Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 5 de junho de 2026
Enrique Dans - A encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas
sexta-feira, 29 de maio de 2026
António Rodrigues - A estupidez da inteligência artificial
O mundo que se conta a partir do que se diz.
* António Rodrigues
8 de Dezembro de 2022
“O problema não é só o de que a maioria de nós
luta para conseguir viver com o salário médio, mas o facto de o trabalho
incansável nos ser apresentado como uma virtude em si mesmo, independentemente
dos rendimentos” Matthew Neale, jornalista inglês
A inteligência da desigualdade
É o furor da semana no domínio
dos avanços tecnológicos, um programa de inteligência artificial (IA) que
consegue escrever ensaios, notícias, criar histórias ou poesia a partir das
sugestões dos utilizadores. Não é o primeiro programa do género, mas os avanços
demonstrados pelo ChatGPT
deixam antever que muitas tarefas básicas de escrita passarão a ser feitas por
máquinas num futuro não muito distante.
O entusiasmo infantil com que
olhamos para estes novos desenvolvimentos de IA não esconde que, depois do
divertimento de experimentar, nos comece a amargar a boca pelas consequências
do seu impacto no futuro. E não se trata apenas de questões éticas ou existenciais
à Blade Runner, imaginando uma qualquer revolta de autómatos angustiados
com a mortalidade.
Tem mais que ver com o impacto da
máquina no mercado laboral. O parafuso que Charlie Chaplin apertava em Tempos
Modernos ou a mercadoria que um trabalhador chinês embala em versão
autómato em longas jornadas de fastidioso trabalho podem passar a ser feitas
por máquinas, mas o que acontece a esses trabalhadores dispensados? São
despedidos? Reciclados? Rejeitados?
Como lembra o professor Bernardo Guimarães na Folha de S.
Paulo, as inovações tecnológicas provocam efeitos na sociedade como um
todo. Permitem produzir mais ou trabalhar menos (ou um conjunto dos dois), mas
também “afectam o valor de mercado das diferentes ocupações”, ao tornar “menos
valiosos trabalhos com remuneração menor e mais valiosos os trabalhos mais
especializados”. E esse tem sido sempre “um factor-chave” para o aumento da
desigualdade nos países mais desenvolvidos.
O Peru aboliu a escravatura há
168 anos; porém, grande parte dos peruanos sobrevive como se o conceito ainda
existisse. Segundo o director da organização não governamental Capital Humano y
Social, Ricardo Valdés, a percentagem de trabalhadores sem contrato no Peru
anda à volta de 75% e em certas zonas do país chega aos 90%.
Esta informalidade económica, em
que os direitos dos trabalhadores são grandemente negados ou ignorados (mesmo
pelos próprios: de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos, citado pela Swiss Info, 54% da população não está familiarizada com o
conceito de trabalho forçado), em que a precariedade laboral joga a favor de
quem a multiplica e contra quem a divide, esvai-se a dignidade do ser humano
com a cumplicidade do Estado.
Mais de 3,4 milhões de
trabalhadores peruanos declararam que já foram obrigados a trabalhos forçados,
mas o Ministério Público regista apenas 25 casos de 2017 a 2020 e ainda culpa
as vítimas por não denunciarem os crimes.
Mesmo que o próprio ministro do
Trabalho, Alejandro Salas, na segunda-feira, no discurso de abertura de um
encontro sindical, a que a agência de notícias espanhola EFE assistiu e a Swiss
Info reproduziu, mostre vontade em “lutar contra este flagelo de trabalho
forçado”, os números da informalidade são tão avassaladores no Peru que retiram
peso às palavras.
“Aqui temos um assunto de dignidade do ser
humano, um assunto em que as liberdades do ser humano estão expostas e temos de
fazer alguma coisa como sociedade e envolvermo-nos todos”, disse o ministro,
que, ao incluir toda a gente, “como sociedade”, se encarregou, ao mesmo tempo,
de tornar o esforço épico e generalizado e menorizar a culpa do Estado na sua
manutenção.
Em 2016, Salomé Lamas, no seu documentário
El Dorado XXI, filmou os mineiros de ouro de La Rinconada que a 5100
metros de altitude na região andina peruana trabalham seis dias em troco de
nada, nas condições climatéricas mais adversas para no sétimo poderem ficar com
o ouro que eventualmente encontrarem.
Oito horas
Quase 140 anos passados desde que
o sindicalista inglês Tom Mann reinventou a jornada de trabalho que isto não há
maneira de melhorar. Prometeram-nos (e continuam a prometer) uma revolução
tecnológica que tornaria a vida do ser humano mais prazenteira, permitindo mais
horas de lazer e menos preocupações e chegámos a este século XXI com a maioria
ainda a praticar jornadas laborais de oito horas ou mais.
As 35 horas semanais em França
ainda são mal vistas, mesmo agora que já se começam a dar os primeiros passos
para a semana das 32
horas em alguns países, com apenas quatro dias de trabalho.
Quando as oito horas laborais,
oito horas de descanso e oito horas para fazer o que nos dá na real veneta,
defendidas por Mann, se tornam hoje incomportáveis para muita gente, a braços
com a diminuição do valor do trabalho e o aumento do custo de vida, sentimos
que nos trocaram as voltas. O capitalismo, que nos vendeu o tal dito “sonho”
americano do mata-te a trabalhar que terás a recompensa (escondido sob a capa
da busca do eterno progresso), vem paulatinamente diminuindo o valor do
trabalho e multiplicando fortunas dos que mandam trabalhar.
Como refere
Matthew Neale, no Independent, “o aumento do número de pessoas com
segundos e terceiros empregos, ou mesmo a tirar sabáticas anuais para conseguir
trabalhar mais, parece sugerir que alguma coisa, em determinado momento, correu
horrivelmente mal”.
E a pandemia, que acentuou o
teletrabalho, não veio ajudar em nada, ao diluir as fronteiras entre a casa e o
trabalho e o trabalho é como o eucalipto, seca tudo à sua volta e potencia a
(auto)combustão – porque, mesmo com tanto trabalho, nunca nos livramos da
sensação que ficou algo por fazer, que deveríamos ter feito mais, que aqui ou
ali cedemos à procrastinação. E daí vem a culpa e o eterno mal-estar físico e
mental.
Amanhã, tenho 15 minutos para
ti
As aplicações para gerir a nossa
vida tornaram-se tão omnipresentes que o sector deverá valer mais de 100 mil
milhões de euros em 2027, escreve o Brussels Times. Com o tempo a acelerar à
frente dos nossos olhos e a quantidade de ofertas que se nos apresentam, o ser
humano do século XXI, incapaz de estar sem fazer nada, recorre à tecnologia
para maximizar o seu horário e fugir à angústia de não conseguir fazer tudo. E
mesmo assim queda curto.
“A gestão do tempo não é a solução, na verdade
é parte do problema”, escreve o psicólogo empresarial Tony Crabbe no seu livro Busy:
How to Thrive in a World of Too Much, citado pelo diário belga em língua
inglesa.
ocupação dos minutos, não visa
ajudar-nos a respirar, beber descansado um café, caminhar descalço na relva,
fechar os olhos e não pensar em nada. Na verdade, poupamos tempo numas tarefas
para arranjar tempo para encaixar outras.
E o mais incrível é que, se
calhar por influência dessas aplicações eficientes, tudo se horizontaliza e na
mesma dimensionalidade da nossa agenda de tarefas diárias uma reunião de
trabalho, a compra de nabos na mercearia, a aula de ioga, o encontro com amigos,
o filme na Netflix e o beijo aos pais se equiparam no mesmo nível
burocrático-existencial. Como num discurso mental próprio de auto-ajuda, são
tudo fragmentos do nosso enriquecimento pessoal.
A auto-ajuda, o empreendedorismo,
“o ser capaz de fazer tudo desde que uma pessoa se esforce”, quando
transformados em filosofia de vida tornam-se obsessões que podem fazer mais mal
do que bem. E não deixam de ser ferramentas na mão do mercado, um deus ex
machina do ateísmo capitalista: nunca descanses, amanhã tenho 15 minutos
para ti.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2022
Desigualdade nos EUA é a maior desde a Grande Depressão
A desigualdade econômica nos Estados Unidos alcançou o nível mais elevado desde aquele que ficou conhecido como o mais maldito dos anos: 1929. Nas principais economias dos países de língua inglesa as desigualdades de renda alcançaram extremos que não eram vistos desde a era de “O Grande Gatsby”.
Por John Plender, para o Financial Times
De forma bem semelhante ao que ocorre nesta década, os anos 1920 foram um período de vigoroso aumento dos lucros corporativos e do endividamento familiar. Nadando em dinheiro fácil, Wall Street foi fisgada por aquilo que o economista J.K. Galbraith, no seu original trabalho subseqüente sobre o período - “The Great Crash” (”O Grande Crash”) -, chamou de “the magic of leverage” (”a mágica da alavancagem”): a capacidade de elevar os lucros pegando dinheiro emprestado.*
As empresas de investimentos forneceram o veículo para este carrossel financeiro, no qual uma destas empresas “bancava” uma outra, que por sua vez fazia o mesmo com uma próxima. Esta multiplicação embaralhada da assunção de riscos traz uma semelhança notável com a fragmentação de riscos nos atuais mercados de crédito baseados em drásticas alavancagens.
Na década de 1930, isso terminou com a bancarrota de bancos e a Grande Depressão. Agora, após décadas de “financialização” nos Estados Unidos e outras economias anglófonas, por meio da qual os serviços financeiros elevaram a sua fatia do produto interno bruto, os bancos estão sendo resgatados - com o uso de dinheiro público - na tentativa de garantir que a mesma coisa não volte a acontecer.
Sob uma perspectiva política, o aspecto notável da era de mercado livre e de desigualdades que teve início na década de 1980 é a exigüidade de reações contra a estagnação dos rendimentos dos cidadãos comuns em uma parcela tão grande da economia do mundo desenvolvido. Mas há sinais de que a mistura de políticas e circunstâncias econômicas que proporcionaram um prolongado laisser-passer aos ricos e ao empresariado está chegando ao fim.
Este é um território potencialmente perigoso. Porque, conforme argumentou Bill Gross, diretor-gerente do Pimco, o maior fundo de títulos do mundo: “Quando os frutos do trabalho da sociedade tornam-se mal distribuídos, quando os ricos ficam mais ricos e as classes média e baixa lutam para manter a cabeça acima da linha d’água, conforme ocorre nitidamente nos dias de hoje, o sistema acaba desabando. Os diversos barcos não ascendem de forma conjunta com a maré; o centro é incapaz de se sustentar”.
A questão é determinar o que acontecerá com a criação de riquezas, as avaliações do mercado de ações e o crescimento econômico se, conforme parece cada vez mais provável, houver uma redução drástica da tolerância popular em relação à desigualdade econômica e àquilo que é chamado genericamente de modelo de capitalismo de livre mercado.
O ponto inicial para qualquer análise desta questão é inevitavelmente os Estados Unidos, onde uma combinação de recessão, crise financeira e eleição presidencial trouxe várias das questões para a frente principal do debate político.
Indicadores da desigualdade
Um dos maiores indicadores da desigualdade é o chamado coeficiente Gini. O número do Departamento do Censo dos Estados Unidos para este índice em 2005 foi, de acordo com Gary Burtless, da Brookings Institution, o maior já registrado, o que significa a existência de extrema desigualdade. Uma análise dos números do Departamento Congressual do Orçamento por Jared Bernsteins do Instituto de Política Econômica aponta para uma direção similar. Entre 1979 e 2005 a renda, antes do pagamento dos impostos, dos domicílios mais pobres aumentou 1,3% ao ano, e a da classe média cresceu 1% ao ano. Já a renda daqueles indivíduos que compõem o grupo dos 1% mais ricos aumentou 200% antes do desconto de impostos e, o mais surpreendente, 228% após os impostos.
O resultado desta distribuição desequilibrada do crescimento da renda foi que, em 2005, a renda média após o pagamento de impostos do grupo que compõem o quinto mais pobre da população era de US$ 15.300, a do quinto intermediário de US$ 50.200, enquanto a dos 1% mais ricos foi superior a US$ 1 milhão.
Vendo a coisa sob um outro ângulo, em 1979 a renda pós-impostos dos 1% mais ricos era oito vezes superior àquela das famílias de renda média, e 23 vezes maior do que a do quinto mais pobre da população. Já em 2005, essas proporções aumentaram respectivamente para 21 e 70 vezes. Esse processo atingiu o seu ponto extremo com as reduções de impostos promovidas pelo atual presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley, calcula que durante a expansão econômica de 2002 a 2006 o topo plutocrata da pirâmide, que corresponde a 1% da população, obteve quase três quartos do crescimento da renda.
Indicadores da riqueza, oriundos da Pesquisa de Finanças dos Consumidores feita pelo Federal Reserve (o Fed, o banco central dos Estados Unidos), são menos atualizados, mas o quadro oferecido é similar. A fatia da riqueza dos Estados Unidos detida pelo 1% dos domicílios que ocupa o topo da pirâmide, subiu continuamente de 20% em 1976 para 38% em 1998. A concentração de renda é mais extrema do que em qualquer outro país da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para o qual existem estatísticas disponíveis.
Desemprego
Embora alguns economistas questionem a integridade dos dados oficiais sobre a desigualdade, é difícil lançar dúvidas sobre esta tendência ampla percebida no decorrer do tempo - e embora as causas do alto nível de desigualdade de renda ainda sejam objetos de debates, há pouca dúvida de que a globalização contribuiu para este fenômeno. Em um ambiente cada vez menos sindicalizado, os trabalhadores norte-americanos foram alijados do mercado de trabalho global à medida que as fábricas transferiram a sua produção para países de baixo custo, como China, Índia e México.
Ao mesmo tempo, e mais importante, uma elite de indivíduos de altas rendas, especialmente em diretorias de finanças e conselhos administrativos em todo o país, experimentaram um aumento explosivo dos seus pagamentos, sendo que esses prêmios são cada vez mais oriundos das ações normais ou com opções de venda. Outras explicações incluem mudanças tecnológicas e o impacto da internacionalização dos mercados nos salários dos executivos mais bem pagos.
Os políticos ampliaram o fenômeno através do sistema federal de impostos. Da Grande Depressão até o início da década de 1980, o sistema tributário dos Estados Unidos favoreceu os trabalhadores de renda baixa ou média, em detrimento daqueles com altos rendimentos. Mas, a partir do governo Reagan, este padrão foi modificado.
Uma parcela desproporcional dos ganhos com renda, tanto sob os governos republicanos quanto sob os democratas, passou a ir para o bolso dos indivíduos de maior renda - uma política que foi apelidada pelo economista Paul Krugman de “Robin Hood às avessas”.
Desregulamentação
No mundo pós-Guerra Fria esta abordagem ficou evidente nas atitudes gerais dos mercados, das empresas e dos ricos. Após as políticas de desregulamentação dos governos de Ronald Reagan e de George H.W. Bush, o próprio democrata Bill Clinton revelou-se um conservador no campo fiscal. Embora no início do seu governo tivesse aumentado os impostos, ele depois reduziu a tributação sobre ganhos de capital de 28% para 20% e instaurou o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta).
No Reino Unido, onde economistas do Instituto de Estudos Fiscais identificaram uma tendência crescente de desigualdade de renda, que chegou a níveis históricos desde que os trabalhistas assumiram o poder em 1997, a questão não gerou tanta controvérsia. Quando era primeiro-ministro, Tony Blair declarou que garantir que o jogador de futebol David Beckham ganhasse menos não era uma das suas maiores ambições.
Peter Mandelson, um dos arquitetos do Novo Trabalhismo britânico, ficou famoso por ter observado que o partido sentia-se “intensamente tranqüilo quanto ao fato de certas pessoas ficarem escandalosamente ricas - contanto que estas pagassem os seus impostos”. Os dois desviaram-se do seu caminho político original para cortejar o empresariado, da mesma forma que Gordon Brown, quando o atual primeiro-ministro era chanceler do Tesouro Público.
Até mesmo em países de língua inglesa nos quais há uma cultura mais igualitária, esta tendência à desigualdade é real. No início do século 21, segundo Anthony Atkinson e Andrew Leigh, a parcela de renda dos 1% mais ricos da população australiana era maior do que em qualquer outro período desde a Guerra da Coréia.**
No Canadá, que permanece mais sindicalizado do que o seu vizinho, a onda de altos salários veio mais tarde, e foi mais concentrada do que nos Estados Unidos. Emmanuel Saez e Michael Veall vêem uma explicação para isto baseada no fenômeno da fuga de cérebros: a ameaça de migração de executivos e profissionais canadenses de alta qualificação para os Estados Unidos pode ter provocado esse surto.***
Políticas econômicas liberais pareceram atraentes para os políticos pragmáticos da esquerda moderada porque elas pareciam resultar em altos índices de crescimento econômico. Quanto aos ricos, eles contribuíram bastante para a arrecadação fiscal. Chris Watling, do Longview Economics, observa: “É evidente que com um número tão pequeno de trabalhadores dando uma contribuição tão importante para a arrecadação tributária, é da mais alta importância para o governo estabelecer políticas que não ameacem tal arrecadação. É desta forma que se entende a atual situação de um governo trabalhista no Reino Unido, que, há mais de dez anos no poder, não promoveu aumentos de impostos para os ricos, mas elevou significativamente a carga tributária sobre a classe média, sobremaneira através de impostos ocultos”.
Tolerância
Mas por que será que este longo período de desigualdade crescente e de rendas estagnadas tem sido tolerado pela maioria dos eleitores? A resposta é que em todos os grandes países de língua inglesa, o padrão de vida desvinculou-se da renda. Em um período de crescimento econômico estável e de baixa inflação, conhecido pelos economistas como “a grande moderação”, indivíduos de renda média e baixa contraem prontamente mais dívidas, enquanto devoram as suas poupanças.
Os preços ascendentes dos ativos, especialmente no mercado imobiliário, criaram uma sensação de aumento de riqueza, independentemente da renda. A renegociação das hipotecas durante o longo período de redução das taxas de juros proporcionou uma fonte de fundos conveniente através da utilização de equities para o financiamento do consumo crescente.
Subitamente todo esse quadro mudou e, com isso, o cálculo político. O colapso do mercado imobiliário norte-americano deixou um rastro de equities negativas. Para muitos, o custo de morar está aumentando mais do que os salários. As casas não podem mais ser utilizadas como cofres de dinheiro e as poupanças precisam ser reconstruídas. A “financialização” está dando marcha à ré, e o setor financeiro não é mais capaz de turbinar o crescimento econômico. Fora dos Estados Unidos este processo está menos avançado, mas a tendência é clara.
Tendo como pano de fundo um cenário econômico mais do que preocupante, a falta de correlação entre o desempenho das empresas e os rendimentos estratosféricos de certos indivíduos começa a irritar a população. Os exemplos de Stan O’Neal, do Merrill Lynch, e Chuck Prince, do Citigroup, que pareceram ter sido recompensados pelo fracasso, exacerbaram essa irritação. Em outras plagas, até mesmo quando tais prêmios são modestos segundo os padrões dos Estados Unidos, como no caso do pagamento de 760 mil libras esterlinas a Adam Applegarth, ex-diretor-executivo da Northern Rock, uma financiadora de hipotecas agora nas mãos do governo britânico, o fenômeno causa igual, ou maior, indignação.
Há também a raiva em relação a um sistema que permite que os banqueiros embolsem enormes bônus quando as finanças estão a pleno vapor, enquanto os contribuintes pagam a conta quando os bancos fracassam. O modelo de capitalismo anglo-americano baseado no mercado parece estar enodoado, e uma dúvida esquisita paira sobre o processo de livre mercado. As empresas mais uma vez enfrentam um problema de legitimidade, conforme aconteceu quando se apropriaram de recursos públicos após o colapso da Enron. O pacto implícito entre os negócios e a política está rompendo-se.
Eleições nos EUA
A eleição presidencial norte-americana revelou até que ponto o clima mudou. Na busca da indicação democrata, Hillary Clinton atacou estridentemente as companhias de petróleo, medicamentos e de seguro-saúde. Ela manifestou sérias reservas em relação ao Nafta, um legado embaraçoso do seu marido, e opõe-se à renovação dos cortes de impostos para os ricos, uma política instituída por George W. Bush. Barack Obama, que critica veementemente a desigualdade, vai um passo além em uma plataforma similar, ao pedir a elevação do limite de renda taxada destinada ao social security (a previdência social dos Estados Unidos). Grande parte da velha batalha retórica entre esquerda e direita está ressurgindo nesta campanha, trazendo consigo uma forte indicação de reversão, no campo dos democratas, para as políticas de velho estilo do tipo taxar e gastar.
Enquanto isso o governo do Reino Unido gerenciou mal a sua tentativa de extrair mais impostos de estrangeiros que não estão domiciliados no país com objetivos fiscais, enviando, desta forma, de forma involuntária, um sinal de que Londres não mais recebe de braços abertos os investidores estrangeiros. O tema subjacente foi a necessidade de elevar os impostos em um nicho fiscal apertado. Parece que as empresas serão os bodes expiatórios dessa modificação das regras tributárias.
Preocupações crescentes com a desigualdade foram ecoadas por um punhado de empresários do setor privado. Em um evento para arrecadação de verbas para a campanha de Hillary Clinton, em dezembro do ano passado, Warren Buffett, o guru dos investimentos e o homem mais rico do mundo, de acordo com a revista “Forbes”, manifestou preocupações quanto à desigualdade de renda e a um sistema tributário cujo caráter redistribuidor é insuficiente. No Reino Unido, Nicholar Ferguson, presidente do SVG Capital, que investe em private equity, provocou furor entre os seus colegas ao afirmar ser injusto que os executivos do ramo arquem com índices tributários inferiores aos das suas faxineiras.
Mudança real
Na verdade, esta reação contra a desigualdade não se restringe aos países de língua inglesa. Pelos padrões dos Estados Unidos ou do Reino Unido, a desigualdade no Japão é insignificante. Mas, não obstante, ela foi elemento central da crítica do Partido Democrático do Japão (PDJ) ao governo do Partido Liberal Democrata (PLD) na eleição de julho do ano passado, quando o PDJ conquistou a maioria das cadeiras no congresso japonês.
Cresce no Japão uma reação política contra o fluxo livre de capital global. No ano passado o governo ampliou, alegando motivos vinculados à segurança nacional, a lista de setores nos quais a participação acionária dos investidores estrangeiro acima de 10% em determinada companhia exige sanções regulatórias.
O medo dos predadores estrangeiros, sejam eles os fundos soberanos, os fundos de hedge ou companhias multinacionais, também ajuda a explicar uma recente declaração de Takao Kitabata, um alto burocrata do Ministro da Economia, Comércio e Indústria. Kitabata afirmou que as companhias japonesas precisam ser capazes de selecionar os seus acionistas porque tais pessoas são “instáveis, irresponsáveis e gananciosas”. Enquanto isso o governo japonês nada fez para impedir uma inciativa das empresas do país de adotar defesas do tipo “pílula de veneno” para impedir as aquisições por empresas estrangeiras.
Na Alemanha, onde a filosofia igualitária também é forte, o relacionamento do governo liderado pelos democratas-cristãos com as empresas também passou por uma reviravolta. Quando na oposição a chanceler Angela Merkel era uma aguerrida defensora do empresariado, chegando até mesmo a ter defendido Klaus Esser, o ex-diretor do grupo de telecomunicações Mannesmann, que foi condenado por auferir um lucro multimilionário com a venda da companhia para a britânica Vodafone. Ela também criticava bastante o velho sistema alemão de negociação salarial coletiva.
Mas ultimamente Merkel vem ameaçando o empresariado alemão com a imposição de salários mínimos em diversos setores caso as empresas descartem as negociações coletivas e empurrem os salários para baixo. Esta é uma resposta populista à pressão eleitoral. Além das suas inseguranças quanto ao salário, os eleitores vêem com preocupação as atividades de empresas estrangeiras de private equities e fundos de hedge. Agora os alemães estão furiosos devido à revelação de que líderes empresariais sonegaram impostos usando contas secretas em Liechtenstein. Tudo isto tem sido acompanhado de um debate matizado de protecionismo a respeito da ampliação dos investimentos estrangeiros.
Nem todos os países encaixam-se neste padrão. Mas a reação pública pode ser a mesma. Na França, o presidente Nicolas Sarkozy é bastante criticado pelo seu relacionamento estreito com empresários milionários. Ele está procurando implementar aquelas que, para os padrões franceses, são políticas econômicas bastante liberais, que, caso sejam bem-sucedidas, poderão aumentar a desigualdade. Mas em um país no qual os eleitores não simpatizam com o empresariado, ele poderá deparar-se com problemas como o escândalo comercial na Société Générale, e a negociata envolvendo o grupo aeroespacial franco-alemão EADS.
A recente proposta de Sarkozy de taxar as opções acionárias pode ser um indicador de que haverá pela frente políticas menos amigáveis para com os negócios.
O que está óbvio neste novo clima é que o protecionismo é uma ameaça mais intensa. Se as empresas forem incapazes de encontrar uma maneira de conter o excesso de pagamento aos seus executivos, a sua legitimidade será questionada e a política de extrair mais impostos do setor corporativo irá se tornar mais atraente. A redistribuição de renda será uma pauta mais importante na agenda política. A reação reguladora à crise de crédito poderá também ser mais extremada e menos ponderada do que normalmente seria, ecoando a experiência da década de 1930, e da lei pós-Enron, Sarbanes-Oxley.
Não se sabe se os mercados detectaram este oceano de mudanças. Até que os países de língua inglesa superem a crise financeira e imobiliária, será impossível afirmar se a mudança de clima é transitória ou se é algo pior. Mas a mudança é real.
___________
*”The Great Crash”, 1929 (Hamish Hamilton, 1955) **”The Distribution of Top Incomes in Australia”. Australian National University Centre for Economic Policy Research discussion paper No 514 ***”The Evolution of High Incomes in Canada”, 1920-2000, NBER Working Paper No 9607
Tradução: UOL
.
in vermelho - 12 DE ABRIL DE 2008 - 22h00
sábado, 2 de maio de 2020
Filipe Chinita - eis o tele... trabalho
eis
o tele... trabalho
na própria.casa
e
a todo o tempo
sem horas
e
sem colectivo
.
tudo!
o
que
o capital
'nunca' sonhou...
______________
ou
da liberdade!
de vergar
a mola
da espinha
servil
.
fj
quinta-feira, 18 de abril de 2019
Pedro Tadeu - Ai "Notre Dame"!... o trabalho está a matar-nos?
Notre Dame de Paris.
Cartoon - "Sadness", por Antonio Rodriguez
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Bee Wilson - A evolução natural na cozinha

QUARTA-FEIRA, 5 DE DEZEMBRO DE 2012
A evolução natural na cozinha
Bee Wilson desvenda «A História da Invenção na Cozinha»
Origem e evolução dos utensílios, a sua influência na textura, sabor e valor nutricional dos alimentos são o que oferece o livro «A História da Invenção na Cozinha», de Bee Wilson, editado pela Temas & Debates.
sábado, 2 de julho de 2011
Poemas contra a "evidência" (3) - Brecht
Há homens que lutam um dia, e são bons; Há outros que lutam um ano, e são melhores; Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons; Porém há os que lutam toda a vida Estes são os imprescindíveis Charlot em "Tempos Modernos" |
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Poemas contra a "evidência" (2)
Vinicius de Moraes
Composição: Vinicius de Moraes- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
Monangambé
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;
Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.
O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!
Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo?
quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?
Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?
Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande
- ter dinheiro?
- Quem?
E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
- "Monangambééé..."
Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras
- "Monangambéé...'"
António Jacinto (Poemas, 1961)
NOTA:











