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domingo, 26 de setembro de 2010

A nova geração de escritores no ano da morte de José Saramago



Ípsilon
Vítor Ferreira
Ideologia

A nova geração de escritores no ano da morte de José Saramago

05.08.2010 - Raquel Ribeiro

A morte de José Saramago é o fim simbólico de uma geração politicamente comprometida. 
.Como é que os novos escritores lidam com a ideologia? O Ípsilon falou com aqueles que podem vir a ser os herdeiros do Nobel português
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A literatura pode viver até de uma forma conflituosa com a ideologia. O que não pode é viver fora da ideologia.
.José Saramago
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A morte de José Saramago em Junho representou o fim de uma geração politicamente comprometida, de uma literatura de causas, herdeira da luta contra o fascismo e a censura, do fim da ditadura, do colapso do Império, da transição para a democracia e da adesão à Europa.
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Este é o ano da morte de José Saramago. No seu obituário, no "Expresso", Clara Ferreira Alves escreveu que pode ser que "um dia um escritor ainda sem nome se sinta tentado a escrever um livro com este título", ecoando "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Porque, tal como nesse ano (1936), "este é um ano em que estão a acontecer muitas coisas, é um ano histórico e da história, um ano implacável, um ano de princípios e de fins".

Esse(a) escritor(a) pode ainda não ter nome, mas não significa que este ano, este Portugal, esta crise, este mundo em que vivemos não preocupem os nomes da nova literatura portuguesa. E também não significa que, apesar de lidarem de outra forma com o comprometimento ideológico na literatura, estes jovens escritores não tenham ideias muito próprias (ideológicas, até) sobre a função social (ou política) da literatura.

À sombra da montanha
A figura de José Saramago é uma "montanha na paisagem dos autores portugueses dos últimos 40 anos. E a sua sombra acaba por ser ampla", diz o escritor José Luís Peixoto, 35 anos. É à sombra da montanha Saramago que a nova literatura portuguesa terá de viver (para o bem e para o mal).
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Num artigo publicado pelo "Le Monde Diplomatique" de Julho, em homenagem a Saramago, João Tordo, 34 anos, escreveu que a morte do Nobel "marca o fim de uma era na literatura portuguesa", mas, ao mesmo tempo, "deixa o caminho aberto a uma nova geração que deve agora assumir-se, não como os 'herdeiros', mas como os viajantes nessa mesma estrada que o Nobel logrou abrir". Tordo afirma que "é responsabilidade dos que ficam (...) não deixar que esse caminho termine, abruptamente, num beco sem saída".

Nem todos querem percorrer essa estrada. Pedro Rosa Mendes, 42 anos, reconhece que vai criar inimigos em Portugal por dizer que, "enquanto leitor, humildemente, o grande romancista contemporâneo português é o [António] Lobo Antunes". Explica: "O que o Lobo Antunes tem a mais do que o Saramago como grande autor é a liberdade ideológica; é ser um homem livre. Várias vezes tive a sensação de que Saramago era um escritor aprisionado dentro de um homem livre nas suas opiniões, no sentido em que o homem era mais livre do que o escritor, mais livre do que a ficção que escrevia. Há um programa e há uma obrigação política na ficção do Saramago. Isso comporta a qualidade da coerência física, mas tem o grande problema da qualidade criativa."

É essa liberdade que talvez Saramago tivesse no princípio, antes dos "Ensaios", explica Dulce Maria Cardoso - antes dessa "acção totalitária de que todos temos de fazer o mesmo, de pensar como a massa, de votar em branco". Saramago era "uma espécie de autoridade moral, como se dissesse 'agora está tudo errado e eu vou mostrar como isto dever ser feito'. Tinha ideias muito claras acerca do mundo: havia os bons e os maus. É tudo muito mais complexo. A maioria dos activistas acha que é preciso um fundamentalismo para mudar as coisas. Quando isso acontece, cegamos. É perigoso."

Peixoto foi Prémio José Saramago em 2001. valter hugo mãe em 2007. João Tordo em 2009. Pedro Rosa Mendes nunca venceu um Prémio José Saramago - nem pode porque tem mais de 35 anos. Dulce Maria Cardoso, 45, também não. É, aliás, crítica da "obsessão com a juventude desta sociedade", e admite que isso também é uma contradição no prémio de que Saramago era patrono: "Ele é uma espécie de mito, a prova de que a força do trabalho e do talento resulta: nasceu pobre, nunca pertenceu à elite privilegiada e prova que, se nos esforçarmos e trabalharmos muito, chegamos lá. Começou a escrever muito tarde. Mas é o patrono de um prémio a que só se pode concorrer até aos 35 anos. Isso mostra o quão difícil é pôr a teoria em prática." Tendo em conta a idade com que começou a escrever regularmente, Saramago não teria podido concorrer ao seu próprio prémio.

Políticos apartidários
Para valter hugo mãe, o mundo mudou. Este já não é o tempo da escrita de Saramago, ideológica, política e socialmente comprometida. Acima de tudo, o que estes escritores não querem é pertencer a um partido: "O nosso tempo não se compadece com grandes paixões partidárias. O compromisso com o PCP do Saramago é mais do que uma preocupação política, é partidária. Perdemos a euforia pela construção de uma democracia que as pessoas da geração do Saramago tinham."
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Aqui, política e partidarismo não se confundem, tal como não se confundem o escritor com o cidadão. No caso de Saramago, o compromisso ideológico do escritor esteve sempre ligado ao marxismo ("Serve-me para compreender o mundo", disse o Nobel numa entrevista a Carlos Reis, em "Diálogos com José Saramago) e o compromisso político do cidadão esteve sempre ligado ao Partido Comunista.

Destes novos escritores não se pode dizer que sejam apolíticos. Pelo contrário: valter hugo mãe faz parte da comissão de honra da candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República. Aceitou o convite, pela segunda vez, "porque além de estar convicto de que ele é o Presidente ideal, é também o único candidato que poderá derrotar Cavaco" - "E eu não seria um saramaguiano convicto se não quisesse que Cavaco saísse", sublinha.

José Luís Peixoto já esteve ao lado do Bloco de Esquerda e participou activamente em campanhas eleitorais. Não é filiado. Mas separa essa participação da tarefa de escritor: "É uma forma de participação cívica que qualquer cidadão pode escolher ter. Não me inibo de a ter, mas acredito que os meus livros existem noutra dimensão." Considera-se "politicamente de esquerda": "Nunca me considerei de direita e não consigo compreender o que é o centro e como se é do centro. As minhas ideias sempre se inclinaram para esse lado esquerdo e pela forma como ele vem sendo desenhado desde os ideais da Revolução Francesa. Vejo as coisas de diferentes perspectivas: muda o próprio mundo e eu com ele."

Pedro Rosa Mendes, Dulce Maria Cardoso ou João Tordo, por nunca terem militado, não são necessariamente menos politizados. Mendes explica que nunca lhe "passou pela cabeça fazer política" e que os partidos políticos "são mais plataformas e aparelhos que determinam o que fazer para fazer política, e menos fóruns de ideias e de debate". Inscreveu-se numa juventude partidária quando era estudante de Direito, mas nunca foi às reuniões. O jornalismo também pode ter tido um papel nessa não-pertença. "Sou uma pessoa muito politizada. Interesso-me por política. É politicamente que olho para a realidade e isso determina e influencia a forma politizada como escrevo e a ficção que faço."

Dulce Maria Cardoso concorda. Como cidadã (e como escritora), tem uma opinião política ("só um cidadão lobotomizado não a tem"), mas diz que "a obra é uma coisa, a pessoa é outra". Na classe política, não confia: "Há tão pouca sinceridade que é muito difícil pensar seriamente na actividade partidária. Não há responsabilização pelos erros cometidos, há um desvio da coisa pública em função de interesses privados." Isso não quer dizer que a ficção não seja uma leitura política do mundo. valter hugo mãe: "Tudo o que escrevo há-de ter uma profundidade política subjacente, mas não estou disponível para abraçar partidariamente nenhuma orientação. Frustra-me, não me identifico rigorosamente com ninguém, enquanto não se resolver este modo inquinado de governar."

Há aqui um tom de profunda desilusão. E estas ideias vão ao encontro da eterna discussão sobre o divórcio entre os cidadãos e a política. João Tordo é um céptico convicto, desconfiado de toda a bondade humana: "Tenho uma permanente dúvida acerca de tudo. Sou incapaz de dogma, não posso ser partidário. Não tenho ortodoxias. Não sou inconformista nem sou rebelde. Voto, mas não participo em manifestações. Certas vezes reconheço que foi por desinteresse, grande parte das vezes foi por não acreditar." Mais do que políticos apartidários, estes escritores são cépticos politizados.

Mundos negros, outras causas

Mas a ideologia pode ser, nesta geração, outro tipo de compromisso. João Tordo afirma que esta crise económica o "preocupa pessoalmente": "Enquanto escritor, escreves sempre em resposta a alguma coisa. O mundo está a passar por um momento negro. Espero que as obras sejam uma reflexão sobre isso".
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Para Tordo, a literatura não tem de "ter um dever cívico": "Não acho que seja para propagar causas. Posso até fazer isso num livro, mas longe de mim educar alguém. Qualquer escritor que o faça intencionalmente cai no risco de se tornar um demagogo". O seu próximo romance sai no final do mês. Chama-se "O Bom Inverno" e, explica Tordo, "não tem nada de causa social, nem ensina nada a ninguém: são 12 pessoas fechadas num sítio, num bosque isolado. Não é um policial, nem é uma história de crime. É um estudo de personagens." Mas Portugal preocupa-o, porque "esta crise é a nossa ditadura". Está a preparar um romance que só sairá em 2011 "sobre um acontecimento que marcou a história política portuguesa, nos anos 50". O seu objectivo é "buscar um sentido para tudo isto, para a situação estranha que vivemos neste momento".

Tal como Tordo, Dulce Maria Cardoso sente-se incomodada com os abusos de poder, mas "tornar isto matéria literária não me interessa, e a literatura não serve para isso, serve para criar ficções, criar mundos". Nesse "apenas" que é a escrita de um livro está "a ambição toda do mundo". O seu segundo romance, "Os Meus Sentimentos", reflecte sobre o "desencanto com a forma como a Revolução acabou", e há "bufos do antigo regime que transitaram pacificamente de uma para a outra situação". Eles andam aqui, entre nós. A ideologia, explica Cardoso, "está na escolha das personagens": "Não é ao acaso que te surgem personagens com aquelas vidas: uma depiladora, um jornalista, um político."

Cardoso diz que se há uma "causa" nos seus livros, é a do sofrimento. "Alguém atento aos meus livros notará que sou contra o sofrimento animal. Mas não quero fazê-lo enquanto activista. Gosto mais de histórias. Mas sou sensível ao sofrimento de todas as formas, dos animais, dos injustiçados, dos que têm fome". No livro que está a escrever, reflecte sobre o retorno de Angola (de onde saiu na infância, via Ponte Aérea), o fim do Império e as suas consequências no Portugal contemporâneo.

Mais do que ideologia, diz José Luís Peixoto, "é a convicção que alimenta o livro". "A ideologia é, à partida, um sistema social e/ou político, a convicção pode ser outra coisa. O escritor, pela natureza do que faz, integra essa condição de uma forma implícita, não a escolhe. Acaba por comunicar sempre com a sociedade". Mas não deve "delinear a papel químico as suas convicções políticas": o livro deverá ser "o mais completo e humano possível, e o humano é constituído por muitas e complexas vertentes", argumenta. Aliás, "Nenhum Olhar" é exemplo de como Peixoto não acredita que "os textos devam ser uma fotocópia de convicções do autor": aquelas personagens "não encontram uma saída, deixam-se abater perante as dificuldades", explica. Para Peixoto, a escrita é bondade, o altruísmo "é um órgão essencial ao seu funcionamento". "Se partir logo sem essa bondade, é vazio. Com isto não quero dizer que não tenha lá, explícita, uma ideia social ou uma utopia. Mas quero que tenha uma bondade, e que a esperança nessa bondade se multiplique". No seu novo romance (sai no Outono), "Livro", Peixoto traça um retrato de Portugal dos anos 40 até aos nossos dias. É sobre a imigração, mas "é sobre muitas mais coisas". Quando o tempo narrativo chega à actualidade, "confronta-se a visão que os imigrantes têm de Portugal e, através dela, tenta-se reflectir sobre o país. Não sendo um manifesto social, tem uma dimensão sociológica", diz.

O real social
valter hugo mãe admite que é em livros como "O Apocalipse dos Trabalhadores" que faz a sua política. Esse livro é uma "moção de sobrevivência no limiar da dignidade laboral. É a história de duas mulheres-a-dias aquém do sistema. Nem se pode falar [aqui] da precariedade dos recibos verdes, porque a mulher-a-dias é uma excrescência do tecido laboral." O livro mostra como, dentro dessa estigmatização, aquelas mulheres conseguem atingir "uma utopia da felicidade". É essa a "perspectiva útil da literatura" em que mãe acredita. "Não a literatura esgotada numa função, tem de ter sempre uma componente estética, mas uma literatura que sirva o leitor. Interessa-me que os livros sejam contra a indiferença, contra a desmobilização. Esse era o bastião de Saramago, incitar as pessoas à consciencialização." O mesmo se passa em "A Máquina de Fazer Espanhóis", por exemplo, sobre a estrutura das novas famílias, o desprezo pela terceira idade ou a herança histórica de uma geração de portugueses.

Para Pedro Rosa Mendes, a ficção "não é uma forma de fazer política". Sente, aliás, uma desconfiança em "relação à politização da ficção". Mas há algo que lhe interessa: "Uma dimensão política da realidade." Em "Peregrinação de Enmanuel Jhesus", Rosa Mendes não está "ali a defender nada, não há um programa político, não há um a favor e um contra. No entanto, o livro é profundamente político porque todas as vozes são as vozes de um projecto de sociedade ou de uma postura filosófica perante aquele mundo". Não são as dele, lá está: "Isso faço noutro lado." O jornalismo dá-lhe a realidade. Essa ideia de real é que é importante. "O real é essencial: não estou a escrever sobre o meu mundo ou a minha depressão", sublinha, para logo acrescentar: "Os meus botões são infinitamente menos importantes do que as coisas que eu vi."
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"A criação portuguesa", lamenta, "é muito virada para si própria, onírica e introspectiva". Nesse sentido há "um défice de real", e a realidade torna-se "sempre aquilo que estamos a viver dela". Mas há outra, há outras. "A política é isso: um exercício de imaginação apartir da realidade, uma utopia, e isso faz a história do indivíduo com o mundo."
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sábado, 4 de setembro de 2010

Mais e mais livros para a "rentrée"

Ípsilon

A Caminho vai reunir toda a poesia de Sophia num só volume
Lançamentos.
26.08.2010 - Raquel Ribeiro



Sophia de Mello Breyner, Maria Gabriela Llansol, Primo Levi, Maria Filomena Mónica e muitos mais marcam o regresso pós-estival.
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Na semana passada, o Ípsilon desenrolou a "rentrée", mas há livros que continuam "enroladinhos" à espera da data certa para sair até ao final do ano. Na poesia, Armando Silva Carvalho publicará, na Assírio & Alvim, "Anthero, areia & água" (poemas inéditos escritos após o Grande Prémio de Poesia APE em 2008) e Adília Lopes, também na Assírio, regressa aos inéditos com "Apanhar ar". De um dos maiores poetas italianos do século XX, Umberto Saba, a Assírio & Alvim publica "Poesia - uma antologia de Il Canzoniere", com selecção, tradução, introdução e notas de José Manuel de Vasconcelos. Pela mão da Caminho chega também toda a poesia de Sophia de Mello Breyner reunida num só volume, organizado pela professora e ensaísta Maria Sousa Tavares, filha da poeta, e o professor da Universidade do Minho Carlos Mendes de Sousa.
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O segundo volume dos cadernos inéditos de Maria Gabriela Llansol, "Um arco singular - Livro de horas - II volume" (Assírio & Alvim), deverá sair por altura das segundas Jornadas Llansolianas, que decorrem a 25 e 26 de Setembro no Centro Cultural Olga Cadaval. Com "O casamento, fragmentos e cenas", traduzido por Nina Guerra e Filipe Guerra, a obra de Gógol fica agora completa na Assírio.
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A Cotovia publicará "O dever da memória", de Primo Levi, do autor de "Se isto é um Homem", "Quanta, Quanta Guerra", o único relato (apocalíptico) da guerra pela maior escritora catalã, Mercé Rodoreda, e o "caderno" mais famoso de Josep Pla, "O Caderno Cinzento". 
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Um dos mais importantes historiadores contemporâneos, Orlando Figes, investiga a vida privada dos milhões de soviéticos que, durante o estalinismo, se viram obrigados a sussurrar, em "Sussurros - Vidas Privadas na Rússia de Estaline" (Alêtheia). Maria Filomena Mónica continua a investigar os Açores e vai publicar "Os Cantos - A Tragédia de uma Família Açoriana", também na Alêtheia. Na mesma editora, Vasco Graça Moura publica "O Mestre de Música", uma novela que dá seguimento ao "O Pequeno-Almoço do Sargento Beauchamp", de 2008.  A Ulisseia, a chancela mais literária do grupo Babel, vai publicar primeiras traduções para português: "Tapeçaria do Sinai", do escritor americano Edward Whittemore; "A Traição de Rita Hayworth", de Manuel Puig, autor de "O Beijo da Mulher-Aranha", originalmente publicado em 1968. 
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Ainda na Ulissei, há  contemporâneos por estrear em Portugal: Manuel Manzano, com "O Capitão das Sardinhas" (romance que a "Vanity Fair" definiu como uma mistura de Stieg Larsson com Roberto Bolaño); Andrey Bely (escritor russo considerado por Nabokov um dos maiores da transição do século XIX para o XX), com "Petersburgo"; e Steve Toltz, com "Uma Parte do Todo". E muitos regressos de "autores de culto que pouco ou nada têm sido divulgados" em Portugal: Onetti, Conrad, Guimarães Rosa, Joseph Roth, Pavese, Max Aub, Stefano Benni, Henrich Böll, Bukowski... 

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

São José Almeida abriu o armário dos homossexuais na ditadura

Ípsilon


Estado Novo

São José Almeida abriu o armário dos homossexuais na ditadura

07.07.2010 - Raquel Ribeiro

"Os Homossexuais no Estado Novo" traça a homossexualidade (masculina e feminina) durante o Estado Novo, reescrevendo a história século XX português 
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Na apresentação do livro "Os Homossexuais no Estado Novo", de São José Almeida (ed. Sextante), há um mês, no Porto, a poeta e professora universitária Ana Luísa Amaral começava por questionar, citando Judith Butler (uma das mais proeminentes investigadoras americanas em estudos "queer" e activista de direitos LGBT), qual a necessidade de se falar em direitos dos homossexuais quando a Palestina ainda estava sob domínio israelita. Resposta de Butler: "Tudo tem a ver com a violência, por isso é impossível estabelecer prioridades."

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Ao Ípsilon, Ana Luísa Amaral completou esta ideia, explicando, a propósito do livro da jornalista do PÚBLICO São José Almeida, que "a forma mais conservadora de dar prioridade a determinados assuntos é dizer que assuntos políticos, como a crise económica, são mais importantes". "Não me parece: todos eles exibem violência. Uma sociedade que resolve as suas crises económicas, mas não resolve as suas crises sociais e de identidade, é uma sociedade injusta também." Nesse sentido, continua Amaral, "Os Homossexuais no Estado Novo" é um livro "completamente político, porque os assuntos de visibilidade são sempre políticos, digam respeito aos sem-abrigo, aos homossexuais ou às mulheres".

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Esta obra começou por ser uma investigação jornalística de São José Almeida sobre como viviam os homossexuais durante o Estado Novo, publicada na revista "Pública" no Verão de 2009. A autora explica na introdução que a investigação não parou aí, ainda que este seja um princípio, "um livro inacabado", ou até uma porta que se abre para um caminho que a sociedade portuguesa deverá percorrer de forma a "revisitar a história", e "se reencontrar consigo mesma". É altura, escreve, "de Portugal começar a ajustar contas com a História".

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Uma história de Portugal

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São José Almeida colige uma pesquisa totalmente original reunindo uma série de vozes de especialistas portugueses e estrangeiros, de testemunhos pessoais, de investigações, mas também recorrendo a um enquadramento teórico, científico e jurídico das problemáticas envolvendo a homossexualidade no século XX português. António Fernando Cascais, professor na Universidade Nova de Lisboa e especialista em história da homossexualidade em Portugal , é uma das fontes fundamentais usadas pela jornalista para compor a história dos homossexuais durante a ditadura. Ao Ípsilon afirma que esta investigação "é uma incursão num terreno que não estava pura e simplesmente desbravado".

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Almeida traça a história da homossexualidade em Portugal entre 1912 (ano da Lei sobre a Mendicidade) e 1982, quando entra em vigor o novo Código Penal (de que foram eliminados os artigos 70º e 71º, referentes àqueles que "se entreguem habitualmente à pratica de vícios contra a natureza"). A autora mostra como a homossexualidade é a "sexualidade transgressora numa sociedade patriarcal", sublinhando dois eixos no contexto português: um referente à "diferença de classe social, a diversidade de tratamento para quem é das elites e das aristocracias do regime e para quem é do povo"; e outro relacionado com os não-ditos, os silenciamentos, a "inexistência de uma identidade" que permita uma noção de comunidade, "partilha de grupo", comum durante estes anos. Ouvindo um número considerável de testemunhas que contam, em primeira mão, as suas experiências vividas sob a ditadura, São José Almeida demonstra os dois pesos e as duas medidas do regime relativamente aos homossexuais (das elites e das classes baixas), tendo em conta como a "repressão e a exclusão social a que estavam votados no Estado Novo levavam a que a sua vivência - em que a sexualidade ocupa um lugar central, como em todas as pessoas - fosse relegada para uma semi-clandestinidade, uma espécie de submundo, muitas vezes identificados como os 'bas-fonds' e o crime".

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Este trabalho mostra, assim, como a história dos homossexuais no Estado Novo é, no fundo, coincidente com a história do próprio país durante esse período e da resistência ao regime. "Evidentemente que os homossexuais, enquanto grupo, nunca é apenas aquilo que é: é aquilo que é mais o que lhe acontece. É uma história do país durante esse período, uma história do regime e das suas características", explica Cascais.

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Ana Luísa Amaral diz que a obra "dá voz às vozes que estiveram em silêncio durante esse período", e são os testemunhos que a professora diz poderem vir a ser úteis nas suas aulas de Introdução aos Estudos Feministas, na Universidade do Porto, por exemplo: "Alguns testemunhos são muito importantes, pungentes, até. Esta disciplina pode sensibilizar os alunos para questões sobre o outro, aprender a ver o outro como um semelhante. Quem está ali podia ser eu. Mas [os testemunhos] também [servem] para os alunos se chocarem e se sensibilizarem com a estupidez da violência pela qual estas pessoas tiveram de passar." A noção de testemunho é sublinhada por Cascais que diz que "Os Homossexuais no Estado Novo" é, em termos metodológicos, "uma história oral, na primeira pessoa". Mas há uma "relevância histórico-política" que tem que ver com a "dar voz a quem não a tinha, reescrever a história noutros termos que não nos existentes: os do silenciamento, do enviesamento, dando rosto a estereótipos, humanizando-os."

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Poetas e escritores, pioneiros

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Salientando sempre a diferença de classes que se estabelecia na "comunidade" homossexual em Portugal (entre aspas porque, precisamente, essa comunidade não existia enquanto tal), a autora recorre a exemplos das artes e da literatura que, até certo ponto, foram pioneiros de uma forma de sentir a sexualidade durante a ditadura (António Botto, Eugénio de Andrade, Mário de Cesariny, Natália Correia, João Villaret, entre muitos outros). Essa é também a leitura de Eduardo Pitta no livro "Fractura - A condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea" (2003), onde textos de autores portugueses são analisados segundo uma perspectiva "gay" ou "queer".

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Nos anos 20, "uma nova ordem se anuncia", com a censura dos livros e posterior ostracização dos poetas Judith Teixeira, Raul Leal e António Botto. Botto foi saneado e exilou-se no Brasil no final dos anos 40. Citando Cascais, a autora escreve: "A partir daí, a homossexualidade exprime-se na literatura de forma cifrada, críptica. [...] Ninguém queria ter a sorte de Botto e de Teixeira, o próprio Eugénio de Andrade disse que não queria pagar em vida o que Botto pagou." Só mais tarde, na geração dos surrealistas com Cesariny (o "único homossexual português?", pergunta ironicamente Almeida), com Natália Correia e Ary dos Santos haveria uma maior abertura (social e até política) relativamente à homossexualidade.

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A referência a figuras de proa da literatura portuguesa pode ser polémica, nomeadamente no que diz respeito ao caso Jorge de Sena, já falecido, mas cuja família está ainda hoje viva. Ana Luísa Amaral diz que o livro de Almeida levanta a questão dos limites entre o público e o privado de "forma interessante": até que ponto, pergunta Amaral, "é que se deve questionar a eventual homossexualidade de Jorge de Sena partindo ou de entrevistas, ou do texto do autor? É complexo e polémico. Essa questão é saudável porque pode levantar um debate interessante sobre a crítica literária em Portugal."

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O "caso" Sena diz respeito à suposta homossexualidade do autor de "Sinais de Fogo", ainda hoje tido por vários especialistas como um dos romances pioneiros da literatura "queer" em Portugal. Citando Fernando Dacosta, a autora escreve: "[Sena] casou. Fazia, praticamente, um filho por ano, o que é uma atitude muito normal nos homossexuais. Conheci-o". Dacosta conta (corroborado por Eduardo Pitta) que Sena foi expulso da Marinha por ter sido apanhado com um rapaz. O conto de Sena, "Grã-Canária", incluído em "As Andanças do Demónio" é, "nesse sentido, autobiográfico", conta Pitta à autora. São José Almeida explica como a polémica estalou em 1982 quando o "Expresso" apresentou um trabalho de Arnaldo Saraiva sobre a homossexualidade em Jorge de Sena. Grupos de intelectuais escreveram cartas inflamadas (e indignadas) sobre o assunto. Para a autora, o "caso" Sena é, por isso, exemplar de toda a sua investigação: "Pela forma como tem sido interpretado e pelas polémicas que tem gerado, [Sena] é demonstrativo de como os passos para identificar as referências que permitam a construção de uma identidade 'gay' em Portugal são, muitas vezes, impossíveis de dar até muito tarde no século XX português".

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Mulheres e linguagem

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Além da história oral, o enquadramento científico e jurídico do homossexual é uma das mais-valias do livro de Almeida. Com base nas teorias de Egas Moniz e Asdrúbal António de Aguiar, da década de 20 do século passado, a autora explica que a homossexualidade era "vista como doença, que pode e deve ser tratada, e como perversão, que tem de ser corrigida, a bem da nova ordem social burguesa". Essa percepção (e as categorias desenvolvidas a partir desta) dominou o discurso oficial na ditadura.

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Para Ana Luísa Amaral, este enquadramento é uma primeira contribuição para a criação de "um léxico inclusivo para a cidadania". Isto quer dizer que "designações, categorias, o próprio conceito de homossexual e a sua naturalização, conceitos que dizem respeito às sexualidades, tornam-se abertos a toda a sociedade". O livro mostra, portanto, "como se esboroaram essas categorias e é um novo léxico que se vai construir". Cascais concorda: "Normalmente, os homossexuais não têm história, têm uma tipologia de doença, têm uma patologia." Com este livro, "isto está desfeito. A outra coisa que está desfeita é o preconceito histórico de que uma história dos homossexuais diz apenas respeito aos homossexuais, é uma micro-história ou a história de uma minoria. Ora, não há histórias só de minorias, porque as minorias nunca estão isoladas."

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Anna Klobucka, investigadora de Estudos Portugueses na Universidade de Massachusetts-Dartmouth, nos Estados Unidos, tem-se debruçado sobre questões de género e teorias feminista e "queer" na literatura portuguesa. "Do meu ponto de vista, que é também o da minha agenda de pesquisa e daquilo que me interessa pessoalmente, o que me parece mais útil e original [neste livro] é que permite desenvolver uma perspectiva de análise muito mais bem informada sobre o que se poderia chamar, segundo o livro de Eve Sedgwick, a 'epistemologia do armário português'." A ideia de "armário" (ou neste caso da sua "abertura", com o livro de Almeida) é, diz Klobucka, "um fenómeno universal no ocidente" que tem a ver com a relação que a homossexualidade estabelece com o (in)cumprimento "das regras em vários contextos culturais". Mas há diferenças entre países e épocas: "Usar fontes que se baseiam na realidade dos EUA ou da Inglaterra, ou mesmo de Espanha, para pensar e analisar o caso português é deslocado." O contexto português "é bastante distinto de outros que tenho estudado em obras teóricas e isso é muito precioso".

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O "armário" aqui aberto está na voz dos testemunhos, mas também no facto de Almeida tentar estabelecer sempre uma certa paridade entre a homossexualidade feminina e masculina. A autora escreve que, na história, a "mulher surge sempre como segunda figura", e a "concepção do lesbianismo" é decalcada da dos homens. Nesse sentido, tanto para Klobucka como para Ana Luísa Amaral o capítulo dedicado ao lesbianismo, "Mas isso existe?", é relevante. Klobucka afirma que a autora "faz muito com o pouco material que tem", dando máxima "inclusividade à esfera do lesbianismo que é particularmente invisível e usualmente mal documentada por comparação à homossexualidade masculina na cultura portuguesa". Klobucka acrescenta ainda que "a situação das mulheres portuguesas durante o Estado Novo era muito diferente do estatuto social dos homens e naturalmente a questão homossexual também tem de ser construída de uma forma diferente".
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