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domingo, 21 de janeiro de 2024

Discurso de Javier Milei em Davos (2024)



Javier Milei, na 54ª Reunião Anual do Fórum Económico Mundial, em Davos.

Boa tarde, muito obrigado: estou aqui hoje para vos dizer que o Ocidente está em perigo, está em perigo porque aqueles que deveriam defender os valores do Ocidente encontram-se cooptados por uma visão do mundo que – inexoravelmente – conduz ao socialismo e, consequentemente, à pobreza.

Infelizmente, nas últimas décadas, motivados por alguns desejos bem-pensantes de querer ajudar os outros e outros pelo desejo de pertencer a uma casta privilegiada, os principais líderes do mundo ocidental abandonaram o modelo de liberdade, por diferentes versões, do que chamamos de coletivismo.

Estamos aqui para vos dizer que as experiências coletivistas nunca são a solução para os problemas que afligem os cidadãos do mundo, mas – pelo contrário – são a sua causa. Acreditem, não há ninguém melhor do que nós, argentinos, para testemunhar estas duas questões.

Quando adotamos o modelo de liberdade – em 1860 – em 35 anos tornamo-nos a principal potência mundial, enquanto que quando abraçamos o coletivismo, nos últimos 100 anos, vimos como nossos cidadãos empobrecer sistematicamente, até caírem para o 140º lugar no mundo. Mas antes de podermos ter esta discussão, será importante que olhemos primeiro para os dados que a sustentam porque não só o capitalismo de livre iniciativa é apenas um sistema possível para acabar com a pobreza do mundo, mas é também o único sistema – moralmente desejável – a fazê-lo.

Se considerarmos a história do progresso económico, podemos ver como do ano zero ao ano 1800, aproximadamente, o PIB per capita do mundo permaneceu praticamente constante durante todo o período de referência. Se olharmos para um gráfico da evolução do crescimento econômico, ao longo da história humana, veremos um gráfico em forma de taco de hóquei, uma função exponencial, que permaneceu constante por 90% do tempo, e dispara exponencialmente a partir do século XIX. A única excepção a essa história de estagnação aconteceu no final do século XV, com a descoberta da América. Mas, com esta excepção, durante todo o período, entre o ano zero e o ano de 1800, o PIB per capita, a nível global, manteve-se estagnado.

Ora, não só o capitalismo gerou uma explosão de riqueza a partir do momento em que foi adotado como sistema económico, mas se analisarmos os dados, o que se observa é que o crescimento vem acelerando, ao longo de todo o período.

Ao longo do período – até 1800 – a taxa de crescimento do PIB per capita manteve-se estável em torno de 0,02% ao ano. Ou seja, praticamente nenhum crescimento; a partir do século XIX, com a Revolução Industrial, a taxa de crescimento aumentou para 0,66%. Nesse ritmo, dobrar o PIB per capita exigiria crescimento ao longo de 107 anos.

Agora, se olharmos para o período entre 1900 e 1950, a taxa de crescimento acelera para 1,66%, ao ano. Já não precisamos de 107 anos para duplicar o PIB per capita, mas sim de 66. E se tomarmos o período entre 1950 e o ano 2000 vemos que a taxa de crescimento foi de 2,1% ao ano, o que significaria que em apenas 33 anos poderíamos dobrar o PIB per capita mundial. Esta tendência, longe de parar, ainda hoje está viva. Se considerarmos o período, entre 2000 e 2023, a taxa de crescimento acelerou novamente para 3% ao ano, o que implica que poderíamos dobrar nosso PIB per capita no mundo em apenas 23 anos.

Agora, quando estudamos o PIB per capita, desde o ano de 1800 até os dias atuais, o que observamos é que, após a Revolução Industrial, o PIB per capita mundial se multiplicou por mais de 15 vezes, gerando uma explosão de riqueza que tirou 90% da população mundial da pobreza.

Nunca devemos esquecer que no ano de 1800 cerca de 95% da população mundial vivia em pobreza extrema, mas esse número caiu para 5% em 2020, antes da pandemia.

A conclusão é óbvia: longe de ser a causa de nossos problemas, o capitalismo de livre iniciativa, como sistema económico, é a única ferramenta que temos para acabar com a fome, a pobreza e a miséria em todo o mundo. As evidências empíricas são inquestionáveis.

Por isso, como não há dúvida de que o capitalismo de livre mercado é superior – em termos de produção – a filosofia de esquerda tem atacado o capitalismo por questões de moralidade, por ser, segundo os seus detratores, injusto.

Dizem que o capitalismo é mau porque é individualista e que o coletivismo é bom porque é altruísta. Consequentemente, lutam por justiça social, mas esse conceito, que – desde o Primeiro Mundo – se tornou moda nos últimos tempos no meu país é uma constante no discurso político há mais de 80 anos. O problema é que a justiça social não é justa e não contribui para o bem-estar geral. Pelo contrário, é uma ideia intrinsecamente injusta porque é violenta; É injusto porque o Estado se financia através de impostos e os impostos são recolhidos de forma coerciva. Algum de nós poderá dizer que paga impostos voluntariamente? Isso significa que o Estado se financia por meio da coerção, e quanto maior a carga tributária, maior a coerção, menor a liberdade.

Aqueles que promovem a justiça social partem da ideia de que a economia como um todo é um bolo que pode ser distribuído de uma maneira diferente, mas esse bolo não é dado, é a riqueza que é gerada, no que – por exemplo – Israel Kirzner chama de processo de descoberta de mercado. Se o bem ou serviço oferecido por uma empresa não é desejado, essa empresa vai à falência a menos que atenda ao que o mercado exige. Se produzir algo de boa qualidade a um preço bom e atrativo, vai ter sucesso e produzir mais.

Portanto, o mercado é um processo de descoberta, em que o capitalista encontra o rumo certo à medida que avança, mas se o Estado pune o capitalista por ter sucesso e o bloqueia nesse processo de descoberta, destrói os seus incentivos, e a consequência disso é que ele produzirá menos e o bolo será menor, gerando danos à sociedade como um todo.

O colectivismo – ao inibir esses processos de descoberta e ao dificultar a apropriação do que foi descoberto – amarra as mãos do empresário e impossibilita que ele produza melhores bens e ofereça melhores serviços a um preço mais baixo. Como pode ser, então, que a academia, as organizações internacionais, a política e a teoria económica demonizem um sistema económico que não só tirou 90% da população mundial da pobreza extrema e o está a fazer cada vez mais depressa, como também é justo e moralmente superior?

Graças ao capitalismo de livre iniciativa, hoje, o mundo está no seu melhor. Nunca houve, em toda a história da humanidade, um tempo de maior prosperidade do que aquele que vivemos hoje. O mundo de hoje é mais livre, mais rico, mais pacífico e mais próspero do que em qualquer outro momento da nossa história. Isto aplica-se a todos, mas particularmente aos países livres, onde respeitam a liberdade económica e os direitos de propriedade dos indivíduos. Porque os países que são livres são 12 vezes mais ricos do que os que são reprimidos. O decil mais baixo da distribuição de países livres, vive melhor do que 90% da população de países reprimidos, tem 25 vezes menos pobres e 50 vezes menos pessoas em pobreza extrema. E como se isso não bastasse, os cidadãos de países livres vivem 25% mais do que os cidadãos de países reprimidos.

Agora, para entender o que estamos aqui a defender, é importante definir do que falamos quando falamos de libertarianismo. Para defini-lo, volto às palavras do maior herói das ideias de liberdade, da Argentina, o professor Alberto Benegas Lynch Jr., que diz: “libertarianismo é o respeito irrestrito ao projeto de vida dos outros, baseado no princípio da não agressão, em defesa do direito à vida, à liberdade e à propriedade, cujas instituições fundamentais são a propriedade privada, os mercados livres da intervenção do Estado, a livre concorrência, a divisão do trabalho e a cooperação social.”

Por outras palavras, o capitalista é um benfeitor social que, longe de se apropriar da riqueza alheia, contribui para o bem-estar geral. Em suma, um empreendedor de sucesso é um herói.

Este é o modelo que propomos para a Argentina do futuro. Um modelo baseado nos princípios fundamentais do libertarianismo: a defesa da vida, da liberdade e da propriedade.

Ora, se o capitalismo de livre iniciativa e a liberdade económica têm sido ferramentas extraordinárias para acabar com a pobreza no mundo; E estamos hoje no melhor momento da história da humanidade, por que digo então que o Ocidente está em perigo?

Digo que o Ocidente está em perigo precisamente porque nos países que deveriam defender os valores do livre mercado, da propriedade privada e das outras instituições do libertarianismo, sectores do establishment político e económico, uns por erros no seu enquadramento teórico e outros por ambição de poder, estão a minar os fundamentos do libertarianismo, abrindo as portas ao socialismo e potencialmente condenando-nos à pobreza. miséria e estagnação.

De facto, nunca se deve esquecer que o socialismo é sempre e em toda a parte um fenómeno empobrecedor que fracassou em todos os países onde foi tentado. Foi um fracasso económico. Foi um fracasso social. Foi um fracasso cultural. E também assassinou mais de 100 milhões de seres humanos.

O problema essencial do Ocidente de hoje é que não devemos confrontar apenas aqueles que, mesmo após a queda do muro e a esmagadora evidência empírica, continuam a lutar pelo empobrecimento do socialismo; mas também aos nossos próprios líderes, pensadores e académicos que, sob o disfarce de um quadro teórico defeituoso, minam os alicerces do sistema que nos deu a maior expansão de riqueza e prosperidade da nossa história.

O corpo teórico a que me refiro é o da teoria económica neoclássica, que desenha um sistema que, sem querer, promove a interferência do Estado, levando ao socialismo e à degradação da sociedade. O problema dos neoclassicistas é que, como o modelo pelo qual se apaixonaram não se enquadra com realidade, atribuem esse erro a supostas falhas de mercado, em vez de reverem as premissas do seu modelo.

Sob o pretexto de uma alegada falha do mercado, são introduzidas regulamentações que apenas geram distorções no sistema de preços, que impedem o cálculo económico e, consequentemente, a poupança, o investimento e o crescimento.

Este problema reside essencialmente no facto de mesmo os economistas supostamente libertários não compreenderem o que é o mercado, porque, se o fizessem, rapidamente veriam que é impossível que existam falhas de mercado.

O mercado não é uma curva de oferta e procura num gráfico. O mercado é um mecanismo de cooperação social em que as trocas são voluntárias. Por conseguinte, tendo em conta esta definição, uma falha de mercado é um oximoro. Não existe qualquer falha do mercado.

Se as transações forem voluntárias, o único contexto em que pode haver uma falha do mercado é se houver coação. E o único com a capacidade de coagir de forma generalizada é o Estado, que tem o monopólio da violência. Consequentemente, se alguém considerar que existe uma falha de mercado, recomendo que verifique se existe pelo meio alguma intervenção estatal. E se achar que não há intervenção estatal, sugiro que faça a análise novamente porque está definitivamente errado. Não existem falhas de mercado.

Um exemplo das supostas falhas de mercado descritas pelos neoclassicistas são as estruturas concentradas da economia. No entanto, sem funções que apresentam um retorno crescente à escala, cuja contrapartida são as estruturas concentradas da economia, não conseguiríamos explicar o crescimento económico desde 1800 até ao presente.

Repare-se como é interessante. A partir do ano de 1800, com a população a multiplicar-se mais de 8 ou 9 vezes, a produção per capita cresceu mais de 15 vezes. Há retornos crescentes, que levaram a pobreza extrema de 95% para 5%. No entanto, essa presença de retornos crescentes implica estruturas concentradas, o que seria chamado de monopólio.

Como é possível para os teóricos neoclássicos que algo que gerou tanto bem-estar seja uma falha de mercado? Economistas neoclássicos “saiam da caixa”! Quando o modelo falha, não precisam irritar-se com a realidade. Têm de se irritar com o modelo e mudá-lo.

O dilema que o modelo neoclássico enfrenta é que afirmam querer melhorar o funcionamento do mercado atacando o que consideram ser fracassos, mas ao fazê-lo não só abrem as portas ao socialismo, como também minam o crescimento económico.

Por exemplo, regular os monopólios, destruir os lucros e esmagar os rendimentos crescentes destruiria automaticamente o crescimento económico.

Por outras palavras, cada vez que se quer corrigir uma suposta falha do mercado, inexoravelmente, porque não se sabe o que é o mercado ou porque se apaixonou por um modelo falhado, está-se a abrir as portas ao socialismo e a condenar as pessoas à pobreza.

No entanto, face à demonstração teórica de que a intervenção estatal é nociva, e à evidência empírica de que falhou – porque não podia ser de outra forma –, a solução que os coletivistas irão propor não é uma maior liberdade, mas sim uma maior regulação, gerando uma espiral descendente de regulações até ficarmos todos mais pobres. E a vida de todos nós depende de um burocrata sentado num escritório chique.

Dado o fracasso retumbante dos modelos coletivistas e os inegáveis avanços do mundo livre, os socialistas foram forçados a mudar sua agenda. Deixaram para trás a luta de classes baseada no sistema económico para a substituir por outros supostos conflitos sociais igualmente prejudiciais à vida comunitária e ao crescimento económico.

A primeira dessas novas batalhas foi a ridícula e antinatural conflito entre homem e mulher.

O libertarianismo já estabelece a igualdade entre os sexos. A pedra fundamental do nosso credo diz que todos os homens são criados iguais, que todos temos os mesmos direitos inalienáveis concedidos pelo criador, entre os quais estão a vida, a liberdade e a propriedade.

A única coisa que essa agenda do feminismo radical se tornou é numa maior intervenção do Estado para dificultar o processo económico, para dar trabalho a burocratas que não contribuem em nada para a sociedade, seja na forma de ministérios da mulher ou organizações internacionais dedicadas a promover essa agenda.

Outro dos conflitos que os socialistas colocam é o do homem contra a natureza. Argumentam que os seres humanos prejudicam o planeta e que ele deve ser protegido a todo custo, chegando ao ponto de defender mecanismos de controle populacional ou a agenda sangrenta do aborto.

Infelizmente, estas ideias nocivas têm permeado fortemente a nossa sociedade. Os neomarxistas conseguiram cooptar o senso comum do Ocidente. Conseguiram isso graças à apropriação dos meios de comunicação, da cultura, das universidades e, sim, também das organizações internacionais.

Felizmente, cada vez mais gente como nós ousa levantar a voz. Porque vemos que, se não combatermos estas ideias de frente, o único destino possível é o de ter cada vez mais Estado, mais regulação, mais socialismo, mais pobreza, menos liberdade e, consequentemente, um pior nível de vida.

O Ocidente, infelizmente, já começou a trilhar esse caminho. Sei que pode soar ridículo para muitos sugerir que o Ocidente se voltou para o socialismo. Mas só é ridículo na medida em que se restringe à definição económica tradicional de socialismo, que afirma que é um sistema económico onde o Estado é dono dos meios de produção.

Esta definição deveria, para nós, ser actualizada às circunstâncias actuais. Hoje, os Estados não precisam controlar diretamente os meios de produção para controlar todos os aspectos da vida dos indivíduos.

Com ferramentas como emissão monetária, empréstimos, subsídios, controles de taxas de juros, controles de preços e regulamentações para corrigir as chamadas “falhas de mercado”, eles podem controlar os destinos de milhões de seres humanos.

É assim que chegamos ao ponto em que, sob diferentes nomes ou formas, boa parte das propostas políticas geralmente aceites na maioria dos países ocidentais são variantes colectivistas.

Sejam eles abertamente comunistas, socialistas, social-democratas, democratas-cristãos, neokeynesianos, progressistas, populistas, nacionalistas ou globalistas.

No final, não há diferenças substantivas: todos defendem que o Estado deve dirigir todos os aspetos da vida dos indivíduos. Todos eles defendem um modelo contrário àquele que conduziu a humanidade ao progresso mais espetacular da sua história.

Viemos aqui hoje para convidar os outros países do Ocidente a retomarem o caminho da prosperidade. A liberdade económica, o governo limitado e o respeito irrestrito pela propriedade privada são elementos essenciais para o crescimento económico.

Este fenómeno de empobrecimento produzido pelo colectivismo não é uma fantasia. Nem fatalismo. É uma realidade que nós, argentinos, conhecemos muito bem.

Porque já vivemos isso. Nós estivemos lá. Porque, como disse antes, desde que decidimos abandonar o modelo de liberdade que nos enriqueceu, estamos presos numa espiral descendente em que somos cada dia mais pobres.

Nós já experimentamos isso. E estamos aqui para alertá-los sobre o que pode acontecer se os países do Ocidente que enriqueceram com o modelo de liberdade, continuarem nesse caminho de servidão.

O caso argentino é a demonstração empírica de que não importa quão rico seja, quantos recursos naturais tenha, não importa quão qualificada seja a população, ou quão educada ela seja, ou quantas barras de ouro existam nos cofres do banco central.

Se forem tomadas medidas que impeçam o livre funcionamento dos mercados, a livre concorrência, os sistemas de preços livres, se o comércio for dificultado, se a propriedade privada for violada, o único destino possível é a pobreza.

Para concluir, quero deixar uma mensagem a todos os empresários aqui presentes e àqueles que nos observam de todos os cantos do planeta.

Não vos deixeis intimidar nem pela casta política nem pelos parasitas que vivem do Estado. Não se rendam a uma classe política que só quer perpetuar-se no poder e manter os seus privilégios.

Vocês são benfeitores sociais. Vocês são heróis. Vocês são os criadores do período mais extraordinário de prosperidade que já vivemos. Que ninguém lhes diga que a sua ambição é imoral. Se ganham dinheiro, é porque oferecem um produto melhor a um preço melhor, contribuindo assim para o bem-estar geral.

Não cedam ao avanço do Estado. O Estado não é a solução. O Estado é o próprio problema.

Vocês são os verdadeiros protagonistas desta história, e sabem que, a partir de hoje, têm um aliado inabalável na República Argentina.

Muito obrigado e Viva la libertad carajo!

 Discurso do Presidente da Nação Argentina, Javier Milei
Javier Milei, na 54ª Reunião Anual do Fórum Económico Mundial, em Davos.

Boa tarde, muito obrigado: estou aqui hoje para vos dizer que o Ocidente está em perigo, está em perigo porque aqueles que deveriam defender os valores do Ocidente encontram-se cooptados por uma visão do mundo que – inexoravelmente – conduz ao socialismo e, consequentemente, à pobreza.

Infelizmente, nas últimas décadas, motivados por alguns desejos bem-pensantes de querer ajudar os outros e outros pelo desejo de pertencer a uma casta privilegiada, os principais líderes do mundo ocidental abandonaram o modelo de liberdade, por diferentes versões, do que chamamos de coletivismo.

Estamos aqui para vos dizer que as experiências coletivistas nunca são a solução para os problemas que afligem os cidadãos do mundo, mas – pelo contrário – são a sua causa. Acreditem, não há ninguém melhor do que nós, argentinos, para testemunhar estas duas questões.

Quando adotamos o modelo de liberdade – em 1860 – em 35 anos tornamo-nos a principal potência mundial, enquanto que quando abraçamos o coletivismo, nos últimos 100 anos, vimos como nossos cidadãos empobrecer sistematicamente, até caírem para o 140º lugar no mundo. Mas antes de podermos ter esta discussão, será importante que olhemos primeiro para os dados que a sustentam porque não só o capitalismo de livre iniciativa é apenas um sistema possível para acabar com a pobreza do mundo, mas é também o único sistema – moralmente desejável – a fazê-lo.

Se considerarmos a história do progresso económico, podemos ver como do ano zero ao ano 1800, aproximadamente, o PIB per capita do mundo permaneceu praticamente constante durante todo o período de referência. Se olharmos para um gráfico da evolução do crescimento econômico, ao longo da história humana, veremos um gráfico em forma de taco de hóquei, uma função exponencial, que permaneceu constante por 90% do tempo, e dispara exponencialmente a partir do século XIX. A única excepção a essa história de estagnação aconteceu no final do século XV, com a descoberta da América. Mas, com esta excepção, durante todo o período, entre o ano zero e o ano de 1800, o PIB per capita, a nível global, manteve-se estagnado.

Ora, não só o capitalismo gerou uma explosão de riqueza a partir do momento em que foi adotado como sistema económico, mas se analisarmos os dados, o que se observa é que o crescimento vem acelerando, ao longo de todo o período.

Ao longo do período – até 1800 – a taxa de crescimento do PIB per capita manteve-se estável em torno de 0,02% ao ano. Ou seja, praticamente nenhum crescimento; a partir do século XIX, com a Revolução Industrial, a taxa de crescimento aumentou para 0,66%. Nesse ritmo, dobrar o PIB per capita exigiria crescimento ao longo de 107 anos.

Agora, se olharmos para o período entre 1900 e 1950, a taxa de crescimento acelera para 1,66%, ao ano. Já não precisamos de 107 anos para duplicar o PIB per capita, mas sim de 66. E se tomarmos o período entre 1950 e o ano 2000 vemos que a taxa de crescimento foi de 2,1% ao ano, o que significaria que em apenas 33 anos poderíamos dobrar o PIB per capita mundial. Esta tendência, longe de parar, ainda hoje está viva. Se considerarmos o período, entre 2000 e 2023, a taxa de crescimento acelerou novamente para 3% ao ano, o que implica que poderíamos dobrar nosso PIB per capita no mundo em apenas 23 anos.

Agora, quando estudamos o PIB per capita, desde o ano de 1800 até os dias atuais, o que observamos é que, após a Revolução Industrial, o PIB per capita mundial se multiplicou por mais de 15 vezes, gerando uma explosão de riqueza que tirou 90% da população mundial da pobreza.

Nunca devemos esquecer que no ano de 1800 cerca de 95% da população mundial vivia em pobreza extrema, mas esse número caiu para 5% em 2020, antes da pandemia.

A conclusão é óbvia: longe de ser a causa de nossos problemas, o capitalismo de livre iniciativa, como sistema económico, é a única ferramenta que temos para acabar com a fome, a pobreza e a miséria em todo o mundo. As evidências empíricas são inquestionáveis.

Por isso, como não há dúvida de que o capitalismo de livre mercado é superior – em termos de produção – a filosofia de esquerda tem atacado o capitalismo por questões de moralidade, por ser, segundo os seus detratores, injusto.

Dizem que o capitalismo é mau porque é individualista e que o coletivismo é bom porque é altruísta. Consequentemente, lutam por justiça social, mas esse conceito, que – desde o Primeiro Mundo – se tornou moda nos últimos tempos no meu país é uma constante no discurso político há mais de 80 anos. O problema é que a justiça social não é justa e não contribui para o bem-estar geral. Pelo contrário, é uma ideia intrinsecamente injusta porque é violenta; É injusto porque o Estado se financia através de impostos e os impostos são recolhidos de forma coerciva. Algum de nós poderá dizer que paga impostos voluntariamente? Isso significa que o Estado se financia por meio da coerção, e quanto maior a carga tributária, maior a coerção, menor a liberdade.

Aqueles que promovem a justiça social partem da ideia de que a economia como um todo é um bolo que pode ser distribuído de uma maneira diferente, mas esse bolo não é dado, é a riqueza que é gerada, no que – por exemplo – Israel Kirzner chama de processo de descoberta de mercado. Se o bem ou serviço oferecido por uma empresa não é desejado, essa empresa vai à falência a menos que atenda ao que o mercado exige. Se produzir algo de boa qualidade a um preço bom e atrativo, vai ter sucesso e produzir mais.

Portanto, o mercado é um processo de descoberta, em que o capitalista encontra o rumo certo à medida que avança, mas se o Estado pune o capitalista por ter sucesso e o bloqueia nesse processo de descoberta, destrói os seus incentivos, e a consequência disso é que ele produzirá menos e o bolo será menor, gerando danos à sociedade como um todo.

O colectivismo – ao inibir esses processos de descoberta e ao dificultar a apropriação do que foi descoberto – amarra as mãos do empresário e impossibilita que ele produza melhores bens e ofereça melhores serviços a um preço mais baixo. Como pode ser, então, que a academia, as organizações internacionais, a política e a teoria económica demonizem um sistema económico que não só tirou 90% da população mundial da pobreza extrema e o está a fazer cada vez mais depressa, como também é justo e moralmente superior?

Graças ao capitalismo de livre iniciativa, hoje, o mundo está no seu melhor. Nunca houve, em toda a história da humanidade, um tempo de maior prosperidade do que aquele que vivemos hoje. O mundo de hoje é mais livre, mais rico, mais pacífico e mais próspero do que em qualquer outro momento da nossa história. Isto aplica-se a todos, mas particularmente aos países livres, onde respeitam a liberdade económica e os direitos de propriedade dos indivíduos. Porque os países que são livres são 12 vezes mais ricos do que os que são reprimidos. O decil mais baixo da distribuição de países livres, vive melhor do que 90% da população de países reprimidos, tem 25 vezes menos pobres e 50 vezes menos pessoas em pobreza extrema. E como se isso não bastasse, os cidadãos de países livres vivem 25% mais do que os cidadãos de países reprimidos.

Agora, para entender o que estamos aqui a defender, é importante definir do que falamos quando falamos de libertarianismo. Para defini-lo, volto às palavras do maior herói das ideias de liberdade, da Argentina, o professor Alberto Benegas Lynch Jr., que diz: “libertarianismo é o respeito irrestrito ao projeto de vida dos outros, baseado no princípio da não agressão, em defesa do direito à vida, à liberdade e à propriedade, cujas instituições fundamentais são a propriedade privada, os mercados livres da intervenção do Estado, a livre concorrência, a divisão do trabalho e a cooperação social.”

Por outras palavras, o capitalista é um benfeitor social que, longe de se apropriar da riqueza alheia, contribui para o bem-estar geral. Em suma, um empreendedor de sucesso é um herói.

Este é o modelo que propomos para a Argentina do futuro. Um modelo baseado nos princípios fundamentais do libertarianismo: a defesa da vida, da liberdade e da propriedade.

Ora, se o capitalismo de livre iniciativa e a liberdade económica têm sido ferramentas extraordinárias para acabar com a pobreza no mundo; E estamos hoje no melhor momento da história da humanidade, por que digo então que o Ocidente está em perigo?

Digo que o Ocidente está em perigo precisamente porque nos países que deveriam defender os valores do livre mercado, da propriedade privada e das outras instituições do libertarianismo, sectores do establishment político e económico, uns por erros no seu enquadramento teórico e outros por ambição de poder, estão a minar os fundamentos do libertarianismo, abrindo as portas ao socialismo e potencialmente condenando-nos à pobreza. miséria e estagnação.

De facto, nunca se deve esquecer que o socialismo é sempre e em toda a parte um fenómeno empobrecedor que fracassou em todos os países onde foi tentado. Foi um fracasso económico. Foi um fracasso social. Foi um fracasso cultural. E também assassinou mais de 100 milhões de seres humanos.

O problema essencial do Ocidente de hoje é que não devemos confrontar apenas aqueles que, mesmo após a queda do muro e a esmagadora evidência empírica, continuam a lutar pelo empobrecimento do socialismo; mas também aos nossos próprios líderes, pensadores e académicos que, sob o disfarce de um quadro teórico defeituoso, minam os alicerces do sistema que nos deu a maior expansão de riqueza e prosperidade da nossa história.

O corpo teórico a que me refiro é o da teoria económica neoclássica, que desenha um sistema que, sem querer, promove a interferência do Estado, levando ao socialismo e à degradação da sociedade. O problema dos neoclassicistas é que, como o modelo pelo qual se apaixonaram não se enquadra com realidade, atribuem esse erro a supostas falhas de mercado, em vez de reverem as premissas do seu modelo.

Sob o pretexto de uma alegada falha do mercado, são introduzidas regulamentações que apenas geram distorções no sistema de preços, que impedem o cálculo económico e, consequentemente, a poupança, o investimento e o crescimento.

Este problema reside essencialmente no facto de mesmo os economistas supostamente libertários não compreenderem o que é o mercado, porque, se o fizessem, rapidamente veriam que é impossível que existam falhas de mercado.

O mercado não é uma curva de oferta e procura num gráfico. O mercado é um mecanismo de cooperação social em que as trocas são voluntárias. Por conseguinte, tendo em conta esta definição, uma falha de mercado é um oximoro. Não existe qualquer falha do mercado.

Se as transações forem voluntárias, o único contexto em que pode haver uma falha do mercado é se houver coação. E o único com a capacidade de coagir de forma generalizada é o Estado, que tem o monopólio da violência. Consequentemente, se alguém considerar que existe uma falha de mercado, recomendo que verifique se existe pelo meio alguma intervenção estatal. E se achar que não há intervenção estatal, sugiro que faça a análise novamente porque está definitivamente errado. Não existem falhas de mercado.

Um exemplo das supostas falhas de mercado descritas pelos neoclassicistas são as estruturas concentradas da economia. No entanto, sem funções que apresentam um retorno crescente à escala, cuja contrapartida são as estruturas concentradas da economia, não conseguiríamos explicar o crescimento económico desde 1800 até ao presente.

Repare-se como é interessante. A partir do ano de 1800, com a população a multiplicar-se mais de 8 ou 9 vezes, a produção per capita cresceu mais de 15 vezes. Há retornos crescentes, que levaram a pobreza extrema de 95% para 5%. No entanto, essa presença de retornos crescentes implica estruturas concentradas, o que seria chamado de monopólio.

Como é possível para os teóricos neoclássicos que algo que gerou tanto bem-estar seja uma falha de mercado? Economistas neoclássicos “saiam da caixa”! Quando o modelo falha, não precisam irritar-se com a realidade. Têm de se irritar com o modelo e mudá-lo.

O dilema que o modelo neoclássico enfrenta é que afirmam querer melhorar o funcionamento do mercado atacando o que consideram ser fracassos, mas ao fazê-lo não só abrem as portas ao socialismo, como também minam o crescimento económico.

Por exemplo, regular os monopólios, destruir os lucros e esmagar os rendimentos crescentes destruiria automaticamente o crescimento económico.

Por outras palavras, cada vez que se quer corrigir uma suposta falha do mercado, inexoravelmente, porque não se sabe o que é o mercado ou porque se apaixonou por um modelo falhado, está-se a abrir as portas ao socialismo e a condenar as pessoas à pobreza.

No entanto, face à demonstração teórica de que a intervenção estatal é nociva, e à evidência empírica de que falhou – porque não podia ser de outra forma –, a solução que os coletivistas irão propor não é uma maior liberdade, mas sim uma maior regulação, gerando uma espiral descendente de regulações até ficarmos todos mais pobres. E a vida de todos nós depende de um burocrata sentado num escritório chique.

Dado o fracasso retumbante dos modelos coletivistas e os inegáveis avanços do mundo livre, os socialistas foram forçados a mudar sua agenda. Deixaram para trás a luta de classes baseada no sistema económico para a substituir por outros supostos conflitos sociais igualmente prejudiciais à vida comunitária e ao crescimento económico.

A primeira dessas novas batalhas foi a ridícula e antinatural conflito entre homem e mulher.

O libertarianismo já estabelece a igualdade entre os sexos. A pedra fundamental do nosso credo diz que todos os homens são criados iguais, que todos temos os mesmos direitos inalienáveis concedidos pelo criador, entre os quais estão a vida, a liberdade e a propriedade.

A única coisa que essa agenda do feminismo radical se tornou é numa maior intervenção do Estado para dificultar o processo económico, para dar trabalho a burocratas que não contribuem em nada para a sociedade, seja na forma de ministérios da mulher ou organizações internacionais dedicadas a promover essa agenda.

Outro dos conflitos que os socialistas colocam é o do homem contra a natureza. Argumentam que os seres humanos prejudicam o planeta e que ele deve ser protegido a todo custo, chegando ao ponto de defender mecanismos de controle populacional ou a agenda sangrenta do aborto.

Infelizmente, estas ideias nocivas têm permeado fortemente a nossa sociedade. Os neomarxistas conseguiram cooptar o senso comum do Ocidente. Conseguiram isso graças à apropriação dos meios de comunicação, da cultura, das universidades e, sim, também das organizações internacionais.

Felizmente, cada vez mais gente como nós ousa levantar a voz. Porque vemos que, se não combatermos estas ideias de frente, o único destino possível é o de ter cada vez mais Estado, mais regulação, mais socialismo, mais pobreza, menos liberdade e, consequentemente, um pior nível de vida.

O Ocidente, infelizmente, já começou a trilhar esse caminho. Sei que pode soar ridículo para muitos sugerir que o Ocidente se voltou para o socialismo. Mas só é ridículo na medida em que se restringe à definição económica tradicional de socialismo, que afirma que é um sistema económico onde o Estado é dono dos meios de produção.

Esta definição deveria, para nós, ser actualizada às circunstâncias actuais. Hoje, os Estados não precisam controlar diretamente os meios de produção para controlar todos os aspectos da vida dos indivíduos.

Com ferramentas como emissão monetária, empréstimos, subsídios, controles de taxas de juros, controles de preços e regulamentações para corrigir as chamadas “falhas de mercado”, eles podem controlar os destinos de milhões de seres humanos.

É assim que chegamos ao ponto em que, sob diferentes nomes ou formas, boa parte das propostas políticas geralmente aceites na maioria dos países ocidentais são variantes colectivistas.

Sejam eles abertamente comunistas, socialistas, social-democratas, democratas-cristãos, neokeynesianos, progressistas, populistas, nacionalistas ou globalistas.

No final, não há diferenças substantivas: todos defendem que o Estado deve dirigir todos os aspetos da vida dos indivíduos. Todos eles defendem um modelo contrário àquele que conduziu a humanidade ao progresso mais espetacular da sua história.

Viemos aqui hoje para convidar os outros países do Ocidente a retomarem o caminho da prosperidade. A liberdade económica, o governo limitado e o respeito irrestrito pela propriedade privada são elementos essenciais para o crescimento económico.

Este fenómeno de empobrecimento produzido pelo colectivismo não é uma fantasia. Nem fatalismo. É uma realidade que nós, argentinos, conhecemos muito bem.

Porque já vivemos isso. Nós estivemos lá. Porque, como disse antes, desde que decidimos abandonar o modelo de liberdade que nos enriqueceu, estamos presos numa espiral descendente em que somos cada dia mais pobres.

Nós já experimentamos isso. E estamos aqui para alertá-los sobre o que pode acontecer se os países do Ocidente que enriqueceram com o modelo de liberdade, continuarem nesse caminho de servidão.

O caso argentino é a demonstração empírica de que não importa quão rico seja, quantos recursos naturais tenha, não importa quão qualificada seja a população, ou quão educada ela seja, ou quantas barras de ouro existam nos cofres do banco central.

Se forem tomadas medidas que impeçam o livre funcionamento dos mercados, a livre concorrência, os sistemas de preços livres, se o comércio for dificultado, se a propriedade privada for violada, o único destino possível é a pobreza.

Para concluir, quero deixar uma mensagem a todos os empresários aqui presentes e àqueles que nos observam de todos os cantos do planeta.

Não vos deixeis intimidar nem pela casta política nem pelos parasitas que vivem do Estado. Não se rendam a uma classe política que só quer perpetuar-se no poder e manter os seus privilégios.

Vocês são benfeitores sociais. Vocês são heróis. Vocês são os criadores do período mais extraordinário de prosperidade que já vivemos. Que ninguém lhes diga que a sua ambição é imoral. Se ganham dinheiro, é porque oferecem um produto melhor a um preço melhor, contribuindo assim para o bem-estar geral.

Não cedam ao avanço do Estado. O Estado não é a solução. O Estado é o próprio problema.

Vocês são os verdadeiros protagonistas desta história, e sabem que, a partir de hoje, têm um aliado inabalável na República Argentina.

Muito obrigado e Viva la libertad carajo!

 

Nota: tradução e destaques pela Oficina da Liberdade.

https://oficinadaliberdade.pt/discurso-do-presidente-da-nacao-argentina-javier-milei/

domingo, 26 de novembro de 2023

Atilio Boron - A vitória de Milei, uma construção mediática planificada

– Em 2018 fizeram-lhe 235 entrevista e teve 193 547 segundos de tempo de antena – mais do que qualquer outro político. O mesmo verificou-se nos anos seguintes.

Atilio Boron [*]
entrevistado por Correo del Alba
 
Milei é o que no campo político se chama de um outsider. O que se passou com sua figura tão controversa, apoiada por jovens, homens na sua maioria, que ascendeu como espuma? A velha guarda peronista não o viu subir? Ela tem responsabilidade nos resultados deste 19 de Novembro?


Vejamos por partes. Em primeiro lugar, Milei era um outsider na arena política, mas não nos meios de comunicação social. Mariana Moyano, a jornalista que infelizmente desapareceu há algumas semanas, verificou que ele foi o economista mais consultado nos programas de rádio e televisão em 2018. Segundo essa fonte, nesse ano ele foi entrevistado 235 vezes e teve 193.547 segundos de tempo de antena. Nenhuma outra figura da vida política se aproxima sequer destes números, e o mesmo aconteceu nos anos seguintes. Por outras palavras, foi uma construção mediática cuidadosamente planeada.


Em segundo lugar, o papel da juventude, a principal vítima do processo de informalização, "desalarização" e precarização do trabalho. O segmento entre 18 e 29 anos de idade, num total de oito milhões 337 mil 914 pessoas, representa 24,29% do eleitorado nacional. Além disso, um milhão 163.477 jovens entre 16 e 17 anos estão aptos a votar. A nível nacional, esta faixa etária representa apenas 3,3% do total dos cadernos eleitorais, uma proporção quase igual à da província de Entre Ríos. Por conseguinte, estamos a falar de um pouco mais de 27% do eleitorado constituído por jovens que pouco ou nada se sentem motivados a votar no candidato do partido no poder, ou que não têm uma memória muito viva dos acontecimentos de 19 e 20 de novembro de 2001 e mesmo da época dourada do kirchnerismo. Não estavam encantados com a proposta oficial, algo que era evidente até mesmo para um cego, bastando comparar o fervor juvenil dos eventos de Milei - cuidadosamente encenados, sem dúvida, mas adequados para despertar o entusiasmo dos jovens - com a embalagem e uma certa indiferença que prevaleceu em quase todos os eventos que o aparelho da Frente de Todos organizou para Massa.


Para concluir esta resposta, é óbvio que a velha guarda peronista, egocêntrica e entrincheirada na defesa dos seus interesses corporativos e sectoriais, há muito que não vê o que está para vir, nem tem a mínima compreensão do que é e como funciona a sociedade contemporânea. Não é a única, mas é certamente o principal responsável por este desastre.


Quanto do que Milei prometeu na sua campanha é possível realizar na Argentina de hoje?


É difícil fazer um prognóstico. Há áreas em que a resistência social, espontânea, vinda de baixo, será muito forte. Estou a pensar no caso da tentativa de avançar com a privatização da segurança social, dada a experiência catastrófica da AFJP em todo o mundo. Noutros, talvez não tanto, por exemplo, se o objeto desta política fosse a Aerolíneas Argentinas; mas também aí pode haver surpresas. No caso da YPF, as coisas serão um pouco mais complicadas, porque as províncias são as proprietárias das riquezas do subsolo, o que implicaria abrir um debate difícil de prever para o governo, dada a composição das duas câmaras do Congresso. Em suma, será necessário olhar para cada caso e medir a correlação de forças que prevalece em cada instância.


Há muitos factores que influenciam esta disparidade de reacções. Um deles é o facto de muitas das organizações sociais e forças partidárias estarem muito enfraquecidas e deslegitimadas. Segundo, a decomposição do universo popular, fragmentado numa miríade de situações laborais marcadas pela precariedade absoluta, pela falta de representação sindical e pela ausência total de legislação protetora que beneficie um sector cada vez mais minoritário da população economicamente ativa. Terceiro, a luta no seio do bloco dominante heterogéneo, onde as fracções ligadas à especulação financeira têm mais influência do que as ancoradas na produção industrial e mesmo na agroindústria. Os resultados variáveis desta disputa entre fracções das classes dominantes serão muito importantes para facilitar ou dificultar a concretização das promessas de campanha do novo presidente.


Milei é uma mudança de paradigma que representa mais a juventude que vem crescendo acompanhada por redes sociais que circunscrevem a realidade a nada mais do que seus interesses?


Ele é um emergente dessa situação de extrema vulnerabilidade de uma juventude brutalmente atingida pela pandemia e pela quarentena e, além disso, por uma política económica que aprofundou a exclusão económica e social e aumentou a pobreza para níveis sem precedentes, com exceção dos breves episódios hiperinflacionários de maio-julho de 1989 e janeiro-março de 1990. Para esta categoria social, a experiência do governo de Alberto Fernández e do seu ministro das Finanças, Sergio Massa, foi um desastre absoluto. Para estes jovens, não havia políticas económicas que permitissem aumentar os salários (exceto para uma minoria, o que era insuficiente), nem uma epopeia que lhes permitisse verem-se como militantes de uma causa nacional, e muito menos um aparelho de comunicação que reforçasse as suas reivindicações e fizesse ouvir a voz dos detentores do poder. Resultado: uma corrida quase maciça em direção a alguém que, astutamente, foi apresentado pelos poderes dominantes como fresco, jovem, inovador, apesar de ser um homem de 53 anos. Surpreendente? Não para aqueles de entre nós que estudam o papel das redes sociais, dos algoritmos e das novas técnicas de neuromarketing político.


Ou para aqueles que, como eu, andaram a pregar no deserto a necessidade de travar a batalha das ideias para a qual tínhamos sido convocados por Fidel desde o final do século passado e que a esquerda em geral e o movimento nacional-popular subestimaram irresponsavelmente. O resultado: triunfo da "anti-política"; identificação da "casta" e do Estado como agentes predadores, ocultando o papel da burguesia e das classes dominantes como agentes da exploração colectiva; exaltação do hiper-individualismo e seus correlatos, abandono, senão repúdio, das estratégias de ação colectiva e das organizações de classe, territoriais ou laborais, confiança na "salvação" individual e condenação dos que participavam em protestos colectivos, tudo em benefício da exaltação irracional de um hábil demagogo patrocinado pelos capitais mais concentrados.


Perante esta configuração cultural, era quase impossível, sobretudo com uma inflação a rondar os 13% ou 15% ao mês, que um ministro da Economia responsável por esta situação ganhasse as eleições. Perante este cenário, a votação obtida por Massa é verdadeiramente espantosa.


Será ele capaz de pôr fim ao Estado-providência que caracteriza a Argentina desde meados do século passado, com Perón e Evita?


A primeira pergunta responde em parte a esta questão. Mas há que acrescentar à Argentina de Perón e Evita os importantes avanços económicos e sociais dos anos do kirchnerismo, embora seja evidente que, por muito louváveis que tenham sido, não foram suficientes para enfrentar com êxito os estragos que a acumulação capitalista produz em todo o mundo e, muito especialmente, num país com um Estado tão débil e ineficaz como a Argentina.


Note-se que, como nos assegura um relatório da Central de Trabalhadores da Argentina (CTA), entre 2016 e 2022 a transferência de rendimentos do trabalho para o capital ascendeu a 87 mil milhões de dólares, dos quais 48 mil milhões de dólares foram transferidos em 2021 e 2022, anos em que governou uma coligação "nacional e popular". O resultado: uma degradação muito grave dos salários, que na economia formal se situam mesmo abaixo do limiar de pobreza. Seria de esperar outra coisa que não fosse a frustração e a cólera de largas camadas do eleitorado face a esta dolorosa realidade económica? De que anticorpos dispunham para não se deixarem seduzir por um discurso disparatado, repleto de mitos absurdos (como, por exemplo, o de que a Argentina no início do século XX era o país mais rico do mundo, entre tantos outros absurdos!), mas que vociferava a necessidade de pôr fim a uma situação intolerável, deixando de lado tudo o que era antigo e execrando uma suposta "casta" que, em seu próprio benefício, os tinha condenado à pobreza e à miséria?


Como encara a oposição a Milei, haverá um movimento para vigiar o seu programa?


Dependerá da reorganização e rearticulação do campo popular, das suas propostas concretas de luta, do carácter da sua estratégia defensiva face aos ataques previsíveis de um governo obcecado em cortar direitos laborais e sociais e em provocar um ajustamento máximo da economia. Depende também do surgimento de lideranças credíveis e com grande poder de convocação, capazes de atrair os milhões de pessoas mergulhadas na miséria e na insegurança pela voracidade ilimitada do capital.


O sistema partidário entrou em colapso e, pior ainda, as forças e identidades políticas que marcaram grande parte da vida política argentina desde meados do século passado até há poucos anos –- o radicalismo e o peronismo – entraram numa crise de proporções sem precedentes. Provavelmente reaparecerão, em chave neoliberal e sob formas mutantes e provavelmente aberrantes que pouco ou nada terão a ver com o ADN que os constituiu.


O radicalismo orgânico desvaneceu-se e os seus eleitores lançaram-se com todas as suas forças na votação de alguém que tinha insultado grosseiramente os dois líderes mais importantes dessa força política: Yrigoyen e Alfonsín. E o aparelho do peronismo, e os eleitores dessa corrente, só em minoria apoiaram a candidatura de Massa. Basta ver o que se passou nas províncias que costumam ser bastiões do voto peronista (La Rioja, Salta, Tucumán, Chaco, Catamarca, Santa Cruz e, em menor medida, outras) para ver que esse eleitorado está agora disponível para qualquer demagogo ou qualquer arranjo cupular decidido pelos grupos que em cada província se apoderaram do selo de aprovação peronista. Nem os radicais nem os peronistas são hoje forças políticas com uma organização, liderança e estratégias de luta política de âmbito nacional. Fragmentaram-se em 24 partidos, um para cada província, e estão dispostos a negociar o seu voto de acordo com as circunstâncias.


Como é e como será a relação de Milei com as forças armadas?


Penso que será muito boa. A vice-presidente Victoria Villarruel é uma apologista descarada da ditadura genocida, uma admiradora do ditador Jorge Rafael Videla e dos seus comparsas na violação dos direitos humanos; será ministra da Defesa e da Segurança.


A socialização política reacionária das Forças Armadas, tarefa para a qual o Comando Sul e os vários tratados de colaboração militar entre os EUA e a Argentina desempenham um papel muito importante, abrirá certamente o caminho para que estas se encarreguem da repressão que as políticas ultraneoliberais de Milei irão necessariamente exigir.


Na linha do que disse e fez Patricia Bullrich enquanto ministra da Segurança do regime de Macri, Milei dará sinal verde às Forças Armadas e à polícia para libertarem impunemente o seu potencial repressivo contra o "inimigo interno". A "Doutrina Chocobar" era um protocolo que permitia às forças federais disparar sem dar o alarme contra qualquer suspeito, o que implica um retrocesso muito grave em termos de respeito pelas garantias individuais e pelo Estado de direito. Foi revogado por uma das primeiras iniciativas do governo de Alberto Fernández, mas infelizmente parece que esta doutrina vai regressar com o novo governo.


No entanto, resta saber como reagirão as forças de segurança quando se confrontarem com milhares de jovens, mulheres e crianças que exigem justiça, embora as lições da história contemporânea da América Latina mostrem que a confusão entre segurança interna e defesa externa tende a ser a mãe de violações muito graves dos direitos humanos, como aconteceu no México nos anos anteriores ao governo de Andrés Manuel López Obrador. Nos Estados Unidos e nos países europeus, ambas as funções estão claramente delimitadas. O novo governo argentino parece disposto a fazer uma aposta com consequências desastrosas mais do que óbvias. Mas, nesta como noutras questões, como as políticas de redução ou anulação de direitos, seria um erro subestimar a reação da sociedade argentina, que em várias ocasiões se mostrou contrária a ditaduras ferozes ou a planos de ajustamento económico selvagens.


A história argentina oferece numerosos exemplos de resistência e, embora a sociedade tenha mudado muito nos últimos tempos, não seria estranho que essa rebeldia reaparecesse com força vulcânica, mesmo na ausência de estruturas organizativas adequadas. O "Cordobazo" de 1969 e a insurreição popular de 19 e 20 de dezembro de 2001 são espectros que, sem dúvida, perturbarão os sonhos daqueles que pretendem destruir as conquistas económicas, sociais e culturais que o povo argentino obteve através de grandes lutas.


Como o triunfo de Milei pode afetar geopoliticamente a região?


Em primeiro lugar, prejudicará a Argentina porque, de acordo com as exigências de Washington, fará da Argentina um aríete para reduzir a presença da China na região, mesmo à custa de prejudicar os interesses nacionais da Argentina, os seus sectores de exportação e a mão-de-obra a eles ligada. A vitória de Milei é provavelmente uma vitória de "sonho" para o establishment norte-americano, porque encontra no sul do continente um fanático disposto a executar sem questionar as mais pequenas sugestões de Washington: Anticomunista convicto (numa definição tão vaga que vai de Lula ao Papa Francisco, passando pela China, Cuba, Venezuela e Nicarágua); alinhado incondicionalmente com o Império, justificador do genocídio em curso em Gaza, admirador do Estado terrorista israelense e da sociedade norte-americana, Milei na Casa Rosada encorajará com o seu exemplo comportamentos semelhantes entre os líderes de direita dos países vizinhos.


Talvez, e mais uma vez devemos ter em conta as divisões no seio do bloco dominante, ele possa ir ao ponto de não só excluir a Argentina da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e das Caraíbas (Celac), mas também de rejeitar ou adiar sine die a incorporação decisiva do nosso país nos BRICS plus, que deverá ter lugar a 1 de janeiro do próximo ano.


Em suma, a cruzada contra o "inimigo chinês", segundo os documentos do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, encontrou o seu profeta nestas distantes e turbulentas terras do Sul. E, do ponto de vista geopolítico, com Milei na presidência da Argentina, fica afetado negativamente o tabuleiro de xadrez internacional da América Latina e das Caraíbas.



24/Novembro/2023

[*] Sociólogo, argentino. Algumas das suas obras encontram-se em resistir.info/livros/livros.html


https://resistir.info/argentina/milei_24nov23.html

O original encontra-se em www.lahaine.org/mundo.php/boron-el-triunfo-de-milei 

Alexandre Hoffmann - A crónica de um (anunciado) Inverno argentino

*  Alexandre Hoffmann 

21 NOVEMBRO, 2023
 

A estupidificação de parte das lideranças mundiais tem resultado, sobretudo, de dois processos distintos: o esvaziamento da social-democracia na construção de soluções capazes, face à heterogeneização de um mundo convulso, social, política e economicamente falando, e à mediatização, carregados em ombros pela imprensa, dos movimentos, e de seus líderes, que agrupam em sua órbita as correntes políticas populistas e fascistas.


O falhanço da política social-democrata

Num mundo e num momento de profundas convulsões sociais e económicas, a terceira via e as suas políticas frugais e de circunstância, que tentam manter um irrealizável equilíbrio entre a sobrevivência do sistema capitalista e o desenvolvimento dos povos, configuram uma alternativa que se tem vindo democraticamente, nas actuais fronteiras das definições e conceitos de democracia ocidental, a esgotar-se. Com a sua amplitude ideológica, e convenientemente esparsa, os campos políticos da democracia burguesa aumentaram a sua esperança média de vida, arrebanhando os eleitorados possíveis, mediante a manipulação em seu favor do concreto de cada realidade eleitoral e, sobretudo, a definição a tempos e espaços e ao sabor dos ventos dos dias das suas falsas bandeiras e posicionamentos políticos. Porém, com todas as experimentações e combinações políticas e de governo, possíveis e imaginárias, mas sempre subservientes aos interesses do grande capital, da exploração e do imperialismo, e às respectivas instituições internacionais que preconizam tais ideais, resultaram num cenário absolutamente escabroso para os povos dos países dito desenvolvidos e emergentes. Perante a situação de inflação e retraimento económico, de empobrecimento generalizado e de profundas convulsões sociais, o surgimento dos movimentos neofascistas e populistas, não resulta de uma necessidade orgânica e de base, mas antes como o seguro de vida do sistema capitalista, e inclusivamente, a prazo, da via social-democrata e da direita tradicional, que saberão esperar, durante o triunfo fascista, o seu regresso. Antes penar do que desaparecer, que a alternativa preconizada pelos movimentos populares determinaria, não por imposição mas por experimentação, o seu fim, assim o liberalismo económico surge como um mal menor.

Discursos messiânicos como resposta às crises económicas e sociais

Líderes populistas brotando em cada esquina são a versão modernizada de figuras sacras e virgens surgindo em árvores. Se as políticas dos campos da social-democracia não surtem os efeitos desejados na vida das pessoas, pese embora as proficientes oportunidades que lhes vão sendo entregues nos vários e consecutivos plebiscitos eleitorais, a descrença no sistema promove o espaço para curas milagrosas e discursos messiânicos. A iliteracia política, uma erva daninha entre o povo ocidental, promovida, e em muito bem-querida, pelo capitalismo, num fervor de falsa modernidade que em muito também lhe convém, o que importa a política afinal?, desbrava caminhos até ao poder, promovendo um desinteresse e apatia generalizada pelos processos políticos e democráticos em primeira instância, e posteriormente num desespero, perante a carestia de vida, que num ímpeto de sobrevivência se lançam parte dos povos marginalizados em apoio a estes movimentos inorgânicos, crendo que nestes discursos aparentemente salvadores, de anticorrupção e de anti-sistema, assentes mediante a necessidade e circunstância em bodes expiatórios. Afinal se esta gente é pobre, a culpa é do cigano ou do negro ou do emigrante, do subsídio ou do sindicato, enfim, do “socialismo”. Mas por que razão parece teimar colar este argumentário vazio?

O papel da imprensa

A imprensa pública e estatal, que assim-assim vai cumprindo o seu papel constitucional dentro de um estado de direito, é aparentemente o único inimigo comum na cruzada fascista e neofascista, no que toca à imprensa de uma forma geral, entenda-se. Não é por mera coincidência que, de forma transversal, se encontre a premissa neste tipo de projectos ultraliberais a intenção programática de encerramento ou privatização dos órgãos de comunicação estatais, e, por sua vez, o enaltecimento dos seus pares de iniciativa privada, nas mãos companheiras que alimentam os seus projectos políticos. A iniciativa privada no campo da informação, não configura, nem pode configurar, jornalismo independente, isto é, se é financiado e se tem como objectivo uma sustentabilidade económica e fomentação de lucro trata-se de um negócio e não de um serviço, que obedecerá, não aos critérios rigorosos de informação imparcial, mas sim aos interesses de regime dos seus proponentes. Está para lá, bem para lá, do curioso, quando se atenta ao tempo de antena e destaque, que grande parte da comunicação social insiste em ofertar a este tipo de movimentos e partidos políticos que giram em seu redor, exponenciando a sua força e relevância, que nunca encontra paralelo nas ruas, nos campos, nas fábricas e nas escolas, é, portanto, de realçar, para reflexão urgente, o papel da imprensa na construção destes fenómenos. Não obstante, a resposta aos seus porquês será bem mais simples do que poderá aparentar: servem os seus interesses de classe e o sistema de que ambos se alimentam.

O paradoxo dos movimentos ‘ele não’

Vão valendo os legados históricos dos movimentos de massa, que os seus processos, mesmo que intermitentes em bastantes cenários ocidentais, deixam as suas organizações, métodos e aprendizagem, ao longo das gerações. No entanto, o revisionismo encontrou, mesmo à esquerda, os seus espaços e outras terceiras vias, que construíram, ou replicaram, erros de montra com efeitos altamente contraproducentes. A desorganização e fragmentação, e até algumas fragilidades, das forças progressistas fizeram com que, não raras vezes, as frentes unitárias que se propuseram fazer frente a um determinado projecto político de regressão, encorpassem o seu discurso e acção no antagonizar de determinada figura individual, enfocando toda a energia no ataque a um conjunto de características pessoais, retirando do centro da discussão e do esclarecimento as suas propostas políticas, de construção de alternativa e de representação popular. Bastaria já o palco mediático ofertado a este tipo de agremiações e personagens, e este tipo de campanhas, centradas nestas personagens, e relembrando que não existe tal coisa como má publicidade, são do seu total interesse e conveniência, e disso é prova todo o exemplo saído dos últimos actos eleitorais, mundo fora, em que grande parte das forças democráticas resumiram o seu discurso e luta a um esvaziado “ele não”.

O projecto-comum do neoliberalismo e do fascismo

Pelas lentes de onde nos encontramos, politica e socialmente, em muito é-nos difícil distinguir a diferença, e, sobretudo as consequências, entre um projecto manifestamente liberal e um outro fascista. A sobrevivência de um está dependente da força do outro, e a teia que garante a vantagem económica e de lucro, a quem serve o liberalismo, assenta a sua estrutura e manutenção na concretização das políticas fascizantes, pelas mãos dos seus grupos políticos, que acabam, e que teimam, por financiar, sobretudo, nos ciclos recorrentes de regressão económica, decretada a tempos como impõe o capitalismo no seu normal funcionamento. Não se condene à partida o viés dos óculos com que temos aprendido estas coisas, que do lado de lá, sublinhando a importância do momento de crise, qualquer coisa à sua esquerda, mesmo bem lá para a direita, perto e encostado a si, o liberalismo apelida tudo de “socialismo”, impondo os forjados caminhos de ambição num reconstruído regime e numa fraca figura de estado como salvação, e em tudo se alinha, aqui e ali, no discurso paralelo entre uns e outros, para a destruição dos serviços públicos, para a diminuição da estrutura do estado, para o entrecorte de direitos sociais e laborais, e para a mercantilização de tudo e todos, só não há garantias de qualquer avanço, prometendo que nada desse passo em frente é necessário e fará falta. Quem já pouco tem, pouco se importa de aventurar por estes caminhos ardilosos, afinal alguma solução haverá de existir, que seja então a mais berrada e a mais gritada, mas este será, seguramente, a desgraça dos povos.

O projecto particularmente grave de Javier Milei

Aqui estamos nós a individualizar a questão, mas atente-se que é por pertinácia e circunstância dos dias vividos no país do Sol de Maio, e não por outro motivo. Porque o que aqui se escreverá de seguida, encontra paralelo e exemplo em todos os lugares, e estes projectos não são, nem configuram, nada de novo. Javier Milei, novo presidente eleito da Argentina, reúne em si um conjunto de características desejáveis, aos olhos do amedrontado capital, que replicou ali o já antes tentado, com sucesso reconheça-se, noutros países, e afastemo-nos dos exemplos concretos, amplamente sabidos por todos. Se a repetição individual é de fácil percepção, mais facilitada está-nos a vida nos projectos que encorpou a sua candidatura, que no fascismo e no liberalismo é cientificamente comprovada uma máxima, de que nada se ganha, muito se perde e, sobretudo, nada se transforma.

Javier Milei preconiza um programa político de “flexibilização” do emprego, que atirará às ruas muitos mais argentinos do que agora estão, em grande conluio com as confederações patronais, propõe a desintegração da saúde pública gratuita, promove a conceptualização abstracta da meritocracia e do estado mínimo. Anuncia-se como anarcocapitalista, odiando o estado, mas ansiando paradoxalmente ser ele o estado, proclamando a extinção de vários ministérios, muitos ligados às tutelas de questões laborais e sociais, tudo valendo para angariar a franja que engoliu o discurso de demonização da figura estatal, aproveitando para um dos maiores ataques aos trabalhadores daquele país que há memória.

Propõe uma Argentina grande e soberana, independente e interventiva, afirmando que encerrará o Banco Central, em larga medida, bem ou mal, garante relativo da independência monetária do país, apenas para enveredar por uma dolarização da economia, que não se abaixe tanto as calças ao domínio americano, não vá cair por terra tão enobrecido intento, enquanto que anuncia em simultâneo a saída da MercoSur, que em muito contribuiu para o desenvolvimento e soberania das economias sul-americanas. Para Milei, tudo e todos, neste regime democrático, são parasitas, subsidiários e oportunistas, e configuram o grande mal económico e financeiro do país, mas não nunca, o grande capital sedento e vampiresco, que pese a crise argentina, mantém incólume o seu lucro.

Tudo isto vos poderá soar, e bem, a uma replicação de vários cenários similares, uns perto outros mais afastados, uns aqui e outros acolá, mas a cada povo e nação cabe, em desditosa fortuna, ter o seu pequeno führer de bolso. Milei, que mandou clonar o seu cão, sorte que a cada existência corresponda uma só alma, imaginem a sorte, ou falta dela, de ser bicho de estimação em duas rodadas de vida de Javier Milei, e que através dos seus cães fala com deus, reveste-se das suas próprias particularidades e desideratos políticos, como a legalização de compra e venda de bebés, a proibição do aborto, a liberalização de órgãos, o armamento geral da população, o combate ao “marxismo-cultural”, seja o que isso for, o fim da escolaridade obrigatória e a subsidiação ao ensino privado, teremos já ouvido esse argumento de que “os pais possam escolher livremente onde os filhos estudam”, e, por substituição à saúde pública e gratuita, a criação de um seguro de saúde universal, por fim, que não pedirá desculpa por ter um “pénis”, não o teria de fazer, o que nos preocupa é que seja esse mesmo o seu membro mais intelectualizado.

Se parece ser certo que só o povo salva o povo, é também certo que só o fascismo poderá salvar o capitalismo, e mais à sua sanha imperialista e belicista, e à sua injusta e criminosa acumulação de riqueza. Se isto é, efectivamente, um passo atrás, então a resistência, a organização, a unidade e a luta, serão o único garante para dois à frente.

https://manifesto74.pt/a-cronica-de-um-anunciado-inverno-argentino/