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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Arquimedes da Silva Santos - Que mágoa tenho! Que mágoa tenho!

*  Arquimedes da Silva Santos

Que mágoa tenho! Que mágoa tenho!
Em minha pátria estranho.

(E a medo e em segredo
Ver o voo de aves
Remar a outro lar)

Em minha pátria estranho
Que mágoa tenho? Que mágoa tenho?

In «Cantos cativos – Poemas coligidos: 1938-58», de Arquimedes da Silva Santos, Colecção Campo da Poesia (n.º 51), Campo das Letras, Porto, Maio de 2003 (1.ª edição).

3 poemas de Arquimedes da Silva Santos

* Arquimedes da Silva Santos

Fragmentos de "Rapsódia da Guerra"

1

Em todos os portos do mundo
há sempre um velho marinheiro olhando olhando
íris esbranquiçada do sal do mar.
Em todos os portos há sempre um velho marinheiro olhando
e perscrutando o que as ondas segredam.
Que sobre as onsas do largo mar não há mais Paz
porque as tinge o sangue de corpos estilhaçados
corpos por minas despedaçados
retesados e hirtos e inchados
boiando sobre as ondas num sonho de Paz...

E velhos marinheiros ouvem águas murmurar
a elegia dos gemidos de jovens marinheiros...


****

Luso leixa mais de ouvir
Profecias de bandarras.
Em areais dos quibir
Fados de morte ou fugir
Soluçam sempre guitarras.
Dom sebastião primeiro
Não esperes pobre e nu.
Neste país marinheiro
Povo sai do nevoeiro
O desejado é só tu.



****

O guardador de pombas
Livra-as pela tardinha

E voam e revoam
Circulos espirais

Ruflam céleres
E tornam e retornam

Graves ao pôr do sol
Retombam nos pombais

Por fios de assobios
Ó guardador de pombas


Arquimedes da Silva Santos, Cantos Cativos, Porto: Campo das Letras, 2003, p.17, 146, 161

Arquimedes da Silva Santos - Poema do Acordo Ortográfico

* Arquimedes da Silva Santos


Pois o que havia de acontecer à língua
assim, sem mais nem menos, logo agora…
Qual será o factor, perdão, fator que o explica?
coisa tão inusitada, a mudança. Ou não?
Mas enquanto os Velhos do Restelo vociferam
e os defensores vivem a primavera da vitória,
as palavras chegam-nos despidas do velho,
límpidas e exatas no corpo que as diz.
Nada me pesa na ação, na atividade, no atual.
Adoto facilmente o novo, não sou cético – sou arquiteto
das origens renovadas pelo uso e desuso.
Faço coleção de pequenos meses, dias e estações
e de obras, ruas, sabedorias e pessoas superiores
que me surgem como querem que elas surjam.
Não hei-de, perdão, não hei de queixar-me
daquele sinal que separa os elementos que se querem casar,
porque vou fazer um inter-rail, pois sou pró-europeu
e sou super-resistente (até porque uso anti-histamínicos)
e gosto de ver amores-perfeitos pelas ruas em perspetiva,
e porque há tantos outros que se casam
num fim de semana ao pôr do sol:
autorretrato, coautor, cosseno, subregião
e até a minissaia fica mais longa, mas mais perto…
A todos aqueles que me lêem, perdão, leem,
saibam que encontrámos muitos casos giros
porque para o pelo para sair pelo pau onde pelo pêssegos
ou porque o egípcio vive no Egito e não no Egipto
e não é porque há reivindicações por lá.
E porque tudo isto vai já longo – verdadeiros heróis
que me creem de bem com esta paranoia
vamos sair para todas as rosas dos ventos,
olhar o maio deste acordo outonal –
– a dúvida é ficção desmontada dia a dia
e o sol ainda nos chama para o cor de laranja
lá fora.