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quinta-feira, 18 de junho de 2020

Carlos de Oliveira - (poema 45″)

Carlos de Oliveira
 
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira
in ‘Mãe Pobre’

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Carlos de Oliveira - Vilancete Castelhano de Gil Vicente

* Carlos de Oliveira

Por mais que nos doa a vida
nunca se perca a esperança;
a falta de confiança
só da morte é conhecida.
Se a lágrima for cumprida
a sorte, sentindo-a bem,
vereis que todo o mal vem
achar remédio na vida.
E pois que outro preço tem
depois do mal a bonança,
nunca se perca a esperança
enquanto a morte não vem.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Carlos de Oliveira - Águia

* Carlos de Oliveira

As águias não deviam ser aves
mas corações aduncos e com asas:

se olhares à flor dos campos e das casas
sentes o peito maior do que a amplidão:

se alguma coisa nasceu para voar
foi o teu coração.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

 

03/12/10

Hoje no «JN»



A Alice recorda Carlos Oliveira
Carlos de Oliveira em quadro de Mário Dionísio
Crónica de Alice Vieira, hoje no JN: - «Recordando Carlos de Oliveira - .
«Quando chega Dezembro, começamos a notar que à mesa familiar falta cada vez mais gente. "Mesa familiar" é, no fundo, a metáfora que usamos para nesta altura abraçarmos um pouco mais os amigos e ficarmos felizes só pelo facto de eles estarem ao nosso lado. Mas ao nosso lado vai havendo cada vez mais lugares vagos. A minha mesa familiar ainda não se habituou às ausências do João Aguiar, da Rosa Lobato de Faria, da Matilde Rosa Araújo, do Raul Solnado, da Mariana Rey Monteiro, todos eles ainda tão dentro de mim.
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Mas, de repente, chega-me uma terrível e inesperada saudade de alguém que há muitos anos desapareceu da minha mesa.
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Tudo por causa de um programa que a RTP2 passou, dedicado aos "Grande livros".
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Naquela noite, o livro era "Uma abelha na chuva", do Carlos de Oliveira.
É um grande romance da nossa literatura e foi bom recordarmos as imagens do filme do Fernando Lopes, e ouvir falar dele (a Laura Soveral e a sua voz incomparável...)
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Mas o que sobretudo me marcou foi o rosto do Carlos de Oliveira - aquele olhar que entrava dentro de nós e nos dizia tudo o que era preciso, aquele sorriso que me recebia sempre, quando eu chegava à sua mesa do "Monte Carlo".
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Ele e o Zé Gomes Ferreira - sempre. Depois, às vezes por lá caíam o Abelaira, o Mário Dionísio, tantos outros.
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Mas o Carlos e o Zé Gomes eram a minha âncora. E foram a minha verdadeira universidade. Eu, 20 e poucos anos, deslumbrada no convívio diário com gente que nunca pensara vir a conhecer.
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E, de repente, quando a revolução de Abril dava os seus primeiros passos, o Carlos de Oliveira morre. De um dia para o outro.
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Nunca perdoei ao destino, e acho que aquela geração mais nova que privou com ele nunca mais se recompôs.
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Fosse o que fosse que fizéssemos ou escrevêssemos, pensávamos sempre: "O que é que o Carlos dirá disto".
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Ele era o rigor, a coerência, a lucidez em estado puro.
Ele era a nossa consciência moral.
Nunca mais tivemos outra.»
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Modus vivendi - Poesia

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27 de agosto de 2009

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A manhã

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(gentileza de Amélia Pais)

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A manhã nasce entre as muitas janelas
invadindo meu corpo fatigado,
sede dos meus caminhos sem cancelas,
na luz de muitos astros albergados.

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Casa onde me recolho das mazelas,
dos louros, derroteiros, lado a lado,
para ouvir de mim, franco, das seqüelas:
Ecce Homo! Eis o triste camuflado.

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Essa tristeza de há muito em residência
às vezes se constrói em face alegre,
máscara sem eu mesmo em aparência

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num carnaval escuro no seu frege.
O que me salva, cor nessa vivência,
é saber que a poesia é quem me rege.

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Aníbal Beça

26 de agosto de 2009

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Dança II

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as máscaras de espuma, fende-as a luz; e restitui
os rostos sem defesa
à erosão do mar;
alguns estudos sobre o vento
dizem que não regressará
tão cedo a esta praia;
incapaz de transpor a exalação
de fossas e algas; a muralha
que se prolonga, opaca,
às últimas camadas
onde é possível respirar;
e assim, faltando o vento, essência da leveza, cessa
a progressão aérea
que a dança subentende:

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Carlos de Oliveira

conspiracy of love

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Blessed is the season which engages the whole world in a conspiracy of love.
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Hamilton Wright Mabi

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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Modus vivendi - Poesia

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25 de agosto de 2009

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Dança

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Dançam na praia;
na orla onde se vai acumulando
uma primeira espuma;
de que surge a segunda;
que segrega, por sua vez,
o antídoto do mar;
usado sobre os rostos,
contra a acidez do sal, do lodo;
e esse trabalho atrasa mais
o movimento já difícil
de quem dança
desde o crepúsculo; talvez
possam chegar à madrugada;
mas não podem
refugiar-se noutra noite,
ao fim do túnel diurno:

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Carlos de Oliveira

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Learn to labour and to wait.

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Let us, then be up and doing,
With a heart for any fate;
Still achieving, still pursuing,
Learn to labour and to wait.

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Henry Wadsworth Longfellow

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Algarve

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Estas dunas intactas sem cacos
sem restos de gestos e palavras amanhecendo
virgens da sua noite dormida com o vento

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Teresa Rita Lopes

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