Mostrar mensagens com a etiqueta Dante Alighieri. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dante Alighieri. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Jaime Nogueira Pinto - Uma topografia do Além: a Commedia, em tempo de Natal

 Seguir Dante na sua fascinante viagem pelo Além nunca vem a despropósito. Sobretudo neste tempo de Natal, em que Céu e Terra tão concreta e surpreendentemente se misturam.

* Jaime Nogueira Pinto

27 dez. 2025, 00:18

Na infância, muitas vezes a viragem para a leitura é acordada pela imagem: queremos decifrar, entender, gravuras, representações, pinturas que captam a nossa atenção, que nos intrigam, que nos obrigam a parar e a ficar ali, fascinados, suspensos, com a curiosidade a roer-nos. Foi assim que, não sei com que idade, mas ainda miúdo, acabei por ler O Inferno numa edição da Comédia, crismada Divina Comédia por Bocaccio, ilustrada por Gustave Doré.  Uma das mais detalhadas viagens pelo Além que conheço.

E começa pelo Inferno. Dante situou o início da sua viagem ao outro mundo no dia 25 de Março de 1300, início do Jubileu ou Ano Santo de Bonifácio VIII, jubileu que causara grande confusão em Roma, então uma cidade de 80.000 habitantes, invadida por 200.000 peregrinos e mergulhada num caos quase apocalíptico.

Dante estava metido na política do tempo, alinhando com os chamados Guelfos Brancos. Na bipolarização medieval entre partidários do Imperador e do Papa (uma deriva polémica da “doação de Constantino” que resultou num conflito velho que se agudizara no tempo de Frederico II de Hohenstaufen e dos papas seus inimigos a partir da questão da primazia dos dois poderes), os Guelfos Brancos eram os partidários moderados do Papa. Mas havia os Guelfos Negros, os partidários radicais do Papa e que, numa boa antecipação das políticas e cisões ideológicas do nosso tempo, abominavam com maior fervor os seus correligionários Brancos do que os seus inimigos Gibelinos, partidários do Imperador. O Papa reinante em Roma era Benedetto Caetani, papa Bonifácio VIII, que fora eleito no dia de Natal de 1294.

Dante, guelfo branco, sofrera as consequências dessa inimizade quando os Guelfos Negros tomaram o poder em Florença; dois séculos depois, outro florentino ilustre, Maquiavel, passará por idêntica sorte, depois do regresso dos Médici ao governo da Cidade-Estado. E na reforma antecipada poderá escrever grandes obras de antropologia e filosofia política, das quais a mais famosa ficou a ser Il Principe, um manual Ad Delphini, escrito na esperança frustrada de recuperar as graças dos Médici.

Mas Maquiavel, depois de um curto mau bocado, pôde ficar em Florença. Dante, não. Foi mais uma desgraça na sua vida. Tivera uma paixão por Beatrice Portinari, que vira pela primeira vez aos nove anos. Aos quinze anos Beatrice casou-se com Simone de Bardi, e ele, aos vinte, com Gemma Donati. Amores infelizes, que o marcaram para sempre e que sublimou em poesia.

Neste tempo, em Florença, tal como na China dos Mandarins e na Roma dos Césares, para aceder a cargos políticos era preciso demonstrar e provar uma certa cultura histórica e literária. Outros tempos, outras terras, outras gentes.

Voltando a Dante e ao princípio da sua tragédia política. Quando Florença, sua pátria, passou a estar sob o jugo dos Guelfos Negros, o poeta foi forçado ao exílio. Bonifácio mandara que Charles de Valois marchasse sobre a cidade e a reconquistasse aos Guelfos Brancos. E. com o Valois. veio, em Novembro de 1301, Corso Donati, um guelfo negro  que se encarregou da purga, do saque e das decorrentes exclusões e macro-atentados aos direitos humanos (que os tempos não estavam para simples faltas de inclusão ou meras declarações micro-agressivas).

Dante estava em Roma, em missão diplomática, quando soube da sua condenação por corrupção, nos finais de 1302. Uma condenação sob falsas acusações que o obrigava a pagar uma multa que não podia pagar, pois já os bens herdados tinham sido objecto de confisco.

Na amargura do exílio, comeu o “pão alheio” e andou pelas “escadas alheias” de Verona, Bolonha, Ravena. Tinha então 36 anos e nunca mais voltou a ver nem a sua cidade nem a sua família, a mulher, Gemma, e os quatro filhos.

O poeta da Vita Nuova escreveu então a Commedia, onde também se vingou dos seus inimigos políticos, responsáveis pelo seu exílio, arrumando-os criteriosamente no seu Inferno; assim, o papa Bonifácio VIII, chefe espiritual dos Guelfos Negros, foi parar ao Oitavo Círculo, o dos simoníacos e fraudulentos, como vendedor de cargos eclesiásticos. Ali ficou enterrado de cabeça para baixo. Mas há outros guelfos negros no Inferno dantesco: Corso Donati, o “conquistador negro” de Florença e Mosca dei Lamberti, réus de crimes de corrupção e intriga, e Jacopo Rusticoni, condenado por sodomia. Dante vai dispondo os inimigos nos círculos infernais, elencados por pecados. Para ele, a justiça divina está acima da amizade e das relações pessoais – por isso arruma o humanista Brunetto Latini, seu mestre e amigo, no Sétimo Círculo, por sodomia.

No Inferno dantesco, o destino das almas danadas vai piorando à medida que se aproximam do centro.  De resto, o Primeiro Círculo nem sequer é infernal, é o Limbo, onde estão os pagãos virtuosos e as crianças que morreram sem ser baptizadas. Um lugar aparentemente aprazível e particularmente bem frequentado, com grandes filósofos, historiadores e poetas clássicos, como Platão, Aristóteles, Sócrates, Homero, Tucídides, Tácito e o próprio Virgílio; um excelente ambiente, presumo, só desafiado pelos milhões de crianças não-baptizadas (que tudo leva a crer que façam tanto barulho como as baptizadas).

Os restantes círculos são: o Segundo para a Luxúria, o Terceiro para a Gula, o Quarto para a Avareza, o Quinto para a Ira e Preguiça, o Sexto para a Heresia, o Sétimo  para a Violência, o Oitava para a Fraude. O Nono e último é para a Traição, para os traidores, e para o traidor dos traidores, Lúcifer, congelado num lago.

Em toda a expedição, Dante é guiado por Virgílio, o poeta da Eneida, que o vai acompanhando e esclarecendo; e que, terminada a visita ao Inferno, o acompanha até ao Purgatório. O poeta romano é um pagão virtuoso, que reside no Limbo; pode, por isso, entrar no Purgatório, mas não pode entrar no Paraíso porque, segundo a teologia do tempo, não beneficiou da salvação de Cristo, que veio depois dele morrer, em 19 AC.

No último círculo do Inferno, no “Lago Cocito”, está então Lúcifer, uma figura de três cabeças que agita as asas num vazio gélido.

Os Terraços do Purgatório

Se o Inferno se estrutura em círculos concêntricos, que vão piorando, o Purgatório consta de sete terraços, que correspondem aos sete pecados mortais. As almas estão ali para se redimirem, praticando as virtudes contrárias aos pecados. Contra a Soberba, a Humildade; contra a Inveja, a Caridade; contra a Ira, a Paciência; contra a Preguiça, a Diligência; contra a Avareza, a Generosidade; contra a Gula, a Temperança; contra a Luxúria, a Castidade.

As personalidades que os habitam são menos conhecidas do que as que estão no Inferno: Marco Pórcio Catão, Catão de Utica, ou Catão, o Jovem (95-46 AC), Manfredo da Sicília, filho natural de Frederico II de Hohenstaufen ou Forese Donati, um nobre florentino amigo de Dante, com quem o poeta trocou um tipo de polémica vituperativo jocosa  (por sinal bastante ousada, já que Dante acusava Forese de ser incapaz de satisfazer, física e sexualmente, a mulher).

O Purgatório contrasta com o Inferno pelo “clima”, pelo horizonte, pelo espírito do lugar. No Inferno há desespero e sofrimento, no Purgatório há a esperança, a expectativa da Salvação, a noção do que aquele tempo de sofrimento tem um propósito e um fim: chegar ao Céu, ao Paraíso. E os que lá estão contam com as orações dos vivos, para atingirem a redenção.

Mas há também alguns enigmas. No Canto XIX do Purgatório, Dante vai encontrar a tentadora Sereia (femmina balba), uma criatura demoníaca, encantadora, insidiosa, quando já encontrara no Inferno, entre os fraudulentos, Ulisses, o autor e artífice do ardil do cavalo de pau recheado de guerreiros com que os gregos conquistaram Troia.

Ulisses fora pintado por Platão e pelos Estóicos como um modelo moral, um exemplo de homem virtuoso, capaz de resistir às tentações sedutoras e maldosas encarnadas por criaturas demoníacas, como Circe e as Sereias. Confesso que aqui partilho o choque que Claudia Roth Pierpont regista em “This side of Paradise”, um artigo publicado no New Yorker de 1 de Dezembro:  como é que Dante arrumou Ulisses no Inferno, no Círculo Oitavo, entre os fraudulentos? É um lugar extremamente desagradável e para  muitos  de nós Ulisses é um herói. O próprio Dante também parece chocado ao ver que Deus Todo-Poderoso condenou Ulisses ao castigo eterno (também para sua surpresa, ou melhor, para seu desgosto, lá estão, no Segundo Círculo, os amantes adúlteros de Rimini, Paolo e Francesca).

A explicação da condenação de Ulisses, encontramo-la na conversa que Ulisses tem com Dante e Virgílio no Canto XXVI do Inferno. Ulisses não reporta as errâncias do seu regresso a Ítaca, antes confessa, que apesar do amor pelo filho, pelo pai e por Penélope, decidiu “satisfazer a sede de saber todos os segredos do mundo, todos os vícios e virtudes dos homens”, partindo, depois de Circe, à aventura por mares nunca dantes navegados, com um barco e uma pequena equipagem, passando as “colunas de Hércules”.

O Voo Louco de Ulisses

Assim, Dante altera a narrativa homérica e entra na polémica clássica de saber se Ulisses foi virtuoso ou fraudulento.

Na Comédia, Ulisses exorta os companheiros “fatti non foste a vivere come bruti, ma per seguir virtute e connoscenza”, o que quer mais ou menos dizer “não fostes feitos para viver como bestas, mas para seguir a virtude e o saber”. Assim, o conhecimento, independentemente dos interditos, parece ser o objectivo final da sua nova viagem, para lá das colunas de Hércules: uma viagem de cinco meses no Hemisfério Austral, em que vê a montanha do Purgatório, quando um grande turbilhão engole barco e equipagem. É com este “folle volo”, com este voo louco, que Ulisses, desrespeitando os limites impostos por Deus, leva à morte os companheiros e se precipita na Geena. Ou seja, escapado, depois de satisfeito, da perfeição dos braços da feiticeira Circe, é recapturado pela tentação de tudo saber, que o leva em voo louco à perdição. No fundo, repete o pecado de Adão. Adão esse que, entretanto, está no Paraíso …

Com Beatriz no Paraíso

Ulisses perde-se, mas Dante salva-se, ou melhor, é salvo. Por quem? Aqui reaparece, ou aparece, Beatriz, a sua eterna paixão, que é quem o vai guiar na terceira instância da sua viagem pelo Além.

O Paraíso dantesco é, evidentemente, um lugar que contrasta com o Inferno. Mas há céus, céus variados, ou muitas moradas,no Paraíso, porque há graus diferentes de beatitude, de santidade. Dante começa pelo céu mais baixo, onde Piccarda Donati (as famílias florentinas estão sempre presentes) lhe explica o espírito do lugar. Depois, num céu mais alto, está Santa Clara de Assis, fundadora da ordem das Clarissas; e também Constança de Altavilla, mulher de Henrique VI e mãe de Frederico de Hohenstaufen, o imperador que fez a cruzada excomungado e negociou a devolução de Jerusalém com al Kamil, sobrinho e sucessor de Saladino. Com isto, Dante, homiziado, mostra não ter medo se se aproximar dos gibelinos, absolvendo a mãe do mais ilustre representante da facção imperial.

Tal como o Inferno, o Paraíso não é igual para todos os que acolhe nas suas nove esferas concêntricas (Dante segue aqui a cosmologia ptolomaica).

Há dúvidas sobre o tempo de redacção da Commedia. Mas foi com certeza escrita no exílio, ou seja num tempo sempre posterior a  1302. Pensa-se que o Inferno seja de 1309 e o Purgatório de 1313 ou 1314; e sabe-se que, em 1316, Dante dedicou a primeira parte de O Paraíso a Cangrande della Scala, o gibelino seu protector em Verona desde 1311-1312.

A viagem ao Além foi relativamente rápida – uma semana entre a noite de 7 para 8 de Abril de 1300 e o dia 14 do mesmo mês.  Dante passou dois dias no Inferno, três no Purgatório e 24 horas no Céu.

A breve passagem pelo Céu, ou melhor, pelos céus, tem como guia a sua grande paixão perdida – Beatriz. Se o Inferno tem nove círculos e o Purgatório sete terraços, o Céu tem nove esferas; e enquanto o Inferno e o Purgatório se elencam por diferentes categorias de pecados, o Paraíso, coerentemente, organiza-se em função das virtudes. Já as esferas são a Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, as Estrelas Fixas e o “Primum Mobile”, ligado directamente a Deus-Pai.

Dante tem, nas várias esferas, encontros e conversas. No Canto IX do Paraíso, um trovador, Folquet de Marselha, fala criticamente da corrupção na Igreja, do amor dos clérigos pelo dinheiro; este trovador fez mea culpa e foi depois bispo de Toulouse. Já no Sol, onde ficam os sábios, Dante encontra teólogos como Alberto Magno, Tomás de Aquino e Santo Isidoro de Sevilha. E até o rei Salomão, que poderia ter ido parar ao Limbo, mas que, no entanto, ali está. E santos medievais como Francisco de Assis e São Boaventura, que lhe conta a história de São Domingos. Logo a seguir, na Quinta Esfera, a de Marte, estão os “guerreiros da fé”, entre eles o próprio trisavô do poeta, Cacciaguida degli Elisei, que esteve na Segunda Cruzada, onde foi armado cavaleiro por Conrado III.

Na conversa com o trineto, Cacciaguida revela-lhe profeticamente o futuro: a perseguição pelos Guelfos Negros na corrupta Florença e o exílio que fará dele um grande poeta e um viajante privilegiado pelas rotas do Além.

Dante e a Igreja

Além de Bonifácio VIII e Nicolau III, Dante põe outros papas no Inferno, e não hesita em condenar os vícios do clero a propósito de bispos e sacerdotes que vai encontrando no Inferno ou nos diálogos que vai mantendo com os mortos, ao longo da Commedia.

No entanto, a Igreja acabou por considerar a sua obra “uma formulação poética da Teologia Moral medieval, conforme definida por teólogos e santos, como Alberto Magno e São Tomás de Aquino”, ou seja, por integrá-lo num humanismo cristão.

Foi Leão XIII, o primeiro papa de uma Igreja privada de qualquer réstia de poder temporal que, confrontado com os excessos e desequilíbrios da Modernidade, do Capitalismo e do Socialismo definiu na Rerum, Novarum uma ética cristã para a “questão social”, foi também o primeiro papa que se referiu a Dante como “il nostro Dante”, celebrando a sua pertença à Igreja.  E no século XX, os seus sucessores, não pararam de referir e louvar o poeta florentino.

Assim o fez Bento XV, nos seiscentos anos da morte de Dante, na encíclica In Praeclara Summorum, toda dedicada ao autor da Commedia. exaltando-o como “guia moral e religioso da Europa”; e voltou a ele Paulo VI, na carta apostólica Altissimi Cantus, nos 700 anos do nascimento de Dante e na véspera do encerramento do Concílio Vaticano II. Mais recentemente, o Papa Francisco tornava a recordar o itinerário dantesco da “selva escura” à luz:

“Relendo a sua vida à luz da fé, Dante descobre também a vocação e a missão que lhes foram confiadas de modo que, paradoxalmente, de homem aparentemente falido e desiludido, pecador e desanimado, transforma-se em profeta da esperança”. E isso porque “é capaz de ler o coração humano em profundidade e em todos, mesmo nas figuras mais abjectas”, descobre “o desejo de alcançar alguma felicidade, uma plenitude de vida”.

Seguir Dante na sua fascinante viagem pelo Além nunca vem a despropósito. Sobretudo neste tempo de Natal, em que Céu e Terra tão concreta e surpreendentemente se misturam.

Um Santo Natal.

https://observador.pt/opiniao/uma-topografia-do-alem-a-commedia-em-tempo-de-natal/

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Jaime Nogueira Pinto - Quatro autores em tempo de Páscoa

 

* Jaime Nogueira Pinto 

- Colunista do Observador


Ainda que não consigamos ouvir a voz subtil de Deus Pai, sabemos que só irmanados no Horto a Cristo e aos que sofrem, fazendo o que depende de nós e dando a Deus o que Dele depende, seremos resgatados

16 abr 2022, 00:202

Para o cristão, que tem o privilégio e a inquietação de acreditar, o tempo da Páscoa, o tempo da paixão, morte e ressurreição de Cristo, é o tempo da intensa consumação de todos os mistérios. Mistérios com dois mil anos e mistérios de sempre.

A ideia de um Deus que se faz Homem e que, como nós e connosco, caminha pela humilhação, pela dor e pela morte, de um Deus que se entrega à Terra para ser semente de vida e redenção e para que, como Ele e com Ele, possamos também ser semente de vida, não encontra senão frívolos paralelos nas incursões terrenas dos deuses pagãos, contadas por Homero, na Ilíada e na Odisseia, por Hesíodo, na Teogonia, ou por Virgílio, na Eneida.

Aí, dir-se-ia, também deuses e deusas coabitam com os mortais e com eles concebem semideuses e heróis: Zeus seduz Alcmena que dá à luz Herácles, ou Hércules, o dos Doze Trabalhos; Afrodite (a Vénus romana) gera, com Anquises, Eneias, príncipe troiano e proto-fundador de Roma; Aquiles é filho de uma ninfa do mar, Tétis, e de Peleu, rei dos Mirmidões. Mas todos esses semideuses e heróis são fruto das imaginárias excursões de um panteão de divindades quase lúdicas e com especialidades mirabolantes pelas terras dos homens e das mulheres. A semelhança com Cristo, com a irrupção de Deus na História, destes arquétipos úteis e a-históricos, destas criativas bengalas para perscrutar o enigma da contraditória natureza humana, destes lugares literários que, da Eneida aos Lusíadas, a literatura europeia também foi consagrando, é um mero exercício de hermenêutica crítica ou de semântica comparada.

Cristo e a narrativa evangélica da Sua Paixão, ou as quatro narrativas evangélicas da Sua Paixão, são outra coisa e de outra natureza: entram a fundo no Mistério, têm uma presença permanente na vida e na morte de cristãos e não-cristãos e um reflexo constante na vida icónica, literária, dramática e poética da Cristandade ao longo dos séculos.

Assim, a nossa história pessoal e colectiva, e particularmente a História da Europa, dificilmente se conta sem a meditação da Paixão de Cristo, e sem a reflexão sobre o desconcerto do Mundo, o sentido do sofrimento e da morte e a esperança numa vida plena que a meditação da Paixão traz – desde os populares mistérios medievais à Pietá de Miguel Ângelo e às muitas versões e visões do planctus Mariae e da agonia do Deus feito Homem.

“Mas porque Deus quisesse, me é oculto, a nossa redenção só deste modo”

Divina Comédia de Dante, como compêndio geral da História divina e humana mediada pelo grande poeta medieval, não podia ficar alheia ao mistério pascal da Redenção e da vitória sobre a morte. Dante concebe um homem criado à imagem de Deus (imago Dei), um homem consciente da sua liberdade de escolher entre o Bem e o Mal; e, uma vez criteriosamente arrumados os “maus” no seu Inferno, é no Paraíso que se aproxima do mistério da Redenção e do mundo dos que escolhem o Bem.

O facto de os desígnios de Deus serem um mistério e continuarem a sê-lo é ponto assente para o poeta, supremo devassador do oculto e sublime perscrutador de mistérios. Talvez por isso, depois de confessar a sua ignorância sobre a razão pela qual Deus, para resgatar os homens, decide sacrificar o Seu próprio filho, Dante entregue a Beatriz a explicação da Redenção – e do caminho de Deus-Filho pela vida e pela morte adentro. A imaginária amada do Poeta explica-a como um acto de amor e compaixão de Deus pelo Homem, a “mais nobre das suas criaturas”. Para isso, recorda a história da Criação e da Queda do Homem, enganado pelo seu Inimigo, e lembra que o ser humano, por si só, não podia já reabilitar-se das suas más escolhas para aceder à “vida em abundância”, à vida plena, à “intera vita”, para a qual Deus o criara. Assim, a reparação do pecado, a Salvação, tinha de vir do próprio Criador, “pelos Seus caminhos”, pela Sua “bontá” (bondade) e “larghezza” (generosidade).

Na visão dantesca do ciclo Paraíso-Queda-Redenção, só com o sacrifício do Seu Filho poderia Deus-Pai salvar o Homem da perdição com que o pecado original o carregara. Criado bom (“buono e a bene”), o Homem perdera-se, ao querer igualar-se a Deus, de forma vã e apressada; mas poderia salvar-se pelo sacrifício de um Deus encarnado, de um Deus feito próximo, feito Homem, capaz de carregar sobre os ombros os pecados da Humanidade, revelando a Sua verdadeira face. Tal como o pecado de Adão caíra sobre todos os seus descendentes, também, em Cristo, o Novo Adão, todos podiam ser salvos, ou devolvidos “a sua intera vita”.

Quanto aos danados que, à guarda de Satanás, habitavam os círculos das trevas que Dante imaginara e descrevera tão pormenorizada e eloquentemente, ali estavam e ali estariam por terem escolhido o mal em liberdade, ou por terem escolhido, em liberdade, a distância em relação ao Criador onde, para todo o sempre, crepitariam.

A Paixão, segundo Shakespeare

Shakespeare também não poderia ter sido indiferente ao mistério da Paixão de Cristo, tão presente nos enganos, desconcertos e calvários causados e suportados pelo Homem; e o seu teatro é o teatro de um autor cristão, instruído na cultura do cristianismo europeu dividido do tempo das guerras religiosas, numa Inglaterra marcada pela guerra das Rosas e pela reforma de Henrique Tudor.

Embora nas relativas boas graças do poder, o Bardo sabia-se sob a sua severa censura, prévia e póstuma, e ttratava de evitar quaisquer referências ou imagens que pudessem insinuar-se como manifestações de papismo – vistas com duplo horror pelas autoridades isabelinas, quer como abjecta emanação da corrupta igreja de Roma, quer como traição patriótica por conluio com os cúmplices do supremo inimigo da Inglaterra – o Áustria de Espanha. Talvez por isso, e pelas linhas tortas com que sempre se “reinventa o humano”, o tema da Paixão de Cristo, ou mais concretamente o tema da Pietá, surja inesperadamente trasvestido em Henrique VI.

Era um tempo de derrota, esse ano de 1453, o final da Guerra dos Cem Anos, com os ingleses vencidos pelos franceses. Sir John Talbot, o “Aquiles inglês”, condestável das tropas de Henrique VI em França, recebia o cadáver do filho, John Lisle, morto na batalha de Châtillon. O bravo guerreiro tomava então o cadáver do filho nos braços e chorava-o, numa reedição paternal da dor de Maria com o corpo de Jesus nos braços. E é abraçado ao filho morto que Talbot expira, em Henrique VI.

Nessa sua “peça histórica”, Shakespeare dava consideráveis voltas à História para servir os objetivos do drama. Não só reproduzia o planctus Mariae no abraço ao filho morto do terrível comandante inglês, temido pelos franceses pela sua bravura e crueldade, como punha John Talbot a enfrentar Joana d’Arc na batalha – para, no acto seguinte, matar por bruxaria a que viria a ser a santa padroeira de França. Os Talbot, pai e filho, tinham de facto morrido na batalha de Châtillon, em 1453, mas Joana d’Arc fora julgada e condenada à morte em 1431, 22 anos antes.

É, no entanto, em King Lear, a tragédia estreada em 1605-1606 (ou The True Chronicle of History of the Life and Death of King Lear and His Three Daughters na versão escrita de 1608) que Shakespeare recria com maior profundidade e subtileza a Paixão de Cristo. King Lear acaba mal, coroando com um trágico equívoco último muitos outros equívocos. Mas a peça, que pela profunda tristeza e desolação do desfecho viu a sua exibição recusada por longos anos, e que conheceu até versões alternativas com um “final feliz”, não deixa de transmitir a redenção dos que escolhem a porta estreita do Bem.

Com Lear, destronado por Regan e Goneril, as filhas más, Shakespeare torna presente, na humilhação de um rei sem reino nem poder, o Cristo humilhado pelo povo, coroado com uma coroa de espinhos e crucificado sob o dístico satírico “Rei dos Judeus”. O “Escárnio de Cristo”, que inspirou uma galeria de grandes artistas, de Fra Angelico a Tiziano e a Van Dick, reencena-se em Shakespeare na figura patética de Lear, o rei sem trono, traído pelos seus e enlouquecido de dor e humilhação. Mas é em Cordélia, a filha boa, que o Bardo reproduz a imagem do Cristo humilde, injustiçado e perseverante. Lear não vê a falsidade e a traição de Regan e Goneril nem o amor e devoção de Cordélia, que evoca o sal, o evangélico sal da Terra, para expressar o seu amor pelo pai. Habituado a um círculo de incondicionais veneradores, o Rei não vê nem ouve o que se passa, tomando as duas filhas intriguistas por boas e por má a filha que se recusa a entrar numa falaciosa competição pela sua aprovação e favor.

Como narrativa de terríveis maquinações e traições, de grandes torturas e sofrimentos, de grande desconcerto do mundo, de caos primitivo e selvagem, King Lear pode também ser o símbolo de um mundo pré-cristão ou de um mundo abandonado por Deus. E a Graça chega a esse mundo através do amor silencioso e incondicional de Cordélia, um amor inalterado perante a ingratidão e a loucura do pai, um amor capaz de ser “sal da terra” e “luz do mundo” numa terra que, mergulhada nas trevas, perdeu o sabor, um amor que, tal como o de Cristo, se mostra capaz de “redimir a natureza” (“Thou hast one daughter / Who redeems nature from the general curse”).

A peça acaba com a morte de Cordélia e a consequente morte de Lear, finalmente consciente de todos os seus loucos enganos. Shakespeare não ressuscita Cordélia, mas deixa-a como alegoria do Bem paciente e obediente que faz o seu caminho indiferente à incompreensão, à ingratidão e à traição. Cordélia atravessa todos os calvários por obediência e entrega ao pai, à verdade e à justiça; e de olhos postos num tempo outro e num bem maior, parece repetir com a vida as palavras que Jesus dirige a Pedro na última ceia: “O que Eu faço, não o entendes agora, mas hás-de compreendê-lo depois.”

O Cristo de Charles Péguy

Dante é um mestre visionário e profético, um cristão incendiário e colérico que não hesita em encerrar no Inferno os seus inimigos vivos, e até alguns Papas; Shakespeare é um reinventor da condição humana, um tratadista dos grandes limites da Terra e do Céu; Peguy, o terceiro autor cristão que me acompanha nesta Páscoa, é menos ilustre, mas não deixa de ser um grande poeta e um grande exemplo de católico empenhado no testemunho da Fé, e no amor a Deus, aos homens e à Pátria.

É um cristão e católico singular, que parece estar nos antípodas dos católicos conservadores da sua geração: um socialista cristão, alinhado, no caso Dreyfus, pelo lado que, para a Direita, era o lado do “traidor”. Isto no tempo de Maurice Barrès, de Édouard Drumont, de Charles Maurras. Péguy funda a Amitié Judéo-Chrétienne e vai morrer, voluntário, nas primeiras semanas da Grande Guerra. É Tenente de reserva e é dos primeiros a morrer em combate, a 5 de Setembro de 1914, em Villeroy.

Órfão de pai, educado na fé e nos “valores da velha França” (da decência, da disciplina e do trabalho bem feito) numa família modesta e na escola primária, Péguy vai ser depois aluno de Romain Rolland e de Henri Bergson. Tem o seu baptismo de fogo político no caso Dreyfus, num tempo de “beatitude revolucionária”. Milita em causas humanitárias, como a defesa dos arménios, funda uma revista e um grupo de reflexão e discute ideias com amigos e inimigos. Mas, em Setembro de 1908, escreve a Joseph Lotte, um seu amigo escritor e católico: “Je n’ai pas tout dit… J’ai retrouvé la foi… Je suis catholique”.

Era o termo de um longo caminho, em que a leitura da Paixão segundo S. Mateus e da Imitação de Cristo tinham sido determinantes.

Péguy é um construtor de catedrais, mas é também um iconoclasta de mitos antigos e modernos. É um católico que critica o clero do seu tempo, acusando-o de desconhecer a condição humana, mas é também um crítico insistente e sem medo da ideia de progresso, “a grande lei das sociedades modernas”, e da própria modernidade, que considera um tempo fútil, um “reino de bárbaros” embrutecidos e despreocupados, que não conhecem o conceito da irreversibilidade e tem por Deus o Dinheiro. A modernidade não é laica, é anticristã; e é governada por um “Partido intelectual” que controla as universidades, as revistas, os jornais, a opinião, e que, através da opinião, condiciona a política e os decisores das políticas.

Foi há 120 anos, mas parece que foi ontem…

Péguy era um socialista cristão, um patriota francês da Terceira República que, pela leitura mística e a peregrinação interior, evoluiu para o nacionalismo e para o catolicismo.

A Paixão de Cristo é para ele, o ponto-chave da grande História de Deus e dos Homens, e a chama da fé nova parece abri-lo a fecundos atrevimentos interpretativos. Cristo é, para ele, a suprema comunhão com a miséria e o desconcerto do mundo; e o cristão está ligado ao corpo de Jesus, de um modo físico, místico, misterioso, que faz com que o sofrimento, a humilhação, a doença e a morte, o projectem para junto Dele na noite do monte das oliveiras.

Embora o tema perpasse em toda a obra poética de Péguy, é no volume Clio 1 – Dialogue de l’histoire et de l’âme païenne, (um texto póstumo publicado pela primeira vez em 1955), que encontra a sua expressão mais acabada. Recém-convertido (o texto original é de 1909), Péguy mergulha aí no “mistério central do cristianismo, na encarnação redentora”; e com o à-vontade que só a Graça da fé profunda explica, avança por cima de quase vinte séculos de teologia e exegese polémica de Doutores da Igreja e filósofos agnósticos para, como Inácio de Loyola, se meter na pele de Cristo nas horas terríveis de Getsemani. Depois, melhor que muitos teólogos, chega à razão da terrível agonia e tristeza do Deus feito Homem nas Suas horas finais, da “Tristis, tristes usque ad mortem” do Evangelho de Mateus. Diz Péguy que Cristo estava assim porque sabia que o seu sofrimento salvaria muitos, mas que não salvaria todos; e que muitas almas se perderiam, apesar daqueles últimos momentos em que, aparentemente, “o Pai o abandonara”.

Quando li Péguy pela primeira vez, há cerca de sessenta anos, foi esta a ideia que mais me tocou e impressionou. Até hoje.

Papini e a última esperança

Escreveu recentemente o Papa Francisco que o profeta Elias foi talvez o primeiro a descobrir que o nosso Deus era sempre “um Deus das surpresas, até mesmo na forma como passava e se fazia sentir” – não no vento impetuoso, não no terramoto, não no fogo, mas na brisa suave –, e que era para essa “voz subtil do silêncio” que devíamos “preparar os nossos ouvidos”.

Mas estaria a ouvir bem Giovanni Papini – um outro teólogo improvisado e também de conversão tardia, como Péguy – quando, contrariando dois mil anos de Teologia, apresentou uma possibilidade final para a História humana e divina capaz de responder à tristeza de morte do Cristo do poeta francês e de pôr fim aos suplícios dos habitantes dos infernos de Dante?

Em 1953, Papini, autor da Storia di Cristo e escritor católico consagrado, propunha, como possibilidade, o perdão ou a amnistia geral de todos os condenados ao Inferno, incluindo do próprio Lúcifer, por um acto de infinita misericórdia de Deus. O livro, Il Diavolo, foi um êxito editorial, com edições sucessivas (doze em dois meses), e levantou grande polémica, com as autoridades eclesiásticas a hesitar entre a surpresa e o choque perante a heresia do escritor católico. Papini, que nascera em Florença em 1881, “autodidata, pobre, malvestido, solitário, esquecido”, e que estava então quase cego e paralisado, aguardou disciplinadamente o veredicto eclesial, argumentando que não queria fazer doutrina ou substituir-se à doutrina da Igreja e aos seus ensinamentos, mas acrescentando que aquilo que “não era lícito ensinar como verdade certa e segura”, podia e devia ser “admitido como esperança humana e cristã”.

Um Inferno vazio e um Céu cheio? Quem sabe, talvez o aviso no início da peregrinação dantesca para que os que ali entravam abandonassem toda a esperança pudesse ser revogado e ficasse a misericórdia última, a misericórdia do “Deus das Surpresas”, movido pela infinita tristeza do seu Filho na noite de Getsemani.

Seja como for, e ainda que, por vezes, não consigamos ouvir a voz subtil de Deus Pai ou a oiçamos mal, sabemos que só irmanados no Horto a Cristo e à humanidade que sofre, só fazendo o que depende de nós e entregando a Deus o que Dele depende, podemos ser resgatados.

https://observador.pt/opiniao/quatro-autores-em-tempo-de-pascoa/

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Hálito de Dante Alighieri


 PoemasLuso-Poemas -> Sombrios :  Hálito de Dante


Terra - granítica, areada, arenosa,
da mais fina à mais rochosa,
chama-me para o teu útero que o sei quente,
e eu, sem retenções, me darei a ti, completa -
em bandeja de prata -, em dádiva e oferta…
para que me sirvas à tua lauta mesa de larvas!

Chama por mim!

Chama, rumoreja o meu nome...
O substantivo da tua amada, da tua Fada,
secreta Rosa…
A que criaste,
a que cuidaste e que não colheste…

Chama,
clama o meu nome, num murmúrio eterno,
que to reconheço ...
Num afago agreste ...
Chama, por este nome que me deste,
“Rosa …”
Que o Sol já me não esquenta ...
O ar afilado e lancinante
me corta a tez espessada
no talhe da pedra-pomes sob o diamante;
Me devora, determinante e voraz, é guilhotina,
sobre a madrugada - gramagem fina de papel.
No corte do cinzel sobre pedra…

Que a lágrima em hecatombe, escorre, lavra,
cava rios e fossos (tão fundos e tão grossos) …

É vala infinda em torno
de uma fortificação rudimentar – o meu olhar –
prestes a desabar, no verde e imaturo Mar.
E que de fogo, se ateia e me incendeia o corpo,
em forma de um vastíssimo Vulcão ...
Que se não rende
Que se não extingue
Que se não aniquila, e que neste quente
hálito Dionisiaco de Dante,
de uma andorinha migrante, se afirma
(e me domina) nesta determinação insana
de me inflamar nos corais do meu olhar.

(E de abrasar os toscos caminhos
por onde sei que irás passar.)

E que alienado, determinado se incendeia,
sem motivo ou razão,
a cada grão, no negro do vazio do teu lugar .


Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=8169#ixzz1sS7OpJ7N
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
  



Dante Alighieri

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi


31 de agosto de 2010

.

Lucas Cranach o Velho

.

LucasCranachder%C3%84ltereDrJohannesCuspinian1502.jpg
Dr. Johannes Cuspinian, em 1502
.

30 de agosto de 2010

.

Linguajar

.

Construo a linguagem apropriada:
ao verbo movimento peças impensadas
comunico ao próximo a desestruturação
da diversidade: respeito as diferenças
avento ao tempo o substantivo
necessário à nominação
do espaço: reajo ao silêncio.
.
Pedro Du Bois
.

29 de agosto de 2010

.

Julius LeBlanc Stewart

.

Julius_LeBlanc_Stewart_-_The_Baptism.jpg
o baptismo, ou uma festa familiar
.

Bordado

(gentileza de Amélia Pais)
.
.
A noção do traço
sugerindo a presença da linha
e o manejo da agulha
sendo cadência
após cadência
no macio do pano branco
pra depois haver o risco duro de premeditadas paisagens
onde matizes de fumaças
dizem de sustos
sortes
da palavra acorrentando-se
do desenho escapulindo entre dedos dormentes
da pá
do pó
do pé violentando caminhos
da propalada paz de papel
dessa vontade de viver
entre-mentes,
humana-mente.
.

Amélia Alves
.

28 de agosto de 2010

.

Constatação feliz

.

Quanto melhor é a nossa vida emocional e maior a realização afectiva, menos precisamos de falar disso.
.

27 de agosto de 2010

.

il sommo poeta 

.

Ó vós que em pequenina barca estais,
e o lenho meu que canta e vai, ansiados
de poder escutá-lo, acompanhais,
voltai aos vossos portos costumados,
não vos meteis no mar em que, presumo,
perdendo-me estaríeis extraviados.
Ninguém singrou esta água que eu assumo;
conduz-me Apolo e Minerva me inspira,
e nove Musas indicam-me o rumo.
.
Dante Alighieri
.

26 de agosto de 2010

.

Sevilha

.

Sevilha.jpg
hoje
.

Debajo del cielo

.

Al principio yo anhelaba ser el príncipe
de la poesía, el rey de las palabras,
un ministro de los poemas con una medalla
sobre mi oscuro pecho, una corona de oro
alumbrando con su dorada luz mi noble cabeza.
Después, bajé mis metas y me propuse ser
un licenciado, un doctor en gramática,
políglota, un James Joyce, usar barba,
un abrigo negro hasta los tobillos,las gafas
circulares,la pipa entre los labios
recitando los versos de Charles Baudelaire.
Recuerdo que tenía la foto de Vallejo
debajo del cristal de mi mesa de noche
y, mirándola, apoyaba mi rostro y mis manos
cruzadas encima de un bastón con el puño
de plata, en forma de león, para creer
un instante que mi nombre era César.
—Incluso estuve preso por parecerme a él.
Me decía a mí mismo frases de Kierkegaard:
“para el hombre que aspire a triunfar en la vida
existen dos caminos: ser César o ser Nada”.
Y yo lo repetía con la convicción de que era
(sólo faltaba tiempo) un dios o hijo de un dios.
Sin embargo,las cosas han cambiado y mi punto
de vista se cayó en un abismo. Ya no aspiro
a ser príncipe, ni ministro, ni rey, ni políglota
un día, mucho menos deseo ser Joyce o Baudelaire
porque ambos están muertos, y un hombre,
si está muerto, vale menos que un perro.
Ahora aspiro a las cosas sencillas de la vida.
(Me lo dijo Ray Carver y nunca lo entendí.)
Miro el agua de un río sin pensar qué es el agua,
me acuesto entre la hierba y disfruto del sol.
Pienso, respiro, siento cómo limpia el oxígeno
mi sangre, mis pulmones, late en mi corazón.
Soy feliz con vivir sencillo, aspiro a eso:
Posado, como un pájaro, sólo quiero una rama
para cantar mis versos, también una ventana
para mirar el mundo, aunque no tenga un piso,
ni un palacio, ni un templo. Un marco,
una ventana para asomar mis ojos, humilde,
con asombro, sabiendo que soy polvo,
y, debajo del cielo, un animal o nada.
.
Dolan Mor
.

25 de agosto de 2010

.

Alexandre Cabanel

.

Albayd%C3%A9%201848AlexandreCabanel.jpg
Albaydé, 1848.
.

Fill my life with song

(gentileza de FL)
.
.
Fly me to the moon
Let me play among the stars
Let me see what spring is like
On Jupiter and Mars
In other words, hold my hand
In other words, darling, kiss me
Fill my life with song
And let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adore
In other words, please be true
In other words, I love you "
.
Johnny Mathis
.
|
.
.

sábado, 19 de setembro de 2009

Vita Nuova - Dante Alighieri

Vita Nuova

(gentileza de Amélia Pais)
Tanto o amor me manteve acorrentado
e acostumado à sua serventia,
que o peso que no peito eu conhecia
hoje em leveza vejo transformado.
Porém amor, de forças renovado,
me toma o espírito e me silencia
e minh'alma em doçura delicia
e sem cores me deixa desmaiado.
Depois ele retoma seu poder
e faz com que os espíritos em bando
saiam todos, chamando
a minha dama por me socorrer.
É o que me ocorre ao vê-la e me domina
tanto, que coisa igual não se imagina
.

Dante Alighieri
.