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quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Domingos Lobo - Toda a Longa Noite, de Erskine Caldwell

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* Domingos Lobo

Ers­kine Caldwell foi, entre nós, nos anos 1960-70 do sé­culo tran­sacto, um dos mais po­pu­lares es­cri­tores


A russofobia, que as direitas de todos os quadrantes exibem com alarde, sem vergonha nem memória, nesta Europa a soldo do império e navegando à bolina num barco onde os ratos já dominam a gávea e roem lentamente os porões, já vem de longe, tem mais de um século, com brevíssimos intervalos de cínico apaziguamento, depois da Pátria dos Sovietes ter vencido, a custo de 25 milhões dos seus filhos, a barbárie nazi de Hitler.

A pre­texto do con­flito na Ucrânia, a se­nhora Ur­sula von der Leyen en­cetou uma cam­panha ide­o­ló­gica e per­se­cu­tória contra Mos­covo, cri­ando aná­temas ini­bi­dores e proi­bindo, de­mo­cra­ti­ca­mente, o acesso dos eu­ro­peus da UE às es­ta­ções de te­le­visão russas, ou seja, in­vi­a­bi­li­zando o con­tra­di­tório e a nossa di­a­léc­tica ca­pa­ci­dade de aná­lise, e a tudo o que res­su­masse cul­tura vinda do grande país do leste eu­ropeu. Tolstoi, Gorky, Gogol, Chó­lokhov, clás­sicos da li­te­ra­tura uni­versal, foram os­tra­ci­zados, a eles jun­tando mú­sicos da di­mensão de Tchai­kovski, Ra­ch­ma­ni­noff, Shos­ta­ko­vitch, Pro­ko­fiev ou Rimsky-Kor­sakov, ví­timas de uma saga mi­se­rável de ten­ta­tiva de banir do nosso con­vívio a cul­tura de um povo, e da hu­ma­ni­dade em geral, modo per­verso de ex­clusão que nem o fas­cismo de Sa­lazar/​Ca­e­tano ousou em­pre­ender.

Aquando da pu­bli­cação entre nós do livro Alma Russa1, de Jo­seph Conrad, pela Li­vraria Ci­vi­li­zação, em 1945, e proi­bido pela PIDE em 1947, ainda no res­caldo do ine­lu­tável con­tri­buto da URSS para a ren­dição do exér­cito nazi e do fim da guerra, um atento censor, num pri­meiro im­pulso de re­jeição, ela­borou o se­guinte re­la­tório: «É um livro de pro­pa­ganda re­vo­lu­ci­o­nária pas­sado ainda no tempo dos Czares. Julgo que deve ser proi­bido porque este e muitos ou­tros li­vros que pejam o nosso mer­cado têm o fim in­con­ve­ni­en­tís­simo de ali­men­tarem a mís­tica russa.» Ora, este mag­ní­fico ro­mance de Conrad nada tem a ver com a Rússia te­mida pelos fas­cismos, saída da Re­vo­lução de Ou­tubro, passa-se entre um grupo de Cos­sacos em luta contra a opressão Cza­rista e de­sen­volve-se em torno de Ra­zunov, no fundo um rapaz vulgar, mas do­tado de uma enorme ca­pa­ci­dade de tra­balho e de sen­si­bi­li­dade, que o leva a dizer que é russo apenas, e mais nada, a in­dó­mita von­tade, a moral de Ra­zunov e a sua luta contra as in­jus­tiças farão dele, e dos seus ca­ma­radas de jor­nada, a en­car­nação da Alma Russa.

Do es­critor ame­ri­cano Ers­kine Caldwell acaba de ser pu­bli­cado, numa pe­quena edição já pra­ti­ca­mente es­go­tada, pela mão do editor Le­o­nardo de Freitas, um dos seus tí­tulos mais em­ble­má­ticos, o qual foi pu­bli­cado em Por­tugal, antes do 25 de Abril, sob o tí­tulo «Guer­ri­lheiros Russos», edição que, no en­tanto, foi cen­su­rada pelo fas­cismo. Trata-se de Toda a Longa Noite (All Night Long). Ers­kine Claldwell foi, entre nós, nos anos 1960-70 do sé­culo tran­sacto, um dos mais po­pu­lares es­cri­tores, com tí­tulos como A Es­trada do Pe­tróleoA Jeira de DeusO Pre­gador Certas Mu­lheres, sendo uma das grandes e in­ques­ti­o­ná­veis vozes do neo-re­a­lismo norte ame­ri­cano.

O seu ro­mance Toda a Longa Noite traça o re­trato po­de­roso e re­a­lista da saga dos par­ti­sans russos, em de­fesa da sua Pá­tria contra o terror nazi. A 22 de Junho de 1941, três mi­lhões de tropas nazis in­va­diram a União So­vié­tica. Jun­ta­mente com o Exér­cito Ver­melho, mi­lhares de pa­tri­otas, gente sim­ples do povo, tra­ba­lha­dores dos campos e das ofi­cinas, en­ce­taram uma luta comum contra o po­de­roso exér­cito de Hi­tler, im­pe­dindo cha­cinas, vi­o­lação de mu­lheres, fu­zi­la­mentos bár­baros (p. ex., pas­sando com os tan­ques sobre os corpos da po­pu­lação in­de­fesa), roubos e des­truição de al­deias in­teiras, fu­zi­lando os pre­si­dentes do So­viete, exi­bindo nas praças as mu­lheres nuas de­pois de as vi­o­larem. Havia dú­zias e dú­zias de bri­gadas de par­ti­sans a oeste do rio Dni­epre, e cen­tenas entre o Bál­tico e o Mar Negro. Al­gumas das bri­gadas si­tu­adas entre Smo­lensk e Minsk ti­nham pro­por­ções de re­gi­mentos. No longo In­verno Russo, a acção con­ju­gada dos par­ti­sans foi fun­da­mental para im­pedir ou mi­norar a pro­gressão das tropas hi­tle­ri­anas, boi­co­tando equi­pa­mento, des­truindo ca­miões de abas­te­ci­mento, li­ber­tando mu­lheres, cri­anças e ve­lhos se­ques­trados pelos nazis.

Ers­kine Caldwell afirma-se neste livro como um exímio nar­rador e um co­ra­joso e in­tenso his­to­ri­ador so­cial, ren­dido à força e à de­ter­mi­nação de um grupo de guer­ri­lheiros, os quais, quase sem meios, en­fren­taram a besta fas­cista: Sérgio, tal como Ra­zunov, é um tí­pico homem do povo russo, um cam­pónio cân­dido, forte, obs­ti­nado, mo­vido pelos im­pulsos pe­renes da alma russa a que os va­lores so­vié­ticos deram um novo vigor. Tal como os seus com­pa­nheiros de luta, Na­tacha, Fedor, Pa­vlenko ou Maria Ma­ka­rova, pa­recem, na prosa po­de­rosa e sagaz de Caldwell, per­so­na­gens his­tó­ricas ar­ran­cadas das pá­ginas de Tolstoi, Gogol ou Gorki.

Le­o­nardo de Freitas, com es­cassos meios, não quis deixar de trazer para os nossos dias este grande épico, sa­bendo-o im­pres­cin­dível para os com­plexos tempos em que o ódio ao outro cam­peia, ine­xo­rável e sem cau­telas, junto com a ig­no­rância, mesmo que numa tra­dução bra­si­leira pouco cui­dada, de 1942.

 

1E­dição fac-si­mi­lada, a partir da 1ª. edição. Co­lecção Bi­bli­o­teca da Cen­sura, Jornal “Pú­blico” /A Bela e o Monstro

https://www.avante.pt/pt/2705/argumentos/181200/Toda-a-Longa-Noite-de-Erskine-Caldwell.htm


segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Sven Lindqvist - Exterminem todas as bestas –


* Exterminem todas as bestas  By Paulo Ribeiro da Silva
* Exterminem todas as bestas, por  Intifada
* Exterminem todas as Bestas  (Amazon)
* Sven Lindqvist: Exterminem todas as Bestas  
        Pré-publicação
                Prefácio
                Primeira parte — Rumo a In Salah
Exterminem Todas as Bestas: Estado Livre do Congo

 By Paulo Ribeiro da Silva   Posted in Antologia LITERATURA

 Posted on 10/05/2022

Exterminem todas as bestas («Exterminate all the brutes» no original) é uma citação do clássico Heart of Darkness de Józef Teodor Konrad Korzeniowski, mais conhecido como Joseph Conrad (1857-1924), base de Francis Ford Coppolla para o filme Apocalipse Now (1979). Estas referências servem de espinha dorsal ao raciocínio de Sven Lindqvist (1932-2019) neste livro onde traça uma história das origens do imperialismo, do colonialismo e do racismo, assim como as suas consequências, escolhendo como conclusão o brutal desenlace da II Guerra Mundial.

quando aquilo que fora feito no coração das trevas se repetiu no coração da Europa, ninguém o reconheceu. Ninguém quis admitir o que toda a gente sabia”, [isto é, que] “O imperialismo é um processo biologicamente necessário que, de acordo com as leis da Natureza, resulta na inevitável destruição das raças inferiores.” (267).

A formulação desta e outras pérolas de sabedoria veio de algumas das mais doutas personagens da ciência e da vida pública ao longo de séculos, subvertendo e inventando teorias “científicas” para validar conveniências, com o apoio expresso de vários Estados ditos evoluídos, como Portugal, Espanha, Bélgica, Estados Unidos da América, França, Inglaterra, Holanda e Alemanha (ironicamente o mais lembrado, apesar de ter sido o último a entrar nesta “corrida”).


O livro propõe-se reconstituir o percurso dessas falácias fatais, escolhendo factos históricos documentados, protagonistas (como escritores, cientistas, governantes) e as consequências das suas palavras, actos e omissões. É de morte e luto que aqui falamos, da extinção planeada de vários povos pelo lucro proveniente das terras que ocupavam e o poder que daí advinha durante mais de meio milénio (perpetuado na actualidade por outras formas a que Lindqvist também alude).


Ao contrário do que se passara aquando das Cruzadas, em que o Ocidente se confrontou com povos melhor preparados (cultural, diplomática e estrategicamente, mas também na área da saúde, com experiência de epidemias), a expansão de séc. XV foi bem diferente. Nessa altura, “eram eles próprios portadores dessas bactérias superiores. As pessoas morriam por onde os europeus passassem.” (178)


O início da expansão europeia trouxe consigo a extinção do povo guanche que habitava nas Canárias. Entre 1478 e 1453 passaram de oitenta mil a dois mil e cem. Em 1541 havia apenas um guanche. O resultado da guerra foi decidido pelas bactérias, a modorra como lhe chamavam. As terras foram roubadas pelos colonizadores e os indígenas perderam a sua subsistência. A desinteria, a pneumonia e as doenças venéreas fizeram o resto. Porquê este exemplo tão específico?

Este grupo de ilhas no Atlântico foi o infantário do imperialismo europeu. Os principiantes aprenderam aí que as pessoas, as plantas e os animais europeus se dão muito bem até mesmo em zonas onde não existiam por natureza. Aprenderam também que, embora os habitantes indígenas possam ser superiores em número e resistir até às últimas, são vencidos, sim, exterminados – sem ninguém saber realmente como aconteceu.” (177)

A expansão americana, iniciada por Colombo em 1492 foi ainda mais desastrosa. À época, a população europeia e a americana tinham dimensão equivalente (aproximadamente setenta milhões), mas nos trezentos anos seguintes, a população europeia aumentou até 500% e a americana reduziu até 95%. Novamente, a causa de morte maioritária foi a doença (assim como a fome e as condições de trabalho desumanas), mas “a causa subjacente era a seguinte: os índios eram demasiado numerosos para terem qualquer valor económico no quadro da sociedade dos conquistadores.” (179)


A diferente valoração das vidas humanas, de acordo com a cor da pele e a origem, foi o motor deste avanço imparável e demasiado lucrativo para ser abandonado, suportado pelo sistema financeiro mundial, que desenhou a distribuição de riqueza pelo mundo tal como a conhecemos hoje. Lindqvist exemplifica:

Quando Darwin publicou A Origem do Homem em 1871, a caça aos índios na Argentina ainda prosseguia, financiada por um empréstimo obrigacionista. Depois de expulsarem os índios da sua terra, esta era partilhada entre os detentores das obrigações, dando cada obrigação direito a dois mil e quinhentos hectares.”

Hoje os activos e as oportunidades diversificaram-se, a narrativa tornou-se mais sofisticada, mas a fome de poder e influência mantém-se insaciável, com efeitos facilmente comprovados a cada novo ciclo noticioso. Onde antes o território detido por cada nação era o factor identificador de supremacia, hoje o poder económico e financeiro (e bélico) é o barómetro.


Nada melhor do que as eloquentes e urgentes palavras do autor para a conclusão deste e do seu texto:

Em todos os lugares do mundo em que o conhecimento é reprimido (…) O Coração das Trevas está a ser posto em cena./Já sabe quanto baste. Eu também. Não é de informação que carecemos. O que nos falta é coragem para compreender o que sabemos e tirar conclusões.

Um livro essencial, uma das inspirações para o excelente documentário homónimo de Raoul Peck que encontram na HBO.

https://www.intro.pt/exterminem-todas-as-bestas-sven-lindqvist-caminho-2022/

segunda-feira, 16 de março de 2020

Joseph Conrad - O coração das trevas" (excerto)

* Joseph Conrad 

« Deviam tê-lo ouvido falar ‘Meu marfim’. Eu ouvi. ‘Minha Prometida, meu marfim, meu posto, meu rio, meu…’, tudo lhe pertencia. Fez com que prendesse minha respiração na expectativa de ouvir a floresta rebentar numa prodigiosa explosão de riso, que deslocaria do lugar as estrelas do céu. Tudo lhe pertencia, mas isso não importava. A questão era saber a quem ele pertencia, quantos poderes das trevas reclamavam-lhe a posse. Essa era a reflexão que provocava arrepios de horror. Era impossível — de nada adiantava, também — tentar imaginar. Ele havia galgado uma alta posição entre os demônios da Terra — literalmente, quero dizer. Vocês não podem compreender. Como poderiam? Tendo o chão firme sob os pés, cercados do apoio ou da crítica de vizinhos gentis, andando delicadamente entre o açougueiro e o policial, no santo terror de escândalos, prisões e hospícios, como poderiam vocês imaginar a que particular região de primitivas eras os pés desimpedidos de um homem seriam capazes de conduzi-lo, por força da solidão — uma solidão absoluta, sem nenhum policial — ao caminho do silêncio — um silêncio absoluto, onde nenhuma voz de advertência de um vizinho amável pode ser ouvida sussurrando à opinião pública? São essas pequenas coisas que fazem a grande diferença. Quando elas desaparecem, você tem de recorrer à sua força inata, à sua capacidade de ser fiel a si próprio. É claro que você pode ser tolo o bastante para cometer erros — estúpido demais até para perceber que está sendo assaltado pelos poderes das trevas. Suponho que nenhum tolo chegou a barganhar sua alma com o diabo; ou o tolo é tolo demais, ou o diabo demasiadamente diabólico — não sei qual é o caso. Ou pode ser que você seja uma criatura tão fantasticamente superior a ponto de ficar surda e cega a tudo que não diga respeito a visões e sons celestiais. A Terra passa, então, a ser apenas um lugar de espera — e, se você perde ou ganha assim, não sei dizer. No entanto, a maioria de nós não é uma coisa nem outra. A Terra para nós é um lugar para viver, onde temos de lidar com visões, sons… e odores, também, por Deus! — respirar carne podre de hipopótamo, por assim dizer, e não ser contaminado. E aí, não percebem? Nossa força aparece, a fé em nossa capacidade de cavar buracos discretos para enterrar a coisa — nosso poder de devoção, não a si próprio, mas a um obscuro e extenuante trabalho. E isso é bastante difícil. Vejam, não estou tentando desculpar-me ou mesmo explicar… Estou tentando compreender mais claramente quem era… o Sr. Kurtz… o espectro do Sr. Kurtz. Aquele iniciado fantasma proveniente do fundo de lugar nenhum honrou-me com sua surpreendente confidência antes de desaparecer completamente. Foi porque podia falar inglês comigo. O Kurtz original fora em parte educado na Inglaterra, e — como ele próprio teve a bondade de dizer-me — suas simpatias inclinavam-se para o lugar certo. A mãe era meio inglesa, o pai meio francês. A Europa inteira contribuíra para a fabricação de Kurtz; e, pouco a pouco, aprendi que, muito apropriadamente, a Sociedade Internacional para a Supressão dos Costumes Bárbaros o incumbira da elaboração de um relatório, que lhe serviria de guia no futuro. E ele de fato o escreveu. Eu o vi. Eu o li. Era eloqüente, vibrava de eloqüência, mas passional demais, eu acho. Dezessete páginas de escrita miúda, que ele encontrara tempo para realizar! Porém, isso deve ter sido antes de — vamos dizer — ficar mal dos nervos, fazendo com que presidisse certas danças à meia-noite que terminavam com indescritíveis ritos, os quais — tanto quanto relutantemente concluí do que ouvira diversas vezes — eram oferecidos a ele — compreendem? — ao próprio Sr. Kurtz. Mas era um belo texto. O parágrafo de abertura, no entanto, à luz de informação posterior, parece-me agora sinistro. Começa com o argumento de que nós, brancos, em razão do nível de desenvolvimento a que chegamos, ‘devemos necessariamente aparecer a eles (selvagens) como seres de natureza sobrenatural — aproximando-nos deles com a força de uma divindade’, e assim por diante. ‘Pelo simples exercício de nossa vontade, podemos exercer para sempre um poder praticamente ilimitado’ etc. etc. A partir desse ponto, elevava-se a grande altura, levando-me junto. O discurso era magnífico, embora difícil de lembrar, compreendem. Passava a idéia de uma exótica Imensidão governada por uma augusta Benevolência. Fazia-me vibrar de entusiasmo. Era o ilimitado poder da eloqüência… da palavra… de palavras nobres, inflamadas. Não havia alusões práticas para interromper o encadeamento mágico das frases, a não ser uma espécie de nota ao pé da última página, evidentemente rabiscada muito depois, numa caligrafia irregular, podendo ser considerada como uma exposição do método. Era muito simples, e, no final daquele apelo comovente a todo sentimento altruísta, brilhava, luminoso e aterrorizante, como o clarão de um raio em céu sereno: ‘Exterminem todos os bárbaros!’.»

O Coração das Trevas, de Joseph Conrad (1857-1924)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

A Colonização Belga no Congo-Léopoldville, Coração das Trevas e Apocalipse Now

O Fantasma do Rei Leopoldo. Uma história de voracidade, terror e heroísmo na África colonial
Adam Hochschild

O Fantasma do Rei Leopoldo. Uma história de voracidade, terror e heroísmo na África colonial


Edmund Morel é, em finais da década de 1890, funcionário de uma companhia de navegação britânica. Ao chegar do Congo, estranhou que os navios da sua companhia trouxessem valiosos carregamentos de borracha e marfim e em troca levassem apenas soldados, abastecimentos militares e armas. O Congo era então a mais recente colónia «adquirida» pelo rei Leopoldo II da Bélgica. Morel acabou por compreender, com horror, que a origem daqueles carregamentos só podia ser uma: trabalho escravo em larga escala. Deixa o emprego e torna-se o mais importante jornalista-investigador do seu tempo. Conseguiu, através da denúncia do regime escravista do Congo e dos milhões de vidas humanas sacrificadas, despertar consciências e unir o mundo numa mesma causa. Durante anos a fio foi capaz de manter esta questão nas primeiras páginas dos jornais e desmascarar o rei Leopoldo perante a opinião pública como um homem da maior voracidade, ardiloso, dúplice, sedutor, um vilão que rivalizaria com qualquer figura romanesca.
Um texto brilhante, este notável estudo que Hochschild intitulou O Fantasma do Rei Leopoldo.


Género(s): Não-ficção/ Estudos Africanos/ História
Acabamento: brochado
Dimensão: 14,5x21 cm
Páginas: 488
Peso: 592 g
Colecção: «Estudos Africanos», n.º 5
Código: 86.005
ISBN: 972-21-1457-3
1.ª edição: Fevereiro 2002
Preço: 24,90 €


Índice de conteúdos

Introdução

Prólogo: «Os negociantes estão a raptar a nossa gente»

Primeira parte: Ao encontro do fogo
1. «Não desistirei da busca»
2. A raposa atravessa o arroio
3. O bolo magnífico
4. «Os tratados têm de garantir-nos tudo»
5. Da Florida a Berlim
6. Sob a bandeira do Yacht Club
7. O primeiro herege
8. Onde os Dez Mandamentos não existem
9. Conhecer o Sr. Kurtz
10. A madeira que chora
11. Uma sociedade secreta de assassinos

Segunda parte: Um rei acossado
12. David e Golias
13. Penetrando na cozinha dos ladrões
14. Inundar de luz os seus feitos
15. Uma estimativa
16. «Os jornalistas não passam recibo»
17. Nenhum homem é estrangeiro
18. Vitória?
19. O grande esquecimento

Bibliografia
Fontes publicadas
Jornais e periódicos
Fontes inéditas e de arquivo

Agradecimentos
Fontes das fotografias

Índice analítico


O Globo
25/5/2002

O horror maravilhoso de Conrad ao dissecar as trevas do delirante Kurtz

Wilson Coutinho

Todo o grande romance de Balzac tem algum personagem com dívidas no banco. Os de Joseph Conrad, escritor britânico, nascido na Polônia, são diferentes: têm sempre uma dívida moral difícil de pagar. Em Lord Jim, de 1900, o herói sente-se culpado por não ter salvado de um naufrágio um grupo de peregrinos malaios. No final, luta por gente como aquela, que julgou ter deixado morrer. Balzac adorava sofrimentos vindos de promissórias. Conrad ama, ao contrário, aquelas que são cobradas na alma. Em Coração das Trevas, novela publicada em 1902, o romancista inventou um fabuloso personagem, Kurtz, que perde o que tinha de melhor de si nas selvas do Congo Belga.

Um clássico da narrativa, uma conversa a bordo

É um clássico da narrativa, uma conversa fiada a bordo de um iate de passeio, ancorada no Tâmisa, conduzida por Marlow, um oficial da marinha mercante, aposentado de uma companhia que explorava marfim na África.

É Marlow, em seu velho e enferrujado vapor, que vai resgatar, no coração da selva, o delirante Kurtz, que subjugou, como um deus, os nativos da região, onde era representante comercial da firma exploradora de presas de elefantes. “O horror! O horror!” — são essas as palavras tornadas clássicas, que Kurtz grita, ao som de um suspiro, moribundo, em sua aldeia, rodeada de estacas com crânios de africanos assassinados.

A expressão terrível motivou um dos maiores poemas do século XX, “Terra devastada”, de T.S.Eliot, e a novela inspirou o filme "Apocalipse now", de Francis Ford Coppola, que localizou a ação destrutiva na guerra do Vietnã. Há outro filme, do espanhol Manuel Aragon, ambientado na Guerra Civil Espanhola.

Conrad é muito cinematográfico. Antes de filmar “Cidadão Kane”, Orson Welles queria fazer “Coração das trevas”. Chegou a posar com a maquete do barco em que Marlow viaja pelo rio Congo em busca de Kurtz. Recentemente, Martin Scorsese batalha para levar ao cinema Nostromo, outra obra-prima do romancista. Há muita visualidade em suas histórias. O clarão de um inglês vestido com um terno de flanela branca, parado num cais, pode detonar sua narrativa. Na novela “Tufão”, a turbulência parece entrar pelos olhos como uma pintura de tempestade de Turner. Sua prosa, porém, é quase uma arte de tricô, trabalhada com árdua construção, talvez porque Conrad seja um dos raros escritores que se tornaram mestres no inglês, apesar desta não ser sua língua natal.

As aventuras escritas pelo romancista se baseiam muito na experiência de 16 anos, nos quais trabalhou na marinha mercante. Aparentemente, seus personagens podem parecer excêntricos demais. O mundo vitoriano, contudo, lançou em cada pedaço do planeta gente ambiciosa, anarquistas com bombas, charlatões na América do Sul, malandros e cafajestes de todos os tipos. Kurtz é um modelo da época: padece de ambição e idealismo. Tem uma noiva em Londres. Quer glória e dinheiro a todo custo. É um intelectual, além de pintor, que a selva e a brutalidade da exploração humana tornaram um demente cruel. É possível que a era vitoriana tenha recheado o mundo com uma fórmula inquietante: Shakespeare e pistolas.

Ao ler o manuscrito de Kurtz sobre a supressão dos costumes selvagens, Marlow nota no rodapé, escrito de forma trêmula, a frase: “Exterminem todos os brutos”. Nunca o desejo de dominação foi tão enfático. Marlow entende, porém, como Kurtz se arruinou. Quando vai visitar a sua noiva, levando os pertences deixados pelo morto, não pode falar do que foi a verdadeira vida do enlouquecido aventureiro. Quer deixar numa alcova vitoriana a possibilidade do triunfo do amor, mesmo sendo ele uma mentira.

Embora um fascinante personagem de ficção, Kurtz foi alvo de outra busca: quem foi ele, já que, talvez, não tenha saído todo inteiro da cabeça de Conrad? Na função de oficial, em 1890, pilotando o barco “Roi des belges”, o futuro escritor subiu o rio Congo. A bordo, havia um francês chamado Klein — o primeiro nome do personagem, transformado depois em Kurtz. Em 1997, a revista “New Yorker” publicou um artigo, “Mr.Kurtz, I presume”, assinado pelo jornalista e historiador Adam Hochschild, autor de uma ótima biografia sobre Leopoldo II, proprietário privado do Congo, governando com mão de ferro e o administrando sem o menor escrúpulo. A pesquisa de Hochschild foi a de saber em quem o escritor inspirou-se para criar o personagem. Talvez foi uma mistura de vários aventureiros que o romancista encontrou em suas andanças na África. O mais provável pode ter sido o belga, Léon Rom, um sanguinário oficial da Força Pública, colecionador de 21 crânios, que, como Kurtz, caçava borboletas e era artista, tendo pintado retratos e paisagens. Rom também escreveu um arrogante livro, “Le négre du Congo”, vociferando contra a raça negra.

Brutalidade anuncia a Alemanha nazista

É claro que a narrativa de Conrad, que conduz o leitor ao mais fundo do abismo humano, é obra do seu gênio. Mas a mistura de intelectualidade e brutalidade, foi quase um anúncio do que aconteceria na Alemanha nazista. Lá, tiraram Shakespeare da estante. Abafaram, porém, o desesperado grito dos judeus, ao som de Mozart. “Coração das trevas”, uma das maiores novelas sobre o imperialismo branco na África, não tem a menor complacência por qualquer cultura que se arvora superiora. O Mal é, simplesmente, isto: radical. Triste é que o Bem seja tão excessivamente moderado.

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Editora Nova Alexandria Ltda.

Apocalypse Now

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Apocalypse Now é um filme estadunidense de 1979, do gênero drama de guerra, realizado por Francis Ford Coppola, baseado no livro Joseph Conrad.
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Sinopse

Em plena Guerra do Vietnã, um alto comando do exército estadunidense designa o capitão Willard para matar o coronel Kurtz no interior da selva do Camboja.

Subindo o rio num barco de patrulha, e escoltado por quatro soldados, Willard passa por vários cenários enquanto examina os documentos a respeito do coronel. Ao chegar ao seu destino, percebe que os nativos adoram Kurtz como a um deus, e terá de decidir se cumpre ou não a sua missão.

Referência bibliográfica

O filme é baseado na obra Heart of Darkness, de Joseph Conrad. Nesse livro, o alter-ego de Conrad, Marlow, curioso das terras inexploradas ou quase-inexploradas da África, resolve empregar-se numa companhia belga de extração de marfim. Uma vez no Congo, decepciona-se com o tratamento desumano dispensado aos nativos pelos colonizadores, e com o estado de abandono da colônia. É designado, então, para acompanhar o grupo que partirá em busca de Kurtz, um homem cheio de ideais humanitários, dotado de excepcionais qualidades intelectuais e artísticas, que há meses não manda notícias de si (nem do marfim). Tanto no filme quanto no livro, Kurtz parece ser o retrato da falência do humanitarismo sob interesses ambiciosos e egoístas.


Ligações externas