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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Daniel Oliveira ~ Smart Glasses are watching you!


* Daniel Oliveira

Os óculos inteligentes da Meta, que gravam sem se notar, são o novo negócio assente na erosão de um luxo que a humanidade levou séculos a conquistar e está a morrer: a privacidade. Já não é o Estado quem nos vigia, mas quem lucra com os nossos dados.

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Dilara, de 21 anos, estava na hora de almoço quando um homem puxou conversa e a filmou. O vídeo foi parar ao TikTok, chegou a 1,3 milhões de visualizações e incluía o número de telefone dela. Foi inundada de chamadas e mensagens, e chegou a ter homens desconhecidos a aparecer no seu local de trabalho. Denunciou o vídeo ao TikTok e a resposta foi que não tinha sido encontrada "nenhuma violação". Kim, de 56 anos, foi filmada numa praia, numa conversa em que partilhou pormenores sobre a entidade patronal e a família que nunca teria revelado se soubesse que a câmara estava ligada. O vídeo ultrapassou os 6,9 milhões de visualizações no TikTok e recebeu mais de 100 mil gostos no Instagram, e Kim descreveu sentir-se "como um pedaço de carne". Nenhuma das duas consentiu.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Daniel Oliveira - O trilionário que promove pogroms

 Opinião

As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional nas mãos de milionários, onde paramilícias encontram uma nova logística para os seus pogroms. Musk não é um nome lateral no que aconteceu em Belfast. É um dos seus maiores instigadores e promotores. E Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Ou os governos europeus regulam as redes ou podem organizar as exéquias das suas democracias.

Se há cidade europeia que sabe o que é um motim, é Belfast. Cada bairro tem memória, cada rua tem um lado, cada muro recorda uma ferida antiga. Por isso, as imagens pareceram tão familiares. Casas queimadas, lojas vandalizadas, famílias arrancadas dos seus prédios a meio da noite, um bebé de dois meses retirado de casa pela polícia, agentes feridos, mais de duas dezenas de pessoas sem teto. Belfast conhece de cor todas as declinações da violência sectária. Só mudou o alvo.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

António Rodrigues - A minha vida por um ecrã — apagado

O mundo que se conta a partir do que se diz.

* António Rodrigues

29 de Maio de 2026

 “Algumas das maiores empresas da história da humanidade não lutam para ganhar a sua atenção ou para merecer a sua atenção. Estão a tentar roubá-la”, Jonathan Haidt, psicólogo social norte-americano

A Suécia assumiu a vanguarda no que diz respeito à digitalização da sua educação e quase tão depressa como deu ecrãs às crianças para substituir o papel e a caneta, diminuir a interacção pessoal e fornecer as bases para navegação à bolina dos seus filhos nos mares da tecnologia está a arrepiar caminho e a regressar ao básico da educação: livros, cadernos, esferográficas e professores de carne e osso, com ecrãs desligados e fora da sala de aula.

A Suécia tinha criado a educação do futuro até se ver a braços com um presente envenenado. Depois de quedas abruptas nas provas internacionais de compreensão leitora, o Ministério da Educação voltou aos manuais em papel, proibiu os ecrãs para menores de seis anos e restringiu o uso de telemóveis durante o período de aulas.

Os suecos não são os únicos a sentir na pele a necessidade de regressar em força ao analógico. Estavam mais avançados que muitos outros, por isso, tiveram os resultados antes, mas noutras latitudes começa-se a chegar às mesmas conclusões.

Randi Weingarten, presidente de uma das mais importantes associações de professores dos Estados Unidos, a Federação Americana de Professores (AFT, na sigla em inglês), dizia nesta semana, num discurso intitulado Devices down, eyes up, hands-on: 10 points to boost student learning and success in the AI era, que “as crianças são resistentes, mas muitas vezes, não estão bem”, e uma das principais causas para isso é que “estão afundadas em tecnologia”.

“O ritmo desta revolução tecnológica tem sido vertiginosamente rápido e as crianças estão a ficar queimadas”, disse Weingarten, antes de recomendar dez medidas para defender os estudantes da disrupção causada pela inteligência artificial (IA). “A ubiquidade da IA torna ainda mais importante o pensamento crítico e o conhecimento aplicado. Os estudantes têm de ir além da memorização de factos e aprender a verificá-los, desafiá-los e sintetizá-los em novas ideias.”

Higienização

O tema está aberto a papers de investigadores até 25 de Setembro de 2026 e pretende ajudar à discussão crítica sobre a forma como as imagens de guerra são geradas, propagadas e recebidas nos ambientes de media, e como a sua “circulação, enquadramento e modulação” acabam por influir na perspectiva da opinião pública sobre os conflitos.

Criado pelo Frontiers, um dos maiores sites abertos de estudos científicos de revisão por pares, o tópico abre um leque enorme de possibilidades de abordagem na cobertura de guerras, que podem ir da simples adulteração de imagens até aos critérios editoriais usados na selecção do que transmitir e não transmitir, dos ângulos para olhar e das perspectivas de análise.

 “Os ritmos mediáticos e a densidade narrativa não afectam só a percepção; podem também ter um papel no processo de tomada de decisão política, da construção da legitimidade e a governança da informação em tempos de conflito”, lê-se no site.

 “À força de fazer desfilar as notificações, os alertas e as imagens de guerra nos nossos ecrãs, muitos dão por si a não sentir absolutamente nada”, escreve Nina Parage no site Psychologes. “Catástrofes climáticas, conflitos armados, acontecimentos violentos: a actualidade ansiógena parece produzir um ruído de fundo cruelmente banal.”

 O uso cada vez maior de meios digitais para travar as guerras, e a mediação editorial cada vez mais acentuada para as mostrar, correm o risco de higienizar a morte e a destruição transformando aquilo que deveria ser o último recurso da política, como uma forma banal de impor as perspectivas de uns às perspectivas de outros.

 E, como lembravam ainda recentemente, Lee-Ann d’Alexandry, Fabien Girandola e Lionel Souchet num artigo no site The Conversation: “A psicologia social mostra que aquilo que julgamos ‘aceitável’ não é nem natural nem estável: constrói-se colectivamente, ao longo das interacções, dos discursos e das repetições.”

Atenção

A Meta, a empresa de Mark Zuckerberg que detém o Facebook, o Instagram, o WhatsApp e o Threads, está avaliada em mais de um bilião de dólares (trillion em inglês), mesmo não cobrando aos seus seguidores para interagirem na rede social. Tudo porque “inventou um modelo de negócio que extrai atenção de quase metade de todos os seres humanos e a vende a anunciantes”, diz Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa.

“Outros sectores seguiram o mesmo caminho: videojogos, encontros, apostas — até o investimento foi ludificado e optimizado para nos manter a olhar e a deslizar o ecrã. Todos já tivemos a experiência de pegar no telemóvel, talvez por uma boa razão, e, uma hora depois, darmos por nós a fazer scroll de forma automática. Não é um acidente. É isso que os nossos telemóveis e aplicações foram concebidos para fazer.”

Na sua intervenção, na formatura da Universidade de Nova Iorque no dia 14, publicada na revista The Atlantic, Haidt lembra o famoso discurso do escritor David Foster Wallace na formatura do Kenyon College em 2005: “O verdadeiro significado da educação para pensar, que supostamente devemos receber num lugar como este, não é, realmente, sobre a capacidade de pensar, mas sim sobre a escolha daquilo em que pensar.” Mais de 20 anos depois, há muito sem Foster Wallace entre nós, “muitos homens poderosos e grandes empresas estão a tentar tirar-vos essa opção”, afirmou Haidt.

 Dar valor à nossa atenção é importante porque se para a Meta vale um bilião de dólares, para nós é incalculável. Aceitar a informação de mão beijada, os pensamentos já digeridos, os caminhos que os ecrãs luminosos nos apontam como única via, condenam-nos à dependência, a escolher lados, a atirar argumentos automáticos como bolas de neve (ou granadas de mão), a perder tempo com o acessório quando outros ditam o essencial.

Como disse Foster Wallace naquele dia, no Kenyon College, “as realidades mais óbvias e importantes são, muitas vezes, as que mais custa ver e discutir”.

Empatia

Uma das piores expressões que o capitalismo cunhou é essa ideia de que nada é pessoal, são só negócios. Argumento terrível que desresponsabiliza as empresas do seu papel social, arranca-lhes o humanismo e prescinde da ética no seu comportamento, pois tudo se resume à garantia do lucro para os seus accionistas.

Nestes tempos política e economicamente conturbados, marcados pela instabilidade geopolítica e pela aceleração tecnológica, os líderes empresariais precisam de tomar decisões com janelas cada vez mais curtas e instáveis. “Nestas condições, a carga cognitiva associada à tomada de decisões aumenta e a tolerância à ambiguidade diminui”, escreve Merete Wedell-Wedellsborg, psicóloga clínica especialista em psicologia organizacional. “Do ponto de vista da liderança, aquilo que, em contextos estáveis, podia ser visto como ponderado e inclusivo pode começar a parecer lento, indeciso ou avesso ao conflito.”

A empatia já não abunda em muitos ambientes empresariais extremamente competitivos, em que se tomam decisões com a faca nos dentes e a disposição de matar ou morrer. Nestes tempos difíceis e de alto grau de imprevisibilidade, com muitas relações profissionais estabelecidas e mantidas através de meios tecnológicos, os terrenos para a empatia medrar tornam-se ainda mais estéreis.

No entanto, como refere Wedellsborg no site do International Institute for Management Development, “correr para declarar o fim da empatia arrisca criar uma falsa dicotomia”, porque o que está em causa não é se “a empatia interessa, mas como é integrada”. Abandonar a empatia na gestão poderá “erodir a confiança, reduzir o esforço discricionário e estreitar a perspectiva — tudo factores que podem tornar-se estrategicamente perigosos”.

Para a autora de Battle Mind: How to Navigate in Chaos and Perform Under Pressure, a inteligência emocional ainda é necessária. Neste mundo de força bruta e fria tecnologia, é o garante da manutenção do lado humano do gestor. Até porque, se se limitar a ser apenas máquina, máquinas haverá para o substituir.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Sobre um banimento — e sobre a miséria política que ele expõe

canal #moritz

2026 02 01

Sobre um banimento — e sobre a miséria política que ele expõe   

Banimos recentemente uma pessoa chamada Isabel Coelho, da Marinha Grande.

Convém dizê-lo desde já: não foi por divergência ideológica abstrata, nem por capricho, nem por intolerância.

Foi por comportamento político concreto.

A Isabel Coelho apresenta-se, no seu próprio perfil, como socialista convicta, com o mural recheado de publicações do PS e de apoio a António José Seguro. Está no seu direito. Ninguém foi, nem é, banido por apoiar o PS.

O problema começou quando essa pessoa decidiu intervir num post que nós publicámos, onde se republicava o testemunho de um jovem da Marinha Grande. Um testemunho simples, direto e politicamente legítimo:

que o PCP teve uma boa atitude, que ajudou pessoas, que esteve presente no terreno, e que, apesar disso, é sistematicamente isolado e silenciado pela comunicação social, ao contrário do que acontece com figuras como André Ventura, omnipresente nos ecrãs.

Não havia ataques ao PS.

Não havia insultos.

Não havia provocação.

Havia uma constatação política óbvia — e incômoda para alguns.

A resposta da Isabel Coelho não foi debate.

Não foi discordância.

Não foi argumentação.

Foi isto, em substância:

“Aqui vocês não têm que falar. Vão fazer política para o outro lado. Aqui quem manda somos nós.”

Isto não é opinião.

Isto é autoritarismo político, embrulhado em militância partidária.

Foi por isso que houve banimento.

E foi um banimento legítimo.

Porque isto não é um caso isolado

Quem quiser reduzir isto a “uma socialista exaltada” está a mentir — ou a proteger o problema.

Este comportamento não nasce do nada.

É expressão de uma cultura política profundamente enraizada no PS: a ideia de que a esquerda à esquerda do PS existe apenas para servir, calar e alinhar.

O PS quer o voto da esquerda.

Quer o voto comunista.

Quer o voto “útil”.

Mas não tolera autonomia política, nem crítica, nem memória histórica que não controle.

Quando alguém lembra que o PCP esteve no terreno, ajudou populações concretas e fez trabalho real, a reação não é debate: é mandar calar.

Aqui convém dizer as coisas pelo nome.

Ajoelham e rezam sempre que precisam apanhar os votos dos comunistas.

Sempre. Não é ocasional, não é acidente. É rotina.

Rezaram com Costa.

Ajoelham e rezam agora com Seguro.

E vão ajoelhar e rezar sempre que chegarem os pedidos de voto útil.

O ritual é claro:

Primeiro, arrebanhar os votos da esquerda, de preferência ajoelhados.

Depois, insultar, mandar calar e desprezar quem ousou pensar por si.

Repetir infinitamente, como se a política fosse apenas uma devoção ritual à própria sobrevivência eleitoral.

Querem o voto comunista de joelhos,

mas nunca suportam comunistas de pé.

A hipocrisia socialista

É obsceno ver quem:

manda comunistas “fazer política para outro lado”

diz “aqui quem manda somos nós”

deslegitima o PCP e o seu trabalho

ser a mesma gente que, em período eleitoral, aparece com ar piedoso a pedir unidade, contenção e sacrifício.

Querem o voto, não querem a voz.

Querem o número, não querem o sujeito político.

E ainda se indignam quando alguém ousa não baixar a cabeça.

O voto em Seguro não é confiança — é contenção de danos

Convém ser claro, porque o PS gosta de confundir tudo.

Quem pondera votar em António José Seguro não o faz por acreditar no PS, nem porque ache que o PS mudou de natureza.

Fá-lo, quando muito, por voto defensivo,

contra André Ventura,

não a favor do PS.

Isso não cria qualquer dívida moral.

Não cria silêncio.

Não cria submissão.

E muito menos dá ao PS o direito de insultar, humilhar ou mandar calar quem sempre esteve na linha da frente contra a direita e a extrema-direita.

O PS errou, erra e continuará a errar

Não é um problema de comunicação.

Não é um deslize local.

É linha política.

O PS:

gere o capitalismo

aceita a lógica do mercado

normaliza desigualdades

governa para os mesmos interesses

e depois finge surpresa com o crescimento da extrema-direita

O PS não é o dique contra a direita.

É, demasiadas vezes, o terreno onde ela cresce.

Banir não foi censura — foi higiene política

Espaços de esquerda não são obrigados a tolerar:

intimidação

arrogância

lógica de dono do território

nem o “aqui mando eu” travestido de militância

Quem entra para mandar calar não entra para dialogar.

Banir esse comportamento foi um ato de autodefesa política.

Conclusão

Este episódio não diz nada de essencial sobre uma Isabel Coelho.

Diz tudo sobre o PS.

Um partido que exige votos à esquerda enquanto despreza a esquerda.

Que pede unidade enquanto insulta.

Que fala de democracia enquanto tenta silenciar quem luta.

A esquerda não existe para servir o PS.

O PCP não existe para legitimar carreiras socialistas.

E a democracia não pertence a quem acha que manda nela.

Quem fala assim não tem projeto democrático.

Tem apenas instinto de poder.

E isso, sim, é o verdadeiro problema. 

https://www.facebook.com/canalmoritzptnet/posts/

sábado, 1 de novembro de 2025

Jaime Nogueira Pinto - O escudo democrático

* Jaime Nogueira Pinto

Colunista do Observador   

Liberalíssimos democratas a defender a proibição das redes sociais, esse tentacular polvo de caótica e amoral informação alternativa, a bem da Democracia e da luta contra o Fascismo?

01 nov. 2025,  

A Comissão Europeia tem comissários para tudo. Mas há um que tem um pelouro mais exigente do que os outros. Trata-se de Michael McGrath, Comissário Europeu para a Democracia, Justiça, Estado de Direito e Protecção do Consumidor.

Ora, dada a dimensão do campo de batalha e não estando o manipulado povo, o desinformado demos, de feição, parece que para proteger a Democracia, o Estado de Direito e o Consumidor, só mesmo instalando um Escudo. Um Escudo Democrático, contra o exército de desinformadores que, processo eleitoral a processo eleitoral, incessantemente trabalha na sombra para transviar o incauto povo europeu.

A fim de sensibilizar as massas para a implementação do dito Escudo, McGrath resolveu então organizar um debate na Comissão Europeia sob o título “A necessidade de um Escudo Democrático Europeu para fortalecer a Democracia, defender a UE da ingerência estrangeira e das ameaças híbridas e proteger os processos eleitorais na União Europeia”.

Assim, no dia 9 de Outubro, depois de desfiar os perigos que ameaçavam o futuro da Democracia na Europa, McGrath passou a tranquilizar as hostes para que não caíssem em desânimo, dando-lhes a boa-nova: graças à contribuição do Parlamento Europeu, dos Estados membros e até de cidadãos anónimos, o Democratic Shield estava pronto a ser “implementado”!

O Escudo Democrático vinha, assim, socorrer a Europa, respondendo ao premente desejo dos cidadãos europeus, conforme expresso em inquérito realizado entre 31 de Março e 26 de Maio deste ano. Para o comissário, as 5 mil respostas ao inquérito (num universo de 400 milhões de eleitores) eram, já de si, um sinal positivo. Uma grande riqueza, a participação entusiástica dos cidadãos da Europa. É certo que, dos 5 mil cidadãos que responderam à consulta, só 79 se mostraram favoráveis à implementação do dito Escudo, mas não seria isso mais uma prova das “ameaças híbridas” e das “ingerências estrangeiras” que andavam no ar?

Em contrapartida, das 94 organizações não-governamentais inquiridas – que, essas sim, estavam no terreno –, só 8 se tinham oposto ao Democratic Shield. Os canais de desinformação, que moram lá para os lados das “redes sociais”, apressaram-se a sugerir que a discrepância talvez se devesse ao facto de a maior parte das ONGs ser financiada pela própria Comissão Europeia… Mas não eram os cidadãos europeus também financiados, e até agraciados, pela Comissão, com comissões, debates, recomendações, subsídios e altos funcionários que permanentemente trabalhavam em sua defesa e em defesa da Democracia?

Independentemente dos inquéritos, o Escudo Democrático impunha-se; até para conter as escolhas eleitorais de povos cada vez mais manipulados e desinformados, que insistiam em ameaçar a Democracia, apesar dos inúmeros avisos da imprensa de referência e das inúmeras recomendações e sanções das inúmeras comissões.

À beira de um ataque de nervos

O Escudo do comissário do povo europeu Michael McGrath é só um exemplo da forma mais organizada e institucional que a reacção sistémica ao “voto do povo” tem vindo a tomar. A prática de recorrer a instrumentos jurídicos para, em nome da Democracia, proibir ou tornar ilegais eleições “que não correram bem” e prevenir as que poderão não correr bem, parece ter-se normalizado. A primeira volta das eleições na Roménia, por exemplo, foi anulada porque o “candidato errado” estava à frente; igualmente esclarecedora, é a tentativa de impôr a Marine Le Pen uma sentença extraordinária por ter como funcionários no Parlamento Europeu alguns dos seus quadros partidários, prática generalizada entre os partidos franceses e europeus.

Também em Portugal – e logo num momento de grandes elogios à actividade jornalística e ao papel da liberdade de pensamento e de escrita no nascimento e consolidação da Democracia – parece haver partidários dos “escudos democráticos”, nomeadamente contra as famigeradas “redes sociais” (como se “as redes sociais” fossem uma realidade unívoca e unilateral, e como se a desinformação, o discurso de ódio e os disparates só por lá andassem). A alternativa, supomos, seria ficarmos unicamente com os chamados jornais de referência e com uma aturada selecção de respeitáveis pivots e comentadores televisivos, capazes de informar democraticamente o povo, com a decência, o rigor, a objectividade, a correcção e a actualidade que a Democracia exige. (No Domingo passado, quando já se sabiam os resultados na Argentina, um dos canais de referência, atido ao wishfull thinking das sondagens e a uma suposta vitória dos peronistas em Bueno Aires, ainda dava Milei a perder as eleições parlamentares na Argentina).

Liberalíssimos democratas a defender a proibição das redes sociais, esse tentacular polvo de caótica e amoral informação alternativa, a bem da Democracia e da luta contra o Fascismo? O mesmo Fascismo instituído pelo Estado Novo, esse “bafiento regime de terror”, que censurava tudo o que era amoral e…alternativo?

Com todo este “ó tempo volta para trás”, só podem estar à beira de um ataque de nervos.

https://observador.pt/opiniao/o-escudo-democratico/ 

domingo, 28 de setembro de 2025

Cory Doctorow - NÃO PODES LUTAR CONTRA A MERDA

 


* Cory Doctorow, 

Medium. Trad. OLima.

É preciso dizer-te algo desagradável: as tuas escolhas pessoais de consumo não farão uma diferença significativa na quantidade de merda que enfrentas na tua vida.

Claro, podes fazer pequenas alterações, e deves fazê-lo! Comprar um portátil reparável, como o Framework, que é o melhor computador que já tive, e instalar o Linux nele (eu uso o Ubuntu, que é fácil de instalar). Passarás duas semanas a procurar na interface do utilizador o que precisa clicar e, depois, deixarás de notar isso para sempre.

Acede à Internet através de RSS e evita toda a manipulação algorítmica e vigilância que te obriga a ti e os seus às depredações das piores pessoas do mundo e dos seus algoritmos selvagens.

Prefira ferramentas de mensagens privadas e abertas de alta segurança, como o Signal. Abre uma conta num serviço de rede social federado, como o Mastodon, e torna-a o principal local para a sua vida social online.

Faz tudo isso! Faz mais! Tornarás a tua vida um pouco melhor e, em alguns casos, muito melhor. Mas não vais combater a merda dessa forma. A merda não é o resultado de pessoas a fazerem más escolhas: é o resultado de más políticas que produzem maus sistemas.

A merda é uma descrição clara, que fala sobre como as plataformas se tornam ruins. Eis como as plataformas morrem: primeiro, são boas para os seus utilizadores; depois, abusam dos seus utilizadores para melhorar as coisas para os seus clientes empresariais; finalmente, abusam desses clientes empresariais para recuperar todo o valor para si próprias.

Mas a parte mais importante da merda é a sua hipótese causal: a resposta que propõe para explicar por que razão esta degradação está a acontecer em todo o lado, neste momento.

Eis porque estás a ser prejudicado: decidimos deliberadamente deixar de aplicar as leis da concorrência. Como resultado, as empresas formaram monopólios e cartéis. Isto significa que não precisam de se preocupar em perder os seus negócios ou mão de obra para um concorrente, porque não competem. Isso também significa que elas podem facilmente controlar os seus reguladores, porque podem facilmente chegar a um acordo sobre um conjunto de prioridades políticas e usar os biliões que acumularam ao não competir para controlar os seus reguladores. Elas podem controlar os seus antigos e poderosos trabalhadores de tecnologia, despedindo-os em massa e aterrorizando-os para que abandonem qualquer pretensão inspirada em Tron de «lutar pelo utilizador». Por fim, podem usar a lei de propriedade intelectual para silenciar qualquer pessoa que crie tecnologia que desvalorize as suas ofertas.

Podes tomar cuidado para evitar a merda, podes até mesmo fazer disso um fetiche, mas sem resolver essas falhas sistémicas, as tuas ações individuais não te levarão muito longe. Claro, usa ferramentas que aumentam a privacidade, como o Signal, para comunicar com outras pessoas, mas se a única maneira de levar o teu filho ao jogo da liga infantil é entrar no grupo de boleias no Facebook, vais partilhar dados sobre tudo o que fazes para a Meta.

Da mesma forma, podes usar bloqueadores de anúncios que preservam a privacidade no teu navegador, mas no momento em que tiveres que fazer negócios com um monopólio que exige que uses a aplicação deles, ficarás totalmente indefeso diante deles, porque a lei antievasão criminaliza a modificação de uma aplicação para preservar a sua privacidade. Uma aplicação é apenas uma página da web revestida com o tipo certo de lei de propriedade intelectual para tornar a instalação de um bloqueador de anúncios um crime passível de prisão.

Quando todos os teus amigos vão a um festival, vais mesmo desistir de ir porque o evento exige que uses a aplicação Ticketmaster (porque a Ticketmaster tem o monopólio da venda de ingressos para eventos)? Se sim, não vais ter muitos amigos, o que é uma péssima maneira de viver

Se transformares a tua campanha pessoal para viver uma vida livre de merda num conjunto de práticas rígidas que te isolam da tua comunidade, ficarás infeliz — e prejudicarás a tua capacidade de lidar com as raízes sistémicas da merda. Isso porque problemas sistémicos têm soluções sistémicas. Eles são abordados por meio de movimentos de massa, litígios de impacto, ação política, revoltas de rua, ajuda mútua e outras formas de solidariedade e comunidade.

Os monstros que beneficiam do status quo não querem que saibas disso. Eles querem fazer uma lavagem cerebral em ti com o mantra de Margaret Thatcher: «A sociedade não existe». Eles querem que penses que és um indivíduo patético e atomizado. Eles querem que morras numa onda de calor enquanto expressas o teu profundo arrependimento por não reciclares mais diligentemente e não teres mais cuidado com a tua «pegada de carbono». Querem que conduzas durante horas à procura de um vendedor independente de cartão para fazeres o teu cartaz de protesto, convencido de que é mais importante evitar fazer compras na Amazon do que realmente aparecer no protesto em frente ao armazém da Amazon. Querem que te amaldiçoes por não andares de bicicleta e apanhares o autocarro na tua cidade, onde não há ciclovias e os autocarros passam a cada 45 minutos e param às 20h. Se querias uma cidade habitável, deverias ter feito melhores escolhas de consumo! Talvez pudesses cavar o teu próprio metro, já pensaste nisso, hmmm?

Tu, eu e todos que conhecemos fomos submetidos a uma campanha de 40 anos de propaganda antissolidária, com o objetivo de nos convencer de que só podemos lutar contra o sistema como indivíduos. Não gostas do teu plano de saúde? Procura outro! Não gostas do teu chefe? Despede-te! Nunca deves defender um sindicato ou um sistema de saúde socializado. Tu és um indivíduo, a sociedade não existe. «Não existe tal coisa como sociedade» é o que se diz quando se beneficia da sociedade (que existe, sem dúvida) e não se quer que ela mude.

Para fazer mudanças, é preciso existir na sociedade. Sim, o Partido Democrata é uma gerontocracia fraca e patética, mas os Socialistas Democráticos, o Movimento Sunrise e outros grupos políticos independentes dos democratas, mas que ainda assim os levam a fazer algo de bom, às vezes, merecem o seu apoio. Sim, o movimento sindical desperdiçou os anos de Biden, recusando-se a gastar as suas reservas de dinheiro recordes na organização, apesar dos milhões de trabalhadores implorarem para se filiarem nos sindicatos. Mas a democracia no local de trabalho continua a ser a única maneira que temos — ou teremos — de derrotar o capital, então filia-te num sindicato, forma um sindicato, apoia um sindicato.

Sim, a reciclagem do plástico é uma farsa criada pela indústria petroquímica e todo o plástico que coloca no seu caixote azul vai para uma incineradora ou para um aterro, mas se não apoiares (e se juntares a) verdadeiros ativistas ambientais, vais ser queimado vivo.

Sim, Israel está a cometer um genocídio e Brown, Columbia e outras universidades de elite estão a capitular perante Trump, cuja base evangélica acredita que a guerra em Israel acelerará a Segunda Vinda, quando todos os judeus serão condenados à condenação eterna. Mas isso não te isenta da responsabilidade de agires para defender os nossos irmãos e irmãs palestinianos da morte que lhes é infligida com as armas que os nossos governos enviam a Israel. Isso vale em dobro para nós, judeus, em cujo nome o massacre está a ser cometido. (…)

Claro, vive a melhor vida que puderes, fazendo as melhores escolhas possíveis. Mas não te iludas achandque isso é lutar contra a merda.

A razão pela qual as empresas te espiam não é porque você é mesquinho demais para pagar pelos media, então elas precisam recorrer à publicidade de vigilância. Independentemente de você pagar ou não a uma empresa de tecnologia, elas vão espiá-lo de qualquer maneira. A razão pela qual eles podem espiar você é que os EUA não têm uma nova lei de privacidade do consumidor desde 1988, quando a Lei de Proteção à Privacidade de Vídeos proibiu os funcionários das locadoras de vídeos de divulgar que fitas VHS você levava para casa. Essa foi a última ameaça tecnológica à nossa privacidade que o Congresso abordou. A razão pela qual você é espiado é porque não há consequências sistémicas para essa vigilância.

A razão pela qual as empresas de trabalho temporário classificam erroneamente os seus trabalhadores como prestadores de serviços, para abusar deles, roubar os seus salários e negar-lhes proteções no local de trabalho, é porque podem fazê-lo — não porque os trabalhadores não sejam suficientemente exigentes em relação aos seus contratos de trabalho.

Para combater problemas sistémicos, é preciso fazer parte de uma solução sistémica. (...)

Posted by OLima at sexta-feira, setembro 26, 2025 

https://onda7.blogspot.com/2025/09/leituras-marginais_0387707902.html

Rezgar Akrawi - Repressão digital suave

Repressão digital suave - Como a inteligência artificial garante a continuidade da hegemonia capitalista

Se a repressão digital suave procura sufocar a resistência, a alternativa é redefinir a tecnologia como ferramenta de libertação.

*  Rezgar Akrawi 

27 de setembro 2025

Durante a última ofensiva contra Gaza, milhares de ativistas ficaram surpresos ao ver suas publicações apagadas ou suas contas restritas simplesmente por documentarem os crimes da ocupação israelita. Muitos sentiram impotência e revolta, como se suas vozes estivessem sendo silenciadas de propósito. Não foi uma coincidência ou falha técnica, mas sim um exemplo vivo do que hoje podemos chamar de “repressão digital suave”. Trata-se de uma repressão que não aparece necessariamente sob a forma de bloqueios diretos ou prisões visíveis, mas que se infiltra por meio de algoritmos invisíveis, remodelando o espaço digital para servir à continuidade da hegemonia capitalista. Surge então a pergunta: como funciona esse sistema e como enfrentá-lo?

A repressão digital suave é um conjunto de políticas e ferramentas tecnológicas usadas para restringir a liberdade de expressão e controlar o espaço digital por parte das grandes empresas e dos Estados dominantes, mas de formas que parecem neutras e não conflituosas. Em vez da censura explícita, da proibição direta ou de medidas abertamente repressivas, baseia-se em técnicas de ocultação gradual e na criação de um ambiente em que as pessoas se submetem a uma vigilância invisível — e às vezes até se autocensuram.

Como funciona a vigilância invisível? Controlo digital e autocensura voluntária

Imagine que tudo o que você faz em sua vida digital está a ser monitorizado: as suas deslocações pelo telemóvel, suas reuniões privadas, até mesmo as suas mensagens pessoais. Não é ficção. As grandes empresas digitais, em colaboração com Estados hegemónicos, recolhem sistematicamente esses dados e os analisam para classificar utilizadoras e utilizadores de acordo com os seus comportamentos e orientações políticas. Assim, as plataformas tornam-se instrumentos centrais para detetar e conter tendências críticas, seja através de campanhas de desinformação ou de mecanismos que reduzem o alcance e a influência de determinados conteúdos.

E não pára por aí. Graças a algoritmos cuidadosamente projetados, o conteúdo político de esquerda e progressista é restringido sem precisar ser apagado. Parece que a baixa interação é resultado do desinteresse do público, mas na realidade trata-se de uma redução deliberada da visibilidade. Diversos estudos falaram da “bolha de filtros” que isola pessoas de qualquer conteúdo divergente. Vazamentos internos do Facebook, por exemplo, mostraram como a empresa reduzia intencionalmente o alcance de movimentos políticos ou de direitos humanos, enquanto afirmava publicamente ser neutra.

Com o tempo, muitas pessoas começam a praticar a chamada “autocensura voluntária”: moderam ou mudam seu discurso por medo de serem banidas, perderem alcance ou terem suas contas fechadas. Esse medo altera a natureza do próprio discurso e transforma a internet em um espaço pré-formatado para servir aos interesses das forças capitalistas.

A frustração digital

A repressão não se limita a restringir conteúdo. Existe também uma arma menos visível e ainda mais eficaz: a frustração digital. Através de um fluxo contínuo de conteúdos calculados, os algoritmos criam uma sensação generalizada de impotência e resignação, especialmente entre pessoas com posições de esquerda e progressistas. De repente, você se vê rodeado por mensagens que insistem que as experiências socialistas fracassaram e que resistir é inútil. Em contrapartida, o capitalismo é apresentado como uma força eterna e invencível.

Ao mesmo tempo, promove-se o individualismo e as soluções centradas no sucesso pessoal — como o consumo ou o desenvolvimento individual — como alternativas “realistas” à ação política coletiva. Assim, as pessoas são isoladas umas das outras e convertidas em consumidoras em vez de militantes. Não se trata de uma escolha espontânea, mas de uma estratégia de classe cuidadosamente elaborada para abortar qualquer possibilidade de transformação socialista radical.

Prisão e assassinato digital

Quando nem a censura nem a frustração bastam, o sistema recorre a um nível ainda mais grave: a prisão digital. De repente, pessoas comuns encontram as suas contas suspensas por longos períodos, bloqueadas totalmente ou encerradas sem aviso prévio. Normalmente, isso é justificado com argumentos como “violação das normas comunitárias” ou “promoção da violência”, embora o conteúdo censurado frequentemente seja documentação de crimes capitalistas ou de violações de direitos humanos.

Em muitos casos, a repressão chega ao que podemos chamar de “assassinato digital”: a eliminação completa da presença online de indivíduos ou organizações. Movimentos operários, organizações de esquerda, meios de comunicação independentes e até entidades de direitos humanos tiveram seus sites encerrados, arquivos apagados ou contas desativadas. O exemplo mais evidente é o do conteúdo palestino, que sofreu exclusões massivas de contas e publicações que denunciavam os crimes da ocupação, enquanto continuava a ser permitido o discurso de ódio ou a propaganda da direita israelita. Essas práticas transformam o espaço digital de um campo de expressão livre em um território rigidamente monitorado, onde o capital decide o que pode aparecer e o que deve ser enterrado.

Quais alternativas para as forças de esquerda e progressistas?

Se a repressão digital suave procura sufocar a resistência, a alternativa é redefinir a tecnologia como ferramenta de libertação. Isso exige iniciativas de esquerda progressistas que promovam transparência e controle democrático, além de legislações rigorosas que criminalizem a vigilância política e proíbam o uso da inteligência artificial para restringir liberdades.

Não se trata apenas de leis. É necessário também construir redes de solidariedade transnacionais que denunciem violações e pressionem as grandes empresas. Utilizadoras e utilizadores comuns podem participar de boicotes contra empresas que vendem tecnologias de vigilância a regimes autoritários, colocando-as em listas negras. Em contrapartida, é essencial apoiar softwares e sistemas de código aberto geridos por órgãos independentes, com representantes da sociedade civil e sob controle coletivo, para que se tornem ferramentas de denúncia de abusos, de monitoramento de governos e de análise de dados para expor práticas repressivas.

Além disso, as organizações de esquerda precisam desenvolver as suas próprias ferramentas: desde técnicas de criptografia e proteção da privacidade até campanhas de consciencialização que revelem os bastidores dos algoritmos. Afinal, esta luta não é apenas técnica, mas eminentemente política. Enfrentar a inteligência artificial capitalista é parte da luta de classes, uma extensão do conflito sobre fábricas e campos no passado, mas agora no espaço digital.

O exemplo da repressão digital contra o conteúdo palestino, e contra vozes de esquerda e emancipação em geral, deixa clara a gravidade do problema. Mas também mostra a lição mais importante: alternativas são possíveis. Transformar a inteligência artificial em ferramenta de libertação e vinculá-la a um projeto político de esquerda progressista pode abrir novos horizontes para a resistência. A internet não nasceu para ser apenas um mercado de consumo, mas pode ser um campo de luta comum e internacionalista. Isso, porém, só será possível se ligarmos a batalha digital a uma luta mais ampla contra o capitalismo e sua hegemonia de classe, recolocando o ser humano no centro da decisão digital.


Rezgar Akrawi é um militante de esquerda independente, interessado na esquerda e na revolução tecnológica, e atua como especialista em desenvolvimento de sistemas e governança eletrónica.

Fontes consultadas:

Filter bubble – Wikipedia

How tech platforms fuel U.S. political polarization and what government can do about it

PNAS – Algorithmic amplification of politics on Twitter

Arxiv – The Political Amplification Bias of the Twitter For You Algorithm

2021 Facebook leak – Wikipedia

O Capitalismo de Inteligência Artificial: desafios para a esquerda e alternativas possíveis

https://leanpub.com/ai-socialism-pr

https://www.esquerda.net/artigo/como-inteligencia-artificial-garante-continuidade-da-hegemonia-capitalista/95969

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

A Colonização da Mente pelos Estados Unidos




Pesquisadores chineses publicaram recentemente um excelente white paper sobre a colonização da mente pelos EUA. É um documento longo, com 36 páginas, então tentei resumi-lo copiando e colando alguns pontos-chave aqui.

Aqui estão três links para o artigo original em diferentes formatos:  Link 1  ,  Link 2  ,  Link 3.  Aproveite!

Trechos do artigo:   

Desde a Segunda Guerra Mundial, e especialmente após o fim da Guerra Fria, confiando em sua supremacia global em termos de poder político, econ+omico, militar e tecnológico, os Estados Unidos exportaram sua ideologia ao redor do mundo em uma tentativa de cativar as mentes das nações com valores americanos, remodelar as concepções das pessoas e criar um vício filosófico numa visão de mundo centrada nos Estados Unidos.

“ A questão crucial para os Estados Unidos não é se eles começarão o próximo século como a superpotência com a maior reserva de recursos, mas até que ponto serão capazes de controlar o ambiente político e fazer com que outros países façam o que eles querem ” — Joseph Nye.

“ Fortalecer a posição da cultura americana como um 'exemplo' para todas as nações é uma estratégia indispensável para manter a hegemonia americana ” — Zbigniew Brzezinski.

Os Estados Unidos descobriram que confiar apenas no "poder duro" na forma de domínio político, controle econômico, dissuasão militar e outros meios não poderia estabelecer ou manter um regime colonial duradouro e extenso; em vez disso, usar o "poder suave", como cultura e valores, permitiria colher maiores benefícios coloniais a custos mais baixos.

Impor conformidade e submissão "voluntárias" em escala global sob um véu sentimental: esse é o estilo americano de "colonização da mente".

As "Quatro Liberdades" propostas pelo Presidente Roosevelt tornaram-se a pedra angular teórica do sistema internacional de direitos humanos. A exportação ideológica dos Estados Unidos durante esse período lançou as bases históricas para sua vasta política de colonização da mente nas décadas seguintes.

Como um dos principais arquitetos da ordem internacional do pós-guerra, os Estados Unidos, por um lado, exportaram seus sistemas político e econômico e valores americanos como "democracia" e "liberdade", enquanto, deliberada e conscientemente, desconstruíam ideologias não americanas e suprimiam as culturas indígenas de outros países, a fim de fomentar a dependência e a obediência filosóficas globais. Ao recorrer a um fluxo interminável de estratagemas de duas caras, construção expansiva e desconstrução destrutiva, os Estados Unidos realizaram muito mais do que qualquer outro império colonial em sua tentativa de colonizar mentes.

Os Estados Unidos exploraram seu controle sobre novas plataformas tecnológicas e tecnologias cognitivas avançadas para fortalecer sua governança ideológica nas mídias sociais. Sob pretextos como "combater a desinformação" e "combater a influência estrangeira", manipulam os fluxos de informação nas plataformas sociais para dominar a percepção global.

Se o domínio hegemônico dos Estados Unidos nas arenas política, econômica e militar globais serve como uma "pré-condição rígida" para sua colonização ideológica, então condições favoráveis ​​na linguagem e na cultura, nos discursos, na mídia de massa e na pesquisa acadêmica constituem sua "base sólida".

Ao realizar suas atividades de colonização mental, os Estados Unidos usam "máscaras" pretas, brancas, cinzas e outras em momentos diferentes, misturando flexivelmente diferentes "tons" para se camuflar de acordo com as necessidades e situações contextuais.

Propaganda branca. Constitui a dimensão mais óbvia da colonização mental dos Estados Unidos, operando por meio de canais públicos, transparentes e oficialmente aprovados para disseminar informações publicamente verificáveis, com o objetivo de moldar uma imagem nacional positiva e promover seus valores. (Meu comentário: Departamento de Estado, Voz da América, bolsas de estudo como a Fulbright, etc.)

A propaganda negra representa a faceta mais secreta, enganosa e agressiva da colonização mental. Tipicamente realizada por serviços de inteligência e militares no mais absoluto sigilo, caracteriza-se principalmente por operações clandestinas, incluindo campanhas de desinformação, coleta de informações e ataques cibernéticos.

A propaganda cinzenta é conduzida indiretamente pelo governo dos EUA, por meio de entidades terceirizadas, como corporações e ONGs, para fugir da responsabilidade oficial e criar a ilusão de "espontaneidade não governamental". Seu objetivo é influenciar secretamente a opinião pública, moldar agendas políticas ou apoiar grupos específicos em países-alvo, permitindo ao mesmo tempo que os Estados Unidos mantenham uma negação plausível.

“A distribuição das línguas no mundo reflete a distribuição do poder no mundo.” — Samuel P. Huntington. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, com seu domínio econômico, militar, tecnológico e cultural popular, promoveram vigorosamente o inglês em todo o mundo, reforçando seu status como língua franca global.

Os Estados Unidos rotineiramente se glorificam enquanto demonizam vigorosamente os outros, criando binários artificiais como "democracia versus ditadura", "liberdade versus autoritarismo", "economias de mercado versus economias sem mercado" e "Estados antiterrorismo versus Estados patrocinadores do terrorismo".

Quem controla as válvulas do fluxo de informações tem a iniciativa de moldar as percepções.

Hoje, os Estados Unidos exercem um domínio férreo sobre canais e plataformas globais de informação e radiodifusão, controlando inúmeras agências de notícias, poderosos conglomerados multinacionais de mídia, plataformas de mídia social online e uma série de novos gigantes da tecnologia. Na era digital, ao alavancar plataformas como Facebook, Twitter e YouTube, os Estados Unidos manipularam com sucesso a opinião pública, caracterizada pelo fato de que "para onde vão algoritmos e tráfego, lá vão agendas e percepções".

“A americanização do conhecimento e da educação universitária sustenta uma sociedade global americanizada, o que por sua vez reforça o domínio dos EUA na economia política global, na vida cultural e nos assuntos militares por meio de um processo de reforço mútuo” — Simon Marginson, professor da Universidade de Oxford.

O esforço dos Estados Unidos para colonizar a mente visa consolidar sua hegemonia cultural, fortalecendo assim seu domínio político e preservando seus privilégios econômicos.

Como colonizadores de mentes, os Estados Unidos se glorificam implacavelmente, vestindo seus valores com uma máscara de "universalidade" — apresentando seu caráter nacional como algo "universal" e transformando seus interesses nacionais em "moralidade internacional", disfarçando, em última análise, a colonização cultural como "liderança de valores". Os Estados Unidos se apresentam como praticantes, porta-vozes e defensores de valores nobres, tudo para consolidar sua posição central na esfera ideológico-cultural e cultivar uma "dependência cognitiva" deles.

O objetivo fundamental da manipulação ideológica e da modelagem cognitiva dos Estados Unidos é transformar as regras que atendem aos interesses americanos em um sistema e ordem internacional universalmente aceitos e, no processo, garantir seu usufruto contínuo de vários privilégios.

Os Estados Unidos têm consistentemente tentado transformar a ONU e o sistema internacional que ela representa em ferramentas para manter o domínio ocidental, particularmente a hegemonia global dos EUA.

Nos últimos anos, com a ascensão coletiva do Sul, os Estados Unidos descobriram que esse sistema restringia cada vez mais seus privilégios. Assim, favoreceram o "excepcionalismo" e se afastaram das agências internacionais para driblar as regras comuns universalmente respeitadas pela comunidade internacional.

Enquanto isso, desenvolveram a doutrina "América Primeiro" para colocar os interesses americanos diretamente à frente dos de outros países. Além disso, ao expandir sua prática de "jurisdição de braço longo", os Estados Unidos estão descaradamente colocando suas leis nacionais acima do direito internacional.

Ao longo da sua história, os Estados Unidos recorreram repetidamente à “colonização mental” para abrir caminho à sua agressão e pilhagem, ao mesmo tempo que ocultavam esses atos sob o pretexto da “legitimidade”.

No final do século XIX, o grupo de mídia Hearst ecoou as ambições expansionistas dos EUA ao destacar as "atrocidades" espanholas em Cuba e criar uma opinião pública favorável ao início da Guerra Hispano-Americana pelos EUA e sua subsequente captura dos mercados caribenhos.

Durante a década de 1970, os Estados Unidos usaram sua mídia para propagar a narrativa da "ameaça das armas petrolíferas árabes" para ajudar a estabelecer o sistema de petrodólares que vinculava a hegemonia do dólar ao comércio global de energia.

Em 2019, ONGs financiadas pelos EUA incitaram a agitação pública na Bolívia, brandindo a espada da “democracia” para derrubar um governo de esquerda — uma ação que tinha como alvo estratégico as maiores reservas de lítio do país no mundo.

Hoje, os Estados Unidos, continuando a empregar esta estratégia de “opinião pública primeiro”, estão a reprimir empresas chinesas como a Huawei e a TikTok em nome da “segurança nacional”.

Todas essas medidas nada mais são do que medidas que visam remover obstáculos que impedem as empresas americanas de conquistar mercados globais.

Das duas guerras mundiais até a década de 1960, os Estados Unidos usaram principalmente jornais e rádio para "contar a história americana ao mundo". Estabeleceram meios de comunicação externos, como a Voz da América, a Rádio Ásia Livre e a Rádio Europa Livre, para lançar uma guerra de propaganda de longo prazo contra o campo socialista liderado pela União Soviética.

O paradigma de "controle da informação e cognição" gradualmente substituiu o modelo de "propaganda e cognição" e se tornou a nova teoria dominante da comunicação. Teorias como psicologia social, teoria dos jogos e fenomenologia perceptual foram introduzidas na análise de situações estratégicas internacionais e processos de tomada de decisão política.

Modelagem cognitiva e “guerra cognitiva”

Moldar as emoções, atitudes e comportamentos do público tem sido um objetivo importante do jornalismo, da publicidade, da propaganda e de outras áreas relacionadas nos Estados Unidos. O conceito de "guerra cognitiva" surgiu já na década de 1990.

Entretanto, foi somente no início do século XXI, com os avanços na pesquisa tecnológica em áreas como ciência psicológica, neurociência, ciência do cérebro, inteligência artificial e outras tecnologias de ponta, que "moldar a cognição" se tornou um objetivo estratégico verdadeiramente relevante.

Em 2022, o relatório da Estratégia de Segurança Nacional elevou a guerra cognitiva ao mesmo nível de importância estratégica do combate físico, marcando a completa independência do domínio cognitivo. Em 2023, vários relatórios do Congresso redirecionaram a atenção para a segurança cognitiva.

Assim, a manipulação cognitiva impulsionada pela tecnologia se tornou uma nova tática de colonização da mente dos EUA.

Uma série de valores americanos, como a democracia capitalista, a liberdade, a igualdade, os direitos humanos, bem como o individualismo, o egoísmo, o materialismo e o hedonismo, constituem o núcleo do impulso americano para colonizar a mente.

Com um poder financeiro colossal, os conglomerados de mídia americanos adquiriram o controle total sobre toda a cadeia, desde a coleta de notícias até a publicidade e o marketing, incluindo a produção e distribuição de conteúdo. Seus ativos de mídia abrangem plataformas de televisão, mídia impressa, rádio, cinema, vídeo e streaming, beneficiando-se assim do acesso a um vasto conjunto de usuários em todo o mundo.

A vantagem de difusão dos Estados Unidos também se reflete em seu controle sobre mídias, plataformas e negócios online. Ao controlar recursos críticos, como servidores raiz e nomes de domínio globais, os Estados Unidos dominam o funcionamento geral da web. Por meio de medidas legislativas e outras, o governo americano mantém um controle rígido sobre os gigantes nacionais da tecnologia da internet e exerce poder absoluto sobre uma quantidade considerável de informações online. Plataformas como Facebook, X, YouTube e Instagram — as plataformas de mídia social mais populares do mundo — oferecem aos Estados Unidos um novo espaço e uma nova oportunidade para construir casulos de informação e moldar as percepções dos usuários por meio de algoritmos e mentiras.

“A maneira mais fácil de injetar uma ideia de propaganda na mente da maioria das pessoas é transmiti-la por meio do entretenimento” — Elmer Davis, diretor do Escritório de Informações de Guerra dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial.

Entre os países aliados vitoriosos, como França e Grã-Bretanha, os Estados Unidos impuseram a abertura dos mercados cinematográficos locais como condição para a obtenção de auxílio financeiro, contribuindo assim para o domínio dos filmes de Hollywood nesses mercados. Por várias décadas, os filmes americanos, que controlavam mais de 70% do mercado global, desempenharam um papel importante na colonização de mentes.

Inúmeros filmes centrados em "heroísmo" moldaram a imagem dos Estados Unidos como o "justo defensor da ordem mundial" e cultivaram o respeito pelo poderio militar americano.

Depois do 11 de setembro, Hollywood voltou a ser uma poderosa ferramenta de propaganda para a Guerra ao Terror dos EUA, com a indústria e os militares formando um complexo de entretenimento militar mutuamente benéfico, com cada lado compartilhando o que precisava.

Com o avanço da tecnologia digital, os videogames também se tornaram uma ferramenta essencial para o controle mental. A série de jogos America's Army, desenvolvida sob a direção do Exército dos EUA com mais de US$ 30 milhões em financiamento, simula combates realistas e atraiu aproximadamente 20 milhões de jogadores em todo o mundo.

Para ancorar a ideologia americana em todo o mundo, os Estados Unidos alavancam sua posição de liderança em todas as disciplinas acadêmicas para propagar sistemas de conhecimento ocidentais e valores culturais entre as elites intelectuais em vários países e regiões por meio de educação, treinamento, intercâmbios acadêmicos, financiamento de pesquisas e alocação de professores.

Seu objetivo é cultivar um grande contingente "pró-americano" disperso globalmente entre os círculos de elite ao redor do mundo.

Desde o início, os Estados Unidos posicionaram os intercâmbios culturais como a "quarta dimensão de sua política externa". Desde 1948, o governo americano investe fortemente no Programa Fulbright, considerado um "investimento exemplar nos interesses nacionais de longo prazo dos Estados Unidos", patrocinando estudantes, acadêmicos, elites culturais e grupos acadêmicos de todo o mundo para estudar, visitar e realizar pesquisas nos Estados Unidos. Até o final do século XX, o programa havia fornecido apoio financeiro a mais de 250.000 acadêmicos de mais de 140 países e regiões.

Autoengrandecimento e difamação de outros são os dois tipos de discurso mais frequentemente usados ​​nos esforços americanos para colonizar a mente.

A aplicação de "duplos padrões" na interpretação e no enfrentamento de questões internacionais representa uma das estratégias políticas americanas mais emblemáticas e constitui a lógica narrativa mais importante em seu empreendimento de colonizar a mente.

Do uso de ondas de rádio e sinais analógicos à internet digital e agora uma nova revolução nas comunicações impulsionada pela inteligência artificial, os Estados Unidos têm explorado consistentemente seu monopólio em tecnologias avançadas de comunicação para reforçar seu "poder brando" com "poder duro", usando sua hegemonia tecnológica para avançar em sua tentativa de colonizar a mente.

Aproveitando seu monopólio de infraestrutura, os Estados Unidos cortam ou interrompem seletivamente os canais de comunicação dos países-alvo com a comunidade internacional, criando um ambiente narrativo unilateral a seu favor que silencia vozes dissidentes.

Diante da competição futura, os Estados Unidos estão integrando ativamente a ciência cognitiva e tecnologias de ponta — como inteligência artificial e biotecnologia — em sua arquitetura estratégica para colonizar a mente.

Além disso, os Estados Unidos frequentemente politizam, militarizam e ideologizam questões tecnológicas, usando a "Chip Alliance", o "Clean Network Program" e assim por diante para construir "clubes" tecnológicos exclusivos e consolidar uma nova forma de hegemonia tecnológica.

Como escreve o escritor americano William Blum em Democracy: America's Deadliest Export, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos tentaram derrubar mais de 50 governos estrangeiros e interferiram descaradamente nas eleições de pelo menos 30 países.

Por razões geopolíticas e diplomáticas, os Estados Unidos frequentemente espalham mentiras políticas e criam "divisões cognitivas" entre diferentes grupos de interesse, alimentando antagonismo, incitando divisões ou planejando conflitos para obter lucro e até mesmo intervindo diretamente para "disciplinar" adversários que se recusam a cumprir suas exigências.

Afasia cultural

Colonização da mente significa incutir fé cega na cultura americana em todo o mundo, desmantelando a confiança nas culturas locais, dissolvendo as culturas subjetivas dos países-alvo, erodindo a diversidade das civilizações mundiais e exacerbando o antagonismo e o conflito entre civilizações.

Constantemente influenciados pela civilização de estilo americano, alguns países em desenvolvimento perderam sua subjetividade e orgulho nacional, sofrendo de um niilismo nacional crescente. Das elites ao público em geral, eles imitam, ou até mesmo seguem, os Estados Unidos e o Ocidente em tudo, desde pensamento e ideias até alimentação, vestuário, moradia e transporte. Este é o fenômeno da "afasia pós-colonial", descrito por muitos estudiosos.   

Conclusão  Quebrando as cadeias da colonização mental e promovendo trocas intercivilizacionais e aprendizagem mútua

SL Kanthan (14 de setembro de 2025)
(Tradução IA)

https://foicebook.blogspot.com/2025/09/documento.html#more

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Hugo Dionísio - Eleições em Portugal: O espelho de uma União Europeia em ruínas


(Hugo Dionísio, in Strategic Culture Foundation, 22/05/2025, Revisão da Estátua)


Em “Médiarquia”, Yves Citton desmonta a máquina de influência política que está a encerrar a discussão política naquele que podemos considerar o campo tradicional da direita. Segundo Citton, em termos muito simples, a média dominante cria os ambientes propícios à produção de um determinado estado mental, de ressentimento, desilusão ou impotência, e depois, através de um exército de comentadores e outras figuras com exposição pública, produz e transmite o discurso que vai responder, precisamente, ao ambiente de medo provocado, cujas constituintes estão dissociadas dos mais graves problemas que os trabalhadores têm.

Neste sentido, considera Citton que o regime em que vivemos – a democracia liberal – já não é uma democracia, mas uma mediarquia ou, até, uma “publicocracia”, uma vez que a média produz as figuras públicas – através da sua entrada em programas de entretenimento – em que mais tarde o público vai associar ao discurso que lhe foi plantado na cabeça como coincidente com o mesmo. Daí que estas pessoas se mobilizem mais pelo ódio aos migrantes asiáticos, à corrupção – endémica do capitalismo -, do que em relação aos problemas da habitação, trabalho, educação, saúde ou até à possibilidade de guerra. O que eles procuram é a coincidência do discurso, a confirmação do problema e não a solução em si.

Isto, bem vendo, nada tem de novo, uma vez que o fenómeno da exposição pública associado ao discurso amplificado pelas redes sociais, há muito que foi identificado como se tratando de um estratagema para influenciar o voto, do qual as sondagens, a escolha criteriosa das notícias, os comentários sobre as mesmas e muitos outros elementos comunicacionais, são as peças de uma máquina de ganhar eleições, à disposição da classe detentora do poder económico. Não é de admirar que este fenómeno, no tempo das televisões públicas apenas nas mãos dos governos e dos seus apoiantes, tenha transitado para centros de interesses privados, extremamente poderosos e, muitas vezes, em aparente dissociação com o poder instituído.

Citton reflecte muito também na necessidade de resposta a esta máquina infernal. Como é que as forças democráticas enfrentarão e encontrarão os instrumentos para responder a esta máquina de conquistar votos e influenciar o eleitorado, ao ponto de este tomar decisões aparentemente irracionais, emocionais, pré-reflexivas, contra os seus próprios interesses? Citoon aponta para a necessidade de maior escrutínio da comunicação social e dos seus funcionamento, mas esse caminho é pouco plausível na medida em que ela se trata de um instrumento de poder, usado para tal e como tal. A questão, a meu ver, que não sou especialista na matéria, passa mais por perceber, porque razão, este instrumento funciona como funciona, para depois o podermos atacar na base.

A resposta não é fácil e merece uma análise profunda às condicionantes históricas do nosso tempo, usando o melhor instrumento e referencial que temos à nossa disposição: a experiência histórica. Para chegarmos à resposta necessária, teremos de perceber por que razão estas convulsões sociais se produzem e, mais ainda, por que razão são elas, nos dias que correm, tão características da sociedade ocidental, dos EUA e da União Europeia, ou das sociedades que se regem pelos princípios “liberais”.

A produção de um ambiente propício à tomada de decisões irracionais e emocionais, de tipo comumente designado como “reaccionário” – na fase reactiva superficial – não se pode dissociar do ambiente económico em que as forças capitalistas dominantes se encontram e dos desafios, metas e objectivos que enfrentam. Afinal, a instabilidade nas nossas vidas, a sensação de perenidade, a efemeridade das condições, são resultados directos do tipo de economia em que vivemos, das suas necessidades e das políticas que promove junto do Estado que controla.

São estas forças que promovem o discurso dominante, que valorizam determinada ameaça em detrimento de outra, que massificam a informação, hoje através das redes sociais e da imprensa mainstream, como ontem tal era feito através da igreja e das instituições de poder, de forma directa. Voltando à experiência histórica, o que ela nos diz é que não é a primeira vez que a classe trabalhadora se sente perdida, acossada e isolada perante as ameaças cuja existência percepciona.

Na designada primeira revolução industrial, aquando da introdução do tear mecânico, na primeira metade do século XIX, os Luditas (ataque ao tear mecânico) ou os “Swing Rioters” (destruição das debulhadoras agrícolas) destruíam as máquinas, vendo nelas uma ameaça ao emprego da sua força de trabalho. Para agravar o sentimento de perda, as más condições de salubridade, segurança, salários e a outras condições de vida também contribuíram para este tipo de reacção. Contudo, não podemos, uma vez mais, dissociar esta atitude da pequena burguesia. Dos pequenos proprietários que viram os preços dos cereais baixar e não tinham condições económicas para mecanizar a sua exploração agrícola; dos pequenos artesãos que não conseguiam investir nas novas tecnologias e dependiam da tecelagem manual; do papel da igreja que via a sociedade a transformar-se de forma muito rápida e propagava um discurso reaccionário sobre o assunto.

A pequena burguesia, os sectores da burguesia mais tradicional que se viram ultrapassados pela burguesia tecnológica da altura, forças conservadoras e reaccionárias avessas à mudança operada, manuseando uma classe trabalhadora que se sentia acossada, sentindo em perigo aquela que constituía a sua única forma de sustento, face à agressividade do capitalismo industrial emergente, mais dinâmico e empreendedor e com maior poder sobre a decisão política, financiado por um capital financeiro também emergente, criou o caldo social que levou à reacção emocional violenta, à raiva e ao ódio à inovação tecnológica.

Julgo que este momento talvez seja o mais parecido e com as constituintes materiais mais análogas e similares ao que vivemos hoje. Um processo de transição tecnológica baseado na digitalização, inteligência artificial e automação avançada que é vendido como que ameaçando o emprego, podendo provocar desemprego em massa; um capitalismo financeirizado e globalizado que ameaça a qualidade do emprego, os salários, a estabilidade e a previsibilidade da vida, acentuando a sensação de descontrolo; um processo de atomização das relações de trabalho que individualizam, resultado da terciarização da economia e da sua terceirização por recurso ao “Outsorcing”, produzindo postos de trabalho cada vez mais isolados, em que o fenómeno organizacional é mais difuso e desconexo; a emergência de empresas ligadas ao “cloud capital” que operam além-fronteiras, sem conexão física, acentuando a sensação de alienação, não apenas em relação ao produto do trabalho, mas também em relação ao próprio trabalho em si. Tudo isto a uma velocidade estonteante e apresentado como tendo um potencial disruptivo incrível.

Em virtude do avanço deste capitalismo muito agressivo e financeiramente poderoso, sobre o Estado, intervindo na decisão política e apropriando-se de monopólios naturais, influenciando processos de crescente privatização de serviços públicos essenciais, negando ao sistema democrático o poder de regular as reais alavancas económicas, exigindo impostos mais baixos ou mesmo nulos, que se traduzem em perdas sucessivas de capacidade de investimento público, os trabalhadores deste novo enquadramento económico vêem adicionar ao trabalho precário, aos turnos e longas jornadas, aos baixos salários (porque fazem apenas o que as máquinas não conseguem), à insegurança perante a vida, a crise dos sistemas de saúde, da educação, da habitação. E, para agravar e somar à perda de empregos por via do “ajuste tecnológico”, assistem à abertura das fronteiras pelos mesmos que lhes capturaram os votos através da sua máquina de propaganda. A sensação de alienação existe também em relação à sua noção de cultura, etnia e Nação.

O ser humano valoriza a estabilidade, a previsibilidade, pela sensação de controlo da situação que essas condições possibilitam. Os que dizem valorizar a “flexibilidade” e a “mudança” dizem-no porque se sentem no controlo. É só tirar-lhes o tapete e lá vão eles de volta para o refúgio seguro.

Um jovem diz que não quer estabilidade até se juntar com alguém, constituir família e ter despesas fixas para pagar. Enquanto sabemos que isto é assim, temos um capital globalista que vende o contrário, vende a “flexibilidade” que mascara a desregulação da vida, vende a ideia de “liberdade” contratual, que ilude a precariedade da fonte de rendimento.

Para este trabalhador do século XXI, a sensação de que pode perder as constantes da sua vida, sejam elas a sua única moeda de troca – o trabalho – ou o seu único porto seguro, a casa, a Nação, etnia ou religião, não será muito diferente do que terão sentido os seus homólogos da primeira metade do século XIX. Com as constantes da sua vida em causa, um mundo de inovação em versão acelerada e difícil de entender e a percepção criada de que as organizações existentes, as instituições colectivas de classe, não correspondem às suas necessidades, colocam estes trabalhadores numa situação de fragilidade total, que nem no Estado se podem refugiar, uma vez que vêem a falência dos serviços públicos, das próprias finanças estatais, por todo o lado.

Podemos estar horas a discutir se actualmente as organizações de classe existentes representam, ou não – eu penso que existem -, esses trabalhadores, mas, o que mais importa, é a percepção desses trabalhadores e não a nossa. Para eles tudo parece estar em causa, ao ponto de votarem em quem não defende os seus interesses, apenas porque têm a esperança de que esse alguém crie uma ruptura e destrua uma realidade que consideram opressiva. Então, tal como os seus homólogos do passado tiveram uma reacção emocional de ataque à tecnologia, não percebendo que poderiam, de forma organizada, usá-la em seu favor para obter melhores condições de trabalho, também os de hoje têm uma atitude desenfreada de tudo querer partir, ainda cegos perante a possibilidade de usarem essa força de forma organizada para, efectivamente criarem uma ruptura, mas dessa feita, com um plano viável de reconstrução de um mundo que responda às suas necessidades. Porque, convenhamos, o modelo que anula eleições na Roménia ou isola a Hungria, não responde também a essas necessidades, pelo contrário, trouxe-nos a este ponto.

Nesta fase de reacção emocional, provocada por um fenómeno psicopolítico conhecido e abordado por gente como Byung Chul Han, este trabalhador acossado, vendo ruir tudo à sua volta torna-se, nesse sentido, alvo fácil da demagogia “mediarquica”. Um bloco imperialista ocidental em que a classe capitalista tradicional, ligada aos sectores tradicionais e até aqui no controlo, se sente ameaçada pela transição do centro económico para a Ásia, tal como os capitalistas e classes detentoras do início do século XX se viram acossados pela perspectiva da perda das colónias. Desta feita, a transição do centro de poder para a Ásia, não apenas muda o paradigma económico, em que o poder transita do opressor para o oprimido. Ao mesmo tempo, estas classes dominantes vêem ruir o projecto neo-colonial, criado após a Segunda Guerra Mundial, como contingência da perda das colónias e das concessões sociais decorrentes da existência de uma coisa chamada URSS, cuja existência, associada à decadência do Império britânico, do mundo anglo-saxónico europeu e à emergência dos EUA, tinha, a par de outras coisas, desencadeado o recurso às doutrinas fascistas e sionistas.

Nesta mescla social também entram os taxistas, ameaçados pela Uber e atacando os condutores asiáticos, ao invés de atacarem os que deixaram esta lógica empresarial parasita destruir as suas empresas e postos de trabalho. Deveria mesmo ser estudado o efeito que a entrada da Uber na UE, a forma ilegal como entrou, a conivência dos poderes estatais com a sua entrada e o recurso a mão-de- -obra migrante de origem asiática, teve na propagação deste tipo de racismo. Ainda por cima, a classe dos taxistas não era conhecida, na UE, por ser a mais esclarecida e a vanguarda da classe trabalhadora. Nem por sombras. Por outro lado, foram eles quem desabafou nos seus táxis todas as suas frustrações a milhões de clientes que usavam os seus serviços, muitos deles humildes, uma vez que os mais ricos usavam, por ser sinónimo de sofisticação, a Uber.

Já os lojistas ameaçadas pela Amazon, Aliexpress ou Temu, os restaurantes ameaçados pelos franchisings de fast-food, os pequenos empresários ameaçados pela capacidade de investimento dos grandes conglomerados industriais internacionais, os operadores logísticos ameaçados pelas UPS, DHL e Express Mail, também terão tido a sua quota parte. Estes são a correia de transmissão para os seus trabalhadores. Estes terão cumprido o mesmo papel que cumpriu o tecelão, o pequeno agricultor, o artesão pré-industrial. Uma vez mais, vivemos uma era de luta entre facções do capital, na qual os trabalhadores são instrumentalizados.

Prova de que estas percepções são plantadas é que os problemas que os trabalhadores desiludidos elegem como fundamentais, não são os seus problemas reais, mas os daqueles que se viram ameaçados com a chegada de emigrantes em massa para trabalhar para a Uber, como o caso dos taxistas, que perderam as suas pequenas empresas para a Uber e para as sociedades unipessoais que trabalham para a Uber (e não só). Estes migrantes desenvolvem actividades que os indígenas não querem desenvolver ou as consideram menores, caso da agricultura.

Aliás, a profusão de explorações agrícolas de culturas de exportação, facilmente perecíveis, associadas a necessidades massivas de mão-de-obra barata a transportar e instalar em locais do interior, desertificados, muito subdesenvolvidos e pouco populosos, também terá tido a sua quota parte. Imaginem o que é chegarem cem trabalhadores asiáticos a uma aldeia com 50 pessoas, e tentem perceber o ambiente de invasão e insegurança que sentirão. Agora, imaginemos que os que prometeram combater a desertificação tinham desenvolvido o interior de Portugal e, ao invés destes 100 migrantes entrarem numa aldeia com 50 residentes, a aldeia teria 500. Tudo seria diferente, certo? E mais diferente seria se, ao invés de culturas de exportação, produzíssemos culturas autóctones, mais rentáveis e destinadas à nossa alimentação. Tudo isto foi obra de governos submissos às políticas antipatrióticas da UE, que andaram, nos últimos 20 anos, a vender consecutivamente uma ilusão de desenvolvimento que nunca chegou. E fizeram-no enquanto ganhavam eleições à custa da máquina mediocrática, prometendo resultados para os quais nunca trabalharam.

Daí que não nos possamos admirar que tudo se comece a precipitar para o abismo. Se, no passado, a amplificação do discurso dominante era feita pela Igreja e pelas suas organizações sociais, na actualidade, a amplificação do discurso dominante é provocada pela Imprensa mainstream e pelas redes sociais e os seus bots, comprados com todo o dinheiro que esta gente pode comprar. Já não é na organização de classe, na associação de bairro, na colectividade ou, sequer, na taberna, que o trabalhador, o pequeno proprietário, bebem a sua informação. Ao invés de o fazerem em grupo, fazem-no no isolamento do seu smartphone. Sem contradição, questionamento ou reflexão profunda. Do entricheiramento provém o fanatismo, do fanatismo a reacção. Das certezas absolutas e inequívocas só advêm maus resultados. Da depressão mental, só podem advir reacções emocionais imponderadas. Um animal acossado e isolado num canto morde em qualquer direcção e foge para qualquer lado, apenas querendo sair da situação de aperto.

Uma vez mais, portanto, temos trabalhadores e camadas proprietárias de pequena dimensão aliados a facções do capital que se sente em perigo. Mas todas as reacções têm um fim e conduzem à necessária acção. À resposta emocional, imponderada, à sua ineficácia, surgirá necessariamente, por razões que a própria necessidade e natureza das coisas exigem, uma acção pensada, ponderada, um plano viável, compreensivo e adaptado à realidade superveniente. E hoje, podemos dizer que, nesse aspecto, a classe trabalhadora e os pequenos empresários já estão mais avançados que antes. Como disse Umberto Eco, o mundo avança entre movimentos de acção e reacção. Marx falava em dialéctica materialista entre relações de forças construídas por movimentos sociais opostos, que se resolviam em avanços civilizacionais quando a favor dos trabalhadores; Elias Jabour fala de saltos de um ponto de equilíbrio para outro. Todas elas surgem na sequência da tese-antítese-síntese de Hegel, tal como surgiram de Heraclito e do seu “ninguém se pode banhar na mesma água do rio duas vezes”. Ou seja, tudo é movimento constante, de salto em salto, de acção em reacção para acção outra vez. É assim que o conhecimento se constrói, é assim que a natureza evolui, é assim que as sociedades se desenvolvem.

Da primeira revolução industrial, da reacção emocional inicial, saíram conquistas organizacionais extremamente importantes, fundamentais para as conquistas do século XX e para a derrota do nazi-fascismo dos anos trinta e quarenta. Tais conquistas permitiram um estado de bem-estar social nunca antes visto na civilização humana. À entrada do século XIX, como disse antes, os trabalhadores não possuíam ainda as suas próprias organizações, organizações que falassem por eles, que respondessem aos seus problemas concretos, que agregassem a sua força. Dessa reacção e da acção que lhe sucedeu surgiram as respostas à contradição estabelecida entre um movimento opressor organizado e profundamente poderoso, face à fraqueza, isolamento e incapacidade de resposta congruente e consequente dos trabalhadores. A resolução da contradição dá-se com a criação dos sindicatos, primeiro e dos partidos e movimentos de classe (anarquistas, socialistas, comunistas), depois. Depois da conduta reactiva, manipulada e emocional, sucedeu-se a conduta racional, planificada. Típica da serenidade de quem já descarregou a sua raiva e procura, após o escape, a solução efectiva para os problemas identificados.

Destas formas organizacionais nasce a capacidade de resposta ao movimento reaccionário e a agregação da força individual em força colectiva. Daí surgiram revoluções como a Russa, Cubana, Portuguesa, Chinesa, catalisadores de mudança que associados à capacidade destas organizações, obrigaram, mesmo no Ocidente capitalista, à concessão do estado social europeu. Aquele que hoje todos sentimos em causa e ameaçado. Aquele que o capital ameaçado cobiça, por poder proporcionar-lhe, aquando nas suas mãos, incontáveis lucros, também compensatórios da perda de poder à escala mundial.

É por isso que digo que, mesmo que a narrativa dominante tenha transmitido aos trabalhadores que as organizações existentes não falam por si, aos poucos, o isolamento, a necessidade de compreensão e a procura de acções mais eficazes na mudança do estado de coisas, fará reconectar toda esta força com as suas organizações. Estas, como é óbvio, também terão de a atrair e representar, exigindo tal resposta uma coragem verdadeiramente revolucionária, capaz de imprimir um movimento dialéctico de adaptação, primeiro, e resposta e transformação ás condições materiais existentes, hoje tão travestidas de novas roupagens. Chamemos-lhes uma “batata”, vestidos de azul ou vermelho, será em organizações de classe, de pendor revolucionário que a classe trabalhadora encontrará, uma vez mais, a libertação.

Não será um caminho fácil, a prosseguir num Ocidente decadente e em colapso. Não podemos desligar da sensação de perda que as populações desiludidas sentem, o sentimento de ameaça às suas raízes, à sua cultura, aquele que foi um movimento constante e ainda muito presente, de transferências sucessivas de dimensões da nossa soberania nacional. Se as fronteiras da migração se abriram, foi porque a UE assim o decidiu, uma vez que, nos termos do Tratado de Lisboa, esta matéria é da sua competência; se o trabalho se degradou, foi porque a UE nos destinou uma economia de baixo perfil, voltada para o turismo e os serviços; se a moeda compra menos e tudo parece mais caro, tal sucede porque perdemos a soberania monetária; se sentimos que os serviços públicos se degradam, tal sucedeu porque transferimos a soberania orçamental e financeira, limitando a liberdade de investir nos serviços públicos e de construir um sector público capaz de impulsionar a economia; se sentimos a energia cara, os combustíveis dispendiosos, tal sucede porque transferimos a soberania económica, sujeitando-nos à agenda privatizadora e deslocalizadora da UE; se sentimos o país a ficar para trás, os jovens a abandonar-nos, tal se deve à agenda de mobilidade que visa fornecer de mão-de-obra qualificada os países mais ricos.

A prova de que este movimento é meramente reactivo, reaccionário, por mais explicável e compreensível que pareça ser, reside no facto de nenhuma das dimensões que causam esta reacção, ter resposta no programa dos partidos “populistas” ou “demagógicos” que agregam estes votos, demonstrando que apenas beneficiam da máquina mediocrática, tal como os seus irmãos do centrão e da esquerda fofinha. Se se tratasse, efectivamente, de um processo de mudança, todos estes problemas contariam com uma resposta e, à excepção dos migrantes asiáticos, que se pretendem expulsar, nenhum dos reais problemas sociais que causam esta sensação de insegurança encontra resposta nos programas das AfD, de Trump, da AD, de Simeon ou Le Pen. Tal como se vê agora com Meloni.

A resposta a este estado de coisas exige muito mais do que falar mal de tudo e todos, exige a coragem e capacidade de romper, efectivamente, com os poderes instituídos. Sejam eles o da UE, direita neoliberal reaccionária, mas globalista, sejam os da “nova direita” Trumpista, reaccionária, mas tradicionalista, que opta por atrair os trabalhadores, atacando outros trabalhadores mas nunca quem os explora ou quem os escraviza.

Sem esta resposta, no caso português, uma procura das suas origens, da sua história e raízes e uma viragem para o mundo, sem intermediários ou paizinhos – a este respeito o Chega nem a fractura faz com a NATO e é isso que o torna “tolerável” face à AfD ou a Le Pen –, beneficiando das pontes construídas outrora, das relações com os países de língua portuguesa, com as regiões como Goa ou Macau que nos conectam às superpotências da actualidade e do futuro, Portugal continuará a ser carne para canhão de países decadentes que procuram segurar-se tratando-nos como o seu “pátio das traseiras”.

Procurar essa resposta implica a coragem necessária para dizer que esta UE falhou, que se trata de um resquício da guerra fria e nenhuma função mais lhe sobra do que a instrumentalização das nações mais pequenas, a extensão artificial das fronteiras da NATO e o esgotamento dos nossos parcos recursos, para seu benefício, para benefício dos directórios de poder que a alimentam e controlam. É bem visível a instrumentalização que França e Alemanha estão a fazer da União Europeia, num momento de corrida às armas, usando-a como extensão das suas estratégias belicistas.

Símbolo desta UE perdida no mundo e em si própria é, uma vez mais, o advento de um poderoso movimento reaccionário, russófobo e neocolonial no seu seio. Seja ele alimentado pela ganância globalista imposta pelas agendas destrutivas de Von Der Leyen ou pelo Trumpismo isolacionista da “nova direita”.

Quanto mais depressa o clarificarmos, mais depressa construiremos o novo mundo que surgirá destas ruínas

https://strategic-culture.su/news/2025/05/22/eleicoes-em-portugal-o-espelho-de-uma-uniao-europeia-em-ruinas/