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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Luísa Semedo - Fábrica de monstros

OPINIÃO

Fábrica de monstros

Em vários contextos de guerra, massacres, genocídios, existem constantes que passam por desumanizar os inimigos, relegando-os para o lugar de animais considerados repugnantes ou nocivos.<

Luísa Semedo

14 de Dezembro de 2023, 6:19

Ainda hoje, quando entro na Biblioteca Nacional de França, passados mais de dez anos, sinto uma estranha sensação de opressão. Vivi ali dentro uma espécie de memória traumática de que o meu corpo se lembra de forma involuntária. Para a minha tese de doutoramento sobre a nossa capacidade de empatia, passei algumas semanas a ler sobre como se fabricam monstros. Como podem pessoas banais transformar-se em verdadeiros monstros morais. Como se pode destruir a empatia, a humanidade de uma pessoa, naturalmente constituída de emoções e comportamentos morais, indispensáveis à sobrevivência dos animais sociais que somos.

O que mais me impressionou nessa altura foi o trabalho imersivo de entrar na cabeça de quem foi um monstro, como antigas crianças-soldados, torcionários e terroristas. Os seus testemunhos sobre essa fase das suas vidas, do processo de desempatia, da maneira como viam as suas vítimas no momento da violência são muito desestabilizadores. Pensei neles quando li alguns testemunhos de jornalistas que viram os vídeos das câmaras subjetivas do ataque do Hamas e de como lhes impressionou essa perspetiva inédita de ver a violência do ponto de vista de quem a perpetra.

Em vários contextos de guerra, massacres, genocídios, existem constantes que passam por desumanizar os inimigos, relegando-os para o lugar de animais considerados repugnantes ou nocivos como baratas, ratos ou serpentes. E, ainda, a desindividualização, passando a ser impossível ver o inimigo como uma pessoa, mas como uma massa informe em que toda a gente passa a culpada ou dispensável, passível de ser transformada em meio para um fim, ou dano colateral.

Muitos dos testemunhos descrevem o facto de se olhar para o inimigo sem nunca pensar que este tem “uma irmã ou um irmão” ou ainda que, sendo “animais sem alma nem consciência” e não fazendo parte da mesma humanidade, toda a violência é possível. Faz parte do processo de desumanização retirar a roupa do inimigo porque um corpo nu está mais perto do animal e a nudez permite uma maior despersonalização. Para garantir que não se veja a sua humanidade vendam-lhes os olhos, baixam-lhes a cabeça ou posicionam-se atrás das vítimas, porque o “olhar nos olhos” é um perigo, visto este poder acordar a humanidade do monstro agressor.

Camião com palestinianos feitos prisioneiros pelo exército israelita, a 10/12/2023, na Faixa de Gaza YOSSI ZELIGER/REUTERS

Lembrei-me destes testemunhos quando vi as imagens recentes de palestinianos sem roupa, de cabeça baixa ou de costas capturados pelos soldados israelitas no Norte de Gaza. A questão da humanidade que surge através da cara do outro é uma das constantes no testemunho dos torcionários: “Lembro-me da primeira pessoa que olhou para mim, no momento do golpe final. Foi qualquer coisa. Os olhos daquele que matamos são imortais (…) Os olhos do morto, para o assassino, são, se este os vê, a sua calamidade. Eles são a acusação daquele que ele matou”, conta um dos assassinos do genocídio em Ruanda.

As guerras feitas através de bombas, de dispositivos à distância e agora com a ajuda da inteligência artificial têm a terrível consequência de não deixarem grande hipótese ao surgimento de um qualquer traço de humanidade inibidor de violência. A prevenção de massacres humanos passa, entre outras coisas, pela responsabilização dos agressores porque o sentimento de impunidade é fator agravante da violência, mas igualmente por uma educação sobre estes mecanismos de desumanização que implicam também a profunda desumanização do agressor. “Senti que já não tinha alma, que tinha passado a ser outra pessoa, que a minha alma se tinha separado do meu corpo, sentia que estava a perder o meu sentimento de humanidade”, “não éramos só criminosos, passámos a ser uma espécie feroz num mundo bárbaro”, relatam alguns torcionários.

Lamento, hoje, não ter investigado sobre o processo de desumanização de testemunhas exteriores, porque agora custa-me compreender como alguém não diretamente implicado, sentado confortavelmente num sofá, consegue apoiar incondicionalmente o massacre em Gaza de tantos civis, de tantas crianças. Questiono-me sobre os limites da sua (des)humanidade.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


Luísa Semedo - A defesa dos Direitos Humanos é um crime?

OPINIÃO

Para além de se colar à posição de defesa de Direitos Humanos, que deveria ser consensual, a etiqueta de “esquerdista”, também se adicionam as etiquetas antissemita e pró-terrorista.

Luísa Semedo

28 de Dezembro de 2023, 6:50

Já não sei dizer quando isto aconteceu, mas um dia numa aula tive receio de falar de Direitos Humanos e dos valores da República francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Em França, temos o dever de neutralidade política e religiosa quando ensinamos jovens na escola pública. E, nesse momento, pensei que alguns alunos, pais ou direção pudessem considerar que estava a ser proselitista. Senti o mesmo medo em levar roupa que tenho onde figuram mensagens como “Mulheres contra o fascismo”. E pensei: mas porque é que os Direitos Humanos deixaram de ser uma luta universal?

Hoje, quando leio textos que apoiam ou relativizam, entre outros “cídios”, o infanticídio em massa que está a ser levado a cabo pelo poder israelita em Gaza, surpreende-me que vozes de direita insistam nas clivagens políticas entre o seu campo político e a esquerda, diabolizando e caricaturando esta última. Eu pergunto: ser contra matar, queimar, mutilar, traumatizar crianças é de esquerda? Ser contra enterrar vivas pessoas é de esquerda? Ser contra matar à fome e à sede é de esquerda? Ser contra punições coletivas é de esquerda?

É porque deveria ser uma evidência. Evidência esta que está consagrada em vários textos de direito internacional. E, por isso, tanto a ONU, pela voz de António Guterres, como várias ONG que defendem os Direitos Humanos por esse mundo fora são unânimes: é urgente um cessar-fogo, é necessário deixar entrar ajuda humanitária em Gaza, é fundamental encontrar uma solução política. Todas estas vozes com grande experiência de terreno dizem “nunca terem visto isto”. Tal como pôde testemunhar a jornalista da CNN Clarissa Ward, que, com quase 20 anos de experiência de teatros de guerra, na Síria, Iraque, Irão, Afeganistão, Iémen ou Ucrânia, confessou: “Digo, honestamente, penso nunca ter visto isto nesta escala.”

O “isto” é um nível de destruição apocalíptico, com a utilização de centenas de bombas massivas de 900 quilos, quatro vezes mais pesadas do que as maiores bombas utilizadas pelos EUA no Iraque, o que, segundo a CNN, não era visto desde a guerra no Vietname. Estas bombas numa área tão densamente povoada como é Gaza têm um efeito devastador, tanto em termos de mortes de civis, como de destruição. Ser contra isto não deveria ser uma posição polémica e, no entanto, temos vindo a assistir a uma criminalização da defesa dos Direitos Humanos, desde a proibição de manifestações pró-Palestina até à censura, remoção e redução da visibilidade nas redes sociais de contas e conteúdo pró-palestinianos denunciadas, há poucos dias, pela Human Rights Watch.

Para além de se colar à posição de defesa de Direitos Humanos, que deveria ser consensual, a etiqueta de “esquerdista”, também se adicionam as etiquetas antissemita e pró-terrorista. A ponto de se chegar a chamar nazi a António Guterres nas redes sociais. E as ONG credíveis que serviam a estas vozes, por exemplo, para denunciar, e bem, os crimes de Putin na Ucrânia deixam de ser credíveis quando denunciam o massacre de palestinianos. É a chamada magia do duplo padrão, da incongruência ou da hipocrisia. “Estes são os meus princípios, mas, se o poder em Israel não gostar, tenho outros.”

Como é que explicam ficarem mais chocados com slogans em cartazes do que com o efetivo e atual massacre de crianças em curso?

Por muito que procure, há quase três meses que não encontro a resposta a estas perguntas: quais são os limites dos apoiantes no exterior do governo extremista de Netanyahu? Até onde estão dispostos a defender o “amigo”? Como é que explicam ficarem mais chocados com slogans em cartazes do que com o efetivo e atual massacre de crianças em curso?

Sei quais são as respostas das vozes de extrema-direita, para as quais a ideia de um Estado etno-nacionalista supremacista é um ideal a replicar em casa, para os que sendo antissemitas preferem ver judeus longe, fora dos seus países, e para os quais a arabofobia e a islamofobia são o novo carburante. Vozes que consideram que ser terrorista é uma identidade que carregam todos os palestinianos, inclusive as crianças, culpadas, merecedoras da pena de morte. Vozes para as quais os Direitos Humanos sempre foram um crime. Mas o que têm para responder as outras?

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

https://www.publico.pt/2023/12/28/opiniao/opiniao/defesa-direitos-humanos-crime-2075001


sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Luísa Semedo - Portugal, terra de islão

 OPINIÃO

Por um lado, gostamos de nos dizer cosmopolitas, os reis da miscigenação por esse mundo fora; e por outro, existe a busca, dentro de fronteiras, de uma caricata brancura pura, inexistente.

Luísa Semedo

25 de Janeiro de 2024, 6:41


Quando se vive em França, num dos países com maiores comunidade muçulmanas da UE, conhece-se bem o que é a islamofobia nas suas mais diversas expressões, desde as microagressões às agressões mais violentas, do discurso descomplexado do comentariado televisivo até a políticas governativas, passando pela violência e controlo policial com base étnico-racial. São vítimas de islamofobia não somente as pessoas efetivamente muçulmanas, mas também as que pareçam muçulmanas, árabes, magrebinas, na qual me incluem muitas vezes porque não sou imediatamente identificável como “luso-cabo-verdiana”.

Muitos portugueses em França também vivem esta experiência de por vezes serem racializados como árabes e muçulmanos

Muitos portugueses em França também vivem esta experiência de por vezes serem racializados como árabes e, portanto, como muçulmanos, visto existir em França uma verdadeira dificuldade em separar duas realidades que podem, evidentemente, ser distintas. Não é só em França que os portugueses podem ser vistos como não-brancos ou como “brancos honorários” – para tomar emprestada a expressão da socióloga Margot Delon, no seu artigo “Des 'Blancs honoraires'?” –, nos EUA isso também acontece e os neonazis do Norte da Europa costumam gozar com a “aparência magrebina” dos nossos neonazis nacionais. A racialização é uma construção fluida que pode variar “conforme a hora e o local onde estiverem”.

Em Portugal, vive-se uma relação ambígua com todas estas complexidades: por um lado, gostamos de nos dizer cosmopolitas, os reis da miscigenação por esse mundo fora; e por outro, existe a busca, dentro de fronteiras, de uma caricata brancura pura inexistente. Esta relação é problemática quando se trata de pessoas negras, mas também em relação a pessoas de origem árabe e muçulmana. Existe uma espécie de “apagão”, como se séculos de presença e a persistência de tantos vestígios e influências ainda tão visíveis, inclusive a nível cultural e linguístico, nunca tivessem existido. No contexto da guerra genocida contra a Palestina, assistimos, por exemplo, à identificação de portugueses com Israel através da sua redução a um país branco ocidental, fazendo parte do “eixo da civilização”, resistente face a palestinianos, árabes e muçulmanos que pertencem ao “eixo do mal”, tão longe de quem somos, esquecendo não somente a história do judaísmo, mas também da história árabe e muçulmana em Portugal.

Esta semana, o canal francês público France 2 difundiu uma reportagem que deveria ser mostrada nas escolas em Portugal, justamente sobre esta realidade, intitulada “Portugal, terra de islão”, com a intervenção essencial, entre outras, de Marc Terrisse, especialista em história árabe e muçulmana em Portugal, autor dos livros Lisbonne, dans la ville musulmane e – a sua obra mais recente, apresentada na Gulbenkian em Paris – Variations sur le Portugal, que será apresentado no Instituto Francês em Lisboa na próxima semana, a 1 de fevereiro.

Este “apagão” reforça a arabofobia e a islamofobia, em particular neste momento contra imigrantes de origem sul-asiática, que cresceram de forma preocupante em Portugal, nomeadamente em Lisboa, como, por exemplo, no bairro histórico da Mouraria. Grupos de neonazis publicitaram a intenção de organizar uma manifestação extremista para esse local e vários coletivos antirracistas já apelaram – através de uma carta aberta assinada por, até ao momento, cerca de duas mil pessoas, na quais me incluo – à sua anulação, dirigindo-se ao Presidente da República, ao Governo e a outras instâncias do Estado.

O Estado tem a obrigação de proteger os residentes no seu território, sejam estrangeiros ou nacionais. Relembro, o que deveria ser óbvio, que existem também portugueses muçulmanos e o Estado não pode deixá-los desprotegidos, é para isso que existem leis antidiscriminação e de proibição de incitamento ao ódio e à violência. O racismo, em todas as suas formas, tem incidência não somente em quem está em Portugal, mas também na vida dos portugueses no estrangeiro. Tomando emprestada e "remixando", desta vez, a expressão de Fanon: "Quando ouvires falar mal do muçulmano, presta atenção, estão a falar de ti."

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

Professora de Filosofia do ensino secundário 


https://www.publico.pt/2024/01/25/opiniao/opiniao/portugal-terra-islao-207800