Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
terça-feira, 7 de abril de 2026
Raquel Varela - {Entre Saramago e Mário de Carvalho}
sexta-feira, 14 de novembro de 2025
Entrevista de Sérgio Lavrov ao Corriere della Sera
! !️ Pontos-chave das respostas de Sergey Lavrov, que o jornal italiano
censurou.
🔻 A crise na Ucrânia foi provocada pela política de longo prazo do Ocidente de minar a Ucrânia e arrastá-la para a OTAN, contrariando suas promessas e nossa segurança.
Leia a entrevista completa no site do MFA Rússia: https://mid.ru/en/foreign_policy/news/2058998/
sábado, 1 de novembro de 2025
Jaime Nogueira Pinto - O escudo democrático
* Jaime Nogueira Pinto
Colunista do Observador
Liberalíssimos democratas a defender a proibição das redes sociais, esse tentacular polvo de caótica e amoral informação alternativa, a bem da Democracia e da luta contra o Fascismo?
01 nov. 2025,
A Comissão Europeia tem comissários para tudo. Mas há um que tem um pelouro mais exigente do que os outros. Trata-se de Michael McGrath, Comissário Europeu para a Democracia, Justiça, Estado de Direito e Protecção do Consumidor.
Ora, dada a dimensão do campo de
batalha e não estando o manipulado povo, o desinformado demos, de
feição, parece que para proteger a Democracia, o Estado de Direito e o
Consumidor, só mesmo instalando um Escudo. Um Escudo Democrático, contra o
exército de desinformadores que, processo eleitoral a processo eleitoral,
incessantemente trabalha na sombra para transviar o incauto povo europeu.
A fim de sensibilizar as massas
para a implementação do dito Escudo, McGrath resolveu então organizar um debate
na Comissão Europeia sob o título “A necessidade de um Escudo Democrático
Europeu para fortalecer a Democracia, defender a UE da ingerência estrangeira e
das ameaças híbridas e proteger os processos eleitorais na União Europeia”.
Assim, no dia 9 de Outubro, depois
de desfiar os perigos que ameaçavam o futuro da Democracia na Europa, McGrath
passou a tranquilizar as hostes para que não caíssem em desânimo, dando-lhes a
boa-nova: graças à contribuição do Parlamento Europeu, dos Estados membros e
até de cidadãos anónimos, o Democratic Shield estava pronto a
ser “implementado”!
O Escudo Democrático vinha, assim,
socorrer a Europa, respondendo ao premente desejo dos cidadãos europeus,
conforme expresso em inquérito realizado entre 31 de Março e 26 de Maio deste
ano. Para o comissário, as 5 mil respostas ao inquérito (num universo de 400
milhões de eleitores) eram, já de si, um sinal positivo. Uma grande riqueza, a
participação entusiástica dos cidadãos da Europa. É certo que, dos 5 mil
cidadãos que responderam à consulta, só 79 se mostraram favoráveis à
implementação do dito Escudo, mas não seria isso mais uma prova das “ameaças
híbridas” e das “ingerências estrangeiras” que andavam no ar?
Em contrapartida, das 94
organizações não-governamentais inquiridas – que, essas sim, estavam no terreno
–, só 8 se tinham oposto ao Democratic Shield. Os canais de
desinformação, que moram lá para os lados das “redes sociais”, apressaram-se a
sugerir que a discrepância talvez se devesse ao facto de a maior parte das ONGs
ser financiada pela própria Comissão Europeia… Mas não eram os cidadãos
europeus também financiados, e até agraciados, pela Comissão, com comissões,
debates, recomendações, subsídios e altos funcionários que permanentemente
trabalhavam em sua defesa e em defesa da Democracia?
Independentemente dos inquéritos,
o Escudo Democrático impunha-se; até para conter as escolhas eleitorais de
povos cada vez mais manipulados e desinformados, que insistiam em ameaçar a
Democracia, apesar dos inúmeros avisos da imprensa de referência e das inúmeras
recomendações e sanções das inúmeras comissões.
À beira de um ataque de
nervos
O Escudo do comissário do povo
europeu Michael McGrath é só um exemplo da forma mais organizada e
institucional que a reacção sistémica ao “voto do povo” tem vindo a tomar. A
prática de recorrer a instrumentos jurídicos para, em nome da Democracia, proibir
ou tornar ilegais eleições “que não correram bem” e prevenir as que poderão não
correr bem, parece ter-se normalizado. A primeira volta das eleições na
Roménia, por exemplo, foi anulada porque o “candidato errado” estava à frente;
igualmente esclarecedora, é a tentativa de impôr a Marine Le Pen uma sentença
extraordinária por ter como funcionários no Parlamento Europeu alguns dos seus
quadros partidários, prática generalizada entre os partidos franceses e
europeus.
Também em Portugal – e logo num
momento de grandes elogios à actividade jornalística e ao papel da liberdade de
pensamento e de escrita no nascimento e consolidação da Democracia – parece
haver partidários dos “escudos democráticos”, nomeadamente contra as
famigeradas “redes sociais” (como se “as redes sociais” fossem uma realidade
unívoca e unilateral, e como se a desinformação, o discurso de ódio e os
disparates só por lá andassem). A alternativa, supomos, seria ficarmos
unicamente com os chamados jornais de referência e com uma aturada selecção de
respeitáveis pivots e comentadores televisivos, capazes de
informar democraticamente o povo, com a decência, o rigor, a objectividade, a
correcção e a actualidade que a Democracia exige. (No Domingo passado, quando
já se sabiam os resultados na Argentina, um dos canais de referência, atido
ao wishfull thinking das sondagens e a uma suposta vitória dos
peronistas em Bueno Aires, ainda dava Milei a perder as eleições parlamentares
na Argentina).
Liberalíssimos democratas a
defender a proibição das redes sociais, esse tentacular polvo de caótica e
amoral informação alternativa, a bem da Democracia e da luta contra o Fascismo?
O mesmo Fascismo instituído pelo Estado Novo, esse “bafiento regime de terror”,
que censurava tudo o que era amoral e…alternativo?
Com todo este “ó tempo volta para
trás”, só podem estar à beira de um ataque de nervos.
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Domingos Lobo - Toda a Longa Noite, de Erskine Caldwell
ll
* Domingos LoboErskine Caldwell foi, entre nós, nos anos 1960-70 do século transacto, um dos mais populares escritores
A pretexto do conflito na Ucrânia, a senhora Ursula von der Leyen encetou uma campanha ideológica e persecutória contra Moscovo, criando anátemas inibidores e proibindo, democraticamente, o acesso dos europeus da UE às estações de televisão russas, ou seja, inviabilizando o contraditório e a nossa dialéctica capacidade de análise, e a tudo o que ressumasse cultura vinda do grande país do leste europeu. Tolstoi, Gorky, Gogol, Chólokhov, clássicos da literatura universal, foram ostracizados, a eles juntando músicos da dimensão de Tchaikovski, Rachmaninoff, Shostakovitch, Prokofiev ou Rimsky-Korsakov, vítimas de uma saga miserável de tentativa de banir do nosso convívio a cultura de um povo, e da humanidade em geral, modo perverso de exclusão que nem o fascismo de Salazar/Caetano ousou empreender.
Aquando da publicação entre nós do livro Alma Russa1, de Joseph Conrad, pela Livraria Civilização, em 1945, e proibido pela PIDE em 1947, ainda no rescaldo do inelutável contributo da URSS para a rendição do exército nazi e do fim da guerra, um atento censor, num primeiro impulso de rejeição, elaborou o seguinte relatório: «É um livro de propaganda revolucionária passado ainda no tempo dos Czares. Julgo que deve ser proibido porque este e muitos outros livros que pejam o nosso mercado têm o fim inconvenientíssimo de alimentarem a mística russa.» Ora, este magnífico romance de Conrad nada tem a ver com a Rússia temida pelos fascismos, saída da Revolução de Outubro, passa-se entre um grupo de Cossacos em luta contra a opressão Czarista e desenvolve-se em torno de Razunov, no fundo um rapaz vulgar, mas dotado de uma enorme capacidade de trabalho e de sensibilidade, que o leva a dizer que é russo apenas, e mais nada, a indómita vontade, a moral de Razunov e a sua luta contra as injustiças farão dele, e dos seus camaradas de jornada, a encarnação da Alma Russa.
Do escritor americano Erskine Caldwell acaba de ser publicado, numa pequena edição já praticamente esgotada, pela mão do editor Leonardo de Freitas, um dos seus títulos mais emblemáticos, o qual foi publicado em Portugal, antes do 25 de Abril, sob o título «Guerrilheiros Russos», edição que, no entanto, foi censurada pelo fascismo. Trata-se de Toda a Longa Noite (All Night Long). Erskine Claldwell foi, entre nós, nos anos 1960-70 do século transacto, um dos mais populares escritores, com títulos como A Estrada do Petróleo, A Jeira de Deus, O Pregador e Certas Mulheres, sendo uma das grandes e inquestionáveis vozes do neo-realismo norte americano.
O seu romance Toda a Longa Noite traça o retrato poderoso e realista da saga dos partisans russos, em defesa da sua Pátria contra o terror nazi. A 22 de Junho de 1941, três milhões de tropas nazis invadiram a União Soviética. Juntamente com o Exército Vermelho, milhares de patriotas, gente simples do povo, trabalhadores dos campos e das oficinas, encetaram uma luta comum contra o poderoso exército de Hitler, impedindo chacinas, violação de mulheres, fuzilamentos bárbaros (p. ex., passando com os tanques sobre os corpos da população indefesa), roubos e destruição de aldeias inteiras, fuzilando os presidentes do Soviete, exibindo nas praças as mulheres nuas depois de as violarem. Havia dúzias e dúzias de brigadas de partisans a oeste do rio Dniepre, e centenas entre o Báltico e o Mar Negro. Algumas das brigadas situadas entre Smolensk e Minsk tinham proporções de regimentos. No longo Inverno Russo, a acção conjugada dos partisans foi fundamental para impedir ou minorar a progressão das tropas hitlerianas, boicotando equipamento, destruindo camiões de abastecimento, libertando mulheres, crianças e velhos sequestrados pelos nazis.
Erskine Caldwell afirma-se neste livro como um exímio narrador e um corajoso e intenso historiador social, rendido à força e à determinação de um grupo de guerrilheiros, os quais, quase sem meios, enfrentaram a besta fascista: Sérgio, tal como Razunov, é um típico homem do povo russo, um campónio cândido, forte, obstinado, movido pelos impulsos perenes da alma russa a que os valores soviéticos deram um novo vigor. Tal como os seus companheiros de luta, Natacha, Fedor, Pavlenko ou Maria Makarova, parecem, na prosa poderosa e sagaz de Caldwell, personagens históricas arrancadas das páginas de Tolstoi, Gogol ou Gorki.
Leonardo de Freitas, com escassos meios, não quis deixar de trazer para os nossos dias este grande épico, sabendo-o imprescindível para os complexos tempos em que o ódio ao outro campeia, inexorável e sem cautelas, junto com a ignorância, mesmo que numa tradução brasileira pouco cuidada, de 1942.
domingo, 28 de setembro de 2025
Cory Doctorow - NÃO PODES LUTAR CONTRA A MERDA
* Cory Doctorow,
Medium. Trad. OLima.
É preciso
dizer-te algo desagradável: as tuas escolhas pessoais de consumo não farão uma
diferença significativa na quantidade de merda que enfrentas na tua vida.
Claro, podes
fazer pequenas alterações, e deves fazê-lo! Comprar um portátil reparável, como
o Framework, que é o melhor computador que já tive, e instalar o Linux nele (eu
uso o Ubuntu, que é fácil de instalar). Passarás duas semanas a procurar na
interface do utilizador o que precisa clicar e, depois, deixarás de notar isso
para sempre.
Acede à
Internet através de RSS e evita toda a manipulação algorítmica e vigilância que
te obriga a ti e os seus às depredações das piores pessoas do mundo e dos seus
algoritmos selvagens.
Prefira
ferramentas de mensagens privadas e abertas de alta segurança, como o Signal.
Abre uma conta num serviço de rede social federado, como o Mastodon, e torna-a
o principal local para a sua vida social online.
Faz tudo isso!
Faz mais! Tornarás a tua vida um pouco melhor e, em alguns casos, muito melhor.
Mas não vais combater a merda dessa forma. A merda não é o resultado de pessoas
a fazerem más escolhas: é o resultado de más políticas que produzem maus sistemas.
A merda é uma
descrição clara, que fala sobre como as plataformas se tornam ruins. Eis como
as plataformas morrem: primeiro, são boas para os seus utilizadores; depois,
abusam dos seus utilizadores para melhorar as coisas para os seus clientes
empresariais; finalmente, abusam desses clientes empresariais para recuperar
todo o valor para si próprias.
Mas a parte
mais importante da merda é a sua hipótese causal: a resposta que propõe para
explicar por que razão esta degradação está a acontecer em todo o lado, neste
momento.
Eis porque
estás a ser prejudicado: decidimos deliberadamente deixar de aplicar as leis da
concorrência. Como resultado, as empresas formaram monopólios e cartéis. Isto
significa que não precisam de se preocupar em perder os seus negócios ou mão de
obra para um concorrente, porque não competem. Isso também significa que elas
podem facilmente controlar os seus reguladores, porque podem facilmente chegar
a um acordo sobre um conjunto de prioridades políticas e usar os biliões que
acumularam ao não competir para controlar os seus reguladores. Elas podem
controlar os seus antigos e poderosos trabalhadores de tecnologia,
despedindo-os em massa e aterrorizando-os para que abandonem qualquer pretensão
inspirada em Tron de «lutar pelo utilizador». Por fim, podem usar a lei de
propriedade intelectual para silenciar qualquer pessoa que crie tecnologia que
desvalorize as suas ofertas.
Podes tomar
cuidado para evitar a merda, podes até mesmo fazer disso um fetiche, mas sem
resolver essas falhas sistémicas, as tuas ações individuais não te levarão
muito longe. Claro, usa ferramentas que aumentam a privacidade, como o Signal,
para comunicar com outras pessoas, mas se a única maneira de levar o teu filho
ao jogo da liga infantil é entrar no grupo de boleias no Facebook, vais
partilhar dados sobre tudo o que fazes para a Meta.
Da mesma forma,
podes usar bloqueadores de anúncios que preservam a privacidade no teu
navegador, mas no momento em que tiveres que fazer negócios com um monopólio
que exige que uses a aplicação deles, ficarás totalmente indefeso diante deles,
porque a lei antievasão criminaliza a modificação de uma aplicação para
preservar a sua privacidade. Uma aplicação é apenas uma página da web revestida
com o tipo certo de lei de propriedade intelectual para tornar a instalação de
um bloqueador de anúncios um crime passível de prisão.
Quando todos os
teus amigos vão a um festival, vais mesmo desistir de ir porque o evento exige
que uses a aplicação Ticketmaster (porque a Ticketmaster tem o monopólio da
venda de ingressos para eventos)? Se sim, não vais ter muitos amigos, o que é
uma péssima maneira de viver
Se
transformares a tua campanha pessoal para viver uma vida livre de merda num
conjunto de práticas rígidas que te isolam da tua comunidade, ficarás infeliz —
e prejudicarás a tua capacidade de lidar com as raízes sistémicas da merda.
Isso porque problemas sistémicos têm soluções sistémicas. Eles são abordados
por meio de movimentos de massa, litígios de impacto, ação política, revoltas
de rua, ajuda mútua e outras formas de solidariedade e comunidade.
Os monstros que
beneficiam do status quo não querem que saibas disso. Eles querem fazer uma
lavagem cerebral em ti com o mantra de Margaret Thatcher: «A sociedade não
existe». Eles querem que penses que és um indivíduo patético e atomizado. Eles
querem que morras numa onda de calor enquanto expressas o teu profundo
arrependimento por não reciclares mais diligentemente e não teres mais cuidado
com a tua «pegada de carbono». Querem que conduzas durante horas à procura de
um vendedor independente de cartão para fazeres o teu cartaz de protesto,
convencido de que é mais importante evitar fazer compras na Amazon do que
realmente aparecer no protesto em frente ao armazém da Amazon. Querem que te
amaldiçoes por não andares de bicicleta e apanhares o autocarro na tua cidade,
onde não há ciclovias e os autocarros passam a cada 45 minutos e param às 20h.
Se querias uma cidade habitável, deverias ter feito melhores escolhas de
consumo! Talvez pudesses cavar o teu próprio metro, já pensaste nisso, hmmm?
Tu, eu e todos
que conhecemos fomos submetidos a uma campanha de 40 anos de propaganda
antissolidária, com o objetivo de nos convencer de que só podemos lutar contra
o sistema como indivíduos. Não gostas do teu plano de saúde? Procura outro! Não
gostas do teu chefe? Despede-te! Nunca deves defender um sindicato ou um
sistema de saúde socializado. Tu és um indivíduo, a sociedade não existe. «Não
existe tal coisa como sociedade» é o que se diz quando se beneficia da
sociedade (que existe, sem dúvida) e não se quer que ela mude.
Para fazer
mudanças, é preciso existir na sociedade. Sim, o Partido Democrata é uma
gerontocracia fraca e patética, mas os Socialistas Democráticos, o Movimento
Sunrise e outros grupos políticos independentes dos democratas, mas que ainda
assim os levam a fazer algo de bom, às vezes, merecem o seu apoio. Sim, o
movimento sindical desperdiçou os anos de Biden, recusando-se a gastar as suas
reservas de dinheiro recordes na organização, apesar dos milhões de
trabalhadores implorarem para se filiarem nos sindicatos. Mas a democracia no
local de trabalho continua a ser a única maneira que temos — ou teremos — de
derrotar o capital, então filia-te num sindicato, forma um sindicato, apoia um
sindicato.
Sim, a
reciclagem do plástico é uma farsa criada pela indústria petroquímica e todo o
plástico que coloca no seu caixote azul vai para uma incineradora ou para um
aterro, mas se não apoiares (e se juntares a) verdadeiros ativistas ambientais,
vais ser queimado vivo.
Sim, Israel
está a cometer um genocídio e Brown, Columbia e outras universidades de elite
estão a capitular perante Trump, cuja base evangélica acredita que a guerra em
Israel acelerará a Segunda Vinda, quando todos os judeus serão condenados à
condenação eterna. Mas isso não te isenta da responsabilidade de agires para
defender os nossos irmãos e irmãs palestinianos da morte que lhes é infligida
com as armas que os nossos governos enviam a Israel. Isso vale em dobro para
nós, judeus, em cujo nome o massacre está a ser cometido. (…)
Claro, vive a
melhor vida que puderes, fazendo as melhores escolhas possíveis. Mas não te
iludas achandque isso é lutar contra a merda.
A razão pela
qual as empresas te espiam não é porque você é mesquinho demais para pagar
pelos media, então elas precisam recorrer à publicidade de vigilância.
Independentemente de você pagar ou não a uma empresa de tecnologia, elas vão
espiá-lo de qualquer maneira. A razão pela qual eles podem espiar você é que os
EUA não têm uma nova lei de privacidade do consumidor desde 1988, quando a Lei
de Proteção à Privacidade de Vídeos proibiu os funcionários das locadoras de
vídeos de divulgar que fitas VHS você levava para casa. Essa foi a última
ameaça tecnológica à nossa privacidade que o Congresso abordou. A razão pela
qual você é espiado é porque não há consequências sistémicas para essa
vigilância.
A razão pela
qual as empresas de trabalho temporário classificam erroneamente os seus
trabalhadores como prestadores de serviços, para abusar deles, roubar os seus
salários e negar-lhes proteções no local de trabalho, é porque podem fazê-lo —
não porque os trabalhadores não sejam suficientemente exigentes em relação aos
seus contratos de trabalho.
Para combater
problemas sistémicos, é preciso fazer parte de uma solução sistémica. (...)
Posted by OLima at sexta-feira, setembro 26, 2025
https://onda7.blogspot.com/2025/09/leituras-marginais_0387707902.html
quinta-feira, 25 de setembro de 2025
António Santos - Charlie Kirk,vida e morte de um país doente
* António Santos
(Avante, 2025 09 25)
Já todos percebemos para que precipício se dirigem os EUA – paulatinamente, desde a última eleição de Trump, e por vezes de chofre, como foi esta semana, por conveniente ensejo do funeral de Charlie Kirk, um provocador da extrema-direita ultra-montana que uma bala canonizou. Perante a turba fanática em Glendale, no Arizona, Trump, transido de fervor apoteótico foi certeiro no epítome: «Eu odeio os meus oponentes», declarou o presidente em funções dos EUA, «eu não lhes quero bem».
E eis que milhares de corações graníticos, tão resistentes
ao impacto diário de imagens do esquartejamento de crianças palestinas, se
comoveram com esta morte individual, que veio para justificar tudo. Charlie
Kirk está para o MAGA como Horst Wessel esteve para o partido nazi. Trump
prometeu «trazer de volta a religião para a América» e logo ouvimos o
secretário de Estado da Guerra (nomenclatura muito mais honesta, reconheça-se),
Pete Hegseth, gritar «Deus é rei», ameaçar com «uma tempestade cuja força não compreendem»
e explicar que «os nossos oponentes não são nada, não têm nada. São a maldade».
A morte de Kirk, desinteressante em si mesma, insere-se na maior espiral de
violência política vivida nos EUA desde a guerra civil. É disso que estamos a
falar.
No dia seguinte, o Presidente assinava uma ordem executiva que designa o “movimento antifa” como uma organização terrorista, abrindo espaço à criminalização de todas as organizações de esquerda nos EUA. Não é mera retórica: Trump exigiu publicamente que a procuradora-geral, Pam Bondi, prenda todos os magistrados e adversários políticos que alguma vez se atreveram a enfrentá-lo e pondera ordenar, à semelhança de Washington DC e Los Angeles, a ocupação militar de Chicago, Baltimore, Nova Orleães, Nova Iorque, Oakland e outras cidades controladas pelo Partido Democrata.
Acto contínuo, todas as agências federais em cuja proverbial independência se alicerçavam as crença nos “pesos e contra-pesos” da democracia estado- -unidense, revelam-se joguetes na mão de Trump: Brendan Carr, chefe da agência federal para as comunicações, ameaçou retirar a licença audiovisual a qualquer canal que critique o presidente ou ofenda “a memória de Kirk”, despoletando uma vaga de despedimentos de famosos apresentadores de televisão e comediantes. «Querem fazer isto a bem ou a mal?», sintetizou. No mesmo sentido, também esta semana, o Supremo Tribunal confirmou que Trump pode demitir membros da Comissão Federal de Comércio, garantindo assim a gestão presidencial dos monopólios do império.
Em todos os acontecimentos moram partes diferentes de continuidade e de mudana. A tirânica subversão da democracia que Trump opera explica-se, em primeiríssimo lugar, com as características brutais, tirânicas, que essa “democracia” já possuía: um jogo nas mãos dos bilionários e refém da sua boa-vontade para escolher os comediantes certos ou distribuir os despojos do imperialismo com maior ou menor justiça. Kirk deu-nos, na vida como na morte, uma boa síntese da psicose colectiva de uma sociedade niilista, violenta, desumanizada, decadente, em que a vida humana é a mais barata das mercadorias.
terça-feira, 1 de abril de 2025
Prabhat Patnaik - O regresso do macartismo
terça-feira, 25 de março de 2025
Domingos Lopes - UM PROVOCADOR É UM PROVOCADOR JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS
segunda-feira, 17 de março de 2025
António Rodrigues - “Mulheres” é uma das palavras censuradas pela Administração Trump
EUA
Médicos de Harvard apresentam queixa na justiça pelo desaparecimento de ensaios de um site médico federal. Departamento de Defesa manda militares apagar milhares de fotos e textos.
António Rodrigues
16 de Março de 2025, 17:39
• No final deste artigo, veja a lista de palavras coligida pelo New York Times
Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard apresentaram queixa na justiça na semana passada por causa da decisão da Administração Trump de fazer desaparecer uma série de artigos destinados a investigação médica do site governamental Patient Safety Network. Dizem os médicos que ensaios científicos com palavras como “trans” ou com a sigla LGBTQ foram pura e simplesmente apagados.
A ferramenta online destina-se aos profissionais de saúde e visa partilhar informações sobre erros médicos, diagnósticos erróneos e resultados de tratamentos. No entanto, por mais que a saúde precise de informação para trabalhar, o uso de determinadas palavras, mesmo em documentação científica, choca com as directrizes da Administração Trump no domínio da linguagem.
Há dias o New York Times trazia uma lista de quase 200 palavras proibidas que havia compilado de directivas e emails internos partilhados por membros do Governo. E a palavra “trans” e a sigla LGBTQ figuram nessa lista, junto com "racismo" e "anti-racismo", "diversidade", "igualdade", "discriminação" ou "discriminatório", expressões como "biologicamente feminino" ou "biologicamente masculino", "discurso de ódio", "pessoa que amamenta", "apropriação cultural", etc., etc.
Em declarações à plataforma GBH, Cneleste Royce, professora assistente de obstetrícia, ginecologia e biologia reprodutiva na Faculdade de Medicina de Harvard, mostrava-se chocada pelo desaparecimento súbito de um artigo, escrito há cinco anos, de que tinha sido co-autora. “Não me lembro de nada no artigo que possa ser controverso, para além do facto de se centrar na saúde das mulheres. E, sabe, acho que 'mulheres' é uma das palavras que está a ser censurada nessa lista”, disse.
E Celeste Royce tem toda a razão, a palavra “mulheres” faz parte da lista das palavras censuradas, tal como "fêmea", "fêmeas" e "feminismo". Para o acaso de alguém perguntar, a palavra “homens” ou “macho”, “machos” ou “masculinidade tóxica” não constam da lista ou expressões a silenciar.
"Golfo do México"
Na lista também consta a proibição de utilizar Golfo do México para designar o Golfo… do México. No seu primeiro dia de regresso ao cargo de Presidente, Trump emitiu uma ordem executiva a nomeá-lo Golfo da América, como se a toponímia pudesse variar quando uma pessoa quisesse. Mas, pelos vistos, nestes estranhos tempos em que nos toca viver, isso acontece e a uma velocidade estonteante.
Ainda não pssados dois meses desde que Trump tomou posse e o Departamento de Educação do Luisiana, estado que até agora era banhado pelo Golfo do México, já passou a incluir, desde a passada quarta-feira, no programa para as escolas primárias e secundárias que à costa do estado chegam agora as águas do Golfo da América e não do México.
“O Golfo é um motor de sustentação para o Luisiana – ajuda a alimentar o nosso sector energético e a indústria alimentar e de marisco e sustenta gerações de famílias”, afirmou Cade Brumley, superintendente de Educação do estado, que recomendou a alteração curricular, em declarações disponíveis no site do Departamento de Educação estadual. “A actualização dos nossos padrões académicos garante o alinhamento com a liderança do Presidente Trump e do governador Landry, ao mesmo tempo que reforça a importância do golfo para o futuro do nosso estado.”
É prática comum dos novos governos, nos Estados Unidos e noutros países, estabelecerem directivas sobre os termos da sua comunicação oficial, mas a longa lista de palavras censuradas por esta nova Administração mostra que a guerra contra aquilo a que chamam mentalidade woke assentou arraiais no executivo.
Como refere o New York Times, as palavras e frases listadas “representam uma mudança marcada – e assinalável – no corpus da linguagem utilizada tanto nos corredores do poder do Governo federal como entre os seus funcionários. São um reflexo inequívoco das prioridades desta administração.”
Desde “preconceito” ou “preconceituoso”, passando por “ciências climáticas”, “desfavorecido” ou “património cultural”, até acabar em “nativo americano” ou “multicultural”, o caderno censório da Administração Trump é alargado no léxico, mas transparente na ideologia.
"Enola Gay"
Timothy Noah, num artigo publicado na semana passada na New Republic, confirmava que a lista do New York Times não era exaustiva, tal como os autores do artigo salientavam, lembrando que o secretário da Defesa, Pete Hegseth, havia acrescentado Enola Gay à lista de expressões censuráveis, apagando assim o nome do avião que lançou a primeira bomba atómica (Hiroxima) dos sites oficiais. E com ele, provavelmente, o grande êxito homónimo dos Orchestral Manoeuvers in the Dark.
Hegseth, homem com longo passado de alcoolismo, acusações de assédio sexual e suspeitas de abusos de mulheres, pode até concordar com o bombardeamento de Hiroxima, o que não considera adequado é usar a palavra “gay” no nome do avião. “O lançamento da primeira bomba atómica foi durante muito tempo objecto de controvérsia, mas nunca por ter sido woke”, diz Noah.
De acordo com Associated Press, Hegseth enviou uma directiva às chefias militares a pedir que fossem apagadas pelo menos 26 mil imagens ou textos que constam dos sites oficiais, mas o número pode ascender a 100 mil.
“Referências a um galardoado com a medalha de honra da Segunda Guerra Mundial, ao avião Enola Gay que lançou uma bomba atómica sobre o Japão e às primeiras mulheres a passar o treino de infantaria dos fuzileiros navais estão entre as dezenas de milhares de fotografias e publicações online marcadas para serem eliminadas, à medida que o Departamento da Defesa trabalha para eliminar conteúdos sobre diversidade, igualdade e inclusão”, escreve a agência.
Até palavras aparentemente neutrais como "institucional" fazem parte da lista termos indesejados por esta nova Administração dos EUA. “Todos sabemos que Trump está determinado a destruir todas as instituições governamentais a que consegue deitar a mão, mas proibir a própria palavra eleva as coisas a um nível superior de fanatismo”, conclui Timothy Noah.
https://www.publico.pt/2025/03/16/mundo/noticia/






