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domingo, 21 de fevereiro de 2021

Filipe Chinita - zé casanova sobre 'cantata pranto e louvor'




zé casanova sobre 'cantata pranto e louvor'
edições avante!2009.

leiam de 
uma só
vez.
e depois 
quem ainda o não leu
corra a comprá-lo
e a lê-lo.
em setembro passam 35 anos! 
do seu assassinato
.
«Cantata Pranto e Louvor - em memória de Casquinha e Caravela», do Filipe Chinita e do Manuel Gusmão, é um livro que tardava, e pela publicação do qual desde já agradeço aos autores.
Muitas vezes me perguntei por que é que os acontecimentos que inspiraram este poema, não inspiraram, antes, outros poetas.
Isto porque, a meu ver, o dia 27 de Setembro de 1979 – dia do assassinato de José Geraldo (Caravela) e de António Maria Casquinha – foi, porventura, o dia mais sombrio do pós-25 de Abril. Um dia e um crime 
carregados de significado: 
a lembrar-nos que o passado não tinha sido completamente afastado da 
nossa vida e da nossa história colectiva; 
a lembrar-nos que o latifúndio opressor e explorador, sustentáculo do 
regime fascista, não só não estava definitivamente enterrado como não 
desistia de regressar – e para esse regresso estava disposto a tudo, a matar, inclusive; 
a lembrar-nos, ainda, que a contra-revolução de Abril trazia consigo, e 
tinha como alimento essencial, pedaços desse passado fascista;
a lembrar-nos, por tudo isso, outros dias e outros crimes, dias e crimes 
ocorridos neste mesmo Alentejo, e com os quais o fascismo procurou, em 
vão, esmagar a serena coragem, a lúcida intervenção e a forte determinação de luta do proletariado rural do Alentejo – coragem, lucidez e determinação sustentadas por uma elevada consciência de classe e política. E partidária, também, porque falar da luta do povo alentejano é falar da história do PCP.
Catarina, a sua vida e o seu assassinato, foram cantados por dezenas 
de poetas – mais de trinta, creio eu; outros acontecimentos do Alentejo 
resistente e combativo, foram assinalados em romances e contos de alguns dos maiores nomes da nossa literatura.
Ora, tanto quanto sei, até agora apenas o José Gomes Ferreira e o Manuel Gusmão nos tinham falado deste dia 27 de Setembro de 1979 e deste crime que nos levou o José Geraldo (Caravela) e o António Maria Casquinha.
Por isso digo que este belo poema de Filipe Chinita e de Manuel Gusmão 
nos fazia falta. Por isso saudei efusivamente o seu aparecimento: pela 
sua qualidade poética e porque é um poema que faltava ao cancioneiro da 
Revolução de Abril – desse que foi o momento mais luminoso da história 
do nosso País, o mais avançado, o mais progressista, o mais justo, o mais 
livre – e, portanto, o momento de maior modernidade da nossa história 
colectiva.
.
Uma Abertura, cinco partes e um Epílogo: assim os autores organizaram 
e estruturaram a narrativa poética dos acontecimentos – acontecimentos 
que nos são contados/cantados pelos assassinados – Caravela e Casquinha; pelo Coro – porque de uma tragédia se trata;
e por um Narrador – ora anónimo, ora aludindo ou tomando a voz de 
poetas, escritores, artistas plásticos – o já referido José Gomes Ferreira, 
Manuel da Fonseca, José Carlos Ary dos Santos, João Cabral de Melo 
Neto, Chico Buarque de Holanda, Manuel Gusmão, José Saramago, 
João Hogan. E Paul Vaillant- Couturier, que, muito a propósito e muito 
oportunamente, é chamado a lembrar-nos que o comunismo é o futuro do 
mundo – afirmação que pode parecer insólita neste tempo de capitalismo 
dominante, mas que a história se encarregará de confirmar.
(Eu disse o Coro, mas deveria dizer os coros: são dois, de facto: 
o Coro 1, Voz dos assassinados e dos seus irmãos de luta; 
e o Coro 2, a outra Voz...)
.
Na Abertura, Caravela e Casquinha apresentam-se ao Leitor – mortos, 
assassinados, e à nossa «espera, à espera da verdade/à espera da 
justiça». 
E de pé. Pois, dizem-nos – e nós confirmamos, «foi de pé que morremos».
Como de pé viveram: Caravela, militante comunista e enfrentando o 
fascismo com a dignidade dos homens dignos; Casquinha, jovem de 17 
anos, dirigente da Juventude Comunista, e também construtor da Reforma 
Agrária.
.
Na Primeira Parte – «Setembro estava no fim» - o Narrador situa o crime 
«nesta minha aldeia/vila do Escoural»; 
sinaliza a hora do crime - «entre as 11 e as 11 e meia»; 
e aponta as bestas assassinas: «vieram os bárbaros outra vez/sempre 
estão aqui/parecem hibernar».
«Bárbaros»?: «piores que bárbaros/escondem a mão assassina/
escondem a boca/que ditou a ordem».
Ali em Montemor, os «bárbaros outra vez»: outra vez a violência, a 
selvajaria, a morte - e não só ali, mas em toda a zona da Reforma Agrária, alvo da brutal ofensiva destruidora, iniciada pelo primeiro Governo PS/Mário Soares e prosseguida por todos os que lhe sucederam, até à destruição, num dos governos de Cavaco Silva, daquela que foi «a 
mais bela conquista da Revolução de Abril». «Os bárbaros outra 
vez», e outra vez o Alentejo a ferro e fogo, a repressão, as prisões, os 
interrogatórios pidescos; os assassinatos.
«Os bárbaros» que, como os seus antepassados do tempo do 
fascismo, «escondem a boca que ditou a ordem»...
Como é sabido, os assassinos e os responsáveis pelos assassinatos de 
Caravela e Casquinha nunca foram conhecidos nem levados a julgamento - tal como acontecia no tempo do fascismo. 
Com uma diferença: desta vez foi aberto o tradicional inquérito que, como 
é já de tradição nestes casos, nos últimos 33 anos, foi cirurgicamente 
arquivado...
.
A Segunda Parte deste Poema fala-nos da Solidariedade – palavra-
chave da resistência, palavra-chave do proletariado rural do Alentejo e do 
Ribatejo.
Toda a história da Reforma Agrária – desde os primórdios da luta por ela, 
até à luta pela sua concretização e à luta pela sua defesa face à ofensiva 
criminosa – é um acto de solidariedade, um imenso acto de solidariedade.
Pode dizer-se que a história da luta do povo alentejano é uma sucessão 
infindável de actos de solidariedade: foram-no as lutas por melhores jornas e melhores condições de trabalho; e a épica luta vitoriosa pelas oito horas de trabalho; e a luta consciente contra o fascismo, pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo.
Solidariedade foi a Reforma Agrária construída: a Reforma Agrária 
que, acabando com a exploração do homem pelo homem no seu espaço 
de intervenção, nos mostrou que o futuro é possível e nos mostrou um 
pedacinho desse futuro: lá estavam as terras cultivadas como nunca 
e a produzir como nunca; lá estava a justa repartição da riqueza 
produzida; lá estavam os cuidados, o amor, a ternura, pelas crianças e 
pelos idosos; lá estavam os direitos humanos respeitados e cumpridos 
como nunca antes acontecera e nunca de então para cá voltou a 
acontecer.
Continuando a falar da solidariedade: a presença de Caravela e de 
Casquinha naquele lugar e naquele dia, é um acto de solidariedade - que 
neste Poema nos é explicada pelos próprios. Dizem-nos eles que viajaram 
da UCP Salvador Joaquim do Pomar para a Bento Gonçalves, «desta nossa 
terra/a esta terra também nossa».
Porque, como sublinha, pertinente, o Coro 1, «nós somos iguais - a terra 
toda/trabalhada é de quem a trabalha/a terra é nossa». E insiste o Coro 
1, porque imperioso é insistir: «Por solidariedade vieram/entre herdades 
e nomes/a acudir à sua gente/a clamar justiça»,
porque «roubar gado/espoliar da terra a cooperativa/queriam eles/a 
força bruta e mandada/impondo como lei/os interesses dos agrários».
Belíssimas e certeiras palavras que, com rara beleza, nos dizem tudo o que sobre a matéria há a dizer.
Aqui, o Coro 1 explica ao Coro 2 a origem dos nomes dados às duas 
cooperativas - Salvador Joaquim do Pomar, militante comunista preso de 
1956 a 1961; e Bento Gonçalves, «nascido de meúdos/camponeses do 
Norte», operário do Arsenal, dirigente comunista, «deixaram-no vocês 
morrer no Tarrafal».
Por esta parte do Poema passa, também, essa questão maior que é a da 
posse e do uso da terra – questão à qual os construtores da nossa Reforma Agrária responderam de forma criativa e singular - rejeitando a sua posse individual e reclamando-a para a trabalhar, aumentar a produção agrícola e desenvolver o País - como criativo e singular foi, aliás, todo o processo de construção da Reforma Agrária de Abril.
Mas – sublinha incisivamente o Narrador - o que, naquele dia 27 de 
Setembro de 1979, acontecia na UCP Bento Gonçalves, «era uma história 
repetida/Veio a guarda com a lei/no cano das carabinas»...
«Uma história repetida», de facto: Alfredo Lima, 1950, Alpiarça; 
Catarina: 19 de Maio de 1954, Baleizão; José Adelino dos Santos, 1958, 
Montemor…; Caravela e Casquinha: 27 de Setembro de 1979, Montemor. 
O mesmo cenário: de um lado, o latifúndio sustentáculo do fascismo (com 
a sua GNR) e, agora (sempre com a sua GNR), inimigo de Abril; do outro 
lado, os que lutavam contra o fascismo e, agora, por Abril; de um lado, os 
assassinos; do outro lado, os assassinados.
.
A Terceira Parte é a morte de Caravela e Casquinha, «os que vieram por 
solidariedade/clamando por justiça» - os que, por serem solidários e por 
clamarem por justiça, foram assassinados. 
Chamei há pouco àquele dia 27 de Setembro de 1979, o dia mais sombrio 
do pós-25 de Abril – e creio que assim foi. Talvez porque o assassinato 
de Caravela e Casquinha foi uma coisa do tempo passado, do tempo que 
julgávamos ter erradicado definitivamente das nossas vidas e vivências, 
e agora nos aparecia ali, igual ao que dele conhecíamos, carregado de 
escuridão, de ódio e de morte.
E é bem verdade que, como nos diz o Coro 1, com a morte de Caravela 
e Casquinha, «um pouco de nós/morreu com eles» - mas é verdade, 
também, e isso é certamente o mais importante, que como nos diz o mesmo Coro, uns versos adiante, «um pouco deles/ficou vivo em nós».
Daí a importância e a força do compromisso assumido no Poema: 
«Casquinha!Caravela!/ Vozes de luta hão-de semear/os vossos nomes 
pelas ruas/dos povos deste Alentejo».
.
Na Parte Quatro – «Ó Aflição e Raiva» - os assassinados contam-nos a 
morte: o que sentiram quando as balas os atingiram, «aquele fogo frio ou/aquela faca de gelo», «o frio que queima/e a faca de fogo que rasga/
pelas costas até ao coração» - e «o negro/tudo ficou negro», «uma 
nuvem negra/dos olhos até um ponto/cá dentro...», «Como se fosse tudo 
num sonho». Depois «fechei-me como o quê?» – pergunta Caravela, e responde Casquinha: «como os bichos-de-conta/que vivos, vivíssimos/se enrolam sobre si mesmos/como se quisessem desaparecer/do mundo dos vivos».
E o Narrador coloca a pergunta crucial: «Porque são sempre os nossos/ 
que assim morrem?» - talvez, porque, como o mesmo Narrador nos 
diz, os «nossos» são os portadores da esperança, dessa esperança que a 
«violência cobarde e estúpida» não pode matar.
De facto, eles podem prender, e prendem, os homens; podem matar – e 
matam – os homens. Mas não podem prender nem matar o ideal – e é essa a nossa força, e é essa a nossa esperança.
.
«De Luto Desfilamos» na Quinta Parte do Poema: de luto estamos todos: 
«a aldeia do Escoural», «Montemor», «A Reforma Agrária/nos 
campos do Alentejo e/do Ribatejo» - e «trabalhadores do pais inteiro/
desfilam connosco», «somos muitos, muitos mil/os nossos passos têm 
a cadência/da tristeza e da firmeza/e ouvem-se no silêncio». Por aqui 
desfila «um rio de punhos erguidos/contra a morte», um «rio que 
chegará/um dia/ao mar».
.
E, como José Gomes Ferreira nos diz no Epílogo, «Quando os dois 
camponeses desceram às covas/ante os punhos cerrados de todos nós/
chorei!».
Chorámos: os que lá estivemos e muitos que lá não estiveram. 
E continuamos a chorar, hoje, 31 anos passados.
Mas chorámos de punhos cerrados – que é uma forma só nossa de chorar, que é um Pranto mas não é um lamento, antes é – voltamos à palavra... – um acto de solidariedade.
Como nos diz o Narrador – que somos nós - «neste dia ficou marcado/um 
outro dia no futuro/nesse dia desfilaremos/sobre o chão da terra/enfim 
devolvida nossa».
Que assim será, dizem-nos o Caravela e o Casquinha nas suas falas finais:
Caravela confiando-nos o seu «desejo mais fundo/Que da próxima seja 
de vez/a terra a quem a trabalha/a terra será de quem a trabalha»; 
Casquinha, o «menino-homem», intimando-nos a que não o deixemos 
sozinho, a que nos lembremos dos bandidos, a que nos lembremos que 
«o comunismo/é a juventude do mundo».
E nós não esqueceremos.
E este belo Poema do Filipe Chinita e do Manuel Gusmão é um precioso 
contributo para que a nossa memória continue viva.
.
zé casanova

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Papiniano Carlos: um voo sobre a cidade dos homens

N.º 1824 
13.Novembro.2008


90 anos de Papiniano Carlos
Homenagem ao Arado Luminoso
Heróica Jornada de Lopes-Graça e José Gomes Ferreira entoou no piano de Fausto Neves e na voz das 200 pessoas que encheram o Ateneu Comercial do Porto para homenagear o Poeta Papiniano Carlos pelos seus 90 anos de vida e obra. Uma sentida e justa homenagem onde participaram José Casanova, membro da Comissão Política do PCP, José António Gomes, escritor e membro da DORP do PCP, Ana Margarida Ramos, professora, César Príncipe, jornalista, Júlio Gago, director do TEP, e a Olívia, sua companheira de sempre. 

Muitos outros fizeram questão de estar presentes e se associarem a esta efeméride, como Armando Alves, que artisticamente concebeu a obra publicada a propósito desta data, outros que nela participam com os seus poemas, como Francisco Duarte Mangas, Albano Martins, José Viale Moutinho, Nuno Higino, João Pedro Mésseder, João Manuel Ribeiro, Virgílio Alberto Vieira, entre as dezenas que se associaram na sua promoção e muitos outros intelectuais, de diferentes sensibilidades políticas e expressões artísticas que quiseram estar presentes neste momento. 

Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, fez também chegar a sua saudação. Entre as intervenções de homenagem e a poesia lida por actores do Teatro Experimental do Porto, sublinha-se o carinho, a imensa fraternidade, o reconhecimento inevitável de uma vida de militância cultural, cívica e política de um comunista que sempre afirmou, em todas as dimensões da sua intervenção, os mais elevados ideais humanistas e a inabalável convicção na construção de uma sociedade nova.

Papiniano Carlos: um voo sobre a cidade dos homens

● José António Gomes

Papiniano Carlos – o «nosso» Papiniano, em cujo estranho nome há uma ressonância paternal –, o homem delicado, generoso e militante, que quis abrir um amoroso espaço, nos seus versos, um imenso espaço onde coubesse a companheira de todas as horas, Olívia – seu esteio, como ele esteio dela –, este Papiniano que hoje saudamos, nasceu há noventa anos. E aqui está, de pedra e cal, para celebrar connosco uma vida de luta e de escrita, para celebrar também o futuro(1). Porque Papiniano ensina-nos que vale a pena resistir: viver resistindo, e resistir vivendo e escrevendo – actos, atitudes que nele se confundem.

Revisito, em poucas linhas, a sua trajectória de homem de letras. E o que é sintetizar a trajectória de um homem, de um artista, senão ficar aquém, tão aquém!, de captar esse tempo de uma existência a que ele conferiu, e continua e conferir, sentido? – como se viesse lembrar-nos que a vida vale a pena se soubermos dar-lhe esse sentido de que ela, diariamente, carece. 

Hoje como ontem. Ontem, durante os quarenta e oito anos da peste, que Papiniano atravessou com firmeza e coragem, enfrentando a censura e a repressão fascistas, nesses sombrios dias de Salazar e Marcelo Caetano, e dessa minoria de senhores do dinheiro e da terra que eles serviam, como competentes ditadores que eram. Ontem, escutando – como Papiniano escutou –, umas vezes sofridamente, outras vezes com alegria, os ecos da Guerra Civil espanhola, os da Segunda Guerra Mundial, os das guerras da Coreia e do Vietname, os das lutas dos povos pela emancipação do jugo colonial e do imperialismo, em Moçambique, em Angola, na Guiné-Bissau e noutras regiões do vasto mundo.

E hoje, continuando um combate, retomado em 25 de Abril de 1974, após o derrube da ditadura. Um combate sob o signo da esperança, sob o signo de uma convicção alicerçada em valores e ideais: a de que é possível construir um mundo diferente, mais justo e pacífico, igualitário e solidário, um mundo de todos para todos, e não só de alguns e para alguns. E construir um país onde uma democracia avançada, económica e social, cultural e política, seja viável, em vez da «apagada e vil tristeza», de fachada democrática, que mais e mais nos sufoca, trinta e quatro anos volvidos sobre o 25 de Abril, e a que não podemos ficar indiferentes e sem alternativa. Refiro-me à alternativa que estes dias reclamam: a que rompe com a exploração desenfreada das forças do trabalho, a precariedade, o desemprego, a efectiva pobreza, produtos, enfim, da institucionalização da ganância, da corrupção e, claro está, de um sistema cujas armas são a propaganda e a mentira.

Releve-se, então, a modéstia destas palavras que mais não pretendem do que recordar um percurso, um caminho que vale a pena seguir, de mãos dadas com Papiniano Carlos, lendo, relendo, dando a ler os seus livros às novas gerações. 

E esses livros não são poucos: uma dezena de recolhas de poesia, editadas entre 1942 (data da publicação de Esboço) e 1973, o ano em que A Ave sobre a Cidade vem a lume, reunindo composições dos livros anteriores e ainda os vinte e um textos de «Os Ciclistas»; o ano em que é editada também a antologia Sonhar a Terra Livre e Insubmissa, que, sob a epígrafe de um verso de Daniel Filipe, alberga composições de três dos principais dinamizadores dos cadernos de poesia «Notícias do Bloqueio», Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão e Papiniano Carlos. Esses que, entre 1957 e 1961, dariam, com outros, novo fôlego a uma escrita herdeira do que de melhor nos legou o tão vilipendiado neo-realismo. Uma poesia, a de Papiniano, que Fernando Lopes Graça e Luís Cília, por vezes, converteram em canção (quem não se lembra da «Canção de Catarina», de Lopes Graça, dedicada à memória de Catarina Eufémia) e a que diversos antologiadores e críticos se referiram, como E. M. de Melo e Castro e Maria Alberta Menéres, Jorge de Sena, Luísa Dacosta ou Fernando J. B. Martinho. Os dois primeiros escreveram: «Papiniano Carlos, superando os limites parassocialistas do neo-realismo, consegue uma poesia fluente e rica de ressonâncias do humanismo integral das massas.»(2) Uma poesia que também Luísa Dacosta comenta nestes termos: «Servido por uma linguagem directa em que as palavras têm a pureza da significação primeira, a poesia de Papiniano Carlos, forma encontrada para um conteúdo de dor e sonho, afirma-se autêntica criação.»

A estas obras, a que vêm somar-se a plaquette Canto Fraternal (2005) e vários poemas dispersos, juntem-se um livro de contos com três edições, Terra com Sede, de 1946 (a primeira edição com capa de Júlio Pomar), e um belo romance, O Rio na Treva (1975), a par de A Rosa Nocturna(1961), «excelente volume de crónicas», no dizer do crítico Serafim Ferreira. Dos livros de ficção desprende-se uma prosa segura, não raro de cariz poético, atenta a diferentes registos de língua – nomeadamente o popular –, uma escrita enraizada no real, capaz de erguer personagens que quase diríamos de carne e osso, em que se destacam as crianças e certos tipos populares como o inesquecível Chico Miana, textos, em suma, que configuram um expressivo retrato de certas franjas da sociedade portuguesa durante os tristes «anos da peste». Recorde-se ainda o livro A Memória com Passaporte: Um tal Perafita na «Casa del Campo», editado em 1998 com o subtítulo Relato de um Prisioneiro na PIDE do Porto, em 1937, testemunho impressivo de quem preza a memória e o companheirismo na luta.

Outra vertente, e uma das mais relevantes, da criação literária de Papiniano Carlos vamos encontrá-la nas suas sete obras para crianças, nas quais descobrimos narrativas em prosa e em verso e alguns poemas: A Menina Gotinha de Água (1963), O Cavalo das Sete Cores e o Navio (1977),Luisinho e as Andorinhas (1977), O Grande Lagarto da Pedra Azul (1989), A Viagem de Alexandra (1989), A Gaivota Branca (in J. A. Gomes (org.), Contos da Cidade das Pontes, 2001) e Era Uma Vez (2001). Algumas destas obras, muito reeditadas, são verdadeiros «clássicos» da nossa literatura para a infância – como A Menina Gotinha de Água, centrado no ciclo da água, e Luisinho e as Andorinhas, inspirado em Beethoven e dedicado a Lopes Graça. Neste conjunto de livros infantis, Papiniano emparceirou com ilustradores de renome, como João da Câmara Leme, João Machado, Henrique Cayatte, Manuela Bacelar e António Modesto, para apenas citar alguns. E soube aliar a poesia a breves relatos emblemáticos da aventura humana, exprimindo uma crença inabalável no engenho dos homens e das crianças, no poder da ciência, mas também na dinâmica renovadora da Natureza, encarada, por vezes, como espelho simbólico da própria inventividade humana – traços que perpassam também a poesia comprometida de Papiniano. O autor de O Rio na Treva contribuiu, deste modo, logo desde os anos 60, para a nova literatura para a infância que, em Portugal, haveria de emergir no início da segunda metade do século XX, pela mão de autores como Aquilino Ribeiro (com O Livro de Marianinha, de publicação póstuma, em 1967), Sidónio Muralha, Alves Redol, Ilse Losa, Matilde Rosa Araújo, Norberto Ávila, Maria Rosa Colaço e, no seu modo peculiar, Sophia de Mello Breyner Andresen.

Representado em diversas antologias da poesia portuguesa e da literatura para a infância, editadas em Portugal e no estrangeiro (Espanha, França, Brasil, Argentina); com uma discografia em que podemos ouvi-lo a ler os seus próprios poemas (Papiniano Carlos por Papiniano Carlos, Porto, Orfeu – Arnaldo Trindade) ou escutar a sua Menina Gotinha de Água lida por Carmen Dolores (Lisboa, RR Discos Lda.); com um filme de Alfredo Tropa (produção RTP) a que a mesma Menina Gotinha de Água serve de base, Papiniano Carlos não se devotou apenas à sua própria escrita. A vivência moçambicana (nasceu em 1918 na actual Maputo, antiga Lourenço Marques) – a que se seguiram estudos secundários no Porto e uma frequência universitária do curso de Engenharia – deixou raízes e atraiu-o de novo ao continente africano. Em 1958, contacta artistas, jornalistas e escritores de Angola e Moçambique, entrevistando-os e recolhendo material a que dará divulgação em publicações diversas, como o Jornal de Notícias, o República, a Seara Nova, Bandarra e os cadernos «Notícias do Bloqueio».

A terminar este apontamento biobibliográfico, não resisto a citar um excerto da nota introdutória ao livro A Ave sobre a Cidade, assinado por alguém que fez e continua a fazer da vida e da escrita um voo livre e ininterrupto. E que, talvez por isso, tem como um dos símbolos recorrentes da sua obra a figura da gaivota, em particular, e da ave em geral. Em 1973, decorridas mais de três décadas de produção poética e a um ano do fim da censura fascista, Papiniano Carlos afirmava: «Nestes tempos de silêncio foi difícil cantar. Mas a cigarra nunca pensou que da negrura dos céus o raio podia descer para fulminá-la em pleno canto. Nem os poetas deste país. Quem os não ouviu cantar nesta longa noite? Como poderiam eles deixar de cantar? // Estes poemas são talvez uma obscura e breve nota desse canto. Um vibrante acento talvez. Uma rude mas apaixonada estrofe do cancioneiro destes tempos, que não ouviram elegias cantando as desgraças sofridas ou os companheiros mortos na estrada, mas em que, no barro amassado em suor e sangue, se começou a moldar “o rosto épico” do futuro.» (3)

Aqui estamos nós, Papiniano, a tomar em mãos o testemunho e a continuar a moldar esse rosto por vir. Hoje como ontem – assim o escreveu este poeta – «caminhemos serenos» (4).

Notas

(1) O presente texto foi lido na sessão de homenagem a Papiniano Carlos, realizada no Ateneu Comercial do Porto, em 9 de Novembro de 2008, dia do 90.º aniversário deste poeta e militante comunista.
(2) Cito a partir de uma página de paratexto que abre o livro, de Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão e Papiniano Carlos,Sonhar a Terra Livre e Insubmissa (Porto: Inova, 1973). Nesse mesmo local é reproduzida a frase de Luísa Dacosta adiante citada. «Papiniano Carlos e A Menina das Gotas de Água» é o título do artigo de Serafim Ferreira também citado neste texto e publicado no n.º 84 do jornal A Página da Educação, ano 8, Outubro de 1999, p. 29.
(3) A Ave sobre a Cidade. Porto: Paisagem, 1973, p. 7.
(4) Título de um dos livros de poesia de Papiniano Carlos, publicado em Coimbra (Textos Vértice), em 1957.

Uma arma no combate ao fascismo (*)

● José Casanova

Há 90 anos, dois dias depois desse 9 de Novembro de 1918, terminava a I Guerra Mundial – e um ano antes, a Revolução de Outubro, afirmando-se como acontecimento maior da história universal, iniciara o primeiro grande acto de ruptura com o capitalismo, e dera os primeiros passos na construção de uma sociedade nova – nova, porque sem exploradores nem explorados. Enquanto por cá, logo a seguir, correspondendo a uma necessidade histórica da sociedade portuguesa, nascia o PCP e a classe operária portuguesa encontrava a sua firme e segura vanguarda. E cinco anos depois, era implantada a ditadura que durante quase cinco décadas mergulharia o País na longa e negra noite fascista.

(...) No nosso País, o papel dos intelectuais na resistência ao fascismo, assumiu forte expressão. A realidade mostrou que o fascismo não só não atraiu a si como teve contra si, a grande maioria dos escritores e artistas portugueses, entre eles muitas das maiores figuras da literatura portuguesa do século XX.
E nesses tempos de guerra e de pós-guerra, a literatura, nas suas múltiplas formas, deu voz à luta popular e à realidade do País que a propaganda fascista mistificava.

(...) É nesse vasto conjunto de artistas talentosos e intervenientes que surge Papiniano Carlos – em 1942 com o seu primeiro livro de poemas (Esboço) e, em 1949, aderindo ao PCP.

Assim, a literatura, designadamente a poesia, era uma arma no combate ao fascismo. E os poemas de Papiniano Carlos, entre os de vários outros poetas, eram, naqueles tempos de opressão e repressão, poemas-companheiros dos que resistiam das mais diversas formas, dos que se recusavam a baixar os braços e lutavam e assumiam as consequências dessa luta no Aljube, em Caxias, em Peniche, na Rua do Heroísmo.

Nos convívios antifascistas da minha juventude, esses poemas eram presença certa. Sabíamos de cor poemas da «Estrada Nova»: «Nós estamos rasgando uma estrada nova/ vimos em fúria dos confins do mundo!»; imprimíamos em lentos copiógrafos manuais, poemas de «Mãe Terra», de «As Florestas e os Ventos», de «Caminhemos Serenos»: «Sob as estrelas, sob as bombas/Sob os turvos ódios e injustiças/no frio corredor de lâminas eriçadas/no meio do sangue, das lágrimas/caminhemos serenos». E cantávamos, muitas vezes em surdina, as Heróicas: «Na fome verde das searas roxas/passeava sorrindo Catarina».

E esses poemas davam-nos mais força, acrescentavam esperança e confiança, multiplicavam coragens. 

(...) Abro aqui um parêntesis para um «desabafo»: nesses convívios, líamos e aplaudíamos - para além de poetas de nossa eleição como Papiniano Carlos, Luiz Veiga Leitão, Sidónio Muralha, Egito Gonçalves, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado, etc., - vários poemas cuja qualidade maior residia no seu conteúdo antifascista, o que não sendo, naqueles tempos, de todo irrelevante, não deixava de fazer deles poemas de curta vida.

No entanto, há vários críticos literários que, com uma pertinácia iniciada nesses tempos e que ainda hoje, certamente por herança, se mantém bem acesa, me obrigam a lembrar-me desses pobres poemas – tantas são as vezes que aludem à má poesia neo-realista...

Contra os tiranos, sempre

(...) E é estranho que esses pobres poemas nos sejam permanentemente lembrados por críticos que, simultânea e curiosamente, ignoram e silenciam os grandes poetas do neo-realismo – ou que, quando os referem, é tão-somente para louvarem aquilo a que chamam «a luta em duas frentes» travada por uns quantos paladinos da liberdade e da pureza literária, nestes casos apresentados como os que (cito) «mais batalharam a dura batalha da liberdade em Portugal», porque teriam lutado contra (cito): «a ditadura salazarista e o monopólio cultural do partido comunista – por interposta corrente literária do neo-realismo – impostos durante décadas aos cidadãos deste país»… E lendo esta prosa é-nos fácil imaginar esses heróicos batalhadores da dura batalha da liberdade, batalhando nas tais «duas frentes»: na primeira frente, varrendo à espadeirada os carcereiros da ditadura fascista e abrindo caminho até ao Aljube, a Caxias, a Peniche, à Rua do Heroísmo – e aí chegados, na segunda frente, estilhaçando portas e grades, entrando nas celas e destroçando implacavelmente quem lá estava: esses sinistros protagonistas do monopólio cultural do partido comunista que eram os poetas neo-realistas… 

Desculpem: o desabafo foi longo, mas não é todos os dias que se proporciona desabafarmos sobre este tema. O que significa que é tempo, talvez, de ensaiar respostas frontais às múltiplas facetas – e esta é, a meu ver, uma delas - de que se reveste a poderosa operação de branqueamento do fascismo em curso – que é, simultaneamente, uma operação de menorização e apagamento da resistência antifascista em todas as suas vertentes.

(...) Os tiranos de hoje – netos e filhos dos de outrora – vestem roupagens diferentes e falam outras linguagens. Mas não diferem tanto como à primeira vista pode parecer nos métodos e práticas adoptados, e em nada diferem quanto a objectivos essenciais. 

Não têm Auschwitz: têm Guantánamo – e, à custa de centenas e centenas de milhares de vidas inocentes, esmagam países e povos.

Não têm pides, nem aljubes, mas têm práticas anti-democráticas e leis dos partidos e do financiamento dos partidos que qualquer tirano de outrora não desdenharia subscrever.

Não prendem, no Aljube ou no Largo Soares dos Reis, os trabalhadores que fazem greve, mas com o emprego precário e com o Código do Trabalho fazem da greve e dos direitos dos trabalhadores actos proibidos – roubando direitos humanos fundamentais e remetendo as relações laborais para o tempo desses tiranos de outrora.

No entanto, a luta continua. E o mundo avança. E, mais importante do que tudo, hoje como outrora, «Os meninos nascem» e «fitam /serenos e terríveis» os tiranos dos tempos actuais.

E a poesia continua: «Os Ciclistas» de hoje, como os de outrora – «rosto baixo, mãos no guiador, pés/ bem firmes nos pedais, geram/o movimento, o ritmo alado/das máquinas frágeis que cavalgam/ao amanhecer» – lutam, certos de que merecerão a voz de Orfeu.
Certos de que vencerão.

(*) Excertos da intervenção na Homenagem a Papiniano Carlos