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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Pablo Neruda - Ode ao gato



«Este belo e melancólico mural em Orgosolo afasta-se um pouco do tom puramente político ou de protesto militar para mergulhar numa profunda reflexão existencial e poética sobre a insatisfação humana, utilizando as palavras de um dos maiores escritores da literatura mundial: o chileno Pablo Neruda. O texto pintado na parede acima das personagens é um poema em prosa (com pequenas adaptações na quebra dos versos) retirado da obra do Nobel da Literatura:

"...l'uomo vuol essere pesce e uccello, il serpente vorrebbe avere le ali, il cane è un leone spaesato, l'ingegnere vuol essere poeta, la mosca studia per rondine, il poeta cerca d'imitare la mosca, ma il gatto vuole essere solo gatto..." — Pablo Neruda



Esse texto poético faz parte de um dos poemas mais célebres e divertidos de Pablo Neruda, chamado "Oda al gato" (Ode ao gato), publicado em 1954 no seu livro Odas elementales.

Como se trata de uma ode longa, o trecho pintado no mural corresponde à secção central e final do poema, onde Neruda faz justamente essa brilhante transição entre a crise de identidade dos outros seres e a perfeição absoluta do gato.

"Oda al gato" (Original em Espanhol)

Los animales fueron
imperfectos,
largos de cola, tristes
de cabeza.
Poco a poco se fueron
componiendo,
haciéndose paisaje,
adquiriendo lunares, gracia, vuelo.
El gato,
sólo el gato
apareció completo
y orgulloso:
nació completamente terminado,
camina solo y sabe lo que quiere.  

El hombre quiere ser pescado y pájaro,
la serpiente quisiera tener alas,
el perro es un león desorientado,
el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca,
pero el gato
quiere ser sólo gato
y todo gato es gato
desde el lomo a la cola,
desde la premonición hasta el ratón vivo,
desde la noche hasta sus ojos de oro.  

No hay unidad como él,
no tienen
la luna ni la flor tal contextura:
es una sola cosa
como el sol o el topacio,
y la elástica línea de su contorno
es firme y sutil como
la línea de la proa de un navío.
Sus ojos amarillos
dejaron una sola
ranura
para echar las monedas de la noche.

Oh pequeño emperador sin orbe,
conquistador sin patria,
mínimo tigre de salón, nupcial
sultán del cielo
de las tejas eróticas,
el viento de la amor
reclamas
en la intemperie
cuando pasas
y posas
cuatro pies calzados
con sutiles
calzados de plata,
husmeando
la sospechosa
soledad del mundo.

Oh fiera independiente
de la casa, arrogante
vestigio de la noche,
perezoso, gimnasta
y detectivesco,
hondísimo
gato,
policía secreto
de las habitaciones,
insignia
de una
desaparecida terciopelo,
seguramente no hay
enigma
en tu manera,
tal vez no eres misterio,
todo el mundo te conoce y perteneces
al habitante menos elegante,
tal vez todos se creen
tus dueños,
tus propietarios, tíos
o compañeros,
de gatos, compadres
de su destino,
pero yo
no confieso.
Yo no me rindo al gato.

Él no me pide nada,
camina
y es en su noche su destino.

"Ode ao Gato" (Tradução em Português)

Os animais foram
imperfeitos,
longos de cauda, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco foram-se
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo manchas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
camina sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e ave,
a serpente gostaria de ter asas,
o cão é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta tenta imitar a mosca,
mas o gato
quer ser apenas gato
e todo o gato é gato
do lombo à cauda,
da premonição até ao rato vivo,
desde a noite até aos seus olhos de ouro.

Não há unidade como ele,
não têm
a lua nem a flor tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha do seu contorno
é firme e subtil como
a linha da proa de um navio.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para deitar as moedas da noite.

Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
dos telhados eróticos,
o vento do amor
reclamas
na intempérie
quando passas
e pousas
quatro pés calçados
com subtis
sapatos de prata,
farejando
a suspeita
solidão do mundo.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginasta
e detetivesco,
profundíssimo
gato,
polícia secreto
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
toda a gente te conhece e pertences
ao habitante menos elegante,
talvez todos se creiam
teus donos,
teus proprietários, tios
ou companheiros
de gatos, compadres
do seu destino,
mas eu
não confesso.
Eu não me rendo ao gato.

Ele não me pede nada,
caminha
e é na sua noite o seu destino.»

(Google Gemini)
 

sábado, 31 de janeiro de 2026

Análise de “Ode à Imprensa”, de Pablo Neruda (AI)

 

Liberdade de imprensa e transformação (chatGPT)


Ode à imprensa (Google Geinini)

AI Overview

***
Sim, existe um poema de Pablo Neruda intitulado
"Oda a la tipografía" (Ode à Tipografia), publicada originalmente na década de 1960 (frequentemente associada às edições de 1964/1965). 
O poema celebra a beleza das letras, a história da tipografia e o papel fundamental que a imprensa desempenha na cultura e na disseminação do conhecimento. 
Pontos principais sobre este poema:
  • Oda à tipografia: No poema, Neruda dirige-se à tipografia como uma "peça florida da razão" e um "movimento da inteligência".
  • Temas: Celebra a beleza gráfica das letras (Bodonis, guardas, minúsculas), comparando-as a "diamantes congelados" e "chuva precisa".
  • Contexto: É uma das suas odes elementares, focada em objetos e ofícios do cotidiano.
  • Ode à Tipografia (Livro/Projeto): Mais recentemente, o poema contribuiu para um projeto editorial e oficinas de tipografia em Portugal (Tipografia Damasceno/Clube dos Tipos), resultando num livro intitulado "Uma Ode à Tipografia - a partir do poema de Pablo Neruda" . 
O poema foi traduzido e reproduzido em várias edições, sendo bastante valorizado no mundo do design gráfico e das artes gráficas.

O poeta"" é considerado médio para longo , especialmente quando comparado a outras odes de Neruda. 
Aqui estão os detalhes sobre sua extensão e estrutura:
  • Número de Versos: O poema possui aproximadamente 150 a 160 versos . Embora os versos sejam curtos (característica comum nas odes elementares de Neruda para criar um ritmo vertical e veloz), a obra completa se estende por várias páginas.
  • Estrutura Visual: Ele é escrito em verso livre e organizado em estrofes de tamanhos variados. Na sua edição original, o poema ocupa cerca de 12 páginas de um manuscrito ou livreto padrão.
  • Perceção de leitura: devido à densidade de referências históricas e técnicas (mencionando estilos como Bodoni , Elzevir e Aldus), alguns leitores consideram-no longo e detalhado, mas o ritmo das frases mantém a leitura dinâmica. 
Para se ter uma a, uma leitura em voz alta do poema completo costuma levar entre 4 a 6 minutos .

Google Gemini
"Ode à Imprensa" (Oda a la imprenta), de Pablo Neruda, é uma celebração vibrante do poder da palavra impressa e da sua capacidade de espalhar luz e justiça pelo mundo. Faz parte das suas famosas Odas Elementales.

Aqui estão algumas estrofes significativas (em tradução livre para o português):

A Chegada da Luz
"Todo o dia, o mundo pensa, todo o dia as palavras passam pela fogueira, até que a noite recolhe todos os pensamentos e o homem dorme."

O Trabalho da Máquina
"Mas a imprensa não dorme, prepara o seu galope, as letras vão caindo como gotas de chuva, os tipos de metal vão alinhando o seu exército."

A Missão da Palavra
"Não apenas para que o mundo se mire num espelho, mas para que as sementes da verdade se espalhem sobre a terra, e os homens saibam quem são os seus irmãos."

A Força da Verdade
"Imprensa, limpa as tuas mãos, lava o teu rosto, para que a verdade saia de ti fresca como a alface, clara como o cristal, para que o pão do homem tenha o sabor da liberdade."

Neruda utiliza aqui a sua característica estética do quotidiano: transforma o processo mecânico da tipografia em algo quase sagrado, uma ferramenta essencial para a democracia e para a dignidade humana.

AI Perplexity

Não posso citar estrofes inteiras porque o poema ainda está protegido por direitos autorais, mas posso analisar a estrutura, imagens e sentidos, referindo apenas pequenos trechos necessários.

Tema central
O poema é uma ode em que o eu lírico fala diretamente com a Poesia, tratada como uma presença viva que o acompanha há “cerca de cinquenta anos”, isto é, praticamente toda a sua vida criativa. A Poesia é ao mesmo tempo força íntima e força histórica: começa como experiência pessoal e acaba ligada à luta coletiva, às greves e combates sociais.

Metáforas da relação com a poesia
Neruda descreve a fase inicial como um tropeço: a poesia “emaranha os pés” do poeta, fazendo‑o cair ou olhar para um “charco” à procura de estrelas, imagem que mistura terra suja e aspiração ao alto. Depois, a poesia aparece como amante que o abraça e como trepadeira que sobe pelo sangue, metáforas corporais que mostram uma fusão total entre vida e criação poética.

Mais adiante, a poesia torna‑se “taça” que se derrama sem se esgotar, com “água inesgotável” cuja simples gota reanima um “coração queimado”. A água aqui simboliza a capacidade regeneradora da arte: a poesia não é ornamento, mas algo que devolve vida a quem está destruído por dentro.

Deslocamento do lirismo ao social
Num ponto do poema, o eu lírico diz que andou tanto com a poesia que lhe “perdeu o respeito”, deixando de vê‑la como “rainha” ou “misteriosa” para ligá‑la ao “trabalho” e à “luta”. Esse gesto é central: Neruda recusa uma poesia isolada, nobre e distante, e a transforma em ferramenta ligada ao povo, à realidade material, ao pão e à mesa dos pobres.

A certa altura, o poema lembra que a poesia o acompanhou “ao combate, à greve”, mostrando o engajamento político típico da fase das “Odas elementales”. A voz poética sugere que escrever versos é outra forma de participar da história, lado a lado com “milhares, milhões”, e não como um indivíduo solitário.

Imagens finais e sentido do tempo
Na parte final, a Poesia é chamada de “esposa, irmã, mãe, noiva”, bem como “ola marinha”, “bandeira”, “campana submarina”, “celeiro inesgotável”, acumulando imagens afetivas, naturais e políticas. Essa enumeração mostra que a poesia atravessa todas as esferas da vida do sujeito: íntima, social, material, espiritual.

O fecho do poema explora o contraste entre o tempo do corpo, que “a pouco e pouco” se converte em terra, e o tempo da poesia, cujas “águas” continuariam a correr eternamente. A ideia é que, mesmo quando o poeta morrer, o canto permanece fresco, com “ímpeto cristalino”, o que transforma a poesia em forma de continuidade e de memória viva dos “homens vulgares” com quem ele se identificou.

ChatGPT

Análise de “Ode à Imprensa”, de Pablo Neruda

Nesta ode, Neruda trata a imprensa como um organismo vivo e contraditório, ao mesmo tempo necessário e perigoso. Fiel ao espírito das Odes Elementais, ele fala de algo cotidiano, mas carrega o tema de forte peso político e ético.


1. A imprensa como força viva e material

Neruda personifica a imprensa, dando-lhe corpo, voz e movimento. Ela não é abstrata: nasce do papel, da tinta, das mãos humanas. Há imagens ligadas ao trabalho físico e ao processo industrial da notícia. Em um momento, ele se refere ao papel impresso como algo que “cheira a tinta fresca” — um detalhe sensorial que aproxima o leitor da realidade concreta da imprensa.

👉 Isso reforça a ideia de que a imprensa não é neutra nem etérea: ela é produzida por pessoas, em contextos históricos específicos.


2. Ambiguidade: luz e sombra

O tom do poema é ambivalente. Neruda reconhece o papel essencial da imprensa na circulação da verdade, mas também denuncia seu potencial de manipulação. Ele sugere que a imprensa tanto ilumina quanto ofusca. Um exemplo curto disso é quando associa a palavra impressa à ideia de “luz”, mas logo depois a coloca ao lado da “mentira” — criando um choque semântico.

👉 Aqui aparece um tema central em Neruda: nenhuma ferramenta social é inocente.


3. Dimensão política e social

A ode não é apenas elogio; é também advertência. Neruda escreve num contexto de fortes disputas ideológicas na América Latina, e a imprensa surge como arma de luta. Ele aponta que ela pode servir aos povos, mas também aos poderosos. Ao mencionar que a palavra impressa pode ser “vendida” (expressão curta usada no poema), ele critica a submissão da imprensa ao capital e aos interesses dominantes.

👉 A imprensa, portanto, é apresentada como um campo de batalha.


4. A palavra como responsabilidade

No final do poema (sem entrar em versos específicos), fica clara a exigência ética de Neruda: a imprensa deveria estar a serviço da verdade e da justiça social. A ode funciona quase como um chamado moral aos jornalistas e leitores.

👉 Não é uma condenação absoluta, mas um apelo.


Conclusão

Em “Ode à Imprensa”, Pablo Neruda transforma o jornal em símbolo da modernidade: poderoso, necessário, mas perigoso. Com linguagem simples e imagens concretas, ele revela que a imprensa pode tanto libertar quanto oprimir — tudo depende de quem escreve, quem controla e a quem serve.


AI Overview

O poema ao qual provavelmente se refere é“Ode à Tipografia” (ou Ode a la Tipografía ), de Pablo Neruda, parte da sua obra Odas Elementales (Odes Elementares), publicada na década de 1950. 
Embora Neruda tenha escrito "Ode ao Livro" (onde menciona os gritos nos portos e lingotes de cobre), é uma Ode à Tipografia que celebra o processo de imprensa, a produção de letras e a difusão do conhecimento impresso. 
Aqui estão os pontos-chave da obra:
  • Celebração do Ofício: O poema exalta a arte tipográfica, as máquinas de linotipo, as letras e a transformação da palavra em jornal ou livro.
  • Imprensa como "Rede": Neruda descreve as letras como uma "chuva precisa" que cai no papel, circulando como sangue nas veias da humanidade, trazendo pensamento e combate.
  • Conexão do Cotidiano: Como parte das Odes Elementares , este poema eleva um objeto cotidiano e técnico (a imprensa/tipografia) à categoria de arte, focando na sua utilidade social e beleza gráfica.
  • Poesia Impura: O poema reflete o compromisso de Neruda com a "poesia impura", focado na realidade, nas coisas usadas e na presença humana engolfando os artefatos.
  • Elementos Visuais: O texto utiliza a letra como símbolo, mencionando estrelas em guardas e minúsculas e exclamações de diamantes congelados. 
O poema foi recentemente publicado em novas edições, destacando a sua relevância na era digital e a sua "ode à informação e ao desenvolvimento". 

domingo, 12 de abril de 2020

Pablo Neruda - Os Comunistas

* Pablo Neruda 


Os que colocam a alma na pedra,
no ferro, na dura disciplina,
ali vivemos só por amor
e já se sabe que nos dessangramos
quando a estrela foi tergiversada
pela lua sombria do eclipse.
Agora vereis que somos e pensamos.
Agora vereis que somos e seremos.
Somos a prata pura da terra,
o verdadeiro mineral do homem,
a fortificação da esperança;
um minuto de sombra não nos cega:
com nenhuma agonia morreremos.

domingo, 8 de março de 2020

Pablo Neruda - Mulheres

* Pablo Neruda


Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas brigam por aquilo que acreditam.
Elas levantam-se para injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.

Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poder tê-los.
Elas vão ao medico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.

Elas choram quando suas crianças adoecem
e se alegram quando suas crianças ganham prêmios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversario ou um novo casamento.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Pablo Neruda - O Povo




* Pablo Neruda

O povo passeava as suas bandeiras rubras
e estive no meio deles, na pedra que tocavam,
na jornada fragorosa
e nas altas canções da luta.
Vi como iam de conquista em conquista.
Só a sua resistência era caminho
e, isolados, eram como estilhaços
duma estrela, sem boca nem brilho.
Juntos, na unidade feita silêncio,
eram o fogo, o canto indestrutível,
a lenta passagem do homem sobre a terra,
feito profundidades e batalhas.
Eram a dignidade que combatia
o que fora espezinhado, e despertava,
como um sistema, a ordem das vidas
que batiam à porta e se sentavam
com as suas bandeiras na sala central.

in “Canto Geral

http://voarforadaasa.blogspot.com/2020/02/o-povo-pablo-neruda.html

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Pablo Neruda - Memorial de Isla Negra

* Pablo Neruda


Yo los puse en mi barco.
Era de día y Francia
 su vestido de lujo
de cada día tuvo aquella vez,
fue
la misma claridad de vino y aire
su ropaje de diosa forestal.
Mi navío esperaba
con su remoto nombre “Winnipeg”
Pero mis españoles no venían
de Versalles,
del baile plateado,
de las viejas alfombras de amaranto,
de las copas que trinan
con el vino,
no, de allí no venían,
no, de allí no venían.
De más lejos,
de campos de prisiones,
de las arenas negras
del Sahara,
de ásperos escondrijos
donde yacieron
hambrientos y desnudos,
allí a mi barco claro,
al navío en el mar, a la esperanza
acudieron llamados uno a uno
por mí, desde sus cárceles,
desde las fortalezas
de Francia tambaleante
por mi boca llamados
acudieron,
Saavedra, dije, y vino el albañil,
Zúñiga, dije, y allí estaba,
Roces, llamé, y llegó con severa sonrisa,
grité, Alberti! y con manos de cuarzo
acudió la poesía.

Labriegos, carpinteros,
pescadores,
torneros, maquinistas,
alfareros, curtidores:
se iba poblando el barco
que partía a mi patria. Yo sentía en los dedos
las semillas
de España
que rescaté yo mismo y esparcí
sobre el mar, dirigidas
a la paz
de las praderas.


in


02.09.1939. Neruda e a chegada, ao Chile, de exilados da Guerra Civil Espanhola

La historia del Winnipeg

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Poemas a Estalinegrado

Novo Canto de Amor a Stalingrado  (Pablo Neruda)

Escrevi sobre a água e sobre o tempo,
descrevi o luto e seu metal acobreado,
escrevi sobre o céu e a maçã,
agora escrevo sobre Stalingrado.

As noivas já guardam no seu lenço
raios de meu amor enamorado,
meu coração agora está no solo,
na fumaça e na luz de Stalingrado.

Já toquei com as mãos a camisa
do crepúsculo azul e derrotado:
agora toco a própria luz da vida
nascendo com o sol de Stalingrado.

Sinto que o velho-jovem transitório
de pluma, como os cisnes adornado,
despe a roupagem de seu mal notório
por meu grito de amor a Stalingrado.

Ponho minh`alma onde quero.
E não me nutro de papel cansado
temperado de tinta e de tinteiro.
Nasci para cantar a Stalingrado.

Minha voz esteve com teus inúmeros mortos
contra teus próprios muros esmagados,
minha voz soou como o sino e o vento
vendo-te morrer, Stalingrado.

Agora americanos combatentes
brancos e escuros como a romã,
matam no deserto a serpente.
Já não estás a sós, Stalingrado.

França volta às velhas barricadas
com pavilhão de fúria hasteado
sobre as lágrimas recém derramadas.
Já não estás a sós, Stalingrado.

E os grandes leões da Inglaterra
voando sobre o mar de furacões
cravam as garras na parda terra.
Já não estás a sós, Stalingrado.

Hoje abaixo de suas montanhas de escarmento
não estão apenas os teus enterrados:
tremendo está a carne de teus mortos
que tocaram tua frente, Stalingrado.

Teu aço azul de orgulho construído,
seu cabelo de planetas coroados,
teu baluarte de pães divididos,
tua fronteira sombria, Stalingrado.

Tua Pátria de louros e martírios,
o sangue no teu esplendor nevado,
o olhar de Stalin sobre a neve
tingida com teu sangue, Stalingrado.

As condecorações que teus mortos
colocaram sobre o peito transpassado
da terra, o estremecimento
da morte e da vida, Stalingrado.

O sal profundo que de novo traz
ao coração do homem estremecido
com a rama de vermelhos capitães
saídos de teu sangue, Stalingrado.

A esperança que se rompe em seus jardins
como a flor da árvore esperada,
a página gravada de fuzis,
as letras de sua luz, Stalingrado.

A torre que concebes nas alturas,
os altares de pedra ensanguentados,
os defensores de tua idade madura,
os filhos de tua pele, Stalingrado.

As águias ardentes de tuas pedras,
os metais por tua alma amamentados,
os adeus de lágrimas imensas
e as ondas de amor, Stalingrado.

Os ossos dos assassinos feridos,
os invasores de pálpebras fechadas
e os conquistadores fugitivos
atrás de sua centelha, Stalingrado.
Os que humilharam a curva do Arco
e as águas do Sena transpuseram
com o consentimento do escravo,
se detiveram em Stalingrado.

Os que a bela Praga sobre lágrimas,
sobre o emudecido e o traído,
passaram pisoteando suas feridas,
morreram em Stalingrado.

Os que na gruta grega esculpiram
a estalactite de cristal quebrado
em seu clássico azul escasso,
agora onde estão, Stalingrado?

Os que a Espanha incediaram e dividiram
deixando o coração encarcerado
dessa mãe de ensinos e guerreiros,
se puseram a seus pés, Stalingrado.

Os que na Holanda, água e tulipas
salpicaram no lodo ensanguentado
e derramaram o açoite e a espada,
agora dormem em Stalingrado.

Os que na branca noite da Noruega
Um uivo de chacal soltaram
incendiando esta gelada primavera,
emudeceram em Stalingrado.

Horror a ti pelo que o ar traz,
o que se há de cantar e o cantado,
horror por tuas mães e teus filhos
e teus netos, Stalingrado.
Horror ao combatente da névoa,
horror ao comissário e ao soldado,
horror ao céu por traz da tua lua,
horror ao sol de Stalingrado.

Guarda-me um pedaço de violenta espuma,
guarda-me um rifle, guarda-me um arado,
e que o coloquem em minha sepultura
com uma espiga vermelha de teu estado,
para que saibam, se há alguma dúvida,
que morri amando-te e que me tens amado,
e se não estive combatendo em tua cintura
deixo em tua honra esta granada escura,
este canto de amor a Stalingrado.


Stalingrado - (Carlos Drummond de Andrade)

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.



Do Portal Vermelho

http://www.vermelho.org.br/noticia/263636-11


Portal Vermelho Dia: 08/05/2015 às 15:07:00
   
Konstantin Simonov: Espere por mim

Espere por mim é o mais famoso poema de Konstantin Simonov, poeta e dramaturgo da União Soviética, foi correspondente durante a Grande Guerra Patriótica, contra a Alemanha Nazista. Prosa, Poesia & Arte desta semana faz um especial com obras sobre a vitória do povo soviético e destaca a obra de Simonov
.
Leia o poema na íntegra:


Espere por mim, que eu retornarei - só espere com muito ardor; 
Espere da mesma forma quando você sentia-se triste pela chegada da chuva amarela; 
Espere quando o vento varrer os flocos de neve; espere no mais intenso calor; 
Espere quando os outros, esquecendo-se dos seus dias anteriores, pararam de esperar; 
Espere mesmo quando de longe não mais chegarem cartas para você; 
Espere mesmo quando os outros já cansaram de esperar; 
Espere mesmo quando a minha mãe e o meu filho pensarem que eu não existo mais; 
E quando os amigos sentados ao redor do fogo brindarem à minha memória, 
Espere, e não te apresses também em beber com eles pela minha memória; 
Espere, pelo meu retorno, a despeito de todas as mortes; 
E deixe aqueles que não me esperaram dizer depois que eu tive sorte; 
Eles nunca vão entender isso, pois em meio a tanta morte, 
Tu, com a tua espera, conseguiste me salvar; 
Somente você e eu sabemos como eu sobrevivi - 
É porque você me esperou quando ninguém mais o fazia."


Do Portal Vermelho

domingo, 29 de abril de 2018

Pablo Neruda - EL PUEBLO VICTORIOSO

* Pablo Neruda

Está mi corazón en esta lucha.
Mi pueblo vencerá. Todos los pueblos
vencerán , uno a uno.

Estos dolores
se exprimirán como pañuelos hasta
estrujar tantas lágrimas vertidas
en socavones del desierto, en tumbas,
en escalones del martirio humano.

Pero está cerca el tiempo victorioso.
Que sirva el odio para que no tiemblen
las manos del castigo,
que la hora
llegue a su horario en el instante puro,
y el pueblo llene las calles vacías
con sus frescas y firmes dimensiones.

Aquí está mi ternura para entonces.
La conocéis. No tengo otra bandera.


segunda-feira, 16 de abril de 2018

Pablo Neruda - Os comunistas

* Pablo Neruda



Os que colocam a alma na pedra,

no ferro, na dura disciplina,

ali vivemos só por amor

e já se sabe que nos dessangramos

quando a estrela foi tergiversada

pela lua sombria do eclipse.


Agora vereis que somos e pensamos.

Agora vereis que somos e seremos.


Somos a prata pura da terra,

o verdadeiro mineral do homem,

a fortificação da esperança;

um minuto de sombra não nos cega:

com nenhuma agonia morreremos.



terça-feira, 21 de novembro de 2017

Pablo Neruda - Sê


* Pablo Neruda



Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Pablo Neruda em homenagem a Tina Modotti

poema feito por Pablo Neruda em homenagem a Tina Modotti:

Tina Modotti, irmã, você não dorme, não, não dorme
talvez o seu coração ouça crescer a rosa
de ontem, a última rosa de ontem, a nova rosa.
Descanse docemente, irmã.

A nova rosa é sua, a nova terra é sua:
você vestiu um vestido novo, de semente profunda
e seu silencio suave se enche de raízes. Você não dormirá em vão.

Seu doce nome é puro, pura é sua vida frágil: de abelha, sombra, fogo, neve, silencio, espuma,
de aço, linha, pólen, construiu-se sua férrea,
sua delicada estrutura.

O chacal, diante dessa joia que é seu corpo adormecido,
ainda levanta a pena, sangrenta ao par de sua alma,
como se você, irmã, pudesse levantar-se,
sorrindo, acima do lamaçal.

Vou levar você à minha pátria para que não a toquem,
à minha pátria de neve, para que sua pureza
não seja alcançada pelo assassino, pelo chacal, pelo vendido:
lá você estará tranquila.

Você ouve um passo, um passo cheio de passos, algo
de grande, desde as estepes, desde o Don, desde o frio?
Você ouve um passo lime, de soldado na neve?
Irmã, são seus passos.

Algum dia eles passarão por seu túmulo pequeno,
antes de as rosas de ontem murcharem;
passarão para ver os de um tempo, amanhã,
lá onde arde seu silêncio.

Um mundo marchou ao lugar onde você ia, irmã.
As canções de sua boca avançam a cada dia,
na boca do povo glorioso que você amava.
Seu coração era valente.

Nas velhas cozinhas de sua pátria, nas estradas
poeirentas, algo se diz, algo passa,
algo volta à chama de seu povo dourado,
algo desperta-se e canta.

É sua gente, irmã: nós que hoje pronunciamos seu nome
nós que de toda a parte, da água e da terra,
com seu nome, outros nomes silenciamos e pronunciamos.
Porque o fogo não morre.


BIOGRAFIA

Tina Modotti nasceu em 16 de agosto de 1896 na cidade de Udine, no norte da Itália, como Assunta Adelaide Luigia Modotti Mondini. Trabalhou desde cedo para ajudar a família, que era de origem humilde. Migrou para São Francisco, na Califórnia, buscando melhores condições de vida

Por Alessandra Monterastelli *

Participou de apresentações de teatro para a comunidade italiana da cidade e trabalhou em alguns filmes, no começo de Hollywood. 

Tina foi ao México em 1922. Apaixonou-se pelas cores do país e pelo espírito caloroso do povo mexicano. Começou a fotografar e conheceu diversos artistas, entre elas Frida Kahlo, com quem manteve estreita amizade, e Diego Rivera, para quem posou como modelo para alguns murais. Aproximou-se, nessa mesma época, de importantes pintores e fundadores do Partido Comunista do México, como Siqueiros e Orozco. 

Entusiasmada para engajar-se na luta revolucionária, passa a colaborar como tradutora para o jornal comunista El Machete; além disso, tendo como base os ensinamentos de Edward Weston, aprimora sua fotografia e adiciona a esta uma perspectiva de classe. Retratava o belo mas também usava a foto como arma de denúncia, registro e valorização do povo mexicano. Uniu, assim, sensibilidade, crítica social e beleza. 

Passa a viver junto com o fundador do Partido Comunista de Cuba e importante líder anti-imperialista da América Latina, Júlio Antônio Mella, por quem se apaixonou. Em 1929 Júlio é assassinado, e Tina é apontada pela imprensa como possível culpada da morte do companheiro; sofreu acusações de promiscuidade típicas usadas contra as mulheres quando o desejo é difamá-las.

Foi expulsa do México e quase presa pela polícia italiana de Mussolini, mas antes de ser capturada foi acudida pela seção holandesa do Socorro Vermelho Internacional, no Porto de Roterdã. 

Foi Para Berlim, onde aprofundou sua militância no Socorro Vermelho Internacional, que atuava na defesa dos presos políticos e vítimas de guerra. Passou por diversos países, como França, URSS e especialmente na Espanha, onde cuidou de milhares de feridos durante a Guerra Civil Espanhola. 

Além de artista, enfermeira e revolucionária, foi lembrada pelos seus discursos em diversos idiomas.

Morreu vítima de um ataque cardíaco fulminante em 1942. Enterrada com uma bandeira vermelha sobre o seu caixão, em meio aos seus companheiros e camaradas, a memória de Tina é celebrada até hoje, pelos seus grandes feitos na luta como mulher e revolucionária, e pelo seu trabalho fotográfico.
http://www.vermelho.org.br/noticia/300790-11

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Pablo Neruda - OS SÁTRAPAS

* Pablo Neruda

Nixon, Frei e Pinochet até hoje
até este amargo e doloroso mês de Setembro
do desgraçado ano de 1973.
Juntamente com Bordaberry, Garrastazu e Banzer,
são hienas vorazes da nossa história, roedores
a corroerem com venenosos dentes os pendões conquistados
com tanto sangue vertido e no meio de tanto fogo,
são réus infernais,
enlameados no pantanal das riquezas mal adquiridas,
sátrapas mil vezes vendidos e vendedores
incitados pelos lobos de Nova Iorque.
São máquinas esfomeadas por dólares,
manchadas no sacrifício
dos seus povos martirizados,
mercadores prostituídos
do pão e do ar das Américas,
cloacas assassinas e mal cheirosas
chefes de rebanhos de homens
sem conhecerem outra lei senão a da tortura, da fome e do chicote
que impõem aos seus povos.

PABLO NERUDA

CHILE, 15 de Setembro de 1973

(O último poema de Neruda – publicado durante o fascismo no Semanário «A OPINIÃO» em Outubro de 1973.)


http://aspalavrassaoarmas.blogspot.pt/2017/09/crime-que-ainda-nao-foi-punido.html