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domingo, 14 de setembro de 2025

José Goulão - GENOCÍDIO NA TERRA SANTA


 
* José Goulão

A editora Página a Página colocou à venda o meu mais recente livro, "Genocídio na Terra Santa", um testemunho pessoal, no terreno e assente em profunda investigação, de mais de 40 anos de reportagens no Médio Oriente.

Este é o livro de uma vida de jornalista e de cidadão, grande parte dela dedicada ao acompanhamento daquilo a que chamam "o conflito israelo-palestiniano" e mais não é do que o extermínio do povo palestiniano para que se cumpra a doutrina exotérica, fundamentalista e terrorista do sionismo. O livro é uma longa viagem por guerras, levantamentos, negociações (quase sempre falsas), massacres, colonização terrorista e pelo roteiro de um "muro de separação" que materializa o carácter racista e segregacionista do regime sionista de Israel.

Ao longo de 400 e algumas páginas percebe-se que os terríveis acontecimentos de hoje eram inevitáveis para que se cumpra o objectivo de extermínio e limpeza étnica almejado pelo sionismo, estratégia adoptada pelo Ocidente ao admitir que o regime de Israel é o representante da "nossa civilização" na região "bárbara" do Médio Oriente. O sionismo é parte da "ordem internacional baseada em regras" ocidental, que repudia o Direito Internacional e torna os governos da NATO e da União Europeia, incluindo todos os executivos portugueses depois da institucionalização da "democracia liberal" desde o golpe de 25 de Novembro de 1975, cúmplices das práticas e objectivos de Israel. Nas condições actuais, e permitindo a Israel fazer tudo o que quer, na mais completa impunidade, falar na instauração de "dois Estados" é uma hipocrisia cruel.

Através do livro deixo claro que o regime de Israel representa uma minoria dos crentes judeus do mundo, porque a grande maioria, por certo, não acompanha as atrocidades do sionismo e do regime político que o aplica. E fica também demonstrado que não há qualquer antissemitismo nas críticas a Israel e ao sionismo, uma vez que a maioria dos habitantes de Israel e dos crentes judeus em todo o mudo não têm qualquer vínculo étnico à Palestina. Essa ligação é apenas religiosa, tal como acontece com os cristãos e os muçulmanos. Falar em "povo judeu" é equivalente a falar em "povo cristão" ou "povo muçulmano" Na verdade, os chefes do regime de Israel não têm origem semita e estão em plena acção de extermínio de um povo semita, os palestinianos. O regime de Israel e a corrente oficial do sionismo são antissemitas.

No livro creio ficar plenamente demonstrado que o objectivo final sionista não é a coexistência com os palestinianos mas sim a substituição do povo da Palestina por vagas de imigrantes oriundas de muitas regiões sob a invocação de que a terra lhes foi "prometida por Deus há 5000 anos. E o mundo continua a aceitar que esta ficção primária e colonial seja uma "lei". Não é por acaso que existe a "indestrutível aliança" entre o sionismo e o imperialismo norte-americano. Israel replica, afinal, a própria origem dos Estados Unidos, assente no extermínio da população autóctone e respectiva substituição por imigrantes.

"Genocídio na Terra Santa está disponível em

https://www.paginaapagina.pt/catalogo.html?store-page=Genoc%25C3%25ADdio-na-Terra-Santa-Testemunho-de-mais-de-40-anos-de-reportagens-no-M%25C3%25A9dio-Oriente-p781290581& 

e muito em breve nas plataformas livreiras digitais e nas livrarias físicas.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

José Goulão - Aquilo era o retrato do inferno

(José Goulão, AbrilAbril, 11/07/2024)

Estivemos perante a inquietante prestação dos dois putativos chefes do império norte-americano, ou seja, do globalismo, do «mundo civilizado», os patrões dos nossos políticos «vocacionados» para o poder, os donos das nossas vidas.

As palavras que encimam este texto são do já saudoso Fausto Bordalo Dias no épico monólogo de Fernão Mendes Pinto em «o barco vai de saída»; tiveram evocação recente não apenas pela partida triste de tão emblemático e inconfundível cantor e autor mas também pelo dramático, igualmente arrepiante e nada épico debate entre os dois candidatos à presidência dos Estados Unidos da América, Joseph Biden, pelo Partido Democrático, e Donald Trump, pelo Partido Republicano; isto é, segundo a praga dos comentadores que infesta os nossos dias, entre «a esquerda» e «a direita».

Aquilo era o retrato do inferno, não só porque entre os debatentes venha o diabo e escolha, mas também porque estivemos perante a inquietante prestação dos dois putativos chefes do império norte-americano, ou seja, do globalismo, do «mundo civilizado», os patrões dos nossos políticos «vocacionados» para o poder, os donos das nossas vidas.

Achei prudente aguardar algum tempo antes de abordar o tema, não pela complexidade e a profundidade do conteúdo ideológico, intelectual, político e programático dos dois ogres; esperei até ter uma ideia feita sobre as abordagens dominantes assumidas pela comunidade dos comentadores, analistas, especialistas, politólogos e cartomantes que transtornam os cérebros das populações submetidas ao «nosso modo de vida», pelo menos dos cidadãos que ainda têm pachorra ou estômago para se deixarem torturar por eles.

E estiveram uns para os outros, candidatos e analistas, domésticos ou da estranja «civilizada». A indigência pega-se, pelo menos foi o que demonstrou o tenebroso efeito em cadeia. Não apenas porque a corporação do «comentariado» – parece que é assim que se autodenominam – conseguiu encontrar matéria relevante no vácuo das ideias expressadas pelos contendores, espremeu-se até para encontrar um vencedor e um vencido, teorizou sobre as capacidades cognitivas de cada um, como se a demência política pudesse ser aferida por uma qualquer escala científica. O drama que tornou assustadoramente exponenciais as consequências da contenda entre dois indivíduos sem carácter, esclerosados, irresponsáveis, ignorantes, avatares de seres humanos degenerados, foi a maneira como este universo da opinião única ignorou ou omitiu deliberadamente o que esteve e está verdadeiramente e quase exclusivamente em causa nos episódios que envolvem os candidatos e as próprias eleições presidenciais nos Estados Unidos da América.

Eles são os nossos chefes

Aquilo, o debate, era sem qualquer dúvida o retrato do Inferno. O Inferno em que vivemos sem que muitos, talvez a maioria, se dêem conta do risco de podermos transformar-nos em poeiras radioactivas de um momento para o outro; o Inferno da vida que os poderes representados por aqueles dois psicopatas nos impõem e garantem continuar se as relações de forças internacionais e, sobretudo, a impaciência activa dos povos do mundo não fizer desmoronar o império. Existem muitos indícios de que ele já mal se aguenta de pé, mas não tenciona suicidar-se. Ainda possui muitos recursos, explora sem reservas o ódio pelos seres humanos, põe e dispõe das nossas vidas através dos métodos mais violentos e também mais insidiosos, sem que se vislumbrem quaisquer limites para a sua sanha capazes de o travar antes de chegar ao extremo de eliminar a vida no planeta. 

Ainda há quem entenda estas considerações como coisa de lunáticos, mas não percamos a noção de que o simples facto de observarmos a colocação de marionetas transtornadas à cabeça das coisas político-militares dominantes no mundo revela o grau supremo de liberdade usufruído pelos monstros que, movendo-se silenciosamente em mundos subterrâneos, conduzem a economia e as finanças globais. Esse poder real, absoluto e incontestado serve-se da política e do militarismo como braços visíveis, como centros de imposição comportamental, de manipulação e engenharia social para transformar metodicamente os seres humanos em meros instrumentos ao serviço de interesses que não são os seus, tornando-se até inimigos involuntários de si próprios. 

Joseph Biden e Donald Trump são os nossos chefes visíveis. Para todos os efeitos, pensando apenas em termos da ponta do iceberg dos poderes mundiais, são eles que mandam na NATO, na ONU, na União Europeia, em cada um dos nossos países que em tempos foram soberanos; que mexem os cordelinhos do terrorismo transnacional «moderado», como a al-Qaida, o Isis e tantos outros heterónimos, que fazem a guerra e decidem sobre a paz, que definem o que é a democracia e como deve ser praticada, que funcionam como o alfa e o ómega do grande aparelho transnacional de controlo mental, que impõem o mercado como a ditadura das nossas existências, que espiam e se apropriam da nossa privacidade com métodos e meios cada vez mais desumanos e sofisticados; que agem como arbitrários «legisladores» e gestores da «ordem internacional baseada em regras», sistema comportamental compulsório que subverte e impede o regular funcionamento do direito internacional. São eles, em suma, o paradigma actual da nossa democracia liberal, o «farol» da liberdade, dos «valores ocidentais», do respeito pelos «direitos humanos», da «responsabilidade de proteger», através da guerra, em cada recanto do mundo. A imagem que esses trastes alienados transmitem aos olhos da população mundial espelha fielmente o estado em que se encontram a política ocidental e a «nossa» democracia liberal – um retrato do Inferno.

Veja as diferenças

Há quem pretenda estabelecer distinções entre Joseph Biden e Donald Trump, como fariam em relação a qualquer outra dupla em competição, suponhamos Hillary Clinton e a vice-presidente de turno Kamala Harris. É uma atitude que não passa de um esforço irresponsável para dar credibilidade a um sistema caduco, subvertido desde as proclamações iniciais, já lá vão quase 250 anos, malévolo, desumano em nome da humanidade, agressor em nome da paz e da democracia, expansionista e salteador dos bens e das riquezas alheias, cobrindo e fundindo agora, sob as suas asas, o velho e o novo colonialismo como práticas inerentes ao sistema imperial.

Diferentes e iguais, Biden e Trump representam, apesar da pungente exibição de um grau irreversível de decadência humana, duas faces da mesma moeda, um autêntico partido único imperial gerindo simultaneamente os seus tentáculos que se movem através do Ocidente colectivo como instrumentos indispensáveis da democracia liberal, a autêntica, exclusiva e à qual temos de obedecer em rebanho e sem balir. 

Nos Estados Unidos, os aparelhos encarregados de fazer política designam-se Partido Democrático e Partido Republicano; na Europa e no resto do Ocidente podem chamar-se, entre outras coisas, «centro político», «bloco central», «convergência» entre socialistas, conservadores e liberais, sistema que prevalece na composição e funcionamento do aparelho autoritário baptizado como União Europeia.

Mecanismos de poder todos diferentes e todos iguais, a exemplo do que sucede na cúpula do poder imperial – quando é necessário que a política exerça o papel que lhe está reservado para fazer cumprir as ordens do neoliberalismo e do seu deus inquestionável, o mercado.

Analistas de «esquerda», muito úteis para compor o ramalhete «pluralista» do comentariado doméstico, chegam a qualificar Biden como um candidato «sério» perante um «mitómano» e outras coisas do mesmo jaez que Donald Trump efectivamente é, além de mentiroso contumaz, corrupto, ladrão de petróleo e outras riquezas alheias. Actividades que, mantendo a memória em funcionamento, também não são estranhas ao presidente e incumbente democrata.

Pela «seriedade» de Joseph Biden falam a sua carreira política medíocre, mas, principalmente, corrupta, manipuladora, belicista, cleptómana e sangrenta ao longo de mais de 50 anos. E sempre afecta ao poder, fosse democrata ou republicano, como no caso do apoio activo às invasões do Iraque cometidas por Bush pai e filho.

Biden foi fervoroso adepto dos golpes terroristas na América Latina, África e Oriente, distinguiu-se nas frentes de apoio ao sanguinário desmantelamento da Jugoslávia, à colonização neoliberal e saqueadora da Rússia, às invasões do Iraque, do Afeganistão e da Somália. Meteu e mete directamente as mãos nas permanentes carnificinas sionistas contra o povo palestiniano – dizendo-se «sionista cristão» – e nas invasões da Síria, através de «procuradores» terroristas, e da Líbia, patrocinando a destruição e matança gerais, a começar pelo bárbaro assassínio de Muammar Gaddafi. «Chegámos, vimos e ele morreu», proclamou, num arroubo imperial, a então secretária de Estado Hillary Clinton, da administração Obama, na qual Biden foi vice-presidente. Cargo onde desempenhou funções primordiais no golpe nazi da Praça Maidan, na capital da Ucrânia, abrindo as portas ao massacre de aproximadamente 14 mil pessoas no Donbass, entre 2014 e 2022, e à perda de pelo menos 500 mil vidas no confronto militar directo entre a Ucrânia e a Rússia que se lhe seguiu. Um currículo invejável para um político «sério».

A elite de «referência» do garboso exército do comentariado acha que no confronto entre os Partidos Democrático e Republicano tem o dever de assumir uma polida e até snob inclinaçãozinha pela ala democrata, de comportamento muito mais «europeu», eivada de boas maneiras, capaz de fazer das guerras acontecimentos humanitários e até ecológicos, – como se diz a propósito das manobras militares da NATO. Exprime até sonoras condescendências e bem calibradas manifestações de afecto pelas minorias LGBT, negras, de salvadores do planeta e tantas outras causas ditas «fracturantes» como as questões do aborto e dos direitos da mulher. Ao contrário do brutamontes Trump, que solta pela boca fora o que lhe passa pela cabeça, carecendo da moderação, do cinismo e do oportunismo de discurso que Biden foi praticando ao longo de meio século, movendo-se pelos corredores e gabinetes de Washington.

Não esqueçamos, além disso, que o Partido Democrático tutela até a Internacional Socialista, um ponto a seu favor para a penetração mais profunda da Europa, com o mérito acrescido de ter contribuído, como nenhuma instituição, para a evolução do anacrónico «socialismo democrático» – uma aberração em tempos de extinção das ideologias – em direcção ao «socialismo» com as cores neoliberais, que devem ser obrigatoriamente ostentadas por todos os partidos «com vocação de poder».

Joseph Biden, um demente político ao nível do seu rival Trump mas com um património de poder que deixa o adversário nas divisões distritais, encaixa às mil maravilhas na encenação cultivada pelo Partido Democrático. Fala bem (às vezes titubeia um pouco, é certo, e quando mente é em defesa da democracia e dos direitos humanos), veste melhor, exibe um esgar de sorriso bastante diplomático, caminha como se estivesse numa passerelle (os esporádicos tropeções devem-se a sujidade nos Ray-Ban de sol, imagem de marca dos expoentes securitários), cuida do corte de cabelo e mantém o branco natural; usa boné apenas quando lhe é emprestado ou oferecido por um craque da primeira liga de beisebol; até a sua evidente demência cognitiva não passa de um sintoma de jet leg e de cansaço inerente à complexa e aturada actividade no desempenho do cargo.

Donald Trump traduz melhor que ninguém a actualidade do Partido Republicano. Fala como um trauliteiro, mente por vício e não é para defender a democracia e os direitos humanos, veste como um bimbo, ri-se de maneira alarve e boçal, caminha como um arruaceiro e provavelmente até escarra no chão, tem o cabelo oxigenado e um penteado que não lembra a ninguém, engana a Melânia, usa óculos escuros comprados nos escaparates à porta dos armazéns Valmart numa vilória perdida do Kentucky, prefere bonés nacionalistas e bacocos copiados dos gangs do Metro de Nova York; e a sua demência cognitiva é de nascença, nada tem a ver com a provecta idade.

Biden e Trump são como a água e o azeite também quando chega o momento de produzir os cartazes e os videoclipes de campanha, quando são chamados à televisão para debater ideias que não têm, preocupações que não sentem, para usar e abusar dos truques ensinados pelos assessores de imagem – e para reduzirem o confronto a ataques e insultos pessoais, ainda que com ademanes díspares e opostos de elegância. 

Porém, são gémeos na política, igualmente eficazes quando se trata de servir como agentes administrativos e «democráticos» do neoliberalismo; isto é, cumprem a tarefa para a qual são indigitados pelo omnipresente e submerso «Estado profundo» e posteriormente «escolhidos pelo povo» através de mecanismos eleitorais distorcidos, antecedidos de peditórios milionários junto da gente que conta, concebidos em delicadas degustações e capitosas soirées dançantes; e recorrendo também a feiras de comércio político montadas em cenários de Hollywood, seguindo guiões da série mais rasca onde se estipulam discursos ricos em piadas idiotas recebidas com coros de gargalhadas a pedido, abrilhantadas por claques de cheerladies equipadas à Barbie.

É assim a política que orienta a prática da democracia liberal, a «nossa democracia», uma sucessão de rituais cumpridos enquanto os verdadeiros donos disto tudo, de nós todos, senhores dos impérios económicos e financeiros planetários decidem quanto há para decidir nos cenáculos do mercado, deus da modernidade política, militar, social e cultural. De vez em quando juntam-se nos conclaves conspirativos e decisórios de Bilderberg, da Trilateral, do Fórum Económico Mundial e outros, para os quais arrolam alguns plebeus prometedores para fazer deles os magarefes que mantêm a política e os universos do comentariado nos eixos.

E a guerra, as guerras que estamos vivendo e sofrendo, com as catástrofes humanitárias e as incertezas inerentes, mais não são do que os veículos a que recorre o império em desespero, tentando evitar que a evidente e irreversível decadência se torne real mais dia menos dia, dando eventualmente lugar a uma ordem internacional assente no direito internacional existente e na cooperação entre países soberanos e iguais. Caso isto não aconteça, a loucura dos políticos «com vocação de poder» instalados no areópago dos areópagos ocidentais, mergulhados no seu autismo demente ao mesmo tempo que são manipulados pelos insaciáveis senhores do dinheiro, deixar-nos-á sem apelo à mercê desses degenerados. Num cenário assim consumado os insaciáveis monstros do mercado, que não admitem limites ao respeito pelas suas exigências e são imunes a qualquer vínculo emotivo com os seres humanos, usarão e abusarão do poder absoluto facultado pelo fascismo neoliberal e, se acharem necessário, não hesitarão em condenar-nos ao terror supremo capaz de limpar o planeta do excedente de gentalha que os incomoda.

O debate patético, incongruente, surreal na verdadeira acepção do conceito entre os dois homúnculos que lutam pela gestão formal e a rogo de um império agónico revelou que a «nossa civilização», o orgulhoso e arrogante «mundo ocidental» atingiu o grau zero e mais rasteiro da política. Os políticos a quem o mercado entrega o poder por via «eleitoral» e «liberal» não passam hoje de burocratas serviçais que, a bem dizer, já quase nem tentam convencer-nos de que representam os nossos interesses e a nossa vontade manifestada em papelinhos inúteis depositados num caixotinho sem fundo. Eles são, afinal, juntamente com os acólitos da propaganda e os salteadores do jornalismo, da academia e da cultura, os autênticos idiotas úteis de um sistema infernal e incontrolável de poder do qual só nos apercebemos (e já não é pouco) por via dos afloramentos que infernizam a vida de cada um.

Aquele debate entre a fina-flor demente dos idiotas deste «Ocidente» – e que terá pelo menos uma sequela, segundo se diz – foi um retrato do inferno.

Desejamos, e para isso temos uma tarefa tão urgente como gigantesca nas nossas mãos, que tal retrato não se transforme num facto da vida – ou talvez aqui deva escrever-se morte – real.

sábado, 14 de novembro de 2020

José Goulão - VIRAM POR AÍ A DEMOCRACIA?

* José Goulão

Que há de comum entre a farsa globalizada das eleições norte-americanas e a banalização da imposição de situações que reduzem a pouco mais que resquícios os direitos cívicos dos cidadãos a pretexto, por exemplo, da saúde pública? Na verdade, tudo. São manifestações comuns de uma maneira cada vez mais excepcional de olhar a sociedade em todo o mundo gerido pela ortodoxia neoliberal, ditada pela crise em que continua a afundar-se a própria ortodoxia neoliberal.

Com algum pudor, que é importante assinalar, ao mesmo tempo fala-se cada vez menos de democracia. Está implícito que tudo continua a processar-se em nome da democracia, assim prosseguindo a transição para a institucionalização do autoritarismo globalizado, mecanismo político com o qual o neoliberalismo se identifica na perfeição. Ou seja, instaura-se gradualmente o regime autoritário, de preferência através do abastardamento das instituições democráticas até que, na prática, se esfumem os restos de democracia – entendida como manifestação da vontade popular. Para isso é preciso ensinar os povos a comportar-se como um imenso rebanho obediente e, como todos sabemos, já estivemos bem mais longe disso.

O “exemplo da América”

A farsa das eleições presidenciais nos Estados Unidos tornou-se uma prática rotineira, mas fulcral neste processo. Trata-se de impôr o tipo de estrutura gestora da sociedade que melhor serve, em determinado momento, os interesses do establishment norte-americano e do chamado “Estado profundo”, entidade totalitária e bipartidária que exerce efectivamente o poder enquanto as administrações passam. No fundo, a entidade não institucionalizada que mexe os cordelinhos da globalização neoliberal como estratégia imperial.

Salta à vista que, ao fim destes quatro anos, Donald Trump teria de ser despedido pelo “Estado profundo”. Porque tendo cumprido a vertente autoritária com zelo, burilando o ambiente ideológico fascista – bem ao gosto neoliberal – fracassou estrondosamente na frente da globalização. Principalmente deixou a União Europeia e a NATO a queixarem-se de orfandade e nem o gigantesco investimento militar no cerco à Rússia, a diabolização da China, a asfixia do Irão e os golpes na América Latina lhe valeram. A actuação casuística e a navegação à vista praticadas por Trump, conjugadas com o estilo trauliteiro, nada polido e errante, terão “desprestigiado a América”, no parecer de doutos analistas internos e externos – que tanto o admiraram, por exemplo, a propósito do assassínio do general iraniano Qasem Soleimani e das manobras contra a Venezuela.

Joe Biden é de outra estirpe. Emana do aparelho do Partido Democrata, que na fase actual do neoliberalismo parece corresponder aos interesses do “Estado profundo”: assegura também uma ordem autoritária, é o garante do globalismo e da gestão imperial coordenada com os aliados através da NATO e da União Europeia, não hesita em lançar guerras onde for necessário e de promover golpes e revoluções coloridas onde for preciso, mantém a Rússia e a China sob pressão como os inimigos a abater. E fá-lo de uma maneira bem-falante, polida, restaurando “o exemplo da América”.

Por isso, os ministros dos negócios estrangeiros da União Europeia e a própria Comissão Europeia foram lépidos a saudar a “eleição” de Biden, mesmo aqueles que nunca negaram um sim a Trump quando se tratou de hospedar manobras conspirativas e criminosas patrocinadas pelo presidente norte-americano ou de ajudar nos golpes de Juan Guaidó, na redução do povo venezuelano à fome e no roubo de ouro à Venezuela.

Obviamente todos saberão que não é de Biden que se trata, porque não passará de uma figura mais ou menos virtual de uma gestão também autoritária, belicista e trauliteira – mas com chancela “politicamente correcta” – assegurada nos bastidores pelo triunvirato formado por Hillary Clinton, Barack Obama e a vice-presidente eleita Kamala Harris – eventualmente promovida a presidente ainda antes do fim do mandato. Estão de regresso os autores de obras de grande relevância para o bem da humanidade como as guerras de destruição da Líbia e da Síria, o golpe fascista na Ucrânia e ainda os golpes no Brasil, Paraguai e Honduras. E, com eles, as patranhas ambientais do capitalismo “verde” e outras causas cavalgadas pela corte de magnatas globalistas que apostam preferencialmente no Partido Democrata, como Bill Gates, Elon Musk, Soros e outros nomes igualmente sonantes.

Quando o “Estado profundo” define os gestores de turno “na América”, o sistema funciona de modo a minimizar o erro dos eleitores. Daí o caos eleitoral, as mudanças súbitas das tendências de voto em Estados-chave – a fazer lembrar os apagões nas Honduras que permitiram ao candidato “correcto” passar de terceiro para primeiro – as dezenas de milhares de votos postais dados como perdidos, as pen de última hora contendo carradas de votos num só candidato, enfim coisas que a acontecer na Venezuela ou na Bolívia, por exemplo, mereceriam golpes de Estado e mesmo invasões militares para restaurar “a ordem democrática”.

A comunicação social corporativa não valoriza nada disto, faz até de conta que não existe e, na realidade, esses fenómenos nada têm de novo. Assim foram eleitos George W. Bush e o próprio Donald Trump – que provou agora da receita venenosa que o levou ao trono.

Assim é no país que tem a patente da democracia.

A banalização da excepção

Um dia, se restarem condições de liberdade que o permitam, será feito o balanço da maneira como o neoliberalismo tirou proveito da COVID-19 para acelerar o processo da transição política e social para o autoritarismo, designadamente através da banalização de casos extremos de cerceamento dos direitos cívicos.

A começar por uma investigação séria da origem do próprio vírus SARS-CoV-2, com a qual ninguém pretende realmente preocupar-se uma vez postulado que surgiu num mercado de peixe em Wuhan, China – embora abundem provas de que já circulava muito antes, por exemplo na Europa e na América.

O espectáculo deplorável a que se assiste, país atrás de país, excepto no caso pontual da Suécia – que ainda resiste a violentas pressões internacionais para mudar de estratégia – é o da proliferação de medidas de excepção, acompanhadas pelo culto do pânico social, alegadamente para combater a proliferação do vírus.

Deixemos de lado as legítimas discussões sobre a real taxa de mortalidade do vírus, sobre a suposta necessidade de impôr estratégias autoritárias com base em dados estatísticos proporcionados por testes sem o adequado enquadramento clínico. As opiniões sobre essas matérias que contrariam a doutrina imposta foram encafuadas na caixa censória das teorias da conspiração e de lá não podem sair sem riscos para os próprios defensores. Em matéria de liberdade de expressão o autoritarismo viral precede em muito o dos estados de excepção.

Desde a imposição do uso de máscaras – arrasando quaisquer opiniões que a contestem fundamentadamente – à dança das horas do recolher obrigatório, aos estados de emergência hard ou soft, à arbitrariedade dos limites de ajuntamentos que tanto podem ser de cinco aqui, de seis além, ou mesmo de oito se isto ou aquilo, às medidas que pretensamente evitam o descalabro da economia mas penalizam sobretudo os trabalhadores e os pequenos e médios empresários, à institucionalização abusiva do teletrabalho, o desfile da insanidade é interminável.

Numerosos governos parecem ter perdido de vez a noção do que é o interesse dos cidadãos, sacrificados a sucessivas medidas restritivas supostamente para os proteger do vírus. Não hesitando até, como acontece em Portugal mas está longe de ser caso único, em disseminar a sensação perversa de que o recurso a uma aplicação electrónica invasiva da privacidade pode pôr as pessoas a salvo de contaminação, o que é uma manobra profundamente falsa e traiçoeira, uma exploração inconcebível da boa-fé e da vulnerabilidade dos cidadãos. 

Através da União Europeia abundam as medidas restritivas, avulsas ou coordenadas, acompanhadas por chicanas verbalistas em que tenta demonstrar-se que as eliminações das liberdades se fazem para o bem dos cidadãos, aterrados e ameaçados. Trata-se, no mínimo, de um processo cruel, desumano, desenvolvido enquanto se proíbem, na prática, as acções susceptíveis de pôr transparência e alguma serenidade no tratamento de um assunto abordado com opacidade desde o início.

No final do próximo mês de Janeiro, o Fórum Económico Mundial, essa essência do neoliberalismo agora exultante com a “eleição” do mais globalista dos candidatos presidenciais norte-americanos, irá lançar em Davos o “Great Reset”, o grande reinício ou grande restauração, tendo como pano de fundo a situação gerada pela pandemia, parecendo até que esta não poderia ter sido mais oportuna. Num vídeo posto em circulação a propósito dessa iniciativa promove-se o mote “Seja dono de nada e seja feliz”.

Trata-se da nova ideia de organização da sociedade global num futuro já próximo: automatizada, robotizada, gerida pela inteligência artificial de maneira autoritária e sem qualquer privacidade da pessoa humana. O mundo em que os “donos de nada” serão quase todo os habitantes do planeta, formando um rebanho “feliz”, enquanto a ínfima migalha da elite será dona de tudo.

Significa esta antevisão que em cima do vírus há quem faça ambiciosos planos – e quem os faz são os expoentes do neoliberalismo. Isto diz muito sobre a fase que estamos a viver, uma fase seguramente de transição e de experiências.

Uma fase de onde foi arredado o respeito pela democracia.

José Goulão, exclusivo O Lado Oculto/ AbrilAbril

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

José Goulão - UM TESTE À UNIÃO EUROPEIA

quarta-feira, 11 de novembro de 2015


UM TESTE À UNIÃO EUROPEIA




Depois da Grécia, e em condições com alguns pontos de contacto e abundantes dissemelhanças, Portugal está a deixar a União Europeia perante um novo teste ao conceito de democracia que pretende tornar único no universo dos 28 Estados membros. Na Grécia, por razões que agora não vêm ao caso uma vez que, como costuma dizer-se, “quem mora no convento é que sabe o que lá vai dentro”, os tecnocratas à solta em Bruxelas e que ninguém elegeu conseguiram fazer vingar as suas vozes de pequenos gauleiters do grande reich do mercantilismo.
Como será em Portugal no caso de os acordos estabelecidos à esquerda se transformarem num governo legítimo acima de qualquer suspeita, imaculado nos termos da mais elementar democracia?
Uma primeira dedução creio não levantar dúvidas. As afirmações de soberania popular contra a crueldade autoritária de Bruxelas começaram pelos dois países mais fustigados e destratados pela arbitrariedade austeritária. O que não acontece por acaso: os povos, por mais conformados que pareçam, não aceitam eternamente as cangas com que lhes carregam os corpos e, mais tarde ou mais cedo, lá chega o dia das surpresas.
Surpresas para alguns, sem dúvida: os partidos portugueses até agora governantes – e os seus gémeos em escala europeia - ainda não recuperaram do choque com o que lhes está a acontecer através da derrocada do “arco da governação”, erguido sobre caboucos de segregação e apartheid político que supostamente lhes outorgava o direito natural, quiçá divino, de governarem ad aeternum como se as eleições não passassem de pró-formas.
Agora, a maioria parlamentar portuguesa, unida em torno de objectivos muito claros e democráticos, propõe-se governar pondo as pessoas em primeiro lugar, privilegiando os direitos destas e não as supostas legitimidades dessa entidade arrogante mas volátil, cruel mas cada vez mais difusa conhecida como “mercado”. Nada, afinal, de muito surpreendente: a maioria parlamentar portuguesa limita-se a seguir os caminhos livres da democracia e a fazer funcionar a soberania do voto popular genuinamente expresso, tudo aquilo que Bruxelas, respectivos mentores e súbditos pregam mas não praticam.
De modo que a declaração de soberania que devolve a Portugal um orgulho e uma esperança que se julgavam perdidos vem questionar, no fundo, a essência actual da própria União Europeia, sobretudo a partir do momento em que instaurou a austeridade como política única a cargo de um sistema de falsificação da democracia através de um partido único com dois polos, o tal “arco da governação”.
O sr. Rajoy, um neofranquista que trata os povos do Estado espanhol como lacaios que o servem e à casa real, diz que “não gosta” do que acontece em Portugal. Em boa verdade, ninguém lhe pediu opinião, mas já que a dá serve para entender o espírito que percorre o espaço da União, provavelmente desde a Península até aos revanchistas fascistoides do Báltico, pequeninos mas com os dentes bem aguçados pelos donos em Berlim. Ao ponto de Bruxelas parecer mais incomodada com o governo que ainda não existe em Portugal e as suas previsíveis declarações de soberania perante os mercados do que com as preocupações da senhora Le Pen, aterrorizada com “a epidemia bacteriana da imigração”, isto é, as supostas doenças contagiosas trazidas pelos refugiados e que mancham a pureza sanitária dos franceses, um mal que ela promete erradicar se lhe entregarem os bastões governamentais.
De qualquer modo deixemos o teste no ar. O que mais tira o sono aos tecnocratas austeritários de Bruxelas? O eventual governo de esquerda em Portugal construído segundo as normas básicas da democracia e da soberania nacional? Ou declarações racistas e incendiárias, potencialmente pré governamentais, proferidas por uma dirigente política de um dos dois mais poderosos países da União que não esconde o seu programa fascista mas respeita sabujamente “o mercado”?
Creio que sabemos a resposta. Por isso a União Europeia deu no que deu.
http://mundocaohoje.blogspot.pt/2015/11/um-teste-uniao-europeia.html