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sábado, 11 de março de 2017

Raul Brandão reeditado nos 150 anos do seu nascimento

Raul Brandão reeditado nos 150 anos do seu nascimento
Entre as edições previstas para os próximos meses estão alguns inéditos e um novo volume reunindo as Memórias do grande escritor português.
LUSA 
11 de Março de 2017, 14:39
Foto

Os 150 anos do nascimento de Raul Brandão, que se assinalam este domingo, serão celebrados com a publicação de três obras do escritor, uma delas com textos inéditos. A segunda edição do Festival Húmus, que lhe é totalmente dedicado, também decorre em Guimarães até domingo, assim encerrando o Ano Raul Brandão promovido por aquela autarquia.UB
Nascido no Porto a 12 de Março de 1867, Raul Brandão ficou conhecido por obras como HúmusOs PobresA Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore ou Os Pescadores.

Para assinalar o aniversário do seu nascimento, a editora Ponto de Fuga vai publicar no dia 7 de Abril O pobre de pedir, o último livro que Raul Brandão escreveu e que há mais de 30 anos não era editado. Publicado postumamente, o volume revela um "escritor assombrado pela ideia da morte".
Através da ficção, o autor "faz um balanço da sua vida", explicou à Lusa Vladimiro Nunes, editor da Ponto de Fuga: "Raul Brandão estava muito doente desde 1923. Sabia que a qualquer momento podia morrer e isso ficou muito presente na obra dele", acrescentou. O livro inclui ainda a reprodução de alguns manuscritos do escritor, um texto de enquadramento dos seus últimos meses de vida e um prefácio de João de Melo.
Pela editora E-Primatur, sairá em Maio A Vida e o Sonho – Inéditos, Antologia e Guia de Leitura, organizado por Vasco Rosa. Além de textos nunca antes publicados, inclui uma introdução biográfica e de contexto ao autor e à obra, bem como um guia de leitura. Segundo Hugo Xavier, editor da E-Primatur, será "uma grande antologia de Raul Brandão", cobrindo toda a sua produção, tanto jornalística quanto literária. Além dos inéditos, incluem-se "alguns textos publicados na imprensa da altura e que nunca tinham sido reunidos em livro, como notícias, crónicas e outros", precisou.
Antes, a 24 de Março, a Quetzal lança as Memórias de Raul Brandão. "Publicadas originalmente em três volumes, as Memórias de Raul Brandão constituem um dos exemplos maiores da nossa literatura memorialística", refere a editora.
Raul Brandão é considerado um dos maiores escritores portugueses, embora pouco lido. Segundo os especialistas em literatura Fernando Pinto do Amaral e Helder Macedo, foi "um dos escritores de vanguarda" portugueses que ficaram ensombrados pela presença de Fernando Pessoa no panorama literário da época. 


Raul Brandão já não está disperso

12/03/2013 - 00:00


Raul Brandão e a sua mulher, Maria Angelina, com quem manteve uma grande cumplicidade criativa. Na página seguinte, imagem de O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira DR

Está completa a reunião dos textos dispersos que Raul Brandão escreveu ao longo de mais de 40 anos de produção literária. A Pedra ainda Espera Dar Flor (Quetzal) são 500 páginas, resultado de dez anos de pesquisa de Vasco Rosa
Foram precisos quase dez anos para chegar a estas 500 páginas que reúnem os textos dispersos de Raul Brandão, o escritor português que faria hoje 146 anos e que deixou uma das obras mais diversificadas na história da literatura portuguesa. Jornalismo, romance, viagem, teatro, história e sempre uma atenção ao efeito estético da palavra. "É profundamente injusta a desatenção de que tem sido alvo um autor tão marcante da literatura portuguesa", desabafa ao PÚBLICO Vasco Rosa, o investigador literário e organizador do volume que a Quetzal acaba de lançar com o título A Pedra ainda Espera Dar Flor. "É uma frase dele, um título mágico, perfeito, que é um elogio extraordinário à vida, a vida que custa, e à qual ele sempre esteve muito atento em todas as suas manifestações."
Vasco Rosa não sabe falar de Raul Brandão de forma desapaixonada. Autor de antologias de textos de Alexandre O"Neill e, mais recentemente, de Vitorino Nemésio - em concreto a produção literária publicada pelo escritor açoriano quando tinha 20 anos e a ser editado em breve -, Rosa aponta o dedo à academia que, afirma ele, "não se ocupa com um trabalho de fundo que contemple aqueles que se podem chamar os autores do cânone". "Há um trabalho de interpretação, mas não um trabalho que abrace toda a obra." Foi neste quase vazio que em 2004 se pôs à procura de tudo o que Brandão escreveu e que andava disperso pelos jornais, meio perdido para a leitura, naquele a que chama um trabalho de "arqueologia literária" com o qual quer ajudar a entender a biografia literária do escritor. Como grande auxiliar, apenas Vida e Obra de Raul Brandão, a biografia que em 1979 Guilherme de Castilho dedicou ao homem natural da Foz do Douro, no Porto, que viveu parte da vida numa aldeia chamada Nespereira, em Guimarães, e morreria em Lisboa em 1930. "Não há nada mais recente que possa substituir essa biografia", lamenta o investigador, que desde então já publicou dois livros resultado de uma longa busca por jornais velhos e arquivos microfilmados: Lume sob Cinzas e Paisagens com Figuras (Ambar, 2006).
Os dois títulos são "os pais", como lhe chama, deste A Pedra ainda Espera Dar Flor, a colectânea que culmina a sua investigação brandoniana ("sabe-se lá, à procura de outras coisas ainda posso dar com um texto de Brandão", ri Vasco Rosa), acrescenta 50 "novos textos velhos" e é um exemplo da diversidade de escrita do autor de Húmus (1917) - romance a partir do qual Herberto Helder haveria de construir um poema (Húmus Poema Contínuo) tendo como inspiração palavras, frases, imagens e metáforas usadas por Brandão - ou As Ilhas Desconhecidas, o título publicado em 1926 que resultou de uma viagem feita aos Açores e à Madeira em 1924 e que é considerado um dos mais originais exemplares da escrita de viagem. Uma diversidade não apenas temática, de género ou estilo, mas também geográfica. "Ele publicou em quase todos os jornais, não importa de onde eram, regionais, locais, nacionais." Fez apenas uma pausa. Dez anos em que se dedicou à Seara Nova, um movimento que quis "refundar" e no qual se dedicou quase em exclusivo á investigação histórica.
Coca-bichinhos
Em cerca de 40 publicações, com datas entre 1891 - ano da estreia literária - e 1930 - o ano da morte -, Vasco Rosa encontrou memórias, cartas, crítica literária, esboços de peças de teatro, textos onde se pode encontrar uma proximidade com a reportagem, todos a evidenciarem, por um lado, a atenção à condição humana, mas também um lirismo marcante. "Nele, estas duas características são perfeitamente compatíveis", conclui Vasco Rosa, que fala de um autor difícil de catalogar. "Acho que há uma dificuldade em abordá-lo. Às vezes é muito pesado, muito duro. Veja-se o Húmus. Mas ao mesmo tempo tem aquilo que a literatura deve ter: impacto sobre as pessoas, e esse impacto foi tendo variantes conforme as estéticas de cada leitor e resistiu." Como pôde, acrescenta-se, numa altura em que Brandão volta a ser falado e relido, ainda que quase nunca tenha deixado de ser visto no teatro.
"Não é fácil", nota Vasco Rosa, mas há sempre a descoberta de um "enorme humanismo e isso é muito recompensador", sublinha. Não é fácil também digerir o capítulo a que chamou Lisboa Negra, com textos sobre a dureza da vida na chamada cidade branca. Em Setembro de 1902, escreve para O Dia: "Lisboa, à noite, oferece libertinagens boémias, desperta ao noctâmbulo prazeres de vagabundo e acorda delírios misteriosos de observação flagrante. Sob o clarão do sol, pelos bairros pobres, há máscaras doentias, arrastando-se, tonturas, embriaguez de luz, que pervertem os bustos, derreando-os, e lhes tira a insaciável, perversa ânsia de uivarem a desgraça."
Numa Lisboa diferente, mas com a luz também a escassear, Vasco Rosa fala desse negrume para dizer que Brandão também tem luz, e que o trabalho de recolha de textos não foi depressivo. Ao contrário. Quando muito obsessivo, tal como "Brandão era obsessivo, fosse na descrição de uma paisagem ou na reconstituição da vida numa viela". Diz também que o modo como construiu o livro seguiu os preceitos de Raul Brandão, ou seja: "Na distribuição dos capítulos, tentei ser o máximo possível fiel aos temas fulcrais dele. Tentei jogar o jogo dele para que as pessoas percebam que tudo se encaixa na obra em todos os seus cambiantes. Por exemplo, no capítulo a que chamei A Voz do Homem - que é também uma expressão dele - destaco um texto sobre o sacerdócio católico, escrito numa época em que os padres viviam como banqueiros, de uma maneira totalmente não espiritual. Ele vem dizer que a espiritualidade faz parte da vida."
Como no capítulo Os Pescadores está toda a génese do que viria a ser o livro com o mesmo título, uma relação com o mar muito próxima e sempre presente. Raul Brandão nasceu e cresceu na Foz, já se disse, e, filho "de gente do mar", descreveu a vida de quem partilhava com ele esse universo, "a atracção por essa vastidão", como salienta Vasco Rosa. "Ele foi, de certeza, quem trouxe o mar para a literatura portuguesa nesse sentido, a vida no mar."
Muda de tom quando é para pôr em evidência a relação do escritor com os jovens poetas do Porto, outro capítulo, onde cultiva uma poética que haveria de o contaminar desde o início, desde que escreveu com eles o manifesto Nefelibatas (ou habitantes das nuvens), para definir o simbolismo e o decadentismo. Entre esses poetas estava António Nobre, como Brandão natural da Foz. "O que o impressiona arrepia-lhe a alma até o dolorir - dum arrepio histérico, próprio dos que vivem uma vida interior, a seguir uma Ilusão, curvados. Tudo o fere: é um tímido, sem nada de expansivo, e deve estar mal diante do seu Amigo: a sós respira, e dobrado, a olhar para dentro, vive com o seu sonho", escreve em Só, por António Nobre, uma das crónicas desta colectânea onde fica clara também a admiração por Camilo Castelo Branco num texto que começa de forma imperativa, dirigido aos alunos da então 4.ª classe e que faz parte do Livro de Leitura para as escolas de instrução primária (1903). "Decora este nome. Pertence a um dos maiores escritores do teu país. Poucos, raríssimos como ele, manejaram, nos tempos modernos, a língua portuguesa; nenhum como ele encheu as páginas dos seus livros de tanto riso, de tantas lágrimas."
Numa perspectiva estética colocou-se ao lado de pintores. Escreveu e falou e conviveu de perto com Columbano Bordalo Pinheiro. Não deixou de se irritar com alguma da sua pintura, ele que também pintava, e chegou a comparar a sua escrita a pinceladas. Vasco Rosa pega na ideia e diz que este é um livro onde convergem todas as pinceladas das suas grandes obras.
Durante os mais de 40 anos da produção literária de Brandão são raras as citações, a referência a inspirações, embora seja notória a influência de Dostoiésvki, ou mesmo "de Goya", conforme lembra Vasco Rosa que sublinha, no entanto, a singularidade como grande marca de Brandão, o escritor que viveu "numa época de gigantes" - Eça, Garrett, Camilo. E que se inconformou com o teatro. Primeiro na crítica, depois passando à prática, com a escrita de peças que levavam ao palco o seu olhar sobre uma sociedade "dura para com o homem", uma das quais a meias com Teixeira de Pascoaes, escritor com quem conviveu de perto, e outra recentemente adaptada ao cinema por Manoel de Oliveira, O Gebo e a Sombra, onde mais uma vez é notório o seu questionar dos modos de representar o real. Essa é outra marca de Brandão. "Pegando nesse texto, Oliveira mostrou como se pode falar de uma forma contemporânea de um autor intemporal, injustamente remetido para um plano secundário", salienta o responsável por esta colectânea que não se pretende substituir a nenhuma leitura de Brandão. "Não é esse o objectivo. Apenas o de ajudar a entender um homem e a sua obra, situando-os no seu tempo."



terça-feira, 4 de março de 2014

Raúl Brandão - O Entrudo, in Os Operários



Dia de Entrudo

Domingo, 19 de Fevereiro – Dia de Entrudo 1922

Nunca passei dias tão amargos como estes dias de Entrudo. A pátria vai acabar? Isto vai acabar? Temos diante de nós uma nova revolução e uma intervenção estrangeira?

E os bêbados na rua andam aos tombos. Ouvem-se gritos. Gritos carnavalescos, rugidos de bestas aos vómitos. Domingo de Entrudo. O País acabará entre os vómitos dos bêbados que jogam o Entrudo no meio da rua?

Todo o dia, toda a noite correram boatos. Passei horas com o ouvido à escuta, atento ao primeiro estremeção… Anunciam-se duas, três, quatro revoluções iminentes. Vêm nos jornais: uma, a da Guarda; outra, a dos comunistas; outra…

A atmosfera é de tragédia – e na rua passam bandos, com lantejoulas e um corno enfiado num pau, com cabriolas desengonçadas de palhaços. Viva! Urra! Portugal vai morrer? Portugal vai morrer no Entrudo? Sente-se que isto caminha passo a passo para a agonia.

A Vinda da esquadra inglesa; o acto de ela não embandeirar em 31 de Janeiro, apesar da ida de um oficial da majoria a bordo instar com o comandante, que lhe respondeu. «Tenho ordens do meu governo»; a miséria deste povo; a exploração dos que ganham seja como for, levando-nos o oiro para o estrangeiro (200 milhões). A circulação fiduciária vai ser aumentada; pelo futuro convénio com o Transvaal estamos arriscados a ficar sem Moçambique, segundo afirmou o próprio António Maria daSilva; a prisão dos oficiais é muito melindrosa…

Do Rossio vêm ecos de risadas em coro. O regabofe do Entrudo começou esta noite que vejo aproximar-se com apreensão – mais sobressaltos e mais sangue. Vejo a tragédia imensa caminhar sobre nós, enquanto lá foram estouram as bexigas de porco… Não posso ler, não posso pensar, obsidiado pela mesma ideia fixa…

É a fatalidade? É um conjunto de circunstâncias? Foi a alma humana que se transformou com a guerra?
Todos querem explorar a vida. Contar com quem? Com as forças vivas? As forças vivas é que nos exploram. A agricultura está nas mãos de pessoas tão agiotas como os bancos da Rua do Ouro. Não quer semear trigo – semeia cada vez menos. Transforma as terras de pão em terras de pastos, para vender o gado na Espanha. O operariado? Mas o operariado só faz exigências, e se sente um governo radical, mais exigente se tornará. Os monárquicos? Mas foram os monárquicos que, no tempo de Sidónio, transformaram a Empresa de Navegação no grosso negócio da Companhia de Navegação. A Agência Financial do Rio de Janeiro – que nem se sabe o que meteu nas algibeiras – é outro grande negócio dos monárquicos – e foram os monárquicos que nos empobreceram com o escândalo dos cinquenta milhões de dólares, encarecendo ainda mais a vida e preparando gerações desgraçadas.

A República deixou as companhias majestáticas e os bancos – desde o Ultramarino até ao Banco de Portugal! – nas mãos dos monárquicos. Toda a política nos últimos tempos é feita por eles – toda a história do dinheiro, a grande, a única questão dos interesses, está nas mãos e dependente da oligarquia financeira. Até a opinião. Os jornais, o Diário de Notícias, aPátriaO Século, a Imprensa da Manhã e o próprio Mundo, que de França Borges foi ter a uma dependência do Banco Colonial – tudo manobra segundo as ordens do ouro omnipotente.

Acolá passa um grupo aos uivos. Mais risadas estúpidas… Este grande, este pobre povo, sempre sacrificado, deixando a ossada pelo vasto mundo, irá acabar entra pançadas e vómitos nesta semana trágica do Carnaval?... Poderemos ainda fugir a isto? Poderemos salvar-nos?...

Tudo são negócios – e toda a gente quer enriquecer dum dia para o outro. É uma sofreguidão. Os exploradores da vida estão cada vez mais ásperos ou mais desesperados… Até as quedas de água – em que tanto se tem falado como uma possível remissão – estão hoje nas mãos dos Burnay, que tenta passá-las a uma companhia inglesa…

A população diminui, os organismos mal alimentados depauperam-se. O número de abortos é cada vez maior. De 1919 para cá, acentuaram-se os efeitos da situação económica no número de nascimentos e doentes…

Não estamos à beira do abismo – resvalámos já no abismo. E o coro de risadas aumenta – ouço pum! pum! pum! – e o coro da troça sobe cada vez mais alto.

O tempo está lindo – o tempo é outro escárnio.

Raúl Brandão, Os Operários, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1984.
http://plusultra-bn.blogspot.pt/2012/02/dia-de-entrudo.html

terça-feira, 12 de novembro de 2013

o domingo na poesia segundo vários escritores - 13 - o circo 01

12 de Novembro de 2013 às 16:13

o domingo ... e o circo - 01

* Victor Nogueira - Ah! O circo da minha infância
* Jorge de Lima - VALSA DOS CLOWNS
* José Régio - O circo
* José Saramago - Circo
* Cruz e Sousa - Acrobata da dor
* Aldir Mendes / João Bosco ~ O Bêbado e o Equilibrista
* Raúl Brandão - A morte do palhaço
* Antero de Quental - No circo
* Horacio Ferrer - Soy un circo

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* Victor Nogueira

Ah! O circo da minha infância, dos palhaços, sobretudo o "pobre", e das meninas contorcionistas (estive em menino apaixonado por duas delas, louras), dos/as trapezistas, com ou sem rede, e dos cavalos circundando o redondel. Hoje, hoje os circos são pobres, desfalcados, homens e mulheres de lantejoulas debotadas e dos sete-ofícios pk a crise é grande !

Mas naquele tempo eu queria seguir com o circo a percorrer o mundo. Ilusões, porque é dura a vida do circo, tanto mais quanto mais pobre ele for !  (2012.07.17)


 Em 5 de Abril de 1971 escrevia eu: "Sábado fui com o Jorge ao cinema, ver um filme de desenhos animados com o Asterix. Pois bem, o miúdo pulava e ria-se, enfim, era um espectáculo. Gosto dele, só tenho pena ... que não estude. Tem-me oferecido rebuçados, uma daquelas bolinhas de plástico que saltam muito e até me chegou a pagar o jornal ! Há dias aparece- nos no café [Arcada] todo eufórico. Tinha ganho algum dinheiro e então comprou um cinto com uma espada de plástico, postais, maçãs e ... um copo. Enquanto não mostrou a espada a toda a malta sua conhecida não descansou. Queria também que aceitássemos as maçãs dele e os postais. Quem não gosta da brincadeira é a D.Vitória [Prates, minha hospedeira na Rua do Raimundo]  Um novo desenho existe no meu quarto, mas esse foi oferta dum outro miúdo, o Carlos  (MCG - 1971.04.05)

 Nas minhas deambulações de hoje encontrei a Lídia e o Jorge.  Este andava à procura de dez tostões para o cinema - eu fiz que não percebi a indirecta; informou-me que esteve em Beja a trabalhar no circo e à minha observação sobre a sua magreza retorquiu "É da fome que passo." (e que não está em mim remediar) (MCG - 1972.02.23)

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O Grande Circo Místico é um espetáculo musical brasileiro apresentado em 1983.

Criado originalmente para o Balé Teatro Guaíra, e inspirado no poema homônimo do parnasianista/modernista Jorge de Lima (da obra A Túnica Inconsútil, 1938), o espetáculo foi preparado durante todo o ano de 1982 e estreou em 17 de março de 1983 mesclando música, balé, ópera, circo, teatro  e poesia. 

Tamanho o sucesso, originou uma turnê de dois anos pelo país, assistida por mais de 200 mil pessoas, em quase 200 apresentações. Consagrou umas das mais completas obras já apresentadas no país, lotando o Maracanãzinho e o Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

A trilha sonora foi musicada pela dupla Chico Buarque e Edu Lobo e conta a história do grande amor entre um aristocrata e uma acrobata e a saga da família austríaca proprietária do Grande Circo Knieps, que vagava pelo mundo nas primeiras décadas do século.

VALSA DOS CLOWNS

Em toda canção
O palhaço é um charlatão
Esparrama tanta gargalhada
Da boca pra fora
Dizem que seu coração pintado
Toda tarde de domingo chora
Abra o coração
Do palhaço da canção
Eis que salta outro farrapo humano
E morre na coxia
Dentro de seu coração de pano
Um palhaço alegre se anuncia
A nova atração
Tem um jovem coração
Que apertado por estreito laço
Amanhece partido
Dentro dele sai mais um palhaço
Que é um palhaço com o olhar caído
E esse charlatão
Vai cantar sua canção
Que comove toda a arquibancada
Com tanta agonia
Dentro dele um coração folgado
Cantarola uma outra melodia

Ver os poemas em

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* José Régio

CIRCO

No circo cheio de luz
Há tanto que ver!...
"Senhores!"
-Grita o palhaço da entrada,
Todo listrado de cores-
"Entrai, que não custa nada!
À saída é que se paga..."
..................................
O palhaço entrou em cena,
Ri, cabriola, rebola,
Pega fogo á multidão.
Ri, palhaço!
Corpo de borracha e aço
Rebola como uma bola,
Tem dentro não sei que mola
Que pincha, emperra, uiva, guincha,
Zune, faz rir!
.....................................

     José Régio, As Encruzilhadas de Deus

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* José Saramago

Circo

Poeta não é gente, é bicho coiso
Que da jaula ou gaiola vadiou
E anda pelo mundo às cambalhotas,
Recordadas do circo que inventou.

Estende no chão a capa que o destapa,
Faz do peito tambor, e rufa, salta,
É urso bailarino, mono sábio,
Ave torta de bico e pernalta.

Ao fim toca a charanga do poema,
Caixa, fagote, notas arranhadas,
E porque bicho é, bicho lá fica,
A cantar às estrelas apagadas.

In “Os Poemas Possíveis”
Editorial Caminho

José Saramago
1922 – 2010

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* Cruz e Sousa

Acrobata da Dor

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.



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* Aldir Mendes / João Bosco

O Bêbado e o Equilibrista

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos...
A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil.
Meu Brasil!...
Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil...
Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança...
Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar...
Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar..

Nota - A composição tornou-se um hino contra a ditadura brasileira

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* Raúl Brandão

A Morte do Palhaço

"(...) A Morte do Palhaço se subdivide em cinco capítulos, que podem ser lidos
também isoladamente como contos: I- A casa de hóspedes, que apresenta o Palhaço,
suas péssimas condições de vida, seu medo de se expressar e de viver a realidade, que o
deprime, como deprime também K.; II- Halwain, sobre um colega de trabalho do
Palhaço, um solitário Clown; III- Camélia, outra artista do circo, amada e idealizada
pelo Palhaço; IV- Sonho e Realidade, sobre o amor incorrespondido do Palhaço, vivido
apenas em sonhos; e V- A última farsa, que narra o suicídio do Palhaço. (...)


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 * Antero de Quental

No Circo
(A João de Deus)


Muito longe d'aqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia...
Mas tão longe... que até dizer podia
Que enquanto lá andei, andei sonhando...

Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lúcida a existência amanhecia...
E eu... leve como a luz... até que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando...

Caí e achei-me, de repente, involto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer n'essa hora,
E achei-me de improviso feito fera...
— É assim que rujo entre leões agora!

Antero de Quental, in "Sonetos"

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* Horacio Ferrer

Soy un circo
Tango 1980
Música: Héctor Stamponi
Letra: Horacio Ferrer


(Dicho)
- Damas y caballeros... ¡Música, maestro!
Soy un payaso que no pintó Picasso
y Sarrasani y el Gran Thiany ¡jamás vieron!
No tengo traje de volados, ni rataplán ni galerita
ni botonazos de fulgurante ni regadera.
Sé sólo un chiste mediocre
y mejor no lo supiera: mi vida. ¡Jú, jú, jú!
Soy un payaso y si hace falta
soy el oso, el tony, el pony,
el acomodador, el director de pista,
el dentista del elefante y el tragafuegos.
¿Por qué soy un circo entero?
Porque vos estás tan triste,
amigo del alma. Oí...

(Cantado)
Soy un circo, hermano mío, soy un circo,
secá tu llanto en la melena del león,
después vestite con mi frac de pajaritos
que el Quijote y Buster Keaton
nos esperan en el hall.

En mi circo todo está color relincho,
colgá en los cuernos de la luna tu rencor,
si un gran bolsillo de payaso es el destino
vos entrá, que yo te pinto
de aspirina el machucón.

También la ternura de un bello fracaso
redime en la tragedia griega de vivir.
Como un revolcón de fiera rota
sufre aquel que más amó
y lo revive el propio amor ¡para insistir!

Qué serio me puse, ¡payaso y plomazo!
Se encienden las luces, vení por aquí,
que ya están sentados nuestros invitados
mientras la bandita los recibe así.

(Dicho)
En aquel palco con pinta fina
pero un poco presumidos,
distingo a tus perdones,
¿usan cornetillas para sordos, no es cierto?,
porque perdonan, pero no olvidan.
Veo a tu soledad en la platea.
Tus culpas no han llegado ¿o no tenés?
Y acaban de llenar los tablones de la popular
tus buenos recuerdos, tus lindos amores,
tal vez les des mejores ubicaciones
para las próximas funciones. Tal vez.

(Cantado)
Soy un circo, hermano mío, soy un circo,
se va la noche con su capa de satén
sembrando un mágico alboroto de cariños
al notar que has sonreído
con un poco de niñez.

Y, al final, cuando mi circo esté vacío
la muerte hará su viejo número sin red,
vos temblarás por el milagro de estar vivo,
con el alma en equilibrio
sobre un lirio de papel.

(Dicho)
Y ahora que estás de esperanza
y arriba del trapecio danza
la aurora niña,
¡nada por aquí, nada por allá!

(Cantado)
De pito y voltereta
mi circo ya se va,
con sueños de poeta
y el canto fraternal.

(Dicho)
Adiós, adiós, hermano mío,
adiós, mi circo ya se va,
mi circo ya se va.

Mi circo ¡ya se fue!



vem de o domingo na poesia segundo vários escritores - 12  

continua em o domingo na poesia segundo vários escritores - 14 - o circo 02



Thibon de Libian, 1905 - o circo
Thibon de Libian, 1905 - o circo

botero - circo


botero - circo

Cenas de circo por volta de 1891. Obra do pintor Arturo Michelena.


Cenas de circo por volta de 1891. Obra do pintor Arturo Michelena.

Chagal - El caballo del circo


Chagal - El caballo del circo

Dali - The Fair of The Holy Crossi


Dali - The Fair of The Holy Crossi

Renoir - os meninos do circo


Renoir - os meninos do circo

Ernst-Kirchner-Circus-Rider-1914


Ernst-Kirchner-Circus-Rider-1914

goya sec xix circo


goya sec xix circo

Honoré Daumier (1808-1879) parada de saltibancos


Honoré Daumier (1808-1879) parada de saltibancos

JOAN-MIRO-CIRCO


JOAN-MIRO-CIRCO

Los dos saltimbanquis. Picasso. Epoca azul. XX


Los dos saltimbanquis. Picasso. Epoca azul. XX

Kirchner Ernst Ludwig-Circus Rider_1912-13


Kirchner Ernst Ludwig-Circus Rider_1912-13

picasso - bohemios-circo


picasso - bohemios-circo

rosangela borges - o circo


rosangela borges - o circo

portinari  CIRCO, 1957

ortinari CIRCO, 1957

Trapeze artists, in lithograph by Calvert Litho. Co., 1890


Trapeze artists, in lithograph by Calvert Litho. Co., 1890