Há três explicações para isso: ou os professores ganham muito mal - o que não consta; ou a senhora não trabalhou, afinal, «a vida inteira» e está a receber uma fracção proporcional ao tempo de serviço efectivo; ou o cálculo das pensões é um roubo ao trabalhador - coisa que nunca se ouviu Cavaco Silva denunciar em dez anos de primeiro-ministro e cinco de Presidente - mas não percamos a esperança, que ainda falta uma semana de campanha onde vale tudo, até promulgar os cortes salariais de Função Pública e sair à rua a clamar que é uma injustiça, que muitos ricos ficaram de fora!
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Como pode um candidato-presidente, perante uma modesta velhinha que teve a infeliz ingenuidade de lhe pedir ajuda na rua, queixar-se de que a mulher tem uma reforma pequenina - e que tem de ser sustentada por si, porque «merece»? Quantas piscinas municipais de chá precisa um homem destes de beber antes de ser digno do lugar que ocupa?
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Vá-se lá embora em paz, senhora Maria de Fátima. Vai mais aconchegada no seu casaco fofinho do que com as lamúrias do «senhor Cavaco»
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http://www.jn.pt/Opiniao/default.aspx?content_id=1758979&opiniao=Oscar%20Mascarenhas
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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

 

03/12/10

Hoje no «JN»



A Alice recorda Carlos Oliveira
Carlos de Oliveira em quadro de Mário Dionísio
Crónica de Alice Vieira, hoje no JN: - «Recordando Carlos de Oliveira - .
«Quando chega Dezembro, começamos a notar que à mesa familiar falta cada vez mais gente. "Mesa familiar" é, no fundo, a metáfora que usamos para nesta altura abraçarmos um pouco mais os amigos e ficarmos felizes só pelo facto de eles estarem ao nosso lado. Mas ao nosso lado vai havendo cada vez mais lugares vagos. A minha mesa familiar ainda não se habituou às ausências do João Aguiar, da Rosa Lobato de Faria, da Matilde Rosa Araújo, do Raul Solnado, da Mariana Rey Monteiro, todos eles ainda tão dentro de mim.
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Mas, de repente, chega-me uma terrível e inesperada saudade de alguém que há muitos anos desapareceu da minha mesa.
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Tudo por causa de um programa que a RTP2 passou, dedicado aos "Grande livros".
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Naquela noite, o livro era "Uma abelha na chuva", do Carlos de Oliveira.
É um grande romance da nossa literatura e foi bom recordarmos as imagens do filme do Fernando Lopes, e ouvir falar dele (a Laura Soveral e a sua voz incomparável...)
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Mas o que sobretudo me marcou foi o rosto do Carlos de Oliveira - aquele olhar que entrava dentro de nós e nos dizia tudo o que era preciso, aquele sorriso que me recebia sempre, quando eu chegava à sua mesa do "Monte Carlo".
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Ele e o Zé Gomes Ferreira - sempre. Depois, às vezes por lá caíam o Abelaira, o Mário Dionísio, tantos outros.
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Mas o Carlos e o Zé Gomes eram a minha âncora. E foram a minha verdadeira universidade. Eu, 20 e poucos anos, deslumbrada no convívio diário com gente que nunca pensara vir a conhecer.
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E, de repente, quando a revolução de Abril dava os seus primeiros passos, o Carlos de Oliveira morre. De um dia para o outro.
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Nunca perdoei ao destino, e acho que aquela geração mais nova que privou com ele nunca mais se recompôs.
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Fosse o que fosse que fizéssemos ou escrevêssemos, pensávamos sempre: "O que é que o Carlos dirá disto".
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Ele era o rigor, a coerência, a lucidez em estado puro.
Ele era a nossa consciência moral.
Nunca mais tivemos outra.»
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Mário Crespo deixa "JN" e publica crónica censurada




A crónica do jornalista da SIC - "O Fim da Linha" - que não foi publicada hoje no "Jornal de Notícias" por decisão da direcção, sairá em livro já no próximo dia 11. A obra reúne mais de cem crónicas publicadas nos últimos dois anos por Mário Crespo e tem prefácio de Medina Carreira. Leia a crónica censurada no final da notícia e a nota da direcção do "Jornal de Notícias".
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Mário Crespo reagiu de imediato à decisão da direcção do "Jornal de Notícias" de não publicar a sua última crónica, prevista para a edição de hoje do jornal.
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Hoje mesmo, o jornalista e pivô da SIC recebeu a garantia de publicação - já no próximo dia 11 e lançado no Grémio Literário - de um livro, que terá um prefácio de Medina Carreira. onde a crónica censurada - "O Fim da Linha" - "surgirá à cabeça". Ainda hoje, seguirá uma queixa para a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, onde o jornalista requer à ERC que averigue a ingerência governamental em matérias editoriais.
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Com o título "O fim da linha", a crónica de Mário Crespo prevista para hoje no "JN" relatava um almoço mantido entre o primeiro-ministro e os ministros dos Assuntos Parlamentares e da Presidência com um "executivo da televisão", onde se apontava o jornalista da SIC e pivô do Jornal das Nove como "um problema" a resolver".

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                                       "Louco" e "profissionalmente impreparado"


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No referido almoço, os governantes terão ainda considerado que Mário Crespo era "louco" e "profissionalmente impreparado". "Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre", comenta o jornalista na sua coluna de opinião.
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Contactado pelo Expresso, Mário Crespo recusa revelar o nome do "executivo de televisão" presente no almoço, preferindo "salvaguardar a sua identidade, enquanto for possível". No entanto, garante o jornalista, o teor da conversa com José Sócrates, Jorge Lacão e Pedro Silva Pereira "foi confirmado pelo próprio" responsável televisivo, assim como por "duas outras pessoas presentes no restaurante e que ouviram a conversa".
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De acordo com Mário Crespo, só "ontem à meia-noite" foi informado, telefonicamente, pelo director do "JN", José Leite Pereira, de que a sua crónica habitual não seria publicada. "É um privilégio do director que não contesto, mas esclareci de imediato que não escreveria mais para o jornal", disse ao Expresso o jornalista da SIC.
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Lição para os media
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A crónica integral - que poderá ser lida em link que segue no final deste texto - foi hoje de manhã publicada no site do Instituto Sá Carneiro. Mário Crespo garante que "não sabia sequer que esse site existia" e diz desconhecer a forma como o texto lá foi parar. "Apenas enviei, como sempre o fiz, a crónica para as moradas electrónicas do 'JN'", acrescentou ao Expresso.
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Para o jornalista a situação descrita no almoço entre governantes, assim como a recusa na publicação da crónica, é uma situação "grave" e "uma lição para os media em geral de que não é possível censurar".
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Mário Crespo garante ainda que "nunca" tinha sofrido qualquer reparo por parte dos responsáveis editoriais do "JN" sobre o conteúdo das suas crónicas e que foi "surpreendido" pela decisão. No entanto, assume "sentia que estava numa zona de risco".
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                                                       SEGUE-SE O ARTIGO CENSURADO:
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O Fim da Linha  por Mário Crespo

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Dia de Orçamento.

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O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa.
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Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal.
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Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o.
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Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos.
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Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados.
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Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre.
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Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos média como tinha em 2009.
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O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu.
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O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”.
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O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”.
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Foi-se o “problema” que era o Director do Público.
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Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu.
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Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada. Mário Crespo
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.http://www.institutosacarneiro.pt/archive/img/Mario_Crespo_Item.jpg
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In PortugalClub - seg 01-02-2010 21:53
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