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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Enrique Dans - A encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas




LEITURAS MARGINAIS

O PAPA LEÃO XIV ENTENDE A IA COMO PODER. ELE TEM RAZÃO. AGORA, DEVE IDENTIFICAR OS ATORES QUE A EXERCEM

Enrique Dans, 
Medium. Revisão: O’Lima.



A primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, é inteiramente dedicada à IA e às suas consequências para a humanidade. Publicada a 25 de maio, por ocasião do 135.º aniversário da Rerum Novarum de Leão XIII sobre o capital e o trabalho, aprofunda-se muito mais do que a grande maioria das declarações empresariais sobre a ética da IA e é muito mais honesta do que muitos livros brancos governamentais que evitam desafiar as grandes empresas tecnológicas.

A encíclica está certa no essencial: a IA não é apenas mais uma tecnologia, uma ferramenta neutra que podemos avaliar exclusivamente pela sua eficiência, precisão ou capacidade de reduzir custos. É uma infraestrutura de poder. Ela decide o que vemos, o que lemos, que empregos desaparecem, que decisões são automatizadas, que formas de vigilância são normalizadas e que partes da realidade partilhada acabam por se transformar em ruído, polarização ou espetáculo. Como resume a Wired, o Papa entende a IA como uma camada invisível que atravessa o trabalho, a informação e as decisões coletivas. Até aqui, tudo bem.

O problema é que, quando a análise deveria transformar-se numa acusação, não são mencionados nomes. O Papa destaca a concentração de poder, mas não identifica quem o concentra. Fala de plataformas, mas evita nomeá-las. Aborda as lógicas de mercado, mas não identifica as empresas que transformaram essas lógicas numa forma de governo privado sobre as nossas vidas. E isso não é um problema teológico, é uma decisão política. É uma encíclica que fala em generalidades e no abstrato.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

António Rodrigues - A estupidez da inteligência artificial

O mundo que se conta a partir do que se diz.

 * António Rodrigues

8 de Dezembro de 2022

 “O problema não é só o de que a maioria de nós luta para conseguir viver com o salário médio, mas o facto de o trabalho incansável nos ser apresentado como uma virtude em si mesmo, independentemente dos rendimentos” Matthew Neale, jornalista inglês

A inteligência da desigualdade

É o furor da semana no domínio dos avanços tecnológicos, um programa de inteligência artificial (IA) que consegue escrever ensaios, notícias, criar histórias ou poesia a partir das sugestões dos utilizadores. Não é o primeiro programa do género, mas os avanços demonstrados pelo ChatGPT deixam antever que muitas tarefas básicas de escrita passarão a ser feitas por máquinas num futuro não muito distante.

O entusiasmo infantil com que olhamos para estes novos desenvolvimentos de IA não esconde que, depois do divertimento de experimentar, nos comece a amargar a boca pelas consequências do seu impacto no futuro. E não se trata apenas de questões éticas ou existenciais à Blade Runner, imaginando uma qualquer revolta de autómatos angustiados com a mortalidade.

Tem mais que ver com o impacto da máquina no mercado laboral. O parafuso que Charlie Chaplin apertava em Tempos Modernos ou a mercadoria que um trabalhador chinês embala em versão autómato em longas jornadas de fastidioso trabalho podem passar a ser feitas por máquinas, mas o que acontece a esses trabalhadores dispensados? São despedidos? Reciclados? Rejeitados?

Como lembra o professor Bernardo Guimarães na Folha de S. Paulo, as inovações tecnológicas provocam efeitos na sociedade como um todo. Permitem produzir mais ou trabalhar menos (ou um conjunto dos dois), mas também “afectam o valor de mercado das diferentes ocupações”, ao tornar “menos valiosos trabalhos com remuneração menor e mais valiosos os trabalhos mais especializados”. E esse tem sido sempre “um factor-chave” para o aumento da desigualdade nos países mais desenvolvidos.

O Peru aboliu a escravatura há 168 anos; porém, grande parte dos peruanos sobrevive como se o conceito ainda existisse. Segundo o director da organização não governamental Capital Humano y Social, Ricardo Valdés, a percentagem de trabalhadores sem contrato no Peru anda à volta de 75% e em certas zonas do país chega aos 90%.

Esta informalidade económica, em que os direitos dos trabalhadores são grandemente negados ou ignorados (mesmo pelos próprios: de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos, citado pela Swiss Info, 54% da população não está familiarizada com o conceito de trabalho forçado), em que a precariedade laboral joga a favor de quem a multiplica e contra quem a divide, esvai-se a dignidade do ser humano com a cumplicidade do Estado.

Mais de 3,4 milhões de trabalhadores peruanos declararam que já foram obrigados a trabalhos forçados, mas o Ministério Público regista apenas 25 casos de 2017 a 2020 e ainda culpa as vítimas por não denunciarem os crimes.

Mesmo que o próprio ministro do Trabalho, Alejandro Salas, na segunda-feira, no discurso de abertura de um encontro sindical, a que a agência de notícias espanhola EFE assistiu e a Swiss Info reproduziu, mostre vontade em “lutar contra este flagelo de trabalho forçado”, os números da informalidade são tão avassaladores no Peru que retiram peso às palavras.

 “Aqui temos um assunto de dignidade do ser humano, um assunto em que as liberdades do ser humano estão expostas e temos de fazer alguma coisa como sociedade e envolvermo-nos todos”, disse o ministro, que, ao incluir toda a gente, “como sociedade”, se encarregou, ao mesmo tempo, de tornar o esforço épico e generalizado e menorizar a culpa do Estado na sua manutenção.

Em 2016, Salomé Lamas, no seu documentário El Dorado XXI, filmou os mineiros de ouro de La Rinconada que a 5100 metros de altitude na região andina peruana trabalham seis dias em troco de nada, nas condições climatéricas mais adversas para no sétimo poderem ficar com o ouro que eventualmente encontrarem.

Oito horas

Quase 140 anos passados desde que o sindicalista inglês Tom Mann reinventou a jornada de trabalho que isto não há maneira de melhorar. Prometeram-nos (e continuam a prometer) uma revolução tecnológica que tornaria a vida do ser humano mais prazenteira, permitindo mais horas de lazer e menos preocupações e chegámos a este século XXI com a maioria ainda a praticar jornadas laborais de oito horas ou mais.

As 35 horas semanais em França ainda são mal vistas, mesmo agora que já se começam a dar os primeiros passos para a semana das 32 horas em alguns países, com apenas quatro dias de trabalho.

Quando as oito horas laborais, oito horas de descanso e oito horas para fazer o que nos dá na real veneta, defendidas por Mann, se tornam hoje incomportáveis para muita gente, a braços com a diminuição do valor do trabalho e o aumento do custo de vida, sentimos que nos trocaram as voltas. O capitalismo, que nos vendeu o tal dito “sonho” americano do mata-te a trabalhar que terás a recompensa (escondido sob a capa da busca do eterno progresso), vem paulatinamente diminuindo o valor do trabalho e multiplicando fortunas dos que mandam trabalhar.

Como refere Matthew Neale, no Independent, “o aumento do número de pessoas com segundos e terceiros empregos, ou mesmo a tirar sabáticas anuais para conseguir trabalhar mais, parece sugerir que alguma coisa, em determinado momento, correu horrivelmente mal”.

E a pandemia, que acentuou o teletrabalho, não veio ajudar em nada, ao diluir as fronteiras entre a casa e o trabalho e o trabalho é como o eucalipto, seca tudo à sua volta e potencia a (auto)combustão – porque, mesmo com tanto trabalho, nunca nos livramos da sensação que ficou algo por fazer, que deveríamos ter feito mais, que aqui ou ali cedemos à procrastinação. E daí vem a culpa e o eterno mal-estar físico e mental.

Amanhã, tenho 15 minutos para ti

As aplicações para gerir a nossa vida tornaram-se tão omnipresentes que o sector deverá valer mais de 100 mil milhões de euros em 2027, escreve o Brussels Times. Com o tempo a acelerar à frente dos nossos olhos e a quantidade de ofertas que se nos apresentam, o ser humano do século XXI, incapaz de estar sem fazer nada, recorre à tecnologia para maximizar o seu horário e fugir à angústia de não conseguir fazer tudo. E mesmo assim queda curto.

 “A gestão do tempo não é a solução, na verdade é parte do problema”, escreve o psicólogo empresarial Tony Crabbe no seu livro Busy: How to Thrive in a World of Too Much, citado pelo diário belga em língua inglesa.

ocupação dos minutos, não visa ajudar-nos a respirar, beber descansado um café, caminhar descalço na relva, fechar os olhos e não pensar em nada. Na verdade, poupamos tempo numas tarefas para arranjar tempo para encaixar outras.

E o mais incrível é que, se calhar por influência dessas aplicações eficientes, tudo se horizontaliza e na mesma dimensionalidade da nossa agenda de tarefas diárias uma reunião de trabalho, a compra de nabos na mercearia, a aula de ioga, o encontro com amigos, o filme na Netflix e o beijo aos pais se equiparam no mesmo nível burocrático-existencial. Como num discurso mental próprio de auto-ajuda, são tudo fragmentos do nosso enriquecimento pessoal.

A auto-ajuda, o empreendedorismo, “o ser capaz de fazer tudo desde que uma pessoa se esforce”, quando transformados em filosofia de vida tornam-se obsessões que podem fazer mais mal do que bem. E não deixam de ser ferramentas na mão do mercado, um deus ex machina do ateísmo capitalista: nunca descanses, amanhã tenho 15 minutos para ti.


segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Desigualdade nos EUA é a maior desde a Grande Depressão

A desigualdade econômica nos Estados Unidos alcançou o nível mais elevado desde aquele que ficou conhecido como o mais maldito dos anos: 1929. Nas principais economias dos países de língua inglesa as desigualdades de renda alcançaram extremos que não eram vistos desde a era de “O Grande Gatsby”.

Por John Plender, para o Financial Times

De forma bem semelhante ao que ocorre nesta década, os anos 1920 foram um período de vigoroso aumento dos lucros corporativos e do endividamento familiar. Nadando em dinheiro fácil, Wall Street foi fisgada por aquilo que o economista J.K. Galbraith, no seu original trabalho subseqüente sobre o período - “The Great Crash” (”O Grande Crash”) -, chamou de “the magic of leverage” (”a mágica da alavancagem”): a capacidade de elevar os lucros pegando dinheiro emprestado.*

As empresas de investimentos forneceram o veículo para este carrossel financeiro, no qual uma destas empresas “bancava” uma outra, que por sua vez fazia o mesmo com uma próxima. Esta multiplicação embaralhada da assunção de riscos traz uma semelhança notável com a fragmentação de riscos nos atuais mercados de crédito baseados em drásticas alavancagens.

Na década de 1930, isso terminou com a bancarrota de bancos e a Grande Depressão. Agora, após décadas de “financialização” nos Estados Unidos e outras economias anglófonas, por meio da qual os serviços financeiros elevaram a sua fatia do produto interno bruto, os bancos estão sendo resgatados - com o uso de dinheiro público - na tentativa de garantir que a mesma coisa não volte a acontecer.

Sob uma perspectiva política, o aspecto notável da era de mercado livre e de desigualdades que teve início na década de 1980 é a exigüidade de reações contra a estagnação dos rendimentos dos cidadãos comuns em uma parcela tão grande da economia do mundo desenvolvido. Mas há sinais de que a mistura de políticas e circunstâncias econômicas que proporcionaram um prolongado laisser-passer aos ricos e ao empresariado está chegando ao fim.

Este é um território potencialmente perigoso. Porque, conforme argumentou Bill Gross, diretor-gerente do Pimco, o maior fundo de títulos do mundo: “Quando os frutos do trabalho da sociedade tornam-se mal distribuídos, quando os ricos ficam mais ricos e as classes média e baixa lutam para manter a cabeça acima da linha d’água, conforme ocorre nitidamente nos dias de hoje, o sistema acaba desabando. Os diversos barcos não ascendem de forma conjunta com a maré; o centro é incapaz de se sustentar”.

A questão é determinar o que acontecerá com a criação de riquezas, as avaliações do mercado de ações e o crescimento econômico se, conforme parece cada vez mais provável, houver uma redução drástica da tolerância popular em relação à desigualdade econômica e àquilo que é chamado genericamente de modelo de capitalismo de livre mercado.

O ponto inicial para qualquer análise desta questão é inevitavelmente os Estados Unidos, onde uma combinação de recessão, crise financeira e eleição presidencial trouxe várias das questões para a frente principal do debate político.

Indicadores da desigualdade

Um dos maiores indicadores da desigualdade é o chamado coeficiente Gini. O número do Departamento do Censo dos Estados Unidos para este índice em 2005 foi, de acordo com Gary Burtless, da Brookings Institution, o maior já registrado, o que significa a existência de extrema desigualdade. Uma análise dos números do Departamento Congressual do Orçamento por Jared Bernsteins do Instituto de Política Econômica aponta para uma direção similar. Entre 1979 e 2005 a renda, antes do pagamento dos impostos, dos domicílios mais pobres aumentou 1,3% ao ano, e a da classe média cresceu 1% ao ano. Já a renda daqueles indivíduos que compõem o grupo dos 1% mais ricos aumentou 200% antes do desconto de impostos e, o mais surpreendente, 228% após os impostos.

O resultado desta distribuição desequilibrada do crescimento da renda foi que, em 2005, a renda média após o pagamento de impostos do grupo que compõem o quinto mais pobre da população era de US$ 15.300, a do quinto intermediário de US$ 50.200, enquanto a dos 1% mais ricos foi superior a US$ 1 milhão.

Vendo a coisa sob um outro ângulo, em 1979 a renda pós-impostos dos 1% mais ricos era oito vezes superior àquela das famílias de renda média, e 23 vezes maior do que a do quinto mais pobre da população. Já em 2005, essas proporções aumentaram respectivamente para 21 e 70 vezes. Esse processo atingiu o seu ponto extremo com as reduções de impostos promovidas pelo atual presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley, calcula que durante a expansão econômica de 2002 a 2006 o topo plutocrata da pirâmide, que corresponde a 1% da população, obteve quase três quartos do crescimento da renda.

Indicadores da riqueza, oriundos da Pesquisa de Finanças dos Consumidores feita pelo Federal Reserve (o Fed, o banco central dos Estados Unidos), são menos atualizados, mas o quadro oferecido é similar. A fatia da riqueza dos Estados Unidos detida pelo 1% dos domicílios que ocupa o topo da pirâmide, subiu continuamente de 20% em 1976 para 38% em 1998. A concentração de renda é mais extrema do que em qualquer outro país da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para o qual existem estatísticas disponíveis.

Desemprego

Embora alguns economistas questionem a integridade dos dados oficiais sobre a desigualdade, é difícil lançar dúvidas sobre esta tendência ampla percebida no decorrer do tempo - e embora as causas do alto nível de desigualdade de renda ainda sejam objetos de debates, há pouca dúvida de que a globalização contribuiu para este fenômeno. Em um ambiente cada vez menos sindicalizado, os trabalhadores norte-americanos foram alijados do mercado de trabalho global à medida que as fábricas transferiram a sua produção para países de baixo custo, como China, Índia e México.

Ao mesmo tempo, e mais importante, uma elite de indivíduos de altas rendas, especialmente em diretorias de finanças e conselhos administrativos em todo o país, experimentaram um aumento explosivo dos seus pagamentos, sendo que esses prêmios são cada vez mais oriundos das ações normais ou com opções de venda. Outras explicações incluem mudanças tecnológicas e o impacto da internacionalização dos mercados nos salários dos executivos mais bem pagos.

Os políticos ampliaram o fenômeno através do sistema federal de impostos. Da Grande Depressão até o início da década de 1980, o sistema tributário dos Estados Unidos favoreceu os trabalhadores de renda baixa ou média, em detrimento daqueles com altos rendimentos. Mas, a partir do governo Reagan, este padrão foi modificado.

Uma parcela desproporcional dos ganhos com renda, tanto sob os governos republicanos quanto sob os democratas, passou a ir para o bolso dos indivíduos de maior renda - uma política que foi apelidada pelo economista Paul Krugman de “Robin Hood às avessas”.

Desregulamentação

No mundo pós-Guerra Fria esta abordagem ficou evidente nas atitudes gerais dos mercados, das empresas e dos ricos. Após as políticas de desregulamentação dos governos de Ronald Reagan e de George H.W. Bush, o próprio democrata Bill Clinton revelou-se um conservador no campo fiscal. Embora no início do seu governo tivesse aumentado os impostos, ele depois reduziu a tributação sobre ganhos de capital de 28% para 20% e instaurou o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta).

No Reino Unido, onde economistas do Instituto de Estudos Fiscais identificaram uma tendência crescente de desigualdade de renda, que chegou a níveis históricos desde que os trabalhistas assumiram o poder em 1997, a questão não gerou tanta controvérsia. Quando era primeiro-ministro, Tony Blair declarou que garantir que o jogador de futebol David Beckham ganhasse menos não era uma das suas maiores ambições.

Peter Mandelson, um dos arquitetos do Novo Trabalhismo britânico, ficou famoso por ter observado que o partido sentia-se “intensamente tranqüilo quanto ao fato de certas pessoas ficarem escandalosamente ricas - contanto que estas pagassem os seus impostos”. Os dois desviaram-se do seu caminho político original para cortejar o empresariado, da mesma forma que Gordon Brown, quando o atual primeiro-ministro era chanceler do Tesouro Público.

Até mesmo em países de língua inglesa nos quais há uma cultura mais igualitária, esta tendência à desigualdade é real. No início do século 21, segundo Anthony Atkinson e Andrew Leigh, a parcela de renda dos 1% mais ricos da população australiana era maior do que em qualquer outro período desde a Guerra da Coréia.**

No Canadá, que permanece mais sindicalizado do que o seu vizinho, a onda de altos salários veio mais tarde, e foi mais concentrada do que nos Estados Unidos. Emmanuel Saez e Michael Veall vêem uma explicação para isto baseada no fenômeno da fuga de cérebros: a ameaça de migração de executivos e profissionais canadenses de alta qualificação para os Estados Unidos pode ter provocado esse surto.***

Políticas econômicas liberais pareceram atraentes para os políticos pragmáticos da esquerda moderada porque elas pareciam resultar em altos índices de crescimento econômico. Quanto aos ricos, eles contribuíram bastante para a arrecadação fiscal. Chris Watling, do Longview Economics, observa: “É evidente que com um número tão pequeno de trabalhadores dando uma contribuição tão importante para a arrecadação tributária, é da mais alta importância para o governo estabelecer políticas que não ameacem tal arrecadação. É desta forma que se entende a atual situação de um governo trabalhista no Reino Unido, que, há mais de dez anos no poder, não promoveu aumentos de impostos para os ricos, mas elevou significativamente a carga tributária sobre a classe média, sobremaneira através de impostos ocultos”.

Tolerância

Mas por que será que este longo período de desigualdade crescente e de rendas estagnadas tem sido tolerado pela maioria dos eleitores? A resposta é que em todos os grandes países de língua inglesa, o padrão de vida desvinculou-se da renda. Em um período de crescimento econômico estável e de baixa inflação, conhecido pelos economistas como “a grande moderação”, indivíduos de renda média e baixa contraem prontamente mais dívidas, enquanto devoram as suas poupanças.

Os preços ascendentes dos ativos, especialmente no mercado imobiliário, criaram uma sensação de aumento de riqueza, independentemente da renda. A renegociação das hipotecas durante o longo período de redução das taxas de juros proporcionou uma fonte de fundos conveniente através da utilização de equities para o financiamento do consumo crescente.

Subitamente todo esse quadro mudou e, com isso, o cálculo político. O colapso do mercado imobiliário norte-americano deixou um rastro de equities negativas. Para muitos, o custo de morar está aumentando mais do que os salários. As casas não podem mais ser utilizadas como cofres de dinheiro e as poupanças precisam ser reconstruídas. A “financialização” está dando marcha à ré, e o setor financeiro não é mais capaz de turbinar o crescimento econômico. Fora dos Estados Unidos este processo está menos avançado, mas a tendência é clara.

Tendo como pano de fundo um cenário econômico mais do que preocupante, a falta de correlação entre o desempenho das empresas e os rendimentos estratosféricos de certos indivíduos começa a irritar a população. Os exemplos de Stan O’Neal, do Merrill Lynch, e Chuck Prince, do Citigroup, que pareceram ter sido recompensados pelo fracasso, exacerbaram essa irritação. Em outras plagas, até mesmo quando tais prêmios são modestos segundo os padrões dos Estados Unidos, como no caso do pagamento de 760 mil libras esterlinas a Adam Applegarth, ex-diretor-executivo da Northern Rock, uma financiadora de hipotecas agora nas mãos do governo britânico, o fenômeno causa igual, ou maior, indignação.

Há também a raiva em relação a um sistema que permite que os banqueiros embolsem enormes bônus quando as finanças estão a pleno vapor, enquanto os contribuintes pagam a conta quando os bancos fracassam. O modelo de capitalismo anglo-americano baseado no mercado parece estar enodoado, e uma dúvida esquisita paira sobre o processo de livre mercado. As empresas mais uma vez enfrentam um problema de legitimidade, conforme aconteceu quando se apropriaram de recursos públicos após o colapso da Enron. O pacto implícito entre os negócios e a política está rompendo-se.

Eleições nos EUA

A eleição presidencial norte-americana revelou até que ponto o clima mudou. Na busca da indicação democrata, Hillary Clinton atacou estridentemente as companhias de petróleo, medicamentos e de seguro-saúde. Ela manifestou sérias reservas em relação ao Nafta, um legado embaraçoso do seu marido, e opõe-se à renovação dos cortes de impostos para os ricos, uma política instituída por George W. Bush. Barack Obama, que critica veementemente a desigualdade, vai um passo além em uma plataforma similar, ao pedir a elevação do limite de renda taxada destinada ao social security (a previdência social dos Estados Unidos). Grande parte da velha batalha retórica entre esquerda e direita está ressurgindo nesta campanha, trazendo consigo uma forte indicação de reversão, no campo dos democratas, para as políticas de velho estilo do tipo taxar e gastar.

Enquanto isso o governo do Reino Unido gerenciou mal a sua tentativa de extrair mais impostos de estrangeiros que não estão domiciliados no país com objetivos fiscais, enviando, desta forma, de forma involuntária, um sinal de que Londres não mais recebe de braços abertos os investidores estrangeiros. O tema subjacente foi a necessidade de elevar os impostos em um nicho fiscal apertado. Parece que as empresas serão os bodes expiatórios dessa modificação das regras tributárias.

Preocupações crescentes com a desigualdade foram ecoadas por um punhado de empresários do setor privado. Em um evento para arrecadação de verbas para a campanha de Hillary Clinton, em dezembro do ano passado, Warren Buffett, o guru dos investimentos e o homem mais rico do mundo, de acordo com a revista “Forbes”, manifestou preocupações quanto à desigualdade de renda e a um sistema tributário cujo caráter redistribuidor é insuficiente. No Reino Unido, Nicholar Ferguson, presidente do SVG Capital, que investe em private equity, provocou furor entre os seus colegas ao afirmar ser injusto que os executivos do ramo arquem com índices tributários inferiores aos das suas faxineiras.

Mudança real

Na verdade, esta reação contra a desigualdade não se restringe aos países de língua inglesa. Pelos padrões dos Estados Unidos ou do Reino Unido, a desigualdade no Japão é insignificante. Mas, não obstante, ela foi elemento central da crítica do Partido Democrático do Japão (PDJ) ao governo do Partido Liberal Democrata (PLD) na eleição de julho do ano passado, quando o PDJ conquistou a maioria das cadeiras no congresso japonês.

Cresce no Japão uma reação política contra o fluxo livre de capital global. No ano passado o governo ampliou, alegando motivos vinculados à segurança nacional, a lista de setores nos quais a participação acionária dos investidores estrangeiro acima de 10% em determinada companhia exige sanções regulatórias.

O medo dos predadores estrangeiros, sejam eles os fundos soberanos, os fundos de hedge ou companhias multinacionais, também ajuda a explicar uma recente declaração de Takao Kitabata, um alto burocrata do Ministro da Economia, Comércio e Indústria. Kitabata afirmou que as companhias japonesas precisam ser capazes de selecionar os seus acionistas porque tais pessoas são “instáveis, irresponsáveis e gananciosas”. Enquanto isso o governo japonês nada fez para impedir uma inciativa das empresas do país de adotar defesas do tipo “pílula de veneno” para impedir as aquisições por empresas estrangeiras.

Na Alemanha, onde a filosofia igualitária também é forte, o relacionamento do governo liderado pelos democratas-cristãos com as empresas também passou por uma reviravolta. Quando na oposição a chanceler Angela Merkel era uma aguerrida defensora do empresariado, chegando até mesmo a ter defendido Klaus Esser, o ex-diretor do grupo de telecomunicações Mannesmann, que foi condenado por auferir um lucro multimilionário com a venda da companhia para a britânica Vodafone. Ela também criticava bastante o velho sistema alemão de negociação salarial coletiva.

Mas ultimamente Merkel vem ameaçando o empresariado alemão com a imposição de salários mínimos em diversos setores caso as empresas descartem as negociações coletivas e empurrem os salários para baixo. Esta é uma resposta populista à pressão eleitoral. Além das suas inseguranças quanto ao salário, os eleitores vêem com preocupação as atividades de empresas estrangeiras de private equities e fundos de hedge. Agora os alemães estão furiosos devido à revelação de que líderes empresariais sonegaram impostos usando contas secretas em Liechtenstein. Tudo isto tem sido acompanhado de um debate matizado de protecionismo a respeito da ampliação dos investimentos estrangeiros.

Nem todos os países encaixam-se neste padrão. Mas a reação pública pode ser a mesma. Na França, o presidente Nicolas Sarkozy é bastante criticado pelo seu relacionamento estreito com empresários milionários. Ele está procurando implementar aquelas que, para os padrões franceses, são políticas econômicas bastante liberais, que, caso sejam bem-sucedidas, poderão aumentar a desigualdade. Mas em um país no qual os eleitores não simpatizam com o empresariado, ele poderá deparar-se com problemas como o escândalo comercial na Société Générale, e a negociata envolvendo o grupo aeroespacial franco-alemão EADS.

A recente proposta de Sarkozy de taxar as opções acionárias pode ser um indicador de que haverá pela frente políticas menos amigáveis para com os negócios.

O que está óbvio neste novo clima é que o protecionismo é uma ameaça mais intensa. Se as empresas forem incapazes de encontrar uma maneira de conter o excesso de pagamento aos seus executivos, a sua legitimidade será questionada e a política de extrair mais impostos do setor corporativo irá se tornar mais atraente. A redistribuição de renda será uma pauta mais importante na agenda política. A reação reguladora à crise de crédito poderá também ser mais extremada e menos ponderada do que normalmente seria, ecoando a experiência da década de 1930, e da lei pós-Enron, Sarbanes-Oxley.

Não se sabe se os mercados detectaram este oceano de mudanças. Até que os países de língua inglesa superem a crise financeira e imobiliária, será impossível afirmar se a mudança de clima é transitória ou se é algo pior. Mas a mudança é real.

___________

*”The Great Crash”, 1929 (Hamish Hamilton, 1955) **”The Distribution of Top Incomes in Australia”. Australian National University Centre for Economic Policy Research discussion paper No 514 ***”The Evolution of High Incomes in Canada”, 1920-2000, NBER Working Paper No 9607

Tradução: UOL

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in vermelho - 12 DE ABRIL DE 2008 - 22h00

sábado, 2 de maio de 2020

Filipe Chinita - eis o tele... trabalho

* Filipe Chinita

eis

o tele... trabalho

na própria.casa

e
a todo o tempo

sem horas

e
sem colectivo
.
tudo!
o
que
o capital

'nunca' sonhou...
______________
ou
da liberdade!

de vergar

a mola

da espinha

servil
.
fj

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Pedro Tadeu - Ai "Notre Dame"!... o trabalho está a matar-nos?



17.4.19

«Ao longo de mais de um século um grande estaleiro juntou, seis vezes por semana, uma média diária de 300 homens. Alguns começaram, ainda crianças, a trabalhar ali. Muitos deles também morreram naquele local, sem conhecerem mais nada deste mundo.

Eles eram artífices especializados num ofício, ensinado em segredo por um mestre. Eles foram exclusivos toda a vida, dedicada, apenas, a um monumento ao segredo da conceção divina do filho de Deus.

Lentamente, penosamente, ergueram pedra a pedra, fundiram ferro a ferro, juntaram tábua a tábua, chumbaram vidro a vidro, "toc toc!", "tac tac!", "tic tic!" e construíram, penosamente, sabiamente, à mão, com ferramentas de artesão, os gigantescos corpos principais da Catedral de
Notre Dame de Paris.

Há 850 anos trabalhava-se enquanto houvesse luz, do nascer ao pôr-do-sol. Tal como a catequese cristã afirma ter sido um direito do Criador do mundo, os criadores da Catedral de Notre Dame descansaram aos domingos. E, ao longo de cada ano, aproveitaram uma quarentena de feriados para honrar santos, reverenciar Jesus ou Maria e armazenar no coração algum descanso retemperador.

Durante um dia de trabalho cada homem tinha direito a parar uma hora para almoçar e, a meio da tarde, a outros 15 minutos para beber... de preferência vinho, a bebida da falsa força.

O pagamento do salário, para quem tinha direito a ele, era diário e ninguém concebia remunerações por feriados, folgas ou férias.

A vida de um construtor de Notre Dame, no século XII ou no século XIII, era, para qualquer um de nós, cidadãos ocidentais deste mundo do século XXI, insuportável.

Mas ser trabalhador na construção de Notre Dame nos séculos XII ou XIII era, simultaneamente, uma das melhores vidas possíveis dos homens que Deus teve a graça de não fazer nascer como filhos das classes superiores da sociedade feudal e cristã.

Foram milhares os trabalhadores que ergueram a Catedral de Notre Dame de Paris. Um incêndio, talvez atiçado por um fósforo, um cigarro, uma faísca, algo milésimo, mínimo, minúsculo, arriscou esta segunda-feira destruir uma enorme obra da Humanidade.

A vitória dos bombeiros que salvaram a estrutura principal de Notre Dame salvou a memória de um enorme sacrifício de vidas, que a ignorância sobre o real número de mortos sucumbidos às falhas da construção ou a ausência de contagem de almas condenadas a uma existência confinada à pequena Île de la Cité, nos anos de 1163 a 1267, escamoteia da maior parte dos livros de História.

Todos os grandes edifícios construídos pela Humanidade, das pirâmides do Antigo Egipto aos arranha-céus de Nova Iorque, do Mosteiro dos Jerónimos ao Convento de Mafra, resultaram da imposição do sacrifício, da dedicação da vida, da inaceitável morte, do glorioso compromisso de milhões e milhões de trabalhadores.

Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, não morre apenas a memória da arte ou da engenharia que a germinaram. Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, falece também a memória do trabalho e desvanece um registo das etapas de progresso social que nos trouxeram até aqui.

E o que é o trabalho, hoje, aqui? É o trabalho com direitos, com horários, com pausas, com folgas, com salários, com férias pagas? Ou é um tempo em que as coisas parecem andar séculos para trás, até à época do trabalho quase escravo que ergueu Notre Dame?

Que tempo é este, que leva os jornais do século XXI a alertar: "O trabalho está a matar pessoas e ninguém se importa"?»

Gravura - Uma ilustração da Catedral de Notre Dame, no século XIX - litogravura de Nicolas Chapuy
Cartoon -  "Sadness", por Antonio Rodriguez 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Bee Wilson - A evolução natural na cozinha


COPY&PASTE

QUARTA-FEIRA, 5 DE DEZEMBRO DE 2012


A evolução natural na cozinha


por Thaís Serafini designer de produto e editora de conteúdo para a web, apaixonada por leituras, pesquisa e reflexões sobre design no cenário atual e em suas direções para o futuro. Tudo isso e mais algumas divagações estão disponíveis em seu blog Cataclisma Material.


Os armários e as gavetas da cozinha compõem um prato cheio para designers e apaixonados pelo assunto. Utensílios novos convivem com antigos, materiais diversos se misturam e funcionalidade quase sempre é a palavra de ordem. Como vocês já devem ter percebido nos meus posts por aqui, eu mesma adoro falar de objetos de cozinha, e por isso também achei super interessante o artigo da Época que compartilho.

O texto fala do Consider the fork, um livro recém-lançado nos Estados Unidos que trata da origem e do destino dos utensílios culinários desde a pré-história até os dias de hoje. Bee Wilson, uma historiadora de gastronomia, reúne muitos exemplos de objectos conhecidos e desconhecidos, antigos e novos, para comparar a evolução dos utensílios da cozinha com a evolução das espécies através da seleção natural. 





E, para finalizar, além dos gráficos interessantes acima, uma curiosidade: você sabe qual o utensílio de cozinha mais antigo que se tem registro - criado há cerca de 2 milhões de anos, antes mesmo da invenção do fogo? Talvez seja óbvio e mesmo surpreendente, mas estamos falando da faca! 

Imagens via

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Bee Wilson desvenda «A História da Invenção na Cozinha»







03-05-2013 às 13:16
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Bee Wilson desvenda «A História da Invenção na Cozinha»


Origem e evolução dos utensílios, a sua influência na textura, sabor e valor nutricional dos alimentos são o que oferece o livro «A História da Invenção na Cozinha», de Bee Wilson, editado pela Temas & Debates.

«Uma  colher  de  pau  – o  mais  fiel  e  adorável  dos  utensílios  de cozinha – parece ser o oposto da «tecnologia», na aceção mais geral desta palavra. Mas observemos  com atenção uma colher de  pau.  É  oval  ou  redonda?  Côncava  ou  rasa?  Talvez  o  cabo seja  muito   comprido,  para   que   a   nossa  mão   fique   mais protegida   de   uma   caçarola   quente?   Talvez   tenha   uma extremidade  bicuda  num  dos  lados,  para  chegar  aos  cantos  de uma caçarola?
Foram  precisas  inúmeras  invenções,  grandes  e  pequenas,  para chegar às bem equipadas cozinhas de que dispomos agora, onde a nossa amiga colher de pau de baixa tecnologia ombreia com misturadoras,  frigoríficos  e  micro-ondas.  Mas  a  história  da invenção humana na cozinha é quase desconhecida. Nesta obra conta-se como domesticámos o fogo e o gelo, como desenvolvemos  batedeiras,  colheres,  raladores,  espremedores, 
pilões  e  almofarizes,  como  usámos  mãos  e  dentes,  tudo  em nome de garantirmos o alimento diário. Há engenho inventivo oculto  nas  nossas  cozinhas  que  influencia  a  maneira  como cozinhamos e comemos. Este não é um livro sobre a tecnologia da   agricultura,   nem   acerca   da   tecnologia   da   cozinha   de restaurante.  Fala-nos  do  sustento  quotidiano  dos  lares  e  dos benefícios  (e  riscos)  que  os  diferentes  utensílios trouxeram  ao ato de cozinhar.»


sábado, 2 de julho de 2011

Poemas contra a "evidência" (3) - Brecht



Bertold Brecht



 .
Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas



Elogio da Dialéctica

A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nòs queremos nunca mais o alcançaremos

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nòs
De quem depende que ela acabe? Também de nòs
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aì que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã



Dificuldade de governar

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?





Nada é impossível de mudar 



Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

*****



Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis

   compiladas por  Luis Rodrigue




Charlot em "Tempos Modernos"


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Poemas contra a "evidência" (2)





Trabalhadores - Tarcíla

Vinicius de Moraes

Composição: Vinicius de Moraes
E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
..
Castigo Corporal - Debret (Brasik)
Ruy Mingas: Monangambé
Poema- António  Jacinto
            
                                                
Monangambé
Naquela roça grande
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;
Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo?
quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?

Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande
- ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras

- "Monangambéé...'"

António Jacinto (Poemas, 1961)
               

                       
NOTA:

Monangambé (O contratado) eram angolanos negros contratados para trabalhar nas roças dos brancos, na era colonial. Por vezes, em províncias de Angola bem distantes dos locais onde viviam. Deixavam as famílias para trás e iam ganhar a vida.


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