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sexta-feira, 30 de junho de 2017

Raymond Chandler - O Imenso Adeus (excerto)




* Raymond Chandler


- Eu estive nos comandos. Eles não aceitam tipos feitos de algodão em rama. Fui ferido e o trabalhinho que os médicos nazis me fizeram não teve muita graça. Sinto-lhe as onsequências.
- Eu sei Terry. Você, sob muitos aspectos, é um tipo muito simpático. Eu não estou a julgá-lo. Nunca o julguei. Simplesmente você já não existe.
Já deixou de existir há muito. Está bem vestido, todo perfumado e tão elegante como uma prostituta de cinquenta dólares.
- Isto faz parte do disfarce - respondeu-me quase desesperadamente.
- Mas você diverte-se, não diverte?
A boca torceu-se-lhe num sorriso amargo. Depois encolheu os ombros expressivamente, à latina.
- Claro que me divirto. Tudo quanto hoje existe é teatro. Não há mais nada. Aqui - e bateu no peito com o isqueiro - não há nada. Eu estou pronto, Marlowe. E já o estava há muito. Bom, parece-me que não há mais nada a dizer.
Ele levantou-se. Eu levantei-me. Ele estendeu a mão esguia. Eu apertei-a.
- Até à vista, Sr. Maioranos. Gostei muito de o conhecer, apesar de o nosso contacto ter sido tão breve.
- Adeus.
Ele voltou-se, atravessou o escritório e saiu. Fiquei a ver a porta fechar-se. Ouvi-lhe os passos afastarem-se no corredor que pretendia ser de mármore. Tornaram-se cada vez mais fracos até que deixei de os ouvir.
Mas continuei à escuta. Porquê? Seria que eu esperava que ele parasse de repente e voltasse para trás e falasse comigo até que eu deixasse de me sentir como me sentia? Mas ele não voltou. Foi a última vez que o vi.
E nunca mais vi nenhum dos outros - excepto os polícias. A esses, ainda não se inventou um processo de lhes dizer adeus.

Titulo: O imenso adeus
Autor: Raymond Chandler
Titulo Original: The long goodbye
Tradutor: Mário Henrique Leiria
Capa: Cândido Costa Pinto

"A primeira vez que vi o Terry Lennox estava ele perdido de bêbedo dentro de um Rolls Royce último modelo estacionado à entrada do terraço do Dancers Club. O guarda do parque trouxera o carro até à entrada e segurava a porta porque o pé esquerdo de Terry Lennox ainda balouçava no exterior, como se ele se estivesse esquecido de que o tinha. Tinha uma cara jovem, mas o cabelo era branco como papel. Pelos olhos reconhecia-se que estava bêbedo até aos cabelos, mas de resto tinha um aspecto igual ao de qualquer outro tipo simpático vestindo um «smoking» e tendo gasto mais do que devia numa casa que existe precisamente para esse fim"... 


Realizador Robert Altman

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Postcards from Canada #7 - Niagara Falls



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‘A raging torrent of emotion, that even nature can’t control – Niagara’*

Há um filme de 1953, de Henry Hathaway, cujo trailer* começa assim… uma torrente de emoções que nem a natureza pode controlar… ao mesmo tempo que vemos as águas precipitando-se furiosa e descontroladamente formando as cataratas do Niagara. O filme tem, entre outros, Marilyn Monroe no papel de vilã. Há uma fotografia tirada durante a rodagem desse filme, no Tower Hotel, o mesmo onde estou. O restaurante do 26º piso chama-se também Marilyn.
Eu estou no 27º piso do Tower Hotel que basicamente parece um depósito de água. Uma coluna altíssima onde apenas existem os elevadores e no cimo dela 4 ou 5 andares, em redondo, formam o hotel. Quando reservei vi a torre, mas não me apercebi que o hotel era a própria torre. Reservei igualmente um quarto com ‘city view’, porque os com ‘falls view’ eram demasiado caros. Qual não foi, assim, o meu espanto, quando entrei no quarto, que é praticamente todo envidraçado, e dei de caras com as cataratas. Não as Horseshoe falls, as canadianas, mas as mais modestas (mas não menos impressionantes) American falls. Ganhei o dia e esqueci as vertigens. Passei longos momentos sentada no parapeito interior da janela a olhar para aquilo e a pensar ‘que maravilha’. É, de facto, uma maravilha a vista. Ainda há bocado as cataratas iluminaram-se de várias cores e eu estava feita parva, de boca aberta, do alto do depósito de água a olhar para aquilo e a sentir um misto de admiração e crítica.
Mas antes deste momento de luz e cor, apreciado da janela do meu quarto, viajei entre Toronto e as Niagara Falls de comboio. Apanhei-o na Union Station. Era o mesmo comboio que vai para Nova Iorque. A viagem iniciou-se às 8 e 20 e terminou, para mim, às 10 e 16 da manhã. Para quem viajava para Nova Iorque, a viagem prosseguiu por mais umas 8 horas. Quando saio da estação dos comboios o que vejo é uma cidade desoladora, de casinhas baixas, algumas bastante maltratatadas. Não me informei convenientemente sobre como chegar à cidade e por isso (e pela mala pesadíssima) apanho um taxi. O taxista é, de novo, emigrante de um qualquer país africano. Desta vez não me inteirei da proveniência do meu condutor temporário. Ele, ao contrário, pergunta-me se sou americana. Que não, credo, sou portuguesa. ‘Portugal… the country of the great Cristiano Ronaldo!’, exclama! Que sim, digo-lhe eu. Que hei-de fazer se não conformar-me que o Ronaldo é, provavelmente, o único português que muita gente no mundo conhece. Há uns anos as pessoas diziam: ‘Portugal? Eusébio!’… o meu país é uma equipa de futebol, apenas, ao que parece. Tanto que o taxista acrescenta embevecido que fomos campeões europeus, na França. Sim, sei, digo eu. E ele diz que gosta mais do Ronaldo que do Messi. Estou para lhe dizer que não sei qual é a diferença entre um e outro, mas resolvo recusar-me a falar de futebol e apenas sorrio e aceno com a cabeça.
O táxi deixa-me à porta do hotel pouco passa das 10 e meia. O quarto, obviamente, não está pronto. Deixo as malas e saio para ver as cataratas. Esta parte da cidade é o oposto do que vi quando saí da estação. Arranha-céus, movimento, casinos, pessoas e pessoas e ainda mais pessoas… Desço no pequeno funicular, depois de beber um expresso no Starbucks da esquina, até ao Niagara Falls Visitor Center. Não compro bilhetes para nada, quando lá chego, apesar da enorme profusão de ofertas. Saio para a rua e vejo de perto o que já tinha vislumbrado no funicular. Vejo as enormes torrentes e mais que ver, ouço as águas rugirem com tal força que é impossível não sentir respeito. E um pouco de medo, sim. Estou do lado canadiano e não penso entrar hoje nos Estados Unidos, embora fosse fácil percorrer a Rainbow Bridge, mais à frente, e atravessar a fronteira. O tempo que perderia na alfândega, porém, desencoraja-me e vou andando apenas ao longo do Niagara Parkway e tirando muitas fotografias e sentindo as gotículas da água molharem-me. Não está demasiado calor hoje e isso é tão bom para variar dos últimos dias em Toronto que não me importo de me molhar. As quedas de água, de ambos os lados da fronteira são impressionantes. Torrentes de emoção, absolutamente. Incontroláveis, ruidosas, magníficas. Portanto, eu mesma sou tomada por uma paixão súbita pelas cataratas do Niagara. E deixo-me apaixonar perdidamente.
Tomada pela súbita paixão, decido que aquela vista que tenho do Niagara Parkway não pode ser suficiente. Quero outras perspetivas, outras vistas, quero ouvir o rugido da água de outras maneiras. Reentro no centro de visitantes e compro um bilhete para ‘the journey behind the falls’. Ainda hesito entre isso e o barco – o ‘Maid of the Mist’, mas ao ver os barcos humildes face à fabulosa queda de água em forma de ferradura, decido que não tenho coragem. Vou portanto à viagem por trás das cataratas que, basicamente consiste em percorrer os tuneis subterrâneos e ver as cataratas a partir de baixo. Dão-nos uma capa amarela, de plástico, recomendam que só a vistamos quando chegarmos aos túneis, devido ao calor, e ala. Nos tuneis parece outra vez que estou numa sauna. Uma sauna barulhenta e bastante povoada. Parece o metro no Campo Grande, às horas de ponta. Apesar disso, o percurso faz-se bem, com cuidado para não escorregar no chão húmido. Há dois decks de observação das cataratas e a perspetiva é fabulosa. Estamos por baixo de um dos lados (o esquerdo se estivermos de costas para a queda de água) da Horseshow Fall e o que vemos e ouvimos é inesquecível. Eu, pelo menos, não me vou esquecer.
Fico bastante tempo a olhar para aquilo embasbacada. É grandioso. É poderoso. Parece incontrolável e que a qualquer momento toda aquela água vai desabar mesmo em cima de nós. Seria desastroso, obviamente, mas deve haver muito piores maneiras de nos despedirmos desta vida, suponho. Quando saio dos túneis venho (outra vez) um bocado tonta. Está visto que não sou pessoa para altas temperaturas e muita humidade. Bebo água, respiro fundo, sento-me num banco e melhoro passado um bocadinho. Tanto que até fumo um cigarro, descansadamente. A seguir como alguma coisa numa cadeia de comida qualquer, sem história e depois avanço para a Skylon Tower. Se vi as cataratas a partir de baixo, parece-me óbvio que tenho de as ver agora a partir de cima. A Skylon Tower tem cerca de 230 metros e depois de uma incrível viagem de elevador oferece-nos uma vista deslumbrante sobre as cataratas e sobre a cidade… embora esta última tenha pouco de deslumbrante para meu gosto. Está muito fresco lá em cima e deixo-me ficar a tirar fotografias e mais fotografias.
Quando saio da Skylon Tower caminho em direção ao hotel, já são quase 4 da tarde e o quarto já deve estar mais que pronto. Está. Estou no 27º piso… o resto da história sobre o quarto já a contei ali atrás. Passo um grande bocado sentada no parapeito interior da enorme janela a olhar para as cataratas americanas e para a Rainbow Bridge. De repente lembro-me que me falta ainda outra perspetiva das cataratas. A vista mesmo de cima para o grande buraco cheio de névoa. Lembro-me também do restaurante no 26º andar e das vistas que promete nos cartazes que estão nos elevadores. Desço um piso pelas escadas. Ali está ele. Abro a porta e uma rapariga simpática pergunta-me quantos somos. Digo que sou só eu, mas que não venho jantar. Venho só ver a vista. Posso? Claro que sim, diz ela, extraordinariamente simpática,e a seguir: ‘I love your shirt’, apontando para a coisa azul que trago vestida. ‘Thank you but I think I look a little bit like Batman in pale blue’ – respondo ao mesmo tempo que abro os braços para ilustrar melhor. ‘No, no, no’ – diz ela – ‘you look just like a goddess!’. Ora bem. Pois evidentemente. Tenho de me lembrar de agradecer à Lanidor por me fazer parecer uma deusa. E já agora, se alguém da Lanidor me estiver a ler, acho bem que se lembrem de me recompensar por vestir as vossas roupas e fazê-las serem apreciadas aqui tão longe… (just saying… ).
Após este interlúdio muito ‘girly’, aparece um rapaz que me pergunta novamente se sou só eu. Digo que eu sou só eu, sim, mas que não venho jantar. Venho só ver as vistas. Com certeza, sorri ele e pergunta-me: ‘where is your camera?’… ‘in my bedroom, upstairs’. Ele ordena-me praticamente que vá buscar a máquina fotográfica e tire fotografias. Eu obedeço, pois claro. Fico depois a pensar que, se isto fossem em Portugal, nos sítios mais turísticos, jamais me deixariam entrar, quanto mais tirar fotografias!
É por estas coisas que fiquei a gostar do Canadá (bom, de Toronto e agora de Niagara Falls) e dos canadianos. Têm sempre um sorriso. São sempre prestáveis. Pedem sempre desculpa e dizem sempre obrigada. Um povo cheio de urbanidade, já o disse ontem. São 2 e meia da manhã aqui. Sete e meia em Portugal. Vou refletir ali para a janela, a olhar outra vez para as torrentes de água incontroláveis, a ouvir o seu rugido poderoso. Talvez nunca mais as veja na vida. Ainda bem que as vi ao menos uma vez na vida.
* o trailler do filme aqui



https://aventar.eu/2016/08/16/postcards-from-canada-7/#more-1256205

domingo, 22 de novembro de 2015

noite e nevoeiro, de alain resnais





Noite e nevoeiro
Para Catarina, João, André, Sara e Pedro

Numa tarde de Novembro de 1955, numa sala um pouco sombria, um homem escreve, corrige, recria um texto que deve colar absolutamente às imagens atrozes que passam na mesa de montagem. Esse homem, é Jean Cayrol que numa espécie de sobressalto, decidiu fazer o comentário que deve acompanhar "Noite e Nevoeiro", uma curta metragem de Alain Resnais produzida por Anatole Dauman "Mesmo uma paisagem tranquila, mesmo uma planície com voos de corvos, de medas e feixes de ervas, mesmo uma estrada onde passam carros , camponeses, casais, mesmo uma aldeia para férias, com uma feira e um vagabundo podem conduzir simplesmente um campo de concentração". Foi Fredéric Towarnicki, um diplomata conhecedor de Heidegger, que pôs em contacto Resnais e Dauman. Para satisfazer a encomenda dum filme sobre campos de concentração, feita pelo Institut D'Histoire de la Seconde Guérre Mondiale, o produtor pensa imediatamente em Alain Resnais, já autor, de alguns ensaios famosos sobre pintura e de um filme proibido que punha em causa o colonialismo francês, "Les Statues Meurent Aussi", feito em colaboração com Chris Marker. À proposta responde primeiro que não. Era necessário, disse, que o filme fosse feito por alguém que tivesse vivido a experiência dos campos. Obstinado, Dauman voltou à carga. Finalmente, Resnais aceita mas com uma condição: que seja Jean Cayrol, escritor e antigo deportado, a escrever o comentário.

Durante o Verão de 1955, a difícil procura de documentos e uma rodagem não menos complicada concretizam uma empresa reputada de impossível, tanto no plano político como no artístico.

Apesar das dificuldades financeiras, o filme foi rodado a preto e branco e a cores. É assim, que Resnais aborda a montagem das imagens com as quais é necessário coexistir durante dias. Montagem e manipulação de imagens muitas vezes insustentáveis, que segundo palavras do próprio Resnais, "produzem uma forte impressão de irrealidade e dão uma sensação de vertigem àqueles que têm que fazer este trabalho. Uma primeira montagem de 40 minutos termina. Chegou o momento de a mostrar a Jean Cayrol que, aceita sustenta o olhar das imagens do futuro "Noite e Nevoeiro". A experiência é terrível. Cayrol adoece e não se resolve a rever o filme do princípio ao fim. Escreve uma primeira versão do texto, muito belo, segundo as palavras de Resnais, mas inutilizável porque está muito longe do encadeamento dos planos. É então que intervém Chris Marker. É ele que vai fazer o trabalho de adaptação ao filme, retocando o texto na sua estrutura e no ritmo para que ele entre em relação directa com as imagens. Esta versão retocada é submetida a Cayrol que aceite rever frase a frase o seu texto. Regressa então à sala de montagem, para o combate com as palavras mas sobretudo com as imagens. "Mesmo uma paisagem tranquila...".

Cada uma das imagens da fabricação de "Noite e Nevoeiro" põe assim concretamente, a cada uma dos protagonistas a questão do imostrável. Jean Cayrol, claro, mas também Hanns Eisler a quem Resnais, por sugestão de Marker, pediu para escrever a música que suporta dificilmente a coabitação com estas imagens. Michel Bouquet que regista a leitura do texto como um pesadelo, do qual diz guardar uma recordação terrível, a de Henri Colpi, um montador de som, Sacha Vierny um dos operadores de câmara, tentando regular os "travellings" nas ruínas dos campos. André Heinrich, o director de produção, todos os técnicos e Resnais, que se recorda de acordar aos gritos todas as noites que precediam o período de rodagem, e os pesadelos a desaparecer quando chegavam aos locais de rodagem.

"Noite e Nevoeiro" verá finalmente o dia da estreia. Mas terá de passar ainda por tentativas de censura, directa ou indirecta, ligadas tanto às autoridades francesas como alemãs, que contaram com a cumplicidade do historiador Philippe Erlanger, que o retirou do Festival de Cannes de 1956. Torna-se por fim no filme de referência sobre o tema, aquele que é, à sua maneira, uma trincheira inultrapassável para todas as formas de revisionismo e de apelo à violência racial.

A experiência de Jean Cayrol é, guardadas todas as proporções, um pouco a nossa, isto é a de cada espectador de "Noite e Nevoeiro", sempre próxima da dor física que procura estas imagens, e o imperativo, de as olhar até que elas se tornem inesquecíveis.

Paulo Teixeira de Sousa

http://www.apagina.pt/?aba=7&cat=1&doc=6996&mid=2

DOCUMENTÁRIO COMPLETO EM 
https://vimeo.com/45658881


Noite e nevoeiro: “Um alerta para as futuras gerações”. Entrevista especial com Marcus Mello

“A fortuna crítica do filme é imensa e majoritariamente positiva. Para François Truffaut, crítico da prestigiada revista Cahiers du Cinéma à época do lançamento de Noite e Nevoeiro, trata-se do maior filme da história do cinema, sendo impossível falar dele com as palavras da crítica cinematográfica, pois ele ultrapassa o documentário, a denúncia ou o poema para afirmar-se como uma meditação sobre o fenômeno mais importante do século XX”, pontua o crítico de cinema.
Foto: Herdeiro de Aécio
A polêmica obra cinematográfica do cineasta francês Alain ResnaisNoite e Nevoeiro, foi a primeira a tratar do Holocausto e a apresentar “imagens até então desconhecidas dos campos de concentração nazistas, nos quais seis milhões de judeus foram brutalmente exterminados”. Produzida dez anos depois da Guerra que chocou o mundo, Noite e Nevoeiro abordou “um acontecimento ainda recente, que permanecia como uma chaga incomodamente aberta, a ser necessariamente enfrentada”, afirma Marcus Mello em entrevista à IHU On-Line, por e-mail.

Por Márcia Junges e Patrícia Fachin
Quase 60 anos depois da primeira exibição, “Noite e Nevoeiro se impõe ainda hoje como um modelo ético de abordagem a um objeto tão delicado, colocando em xeque versões mais espetaculares do Holocausto”, avalia o crítico de cinema. Para Mello, o longa coloca o espectador em “uma posição de grande vulnerabilidade. A memória é um bem precioso, que define a existência de cada ser humano. Ao mesmo tempo, algumas experiências são tão traumáticas que o esquecimento é a única forma de seguir vivendo. Mas este esquecimento, claro, só é admissível no âmbito individual, já que em relação ao coletivo temos obrigação de não apagar os acontecimentos terríveis de nossa história”.
Marcus Mello estará no Instituto Humanitas Unisinos – IHU na noite desta terça-feira, 25-03-2014, comentando Noite e Nevoeiro, às 20h, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros.
O filme será exibido às 19h30min, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros.
O evento faz parte da 11ª edição da Programação de Páscoa do IHU, intitulada Ética, Memória, Esperança. Uma perspectiva de triunfo da Justiça e da Vida.
Marcus Mello é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Rio Grande do Sul - UFRGS. Crítico de cinema, é editor da revista Teorema e colaborador das revistas Aplauso e Cinética. Em 2000, assumiu a função de programador daSala P. F. Gastal, na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, primeiro cinema municipal de Porto Alegre, mantido pela Secretaria Municipal da Cultura.
Também organizou os livros Cinema Falado – 5 Anos de seminários de cinema em Porto Alegre (Porto Alegre: Unidade Editorial, 2001)Sublime obsessão (Porto Alegre: Unidade Editorial, 2003), de Tuio Becker, e Trajetórias do cinema moderno e outros textos (Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro; A Nação, 2007), de Enéas de Souza.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Quais foram os motivos de comoção e polêmica que Noite e Nevoeiro (Nuit et Brouillard) gerou entre o público?
Marcus Mello - A comoção se deu inicialmente pelo fato de Noite e Nevoeiro ser a primeira obra cinematográfica a abordar diretamente o Holocausto, trazendo a público imagens até então desconhecidas dos campos de concentração nazistas, nos quais seis milhões de judeus foram brutalmente exterminados. É importante notar que o filme foi lançado em 1955, apenas 10 anos após o final da Segunda Guerra Mundial e a consequente liberação dos sobreviventes desses campos pelas tropas aliadas. Ou seja, um acontecimento ainda recente, que permanecia como uma chaga incomodamente aberta, a ser necessariamente enfrentada. Outro motivo de polêmica está relacionado à nacionalidade do filme, uma produção francesa, país que após a invasão das tropas alemãs manteve um governo colaboracionista, apoiando os nazistas.
Resnais era então um jovem diretor, com apenas 33 anos de idade, conhecido por uma série de curtas bastante elogiados, como o libelo anticolonialista As Estátuas Também Morrem (1953), e ainda não havia realizado Hiroshima Meu Amor (1959) e O Ano Passado em Marienbad (1961), com os quais revolucionaria a narrativa cinematográfica. Noite e Nevoeiro era uma obra de encomenda, feita a pedido do Comitê de História da Segunda Guerra Mundial, com a intenção de ser um documento imagético sobre um dos episódios mais terríveis da história da humanidade. Mas a princípio o próprio Resnaisteve dúvidas em relação aos inúmeros impasses éticos envolvidos na produção do filme e só foi convencido a realizá-lo devido à adesão do roteirista Jean Cayrol, um sobrevivente dos campos de concentração.
IHU On-Line - Por que Noite e Nevoeiro é considerado um “dispositivo de alerta” contra o nazismo e todas as formas de extermínio?
Marcus Mello - Justamente pela forma que Resnais deu ao filme, o qual, embora seja classificado como um documentário, é na verdade um filme-ensaio. Em apenas 32 minutos, Resnais combina imagens de arquivo com filmagens com cenas do presente nos antigos campos, rodadas em cor. Por meio de um extraordinário trabalho de montagem, o jovem diretor intercala tempos históricos distintos — ainda que separados por apenas uma década — e sobrepõe a essas imagens um texto extremamente poético, assinado pelo escritor Jean Cayrol. É pela manipulação habilidosa desses elementos — imagem, texto, montagem — que Resnais transforma seu filme em um alerta para as futuras gerações, prevenindo-as sobre o fato de a barbárie estar sempre à espreita, e não apenas relegada a um passado remoto.
IHU On-Line - Qual é a importância desse documentário na narrativa sobre o Holocausto?
Marcus Mello - É enorme, não apenas por seu aspecto seminal, mas, sobretudo, pela influência que irá exercer em outros diretores que passarão a abordar o tema, como Marcel Ophuls em A Tristeza e a Piedade (1969) e Claude Lanzmann emShoah (1985). Noite e Nevoeiro se impõe ainda hoje como um modelo ético de abordagem a um objeto tão delicado, colocando em xeque versões mais espetaculares do Holocausto, como as da famosa minissérie televisiva Holocausto (1978) e as recriações hollywoodianas levadas a cabo por Alan J. Pakula em A Escolha de Sofia (1982) e Steven Spielberg em A Lista de Schindler (1993). A fortuna crítica do filme é imensa e majoritariamente positiva. Para François Truffaut, crítico da prestigiada revista Cahiers du Cinéma à época do lançamento de Noite e Nevoeiro, trata-se do maior filme da história do cinema, sendo impossível falar dele com as palavras da crítica cinematográfica, pois ele ultrapassa o documentário, a denúncia ou o poema para afirmar-se como uma meditação sobre o fenômeno mais importante do século XX.
IHU On-Line - Como analisa o recurso de mescla entre o passado e o presente nessa produção de Resnais?

Marcus Mello - Ela é fundamental para que o diretor atinja seu objetivo principal, que é justamente fazer um filme que sirva de alerta para impedir a repetição da barbárie no futuro. Este embaralhamento temporal, vale notar, será o pilar fundador da obra de Resnais, como logo confirmariam suas experiências ficcionais nos já citados Hiroshima Meu Amor e O Ano Passado em Marienbad, e ao longo de toda a sua filmografia, de Muriel (1963) a Eu Te Amo, Eu Te Amo (1968), passando por Providence (1977) e Meu Tio da América (1980), até chegar a produções recentes como Vocês Ainda Não Viram Nada! (2012).
IHU On-Line - Godard pensava que o cinema errou de modo inexpiável ao não filmar a construção dos campos de concentração. Em que sentido o documentário de Resnais “chega depois”, mas cumpre um papel importante junto à categoria da memória?
Marcus Mello - Godard, não esqueçamos, é um eterno provocador, um polemista nato, que adora lançar bombásticas frases de efeito. Provavelmente, se Resnais tivesse chegado antes e pudesse ter filmado a construção desses campos ou o próprio extermínio dos judeus, Godard teria chamado seu colega de imoral, por haver preferido registrar a barbárie ao invés de fazer algo para impedi-la. Vale lembrar que alguns dos ataques mais violentos contra Spielberg e seu A Lista de Schindler partiram de Godard. Acredito que Resnais chegou exatamente no momento em que deveria ter chegado, nem antes nem depois, e isto pode ser comprovado a cada nova revisão do filme, que, passados mais de 50 anos, mantém intacta a sua força. A propósito, Noite e Nevoeiro mostra imagens da construção dos campos, o que desde logo denuncia a fragilidade do discurso de Godard.
IHU On-Line - Em que medida o desespero de não lembrar ou de não poder esquecer são elementos importantes que aparecem nessa obra do cineasta francês?
Marcus Mello - Na medida em que a incapacidade de lembrar ou a impossibilidade de esquecer são experiências igualmente terríveis, por paradoxal que isso possa parecer. Ambas colocam o indivíduo e, por consequência, o espectador, em uma posição de grande vulnerabilidade. A memória é um bem precioso, que define a existência de cada ser humano.
Ao mesmo tempo, algumas experiências são tão traumáticas que o esquecimento é a única forma de seguir vivendo. Mas este esquecimento, claro, só é admissível no âmbito individual, já que em relação ao coletivo temos obrigação de não apagar os acontecimentos terríveis de nossa história. Essa contradição permeia o filme de Resnais do início ao fim, e faz dele uma obra que, embora se debruce sobre o passado, está dirigida ao futuro. Um futuro que esteja sempre alerta aos erros do passado, em constante vigilância para não repeti-los.
IHU On-Line - Como esse documentário dialoga com a pretensa invisibilidade que os campos tinham à época de seu funcionamento?
Marcus Mello - Por seu caráter revelatório, que mostra de forma pioneira o horror da experiência dos campos de concentração, até então conhecidos apenas através de fotografias e cinejornais. Também vale assinalar mais uma vez o fato de Noite e Nevoeiro ser uma produção francesa, país que tem uma relação bastante discutível com o regime nazista. Após o final da Segunda Guerra, muitos franceses tentaram apagar seu envolvimento com os nazistas, evitando falar sobre seu colaboracionismo com o regime de Hitler ou mesmo sobre a omissão da maior parte da sociedade diante daquele momento de exceção. Quando a guerra terminou, procurou-se dar a impressão de que todos os cidadãos franceses fizeram parte da Resistência, incluindo aí vários intelectuais de ponta, o que sabemos que não é verdade.
IHU On-Line - Em que aspectos Auschwitz e Hiroshima, outra temática de Resnais, são “possíveis” somente através da arte?
Marcus Mello - Trata-se de uma questão meramente retórica, pelo simples fato de que tanto Hiroshima quanto Auschwitzocorreram realmente, vitimaram milhões de seres humanos e não houve nada de arte ali. Pergunte a um sobrevivente deAuschwitz — são poucos, mas eles ainda existem — se aquilo só foi possível através de uma experiência artística. Certamente ele lhe dará uma resposta bastante dura.
IHU On-Line - Em que consiste o maior legado cinematográfico de Resnais, recentemente falecido?
Marcus Mello - Resnais foi um dos maiores renovadores da arte cinematográfica, ao explorar novas formas narrativas, a partir de seu interesse pelas questões envolvendo o tempo e a memória. Nesse sentido, sua contribuição à história do cinema é inestimável, fazendo esta arte atingir um outro patamar, capaz de dar conta da complexidade da experiência humana, e transformando em imagens estados de consciência até então não representados por seus antecessores.

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/529565-noite-e-nevoeiro-um-alerta-para-as-futuras-geracoes-entrevista-especial-com-marcus-mello 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

françoise sagan - bom dia tristeza

BONJOUR TRISTESSE

La villa est magnifique, l été brûlant, la Méditerranée toute proche. Cécile a dix-sept ans. Elle ne connaît de l amour que des baisers, rendez-vous, lassitudes. Pas pour longtemps. Son père, veuf, est un adepte joyeux des liaisons passagères et sans importance. Ils s amusent, ils n ont besoin de personne, ils sont heureux. La visite d une femme de coeur, intelligente et calme, vient troubler ce délicieux désordre. Comment écarter la menace? Dans la pinède embrasée, un jeu cruel se prépare. C était l été 1954. On entendait pour la première fois la voix sèche et rapide d un charmant petit monstre qui allait faire scandale. La deuxième moitié du XXe siècle commençait. Elle serait à l image de cette adolescente déchirée entre le remords et le culte du plaisir.


"A nitidez de minhas lembranças a partir daquele momento me assombra. Adquiria uma consciência mais atenta dos outros, de mim mesma. A espontaneidade e um egoísmo fácil sempre haviam sido para mim um luxo natural. Sempre havia vivido. Ora, eis que aqueles poucos dias me haviam perturbado o bastante para que fosse levada a refletir, a me encontrar vivendo. Passava por todos os horrores da introspecção sem, por isso, reconciliar-me comigo mesma."
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sexta-feira, 9 de março de 2012

Raymond Chandler - A dama do lago (The Lady in the Lake)




ISA PINA


Ano: 1943 (original)  
Tema: romance, mistério
Nome original: The Lady in the Lake

Sinopse: Duas mulheres jovens e bonitas abandonam seus maridos e desaparecem. Philip Marlowe investiga o caso e descobre um cadáver num lago. Um gigolô mal-humorado, tiras inconvenientes, curiosos e corruptos se atravessam no seu caminho. A dama do lago é um dos clássicos da literatura americana, tendo consagrado o gênero noir, onde se destacaram também grandes autores como Dashiell Hammett, David Goodis, Ross Macdonald, entre outros.
*Livro lido para o Desafio Literário 24/12.


Opinião geral:
O que podemos falar sobre um livro de suspense que tem tantas reviravoltas que você nem sabe em mais quem se pode confiar? Não muita coisa, certo? Por isso, se minha resenha deixar a desejar, não fique brava comigo imediatamente. Um dia você ainda pode ler esse livro e certamente vai me agradecer por deixar alguns "detalhes" de fora.
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Phillp Marlowe é um detetive, que é contratado por Derca Kingsley para achar sua mulher, que está desaparecida há certo tempo. Só para avisar, os dois são casados, mas ambos nem se falam mais, sendo que cada um vive sua própria vidinha (cheia de regalias, pois ambos tem bastante dinheiro). A última notícia que teve dela foi um telegrama vindo de El Paso dizendo que se casaria com um de seus amantes, o mulherengo Chris Lavery. Porém, quando o Sr. Kingsley encontra Chris, este diz não ter viajado com sua mulher, o que acaba deixando uma ponta de desconfiança pois, se tivessemesmo viajado com ela, esfregaria na cara, certo? É o que pensa Kingsley.
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E, assim que é contratado, somos apresentados à secretaria de Kingsley, Adrienne Fromsett, morena, bonita, amante - opa, não sabia se podia contar... Brincadeira! :D - e sem aparentemente importância na história. A primeira pessoa que Marlowe visita é Chris, que reafirma a história contada a Kingsley, acabando a visita sem muitas coisas novas. Enquanto fica pensando no seu carro, nota que um senhor, Dr. Almore, fica preocupado com sua presença para, em seguida, chamar um policial valentão, Degarmo, lhe fazer umas perguntinhas. Depois da visita, Marlowe visita a casa do lago que os Kingsley tem, assim conhecendo Bill Chess, um faz-tudo por lá. Sua mulher, Muriel, tinha lhe abandonado e estava quase sempre bêbado (ou assim me pareceu). Depois de conversarem um pouco, vão para a represa/lago e quando Bill mexe uma das pedras - não sei explicar muito bem o que aconteceu - tem a impressão de ver um braço. Humano. Mexe mais um pouco as águas e um corpo boia. O corpo de Muriel... Mas em um estado de decomposição tão grande - pois faz um mês que ela sumiu - que se fosse outra pessoa, ele não saberia dizer. E é depois disso que a história ganha mais aventura. E mais perguntas, como todo boa história de mistério/suspense.
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Marlowe é um personagem sarcástico, metido, inteligente, honesto e real. Ele fala merda, ele se machuca, comete erros. Não é perfeito. E suas respostas, quase sempre na ponta da língua, fazem com que o livro fique ainda melhor de se ler. Digno de 4 estrelas, além de um quase perfeito crime :P

Pontos positivos: o mistério foi, pelo menos a mim, completamente insano! Quero dizer, eu não tinha ideia do(s) assasino(s)! Era muitas opções, muitas teorias! MUITO genial!

Pontos negativos: ainda acho que faltou alguma coisa, alguma química, mas não defini o que. Simplesmente é muito bom, mas não chega a ser ótimo. :/

Personagens favoritos: Phillip Marloweof course.

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Passagens favoritas:

1: "- Sim, senhor Marlowe? O Sr. Kinglsey não está, sinto muito.
- Venho a mando dele. Onde podemos conversar?
- Conversar?
- Tenho uma coisa para mostrar-lhe.
- Oh, tem? - Ela lançou-me um olhar desconfiado. Muitos homens provavelmente haviam tentado mostrar-lhe coisas, incluindo águas-fortes. Em outra oportunidade, não me desagradaria fazer uma tentativa também."
pág. 112

2: "Um homem usando o uniforme azul-acinzentado dos guardas da prisão aproximava-se andando ao longo das celas, lendo os números. Parou diante da minha, abriu a porta e me lançou o olhar duro que eles acham que têm de conservar nos rostos para sempre e que significa: 'Sou um tira, irmão, sou durão, olhe onde pisa senão deixo-o de um jeito que vai ter de se arrastar de quatro. Vamos lá, diga a verdade, irmão, vamos lá, e não se esqueça de que somos durões, somos tiras e fazendo o que bem entendemos com pulhas como vocês'."
pág. 155

3: "- Você viu como somos aqui - disse Degarmo. - Simplesmente uma grande família feliz.
- Com sorrisos radiantes nos rostos - disse o sargento do serviço -, os braços abertos dando boas-vindas, e uma pedra em cada mão."
pág. 157

4: "Webber disse em voz baixa:
- Acho que algumas pessoas pensam que somos apenas um bando de corruptos. Creio que pensam que um cara mata a esposa e depois telefona e diz: 'Alô, capitão, tenho um assassinatozinho aqui atravancando meu quarto. Tenho também quinhentos dólares dando sopa'. E aí eu digo: 'Ótimo. Aguente firme que já estou indo com a manta'."
pág. 164


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A Dama do Lago

Lady in the Lake
Estados Unidos, 1947, 103 min., film-noir

Realizador: Robert Montgomery

Argumento: Steve Fisher, baseado no romance de Raymond Chandler

Actores: Robert Montgomery, Audrey Totter, Lloyd Nolan, Tom Tully, Leon Ames

Estreia em Portugal: 29 de Junho 1948 (S. Luiz)

O detective privado Philip Marlowe investiga o desaparecimento de uma mulher.
A Dama do Lago poderia ser mais um entre os muitos exemplos de film noir existentes, mas as suas circunstâncias de produção fazem dele um filme único na história do cinema. Antes de mais, A Dama do Lago revela-nos um Philip Marlowe muito diferente do que estamos habituados, nomeadamente de À Beira do Abismo, um dos grandes film noir da história do cinema. Em segundo lugar, pelo facto de A Dama do Lago ser filmado, na sua maioria, em câmara subjectiva, praticamente uma estreia em filmes de uma major.
O argumento de A Dama do Lago foi escrito pelo próprio Raymond Chandler, sendo a única vez que o escritor escreveu um argumento cinematográfico. No entanto, a versão que Chandler apresentou, com cerca de 175 páginas, revelou-se impossível de filmar e a MGM teve de contratar Steve Fisher para reescrever o argumento. Chandler insistiu que o seu nome fosse creditado como argumentista, mas após ler a versão de Fisher, recusou ver o seu nome associado ao argumento. A principal causa desta atitude foi a exclusão de uma cena crucial do romance original e a opção de Fisher de apresentar o filme em câmara subjectiva.
É precisamente a câmara subjectiva que torna A Dama do Lago um filme único. Tanto para mais que marca a estreia de Robert Montgomery como realizador (à excepção da experiência não creditada no filme Homens para Queimar, em que substituiu o realizador John Ford, que partiu uma perna nas rodagens). Montegomery, que aqui tem seu último filme para a MGM, com quem tinha contracto desde 1929, confessou as dificuldades que sentiu na realização numa entrevista na época, revelando que o filme implicou muitos ensaios, treino e cenários especiais, que consumiram grande parte do orçamento.
De tal forma a câmara subjectiva marca o filme, que o departamento de publicidade da MGM utilizou-o para publicitar o filme, anunciando que era o espectador, em conjunto com Montegomery, que resolvia o crime da história. No entanto, A Dama do Lago é muito mais que a câmara subjectiva e revela-se um interessante film-noir, com excelentes interpretações, nomeadamente as de Jayne Meadows, que interpreta três diferentes personagens, e Audrey Totter, que aqui tem o seu primeiro papel importante.
Como curiosidade refira-se que a ficha técnica inclui a actriz Ellay Mort, a interpretar a personagem Chrystal Kingsby, que não surge no filme. A referência é uma brincadeira, já que a fonética do nome é semelhante à frase francesa “elle est mort” (ela está morta).



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Enviado por  em 22/11/2010
Robert Montgomery's subjective camera experiment, Lady in the Lake (1946). Original music for this trailer was composed by Rudolph G. Kopp, but David Snell scored the movie.