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sábado, 24 de janeiro de 2026

Luís Fazenda - A algazarra das direitas. O voto antifascista reúne-se para Belém

* Lus Fazenda

24 de janeiro 2026
 
O confronto entre Seguro e Ventura é o confronto entre a democracia e o autoritarismo reacionário. Reproduz-se em Portugal um cenário como se viu nas últimas presidenciais do Brasil, por exemplo.

1 - A longa campanha eleitoral da primeira volta das presidenciais, com candidaturas anunciadas logo a seguir às legislativas de Maio, tornou-se num embate político significativo, sem desfecho previsível à partida. Este facto fez crescer a participação de eleitores.

A campanha, sobretudo à direita, teve pouca confrontação, ou sequer comparação, de programas e ideias e centrou-se nos perfis dos aspirantes a sucessor de Marcelo e nas sondagens constantes. Em parte, isso deveu-se a uma legião de comentadores de tv que censuram a discussão das políticas públicas porque supostamente tal facto seria "próprio" de eleições legislativas e não de eleições presidenciais. Os candidatos estariam limitados a expor a sua leitura das competências do cargo e, quando muito, falar de política internacional. A manobra é clara para poupar a crítica ao governo e fazer desaparecer as oposições.

2 - Os debates entre Gouveia e Melo e Marques Mendes, ou entre Ventura e Cotrim de Figueiredo, foram cenas reles de ataques pessoais e acusações sucessivas e mútuas de imoralidade. Foi grande a algazarra. O clima de quezília, que seria imediatamente contestado em qualquer candidato de esquerda, transportou-se para propostas hostis.

Foi o caso de Cotrim de Figueiredo. Fez um ultimatum a Montenegro, numa espécie de OPA ao PSD. E conseguiu 16%, mais 5 pontos que Mendes. Esta tentativa de acossar o líder do PSD, pretendendo que o candidato laranja saísse da corrida fica como uma manobra de ultrapassagem da IL ao PSD.

Como tem sido hábito, as sondagens e pretensos barómetros foram as principais protagonistas, para os quais os candidatos são instrumentais. Estudos diários de amostra reduzida insinuam empates e provocam transferências de votos, verificando-se no final diferenças de monta onde havia proximidade. O "empate" entre Seguro e Ventura cifrou-se em 8 pontos de diferença.  

3 - Os candidatos e a candidata à esquerda trouxeram o debate das políticas governativas da AD. Foi reconhecido por todos os quadrantes democráticos que Catarina Martins fez uma excelente campanha sobre como cuidar da democracia política e da democracia social e reagiu sem tibiezas ao assalto à Venezuela por parte de Trump.

Seguro, o improvável candidato do centro, trouxe uma olímpica posição presidencial sem demarcação do governo, embora afirmasse a defesa da Constituição, com poucas referências a compromissos concretos, exceto no SNS. Averbou 31% e classificou-se em primeiro lugar, graças à divisão da direita.

Felizmente, a greve geral irrompeu pela campanha adentro, mudando a agenda até aí dominada pelas políticas anti-imigração. As questões do trabalho vieram para primeiro plano, forçando Seguro e Gouveia e Melo a endurecer posição. Seguro promete veto ao pacote laboral. A nota artística vai para o Almirante que confessou que teria feito greve. A defesa dos Direitos do Trabalho trouxe de forma concreta a resistência constitucional que atravessou esta contenda eleitoral.

4 - O que Montenegro caracteriza como "uma dispersão de votos do centro" é uma forte derrota do governo e da AD. A AD tem um desgaste claro na sua base eleitoral. Contudo, o 5º lugar do candidato do governo não pode apenas ser atribuído à irritação popular pelos seus negócios pessoais, ou por ser mal amado pelos caciques do PSD. Os ziguezagues de Mendes sobre as leis laborais, ou sobre a ministra da Saúde, desagradaram a gregos e troianos. E pôs em relevo que uma parte do eleitorado do PSD está a ser atraído pelo radicalismo da extrema-direita e pelo radicalismo dos liberais. É previsível que o governo acentue a sua agenda de direita para recuperar apoio nas classes médias, hoje muito permeáveis a hostilizar o Estado social. Em particular, a IL é uma pedra no sapato do PSD. O que deixa uma pergunta óbvia: que faz ali o PS como sócio orçamental?

5 - A candidatura de Gouveia e Melo merece uma reflexão. Foi mais uma arremetida populista contra os partidos, considerando todos em geral responsáveis pela oligarquia que controla o Estado. Incapaz de apontar o periscópio à elite económica que capturou os Partidos do poder e que põe e dispõe nessa oligarquia, veio paradoxalmente reclamar-se de uma posição entre PSD e PS. Precisamente os partidos que têm sido as válvulas de segurança da oligarquia. Rodeou-se de várias figuras do PSD, do ex-recluso Isaltino e de empresários do pior do "sistema". Este foi o maior dos paradoxos para os seus apoiantes. Colheu votos heterogéneos à direita e à esquerda, perdendo muitos destes para Seguro na reta final da campanha. Foram 12% de votos que não têm destino e acompanham o Almirante sem espaço político. O caldo de cultura que cimentou esta candidatura é o mesmo que anima André Ventura. A saber: a hostilidade aos negócios da elite e a rápida confusão entre estes e o regime democrático.

6- A "normalização" do Chega ganhou um novo fôlego. O discurso de equiparar a democracia à corrupção faz o viés do caudilho que quer três salazares e pretende uma constituição autoritária e um sistema presidencialista. Enganaram-se aqueles que prenunciavam um Ventura cordato, escondendo as arestas da sua dinâmica reacionária. Com apoio em todas as classes, da alta-finança ao operariado, realizou uma campanha popular beneficiando da sobreexposição nos canais televisivos a somar à hegemonia que apresenta nas redes sociais. A boçalidade é justificada por falar para o povo. Ninguém pode subestimar a votação de Ventura, alcançando 23%. Na Madeira ver suceder a extrema-direita ao PSD é como passar a um novo inferno. Em todo o caso, a consolidação da extrema-direita segue os métodos internacionais e genericamente trumpistas. Sem disfarce, o Chega tenta ganhar balanço para disputar a chefia da direita ao PSD.

7 - Os votos da candidata e dos candidatos apoiados pelo Bloco de Esquerda, pelo PCP e pelo Livre foram reduzidos. Catarina Martins teve 2% e os outros menos.  Pode dizer-se que, em certa medida, representaram a resistência ao voto útil em Seguro. É uma votação do núcleo forte das respetivas áreas políticas e as eleições presidenciais dão para ver essa elasticidade. Esta observação vale para todos. Qualquer um destes partidos sabe que tem uma margem de simpatia superior aos votos obtidos. O que obriga a uma reflexão sobre a força do chamado voto útil. Conhecemos durante muitos anos o apelo ao voto útil, alegando vantagens de poder contra o PSD. Hoje, a esta dinâmica juntou-se outra: a do voto útil antifascista. A resistência e afirmação destas áreas é essencial para não deixar a oposição à esquerda completamente nas mãos do liberalismo democrático do PS sem qualquer projeto social nem perspetiva soberana.

8 - O quadro que se apresenta para a segunda volta, a 8 de Fevereiro, é marcadamente bipolar. O confronto entre Seguro e Ventura é o confronto entre a democracia e o autoritarismo reacionário. Reproduz-se em Portugal um cenário como se viu nas últimas presidenciais do Brasil, por exemplo. Um candidato democrata apoiado por setores da esquerda e da direita contra o candidato reacionário. A vitória de Seguro permite continuar a resistência constitucional aos ataques da extrema-direita e de parte da direita. Aqueles que lutam pelo Socialismo têm uma dupla tarefa: explicar que Seguro já se desfez do socialismo há muito, ao contrário do que diz Ventura, e de que não há luta a sério pelo socialismo sem democracia. A defesa do regime constitucional potencia o contra-ataque à AD e ao trumpismo mundial.

9- O governo de Montenegro e o PSD, tal como a IL decidiram não indicar o voto em Seguro num ato de suposta “neutralidade”.Alguns argumentam de que se trata de preservar o jogo parlamentar do governo para permitir maiorias de voto. Na verdade, é a perda de compromisso democrático e cedência a Ventura.

Entretanto, a direita que vai apoiar Seguro quer que essa candidatura se defina como “moderada” contra o extremismo, sem referência à causa democrática. Querem prolongar a “normalização “do Chega, apagando o perigo autoritário. Pretendem descafeinar ainda mais a plataforma política de Seguro, tentando aproximá-lo do candidato de “centro-direita” que perderam para a segunda volta da corrida a Belém. O povo de esquerda dirá melhor nas urnas.

https://www.esquerda.net/opiniao/algazarra-das-direitas-o-voto-antifascista-reune-se-para-belem/97197
 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Ricardo Araújo Pereira - Bem-vindos a mais um esclarecedor debate



Bem-vindos a mais um esclarecedor debate

* Ricardo Araújo Pereira

Humorista

08 FEVEREIRO 2024

Bom, eu gostaria de começar por dizer que...

— Não, isso é falso.

— Desculpe, eu estava a falar.

— Ah, pois. Não quer ouvir. Não quer ouvir. Não quer ouvir.

— O que eu estava a dizer era que...

— Não quer ouvir.

— ...o meu partido considera que...

— Não quer ouvir.

— ...bom, assim é impossível.

— Pois, é, porque não quer ouvir.

— Se eu puder completar o meu raciocínio...

— Eu sei que custa. Eu sei que custa.

— Nós temos uma proposta para resolver o problema da habitação.

— Ai é? Então e esta folha A4 que eu trouxe que é a fotocópia de uma notícia antiga?

— A proposta consiste em...

— Não, mas olhe aqui esta fotocópia de uma notícia antiga que eu trouxe.

— ...investir em habitação pública.

— Não quer falar sobre esta notícia antiga, não é? Não interessa. Não pode negar. Isto veio nos jornais.

— Ainda ontem li no jornal que as propostas do seu partido levam o país à ruína.

— Desculpe lá, isso só pode ser para nós nos rirmos. Os jornais só dizem mentiras.

— Não, desculpe lá.

— Não, desculpe lá.

— Não, desculpe lá.

— Não, desculpe lá.

— Não interrompa, por favor. Eu não o interrompi.

— Não quer ouvir, não é? Não quer ouvir.

— O seu partido tem nas suas listas de candidatos a deputados pessoas que foram constituídas arguidas por serem suspeitas de crimes.

— Mas a minha gravata é azul.

— O que é que isso tem a ver com o que eu disse?

— É mentira?

— Não tem nada a ver com o que eu disse.

— Mas é mentira? Responda à pergunta. É mentira?

— Posso falar?

— Não quer responder. A verdade incomoda, não é? Por isso é que as sondagens dão um péssimo resultado ao seu partido.

— As últimas sondagens também dão o seu partido a descer.

— As sondagens são uma vigarice e têm o único objectivo de prejudicar o meu partido. A sondagem que interessa é o voto do povo, nas urnas. O povo é que interessa.

— O povo tem dado maiorias a outros partidos, que não o seu.

— O povo não percebe nada, está completamente dependente da máquina do Estado, por isso é que vota sempre nos mesmos.

— Posso falar?

— Ai, coitadinho. A vítima. Lá vêm as queixinhas. Isto é política, habitue-se. É por causa deste tipo de político que o país está como está. O Parlamento tem deputados a mais, que não estão lá a fazer nada.

— É o caso do seu grupo parlamentar, que aprovou zero propostas.

— É mentira.

— Que propostas é que aprovaram?

— Nenhuma, porque não nos deixaram. Chumbaram as nossas propostas de propósito.

— Está a queixar-se? Então isso não é política? Desculpe, isto é uma bandalheira.

— Não é, não. Eu e o meu partido viemos precisamente para acabar com a bandalheira. Agora vou defecar na mão e arremessar-lhe as fezes.

 

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia



sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Ricardo Araújo Pereira - A entidade reguladora não regula bem

SEMANÁRIO#2617 - 23/12/22
Estranho Ofício

* Ricardo Araújo Pereira

Para certos místicos, o humor e os programas humorísticos têm muito poder


Agora que parece ter terminado o fascinante debate que se gerou a propósito da deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) sobre o facto de André Ventura não ter sido convidado para ir ao programa “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, gostaria de aproveitar esta altura em que já ninguém se interessa pelo assunto para finalmente participar. A primeira alínea da deliberação apresenta também o primeiro problema, uma vez que a ERC “delibera: a) Verificar que, durante o período eleitoral para as eleições legislativas de 2022, no programa ‘Isto É Gozar Com Quem Trabalha’, foram entrevistados todos os líderes partidários que tinham obtido representação parlamentar nas eleições anteriores com excepção do Partido Chega (…).” Esta é uma verificação que, infelizmente, não se verifica. A frase “foram entrevistados todos os líderes partidários que tinham obtido representação parlamentar nas eleições anteriores com excepção do Partido Chega” não é verdadeira, dado que o Partido Ecologista Os Verdes tinha obtido representação parlamentar nas eleições anteriores e o seu líder também não foi convidado. Ninguém chora pelas injustiças que os programas de entretenimento infligem ao PEV, e é provavelmente por isso que o ambiente está como está. Mas é com base nessa verificação que a ERC conclui, deliberando “recomendar à SIC a necessidade de compensar, se necessário, na restante programação, os desequilíbrios gerados num determinado programa em matéria de igualdade de oportunidades e de tratamento das diversas candidaturas, assegurando o pluralismo político-partidário nas suas emissões (…)”. Sucede que, se uma injustiça tiver sido de facto cometida, esta deliberação é extremamente insatisfatória. A ERC não obriga a SIC a compensar o injustiçado. Trata-se de uma mera recomendação. No entanto, ao passo que recomenda uma necessidade, acrescenta imediatamente: “se necessário”. Ora, recomendar uma necessidade se necessário não é bem recomendar. Suponhamos que, ao verificarmos que a nossa amiga Clotilde se prepara para sair de casa, lhe recomendamos a necessidade de, se necessário, levar um guarda-chuva. Não é uma recomendação útil porque a Clotilde, muito provavelmente, já sabia que as necessidades só são necessárias se necessário. Em princípio, não travamos amizade com pessoas que acreditam em necessidades desnecessárias.


ILUSTRAÇÃO JOÃO FAZENDA

Não é surpreendente que a recomendação seja tão vaga. Toda esta questão assenta numa conversa que é afluente do eterno debate sobre o poder do humor. Certos místicos acreditam que o humor e os programas humorísticos têm muito poder, apesar de não haver qualquer indicação nesse sentido. Ninguém formulou esse pensamento de forma mais eloquente do que o professor de economia da Universidade do Minho, Luís Aguiar-Conraria, aqui mesmo, no Expresso. Disse ele: “Sem o poder demonstrar, estou totalmente convencido de que a Iniciativa Liberal elegeu o seu primeiro deputado graças à prestação do seu líder nesse programa.” Repare-se que Aguiar-Conraria não está levemente desconfiado ou até fortemente inclinado para acreditar em algo que não consegue demonstrar. Não, não: está “totalmente convencido”. Ao fenómeno psíquico de estarmos totalmente convencidos de uma coisa que não somos capazes de demonstrar costuma chamar-se fé. E, de facto, a responsabilidade da eleição do primeiro deputado da Iniciativa Liberal só pode ser atribuída ao programa “Isto É Gozar Com Quem Trabalha” se formos tomados por um fervor espiritual bastante intenso. Estávamos em 2019 e esse programa nem existia, nem era exibido na SIC, nem era líder de audiências. Carlos Guimarães Pinto foi a um espaço televisivo chamado “Gente Que Não Sabe Estar”, que era o suplemento humorístico do “Jornal das 8”, na TVI. Nesse dia, uma quinta-feira, 3 de Outubro de 2019, a tabela dos programas mais vistos da televisão portuguesa ficou assim ordenada: em primeiro lugar, a novela da SIC “Nazaré”, com 13,8% de audiência; em segundo, a novela da SIC “Golpe de Sorte”, com 12,6%; em terceiro, “Jornal da Noite”, da SIC, com 11,5%; em quarto, o espaço “Tempo de Antena”, emitido na SIC às 19h52, com 9,2%; em quinto o jogo de futebol Feyenoord-FC Porto, na SIC, com 8,9%; em sexto, finalmente, o “Jornal das 8”, da TVI, com 8,8%. Portanto, nesse dia, Carlos Guimarães Pinto foi convidado de um espaço integrado num programa que teve menos audiência do que o “Tempo de Antena”, e teve uma prestação de tal modo notável que aqueles eleitores que definem o seu sentido de voto com base em coisas que viram em programas de entretenimento decidiram premiá-lo elegendo João Cotrim de Figueiredo, que não foi convidado e concorria por outro círculo eleitoral. É disto que Aguiar-Conraria está totalmente convencido.

Há duas ou três coisas das quais, a propósito da influência do “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, eu estou totalmente convencido. Por exemplo, estou totalmente convencido de que o líder do PEV não foi ao programa e o seu partido desapareceu do Parlamento. Estou totalmente convencido de que o líder do CDS foi ao programa e o seu partido também saiu do Parlamento. Estou totalmente convencido de que o Ventura não foi e o seu partido subiu de 1 para 12 deputados. Estou totalmente convencido de que João Oliveira foi e não só não conseguiu ser eleito como o seu partido caiu de 12 para 6 deputados. E felizmente posso demonstrar tudo.

No dia 12 Dezembro de 2020, no Twitter, André Ventura informou o país do seguinte: “Deus confiou-me a difícil mas honrosa missão de transformar Portugal.” O Criador, no âmbito da sua actividade de administrador do universo, teria dedicado algum do seu tempo a pensar omniscientemente em Portugal e, após observação cuidada, concluíra que o país precisava de uma transformação e que a pessoa mais bem colocada para a operar seria aquele comentador de futebol que discutia foras-de-jogo com Aníbal Pinto na CMTV. É este mesmo candidato, cuja carreira é patrocinada por um ser omnipotente, que se queixa de não ser convidado por um palhaço para um programa de entretenimento. Talvez a ERC devesse recomendar a Nosso Senhor a necessidade de compensar os outros candidatos. Se necessário, evidentemente.

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia

https://expresso.pt/opiniao/2022-12-23-A-entidade-reguladora-nao-regula-bem-3835ea24