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quinta-feira, 4 de julho de 2019

Claudio Daniel: A poesia angolana hoje


* Cláudio Daniel

Dia: 04/07/2019 às 01:38:10

A poesia angolana contemporânea aborda temas como o desencanto do mundo pós-utópico, as cicatrizes da guerra civil, as contradições sociais, a emancipação da mulher, o erotismo, a beleza das paisagens naturais, a herança dos mitos e práticas tribais na sociedade moderna e, claro, a própria linguagem poética. 

Por Claudio Daniel*

É uma poesia plural, diversificada, que utiliza recursos como o humor, os provérbios locais, a mescla do português com palavras de dialetos tribais e o diálogo intertextual com a poesia ocidental, destacando-se no quadro das literaturas africanas em língua portuguesa.

Apresentamos aqui um pequeno quadro desse rico florilégio, com poemas de cinco autores significativos das letras angolanas: Paula Tavares, Maria Alexandre Dáskalos, Lopito Feijoó, Abreu Paxe, José Luís Mendonça e Jorge Arrimar.


PAULA TAVARES

Rapariga

Cresce comigo o boi com que me vão trocar
Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa

Filha de Tembo
organizo o milho

Trago nas pernas as pulseiras pesadas
Dos dias que passaram...

Sou do clã do boi –

Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo de deserto.

A falta de limite...

Da mistura do boi e da árvore
a efervescencia
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar

Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada,
concedeu-me
o favor das suas tetas úberes.

(Do livro Ritos de Passagem, 1985)


O lago da lua

No lago branco da lua
lavei meu primeiro sangue
Ao lago branco da lua
voltaria cada mês
para lavar
meu sangue eterno
a cada lua
No lago branco da lua
misturei meu sangue
e barro branco
e fiz a caneca
onde bebo
a água amarga da minha sede sem fim
o mel dos dias claros
Neste lago deposito
minha reserva de sonhos para tomar

* * *

Aquela mulher que rasga a noite
com o seu canto de espera
não canta
Abre a boca
e solta os pássaros
que lhe povoam a garganta

Ana Paula Ribeiro Tavares (Lubango, província da Huíla, Angola, 30 de Outubro de 1952) é uma historiadora e poeta angolana. Cursou História na Faculdade de Letras do Lubango (hoje ISCED, Instituto Superior de Ciências da Educação do Lubango), terminando-o em Lisboa. Em 1996 concluiu o mestrado em Literaturas Africanas. Atualmente, vive em Portugal, lecionando na Universidade Católica de Lisboa. Tanto a prosa como a poesia de Ana Paula Tavares estão presentes em várias antologias publicadas em Portugal, no Brasil, em França, na Alemanha, em Espanha e na Suécia. No Brasil, foi publicado um volume com a sua poesia completa, Amargos como os Frutos.


MARIA ALEXANDRE DÁSKALOS

Nasceu em mim uma fonte
nada sabia dessa água
até encontrar as margens
desta escrita
que quis fosse lisa
como pedra mármore

***

Um homem ao crepúsculo
sabe que os poetas e as mulheres
percorrem as ruas da cidade

na peregrinação dificílima do amor.
Esperam-nos em caves secretas
unguentos e odores tropicais
então, um homem tranquilo torna fácil a nudez.

***

O garoto corria corria
Não podia saber
Da diferença entre as flores.
O garoto corria corria
Fugia.
Ninguém lhe pegou ao colo
Ninguém lhe parou a morte.

***

E agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz – esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.

Os deuses não assistiram a isto.

Maria Alexandre Dáskalos, poeta angolana, nasceu em Huambo, em 1957, filha do poeta e intelectual nacionalista Alexandre Dáskalos. Estudou nos colégios Ateniense e de São José de Cluny, formando-se em Letras. Em 1992, durante a guerra civil, mudou-se para Portugal, com a mãe e o filho. Atualmente, é jornalista na RDP África e mestranda em História Contemporânea. Publicou Do Tempo Suspenso (1998), Lágrimas e Laranjas (2001) e Jardim das Delícias (2003).


JOSÉ LUÍS MENDONÇA

Esse país chamado corpo de mulher

Fundo um país com os fonemas imprevistos
no roteiro do teu corpo de mulher.
Um tigre espreita
a inocente plumagem de um pássaro
poisado na colina do teu púbis.
Os teus seios forjam nos meus lábios
o paladar íngreme da pedra subterrânea.
Então nasço asas nos ombros como as tangerinas mecânicas
que Leonardo da Vinci anteviu nos seus esquissos.
Diamante de carne que as redes do tempo cristalizaram
na geometria incisiva dos meus versos.
Coral de azeite finíssimo.
Demorada galáxia de metal ideográfico.
Marcaste o meu destino com o traço de sal nocturno e luminoso
do teu andar de rumba.
País selvagem
que o trote mitológico da savana anuncia
sobre o verão alucinante do asfalto
me derrotas com as armas da tua cópula fulminante
e me sepultas como um faraó calcinado
no sarcófago apertado do teu sexo
onde navega um concerto de peixes doces como o mar
branquiando a palavra nascitura entre as vogais do meu esperma.


Pode ser que o mundo acabe na semana que vem

Pode ser que o mundo acabe na semana que vem.
O que é que eu posso fazer senão conhecer até à exaustão
todas as coisas que fazem de ti um verão denso e humífero?
Cantar sem vacilar por exemplo esse teu ar breve
de pequena vissapa de luz.
A mim pouco importa o destino do universo
saber se os planetas estão na mão de algum deus subatómico
ou se um meteorito beija a Terra por amor ou por acaso.
Pode ser até que o mundo se acabe na semana que vem.
A mim basta conhecer
uma a uma essas colónias de sede e de êxtase
que o teu sangue construiu com apoteose e presciência
em cada ossatura do teu porte
uma a uma essas luas térreas de sedução
que a savana do teu riso faz refém em cada sequência do teu
andamento galáctico.
A mim basta saber que a simples historicidade do teu cio
sempre desenha um pendor de pássaro
na frágil película da minha humanidade.
Pode ser que o mundo acabe na semana que vem.
Macacos me mordam se mesmo assim eu não te levo (hoje ainda)
nos meus ombros a chupar gelado de múcua
para espanto crucial da cidade.
Pode ser que o mundo acabe na semana que vem.
No grau zero da escrita ainda a vogal preta dos teus olhos
erguerá a sua esfinge
e o enigma dos nossos ventres siameses ainda
levantará as areias inverosímeis do deserto.

José Luís Mendonça nasceu em 1955, no Golungo Alto, província do Kwanza Norte, Angola. Poeta e jornalista, é funcionário da Unicef em Angola, onde exerce o cargo de assistente de informação. Colabora em diversas publicações de seu país e no Jornal de Letras, Artes e Ideias, de Portugal. Ingressou na União dos Escritores Angolanos em 1984. Publicou os livros de poesia Chuva Novembrina (1981), Gíria de Cacimbo (1987), Respirar as Mãos na Pedra (1991), Quero Acordar a Alva (1996), Se a Água Falasse (1997), Logaríntimos da Alma - Poemas de Amar (1998) e Ngoma do Negro Metal (2000).

JORGE ARRIMAR
 
1. de que montanha?

não sei de que montanha sou
se daquela que transporto em mim, toda em mim,
um meteoro vindo do espaço há mil anos
se daquela que me habita há um segundo,
o segundo tempo depois do primordial (es)pasmo


2. álbum de recordações

uma velha buganvília
a embeber tudo numa névoa roxa
e minha bisavó sentada no terreiro
a refrescar-se nas tardes mornas
com leques de bambu e palma

3. infância
o deserto que atravessamos
não é nosso. somos estrangeiros
nas suas dunas. só os cactos
vieram connosco, agarrados
aos pés da infância

4. Esconderijo
entre ábacos de ébano
e dados de marfim
um velho chinês procura-me
com dedos de bambu
o carácter que me possui
é um esconderijo de silêncios

5. Imbondeiro
há frutos
nos ramos do imbondeiro
a penugem que libertam
cobre os pássaros que voam para o céu
da boca

6. ressureição da dança
é da terra que chega a seiva,
o sangue das plantas que, morrendo,
mais se enraízam.
da próxima vez que te vir
de pés nus a lavrar o chão
acertarei o passo contigo
na dança
dos homens que estão antes
dos mais antigos que a memória guarda

Jorge [Manuel de Abreu] Arrimar nasceu em S. Pedro da Chibia, Angola. Publicou dez títulos de poesia e cinco de ficção. Encontra-se representado em diversas antologias, nomeadamente Antologia de Poetas de Macau (Macau), Divina Música (Portugal), Ovi-sungu – 13 Poetas de Angola (Brasil), Poetas da Ásia Portuguesa (EUA); participa em várias revistas literárias, das quais se destacam Eufeme (Portugal), Seixo Review (Canadá), Literatas (Moçambique), Textos & Pretextos (Portugal), Zunái (Brasil).


LOPITO FEIJOÓ

Sabedoria VIII

Vende-se uma pátria incompleta
chamam-lhe
país que estamos com ele.

Carcaça com centro. Sem norte nem sorte
pois a bota nunca bate com a perdigota
no atribulado e atropelado sul do sul.

CONSELHO: Leve somente a geofísica
a parte material está destroçada
a espiritual em fios de recuperação!


Sabedoria XVI

Os sábios nem tudo sabem
os deuses têm deuses também
os corruptos facilmente corroem
e as víboras vigiam novinhas vizinhas.

Quem rouba não rouba tudo
quem mata não mata o todo
quem perde ganha também
e quem ganha nem tudo apanha.

Os sábios os deuses e os corruptos
urgentes, mais as víboras dementes
por demais impacientes…
eternamente neste mundo de inocentes!


Sabedoria XXX

Homem que é homem não amiga jacaré
Mulher de verdade não saltita na maré.
Toda vaidade implica os cabelos no lugar
limpa, rendilhada e arrumada, varanda
Temperada e asseada cozinha humilde.

Homem velho é pau de embondo. Então:
encosta-te ao velho homem enquanto SER
saberás de muitos, passados e dolorosos anos.

Qualquer sóbria mulher tem
só o tamanho dos profundos universos
não amiga jacaré nem saltita na maré
do alto da sua pegajosa vaidade, guiar-te-á
santificando o nobre, caminho das estrelas!

Lopito Feijoó, nome literário de João André da Silva Feijó, nasceu em Malanje (Angola) em 1963. Estudou Direito em Luanda, na Universidade Agostinho Neto (UAN). É deputado (reformado) da Assembleia Nacional de Angola. Publicou diversos livros de poesia, entre eles Me Ditando (1987), Rosa Cor-de-Rosa (1987), Cartas de Amor (1990), Na Idade de Cristo. Poesia Declamada em CD (1997), O Brilho do Bronze – Haikais (2005) e Imprescindível Doutrina Contra (2017). Tem livros traduzidos para o francês, inglês e italiano e colaborou publicações de Angola, Portugal, França, Espanha, Brasil, Estados Unidos e outros países.


ABREU PAXE


Nkalu a maza: Tigela de sentidos
A mbuta bavova vô

descalçadas e fraternos no aço há braços e botas também o carvão preto

aceso em brasa vermelho nos cristais dum denso signo a mbuta enquanto saliva

se levantam essas águas do rio correm para o sul as fontes precisam de

montanhas

os vales de um banho seco prisioneiro bavova vo as bactérias

desta garrafa da taça de vinho comia de botas vermelhas de ferida

e tudo começa com os olhos destas bocas destas espingardas desta guerra

ouro preto benigna meu mundo congelado o seu lugar de tanque a cama no lugar

da geografia do meu desenhado espaço jardins todo o gesso requerido

Sul e Norte a mina mu-ntu o distante e perto Oeste e Este as linhagens

ampliam-se

feito artérias tomam o corpo por inteiro e nele abrem os ventrículos e

as aurículas

circulam todas as frutas e sabores no vale e nas montanhas por exemplo
mangas, mamões,

bananas, testículos, seios, pénis, vagina o arquejante altar os mais
velhos disseram assim.


Kuna ketwalwaka ko

eu e a estela mais escuros estes ventos claros no nilo clara a cerveja

loira não mexia na minha panela garantia que se contém como deus pagão

o texto de música muito delicada a página a pauta violando ordens tácitas

do dia da noite escava pressentida carne a terra árvores de mim

eemente clara convém e contém o escuro escorre e não nos impede de sonhar

feito sol a noite do dia cinzento morcego inflama nos ossos das dentadas

transfigura o metal reside kuna ketwalwaka kó a chegada além uma nova

expectativa

escuta tudo sobre onde ainda nós não chegamos

como quem vem dum cruel lugar incontinente unifico todos os gritos de lá


Zulu dya bwa

mezaya e palantada falava sem sol com o sol da luz

esticando um gato fio de seduções os sonhos todos sem arrumação

essa esquina se não é atum é sovaco de manga outra vez

esse atum que não é esquina ou toque de cabritos obrigação diária

uma página uma janela uma paisagem desestruturados todas

enquanto boca os vidros desvendados pontual um só dedo

espelhos os corpos intervalos não coagulados de estrume, nem de esterco

o céu em queda se lhe contassem fechaduras

mezaya falava palantada que era a lâmpada a passagem de luz

fontes de obtenção de conhecimentos visuais esses Límpidos lampejos

teu sono os braços de luz teu leito ainda descortinado.

Abreu Castelo Vieira dos Paxe nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe (Angola). Licenciou-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), em Luanda, na especialidade de Língua Portuguesa. É docente de Literatura Angolana nesta mesma instituição e membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), onde é secretário para as atividades culturais. É técnico de comércio externo pela escola de comércio. Publicou A Chave no Repouso da Porta (2003), que venceu o Prêmio Literário António Jacinto. No Brasil, foi publicado nas revistas Dimensão (MG), Et Cetera (PR) e Comunità Italiana (RJ), e em Portugal, na antologia Os Rumos do Vento (Câmara Municipal de Fundão).




domingo, 22 de novembro de 2015

José Vilhena na colecção da Hemeroteca



 Foi o nosso humorista mais “picante” de todos os tempos e um dos mais versáteis, pois tanto fazia rir através do verbo, como da caricatura, do cartoon, da ilustração e de outras performances gráficas. Faleceu em Lisboa, no passado dia 3 de Outubro, com 88 anos de idade, e com este pequeno dossier digital pretendemos homenagear a sua criatividade fecunda e escaldante, bem como divulgar os títulos de Vilhena que integram a coleção de publicações periódicas da Hemeroteca Municipal de Lisboa. É inegável que José Vilhena foi uma figura, se associarmos ao conceito a capacidade de intervir no espaço público e de desencadear reações fortes. Ninguém ficava (nem fica) indiferente ao seu cocktail de humor, que combinava doses variáveis de ironia, sátira política e social e sexo.

José Alfredo de Vilhena Rodrigues nasceu a 7 de Julho de 1927, em Figueira de Castelo Rodrigo. Começou a publicar, em meados dos anos 50, em jornais como Diário de Lisboa e Diário Popular e nas revistas Cara Alegre e O Mundo Ri. Também traduzia, compilava e adaptava autores estrangeiros.

Nos anos sessenta, já era um humorista conhecido entre os apreciadores do género. Mas também pela PIDE. A polícia política mantinha-o sob vigilância constante e desconfiava do seu humor que desafiava a ordem moral e social e fazia alusões enviesadas à falta de liberdade, à repressão e a outras misérias. Mas Vilhena não se deixou intimidar, pelo contrário. Lançou-se numa produção frenética, assumindo ele a responsabilidade da edição, isto é fez-se editor. A iniciativa do “humor de bolso” foi um sucesso. Os dois primeiros livros que fez imprimir com a marca «Vilhena», ambos de 1960, foram logo apreendidos: Manual de Etiqueta e História Universal da Pulhice Humana. O próprio Vilhena esteve preso três vezes. Mas o ritmo de edição e as tiragens não pararam de crescer, acompanhando o mercúrio da contestação à ditadura. Em 20 anos (1954-1974), Vilhena redigiu, ilustrou, publicou e distribuiu mais de cinquenta livros, aos quais se somaram mais duas dezenas de traduções e compilações de humoristas estrangeiros.
Uma vez reconquistada a liberdade em Abril de 1974, a criatividade de Vilhena atingiu a sua máxima expressão por via das publicações que lançou. A primeira, a mais célebre e também mais duradoura, foi a revista quinzenal Gaiola Aberta, que apareceu logo em Maio daquele ano e que, durante o “Verão quente”, chegou a fazer tiragens de 150 mil exemplares; teve duas séries: a primeira, manteve-se até Maio de 1983; a segunda, foi ressuscitada em Maio de 2003 e manteve-se nos escaparates até 2006. No interlúdio, outros títulos foram dados à degustação dos leitores, na sua maioria revistas, como:Vida Lisboeta: revista mensal para homens adultos e mulheres emancipadas (1978-1979); A Paródia: comédia Portuguesa. Revista de humor e caricatura (1980); Fala Barato: jornal mensal de arte, cultura e mau humor (1987-1993); O Cavaco: revista do humor possível (1993-95); e O Moralista: revista de humor pagão (1996-2003).
Nesta fase, José Vilhena selecionava os seus modelos ou musas diretamente da passerelle pública, isto é, interessava-se por todas as personalidades, figuras, conhecidas do grande público e potenciais leitores. Descobre-se no seu trabalho alguma inspiração bordaliana, quer por via dos temas e objetos, quer por conta da abordagem burlesca e colorida. Os políticos foram, sem dúvida, a sua primeira preferência, mas Vilhena não menosprezava ninguém: muitos jornalistas, escritores, artistas, gente do jet set, empresários, etc. foram “engaiolados”, por assim dizer. Nem todos apreciaram a pose e a moldura em que se descobriram um dia, ao virar da página; os processos contra Vilhena multiplicaram-se e, com o tempo, começou também a revelar-se o cansaço do caricaturista e também dos leitores.
Era tempo para abordar a obra do humorista em retrospetiva. Em Maio de 1996, a Câmara de Lisboa organizou, no palácio das Galveias, a exposição ”Crónica de uma revolução”, Factos e figuras da revolução de Abril: desenho de José Vilhena, que ficou plasmada em um catálogo (acessível aqui). Mais tarde, em Janeiro de 2003, a Galeria Barata expôs mais de 100 obras de pintura e ilustração. Começaram também a publicar-se antologias, ensaios e estudos académicos centrados na sua obra.
O sítio web O incorrigível e manhoso Vilhena, da responsabilidade de Luís Vilhena, surgiu recentemente para divulgar e celebrar a arte polivalente do autor.
Rita Correia

FICHA TÉCNICAJosé Vilhena (1927-2015) na coleção da Hemeroteca | Investigação: João Carlos Oliveira e Rita Correia | Textos: Rita Correia |Digitalização e tratamento de imagem: Serviço de Digitalização e Imagem da Hemeroteca Municipal de Lisboa | Conceito e webdesign:João Carlos Oliveira

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/efemerides/vilhena/josevilhena.htm



Cara Alegre: revista de bom humor 
1 de janeiro de 1951 a 15 de outubro de 1958

Propriedade da empresa editora «Os Ridículos», era dirigida de Nelson Barros e totalizou 158 números. Tanto quanto foi possível apurar, a colaboração de José Vilhena terá tido início no ano de 1955.
   
 
Diário de Lisbo
7 de abril de 1921 a 30 de novembro de 1990

O humor esteve sempre presente neste jornal de informação genérica, dirigido por Joaquim Manso, que era também seu proprietário e editor. A colaboração de José Vilhena no D.L. terá tido início em 1955 (alternando com Stuart a ocupação de espaço próprio na edição, geralmente na página 15) e manteve-se até 1958, pelo que não participou no suplemento humorístico A mosca, de 1969. Nessa data, os voos de José Vilhena cruzavam outras páginas.

  
O Mundo Ri  
outubro de 1948 a 1968(?)

Revista mensal, de Lisboa, era propriedade de Nunes Simões, que também assumia a direção. José Vilhena associou-se ao projeto em finais da década de 50, assegurando muitas das capas desta pequena publicação, onde dominavam os autores estrangeiros.
   
 
Gaiola Aberta 
1.ª série, maio de 1975 a maio de 1983
2.ª série, maio de 2003 a maio de 2006

Foi a revista mais lida do seu tempo e aquela que rendeu o processo mais grave que José Vilhena enfrentou: o que resultou de uma fotomontagem envolvendo a princesa Carolina do Mónaco, publicada em novembro de 1981. Além do mal estar resultante do embaraço diplomático, Vilhena foi confrontado com uma queixa-crime apresentada pelo principado do Mónaco, que exigia uma indemnização graúda pelos danos causados. O processo arrastou-se por largos anos, mas a queixa acabou por ser retirada.
 
 
Vida Lisboeta: revista mensal para homens adultos e mulheres emancipadas 
setembro de 1978 a fevereiro de 1979(?)

Foi contemporânea da Gaiola Aberta, mas distingue-se dela por ignorar os políticos e outras figuras públicas. O objeto da sátira era a própria sociedade, a mentalidade, os costumes e as práticas mais comuns ou generalizadas na população urbana. Muito provavelmente causou escândalo, pois a primeira página do n.º 2 ironizava sobre o assunto, advertindo o público, em grande paragonas: «O interior desta revista contém desenhos e textos passíveis de chocar pessoas bem pensantes. Se pertence a esse número não a abra!»
   
 
A Paródia: comédia Portuguesa. Revista de humor e caricatura 
1 de setembro a 1 de outubro de 1980
Ressuscitou o título do jornal fundado por Rafael Bordalo Pinheiro, em 1900, e que em 1903 se fundiu com a revista Comédia Portuguesa, dirigida por Julião Machado e Marcelino Mesquita, dando origem à Paródia: comédia portuguesa, que se manteve alguns anos (1907). A Paródia de Vilhena não teve o mesmo sucesso: saíram apenas dois números. A capa do 1.º número revisita claramente a que inaugurou a publicação de Bordalo (ver aqui).  

Fala Barato: jornal mensal de arte, cultura e mau humor 
julho de 1987 a março de 1988
Nova série, abril de 1988 a 1994(?)

Foi lançado quatro anos depois do fim da 1.ª série da Gaiola Aberta, e de certa forma deu-lhe continuidade, quer na substancia, quer no formato. Embora tenha começado como jornal, em março de 1988 anunciou um «novo visual» e no mês seguinte apresentou-se num formato mais reduzido e “vestido” com capa. O então primeiro-ministro Cavaco Silva foi um alvos preferidos do Fala Barato, que chegou a assumir a contagem dos dias que lhe restavam para honrar a promessa de tirar o país da “cauda da europa” e, em novembro de 1991, após as eleições que renovaram a maioria absoluta, anunciou «A longa noite cavaquista».

 
O Cavaco: revista do humor possível 
outubro de 1994 a outubro de 1995

A ideia de usar o nome do chefe do governo para dar título a publicação humorística causou alguma perplexidade e indignação, mas não era propriamente uma novidade: Rafael Bordalo Pinheiro já o fizera, em 1879, quando lançou o António Maria, em “homenagem” ao líder do partido regenerador e ex-presidente do ministério, António Maria Fontes Pereira de Melo. Embora o país viva agora em regime democrático, estando salvaguardados os direitos, liberdades e garantias do cidadão, esta iniciativa de José Vilhena não deixa de revelar coragem e independência em relação ao poder.
   
 
O Moralista: revista de humor pagão 
abril de 1996 a abril de 2003

Foi a ultima revista produzida por José Vilhena, e não se desviou do receitário do riso já testado: caricaturas, cartoons, banda desenhada, fotomontagens e textos demolidores. Nas capas d’O Moralista, José Vilhena fez desfilar uma série de «estrelas de televisão», em trajes menores ou mesmo nuas, desencadeando a ira das visadas e uma “tempestade” contínua de processos. Mas Vilhena não se deixava intimidar. Para ele o humor era um bem essencial.

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/efemerides/vilhena/JoseVilhena_Obra.htm


Faleceu José Vilhena

O cartoonista, humorista, escritor e pintor José Vilhena faleceu, dia 3, aos 88 anos, vítima de prolongada doença.
Fundador da revista «O Mundo Ri», em 1955, iniciou nos anos 60 uma série de livros de bolso humorísticos, que o próprio distribuía clandestinamente pelas tabacarias. 
Não escapou à censura e à perseguição do fascismo. Foi preso três vezes pela PIDE.

Logo após a revolução de Abril, funda a revista quinzenal «Gaiola Aberta», e mais tarde as publicações «O Fala Barato», «O Cavaco», «O Moralista» e novamente a «Gaiola Aberta», numa segunda série

http://www.avante.pt/pt/2184/destaque/137343/?tpl=612.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Gomes Leal – Apontamentos para um estudo

Conversas em torno dos livros.


ruilopesmartins


Para o Miguel de Carvalho

que vende livros,

mas sabe oferecer ideias...



Fotografia de Gomes Leal


António Duarte Gomes Leal nasceu em Lisboa no dia 6 de Junho de 1848, na Praça do Rossio, freguesia da Pena. Filho ilegítimo de um funcionário da Alfândega, com algumas posses, que morreu em 1876, e de Henriqueta Fernandina Monteiro Alves Cabral Leal.

Viveu com a sua mãe e irmã Maria Fausta – a sua principal fonte de inspiração.

Frequentou o Curso Superior de Letras, mas não o concluiu. Não se fixou, porém, em qualquer carreira ou profissão que lhe assegurasse uma subsistência regular: no jornalismo, no panfletarismo político, acima de tudo na poesia, aplicaria a sua vocação de boémia e artista. Empregou-se como escrevente de um notário de Lisboa, mas a sua cultura literária foi quase toda adquirida no seu meio de trabalho e nos cafés.

Começou cedo a trabalhar no mundo jornalístico, tendo também feito edição de livros e panfletos. Colaborou com diversos jornais da época, publicando críticas literárias e artigos satíricos. Enquanto crítico, Gomes Leal era já defensor do realismo, mas como poeta era ainda ultra-romântico, o que é bem visível, formalmente, no tom de balada e na exposição narrativa de muitas das suas composições, componente que não deixará nunca de revelar, apesar das vicissitudes e “conversões” do seu percurso literário e pessoal – ou por isso mesmo.

Quando Gomes Leal publica as suas primeiras composições poéticas na «Gazeta de Portugal», a poesia do romantismo em Portugal atravessava um período de radical conflito a nível teórico. Era o período da célebre polemica “Questão Coimbrã” ou do “Bom Senso e Bom Gosto”, provocada por Antero de Quental.
Pode dizer-se que, nessa altura, salvo raríssimas excepções, a poesia em Portugal continuava alheia às influências desse “modernismo” que, no interior do próprio romantismo europeu, Baudelaire proclamara já, genericamente em 1846: “Qui dit romantisme dit art moderne – c’est-à-dire intimité, spiritualité, couleur, aspiration vers l’infini, exprimés par tous les moyens que contiennent les Parts”.

Como aliás já aqui se falou, esta polémica contra Castilho proclama, em 1865, os valores supremos de uma poesia europeia aberta às “imensas criações da alma moderna”

Tudo isto nos permite situar Gomes Leal, nos finais dos anos 60 do séc. XIX, como um herdeiro directo (mas não um imitador ou mesmo um discípulo) dos primeiros românticos portugueses. Mas há também desde o inicio da sua obra, um sentido finissecular baudelairiano que a define essencialmente, tornando-a única.



Lisboa – Praça de Camões em 1868

Gomes Leal estreou-se aos dezoito anos, em 1866, ao publicar a poesia “Aquela Morta”, na «Gazeta de Portugal»; aonde publica igualmente “A gondoleira” a 5 de Novembro de 1867.

Em 16 de Janeiro de 1869, começa a publicar o folhetim "Trevas" na «Revolução de Setembro». Com este trabalho tornou-se conhecido como poeta. É apresentado por Luciano Cordeiro como um dos "poetas Novos", a par de Teófilo Braga, Antero de Quental, Guilherme Braga e Guerra Junqueiro, entre outros.

Na «Revolução de Setembro», publicou vários textos, de características joco-satíricos, dos quais se destacam: “A batalha dos astros” (20 de Abril de 1870); “Descrença” (31 de Agosto de 1870); “Flor de perdição” (2 de Outubro de 1870); “No Calvário” (Outubro de 1870).

O cariz interventivo da sua obra é marcado não só pelos folhetins publicados nos jornais, mas também pela fundação com Magalhães Lima, Silva Pinto, Luciano Cordeiro e Guilherme de Azevedo, em 1872, do jornal satírico «O Espectro de Juvenal».

Em 1873, publica “O Tributo de Sangue” e “A Canalha”; e, em 1874, um ano antes da primeira edição de“Claridades do Sul”, escreve para o «Diário de Notícias» (19 de Maio) “Duas palavras sobre a poesia moderna”, onde reflecte sobre a utilidade que a poesia deve ter face às atribulações morais do final do século.



LEAL, ANTÓNIO DUARTE GOMES – Claridades do Sul.

Lisboa, Braz Pinheiro, 1875. - 281, [12] p. ; 21 cm

No ano da morte de sua irmã (Maria Fausta, sua principal fonte de inspiração) publica "Claridades do Sul"(1875), o seu primeiro livro poético, e nele já se notam os seus ideais anticlericalistas e republicanos, preocupações também presentes em obras posteriores. Apesar de ser ainda ultra-romântico, revela já certos aspectos parnasianos (nomeadamente na versificação e temática), numa "poesia sentimental e sinestésica que canta as contradições de uma existência repartida entre os amores venais e a fantasia estelar e exótica, a indignação causada pelas injustiças sociais e o pessimismo, ora negro ora afectadamente cínico e positivista" (Dicionário da Literatura Portuguesa).

Em 1881 é um dos fundadores do jornal «O Século». Aí publica, por exemplo, “A banalidade nacional irritada” (30 de Janeiro de 1881).

Para celebrar Camões e Bocage, publica o poema em 4 cantos – “A Fome de Camões” – para celebrar o tricentenário do poeta (1880) e “A Morte de Bocage”, (1881). Nestes dois últimos livros reflecte sobre o destino fatal do poeta de missão, com que ele próprio se identificava.

Datam igualmente de 1881 os panfletos poéticos “A Traição” e “O Herege”, pondo em causa o trono na pessoa do rei D. Luís, as Instituições burguesas e a Igreja, o que gerou um verdadeiro escândalo literário e político. Aliás, o primeiro texto leva-o à prisão do Limoeiro, onde escreve uma carta publicada no número comemorativo da Tomada da Bastilha de «O Século» (14/7/1881). A edição do almanaque «O António Maria» de 7 de Julho de 1881 é dedicada por Bordalo Pinheiro a Gomes Leal.



Gomes Leal

Caricatura de Bordalo Pinheiro

Na linha desta "poesia como voz da Revolução" (como o anunciara Antero de Quental nas «Odes Modernas»), os folhetins satíricos "A Orgia" (1882), "A Morte do Atleta" (1883), "A Noviça", e "O Remorso do Facínora"; "A História de Jesus para as criancinhas lerem" em 1883 (tendência agora calma e cristã) ;"Fim do Mundo" (volume com as suas poesias de combate) (1899); "Mefistófele em Lisboa"(1907) e"Retratos Femininos" ( novas sátiras e quadros da vida urbana) .

Outros poemas da sua autoria são “O Renegado: A Antonio Rodrigues Sampaio, carta ao velho pamphletario sobre a perseguição da imprensa” (1881), “O Anti-Cristo” (1884 e 1886), “Serenadas de Hilário no Céu” (1900), “A Mulher de Luto” (1902), “A Senhora da Melancolia” (1910). Publica até tarde. Data de Março de 1915 o poema “A Dama Branca” que vem a lume na Águia.



LEAL, ANTÓNIO DUARTE GOMES Fim de um Mundo : Sátyras Modernas.

Porto: Livraria Chardron, 1899 ~ Com ano 1899 no rosto e 1900 na capa ~ Brochura original ~ XVII+436p+1fb ~ 19x13x3cm. 1ª edição



A partir de “Anti-Cristo” (1886), e com “A Mulher de Luto”, depois da sua viagem a Madrid em 1878, por ocasião do casamento de Afonso XII, (1902), a poesia de Gomes Leal torna-se mais negativa, de uma certa inspiração ocultista, provavelmente devido à decadência física e moral sofrida pelo poeta.

A sua poesia oscila entre os três grandes paradigmas literários do final do século XIX: romantismo, parnasianismo e simbolismo. De 1899 a 1910, compõe e publica quase diariamente.

Quando a mãe morre, em 1910, converte-se ao catolicismo, o que tem influência na sua escrita, mudança que se manifestou na sua obra, em livros como "A Senhora da Melancolia".

LEAL, ANTÓNIO DUARTE GOMES - A Senhora da Melancolia : Avatares de um Ateu.

Lisboa: Livraria Moderna, 1910 ~ Vinhetas na capa e em fecho de cada um dos poemas ~ Brochura original ~ 23p ~ 21x13x1cm. ~ 1ª edição.

Começa aqui o período mais difícil da sua vida, do ponto de vista económico, foi recolhido em 1913 por uma pessoa piedosa. Dormia de casa em casa, ou nos bancos da praça pública, e chegou mesmo a ser apedrejado pelos garotos da rua, até que Teixeira Pascoaes e outros escritores lançaram um apelo público para que o Estado lhe atribuísse uma pensão. Este objectivo foi conseguido quando o Parlamento votou que lhe fosse atribuída a pensão, no valor de 600$00 reis que, apesar de diminuta, foi o seu sustento até à morte.

A fase final da vida de Gomes Leal foi marcada por um grande fervor religioso, associado à degradação física e moral consequente do seu alcoolismo. Morreu em Lisboa no dia 29 de Janeiro de 1921.

Apesar de se mover literária e pessoalmente nos círculos próximos da Geração de 70, não integra o grupo dos “Vencidos da Vida”, referindo, porém, o apreço que Eça de Queirós e Antero de Quental lhe dedicam, num comentário feito pelo próprio Gomes Leal na obra “A Morte do Rei Humberto” (1900).



LEAL, ANTÓNIO DUARTE GOMES – A Morte do Rei Humberto e os Críticos do "Fim d'um Mundo".

Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1900 ~ Prólogo do Autor ~ Brochura original ~ 102p+1fb ~ 19x13x1cm. 1ª edição

Gomes Leal tem aliás o cuidado de se distanciar das correntes estéticas da altura, fazendo-o nomeadamente na Nota a “Claridades do Sul”, acrescentada e publicada na segunda edição, em 1901. Na Nota a “A Morte do Rei Humberto”, Gomes Leal afirma ter publicado antes de “Fradique Mendes” na«Revolução de Setembro» e assevera ter sido contactado por Antero de Quental para assinar textos daquele pseudónimo (1), o que recusou. Na referida Nota, menciona que Cesário Verde lhe tece louvores à poesia de “Claridades do Sul”.

Esse sentido pós-romântico não se trata evidentemente, e apesar de uma certa herança de Herculano, dum tom funéreo e grandiloquente, nocturno, essa linguagem poética que o próprio Herculano e, antes dele, Bocage, foram buscar a Young e às suas “Nigths”.

Assim, desde o início da sua obra poética, Gomes Leal revela uma curiosa tendência heteróclita. Para essa tendência contribuem, se dúvida, os modelos do romantismo português, paralelamente a modelos estrangeiros, à frente dos quais está Baudelaire.

As marcas de Herculano, também já referidas, no respeitante aos primeiros poemas de Gomes Leal e que se exprimem, em termos de grande exaltação lírica, no folheto que lhe dedica, quando da sua morte: “À memória de Alexandre Herculano (Preito à memória do grande escritor, por ocasião do seu óbito em 13 de Setembro de 1877)”.

Gomes Leal reúne Garrett e Herculano num mesmo preito patriótico, em 1897, num texto em poesia, bastante polémico: “O estrangeiro vampiro. Carta a El-Rei D. Carlos I”.

A perspectiva do poeta enquanto ser incompreendido e infeliz surge em vários textos de Gomes Leal, composições poéticas em que o sujeito lírico se assume como alguém singularmente distante do comum dos mortais. Não se distanciando da visão romântica do poeta, Gomes Leal define-se como um génio inadaptado à sociedade, num misticismo visionário. Inúmeros são os exemplos desta perspectiva do “poeta proscrito e infeliz”, como “Soneto dum poeta morto”, “Aquele Sábio”, “El Desdichado” e “Noites de Chuva”de “Claridades do Sul”.

A filiação de Gomes Leal em Baudelaire é um dos tópicos mais tratados, porque o poeta português se inspirou no mestre das correspondências. De facto, Gomes Leal trabalha com mestria a ideia das “correspondances” do romântico francês nos quatro sonetos de “Claridades do Sul” intitulados “O Visionário ou Som e Cor”.

A partir de “Claridades do Sul”, o sentido heteróclito da poesia de Gomes Leal, quer quanto às múltiplas influências estrangeiras, com predominância para o modelo de Baudelaire assim como a sua visão de radicada na cultura portuguesa mas de que e o poeta depende essencialmente. Só se poderá compreender com uma análise específica da sua relação com os principais representantes da “Geração de 70” e, muito em especial, com a poesia de Antero de Quental.

Num curioso artigo publicado em «O Século» em 1881, Gomes Leal escreve sobre “Os Sonetos” de Antero de Quental: “A nós, só nos recorda os tercetos de Dante, (...), o “Sonho” de Byron, o “Corvo” de Edgar Poe, o “Livro de um fumador de ópio” de De Quincey e os terríveis tercetos de bronze (..) que se chamam as “Trevas” de Teófilo Gauthier”

Deve aqui acrescentar-se um outro modelo fundamental para a Geração de 70: Vítor Hugo e, sobretudo, a sua visão panteísta.

Através da referida influência de Antero, para quem “Les Châtiments” (1853) foram de uma importância relevante, este foi um ponto de partida para muitos dos poemas visionários e misticamente sociais de Gomes Leal.

Outra característica deste poeta, do final do século, prende-se com a preocupação que manifesta em relação aos seus leitores, nomeadamente na Nota à primeira edição e acrescentada na segunda edição de“Claridades do Sul” (1901). Aí debruça-se sobre a tarefa do escritor explicitando que a este compete“trabalhar a sua ideia, lapidá-la, poli-la, desenvolvê-la, facetá-la, de maneira que ela seja como um grande elo em que se vão encatenar um rosário luminoso doutras novas, e que ela saia transformada desse vasto laboratório intelectual, por um processo misterioso semelhante ao que dá a Natureza, transformando da lagarta a borboleta, do carvão o diamante, e da ostra doente a pérola.”

Gomes Leal é considerado um precursor do Modernismo Português, tendo sido referido por Fernando Pessoa como um dos seus mestres. Este dedica-lhe o soneto “Gomes Leal”, publicado pela Ática na edição das Obras Completas de Fernando Pessoa, em 1967.

Gomes Leal

Caricatura

Respondendo ao Inquérito Literário organizado por Boavida Portugal (realizado entre Setembro e Dezembro de 1912 e publicado em 1915), Gomes Leal afirma: “Em mim há três coisas: o poeta popular e de combate, nas sátiras e panfletos; o poeta do sonho e do mistério, na Nevrose Nocturna, nas Claridades do Sul, na Lua morta e na Mulher de Luto; e o poeta místico, na História de Jesus, na Senhora da Melancolia e no segundo Anti-Cristo.”

No número 2 da «ABC – Revista portuguesa» (22 de Julho de 1920), sob o título “O grande poeta Gomes Leal faz a sua biografia ao A B C, publica o soneto autobiográfico”, que transcrevemos, antecedido do seguinte texto:

“Gomes Leal, o poeta ilustre, que é uma glória nacional, quis dar ao A B C uma impressão da sua vida, da sua acção, das suas lutas. Em vez duma entrevista foram aos seus versos lapidares que chegaram a explicar como se passou uma infância, uma velhice e como a velhice chegou com as suas dores a focar essa cabeça coroada de louros. Só Gomes Leal poderia definir o que A B C desejava saber: a vida do primeiro poeta português.”

Outr’ora, outr’ora, em épocas passadas,
Tive uma santa Mãe de ideias maneiras,
Um recto Pai de barbas prateadas,
Tive prédios, jardins, fontes, roseiras.


Nos colégios, nas aulas, nas bancadas,

Não quebrei bancos, não parti carteiras;
Fiz bons exames, contas, taboadas,
Mais tarde amei patrícias feiticeiras.



Fui amigo do Eça e do Ramalho,

João de Deus, mais do excêntrico Fialho,
E tive que emigrar para o estrangeiro.



Chorei, gemi! Qual Dante nas estradas!

E ao regressar, por causas avanças,
- fui por três vezes parar ao Limoeiro.



Com este artigo, ainda que um pouco longo, tentei estabelecer a ligação dos valores que triunfaram na “Questão Coimbrã” e o despontar de novos ideais que se iriam impor na transição do século XIX para o século XX.
Desta análise ressalta um outro aspecto – o definitivo inter-relacionamento do pensamento nas diversas culturas europeias.

Saudações bibliófilas.



Bibliografia activa (alguns títulos):

O Tributo do Sangue (1873)
A Canalha (1873)
Claridades do sul (1875) (2)A Fome de Camões: Poema em 4 cantos (1880) (2)A Traição (1881)
O Renegado a António Rodrigues Sampaio carta ao Velho Pamphletario sobre a perseguição da imprensa(1881) (2)A morte do athleta (1883) (2)História de Jesus para as Criancinhas Lerem (1883)
Troça à Inglaterra (1890)
A Senhora da Melancolia (1910)


Bibliografia passiva:

Álvaro Manuel Machado – “Gomes Leal, Baudelaire e o Pós-Romantismo Finissecular”, in Intercâmbio, publicação anual do Instituto de Estudos Franceses da Universidade do Porto, 1992
Álvaro Manuel Machado – Poesia Romântica Portuguesa, Lisboa, ICALP, 1982
Eugénio Lisboa (Coord.) – Dicionário Cronológico de Autores Portugueses. Mem Martins, Publicações Europa-América / IPLL, [1990]. Vol. II, pp.311-313
Francisco da Cunha Leão e Alexandre O’Neill – Gomes Leal, Antologia Poética, Lisboa, Guimarães editores, 1959
Gomes Monteiro – O Drama de Gomes Leal. Com inéditos do poeta, Lisboa, editora Minerva, s/d
José Carlos Seabra Pereira – Decadentismo e Simbolismo na Poesia Portuguesa, Coimbra, Centro de Estudos Românticos, 1975
Ladislau Batalha – Gomes Leal na Intimidade, Lisboa, Lisboa Peninsular editora, 1933
Vitorino Nemésio – Destino de Gomes Leal, Lisboa, Bertrand, s/d


(1) Viria a ser criado por Antero de Quental, Eça de Queirós e Jaime Batalha Reis, a partir de 1869, na «Revolução de Setembro»
(2) acesso ao eBook do «Projecto Gutenberg»